segunda-feira, 12 de outubro de 2026

MARIAs ...


MARIAs ...

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Nossa Senhora Aparecida, assim como todas as demais denominações atribuídas à mãe de Jesus, segundo relatos de suas aparições aos fiéis ao longo dos séculos, é bem mais do que um símbolo do sagrado na fé católica, ao contrário do que muitos pensam ou acreditam.

Independentemente da fé individual de cada ser humano, quem olha para Maria vê a mãe. Portanto, enquanto figura humana que foi, ela é a expressão do maternar que significa a prática contínua de afeto, de presença e de responsabilidade com o desenvolvimento de alguém.

Basta pensar que aquela menina foi mãe muito jovem. Deu à luz em condições de extrema vulnerabilidade, dadas as circunstâncias que a obrigaram proteger o seu filho. Cuidou daquela criança com todo o afeto e a consciência de lhe transmitir valores e princípios. Como milhares de mães, mundo afora, Maria maternou dentro das possibilidades e das impossibilidades que a vida colocou no seu caminho.

E dentro dessa perspectiva se torna realmente impossível admitir qualquer ofensa verbal, moral ou física à Nossa Senhora. Simplesmente, porque esse gesto de profundo desrespeito e incivilidade atenta contra milhões de mães sobre o planeta. Ofender Maria é, portanto, ofender a presença do feminino na humanidade.

Sim, ao agredir a figura que condensa a máxima dignidade atribuída à mulher em uma cultura, agride-se o próprio conceito e o seu valor no contexto da coletividade. E salvaguardar Maria é, na verdade, proteger a própria integridade moral das mulheres no mundo.

Talvez, esse seja o ponto de reflexão. Afinal, a presença do feminino na historicidade humana é marcado pela intolerância, pela violência, pela inacessibilidade de direitos, ... Enfim, por todo um conjunto de desrespeitos.  Se por um lado, ela foi utilizada para justificar a submissão das mulheres; por outro, serve como um símbolo de resistência, atitude e dignidade diante das injustiças.

Historicamente, as estruturas de poder, frequentemente dominadas por homens, construíram uma interpretação de Maria que servia para justificar a inacessibilidade de direitos e o desrespeito às mulheres reais. Aquelas que não se encaixassem nesse molde de pureza absoluta eram frequentemente marginalizadas, rotuladas como pecadoras, tal qual à figura de Eva, e expostas à violência e à intolerância.

Desse modo, a virtude de Maria mais celebrada pelo patriarcado foi o seu silêncio, a sua obediência passiva e a sua capacidade de suportar a dor sem reclamar. Essa imagem foi usada por séculos para educar mulheres a aceitarem casamentos abusivos, a violência doméstica e a falta de direitos civis como se fossem vocações sagradas de sacrifício.

Acontece que Maria não foi passiva. Ela foi uma mulher pobre e marginalizada que, à sua maneira, proclamou justiça social. Exatamente por viver em uma época de extrema violência de Estado, com a ocupação romana, e de intolerância, a figura de Maria tornou-se o principal refúgio simbólico para mulheres que sofrem. Na devoção popular, ela é vista como a mãe que entende a dor da violência doméstica, da perda dos seus filhos para a violência e da falta de amparo.

Assim, a figura de Maria tem em si um caráter politizado que incomoda aos interesses do patriarcado e das alas mais conservadoras da sociedade. Porque a existência de uma figura feminina, imersa no simbolismo sagrado; mas, que é, ao mesmo tempo, autônoma, central na história da salvação e portadora de um discurso de ruptura, desestabiliza discursos opressores. A ideia dessa Maria politizada e forte é visto como uma ameaça à ordem estabelecida.

Então, de repente, surge entre certos grupos da sociedade pessoas que passam a atacar a figura de Nossa Senhora da Aparecida ou de qualquer outra denominação, como uma expressão catártica do seu desconforto diante da presença feminina que incomoda os pilares de poder e, de certo modo, legitima a resistência e a busca por justiça social.

Para estruturas baseadas na manutenção de hierarquias rígidas, uma figura feminina central que valida a voz dos marginalizados torna-se inerentemente desconfortável. Por isso, destruir, diminuir ou demonizar o símbolo de Nossa Senhora é uma tentativa de deslegitimar a base moral daqueles que lutam por transformações. Na perspectiva dessas pessoas, caso o símbolo que une e fortalece os oprimidos seja neutralizado, enfraquece-se também a coesão do movimento que nele se apoia.

