quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Dizia Horácio, filósofo da Roma antiga, “Quando a casa do vizinho está pegando fogo, a minha casa está em perigo”.


Dizia Horácio, filósofo da Roma antiga, “Quando a casa do vizinho está pegando fogo, a minha casa está em perigo”.

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Por sorte, sem registro de feridos ou vítimas fatais, um incêndio de grandes proporções destruiu o antigo prédio da Diretoria de Inovação e Empreendedorismo (Dine) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), localizado na Cidade Universitária, na Zona Oeste do Recife, na noite de ontem. O fogo gerou um prejuízo estimado em R$ 100 milhões e causou a perda irreparável de cerca de 20 anos de pesquisas científicas acumuladas. Então, é preciso refletir...  

O domínio e o uso do fogo aconteceram durante a Idade da Pedra, há cerca de 2,5 a 3,3 milhões de anos, quando como o Homo erectus aprendeu a criar chamas através do atrito de pedaços secos de madeira ou do choque entre pedras. Desde, então, o fogo tem sido um dos motores mais potentes da evolução, da cultura e do avanço tecnológico da humanidade, transformando profundamente a nossa relação com o meio ambiente e moldando o mundo contemporâneo.

Acontece que ele expressa a dualidade entre a criação e a destruição. Razão pela qual o mesmo elemento que iluminou a pré-história e permitiu o desenvolvimento cognitivo e social também atuou como um agente devastador de nossa própria memória. Ao longo dos séculos, grandes incêndios apagaram registros insubstituíveis, redesenhando o mapa do conhecimento e da cultura global.

Começando pela destruição da Biblioteca de Alexandria, no Egito. Talvez a perda cultural mais citada da história. Alexandria abrigava o maior centro de saber da Antiguidade, com centenas de milhares de rolos de papiro contendo obras de filosofia, matemática, astronomia e literatura.

Na verdade, sua destruição se deu por etapas, envolvendo o famoso incêndio acidental causado por Júlio César em 48 a.C. e ataques posteriores, até que o desaparecimento de seu acervo criou lacunas científicas e históricas que a humanidade levou séculos para tentar preencher.

Depois, o grande incêndio de Roma, em 64 d.C., durante o reinado do imperador Nero, quando o fogo consumiu 10 das 14 regiões da capital do Império Romano. Além da crise humanitária e política, as chamas destruíram templos antigos, palácios e incontáveis documentos oficiais, obras de arte gregas e registros históricos dos primeiros séculos de Roma, forçando uma reconstrução total da identidade urbana e arquitetônica da cidade.

Já no século XX, ocorreu a queima da Biblioteca de Lovaina, na Bélgica, em 1914 e 1940. Durante a Primeira Guerra Mundial, o exército alemão incendiou deliberadamente a biblioteca da Universidade de Lovaina, destruindo cerca de 300 mil livros e manuscritos medievais raros. Na Segunda Guerra Mundial, o local foi bombardeado e queimado novamente.

O episódio chocou o mundo e transformou-se no símbolo máximo do memoricídio moderno, ou seja, a destruição intencional do patrimônio cultural de um povo para apagar sua identidade.

Em 1992, o incêndio da Biblioteca Nacional de Sarajevo, durante a guerra da Bósnia. Nesse episódio, a biblioteca foi deliberadamente bombardeada por forças sérvias. Mais de 1,5 milhão de volumes, incluindo 155 mil obras raras e manuscritos islâmicos e cristãos medievais, viraram cinzas.

Cidadãos e bibliotecários arriscaram suas vidas sob fogo de atiradores de elite para tentar salvar os livros. A perda representou uma tentativa violenta de apagar a história da coexistência multiétnica da região.

Em 2018, no Brasil, o incêndio do Museu Nacional do Rio de Janeiro, consumiu cerca de 90% de um acervo de 20 milhões de itens. Foram perdidos registros linguísticos e gravações de línguas indígenas já extintas, coleções egípcias e greco-romanas, além de fósseis únicos, como o crânio de Luzia, o mais antigo das Américas, posteriormente recuperado em partes.

Foi uma das maiores catástrofes arqueológicas e antropológicas contemporâneas. A fachada do palácio e o telhado foram totalmente recuperados e entregues como parte das celebrações do bicentenário da Independência do Brasil, em 2022.

Em dezembro de 2024, a instituição ganhou ainda mais relevância jurídica e cultural ao ser declarada Patrimônio Cultural Imaterial do estado do Rio de Janeiro. Mas, a reconstrução dos laboratórios de pesquisa e de toda a infraestrutura interna do prédio ainda continua acontecendo.

