domingo, 21 de junho de 2026

Curaçao e seu futebol feito de valores éticos-cidadãos


Curaçao e seu futebol feito de valores éticos-cidadãos

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

É sempre muito bom, quando a vida nos surpreende! De fato, olhando para o futebol contemporâneo, a impressão que eu tinha era de que ele havia sido sequestrado pela ação da monetização e da mercantilização, impulsionada pelo capitalismo esportivo, e transformado em mero produto mercadológico.

Aí, o 999º jogo das Copas do Mundo aconteceu e descontruiu essa percepção, de maneira incrível.  Por quê? A seleção caribenha de Curaçao faz sua primeira participação nas Copas do Mundo e não somente conquistou o seu primeiro ponto, como se tornou o menor país a disputar partidas e pontuar no torneio. Depois de marcar um gol na partida contra a Alemanha, em seu primeiro jogo em Copas do Mundo, a equipe empatou em 0 a 0 contra o Equador, na noite de ontem, alcançando o seu primeiro ponto.

Mas, tudo isso pode ser considerado como a cereja do bolo. Afinal, o que causou tamanha surpresa foi algo bem mais subjetivo. A equipe de Curaçao vem demonstrando em campo o poder do simbolismo do futebol na reafirmação da sua identidade sociocultural. Cientes da sua incipiente qualidade futebolística, o desejo de se entregar de corpo e alma para a Copa do Mundo FIFA 2026, enfrentando adversários mais bem ranqueados no esporte, consagrou a força imbatível da sua identidade nacional.

A sua torcida, seja ocupando os estádios da Copa ou espalhada por diversos outros lugares do mundo, cria a Blue Wave (Onda Azul) que representa o mar azul do Caribe e os rituais ancestrais de proteção com pó azul na pele. Destacadas em seu uniforme, o azul, o amarelo e as estrelas da bandeira nacional, tem o poder de refletir a diversidade das origens do seu povo, marcado por uma rica mistura de influências indígenas e da colonização espanhola e holandesa, além de um forte elo histórico com o Brasil.

Em 2010, após a dissolução das Antilhas Holandesas, Curaçao tornou-se um país independente no Reino dos Países Baixos, o que significa que ele é totalmente autônomo para gerenciar seus próprios assuntos internos; mas, a Holanda ainda é responsável por áreas como a defesa e as relações exteriores.

Talvez, por isso, a importância de enaltecer, de destacar, a sua identidade nacional por meio da oportunidade conquistada de participar de uma Copa do Mundo. Esse momento ímpar da sua história reafirma a soberania e a cultura local, elevando o orgulho pátrio e a união social muito acima da mercantilização, dos patrocínios milionários e da exploração financeira que caracterizam o capitalismo esportivo contemporâneo.

De fato, a ascensão esportiva de Curaçao sinaliza um contraponto à realidade do recorte temporal atual. Porque ao contrário de seguir o fluxo das ligas milionárias, a coesão social e a identidade cultural formam a base de suas equipes, cuja estrutura é essencialmente amadora ou semiprofissional, priorizando o orgulho local sobre a exploração financeira. Além disso, o sucesso da equipe nacional apoia-se na convocação de jogadores com raízes locais, valorizando o sentimento de pertencimento pátrio em vez de contratações de mercado.

O que prova que a essência do futebol ainda existe e resiste. A participação de Curaçao na Copa nos lembra que o sucesso nesse esporte nem sempre está atrelado ao resultado. A comemoração efusiva da equipe pelo seu primeiro gol em Mundiais e a posterior oração coletiva no gramado com os adversários resgataram o lado mais humano, fraterno e apaixonado do esporte.

A grandeza da seleção de Curaçao está na sua capacidade extraordinária de refletir a resiliência e o orgulho de um povo ao ver a sua identidade cultural e a sua soberania reconhecidas no principal palco do esporte mundial. Eles destacaram que a união, a gratidão e a fé são os seus pilares fundamentais, demonstrando que o esporte atua como um canal para uma moral coletiva e a dignidade de sua nação.

Desse modo, com cerca de 158 mil habitantes, a participação inédita e a emoção com o primeiro gol e o primeiro ponto somado na competição não apenas mobilizaram a ilha, como encantaram o mundo. Milhões de pessoas, agora, sabem que “Curaçao é um povo pequeno, com um coração grande”, segundo o lema e o cântico da torcida "Nos ta un pueblo chikí, ku un kurason grandi".  O suficiente para pulsar de orgulho em pertencer a uma ilha no sul do Mar do Caribe. 

terça-feira, 16 de junho de 2026

Humanização. Saúde. Comunicação. Historicidade.


Humanização. Saúde. Comunicação. Historicidade.

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Recentemente, recebi nos meus e-mails uma chamada para envio de artigo científico, de uma revista na área médica. Apesar da surpresa, considerando o fato de não estar diretamente ligada ao referido campo de conhecimento, verifiquei quais eram os formatos de artigo aceitos pela revista e decidi encaminhar uma comunicação curta.

Há algum tempo, instigada por algumas experiências médicas, percebi a relevância, enquanto paciente, de trazer à tona dois aspectos importantes para a reflexão dos profissionais de saúde; visto que, muito tem sido falado a respeito de uma medicina mais humanizada, ou seja, integrando o conhecimento técnico à escuta ativa, à empatia e ao respeito pela história, contexto social e necessidades emocionais do indivíduo.

Contudo, segundo o corpo de pareceristas da revista, após todos os ajustes solicitados, os artigos foram desconsiderados para a publicação.

Diante da recusa e entendendo a importância do que esses artigos traziam, resolvi “desacademizá-los” e transformá-los em um diálogo direto com outros tantos milhares de pacientes, por aí, por meio desse texto.

