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quarta-feira, 8 de outubro de 2025

BOICOTE CONTRA O BRASIL


BOICOTE CONTRA O BRASIL

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Sim, é exatamente isso! A ala da Direita e seus matizes, na Câmara dos Deputados, acaba de exigir a retirada da pauta da Medida Provisória (MP) 1303/25 com alternativas ao aumento do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras). A equipe econômica do governo estima que tal atitude provocará um rombo de R$ 42,3 bilhões nas contas públicas até 2026. E não sendo posta em votação, a matéria perde a validade nesta quarta-feira.

Estamos, portanto, diante do boicote da Direita brasileira e seus matizes contra o país. Tal estratégia empregada por essa gente afeta diretamente a grande massa da população, aqueles tais 99% que carregam o piano diariamente. Porque para compensar a perda de arrecadação, com essa MP, o governo irá precisar criar formas de aumentar a receita, o que inclui, por exemplo, contingenciar recursos, bloqueando temporariamente certas despesas orçamentárias, para ajustar os gastos à realidade da arrecadação.

A grande verdade é que a ala da Direita e seus matizes não consegue engolir os pedidos exaustivos de cassação de mandato de dois deputados que foragiram da Justiça brasileira para o exterior, o arquivamento da PEC da Blindagem, o sonoro NÃO À ANISTIA, a aprovação unânime da isenção do imposto de renda, o clamor pelo fim da jornada de trabalho 6x1, ... e quaisquer outras propostas que atendam verdadeiramente aos interesses da grande massa populacional brasileira.

Nesses pouco mais de 500 anos de história, eles se acostumaram muito mal, diante da ideia de que o protagonismo do poder lhes era um direito adquirido, enquanto participes da elite brasileira.  Do tipo “Venha a nós, vosso reino, nada”. Mas, se esqueceram de que o tempo é fluido, dinâmico, indomável. Ele muda. Ele transforma.

Então, agora, a Direita brasileira e seus matizes; sobretudo, os mais radicais e extremistas, querem se vingar daquilo que consideram uma afronta ao seu poder histórico. Acontece que o seu boicote, na verdade, não atinge o governo ou país. Ele atinge os interesses de cerca de 213,4 milhões de cidadãos brasileiros. E esse boicote tem método.

A tentativa de golpe de Estado, que reverbera sobre o país desde 8 de janeiro de 2023, é a chama que nutre o estabelecimento de diversos cenários de crise econômica, idealizados por elementos da Direita brasileira e seus matizes, com o apoio de seus eleitores, simpatizantes e financiadores. Afinal de contas, uma crise econômica é uma situação de desarticulação social e de confiança, que abala o sentimento da opinião pública.

Nesse contexto, o país estaria diante de um quadro de instabilidade que se expressa por várias situações, tais como períodos de retração econômica, ou seja, queda do Produto Interno Bruto (PIB), que seria capaz de desencadear desemprego, aumento da desigualdade, de menor consumo e produção, e diversos outros impactos na vida das pessoas. De modo que uma interpretação equivocada e manipulada tendenciosamente sobre o desempenho do governo em curso, o tornaria susceptível a eventuais insatisfações populares.

Por isso, a Direita brasileira e seus matizes; sobretudo, os mais radicais e extremistas, presente na Câmara dos Deputados, em Brasília, resolveu BOICOTAR o povo brasileiro. De que forma? Abstendo-se do seu compromisso parlamentar determinado pela Constituição Federal de 1988, o que significa que estão cometendo abuso de poder. Estão prevalecendo de cargos para fazer valer vontades particulares em detrimento dos interesses da população e do país. Trata-se, então, de uma ação coletiva e organizada, buscando causar uma perda financeira, reputacional ou de outra natureza ao alvo.

Entretanto, um "boicote parlamentar" pode ser considerado inconstitucional, dependendo do caso e da intenção; sobretudo, quando viola os princípios éticos e de decoro exigidos de um parlamentar, conforme previsto na Constituição Federal. E o que está acontecendo na Câmara dos Deputados pode sim, ser compreendido como uma flagrante tentativa de desrespeitar princípios constitucionais, tais como a eficiência na administração pública e a impessoalidade, na qual a atuação do agente público não pode ter um viés pessoal.

Portanto, parece claro quem são os inimigos do Brasil e de que lado da história político-partidária eles estão. Daí a necessidade de compreender que uma representatividade político-partidária, quando se abstém de assegurar a diversidade de vozes e demandas de diferentes parcelas da população, acaba por desenvolver um coletivo de "cidadãos de papel", no qual a cidadania formal é reconhecida, mas sem acesso efetivo aos seus direitos e sem a capacidade de fazer sua voz ser ouvida. DIGA NÃO AO BOICOTE, DA DIREITA BRASILEIRA E SEUS MATIZES, CONTRA O BRASIL!


sexta-feira, 18 de outubro de 2024

Quando o progressismo precisa se fazer entender ...


Quando o progressismo precisa se fazer entender ...

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

A recente eleição municipal, no Brasil, tem fomentado diversas discussões sobre o desempenho da ala progressista no país, considerando um êxito aquém das expectativas. Bem, é preciso considerar, de antemão, tanto as razões da historicidade colonial brasileira, quanto à alienação ideológica, caracterizada por um forte sentimento anticomunista, estabelecida pelos EUA, por aqui, para tecer qualquer análise a respeito.

Desde que mundo é mundo, ou seja, a partir da consolidação das estruturas sociais no planeta, que a relação entre dominadores e dominados se distribui pela população a partir de uma franca expressão de desigualdade, sob diferentes formas e conteúdos. E isso acontece porque aqueles que mandam, não têm quaisquer pretensões de dividir ou compartilhar seus poderes, regalias e/ou privilégios.

Assim, ainda que a camada social de dominados seja muito maior do que de dominadores, quaisquer tentativas de ascensão, por parte de seus membros, é brutalmente reprimida. Seja pela violência física, ou pela desqualificação identitária, ou pela supressão de direitos básicos. Algo facilmente perceptível pela resistente presença histórica da escravização ou práticas análogas a ela, no mundo.

