segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Na era do fogo é preciso desconfiar


Na era do fogo é preciso desconfiar

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Olhar para a realidade é sempre um impulso para a reflexão. Foi assim que, de repente, lembrei-me do poema de Bertolt Brecht, dramaturgo e poeta alemão do século XX, que diz: “Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo. / E examinai, sobretudo, o que parece habitual. / Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural nada deve parecer impossível de mudar”.

Por que razão tal lembrança? Bem, o texto de Brecht serve como uma ferramenta analítica e um manifesto político contra a alienação e a resignação diante de crises provocadas pela ação humana intencional. E por mais que uns e outros, por aí, estejam tentando “bancar a egípcia” e fingir que nada de anormal está acontecendo, a verdade é que está. Haja vista o número de incêndios repentinos que já destruíram espaços universitários 1, igreja 2, teatro 3, ambulâncias 4.

Espaços esses ligados a assuntos importantes em plena campanha eleitoral, tais como Educação, Religião, Cultura e Saúde.   De modo que não se pode banalizar, trivializar. É preciso apurar, investigar; pois, tamanha “coincidência” não parece habitual. Há quatro dias eu postei uma outra reflexão, cujo título é “Dizia Horácio, filósofo da Roma antiga, ‘Quando a casa do vizinho está pegando fogo, a minha casa está em perigo’” 5, dissecando o papel do fogo como combustível da guerra, do conflito, da dominação, da exploração e da aculturação.

Havemos de concordar que há sim uma relação entre o poema de Bertolt Brecht e a célebre frase do poeta romano Horácio, na medida em que ambos apontam para o senso de corresponsabilidade social e da necessidade de ação coletiva. Tais obras rejeitam a passividade diante da injustiça e do sofrimento alheio, alertando que o individualismo é uma ilusão perigosa.

Enquanto Horácio avisa que a tragédia do outro não nos é alheia, que ignorar o problema do vizinho por achar que estamos seguros é um erro estratégico e moral, pois o perigo inevitavelmente se espalhará, Brecht insiste que as injustiças do mundo não são leis naturais. Na verdade, elas são criadas por homens e, portanto, podem ser mudadas por homens, razão pela qual ele convoca o leitor a não aceitar o cruel e o injusto como coisas normais ou inevitáveis.

Sem contar que há um ponto fundamental, no contexto desses incêndios no Brasil, que merece a atenção de todos os cidadãos: a destruição de patrimônio público. O fogo não queimou só as estruturas, os prédios, os equipamentos, ... Queimou recursos públicos também. Portanto, tributos pagos pelos cidadãos e pelas empresas, além de outras fontes de arrecadação do Estado, para financiar as necessidades da sociedade e manter a máquina administrativa. Esse recurso que foi literalmente transformado em cinzas deixa, então, de gerar o retorno social esperado.

Para que os serviços voltem a funcionar, o Estado precisará gastar novamente. Esse dinheiro que será usado para reconstruir o que já existia deixará de ser investido em novas demandas, como saneamento básico, melhorias na saúde, expansão da educação ou segurança. Em termos econômicos, Em termos econômicos, esses incêndios geram um ciclo destrutivo de perda de eficiência fiscal.

Nesse cenário, a sociedade acaba pagando duas vezes pelo mesmo bem público, ou seja, uma para construí-lo e outra para recuperá-lo após a tragédia. Além disso, há o custo invisível da paralisação dos serviços durante o período de reconstrução, o que prejudica diretamente a produtividade e o bem-estar da população. Daí a necessidade de pensar que os incêndios criminosos ou agravados por omissão destroem estruturas estatais, de modo que o prejuízo financeiro e social é direto para o bolso do contribuinte.

Portanto, "Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo"! Certas ações aparentemente espontâneas na política são, na verdade, minuciosamente calculadas. É preciso olhar além da superfície das promessas e dos acontecimentos cotidianos durante o período de disputa pelo poder. O que parece coincidência muitas vezes é, na verdade, conveniência de interesses escusos.

MARIAs ...


MARIAs ...

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Nossa Senhora Aparecida, assim como todas as demais denominações atribuídas à mãe de Jesus, segundo relatos de suas aparições aos fiéis ao longo dos séculos, é bem mais do que um símbolo do sagrado na fé católica, ao contrário do que muitos pensam ou acreditam.

Independentemente da fé individual de cada ser humano, quem olha para Maria vê a mãe. Portanto, enquanto figura humana que foi, ela é a expressão do maternar que significa a prática contínua de afeto, de presença e de responsabilidade com o desenvolvimento de alguém.

Basta pensar que aquela menina foi mãe muito jovem. Deu à luz em condições de extrema vulnerabilidade, dadas as circunstâncias que a obrigaram proteger o seu filho. Cuidou daquela criança com todo o afeto e a consciência de lhe transmitir valores e princípios. Como milhares de mães, mundo afora, Maria maternou dentro das possibilidades e das impossibilidades que a vida colocou no seu caminho.