O objeto da primeira reflexão foi “A importância da humanização da assistência para o sucesso da comunicação médico-paciente”. Considerando o cenário da contemporaneidade, de altíssima complexidade, fluidez e interconectividade, esse foco que deveria existir em relação ao respeito às singularidades, ao comprometimento na escuta, à disposição dialógica plena, à geração de ambientes de confiança e acolhimento que valorizam o ser humano, parece um caminho difícil de ser transposto.

Por quê?  Porque a formação médica ainda se mostra resistente à integração da humanização e da valorização da subjetividade do paciente, devido ao predomínio de um modelo baseado na tecnociência para tratar e curar, desconsiderando os aspectos psicossociais e culturais do indivíduo acometido por uma dada patologia.

E isso é muito ruim, na medida em que a comunicação se torna atravessada por diversos ruídos, os quais não priorizam o acolhimento, a escuta gerenciada, a linguagem acessível, o respeito à subjetividade e à autonomia do sujeito, tornando o cuidado humanizado, na perspectiva da informação em saúde, um processo falho em seus propósitos fundamentais.

Daí a necessidade de o profissional estar disposto e apto a realizar uma escuta comprometida com a construção de vínculos, garantindo o direito à informação de forma digna, clara e objetiva, ao paciente. É preciso desconstruir a ideia de que a linguagem do médico é absoluta, sem margem para discussão ou questionamento, tendo em vista de que ele é o detentor do saber.

Aliás, não é incomum o fato de que inúmeros profissionais utilizam termos complexos, os quais dificultam o entendimento, a compreensão por parte dos seus pacientes, distanciando-os das decisões e da operacionalização de seus próprios tratamentos e cuidados médicos. Esse modelo ignora a biografia, o contexto social e a subjetividade do paciente, ou seja, não coloca em prática a humanização da informação.

Então, comecei a observar uma palavra que vem aparecendo amiúde no mundo contemporâneo das consultas médicas, saudável. Acontece que a tendência de generalização da expressão saudável, no campo da alimentação, pode significar riscos concretos. Por mais que as ciências médicas e os órgãos de saúde pública entendam que uma alimentação saudável possa ser definida como um padrão de consumo capaz de fornecer ao organismo todos os nutrientes necessários para seu funcionamento ideal, promovendo bem-estar e prevenindo doenças crônicas, nem tudo o que, em tese, é saudável pode realmente ser consumido por todos os pacientes.

Inclusive, porque há uma inacessibilidade aos produtos “saudáveis”, ou seja, ela se mostra como uma estratificação social, onde o consumo de alimentos nutritivos torna-se um marcador de classe, um privilégio e/ou uma distinção social.

Daí a importância de que os profissionais de saúde analisem caso a caso, o histórico clínico do paciente, na medida em que cada paciente acometido por uma dada patologia demanda uma avaliação particularizada em relação ao conceito de alimentação saudável. Aquilo que é benéfico para um pode causar reações adversas ou ser ineficiente para outro, dependendo de inúmeros fatores tais como metabólicos, genéticos, alérgicos, enfim.

Assim, para que haja sucesso na terapêutica proposta pelo médico, a relação dialógica deve ser estabelecida com o máximo de clareza, de dissecação das palavras e termos empregados, a fim de que o paciente se considere plenamente confortável diante das informações e seja capaz de assumir o seu papel no processo terapêutico, de maneira satisfatória.

Mas, como concretizar esse aspecto? Foi, então, que surgiu o segundo o ponto de reflexão, “O papel da historicidade do paciente na construção de uma proposta mais humanizada para anamnese”. Considerando a pluralidade e a diversidade social que chega aos consultórios, nem sempre o histórico de saúde, contemplando situações, hábitos e antecedentes, constitui uma base fidedigna para a maioria dos diagnósticos.

Portanto, é preciso trazer aos interlocutores uma construção comunicativa embasada pela empatia, pela ética, pelo respeito, pela cooperação ativa, pela interação social e pelo acolhimento humano. Razão pela qual, olhando pela perspectiva de que a vida é um filme e não uma fotografia, não é difícil perceber que no cenário das relações médico-paciente, muitas vezes, a informação humanizada não se realiza em razão das fragilidades presentes na construção comunicativa em si.

Apesar de o paciente, quando procura um profissional de saúde ter, naquele dado recorte temporal, uma queixa, um desconforto, uma dor, que precisa ser tratada, não raras as vezes, o cerne daquele problema não está no agora, no presente. Trata-se de algo que vem se desenvolvendo há tempos, inclusive, formando uma rede de interconexões com outras patologias, as quais o próprio paciente, muitas vezes, não tem conhecimento.

Além disso, há uma tendência de muitos profissionais se aterem à tradução dos resultados dos exames, a partir dos limites de referência estabelecidos, desconsiderando assim, uma análise mais ampla e integrada da situação. Por isso, não são raras as vezes em que o paciente não obtém o sucesso esperado em seu tratamento, entrando em um labirinto de lacunas não respondidas, de situações que continuam a reverberar quadros patológicos limitantes ou não; mas, capazes de fragilizar e alterar o seu bem-estar.  Trazendo a terrível sensação de caminhar em círculos sem uma solução para o seu problema.

Eis, então, a necessidade de romper com a homogeneização da doença, como se todos os pacientes fossem iguais, ou com a resistência em analisar o quadro atual em detrimento de toda a historicidade do indivíduo, ou com o excesso do protagonismo médico decorrente da sua apropriação do saber técnico-científico. Mas, como? O ponto de partida está na compreensão de que as etapas do desenvolvimento humano não são livros concluídos, do ponto de vista da historicidade clínica do indivíduo.