Acontece que apesar de os opositores acreditarem que essa estratégia de neutralização vai funcionar, a realidade se mostra oposta na medida em que o movimento não se apoia de forma tão frágil a ponto de ser destruído pelo ataque a um símbolo. A devoção se constrói a partir da consciência sobre uma Maria humana, cuja história foi escrita e registrada, e sobre a qual se pode exercitar a reflexão, criando raízes muito mais profundas na mente e no coração dos seguidores.

A presença ou não da imagem não rompe com a força e o potencial do simbólico. É só pensar quando abrimos um baú de memórias e cada fotografia, objeto, recordação, faz emergir sentimentos, emoções, repletas de intensidade e materialidade. A pessoa em si não está ali. O tempo não volta àquele exato momento. Mas, a conexão é real, plena.

De modo que qualquer ofensa verbal, moral ou física à Nossa Senhora ou à qualquer mulher não muda o curso da história que se estabelece há séculos. Como escreveram Milton Nascimento e Fernando Brant, “Maria, Maria é um dom, uma certa magia / Uma força que nos alerta / Uma mulher que merece viver e amar / Como outra qualquer do planeta ...” 1.

Afinal, Maria e tantas outras Marias existem e transcendem os limites da fé, da religiosidade. Porque se conectam ao que há de mais belo, mais puro, mais profundo. O que significa que elas personificam a capacidade humana de gerar vida, de resistir à dor e de manter a esperança viva, unindo-se diretamente com o sagrado que habita em cada um de nós.

domingo, 11 de outubro de 2026

A todos os (as) idosos (as) e aos que ainda irão envelhecer ...


A todos os (as) idosos (as) e aos que ainda irão envelhecer ...

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Pensar no futuro das gerações brasileiras não é slogan emocional. Nem frase de efeito vazia. Nem falta do que dizer. A todos que ainda não se deram conta o Brasil está envelhecendo rapidamente devido à queda na taxa de natalidade e ao aumento da longevidade, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em abril desse ano. O que significa que pessoas com 60 anos ou mais já somam cerca de 36 milhões, o equivalente a 16,6% da população total do país.

E por que refletir sobre essa situação é tão importante? Bem, a relação entre o envelhecimento populacional e as reformas trabalhistas recentes no Brasil criou um cenário crítico para a sustentabilidade da proteção social e a dignidade na velhice. Haja vista que o país passa por uma transição demográfica acelerada com o aumento de idosos e a redução de jovens em meio a uma flexibilização do trabalho que reduziu a base de contribuintes formais a sustentar o sistema de previdência social.

Portanto, está havendo uma quebra da solidariedade intergeracional. O Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), uma autarquia do governo federal brasileiro, vinculada ao Ministério da Previdência Social, criada em 1990, funciona no modelo de repartição simples, ou seja, os trabalhadores ativos formalizados pagam os benefícios de quem já está aposentado hoje. Desse modo, ao empurrar milhões de trabalhadores para a informalidade, o cooperativismo de fachada ou o trabalho por aplicativos, a Previdência perde a sua principal fonte de custeio que é a contribuição patronal e a carteira assinada.

E quando se pensa na figura ilusória do Microempreendedor Individual (MEI), ela esconde a subcontribuição. Acontece que o MEI contribui com apenas 5% do salário-mínimo para a previdência, enquanto um trabalhador celetista gera uma arrecadação muito maior pelo fato de serem somadas a parte do empregado e do empregador. Por isso, quem contribui como MEI tem direito apenas à aposentadoria por idade, com valor de um salário-mínimo, e não por tempo de contribuição, o que achata a renda futura da população idosa.

Quanto à uberização do trabalho, um termo que descreve o novo modelo de relação profissional baseado no uso de plataformas digitais e aplicativos para conectar diretamente prestadores de serviço e consumidores, ela gerou uma massa de trabalhadores que não contribui regularmente para o INSS, seja por falta de renda suficiente ou pela burocracia do pagamento autônomo, como a Guia da Previdência Social - GPS.