E dentro dessa perspectiva se torna realmente impossível admitir qualquer ofensa verbal, moral ou física à Nossa Senhora. Simplesmente, porque esse gesto de profundo desrespeito e incivilidade atenta contra milhões de mães sobre o planeta. Ofender Maria é, portanto, ofender a presença do feminino na humanidade.

Sim, ao agredir a figura que condensa a máxima dignidade atribuída à mulher em uma cultura, agride-se o próprio conceito e o seu valor no contexto da coletividade. E salvaguardar Maria é, na verdade, proteger a própria integridade moral das mulheres no mundo.

Talvez, esse seja o ponto de reflexão. Afinal, a presença do feminino na historicidade humana é marcado pela intolerância, pela violência, pela inacessibilidade de direitos, ... Enfim, por todo um conjunto de desrespeitos.  Se por um lado, ela foi utilizada para justificar a submissão das mulheres; por outro, serve como um símbolo de resistência, atitude e dignidade diante das injustiças.

Historicamente, as estruturas de poder, frequentemente dominadas por homens, construíram uma interpretação de Maria que servia para justificar a inacessibilidade de direitos e o desrespeito às mulheres reais. Aquelas que não se encaixassem nesse molde de pureza absoluta eram frequentemente marginalizadas, rotuladas como pecadoras, tal qual à figura de Eva, e expostas à violência e à intolerância.

Desse modo, a virtude de Maria mais celebrada pelo patriarcado foi o seu silêncio, a sua obediência passiva e a sua capacidade de suportar a dor sem reclamar. Essa imagem foi usada por séculos para educar mulheres a aceitarem casamentos abusivos, a violência doméstica e a falta de direitos civis como se fossem vocações sagradas de sacrifício.

Acontece que Maria não foi passiva. Ela foi uma mulher pobre e marginalizada que, à sua maneira, proclamou justiça social. Exatamente por viver em uma época de extrema violência de Estado, com a ocupação romana, e de intolerância, a figura de Maria tornou-se o principal refúgio simbólico para mulheres que sofrem. Na devoção popular, ela é vista como a mãe que entende a dor da violência doméstica, da perda dos seus filhos para a violência e da falta de amparo.

Assim, a figura de Maria tem em si um caráter politizado que incomoda aos interesses do patriarcado e das alas mais conservadoras da sociedade. Porque a existência de uma figura feminina, imersa no simbolismo sagrado; mas, que é, ao mesmo tempo, autônoma, central na história da salvação e portadora de um discurso de ruptura, desestabiliza discursos opressores. A ideia dessa Maria politizada e forte é visto como uma ameaça à ordem estabelecida.

Então, de repente, surge entre certos grupos da sociedade pessoas que passam a atacar a figura de Nossa Senhora da Aparecida ou de qualquer outra denominação, como uma expressão catártica do seu desconforto diante da presença feminina que incomoda os pilares de poder e, de certo modo, legitima a resistência e a busca por justiça social.

Para estruturas baseadas na manutenção de hierarquias rígidas, uma figura feminina central que valida a voz dos marginalizados torna-se inerentemente desconfortável. Por isso, destruir, diminuir ou demonizar o símbolo de Nossa Senhora é uma tentativa de deslegitimar a base moral daqueles que lutam por transformações. Na perspectiva dessas pessoas, caso o símbolo que une e fortalece os oprimidos seja neutralizado, enfraquece-se também a coesão do movimento que nele se apoia.

Acontece que apesar de os opositores acreditarem que essa estratégia de neutralização vai funcionar, a realidade se mostra oposta na medida em que o movimento não se apoia de forma tão frágil a ponto de ser destruído pelo ataque a um símbolo. A devoção se constrói a partir da consciência sobre uma Maria humana, cuja história foi escrita e registrada, e sobre a qual se pode exercitar a reflexão, criando raízes muito mais profundas na mente e no coração dos seguidores.

A presença ou não da imagem não rompe com a força e o potencial do simbólico. É só pensar quando abrimos um baú de memórias e cada fotografia, objeto, recordação, faz emergir sentimentos, emoções, repletas de intensidade e materialidade. A pessoa em si não está ali. O tempo não volta àquele exato momento. Mas, a conexão é real, plena.

De modo que qualquer ofensa verbal, moral ou física à Nossa Senhora ou à qualquer mulher não muda o curso da história que se estabelece há séculos. Como escreveram Milton Nascimento e Fernando Brant, “Maria, Maria é um dom, uma certa magia / Uma força que nos alerta / Uma mulher que merece viver e amar / Como outra qualquer do planeta ...” 1.

Afinal, Maria e tantas outras Marias existem e transcendem os limites da fé, da religiosidade. Porque se conectam ao que há de mais belo, mais puro, mais profundo. O que significa que elas personificam a capacidade humana de gerar vida, de resistir à dor e de manter a esperança viva, unindo-se diretamente com o sagrado que habita em cada um de nós.

domingo, 11 de outubro de 2026

A todos os (as) idosos (as) e aos que ainda irão envelhecer ...


A todos os (as) idosos (as) e aos que ainda irão envelhecer ...