Nem todas as patologias que o acometeram, nessa ou naquela fase da vida, foram realmente debeladas. Algumas sim. Outras não. O que significa que rastros e vestígios puderam, então, se tornar o ponto de partida para o surgimento de outras doenças, tecendo uma rede de aspectos que se misturam, ao ponto de ocultar e dificultar os caminhos terapêuticos, quando não devidamente esclarecidos.

Nesse sentido, a possibilidade de se construir um panorama clínico do paciente, segundo o seu histórico por fase de desenvolvimento – primeira infância, segunda infância, terceira infância, adolescência, idade adulta e velhice, ou segundo os sistemas que compõem o corpo humano – esquelético/muscular, endócrino, respiratório, digestório, nervoso, excretor, tegumentar, reprodutor e linfático/imunológico, não pode ser desconsiderada, como ocorre com certa frequência.

 A partir de memórias, de lembranças, o paciente pode trazer ao conhecimento do médico essas informações, contribuindo de maneira significativa para a realização desse registro. Mas, tal dinâmica só acontece a partir de uma comunicação humanizada, ou seja, um modelo de interação capaz de reconhecer a individualidade e o contexto social de cada indivíduo, ao contrário de apenas os procedimentos técnicos. Nesse cenário, o papel do médico deve ser de um facilitador empático, que permite ao paciente ser sujeito ativo de seu próprio tratamento.

Mediante as informações extraídas nessa prática dialógica, o médico vai completando, aí sim, de maneira técnico-científica, o quadro da historicidade clínica do paciente, permitindo-lhe uma visão holística do indivíduo.

Como se pode perceber diante dessa breve reflexão, o que se buscou foi reafirmar a necessidade do equilíbrio na integração de métodos tradicionais e complementares da medicina, favorecendo o caminho da verdadeira humanização da assistência. Afinal, ela depende diretamente da humanização da comunicação.

Em linhas gerais, a forma como os profissionais de saúde dialogam, transmitem diagnósticos e acolhem os pacientes define a experiência do cuidado. Uma linguagem acessível, uma escuta ativa, o respeito à historicidade do paciente e uma dose generosa de empatia transformam o ambiente clínico e reduzem eventuais ruídos comunicativos que possam surgir. 

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Livres?!


Livres?!

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Esse é um assunto que exige reflexão. Liberdade ...

De ser. Bem, esse é o direito fundamental que fala sobre a capacidade de viver de acordo com a sua própria essência, valores e identidade, sem precisar se moldar às expectativas, rótulos ou pressão da sociedade. Portanto, ser quem se é onde quer que você esteja, sem precisar de máscaras sociais ou de viver em função da aprovação alheia.

De estar. Essa é a dimensão ligada à presença, ao pertencimento e à autonomia espacial. Ora, todos têm o direito fundamental de ir e vir em um ambiente, transitando com segurança, sem se sentir ameaçado ou excluído.

De viver. Ah, esse é um aspecto muito importante. Trata-se da capacidade de fazer escolhas autênticas sobre o próprio caminho, homologadas aos próprios valores e princípios.

No entanto, isso está longe de significar a ausência de regras ou a permissão para agir por impulso. Afinal, toda escolha traz consequências, de modo que a verdadeira liberdade envolve assumir a responsabilidade pelos seus atos, decisões e pelo rumo da própria vida, da própria história.

De ficar. Nada melhor do que desfrutar da autonomia emocional e da individualidade nos relacionamentos. Assim, a liberdade de ficar representa o poder de escolha consciente para estar com alguém por afeto real, e não por dependência, mantendo a liberdade de se retirar quando o vínculo não for mais saudável ou compatível.

Mas, ela também traz a possibilidade de se sentir inteiro sozinho, sem a necessidade de preencher vazios emocionais através da aprovação constante do outro.

De permanecer. Pelo menos em tese, todos deveriam desfrutar do direito fundamental de não ser obrigado a deixar um local, país ou relação. No entanto, quando se olha pelas janelas do mundo contemporâneo, essa liberdade está, cada vez mais, sendo confrontada pela globalização, pelas crises migratórias, pelas guerras e conflitos, e pela segurança digital.

Sim, uma onda crescente de refugiados climáticos e políticos testa a capacidade das nações de acolher e integrar novos indivíduos, resultando muitas vezes em políticas de imigração mais restritivas.

Por outro lado, a permanência na internet ou em redes corporativas vem exigindo a abdicação de privacidade na troca de serviços, ao mesmo tempo em que existe uma coleta desenfreada de dados ameaçando a autonomia do indivíduo.

Por fim, especialmente nos grandes centros urbanos, a liberdade de moradia é limitada pela especulação imobiliária, dificultando o direito à cidade pela população mais vulnerável e de baixa renda.

De continuar. Será que alguém se sente realmente livre para poder seguir em frente, recomeçar ou manter um caminho escolhido, sem ser impedido por amarras do passado, especificações físicas ou pressões externas?

A impressão que se tem é de que ao contrário de uma ausência absoluta de limites ou de um estado permanente, essa liberdade na prática se apresenta pela escolha de como reagir aos condicionamentos biológicos, históricos e sociais que se apresentam diariamente.

De tornar-se. Nesse contexto, ela se mostra como um espaço para a autorrealização e o desenvolvimento contínuo, colocando o ser humano como protagonista das suas escolhas ao longo da vida. Cada decisão, ação ou até omissão, molda a pessoa que cada um se torna, fazendo com que a vida seja uma criação autêntica e não um roteiro pronto. Assim, essa liberdade é o potencial que o indivíduo tem para evoluir, ultrapassar traumas e alcançar a sua melhor versão.

