quarta-feira, 27 de maio de 2026

A imposição de padrões estéticos inatingíveis e a visão do envelhecimento


A imposição de padrões estéticos inatingíveis e a visão do envelhecimento

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Correndo os olhos pelos veículos de comunicação, tradicionais ou alternativos, não há um dia sequer em que a vida ceifada por procedimentos estéticos não apareça em destaque. De repente, comecei a entender que o tênue limite entre a vida e a morte não está se estreitando somente em razão das violências já conhecidas; mas, por um outro viés, não menos perverso e cruel.

Desde que a contemporaneidade transformou pessoas em coisas, em objetos, reduzindo a essência humana a uma mercadoria com valor de troca, submetendo a existência à lógica financeira, a corrida pela eterna juventude expressa através da imagem disparou. O ciclo natural da vida, no seu nascer, crescer, envelhecer e morrer, agora, não pode mais seguir seu fluxo natural; porque, envelhecer se tornou fora de questão.

Frequentemente estigmatizado, o envelhecimento vem se consolidando como um contraponto à produtividade e à juventude. Ainda que reflita uma tentativa ilógica de negar o processo biológico em prol de padrões estéticos e mercadológicos inalcançáveis, resultando na exclusão social e no etarismo. Afinal, o envelhecimento natural passou a ser visto como uma falha a ser corrigida.

Caso contrário, uma legião decide bradar, em altos decibéis, que a dignidade e a relevância social de quem se permite envelhecer numa boa, pode e deve ser questionada. Desse modo todo o debate sobre os direitos e a valorização da memória e da experiência humana é sumariamente descartado, para que sejam criadas outras oportunidades de consumo, as quais exijam que as pessoas se mantenham exaustivamente ativas e financeiramente capitalizadas nessa fase da vida.

Acontece que, enquanto o mercado e o imaginário social promovem uma verdadeira cruzada para esconder a maturidade, a biologia segue seu curso natural, impondo transformações físicas e cognitivas inevitáveis ao longo do ciclo da vida. A imposição de padrões estéticos irreais para evitar que o envelhecimento demonstre à sua inevitável decadência, não consegue impedir aquilo que acontece por dentro, no mais profundo do DNA humano.

Quando o corpo, a partir de certo ponto, inicia os processos naturais de senescência, ou seja, da perda gradual de massa muscular, da diminuição da elasticidade da pele e das alterações bioquímicas e metabólicas, ainda que se possa desacelerar os impactos dessas mudanças através de hábitos saudáveis, o relógio biológico continua cumprindo sua trajetória natural.

Por isso, a busca incessante por uma juventude eterna e de corpos padronizados tem gerado não só uma pressão social imensa, como se transformado em uma violência psicológica e física contra a própria essência humana. Tal obsessão pela juventude e por padrões corporais inalcançáveis, ​​na contemporaneidade, se transformou em um gatilho severo para o adoecimento psíquico, o qual além de promover a exaustão mental, a ansiedade e a insatisfação crônica, alimenta o ciclo de comparação social que recusa do processo natural de envelhecimento.

Mas não é só isso.   Desse movimento em curso deriva uma tríade terrível que é a invisibilização do intelecto, da experiência e da singularidade humana. Haja vista que ao reduzir o valor do indivíduo à sua aparência física, a sociedade ofusca trajetórias profissionais, talentos artísticos e competências técnicas extraordinárias, marginalizando inúmeros profissionais experientes no mercado devido ao envelhecimento natural.

Portanto, é necessário reconhecer que esse cenário restritivo vem oferecendo a sua parcela de contribuição para o adoecimento populacional contemporâneo ao desencadear doenças mentais crônicas, transtornos alimentares e isolamento social. Além do dano emocional, essa cobrança impulsiona riscos físicos severos decorrentes de procedimentos estéticos invasivos e dietas extremas, caracterizando uma violência que muitas vezes é velada ou normalizada.

A grande verdade é que tudo isso só tende a levar ao recrudescimento de uma cultura de etarismo e alienação, a qual reduz a dignidade humana a uma mercadoria, onde o valor de uma pessoa passa a ser medido pela sua juventude e aparência, em vez de sua essência, história e capacidade intelectual. Tornando fundamental promover uma mudança sociocultural que valorize a autoaceitação, a diversidade de corpos e o respeito à maturidade. Reconhecer o envelhecimento como um processo natural e digno é um ato de resistência contra a superficialidade. 