Como a voz da discursividade dominadora sempre soou mais alto na sociedade, em razão da sua apropriação dos poderes, isso levou a um processo de inibição subserviente das vozes dominadas. A política do medo, da repressão, da violência, gera um estado de banalização e trivialização do silêncio. As minorias sociais se constrangem, se intimidam, diante do temor a que são constantemente submetidas.

Os seus esforços, as suas habilidades e competências, que traduzem diariamente o desenvolvimento e o progresso, não são exaltados, respeitados e recompensados, a contento. Como uma forma de demonstrar o espaço social que lhes é cabível, ou seja, não adianta reivindicar, questionar, porque não há pretensão de mudanças por parte dos dominadores. Então, quando alguém insurge diante dessa realidade ele é estereotipado pelo extremismo, pelo radicalismo, pela insubordinação. Torna-se persona non grata.

Portanto, uma ameaça ao equilíbrio das conjunturas sociais que, apesar de severamente desiguais, aos olhos de muitos parece ser a única via de sobrevivência. Foi nesse viés, que o anticomunismo foi implantado no mundo. Imagina, aqueles que já dispõem de tão pouco, ter que dividir seus bens materiais com os outros? De modo que a constante reafirmação desse discurso de medo reverbera em pleno século XXI, como uma verdade inconteste.

Assim, ficaram estereotipados todos os cidadãos que venham a defender ideias de caráter progressista, ou seja, que defendam a igualdade de direitos, às minorias, uma justa distribuição da renda, melhores condições de trabalho, ... Como se parâmetros de justiça social fossem uma expressão de extremismo ou de radicalismo. Uma ameaça a perturbação da lei e da ordem social, segundo a cartilha dos dominadores. Ninguém para e observa que tais ideias emergiram, no mundo, justamente, durante a Revolução Industrial, na segunda metade do século XVIII, em razão das péssimas condições experenciadas pelos trabalhadores.

A impressão que se tem, observando o século XXI, é que o nível de alienação social foi tão profundamente perverso e cruel, com a grande massa da população, que estamos diante da materialização da Parábola do Elefantinho Acorrentado 1.  O poder da discursividade dominadora conseguiu modular o pensamento dos dominados, a tal ponto de impedi-los de exercer sua liberdade, sua autonomia, seu protagonismo. E desconstruir essa pseudoverdade é demasiadamente desafiador.

A opressão histórica chegou a um nível que se for para insurgir contra os dominadores, que seja para defender a sua própria ascensão. A ideia de defender a igualdade de direitos, às minorias, uma justa distribuição da renda etc.etc.etc., parece não fazer justiça às pretensões contemporâneas dos dominados. Eles querem algo que vire o jogo, que os coloque diante das mesmas regalias, privilégios e, quiçá, poderes, dos dominadores.

Afinal de contas, a realidade social está, cada vez mais, marcada pela influência das tecnologias, de modo que são elas que ditam as aspirações, os desejos, o comportamento social da população. O que significa trazer à tona uma reafirmação de um padrão individualista, narcisista e, profundamente, egoísta, entre a maioria significativa dos indivíduos. Então, qualquer diálogo que as frentes progressistas queiram estabelecer com as camadas dominadas precisa levar tudo isso em consideração.

Os velhos discursos não cabem mais. A compreensão do que foi feito pelos dominadores já é facilmente traduzível pela percepção dos dominados, ou seja, de que “O velho limite sagrado entre o horário de trabalho e o tempo pessoal desapareceu. Estamos permanentemente disponíveis, sempre no posto de trabalho” (Zygmunt Bauman – Modernidade Líquida, 2001). Acontece que essa situação não é mais atrativa, sob nenhum aspecto. Os dominados querem uma realidade, no mínimo, próxima, daquela desfrutada pelos dominadores.

Portanto, segundo Zygmunt Bauman, “Nenhuma sociedade que esquece a arte de questionar pode esperar encontrar respostas para os problemas que a afligem”.  Nesse sentido, o ponto de partida para a transformação do ideário progressista é não negar a realidade social contemporânea. Basta, de fomentar o pensamento dos heróis e dos vilões! Dos bons e dos maus. Do nós e eles. Das dicotomias inúteis. Afinal, “A incapacidade de escolher entre atração e repulsão, entre esperanças e temores, redunda na incapacidade de agir” (Zygmunt Bauman), o que desfavorece consideravelmente às suas pretensões.   

quarta-feira, 3 de abril de 2024

Nada é de repente


Nada é de repente

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Olhando para as imagens dos danos causados pelo terremoto de magnitude 7.4, em Taiwan, ontem 1, não se pode negar a fúria da natureza, em seus episódios cada vez mais intensos e aterrorizantes. Mas, há um aspecto que sempre me captura a atenção nesses casos, constatar a presença de grandes edifícios e arranha-céus retorcidos, como se fossem feitos de papel.

A explicação natural para o meu desconforto é, um tanto quanto, óbvia. São cada vez mais presentes, na contemporaneidade, a existência dessas edificações. O processo de verticalização urbana é só mais um dos efeitos produzidos pela revolução industrial.

Pois é, em nome do progresso, de uma melhor ocupação dos espaços geográficos, da especulação imobiliária para agregar ainda mais valor às edificações, o processo surgiu como um grande avanço para a urbanização.

Acontece que, longe de resguardar o direito e o acesso à moradia digna pela população, como um todo, a verticalização sempre atendeu às parcelas mais bem remuneradas da sociedade. Haja vista os anúncios dos lançamentos imobiliários verticais, como deixam visíveis as marcas do status socioeconômico e tudo que se pode usufruir de benefícios, além do espaço residencial, através daquela aquisição.  

Assim, enquanto grandes edifícios e arranha-céus se erguem nos centros urbanos, luzindo o esplendor envidraçado e metalizado de suas torres, “para zerar o déficit habitacional do Brasil em 10 anos vai exigir 1,98 trilhão de reais, segundo dados de um estudo da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (Cbic) divulgado nesta quarta-feira” 2.

E não nos esqueçamos de que “dados do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania revelam que, em 2022, 236,4 mil pessoas viviam em situação de rua no país – um em cada mil brasileiros” 3.