De parecer. Talvez, uma das expressões de liberdade mais comuns na contemporaneidade! Pois, ela se refere ao direito fundamental de construir e exibir sua própria identidade visual, corporal e estilística, livre de coerções estatais, sociais ou de discriminações no trabalho e na sociedade. Na contemporaneidade, o corpo, as roupas e quaisquer modificações identitárias são ferramentas de autodeterminação e autoexpressão do indivíduo.

Entretanto, não se pode negar que ao mesmo tempo em que a liberdade de parecer é ampla, a sociedade é fortemente pressionada por padrões de beleza virtuais e por algoritmos. Isso faz com que, muitas vezes, essa liberdade de parecer algo nas redes sociais se transforma em uma nova prisão, onde a encenação de uma vida perfeita tenta substituir a personalidade do indivíduo.

Por essas e outras é que, de repente, a liberdade foi imersa no caos da incompreensão. A sociedade contemporânea decidiu que não pode haver limites, condições ou restrições para o exercício da sua liberdade, como se isso fosse possível. Por conta disso, as relações sociais se transformaram num verdadeiro barril de pólvora.

Acontece que esse comportamento transformou a liberdade em uma força destrutiva, que vem desconsiderando o contrato social que garantia a segurança e o respeito mútuo na vida em sociedade. De modo que tudo começa por essa ruptura que retirou a base da civilidade, gerando um ambiente de instabilidade e conflitos, onde prevalece a lei do mais forte e a desconfiança generalizada.

A partir daí, quando a liberdade irrestrita de um indivíduo interfere diretamente no bem-estar e nos direitos do outro, ocorre a desestruturação da igualdade de oportunidades e do respeito mútuo no contexto social.

Algo que se reafirma a partir de discursos e atos que antes eram repreendidos pelo pacto de civilidade e que, agora, ganham espaço, podendo resultar em discursos de ódio, de intolerância e de crimes contra a honra, ameaçando a segurança e a integridade; sobretudo, de grupos vulneráveis.

Não se pode invisibilizar ou negar o fato de que as polarizações ideológicas, sejam elas de que natureza forem, dentro do recorte contemporâneo, têm se intensificado de uma maneira brutal, perversa e incontrolável. Absolutamente tudo se transforma em pretexto para romper coma civilidade e estabelecer um retorno aos primórdios da barbárie social.

A radicalização do debate público e a erosão da urbanidade têm sido transformadas e publicadas cotidianamente em verdadeiros campos de batalha ideológicas, que transitam tanto pelo ambiente virtual quanto real.  

Sim, porque essas ocorrências, muitas vezes potencializadas pelas bolhas nos ambientes digitais, dificultam a construção de consensos e o respeito à pluralidade de ideias.

Haja vista, o recente episódio, no qual um idoso foi vítima de espancamento e ameaça, nas proximidades de sua residência, em um bairro da zona sul carioca, cuja motivação da violência foi política e religiosa. As agressões só cessaram após a intervenção de um transeunte que passava pelo local e gritou para que parassem 1.

Tudo isso porque a liberdade não é absoluta e não se confunde com ausência de regras ou autorização para violar a lei! Todos deveriam se lembrar de que a liberdade encontra seu limite no momento em que fere o direito de outra pessoa ou viola um bem jurídico protegido.

Aproveitando esse assunto, hoje, 15 de junho, é o Dia Mundial de Conscientização da Violência contra a Pessoa Idosa, instituído pela Organização das Nações Unidas (ONU), em 2006, para combater abusos físicos, psicológicos, financeiros e o abandono, dando origem à campanha Junho Violeta, que promove a defesa e a dignidade da população idosa.

Aliás, o Brasil é vanguardista nesse assunto, pelo fato de que em 2003 foi promulgada a Lei n.º 10.741, que dispõe sobre o Estatuto da Pessoa Idosa e dá outras providências 2.

Depois dessas breves considerações, só me resta deixar as seguintes palavras de Nelson Mandela, ativista, advogado, primeiro presidente negro da África do Sul e Prêmio Nobel da Paz em 1993, para sua reflexão: “Ser pela liberdade não é apenas tirar as correntes de alguém, mas viver de forma que respeite e melhore a liberdade dos outros”.

Afinal, isso significa que a liberdade exige de cada ser humano a responsabilidade, a alteridade e a construção de um ambiente social que permita não só a emancipação individual quanto a coletiva.

JUNHO VIOLETA / Dia Mundial de Conscientização da Violência contra a Pessoa Idosa



domingo, 14 de junho de 2026

CASAS AZUIS

Muitos devem se lembrar do programa A Arca de Noé, inspirado no álbum de mesmo nome, idealizado pelo poeta Vinicius de Moraes e lançado originalmente em 1980. Dentre as canções estava "A Casa", de Vinícius de Moraes e Toquinho. Então, passados 46 anos, a ideia daquela casa sem número, rua, rede ou pia, nos permite olhar além do lúdico, priorizando o "ser" ao contrário do "ter". Assim, resolvi escrever sobre as CASAS AZUIS, os abrigos modulares e montáveis doados pela Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), os quais, apesar de todos os pesares, ainda conseguem resguardar um pouco de paz e de esperança para a humanidade.


quarta-feira, 10 de junho de 2026

É preciso ver além do pão e circo ...


É preciso ver além do pão e circo ...

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Apesar de ser um elemento conectivo entre os seres humanos, não raros os momentos, ao longo da história, em que os esportes foram utilizados para a reafirmação de poder e de instrumento de alienação social.  

Certos governantes sempre utilizaram grandes eventos e manifestações de aptidão física para unificar os cidadãos sob uma bandeira, e dessa forma distraírem a massa em relação aos problemas estruturais internos e legitimar ideologias de superioridade nacional ou racial.