Desenvolvimento humano ...

Desenvolvimento humano ...

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

A notícia de que o Brasil atingiu em 2024 sua melhor marca histórica no Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM), chegando a 0,805 e ingressando pela primeira vez na faixa de muito alto desenvolvimento humano, apesar de importante, me trouxe um outro viés de reflexão. Quando a linguagem falha, a percepção humana precisa se apoiar na observação atenta e na intuição para captar a verdadeira essência das coisas, além da superfície dos discursos.

Nesse caso, por exemplo, desenvolvimento humano muito alto, segundo os especialistas quer dizer que a população de um país ou região desfruta de excelente qualidade de vida, ou seja, longa expectativa de vida ao nascer, elevados níveis de escolaridade e anos de estudo e boa distribuição de riqueza e alto Produto Interno Bruto (PIB) per capita.

Acontece que o desenvolvimento humano não é um mero conceito; mas, uma construção social que depende sobremaneira dos valores e princípios de cada um dos milhões de habitantes do planeta. Por isso, ele vai muito além das métricas econômicas, demandando uma compreensão a respeito de ser uma construção social viva, moldada diariamente pelas escolhas, valores e pela ética de cada indivíduo. De modo que cada ação, por menor que pareça, compõe a cultura e a direção da sociedade, influenciando a educação, a empatia e a justiça social.

Então, eu tenho feito continuamente a mesma pergunta, será que a humanidade tem realmente conseguido mostrar o seu desenvolvimento humano enquanto ser social? O avanço material nem sempre caminha lado a lado com a evolução empática, solidária e gregária. A ascensão de bolhas digitais, a intensa polarização política e a perpetuação das desigualdades demonstram que ainda se prioriza o bem-estar de grupos isolados em detrimento da comunidade global. Sem contar que diversos documentos institucionais e relatórios globais apontam que a distância entre países ricos e pobres aumentou nas últimas décadas.

A tal ponto que tem havido um esforço grandioso para transcender a mera sobrevivência biológica e abraçar uma responsabilidade social complexa; visto que, e ser humano necessita viver em grupo para se desenvolver sob todos os aspectos, mas o desafio atual é expandir essa noção de grupo para toda a humanidade e o meio ambiente.

Infelizmente, a priorização de grupos isolados entra em choque com o aspecto subjetivo do desenvolvimento humano, ou seja, a percepção de liberdade, realização pessoal, pertencimento e dignidade, que transcende o acúmulo material e exige equidade, interdependência e valores universais. Tanto que a própria Organização Mundial da Saúde (OMS) já reconheceu o impacto da falta de conexões globais e da solidão como ameaças à saúde pública, comprometendo a qualidade de vida geral.

Por isso, políticas focadas apenas na blindagem de minorias ricas ou grupos específicos, permitindo que grandes contingentes populacionais fiquem à margem dos benefícios sociais, vem recrudescendo os impeditivos para a consolidação de uma cidadania universal. Haja vista, como o aumento da xenofobia e das crises migratórias recrudesce os discursos nacionalistas e protecionistas levando ao fechamento de fronteiras, criminalização da migração e políticas de asilo restritivas, o que se torna um forte limitador do acesso aos direitos básicos.

Sem contar que tais discursos fortalecem a ascensão do extremismo e do autoritarismo, com o enfraquecimento das instituições democráticas em diversas nações, somado à ascensão de governos populistas, os quais promovem a violação sistêmica dos direitos fundamentais e o retrocesso de garantias civis e políticas. Inclusive, permitindo a relativização cultural dos direitos humanos, a partir de argumentos de soberania nacional ou particularismos culturais frequentemente instrumentalizados para justificar a supressão de direitos de minorias, mulheres e grupos LGBTQIA+, minando o conceito de que os direitos devem valer universalmente para todos.

Nesse contexto, então, ao pensar a respeito do desenvolvimento humano, na contemporaneidade, tem-se que o ser humano é confrontado com uma realidade perversa e cruel, na qual além da extrema concentração de renda e a precarização das relações de trabalho globais, impedindo que bilhões de pessoas acessem direitos elementares, como saúde, moradia e educação, existem guerras prolongadas e internacionais, em curso, gerando deslocamentos em massa e instalações onde o Estado de Direito deixa de existir, tornando a ideia de cidadania uma abstração distante para as populações atingidas.