Bem, mas este é um viés de reflexão que poderia se alongar por muitas páginas e não foi, neste momento, o que me fez escrever. Daí vou retomar as considerações a partir do processo de verticalização urbana, tendo em vista a dinâmica de recrudescimento dos eventos climáticos e ambientais extremos.

Afinal, desenha-se no horizonte uma situação de ameaça iminente nesse sentido. As ocorrências estão cada vez mais assustadoras e desafiando as normas técnicas de engenharia, já existentes.

Basta uma simples observação das tragédias recentes, ocorridas no Brasil e no mundo, para entender que apesar de todos os avanços científicos e tecnológicos, no campo da engenharia civil, eles têm se mostrado insuficientes e ineficientes para a nova realidade ambiental contemporânea.

A destruição tem sido muito rápida e acachapante. Num piscar de olhos, bairros inteiros são engolidos pela cólera da natureza. Estruturas são levadas pelos ventos. Seres humanos perdem tudo, incluindo a própria vida.

No entanto, não vemos as autoridades, os especialistas, ninguém se movendo no sentido de promover um realinhamento das práxis de engenharia e construção civil dentro desse novo panorama.

Ora, é fundamental trazer à tona essas discussões. Informar, orientar, a população a respeito das inovações, das mudanças, que possam trazer-lhe uma pouco mais de tranquilidade. Mas, particularmente, limitar os excessos e vaidades egóicas na hora de propor a construção de novos grandes edifícios e arranha-céus.

Aliás, em termos desse tipo de edificação, o que se vê é uma explosão imobiliária; sobretudo, em regiões litorâneas.  São muitas as manchetes 4 dando conta desse movimento, no país.

No entanto, a visão limitada e imediatista contemplada pela monetização e mercantilização no setor, não muda o curso da realidade, não protege as pessoas, não evita as calamidades.

Negar as ciências ambientais é inútil, diante de dados estarrecedores que provam uma franca mudança nos regimes pluviométricos, nos movimentos meteorológicos, no volume das águas oceânicas, na instabilidade dos terrenos, enfim.

De modo que as novas edificações vêm desafiando os fatos e colocando em risco a população, nos locais onde são erguidas. Inclusive, no que diz respeito à lei n.º 10.257, de 10 de julho, de 2001, conhecida como Estatuto da Cidade, que não só regulamenta os artigos 182 e 183 da Constituição Federal de 1988, como estabelece as diretrizes gerais da política urbana e dá outras providências.

Bem como, a lei n.º 6.766, de 19 de dezembro de 1979, que dispõe sobre o Parcelamento do Solo Urbano e dá outras providências e, a lei n.º 12.651, de 25 de maio de 2012, o Código Florestal, que estabelece normas para proteção da vegetação nativa em áreas de preservação permanente, reserva legal, uso restrito, exploração florestal e demais assuntos relacionados.

Infelizmente, as legislações acabam deslocadas para último plano de prioridades, em nome da proliferação desmedida de grandes edifícios e arranha-céus e do enriquecimento de gigantescas incorporadoras imobiliárias.

O que significa que a vida é, mais uma vez, valorada com baixo preço no mercado. A importância é dada ao status, ao poder econômico, impressos na materialidade desses imóveis. Grandes, suntuosos, imponentes, belíssimos. Totalmente despreocupados em afrontar os limites da natureza, como se ela, por um segundo sequer, pudesse ser constrangida ou contida pelo poder capital.

O que prova como o ser humano anda desatento ao fato de que “uma pessoa inteligente resolve um problema, um sábio o previne” (Albert Einstein). O exercício do negacionismo contemporâneo, sob suas mais diferentes formas e conteúdos, é só uma forma de deixar a digital dos indivíduos na cena da sua própria morte. Negar é uma escolha; mas, como tal, tem suas inevitáveis consequências.

Portanto, lembre-se de que “a maior parte das pessoas morre apenas no último momento; outras começam a morrer e a ocupar-se da morte vinte anos antes e às vezes até mais. São os infelizes da terra” (Louis-Ferdinand Céline, Viagem ao Fim da Noite – 1932).    



quinta-feira, 4 de maio de 2023

Não adianta fechar os olhos...


Não adianta fechar os olhos...

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Com toda a sabedoria e perspicácia, que sempre lhe foram pertinentes, José Saramago dizia que “A única maneira de liquidar o dragão é cortar-lhe a cabeça, aparar-lhe as unhas não serve de nada”. Perfeito! No entanto, esse é um convite ousado para um mundo acostumado a postergar atitudes importantes, a não enfrentar os desafios de peito aberto, não ir ao cerne das questões para solucioná-las. Daqui e dali só se avistam placebos, remendos, medidas de pouco ou quase nenhuma efetividade, porque não visam resolver, de fato, nada. Preferem sempre se manter nas suas zonas de pseudoconforto.

Por isso, os episódios de violência coletiva, os quais buscam espaços de aglomeração, como as escolas, precisam de uma análise bem mais objetiva e profunda. A velha práxis de se colocar cadeado nas portas depois da casa arrombada, não cabe nessa discussão. A bem da verdade, talvez, nunca coube. Simplesmente, porque a violência não se resume aos atos, aos gestos, aos comportamentos visíveis e perceptíveis; mas, em uma teia complexa e subjetiva de elementos que habitam as profundezas do ser humano.

Se ela não for entendida e determinada a partir dessa natureza individual, as tentativas de contê-la não passarão disso. É essencial olhar o ser humano a fim de verdadeiramente enxergá-lo, não só na sua essência; mas, na sua inserção social. Por mais que a contemporaneidade exalte o individualismo, o narcisismo, o egoísmo, no fundo, o que mais se encontra disperso, por aí, é uma massa ideológica e comportamental homogeneizada. Algo bastante favorecido pelas Tecnologias da Informação e da Comunicação (TICs), especialmente através de suas mídias sociais.   