Quem nunca ouviu a expressão "pão e circo", tradução do latim “panem et circenses”?! Durante a Roma Antiga, ela foi utilizada pela primeira vez, pelo imperador Otávio Augusto, como política que garantia a distribuição de trigo e espetáculos nas arenas romanas a fim de desviar o foco da população das crises políticas e da pobreza.

Depois, com a queda de Roma e o advento do sistema feudal, a dinâmica mudou. De modo que o controle social passou a ser exercido fortemente pela religião e pela monarquia absolutista, com festividades religiosas e execuções públicas servindo muitas vezes como válvulas de escape e espetáculos de massa para a população mais frágil e vulnerável.

Lembra do filme Coração de Cavaleiro 1 (A Knight's Tale), de 2002, dirigido por Brian Helgeland? Trata-se de um ótimo exemplo de como o esporte cativava as massas medievais, desviando o foco de questões sociais e funcionando especificamente como um palco para ascensão social e controle.

Então, a partir da contemporaneidade, a lógica do "pão e circo" evoluiu para a indústria cultural e a política de massas, em que governos democráticos e regimes autoritários, ao redor do mundo, passaram a utilizar grandes eventos esportivos, shows patrocinados e o controle da mídia, como formas de promover o ufanismo, elevar a popularidade de seus líderes e desviar a atenção pública de crises econômicas ou corrupção.

O caso mais emblemático ocorreu nas Olimpíadas de Berlim, em 1936, quando Adolf Hitler tentou transformar o evento em uma vitrine para promover a ideologia da suposta supremacia ariana. Fato muito bem retratado pelo filme Raça 2 (Race), de 2016, dirigido por Stephen Hopkins.

Inicialmente, houve um grande movimento nos EUA para boicotar o evento, por conta das políticas de segregação e discriminação do regime nazista. No entanto, o filme mostra como o Comitê Olímpico Internacional (COI), na figura de um de seus membros, saiu pela Alemanha, ignorando os sinais de perseguição e fazendo acordos para garantir que os Estados Unidos competissem, argumentando que a política e o esporte não deveriam se misturar.

Portanto, o que aconteceu na Alemanha nazista, em 1936, representou a abertura de um importante precedente para que as mais importantes instituições ligadas ao esporte mundial se permitissem influenciar por interesses políticos, deixando os ideais desportivos em último plano.

Em 1970, durante um dos momentos mais tenebrosos da repressão militar no Brasil, o governo se apropriou da conquista do tricampeonato mundial de futebol, a partir do ufanismo gerado em torno da seleção. Assim, a conquista foi usada para promover a alienação política, mascarar a censura e a tortura, e fomentar um falso sentimento de grandeza e unidade nacional.

Aliás, o mesmo ocorreu na Argentina, em 1978. Quando a conquista da Copa do Mundo serviu para tentar encobrir todos os atentados aos direitos humanos, ou seja, os desaparecimentos, os sequestros e os assassinatos, que ocorreram no país durante aquele período.

Portanto, esse é o grande ponto de reflexão para o momento atual da contemporaneidade. O uso do esporte para legitimar regimes antidemocráticos e/ou desviar a atenção internacional sobre questões fundamentais, tais como os direitos humanos, as guerras e as crises socioeconômicas, conhecido como sportwashing, não pode ser invisibilizado sob a fachada de exaltação nacional e de festividade global.

Afinal, é exatamente isso que está acontecendo às vésperas da Copa do Mundo de 2026, a ser realizada nos EUA, México e Canadá. A imprensa já dá conta de que tem ocorrido intensos protestos e alertas devido à ausência de transparência e riscos aos direitos humanos.

Diversas denúncias relatam desde ações de segurança hostis contra delegações e jornalistas até alertas gerais emitidos por organizações da sociedade civil; sobretudo, em território estadunidense.

Os principais casos falam do extremo controle migratório e perfilamento étnico nos EUA, apontando abusos nas fronteiras e fiscalização abusiva contra visitantes e participantes dos jogos. Também, casos de revistas vexatórias, com uso de detectores de metal na pista do aeroporto durante o desembarque de certas pessoas, vem repercutindo fortemente.

Grupos de defesa da diversidade e torcedores de diversos países temem a insegurança para transitar e se manifestar nos EUA e no México, citando legislações estaduais restritivas e o histórico de violência contra pessoas transexuais.

No Canadá, ativistas falam sobre o deslocamento forçado e a remoção de pessoas em situação de rua de abrigos de inverno para dar lugar a espaços e comitivas requisitadas pela organização do evento.

E nessa história toda, onde ficou a beleza do esporte?! Grandes eventos esportivos deveriam se concentrar na promoção da coesão social, da inclusão de minorias e do sentimento de identidade coletiva global.

Afinal, a função principal do esporte é disseminar valores como respeito, cooperação e paz, além de contribuir para as transformações urbanas, o turismo e o desenvolvimento econômico; sobretudo, nas cidades-sede.

Infelizmente, esses têm sido tempos difíceis e tristes para a humanidade, dada a dificuldade de unir nações e comunidades em torno de um propósito comum, gerando orgulho cívico e quebrando barreiras culturais, religiosas e políticas. Parece cada vez mais impossível por conta das guerras, dos conflitos, da beligerância em suas mais diversas formas, alcançar esses objetivos.

O esporte não é apenas competição, mas uma ferramenta fundamental para unir seres humanos, promover a inclusão social e criar espaços seguros para o diálogo.

Contudo, a Copa do Mundo de 2026 está transitando na contramão desses valores e contribuindo para o recrudescimento das tensões e das violências. A tensão diplomática presente, antes mesmo do evento começar, já retira o brilho e o entusiasmo que esse tipo de competição sempre desfrutou.