O que significa que a raça humana está, portanto, ainda distante de consolidar de maneira plena o seu ideal de desenvolvimento humano, porque lhe falta humanidade, empatia, alteridade e solidariedade. Afinal de contas, ele não se mede apenas pelo avanço econômico, tecnológico ou material, mas pela capacidade da sociedade de garantir justiça social, acolhimento e liberdade. Ações práticas que conectam as pessoas, promovendo a cooperação e o cuidado mútuo para além de si mesmo, a partir do reconhecimento do outro como um ser legítimo, único e diferente de qualquer um. 


segunda-feira, 25 de maio de 2026

A influência da verticalização no adoecimento populacional contemporâneo


A influência da verticalização no adoecimento populacional contemporâneo

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Sei que o assunto não é novidade para ninguém. Acontece que o adoecimento populacional contemporâneo, apresenta certos vieses que nem sempre são facilmente percebidos e/ou reconhecidos pelas pessoas.

De fato, a contemporaneidade tem impactado a população mundial em níveis de adoecimento físico e mental alarmantes. Em razão de certos processos como a aceleração do ritmo de vida, a hiperconectividade digital, a precarização das relações trabalhistas, as mudanças abruptas nas relações sociais e as diferentes formas de poluição, milhões de seres humanos estão vendo a sua saúde desaparecer muito rapidamente.

Mas, um aspecto que nem sempre se mostra visibilizado nas discussões e reflexões sobre o tema é a influência da nova organização social por conta do processo sistemático de verticalização urbana. Sim, o processo de crescimento e adensamento urbano focado na construção de edifícios altos ou de complexos condominiais edilícios tem a capacidade de comprometer a saúde populacional.

Assim, pensando à luz da saúde mental, por exemplo, a vida nesses espaços tem criado as chamadas bolhas sociais, que não só reduzem o sentimento de pertencimento comunitário, como dificulta a interação casual com a vizinhança. Também, é preciso destacar que o andar e o design inovador influenciam o bem-estar, na medida em que os moradores de andares mais baixos lidam frequentemente com maior poluição sonora, falta de privacidade e a sensação de insegurança. Sem contar que a perda de contato visual com o solo, a falta de áreas verdes e a poluição sonora crônica elevam os níveis de estresse.

Já em relação à saúde física, a construção de grandes torres pode causar sombreamento, bloqueando a luz solar direta, o que é essencial para a síntese de vitamina D e a regulação do humor. Outro aspecto importante é a dependência de elevadores, combinada com a falta de espaços públicos abertos, praças e parques seguros nas proximidades, que reduz significativamente as oportunidades para a prática de atividade física diária. Por fim, a alta densidade construtiva e de tráfego, associada à redução da ventilação natural, retém poluentes e material particulado no nível da rua, agravando problemas respiratórios e cardiovasculares.

Contudo, a situação pode se mostrar ainda mais crítica, quando se compreende a relação entre a saúde mental e as doenças autoimunes. Viver em espaços com alta densidade populacional, sem espaços de relaxamento mental e exposto a conflitos de convivência, pode manter o corpo em estado de alerta. Esse cenário é sim capaz de ativar cronicamente o eixo Hipotálamo-Pituitário-Adrenal (HPA), que é o principal sistema neuroendócrino responsável por regular a resposta do corpo ao estresse e manter o equilíbrio do organismo.

Assim, o estresse persistente eleva os níveis de cortisol e atrapalha a regulação das citocinas, pequenas proteínas sinalizadoras produzidas pelo sistema imunológico, gerando um quadro de inflamação crônica no organismo. Em pessoas com predisposição genética, essa inflamação contínua causa uma confusão no sistema imunológico, de modo que as células de defesa passam a atacar tecidos sensíveis do próprio corpo, abrindo caminho para o surgimento ou reativação de doenças autoimunes, tais como o lúpus, a artrite reumatoide ou a tireoidite de Hashimoto.

Em certos casos, o estresse contínuo desvia o fluxo sanguíneo do trato gastrointestinal e afeta a microbiota, o que pode causar o intestino permeável, o que permite que as toxinas e as bactérias caiam na corrente sanguínea, provocando reações imunológicas cruzadas que culminam no desenvolvimento ou exacerbação de doenças.

Além disso, não se pode esquecer que o estresse contínuo é um dos principais gatilhos para o desenvolvimento e agravamento da fibromialgia. Embora ela não seja uma doença autoimune, algumas dessas doenças pode sim amplificar a dor da fibromialgia, principalmente devido à inflamação e ao estresse contínuo no corpo. Assim, quando se tem uma doença autoimune, o estado inflamatório constante atua como potencializador para o sistema nervoso já sensibilizado pela fibromialgia.

