Desenvolvimento
humano ...
Por Alessandra
Leles Rocha
A notícia de que o Brasil atingiu
em 2024 sua melhor marca histórica no Índice de Desenvolvimento Humano
Municipal (IDHM), chegando a 0,805 e ingressando pela primeira vez na faixa de muito
alto desenvolvimento humano, apesar de importante, me trouxe um outro viés de
reflexão. Quando a linguagem falha, a percepção humana precisa se apoiar na
observação atenta e na intuição para captar a verdadeira essência das coisas,
além da superfície dos discursos.
Nesse caso, por exemplo, desenvolvimento
humano muito alto, segundo os especialistas quer dizer que a população de um
país ou região desfruta de excelente qualidade de vida, ou seja, longa
expectativa de vida ao nascer, elevados níveis de escolaridade e anos de estudo
e boa distribuição de riqueza e alto Produto Interno Bruto (PIB) per capita.
Acontece que o desenvolvimento
humano não é um mero conceito; mas, uma construção social que depende
sobremaneira dos valores e princípios de cada um dos milhões de habitantes do
planeta. Por isso, ele vai muito além das métricas econômicas, demandando uma
compreensão a respeito de ser uma construção social viva, moldada diariamente
pelas escolhas, valores e pela ética de cada indivíduo. De modo que cada ação,
por menor que pareça, compõe a cultura e a direção da sociedade, influenciando
a educação, a empatia e a justiça social.
Então, eu tenho feito
continuamente a mesma pergunta, será que a humanidade tem realmente conseguido
mostrar o seu desenvolvimento humano enquanto ser social? O avanço material nem
sempre caminha lado a lado com a evolução empática, solidária e gregária. A
ascensão de bolhas digitais, a intensa polarização política e a perpetuação das
desigualdades demonstram que ainda se prioriza o bem-estar de grupos isolados
em detrimento da comunidade global. Sem contar que diversos documentos
institucionais e relatórios globais apontam que a distância entre países ricos
e pobres aumentou nas últimas décadas.
A tal ponto que tem havido um
esforço grandioso para transcender a mera sobrevivência biológica e abraçar uma
responsabilidade social complexa; visto que, e ser humano necessita viver em
grupo para se desenvolver sob todos os aspectos, mas o desafio atual é expandir
essa noção de grupo para toda a humanidade e o meio ambiente.
Infelizmente, a priorização de
grupos isolados entra em choque com o aspecto subjetivo do desenvolvimento
humano, ou seja, a percepção de liberdade, realização pessoal, pertencimento e
dignidade, que transcende o acúmulo material e exige equidade, interdependência
e valores universais. Tanto que a própria Organização Mundial da Saúde (OMS) já
reconheceu o impacto da falta de conexões globais e da solidão como ameaças à
saúde pública, comprometendo a qualidade de vida geral.
Por isso, políticas focadas
apenas na blindagem de minorias ricas ou grupos específicos, permitindo que
grandes contingentes populacionais fiquem à margem dos benefícios sociais, vem
recrudescendo os impeditivos para a consolidação de uma cidadania universal. Haja
vista, como o aumento da xenofobia e das crises migratórias recrudesce os
discursos nacionalistas e protecionistas levando ao fechamento de fronteiras,
criminalização da migração e políticas de asilo restritivas, o que se torna um
forte limitador do acesso aos direitos básicos.
Sem contar que tais discursos
fortalecem a ascensão do extremismo e do autoritarismo, com o enfraquecimento
das instituições democráticas em diversas nações, somado à ascensão de governos
populistas, os quais promovem a violação sistêmica dos direitos fundamentais e
o retrocesso de garantias civis e políticas. Inclusive, permitindo a relativização
cultural dos direitos humanos, a partir de argumentos de soberania nacional ou
particularismos culturais frequentemente instrumentalizados para justificar a
supressão de direitos de minorias, mulheres e grupos LGBTQIA+, minando o
conceito de que os direitos devem valer universalmente para todos.
Nesse contexto, então, ao pensar
a respeito do desenvolvimento humano, na contemporaneidade, tem-se que o ser
humano é confrontado com uma realidade perversa e cruel, na qual além da extrema
concentração de renda e a precarização das relações de trabalho globais, impedindo
que bilhões de pessoas acessem direitos elementares, como saúde, moradia e
educação, existem guerras prolongadas e internacionais, em curso, gerando
deslocamentos em massa e instalações onde o Estado de Direito deixa de existir,
tornando a ideia de cidadania uma abstração distante para as populações
atingidas.
O que significa que a raça humana
está, portanto, ainda distante de consolidar de maneira plena o seu ideal de desenvolvimento
humano, porque lhe falta humanidade, empatia, alteridade e solidariedade. Afinal
de contas, ele não se mede apenas pelo avanço econômico, tecnológico ou
material, mas pela capacidade da sociedade de garantir justiça social,
acolhimento e liberdade. Ações práticas que conectam as pessoas, promovendo a
cooperação e o cuidado mútuo para além de si mesmo, a partir do reconhecimento
do outro como um ser legítimo, único e diferente de qualquer um.