Diferentemente das edições anteriores, onde se buscava uma estrita neutralidade, o Mundial de 2026 tem lidado com interferências diretas de Estados sobre o esporte.

Por isso, a partir desse recorte esportivo, se torna imprescindível tecer uma reflexão mais ampla e profunda do que está acontecendo no mundo, nesse exato momento, na perspectiva das seguintes palavras de Bertolt Brecht: “Primeiro levaram os negros. Mas não me importei com isso. Eu não era negro. Em seguida levaram alguns operários. Mas não me importei com isso. Eu também não era operário. Depois prenderam os miseráveis. ​​Mas não me importei com isso. Porque eu não sou miserável. Depois agarraram uns desempregados. Mas como tenho meu emprego, também, não me importei. Agora eu estou sendo levado. Mas já é tarde. Como eu não me importei com ninguém, ninguém se importa comigo”.

sábado, 6 de junho de 2026

Colonialismo Químico


Colonialismo Químico

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

O impacto de duas notícias me fazem escrever esse texto, “Produtores de soja são acusados de intoxicar indígenas com agrotóxicos em Rondônia” 1 e “Sem a União Europeia, Brasil pode deixar de exportar quase US$ 2 bilhões ao ano em carnes; entenda” 2. Pode não parecer mas os assuntos apresentam um ponto em comum, as práxis produtivas brasileiras.

Não é de hoje que faço considerações a respeito do ranço colonial que afeta a dinâmica do desenvolvimento e do progresso brasileiro. Historicamente, as práticas de produção agrícola e animal brasileiras não envolvem uma preocupação real em relação à natureza dos processos empregados e seus impactos sobre a saúde do consumidor ou às diretrizes que envolvem o comércio exterior.

Por décadas, o modelo se baseou na expansão de fronteiras e na alta produtividade a curto prazo, priorizando a ocupação territorial e o volume de exportações em detrimento da sustentabilidade e das exigências sanitárias.

Haja vista, por exemplo, que o Brasil é um dos maiores consumidores mundiais de agrotóxicos, impulsionado pela extensão e intensidade de sua produção agrícola.

E isso acontece em razão do chamado Colonialismo Químico. Sim, grandes empresas do setor químico, com sede principalmente na Europa e nos EUA, produzem e exportam toneladas de pesticidas que não utilizam em seus próprios territórios, porque dispõem de amplo mercado consumidor em países em desenvolvimento, cujas legislações ambientais e sanitárias são, em geral, menos restritivas e/ou apresentam processos de avaliação mais demorados.

Por essa razão é que certos agrotóxicos continuam sendo amplamente utilizados no Brasil. É o caso, por exemplo, do glifosato, do mancozebe e da atrazina.

Apesar de enfrentarem fortes restrições ou terem sido proibidos no exterior devido a evidências científicas que os associam a riscos de contaminação da água, danos aos ecossistemas como, por exemplo, a morte de abelhas, e graves impactos à saúde humana, incluindo distúrbios hormonais e doenças neurológicas, lamentavelmente, eles fazem parte da realidade agrícola brasileira.

De modo que a utilização de substâncias banidas em outros países se mostra um verdadeiro desafio diplomático e comercial para o agronegócio brasileiro. Afinal, estamos falando de uma relação comercial completamente assimétrica.

Posto que o uso desses agrotóxicos no Sul Global, principal mercado consumidor desses produtos, resulta em alimentos produzidos com concentrações de compostos químicos superiores às permitidas para importação na Europa e nos EUA, por exemplo.

Assim, essas commodities agrícolas quando chegam ao mercado internacional, podem ser barradas por ultrapassarem os limites sanitários.

Fazendo com que o verdadeiro custo dessa assimetria recaia sobre os países produtores, na medida em que implica diretamente em riscos à saúde dos trabalhadores rurais, das comunidades locais próximas as áreas de produção, além da contaminação ambiental da água e do solo, enquanto os lucros da venda dos defensivos permanecem concentrados nas indústrias químicas estrangeiras.

Entretanto, apesar disso não se pode desconsiderar o fato de haver uma resistência por parte de muitos produtores agrícolas brasileiros quanto a promover mudanças radicais nas práticas de manejo, interrompendo o histórico ciclo do Colonialismo Químico.  

Isso se dá em razão dela derivar de fatores econômicos e estruturais. Ora, essas práticas têm um histórico de incentivos e subsídios no modelo agrícola nacional. E para superar essas barreiras, então, é necessário promover um novo alinhamento das políticas públicas com alternativas economicamente viáveis.

Veja, esse modelo amplamente dependente de agroquímicos é, muitas vezes, estruturalmente mais barato a curto prazo devido a isenções fiscais, tornando o processo de transição um desafio financeiro imediato para o produtor. Além disso, a falta de assistência técnica em larga escala para métodos regenerativos e agroecológicos tende a gerar insegurança no campo, por parte do produtor rural.  

Contudo, o principal obstáculo para uma transição ecológica, para o Manejo Integrado de Pragas (MIP) ou Controle Biológico, reside no enorme poder político e econômico das indústrias transnacionais de pesticidas e de sua base de apoio no Congresso Nacional.

A partir dessa conexão político-ideológica é que se garante a aprovação acelerada de defensivos químicos sintéticos, atrasando  as políticas de redução desse tipo de consumo, dificultando a expansão do manejo sustentável e ecológico.

Basta observar, por exemplo, como o modelo latifundiário exportador é altamente dependente desse tipo de produtos agroquímicos, facilitando a concentração de mercado para eles, e o modo como os legisladores vinculados à bancada ruralista atuam para enfraquecer o rigor de órgãos como Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) no processo de registro desses produtos.