Acontece que cada indivíduo, na sua bolha pessoal e intransferível, nunca deixou perder o seu desejo de pertencimento social, de encontrar pontos de afinidade ou de ecos para suas ideias, sonhos, delírios, frustrações, angústias, inconformismos, ... Porque, de certa forma, essa inserção social colabora na construção do seu próprio significado existencial. Porém, com a velocidade e a intensidade dos avanços impostos pelas tecnologias, esse processo acabou se desvirtuando e fugindo ao controle.

Na medida em que o mundo virtual nasce sem amarras de tempo e de espaço, é contínuo, ele subtrai e desorganiza as relações humanas. As pessoas passam a encontrar uma dificuldade imensa em compatibilizar o cotidiano imerso em duas realidades, uma analógica e outra digital. O que impacta diretamente no equilíbrio psicoemocional e comportamental da sociedade, ou seja, há um adoecimento; sobretudo, do ponto de vista mental, da população.

Depressão. Transtorno afetivo bipolar. Distúrbios alimentares. Psicoses. Demência. Deficiência intelectual. Transtornos de desenvolvimento. São só alguns exemplos para ilustrar o tipo de questões sociais que não surgem da noite para o dia, mas vão emergindo sob a batuta de um cotidiano cada vez mais acelerado, intenso, extenuante. Sem que muitas vezes, os indivíduos consigam ter uma clareza associativa entre o seu modo de vida e os desdobramentos e consequências nefastas advindos dele. Especialmente, em relação às crianças e aos adolescentes que estão mais susceptíveis aos efeitos sociais da contemporaneidade.

Portanto, câmeras por todos os lugares, detectores de metais em locais de grande circulação e aglomeração, vigilância ostensiva, podem até indicar uma tentativa de ação da sociedade; mas, na verdade, não mudam o cenário de uma violência que existe no ser humano e está sim, sendo fomentada por ferramentas tecnológicas. Essas barreiras não impedem que a violência física se converta, por exemplo, em violência psicoemocional que é comprovadamente tão letal quanto qualquer outra.

Haja vista quantos casos de bullying, cancelamento, difamação e Fake News, já provocaram à morte de milhares de pessoas, mundo afora. Aliás, as palavras têm um poder terrível de destruição lenta e gradativa; pois, elas vão reverberando gota a gota o seu veneno letal, que exerce sim, uma paralisia intelectual e emocional nas vítimas que as impede de reagir. Afinal, é subtraído delas a privacidade, a intimidade, o sossego, a paz. As vítimas da violência cibernética são sumariamente expostas, ridicularizadas, inferiorizadas, destituídas dos seus direitos humanos.

É sobre isso, então, que a sociedade tem que se atentar: Saúde mental! Colocar o ser humano na ponta das prioridades. Enxergá-lo na sua complexidade existencial. Do direito e do avesso, sob a premissa de que aquele corpo tem e é uma identidade. Vive. Sonha. Sofre. Chora. Luta. Vence. Perde. Enfim... Esse é o único caminho que permite refletir sobre valores, princípios, crenças, comportamentos, consumos, possibilitando ajustar milhões de pessoas à contemporaneidade sem permitir que ela se aproprie do bem-estar, do equilíbrio, do bom senso, da qualidade de vida, da dignidade humana 1.

O desafio que se impõe é o de desconstruir os gatilhos sociais que teimam em deflagrar a violência nas situações mais simples e cotidianas da vida. Resgatar a capacidade dialógica e argumentativa, sem sobrepor mais e mais camadas de violência sob a perspectiva restrita do vigiar e punir. A violência, seja em que forma se apresentar, é sempre uma ferida aberta e, como tal, precisa ser curada adequadamente. Leva tempo, paciência, e um olhar humanitário que não se resuma à vítima; mas, que perceba no agressor a existência de alguém que precisa, também, ser ajudado e tratado.

sábado, 15 de abril de 2023

Só mesmo fazendo ouvidos de mercador!


Só mesmo fazendo ouvidos de mercador!

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

A questão não é falar com fundamentação, com bom senso, com lógica. Na dinâmica do tempo contemporâneo a ideia é simplesmente falar ... a esmo, sem critério, sem conhecimento, enfim.  Como uma maneira vulgar de marcar presença, de delimitar território, de garantir algum quinhão de importância. E considerando toda a radicalização ideológica que vem se arrastando pelas relações sociais, não é de se surpreender que esse fenômeno adquira ainda mais fôlego.

Por isso, já imaginava, bem antes da posse do atual governo, que ele enfrentaria uma comunicação atravessada por ruídos intensos. Não por incompreensão ou por eventuais excessos de concisão; mas, pelo prazer de um digladiar de palavras, com fins de criar polêmicas e tensões, que poderiam resultar em algum proveito aos que se colocam em oposição. Ora, não há quaisquer compromissos com os fatos, não estão preocupados em ter certeza de nada, o que querem é falar, falar, falar, ...

Afinal, isso retira dos ombros, de muita gente por aí, o peso da capacidade e da qualidade argumentativa, do valor intelectual das considerações, do nível de conhecimento expresso sobre isso ou aquilo, da habilidade de promover o contraditório. Simplesmente, porque palavras dispersas aleatoriamente e de maneira raivosa acabam se transformando em oportunas cortinas de fumaça, ainda que, muitas vezes, inconsistentes para esconder o que quer que seja.

E todos esses pensamentos vêm povoando os meus sentidos a cada novo frisson da imprensa quanto às falas advindas do governo, seja na figura do Presidente da República ou de quaisquer de seus ministros. Qualquer meia dúzia de palavras se transforma em um “Deus nos acuda”, apenas por não caber nos moldes ou nos interesses de uns e outros, os quais só conseguem enxergar a vida a luz de sua própria perspectiva.  

Pois é, dizia Martin Luther King Jr. que “Para criar inimigos não é necessário declarar guerra, basta dizer o que pensa”. Acontece que no cenário contemporâneo, a comunicação ficou cheia de melindres, de mimimis, inclusive, porque, muitos querem conjecturar a respeito de situações que sequer estão envolvidos ou detêm informações suficientes para fazê-lo. Exercitam uma futurologia em torno de possíveis desdobramentos e consequências, como se a vida transitasse sempre por uma linearidade formidável. Pena, que não seja assim que a banda toca!