Portanto, é desse modo que o estresse contínuo sobrecarrega o sistema nervoso, alterando a forma como o cérebro processa a dor e criando um ciclo vicioso onde a exaustão emocional piora os sintomas físicos. Uma condição crônica e altamente debilitante, cujas dores intensas, fadiga extrema e distúrbios do sono podem, sim, levar à incapacidade do trabalho e impactar severamente a rotina diária do indivíduo.

Ainda que o estresse não seja o único causador de doenças autoimunes ou da fibromialgia, a desregulação do eixo HPA atua como um potente gatilho, acelerando os episódios e aumentando os níveis de dor e agravamento nos indivíduos predispostos.

Por isso, concentrações elevadas de pessoas em um mesmo espaço geográfico tendem a causar microtensões cotidianas que disparam o eixo HPA, de modo que elas passam a apresentar fadiga crônica, manifesta por queda de energia e desregulação do ritmo circadiano, ou seja, com dificuldade em manter o sono ou acordar descansado; bem como, maior vulnerabilidade ao desenvolvimento de ansiedade, depressão e burnout.

Mas, também, há relatos de disfunções metabólicas, manifestas pela facilidade para armazenamento de gordura visceral, aumento da inflamação sistêmica e resistência à insulina. Afinal, o estresse social não cria doenças autoimunes, mas atua como um poderoso gatilho.

É nesse ponto, então, que se deve refletir a respeito da responsabilidade pelo cuidado e prevenção ao adoecimento em espaços verticalizados, algo que deve incluir uma atuação conjunta entre a gestão condominial, os moradores e o poder público, incluindo o Judiciário, focando tanto na saúde física quanto na saúde mental.

Nesse sentido, é importante destacar que tanto os (as) síndicos (as) quanto as administradoras são legalmente responsáveis por manter esses ambientes seguros e salubres. De que forma? Exigindo laudos técnicos periódicos de empresas especializadas para evitar acidentes e intoxicações. Promovendo a limpeza rigorosa de caixas d'água, piscinas e áreas de lazer, essencial para a prevenção de doenças infectocontagiosas. Garantindo a circulação do ar em áreas fechadas, uso de materiais adequados e prevenção de mofo/umidade. Mantendo rampas, pisos abertos e sinalização em dia para evitar quedas, principal causa de acidentes domésticos, especialmente com idosos e crianças.

Mas, principalmente, atuando na redução do estresse coletivo. A gestão de espaços verticalizados deve mitigar o estresse coletivo por meio de processos claros e responsáveis, da empatia ativa e da democratização das decisões. Em ambientes densamente povoados, a proximidade física exige que a administração atue não apenas como gestora de infraestrutura, mas como facilitadora da convivência harmoniosa e do bem-estar das pessoas. Posto que a falta de clareza gera embaraços, ansiedade e desconfiança.

Para isso, deve-se utilizar canais variados de comunicação, tais como aplicativos, murais, painéis, para manter os usuários conscientes de manutenções, finanças e regras. Disponibilizar relatórios contábeis claros, transparentes e fáceis de entender, por se tratar da base da prestação de contas anual em assembleia. Avisar com antecedência sobre obras e taxas extras, considerando que e choque financeiro é uma das maiores causas de estresse coletivo. Manter a ética na gestão, o que significa agir com autorização, através das deliberações em assembleias, tratando todos com igualdade, respeitando os quóruns exigidos por lei e colocando o bem-estar coletivo acima de preferências pessoais.

Especialmente, porque o regimento interno e a convenção devem ser aplicados da mesma forma para todos, independentemente de amizades ou posições de poder dentro do edifício. Daí a necessidade de envolver a todos os moradores e condôminos nas cotações e decisões importantes para garantir processos abertos e sem ocultações. Adotar a comunicação não violenta e a escuta ativa para resolver eventuais conflitos é sempre preferível à judicialização dos casos.  

Lembre-se de que a ausência ou negligência, quando o assunto é a gestão de conflitos em espaços verticalizados, transforma a proximidade física em um gatilho para o adoecimento coletivo. Diálogos truncados, ruídos desnecessários, desinformação e disputas em grupos de mensagens geram um desgaste emocional profundo, afetando a qualidade de vida de toda a comunidade condominial.