O que explica, por exemplo, porque no curto prazo, esses trabalhadores ficam sem auxílio-doença ou licenças em caso de acidentes de trabalho. No longo prazo, ao atingirem a idade avançada, milhões de brasileiros não terão o tempo mínimo de contribuição necessário para se aposentar pelo INSS. Portanto, a uberização opera uma desinstalação dos direitos sociais conquistados ao longo do século XX.

Se no curto prazo ela se manifesta como o desespero de um entregador acidentado sem renda, no longo prazo ela se converterá em uma crise humanitária e demográfica, onde uma geração inteira de trabalhadores idosos se verá desprovida tanto de saúde física quanto de garantias mínimas de sobrevivência.

Entende, agora, por que é tão importante não permitir que a perda dos direitos sociais, garantidos constitucionalmente, venha de fato a ocorrer no Brasil, a partir de uma eventual ascensão da ultradireita?!   A radicalização dos cortes de direitos sociais, que já vem sendo amplamente divulgada pela ultradireita, instrumentaliza diretamente a chamada necropolítica. Desse modo, o desmantelamento das redes de proteção social não significa apenas uma métrica de ajuste econômico, mas um mecanismo político que decide quem tem condições de cooperar e prosperar, e quem é abandonado à própria sorte.

Aos que ainda não sabem, a Necropolítica é um conceito filosófico e político criado pelo filósofo camaronês Achille Mbembe que define o poder do Estado de decidir quem pode viver e quem deve morrer. Ao contrário de gerir e proteger a vida dos cidadãos, a necropolítica atua por meio da destruição de corpos, da negligência estatal e da criação de zonas de morte ou populações descartáveis.

Tal conceito se conecta à lógica da escravidão e do colonialismo, onde certas populações eram tratadas como subumanas e passíveis de eliminação. Nesse sentido, então, o racismo estrutural funciona como o principal instrumento que legitima a exposição de determinados grupos a condições precárias de existência ou à violência letal. Assim, a omissão do Estado em garantir saúde, saneamento básico, moradia e dignidade a grupos vulneráveis se traduz nesse conceito de "deixar morrer".

Portanto, não há como dissociar a manutenção dos direitos sociais e a escalada do envelhecimento populacional no Brasil. Como, também, não há como dissociá-los das claras intenções de implantação e recrudescimento da necropolítica no país. As transformações demográficas impõem desafios que, dependendo das escolhas governamentais, podem resultar na exclusão deliberada de parcelas vulneráveis da população.

Diante da realidade em que a população idosa e de baixa renda depende exclusivamente do Estado, quaisquer perdas de direitos sociais impacta diretamente a sua expectativa e qualidade de vida. É por essas e outras que debater o envelhecimento no Brasil atual vai muito além da matemática previdenciária das contas públicas; trata-se de uma disputa civilizatória sobre quais vidas o Estado brasileiro escolherá proteger e quais ele escolherá negligenciar.

A instrumentalização do ódio


A instrumentalização do ódio

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Diante da disseminação em massa do ódio, em todo o planeta, tenho exercitado profundamente a reflexão a respeito. E uma das hipóteses que me veio é de que o ódio é uma maneira de se agigantar frente ao outro, como se houvesse uma apropriação de elementos que configurassem um grau de importância e de significância sobre os demais.

Veja, somos aproximadamente 8,3 bilhões de seres humanos. Por mais visibilidade, publicidade e exibição façamos, a nossa existência em si passa despercebida pela imensa maioria. Somos, simplesmente, mais um na fila do pão. Essa é a verdade! Acontece que esse contexto se mostra bastante eloquente, quando as pessoas se dão conta de que não são tão importantes para pertencer, quanto gostariam.

Antes de pensar do pertencimento à luz da consumo, temos que compreender que ela é uma das motivações psicológicas mais básicas e poderosas que se tem, sendo fundamental para o bem-estar, a sobrevivência e o desenvolvimento. Por isso, a raça humana foi evolutivamente programada para buscar a aceitação do grupo e garantir a sua sobrevivência. Sentir-se pertencente promove felicidade e resiliência emocional, gerando um senso de propósito e significado, na medida em que se sabe onde estão as nossas conexões com o mundo, o que valida a nossa existência e eleva a nossa autoestima.