Sem contar que as especulações têm uma tendência irritante de desconsiderar o óbvio. Nem todos os sonhos, os desejos, as intenções, são suficientes para se transformarem em realidade, principalmente, da noite para o dia. Portanto, expressá-las não significa necessariamente a efetividade da sua afirmação; mas, uma rica oportunidade de ampliar as possibilidades e projeções de análise, de criticidade e de reflexão, em torno de diversos assuntos importantes.  

E isso é incrível, porque aponta para uma direção de evolução, de vanguarda, do pensamento humano. Afinal, não é possível que, em pleno século XXI, no auge da era tecnocientífica, as pessoas se permitam permanecer fechadas em suas caixas ideológicas, dogmáticas, impedindo o fluxo natural dos acontecimentos da vida. Quem já leu a história de “O elefante acorrentado”, de Jorge Bucay 1, entende o que estou dizendo. Aliás, qualquer cidadão cuja identidade nacional foi marcada pelo processo do colonialismo percebe a profundidade da moral dessa história.

As cicatrizes deixadas pelo sistema colonial são de um abismo imaterial, muitas vezes superior, à sua materialidade. Na medida em que a descrição desse processo aconteceu imperativamente pela perspectiva das Metrópoles, ou seja, dos países colonizadores, exploradores e mandatários; o colonizado teve o seu direito de vez e voz negado e subordinado a um conjunto de alienações intelectuais, culturais, comportamentais, que passaram a constituir um inconsciente coletivo.

No Brasil, isso pode ser sintetizado pelo chamado “Complexo de vira-lata”, tão bem definido por Nelson Rodrigues, na década de 50, o qual diz respeito “a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo”. O pior é que, dentro dos seus limites territoriais, ele insiste em reproduzir as mais terríveis atrocidades, aos moldes do que experimentou pelas mãos da Metrópole que o colonizou. Mas, quando ultrapassa as fronteiras, aí ele volta a exercer a mesma subserviência dependente, de sempre.

Nesse sentido, me parece bastante oportuno parar e pensar porque o comportamento se dá dessa maneira. Várias gerações já se sucederam ao longo do tempo, o que me faz crer que tais manifestações dizem respeito a uma simbólica expressão de poder e controle social pelas elites que herdaram o território. Repetir o passado, ainda que sob um novo viés, lhes dá a sensação de que têm as rédeas nas mãos, que eventuais tensões estariam sob controle.

Então, o fato de surgirem pessoas, principalmente no governo, capazes de romper com esse paradigma, é genial. Desconstruir essas zonas de pseudoconforto é propiciar ao país a construção de sua verdadeira identidade nacional. Uma identidade sem sombras alheias, sem o peso de antigos fantasmas e grilhões. Claro, que é um processo lento e gradual! Ou já se esqueceu que temos um pouco mais de 500 anos de história para corrigir, hein? Mas é preciso transformar. Fazer acontecer.

É esse tipo de posicionamento político-social que dá solidez à luta contra as inúmeras formas e expressões da desigualdade. Trata-se do início da desconstrução das ideias de inferioridade, de subalternidade, de incapacidade, e de tantas outras maneiras de menosprezar o país e seus cidadãos. No instante em que se apropria do seu protagonismo, da sua dignidade, da sua presença no cenário global, ele abdica de toda a depreciação secular que lhe foi imputada.

E, certamente, é isso o que assusta e faz tremer a legião de opositores, em sua maioria, herdeiros ideológicos do colonialismo. Porque eles pressentem riscos às suas regalias e privilégios, ao seu poder e controle social, a um espaço que sempre lhes pertenceu. Assim, parece mais oportuno que o país permaneça alienado na sua submissão internacional, aceitando quireras, pisando em ovos para não incomodar os importantes, silenciando-se daqui e dali. Mas, como eles não são o governo em ação, “[...]Deixa que digam / Que pensem / Que falem [...]” 2.

quarta-feira, 29 de março de 2023

A Criação e a Criatura


A Criação e a Criatura

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Foi com certo alívio que li a matéria “Inteligência artificial: Elon Musk, Harari e mais mil especialistas pedem suspensão de pesquisas” 1. Pois, esse foi um claro sinal de que nem tudo está perdido, nesse mundo, e que a humanidade ainda dispõe de alguma lucidez e bom senso. Afinal, a questão ética é intrínseca a dinâmica social em todos os tempos da história.

Se por um lado existe toda uma engenhosidade cognitiva e intelectual, a qual foram dotados os seres humanos, por outro é fundamental encontrar limites que contenham eventuais arroubos de inconsequência e vaidade, os quais comumente afetam a seara científica. Aliás, a própria Revolução Industrial, na segunda metade do século XVIII, reverbera as suas imprevidências e imprudências em pleno século XXI, tendo em vista a quantidade de situações que ultrapassaram os limites da ética, sem que houvesse quaisquer atitudes a respeito.

Algo que alimentou tantas discussões importantes que, de algum modo, acabaram influenciando, ainda que indiretamente, a literatura. Uma das mais importantes obras nesse contexto foi Frankenstein: ou o Moderno Prometeu, de Mary Shelley, que através de uma genialidade literária conseguiu absorver as tensões sociais da época e traduzi-las com tamanha excelência, que antecipou aquilo que se tornariam os conceitos de Bioética e Biopoder, por exemplo 2.

Não é à toa, que por várias vezes, na minha construção textual, eu não pude deixar de trazer ao leitor uma citação que parece ser a síntese dessa reflexão atualíssima, ou seja, “Mente calma, a salvo de paixões perturbadoras, é a condição do ser humano em seu estado normal. Não pode a busca do saber ser levada à conta de exceção a essa regra. Se o estudo, por qualquer forma, tende a debilitar nossas afeições, nosso gosto pelos prazeres simples, trata-se então de uma atividade ilícita, que não se ajusta ao espírito humano. Se essa norma fosse sempre observada, se todo homem estabelecesse um limite entre seus misteres e sua vida afetiva, a Grécia não teria sido escravizada, César teria poupado sua pátria, a América teria sido colonizada sem maiores conflitos, e os impérios dos astecas e dos incas não teriam sido aniquilados” (MARY SHELLEY, 1817).