Por isso, enquanto o Colonialismo Químico permanecer naturalizado e banalizado na cultura econômica brasileira, o país continuará não só em constante sobressalto, no campo do comércio exterior, como padecendo de um franco adoecimento socioambiental derivado da utilização de produtos agroquímicos nas sua produções de alimentos.

Portanto, continuar nessa histórica condição de servir como lixão e/ou vitrine para agrotóxicos e outros produtos químicos banidos no mercado internacional, reforça a desimportância que é dada à soberania nacional.

Primeiro, porque a dependência de insumos importados ou controlados por corporações estrangeiras drena recursos que poderiam ser investidos em tecnologia, pesquisa e desenvolvimento de alternativas nacionais, como os bioinsumos.

Segundo, porque há uma subalternização territorial, considerando que o país é tratado como depósito de lixo químico e área de sacrifícios, gerando contaminação dos recursos naturais e promovendo o adoecimento de populações rurais e urbanas.

Por fim, porque há um controle da produção na medida em que a dependência desses insumos enriquecedores das corporações estrangeiras subordina o modelo agrícola local às demandas externas, colocando em risco a autonomia alimentar e a saúde pública.

Como bem escreveu Eduardo Galeano, escritor e jornalista uruguaio, “Na alquimia colonial e neocolonial o ouro se transfigura em sucata, os alimentos em veneno”. Afinal de contas, essas palavras desnudam a realidade perversa e cruel, na qual o sistema de exploração, em curso na história da humanidade, faz da riqueza local um instrumento para gerar atraso e subdesenvolvimento ao invés de progresso e desenvolvimento real.

sexta-feira, 5 de junho de 2026

DIA MUNDIAL DO MEIO AMBIENTE


DIA MUNDIAL DO MEIO AMBIENTE

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Em 1972, quando a Organização das Nações Unidas (ONU) estabeleceu o dia 5 de junho como Dia Mundial do Meio Ambiente, o cenário conjuntural do planeta já trazia os primeiros grandes alertas de que os recursos naturais estavam se esgotando rapidamente, devido à poluição e à degradação ambiental.

Desse modo o objetivo principal dessa data foi e continua sendo criar uma plataforma de reflexão global e ação coletiva para combater os desafios críticos que assolam a sociedade contemporânea, tais como o aquecimento global, a perda de biodiversidade e a poluição em suas mais diferentes formas.

Acontece que discutir as questões ambientais por si só não me parece suficiente, na medida em que elas são cortadas e atravessadas por seres humanos diversos e plurais. Não, não existe possibilidade de um debate ecológico sem discutir raça, classe e/ou desigualdade social.

O maior desafio para a construção da sustentabilidade e da justiça socioambiental está na desumanização em curso. Considerando que ela muitas vezes impulsionada pela hiperdigitalização, pelo individualismo, pelas desigualdades econômicas extremas e pela mercantilização das relações, cria um cenário onde o outro passa a ser visto como um recurso ou obstáculo, produz um estado no qual o ser humano é despido dos seus direitos fundamentais e da sua dignidade.

Por isso, não é possível se falar de meio ambiente invisibilizando o papel da figura humana. Cada indivíduo é parte indissociável desse ecossistema, atuando tanto como agente de transformação e degradação quanto como peça central para a conservação e regeneração.

Diante disso, a partir do ano 2000, foi estabelecida a teoria do Antropoceno, pelo químico Paul Crutzen e pelo biólogo Eugene Stoermer, a qual sugere que a Terra saiu do Holoceno, um período de estabilidade climática dos últimos 11.000 anos e entrou em uma nova fase, cujo impacto coletivo humano é tão profundo que fica registrado nas camadas de sedimentos do planeta por milhões de anos.

Em linhas gerais, isso significa que a humanidade se tornou a principal força motriz de alteração dos sistemas climáticos, biológicos e geológicos da Terra.

Portanto, quaisquer medidas de contenção e mitigação dos impactos ambientais negativos não podem ser alcançados e efetivados sem que haja uma transformação direta do pensamento social contemporâneo. Esse é o pilar estrutural para reverter a crise ambiental que vive a Terra.

Sem que haja uma evolução na capacidade crítico-reflexiva do ser humano, capaz de fazê-lo evoluir da exploração desenvolvida, e em curso, para uma ética de responsabilidade coletiva e intergeracional, a sobrevivência do planeta estará sob risco permanente.

O que significa que é essencial reconstruir uma cidadania planetária, promovendo a alteração de hábitos e comportamentos desde a base, substituindo o modelo de extrair, produzir e descartar pela economia circular, forçando o mercado a adotar práticas mais limpas de natureza preservacionista e de sustentabilidade.

Veja, o propósito da economia circular é estender o ciclo de vida dos produtos, transformando resíduos em novas matérias-primas e maximizando a proteção de recursos naturais.

Assim, há um redesenho dos produtos para que sejam mais resistentes, simples de serem reciclados e feitos de materiais recicláveis. Bem como, uma diminuição do consumo de matéria-prima e energia na fabricação, gerando menos resíduos desde a origem, e possibilitando dar novas funções a produtos e peças, mantendo-os em uso pelo maior tempo possível.

No entanto, a sociedade contemporânea está tão ensimesmada no seu casulo de indiferença, desrespeito, falta de empatia e distante do seu instinto de sobrevivência, que o negacionismo científico tornou-se uma zona de conforto favorável à sua inércia quanto ao exercício cidadão e humanitário.

Esse contexto, então, expõe como o egoísmo narcísico e a desinformação paralisam o indivíduo, afastando-o da sua responsabilidade coletiva e da preservação da própria vida.