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Pensar no futuro das gerações brasileiras não é slogan emocional. Nem frase de efeito vazia. Nem falta do que dizer. A todos que ainda não se deram conta o Brasil está envelhecendo rapidamente devido à queda na taxa de natalidade e ao aumento da longevidade, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em abril desse ano. O que significa que pessoas com 60 anos ou mais já somam cerca de 36 milhões, o equivalente a 16,6% da população total do país.

E por que refletir sobre essa situação é tão importante? Bem, a relação entre o envelhecimento populacional e as reformas trabalhistas recentes no Brasil criou um cenário crítico para a sustentabilidade da proteção social e a dignidade na velhice. Haja vista que o país passa por uma transição demográfica acelerada com o aumento de idosos e a redução de jovens em meio a uma flexibilização do trabalho que reduziu a base de contribuintes formais a sustentar o sistema de previdência social.

Portanto, está havendo uma quebra da solidariedade intergeracional. O Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), uma autarquia do governo federal brasileiro, vinculada ao Ministério da Previdência Social, criada em 1990, funciona no modelo de repartição simples, ou seja, os trabalhadores ativos formalizados pagam os benefícios de quem já está aposentado hoje. Desse modo, ao empurrar milhões de trabalhadores para a informalidade, o cooperativismo de fachada ou o trabalho por aplicativos, a Previdência perde a sua principal fonte de custeio que é a contribuição patronal e a carteira assinada.

E quando se pensa na figura ilusória do Microempreendedor Individual (MEI), ela esconde a subcontribuição. Acontece que o MEI contribui com apenas 5% do salário-mínimo para a previdência, enquanto um trabalhador celetista gera uma arrecadação muito maior pelo fato de serem somadas a parte do empregado e do empregador. Por isso, quem contribui como MEI tem direito apenas à aposentadoria por idade, com valor de um salário-mínimo, e não por tempo de contribuição, o que achata a renda futura da população idosa.

Quanto à uberização do trabalho, um termo que descreve o novo modelo de relação profissional baseado no uso de plataformas digitais e aplicativos para conectar diretamente prestadores de serviço e consumidores, ela gerou uma massa de trabalhadores que não contribui regularmente para o INSS, seja por falta de renda suficiente ou pela burocracia do pagamento autônomo, como a Guia da Previdência Social - GPS.

O que explica, por exemplo, porque no curto prazo, esses trabalhadores ficam sem auxílio-doença ou licenças em caso de acidentes de trabalho. No longo prazo, ao atingirem a idade avançada, milhões de brasileiros não terão o tempo mínimo de contribuição necessário para se aposentar pelo INSS. Portanto, a uberização opera uma desinstalação dos direitos sociais conquistados ao longo do século XX.

Se no curto prazo ela se manifesta como o desespero de um entregador acidentado sem renda, no longo prazo ela se converterá em uma crise humanitária e demográfica, onde uma geração inteira de trabalhadores idosos se verá desprovida tanto de saúde física quanto de garantias mínimas de sobrevivência.

Entende, agora, por que é tão importante não permitir que a perda dos direitos sociais, garantidos constitucionalmente, venha de fato a ocorrer no Brasil, a partir de uma eventual ascensão da ultradireita?!   A radicalização dos cortes de direitos sociais, que já vem sendo amplamente divulgada pela ultradireita, instrumentaliza diretamente a chamada necropolítica. Desse modo, o desmantelamento das redes de proteção social não significa apenas uma métrica de ajuste econômico, mas um mecanismo político que decide quem tem condições de cooperar e prosperar, e quem é abandonado à própria sorte.

Aos que ainda não sabem, a Necropolítica é um conceito filosófico e político criado pelo filósofo camaronês Achille Mbembe que define o poder do Estado de decidir quem pode viver e quem deve morrer. Ao contrário de gerir e proteger a vida dos cidadãos, a necropolítica atua por meio da destruição de corpos, da negligência estatal e da criação de zonas de morte ou populações descartáveis.

Tal conceito se conecta à lógica da escravidão e do colonialismo, onde certas populações eram tratadas como subumanas e passíveis de eliminação. Nesse sentido, então, o racismo estrutural funciona como o principal instrumento que legitima a exposição de determinados grupos a condições precárias de existência ou à violência letal. Assim, a omissão do Estado em garantir saúde, saneamento básico, moradia e dignidade a grupos vulneráveis se traduz nesse conceito de "deixar morrer".

Portanto, não há como dissociar a manutenção dos direitos sociais e a escalada do envelhecimento populacional no Brasil. Como, também, não há como dissociá-los das claras intenções de implantação e recrudescimento da necropolítica no país. As transformações demográficas impõem desafios que, dependendo das escolhas governamentais, podem resultar na exclusão deliberada de parcelas vulneráveis da população.

Diante da realidade em que a população idosa e de baixa renda depende exclusivamente do Estado, quaisquer perdas de direitos sociais impacta diretamente a sua expectativa e qualidade de vida. É por essas e outras que debater o envelhecimento no Brasil atual vai muito além da matemática previdenciária das contas públicas; trata-se de uma disputa civilizatória sobre quais vidas o Estado brasileiro escolherá proteger e quais ele escolherá negligenciar.