Quem diria, o conhecimento entorpece! Para muito ele se torna sim, uma droga poderosíssima e de efeito devastador, porque subtrai a sensatez, o discernimento, o controle e os limites éticos e morais. Sobretudo, quando ele arrasta na sua esteira uma gama gigantesca de poder social e capital, como é o caso da Inteligência Artificial, o mais novo xodó das Tecnologias da Informação e da Comunicação (TICs). Um conhecimento que atravessa sem pedir licença os caminhos humanos, colocando sumariamente milhões de vidas no ranking da desimportância e da inutilidade.

Pois é, se uma Bioética surgiu lá na década de 70 para construir um conjunto de regras e preceitos de ordem valorativa e moral em torno das diferentes formas de vida, agora é chegada a vez de se pensar, séria e profundamente, sobre uma Tecnoética. A dinâmica social restrita só ao conhecimento pelo conhecimento não basta! É preciso algo que norteie as discussões a respeito da sobrevivência e da existência humana, sob os mais diferentes aspectos e conteúdos, em um mundo altamente tecnologizado.

Queiram ou não admitir, a humanidade está repetindo um padrão. Depois de séculos e séculos de descaso e negligência com inúmeras mazelas sociais, ela passou a fazer o mesmo em relação as tecnologias. A tal ponto que, diante desse cenário high tech, o conhecimento tecnocientífico produzido nos últimos anos tende a transformar a realidade contemporânea em um caos sem precedentes. Sim, porque não há nas mãos de ninguém nenhum plano A, B ou C para resolver os desafios impostos. Talvez, por essa razão é que Stephen Hawking tenha manifestado, ainda em 2014, “Acredito que o desenvolvimento pleno da inteligência artificial poderia significar o fim da raça humana” (entrevista à BBC).

De repente, estamos à beira de provar da mesma percepção presente em Frankenstein: ou o Moderno Prometeu, ou seja, “[...]o gosto amargo da decepção. Sonhos que me haviam embalado por tanto tempo eram, repentinamente, transformados numa realidade infernal” (MARY SHELLEY, 1817). Diante da recente carta aberta assinada por renomadas figuras do espectro das TICs e detentoras de fortunas bilionárias emergidas desse campo do conhecimento, só posso crer que a situação deve ser ainda mais aterrorizante e complexa do que sonha nossa vã filosofia.

Porque, considerando outros cenários apocalípticos globais, como o caso das mudanças extremas do clima, por exemplo, em que a mobilização em torno de soluções enfrenta resistências mil, é mesmo de se espantar que nesse caso as atitudes tenham ocorrido rapidamente, no sentido de desromantizar o contexto das inovações tecnológicas. Cá estamos, então, de volta ao eterno dilema entre a Criação e a Criatura. Só o tempo dirá quem vai sobreviver!

domingo, 26 de fevereiro de 2023

Será possível relativizar o Bem e o Mal???


Será possível relativizar o Bem e o Mal???

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

A imprevidência verborrágica que se incorporou a dinâmica comunicativa contemporânea é, de fato, muito interessante. De repente, em muitos casos, se deixou de ser necessário ir fundo nas análises a respeito do que se diz ou se escreve, porque o descuido na elaboração das ideias é tamanho que desnuda as intenções de maneira irrefutável.

Um exemplo recente, e que me chamou bastante atenção, foi a fala de um congressista brasileiro, na qual afirma que “há ‘muita gente boa’ que foi presa após os ataques antidemocráticos em Brasília no dia 8 de janeiro” 1. Sem se dar conta, tais palavras trazem à tona, a partir das suas infinitas camadas, discussões um tanto quanto retrógradas e indigestas ao país.

A enfática defesa do parlamentar, então, começa por dar vez e voz para a perspectiva da direita brasileira e de seus matizes, mais ou menos radicais. Afinal, a expressão “gente de bem”, presente no discurso, sempre esteve associada à elite brasileira, conservadora, abastada, detentora de poder e influência sobre o restante da população nacional. Em suma, estão sob um pedestal que, pelo menos em tese, os colocaria na mais absoluta condição de regalia e de privilégios, impossibilitando eventuais punições.

Acontece que ao proferir o discurso, esse congressista simplesmente desconstruiu a realidade. O que aconteceu em 12 de dezembro de 2022 e em 08 de janeiro de 2023, na capital federal, são expressões máximas de crimes já previstos na legislação brasileira. Portanto, apuradas as participações dessas pessoas nesses atos, elas próprias revelaram-se não ser assim, tão “do bem” quanto tentavam fazer parecer.

Do ponto de vista ideológico e comportamental, elas se mostraram anos luz de distância de trazer em si valores, tais como consciência cidadã, responsabilidade, respeito à justiça, prudência, honra, disciplina, educação, empatia, sensatez, comedimento. Ao contrário disso, deram provas irrefutáveis da sua incivilidade, da sua barbárie, da sua ignorância estúpida. Certamente por estarem excessivamente convictas de uma certeza de superioridade que lhes garantiria não serem afetadas pelo cumprimento das leis.

Porém, como a situação extrapolou qualquer limite de tolerabilidade que pudesse se tentar empregar, o resultado foi bem diferente da expectativa delas. Acontece que se acostumaram a cobrar o rigor da justiça para as camadas desprivilegiadas e esquecidas, independentemente, da existência ou não de comprovação delituosa. A insultar a ação dos defensores de Direitos Humanos, em favor das minorias, como se a elas não coubesse sequer a presunção de inocência, pelo simples fato de serem quem são.

A dicotomia histórica que faz da desigualdade brasileira a expressão dos importantes e dos desimportantes é o ponto nevrálgico que precisa ser enfrentado pela sociedade. É dela que emerge o racismo, a misoginia, o sexismo, a aporofobia, a gordofobia, o etarismo, a homo e a transfobia, o capacitismo. Não se pode aferir o caráter, a alma, a índole, a aptidão, a natureza, ou o temperamento de um cidadão, pelo extrato bancário, pela posição social que ocupa, pela quantidade de diplomas que ostenta, ou pela árvore genealógica a que pertence. É pelos gestos, pelas palavras, pelas ações e pelos comportamentos.