Isolados em suas bolhas digitais e preocupações exclusivas, os indivíduos perdem o sentimento de pertencimento a uma coletividade, o que dificulta o exercício da alteridade, ou seja, a capacidade de se colocar no lugar do outro.

Assim, a racionalidade egoísta e imediatista sufoca o instinto de autopreservação da espécie, uma vez que os fatos exigem uma visão de longo prazo e um esforço cooperativo, no qual a lógica individualista não consegue abarcar.

Diante desse cenário impulsionado pelo excesso de informações, pela polarização e pelo individualismo, cujo objetivo é levar não só ao isolamento e à priorização dos interesses privados em detrimento do bem-estar comunitário, tem-se o surgimento de uma dificuldade extrema de compreensão de perspectivas divergentes, bloqueando o diálogo e a construção de uma sociedade empática, humanitária e fraterna.  

Por essas e outras é que o DIA MUNDIAL DO MEIO AMBIENTE precisa se tornar um ponto de partida para se refletir sobre o modo como tudo isso gera uma perigosa inércia institucional e moral, onde a indiferença diante da vulnerabilidade socioambiental facilmente se torna normalizada.

Daí se tornar tão fundamental exigir que o debate abandone o campo meramente simbólico para proteger, de fato, contra as falhas sistêmicas que perpetuam a crise climática e social no planeta. 

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Consequências e desdobramentos da falta de fiscalização


Consequências e desdobramentos da falta de fiscalização

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Se eu tivesse que eleger uma palavra para sintetizar o imbróglio social brasileiro, configurado pelas promíscuas relações entre a corrupção, a lavagem de dinheiro e o crime organizado, seria FISCALIZAÇÃO.

Querendo ou não, o ato de fiscalizar traz para a realidade um alinhamento aos limites éticos, institucionais, sociais, preestabelecidos por normas, regras, protocolos, portarias e legislações.

Portanto, ele não se dá por pó de pirlimpimpim! Para que haja fiscalização é preciso indivíduos imbuídos dessa tarefa, preparados e competentes, o bastante, para cumpri-lo corretamente.

Acontece que a fiscalização, no Brasil, traz marcas históricas de patrimonialismo e interferência política, com raízes desde o Brasil Império.

Sim, historicamente, não há como negar que a estruturação de órgãos de controle sempre padeceu de dificuldades fundamentais e de pressão, resultando em episódios recorrentes de corrupção sistêmica, corporativismo e fragilidade institucional até a consolidação da democracia contemporânea.

De modo que diante da contemporaneidade em si, com todo o seu discurso sobre uma liberdade plena e irrestrita, eis que a fiscalização se tornou ainda mais esgarçada e desprezada no país. O que significa que essa desconexão recrudesceu a impunidade, a precarização dos direitos e a desinformação.

Infelizmente, essa falácia prejudica a regulação em múltiplos setores, onde o poder do Estado ora se torna excessivamente burocrático e oneroso para quem atua na legalidade, ora se mostra omisso diante de abusos, dificultando a coibição de crimes econômicos, ambientais e digitais.

Daí o fato de que muitos, quando ela é aplicada, acabam sendo convencidos de que a fiscalização é sinônimo de arbitrariedade, quando na verdade não é. Ela é somente um ato técnico, preventivo e corretivo, pautado na legalidade.

Diante da avalanche de escândalos que vive o Brasil, nesse momento, não deveríamos, então, nos surpreender com a dimensão dos fatos apresentados bem diante do nosso nariz.

Se por um lado a fiscalização permitiu descobrir o que estava acontecendo, por outro, o grande problema foi que essa descoberta chegou com tamanho atraso que a situação em si já estava fora de controle. Portanto, em algum ponto, em razão de alguém ou de alguéns, por esse ou aquele motivo, a fiscalização falhou.

Aí, então, bate uma sensação horrível de fracasso social. Porque a falta de fiscalização, infelizmente, reflete sim um ciclo vicioso que perpetua a impunidade e o descaso, como na velha história do cachorro correndo atrás do rabo, que não chega a lugar nenhum; mas, traz profundos prejuízos e uma reafirmação da histórica crise antiética nacional.

Começando pela exposição clara e contundente de que a ausência de controle abre portas para a corrupção, a sonegação fiscal e o desvio de verbas públicas. O dinheiro que deveria ser investido em serviços essenciais acaba perdido, gerando desigualdade e travando o desenvolvimento do país.

Como? Sem uma fiscalização rigorosa, as análises de serviços e gestores não são cobradas por padrões de excelência, resultando em infraestruturas precárias e serviços ineficientes.

Algo que torna a sociedade refém de tragédias evitáveis ​​e de riscos à vida, na medida em que a fiscalização frouxa permite, por exemplo, desastres ambientais, abusos trabalhistas e insegurança nas cidades.

É, não precisa ser nenhum gênio para entender que, quando as leis e as regulamentações são ignoradas, negligenciadas em suas consequências, cria-se o sentimento de que o crime compensa, e isso inevitavelmente enfraquece as instituições, corrompe a ética cidadã e desmotiva aqueles que agem corretamente.

Assim, lembremo-nos do que dizia Jean-Jacques Rousseau, filósofo, escritor e compositor genebrino, "Em política, tal como na moral, é um grande mal não fazer bem, e todo o cidadão inútil deve ser considerado um homem pernicioso".

Afinal, a omissão é tão prejudicial quanto à ação destrutiva. Aquele que se aliena da vida pública, que consome recursos sem gerar valor cívico, torna-se tóxico e nocivo porque a sua omissão enfraquece o respeito, a ética e a civilidade, permitindo que a corrupção e a desigualdade se fortaleçam e se perpetuem.