E por saber de tudo isso, a engenharia do consumo vem criando mecanismos cada vez mais potentes e poderosos para ampliar a necessidade de pertencimento, ainda que por vieses eticamente questionáveis, como é o ódio. Afinal, ela se deslocou da venda de produtos para a venda de identidades, engajamento e, fundamentalmente, emoções. Nesse sentido, para ampliar o sentimento de pertencimento, o mercado descobriu que o ódio e a polarização são os combustíveis mais eficientes para gerar engajamento contínuo.

De repente, a forma mais rápida de fazer alguém sentir que pertence a um grupo é apontar um inimigo comum. Para isso, os algoritmos de redes sociais e estratégias de marketing de nicho detectam que certo conteúdo gera indignação, se espalhando mais rápido e retendo a atenção por mais tempo. Ao consumi-lo, então, o indivíduo sinaliza não apenas quem ele é, mas, principalmente, a quem ele se opõe.

Assim, criam-se ecossistemas onde o passaporte de entrada é o compartilhamento de uma mesma aversão. Daí o ódio estético, político ou cultural se torna amplamente monetizado, graças ao surgimento de bolhas de consumo que validam a raiva do indivíduo, fazendo-o se sentir acolhido e protegido dentro daquele grupo.

Vale ressaltar também que os chamados movimentos de boicote e cancelamento foram absorvidos pela engenharia do consumo. Porque ela compreendeu que o ato de deixar de consumir algo, ou de atacar publicamente uma marca ou personalidade, virou uma performance pública de moralidade. Então, estimular o indivíduo a consumir a própria sensação de justiça para se sentir pertencente ao lado supostamente certo da história, é rentável.

A grande verdade é que a engenharia do consumo não defende a liberdade de escolha ou de decisão em relação ao ódio que alguém nutre por isso ou aquilo. O que as pessoas não percebem é que elas estão sendo usadas como instrumentos de monetização para as Big Techs. Cada indivíduo não passa de mera peça do capitalismo de vigilância e da economia da atenção.

Veja, enquanto a economia da atenção descreve o recurso escasso disputado pelas empresas, o capitalismo de vigilância descreve o método de monetização e controle baseado na extração de dados gerados por essa atenção. O seu ódio, consciente ou não, está gerando uma riqueza inominável para uma ínfima parcela de pessoas no planeta. O ódio que você semeia está regando as raízes cada vez amis profundas da desigualdade mundial.  

Portanto, é nesse cenário que ocorre a amplificação do ódio capaz de fragmentar o tecido social e aprofundar todas as formas de desigualdades, enquanto o custo real é pago pela sociedade em forma de polarização e erosão democrática. No fim das contas, todo o ódio que você despeja, muitas vezes sem saber exatamente o motivo, pois há muita manipulação e distorção para que isso aconteça, não resulta nada para você e tampouco para a sociedade.

Afinal de contas, esse tipo de manifestação distrai o coletivo social dos problemas estruturais reais e foca a energia em conflitos ideológicos ou culturais muitas vezes artificiais. Isso ocorre porque algoritmos de redes sociais e agentes políticos de desinformação lucram com o engajamento por indignação cientes de que os conteúdos que geram raiva ou medo se espalham mais rápido, criam bolhas onde a realidade é distorcida para manter as pessoas em constante estado de alerta e hostilidade.

O resultado prático desse processo é, então, a erosão democrática que representa o enfraquecimento gradual e contínuo das instituições, regras e valores de um regime democrático. O que poucos se dão conta é de que ela tende a estabelecer um ciclo vicioso de ódio e de esgarçamento da própria sociedade, considerando que ela retroalimenta o que há de pior no ser humano, como o medo, o preconceito e o desejo de pertencimento tribal, sentimentos que são frequentemente instrumentalizados por lideranças populistas para acumular mais poder.

Como escreveu Angie Thomas em "O Ódio Que Você Semeia" (The Hate U Give), de 2017, o ódio, seja ele de que natureza for, sempre se desdobra em um ciclo social destrutivo. Portanto, ele não surge no vácuo; mas, em razão do que a própria sociedade plantou na base.

Daí a necessidade de olhar para a própria história, para os interesses que fiaram e moldaram as estruturas de poder, para as dinâmicas de segregação, enfim. É fundamental separar o joio do trigo, para perceber se o que você não gosta é fruto de uma decisão sua ou de pura influência e manipulação de terceiros.