Ao se desalinhar das bases fundamentais que sustentam a ordem, o equilíbrio e o desenvolvimento de uma sociedade é que os indivíduos se posicionam na história. Que eles abandonam a dicotomia inicial, dos importantes e dos desimportantes, para estabelecerem outras, não menos piores. Conservadores e progressistas.  Negacionistas e cientificistas. Egoístas e humanistas. Bárbaros e civilizados. Maus e bons. ...

Afinal, nenhuma dicotomia deveria ser estabelecida como rótulo ou estereótipo, porque disso nasce um olhar diferencial e negativo de uns sobre os outros. Se há um melhor e outro pior, o melhor fará de tudo para não perder a posição em que está, e o pior fará de tudo para sair da posição em que está. Porque é assim, que a beligerância é deflagrada e as tensões começam a cruzar os caminhos.

Enquanto a humanidade deixa de ser somente humanidade, para se decompor em segmentos diversos, ela se permite deixar de trazer consigo o seu traço vital, a sua essência genuína, ou seja, ser humana. Assim, não é de se espantar que ela, então, passe a transitar sem constrangimentos pela linha da segregação, da exclusão, do não pertencimento. Talvez, por isso, Nelson Rodrigues tenha se permitido dizer que “Convém não facilitar com os bons, convém não provocar os puros. Há no ser humano, e ainda nos melhores, uma série de ferocidades adormecidas. O importante é não acordá-las” (O Remador de Ben-Hur).

domingo, 22 de janeiro de 2023

Povos Originários na rota da necropolítica nacional


Povos Originários na rota da necropolítica nacional

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Não é porque a necropolítica foi, de certo modo, uma herança deixada pelo sistema colonial que tenhamos, em pleno século XXI, que permanecer aceitando as suas consequências nefastas e repugnantes. O que vem acontecendo com diversos povos originários, no Brasil; sobretudo, os yanomamis 1, é mais do que negligência política, ou irresponsabilidade social, ou desumanidade.

Trata-se da reafirmação dos valores e dos princípios que regem os grupos dominantes, ideologicamente fundamentados na direita e seus matizes, na qual, segundo eles, não pode haver espaço para existência das minorias sociais no país. Afinal, elas são vistas e entendidas como obstáculo direto às inúmeras camadas de interesses dos direitistas. O que no caso dos povos originários diz respeito aos interesses econômicos; posto que, são eles os guardiões de áreas de imenso valor capital, em razão das reservas minerais e vegetais.

Daí a necessidade de se ter cautela em acreditar que a culpa sobre os desmandos, os absurdos, as irresponsabilidades, as violências, deva ser atribuída apenas a certos indivíduos. Há de se colocar na balança o peso das ações diretas; mas, também, das indiretas 2. Só assim, é que se tem a devida proporção das irresponsabilidades cunhadas a partir da concordância com os fundamentos da necropolítica.

Vejam que, apesar de todo o frisson apocalíptico que se abateu sobre a capital federal, em razão do vandalismo expresso pelos atos antidemocráticos, nos campos político-partidários da direita e seus matizes, já se noticiavam as tentativas de afastamento em relação a certas figuras, enquanto buscavam substitutos à altura, que coadunem das mesmas ideias e princípios. Diríamos, então, trocando seis por meia dúzia. O que significa que não entenderam nada. Que não aprenderam nada. Que permanecem enxergando o país na mesma perspectiva de sempre.

A continuar assim, então, as ameaças impostas pelo regime necropolítico tenderão a continuar, sob as mais diferentes expressões de crueldade, de impiedade, de ódio, de perversidade. Como aquelas imagens terríveis de yanomamis, de diferentes idades e gêneros, esquálidos, doentes, entregues à própria sorte nas suas aldeias. Como se fossem seres menos humanos do que os brancos.

Aliás, é importante destacar a dimensão da necropolítica exercida pelos simpatizantes da direita e seus matizes, nesse caso, em relação aos povos originários, porque ela se abstém de uma responsabilidade histórica quanto à usurpação e apropriação indevida das terras indígenas, por meio da força e da violência. São pouco mais de 500 anos de história de abusos a esse respeito acontecendo no Brasil, sem que medidas sejam de fato tomadas para reparar e devolver a dignidade e a cidadania aos povos originários.

Infelizmente, a necropolítica tende a fazer com que as minorias sejam transformadas em figuras excêntricas de exibição, tirando delas a sua humanidade, a sua identidade, a sua essência, a partir de todo tipo de desrespeitos e de violências impetradas contra elas. No caso dos povos originários, fizeram deles criaturas folclóricas, lendárias, míticas, e que por essa razão se distanciam de quaisquer possibilidades de convivência e coexistência com o homem branco. O que é reafirmado pela superficialização e modelação do conhecimento indígena junto à população brasileira.

Haja vista o desconhecimento em relação à lei n. º11.645, de 10 de março de 2008, que tornou obrigatório o estudo da história e cultura indígena e afro-brasileira nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio. E por que desconhecem? Primeiro, porque a referida lei não previu a sua obrigatoriedade nos estabelecimentos de ensino superior para os cursos de formação de professores (licenciaturas). Segundo, porque as políticas públicas falham na publicização de assuntos importantes e de interesse social, como é o caso, em razão das pressões promovidas pelos interesses das elites dominantes; sobretudo, da direita e seus matizes.

Desse modo, essa é uma discussão que segue negada, invisibilizada, ofuscada, distante da maioria dos cidadãos. E se esses indivíduos não são conhecidos, não são lembrados, como esperar que sejam efetivamente integrados à cidadania nacional? Como esperar que sejam contemplados com a devida acessibilidade aos seus direitos sociais?

Em 2021, eu escrevi que “A foto de uma criança yanomami, esquálida, sobre uma rede, divulgada por todos os veículos de comunicação e informação, no último dia 9 de maio, expõe sem retoques o que se pode chamar de ‘neocolonialismo do século XXI’ em terras indígenas brasileiras” e completava dizendo, “Foram mais de 1000 índios mortos pela COVID-19; mas, a permissividade da ilegalidade tem os feito vergar diante da desnutrição, do aumento dos casos de Malária, da contaminação dos rios com mercúrio, do alcoolismo e da prostituição por parte dos garimpeiros que invadem as terras”3.

Meses depois, um novo texto meu trazia à tona que “A reportagem que alerta sobre o fato de que a ‘FUNAI proíbe equipe da Fiocruz de levar assistência aos Yanomami em meio à desnutrição, surto de malária e abandono do governo’, acaba, portanto, não fazendo justiça à dimensão da tragédia. A realidade dos povos originários brasileiros, tende a ser muito pior do que se imagina, ao ponto de que a Fundação nacional do Índio (Funai) vetou pesquisa sobre contaminação de mercúrio entre yanomamis proposta pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz)” 4.

Não é à toa que Darcy Ribeiro, antropólogo, historiador, sociólogo e político brasileiro, tenha dito com tanta propriedade que “O Brasil, último país a acabar com a escravidão tem uma perversidade intrínseca na sua herança, que torna a nossa classe dominante enferma de desigualdade, de descaso”.

Pois é, a necropolítica nacional tem rosto, tem nome, tem sobrenome, tem CPF. Aliás, muitos. E todos eles precisam responder à justiça pelos seus atos, suas omissões, suas negligências e suas irresponsabilidades. Sem exceções. Sem condescendências. É demasiadamente ultrajante pensar que tudo isso vem acontecendo em nome de nada, de nenhuma melhoria, de nenhuma igualdade, de nenhum desenvolvimento, de nenhum progresso. Só ganância. Só cobiça. Só pseudopoder. Só ignorância cruel em estado bruto. 



sexta-feira, 20 de janeiro de 2023

Rumo à involução


Rumo à involução

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Ao que tudo indica o ser humano vem aprendendo cada vez menos com seus erros. Involuindo a passos largos. Que o diga a ultradireita! O que significa que há muitos seres humanos por aí, utilizando dos mesmos instrumentos já comprovadamente equivocados e ineficazes para construir suas relações sociais, desprezando o fracasso dos resultados obtidos.

O fato de as tecnologias terem trazido ao ser humano uma viabilidade maior para a expressão de suas ideias, sentimentos, emoções e pontos de vista, isso não significa, em momento algum, uma legitimação para os absurdos, inconveniências e as práticas delituosas.

Mas, são elas que têm sim, impulsionado a radicalização, o extremismo, ao redor do planeta, fazendo transparecer um desejo quase mórbido de efetivamente fragmentar a sociedade em pequenas células individualistas, rompendo com a ideia de um coletivo humano minimamente equilibrado.

Embora pareça ser este um terreno livre de regras, de leis e de obrigações, ele não é. O mundo virtual carrega os mesmos fundamentos sociais do mundo real. De modo que as identidades não passam despercebidas. Basta seguir os rastros, as pistas deixadas em nuvens pelos trajetos tecnológicos percorridos.

No entanto, isso me parece menos importante na hierarquia das prioridades a serem tratadas em relação à radicalização e ao extremismo contemporâneo. Não basta ter os olhos fixos e atentos sobre o mundo virtual, o ponto crítico da questão ainda permanece o ser humano. Parte dele o ímpeto de agir na contramão dos princípios, dos valores sociais. 

Entender as razões que vêm o despertando para esse desvirtuamento é a chave para a retomada da estabilidade e da segurança global. Desde o século XVIII, a raça humana foi induzida a acreditar que o mundo poderia ser exatamente segundo a sua vontade, que a felicidade poderia ser adquirida no mercado da esquina, que o ter seria a resposta para definir o ser. 

Acontece que entre a teoria e a prática se estabeleceu um gigantesco abismo, o qual passou a fomentar a frustração, a indignação, o rancor, a intolerância, diante da percepção clara de uma incapacidade, até certo ponto natural; mas, que não deveria fazer parte dos planos. Incapaz de brigar consigo mesmo, o ser humano passou a culpar os outros pelos percalços do caminho, acirrando as fronteiras segregantes.

E abdicando, então, da sua responsabilidade protagonista, ele vem exasperando o pior da sua essência, ou seja, Xenofobia, Intolerância religiosa, Homo e Transfobia, Misoginia, Sexismo, Racismo, Aporofobia, Gordofobia, como em uma catarse, que liberta, expulsa, purga o que lhe corrompe à própria natureza.

Porém, esse é um movimento que transcende naturalmente aos seus limites e adquire proporções inimaginadas sobre outros aspectos das relações sociais. Haja vista, todo o contexto das Grandes Guerras Mundiais; sobretudo, a Segunda. Os registros históricos do nazismo não deixam dúvidas a esse respeito.

Não é à toa que foi inaugurado ontem, um Memorial às vítimas do holocausto, na cidade do Rio de Janeiro 1, a fim de que através de “experiências imersivas, a rotina de judeus antes, durante e depois dos horrores da Segunda Guerra Mundial”, possa oferecer ao visitante a possibilidade de construir sua própria compreensão a respeito. Afinal, o que começou com insultos, perseguições, segregações, desapropriações, acabou em destruição e morte, no retrato de um mundo devastado, sob diferentes aspectos e intensidades, pelo ódio humano.

Como escreveu Virginia Woolf, “É muito mais difícil matar um fantasma do que matar uma realidade”. Por isso, a expansão da radicalização e do extremismo contemporâneo não pode ser contemporizada! O mundo não parece suficientemente capaz de renascer se uma Terceira Guerra for posta em curso. Será, portanto, uma ação que não levará nada a lugar nenhum e definirá um só lado, o dos perdedores. Não haverá vitoriosos. Não haverá conquistas. Simplesmente, haverá o recrudescimento daquilo que se usa para justificar a radicalização e o extremismo. Estaremos, então, mais uma vez, presos dentro dessa espiral de loucura, produzindo mais e mais beligerâncias e conflitos.