Contudo, as perdas em si trazidas pelo fogo não contam tudo, não estimulam por inteiro as reflexões que precisam se dar diante desses episódios terríveis. Os incêndios provocados por disputas geopolíticas e ideológicas moldaram a historicidade humana através do "bibliocídio", que significa a destruição deliberada ou colateral de acervos culturais para apagar a memória de povos conquistados e consolidar o poder de novos impérios.

Enquanto o fogo na base da civilização representou a criação e a sociabilidade, na guerra ele foi refinado como arma de aniquilação sociocultural. Mas, não é só isso. Incêndios em espaços de desenvolvimento científico e tecnológico, que sustentam pesquisas de elevado padrão intelectual, podem significar ameaças ao protagonismo de certas nações, de modo que precisam ser interrompidas, a partir de protocolos neoimperialistas.  

Afinal de contas, quando um país perde seus laboratórios de ponta, bancos de dados genéticos, acervos históricos ou protótipos tecnológicos por conta de sinistros, sejam eles acidentais ou fruto de sabotagem, o impacto vai muito além do prejuízo financeiro. Há uma interrupção abrupta do ritmo de inovação, o que pode atrasar uma nação em décadas e consolidar a dependência tecnológica em relação às potências globais.

Nesse sentido, a destruição de infraestruturas de pesquisa locais desestimula a permanência de cientistas de alto nível em seus países de origem, empurrando-os para centros de pesquisa estrangeiros mais seguros e financiados. O que potencializa a perda de soberania científica, impedindo que países em desenvolvimento criem soluções próprias para suas demandas, tais como vacinas, transição energética ou defesa, obrigando-os a importar pacotes tecnológicos fechados.

Além disso, é fundamental pensar que, no cenário contemporâneo, a segurança de um ecossistema científico não se limita a brigadas de incêndio tradicionais, mas exige blindagem contra ataques híbridos físicos e digitais que visam paralisar o avanço de concorrentes geopolíticos.

Dessa forma, a proteção física e digital de espaços de alta tecnologia não é apenas uma questão de infraestrutura ou de zeladoria patrimonial; é uma estratégia essencial de segurança nacional e de garantia da soberania intelectual frente às pressões externas.

Aliás, a Tragédia de Alcântara, o maior desastre do Programa Espacial Brasileiro, ocorrido em 2003 no Centro Espacial de Alcântara, no Maranhão, durante os preparativos finais da Operação São Luís que colocaria dois satélites brasileiros em órbita, eliminou, de uma só vez, cerca de um quinto de toda a equipe científica espacial do Brasil, paralisando o projeto do VLS por anos.

Se o programa brasileiro prosperasse, o país se tornaria um concorrente direto de grandes potências, especialmente do Centro Espacial de Kourou, na Guiana Francesa. Diante disso, teorias populares frequentemente apontam o envolvimento de agências estrangeiras, tais como a CIA estadunidense ou o serviço secreto francês, em uma suposta sabotagem por pulsos eletromagnéticos ou interferência eletrônica, apesar de o relatório oficial da Aeronáutica ter mantido o caso oficialmente encerrado como uma falha técnica trágica e acidental.

De qualquer forma, o fogo e os interesses geopolíticos desfrutam de uma relação importante, profunda, histórica e extremamente atual. O fogo deixou de ser apenas um fenômeno natural ou um desastre ambiental para se tornar uma ferramenta de poder, desestabilização econômica e disputa territorial no cenário global.

Haja vista as mudanças climáticas e a geopolítica do Ártico, em que o aumento das queimadas e dos incêndios florestais em regiões como a Sibéria (Rússia), Alasca (EUA) e norte do Canadá acelera o derretimento do solo congelado.

Assim, o recuo do gelo e o controle do fogo nessas regiões abrem novas rotas comerciais marítimas, como a Rota do Mar do Norte, e dão acesso a reservas gigantescas de petróleo, gás natural e minérios até então inacessíveis. Por isso, diferentes países disputam diretamente a hegemonia e a militarização dessa nova fronteira.

Do mesmo modo acontece na América do Sul, onde o fogo é historicamente utilizado como técnica de manejo da terra, mas frequentemente associado ao desmatamento ilegal para a expansão da agropecuária e da mineração.

Ou em conflitos recentes no Leste Europeu ou no Oriente Médio, em que o uso de incêndios provocados em campos de trigo e infraestruturas de energia visa desestabilizar a segurança alimentar e econômica de nações inteiras, forçando migrações em massa e alterando o equilíbrio de forças na região.

Portanto, o fogo não é só o fogo. Ele é o combustível da guerra, do conflito, da dominação, da exploração, da aculturação. Da pólvora às armas termobáricas, o domínio do fogo ditou quem venceria batalhas e quem seria subjugado, a partir da destruição das terras, vilas e plantações do inimigo, essa foi sempre foi uma tática cruel de submissão.

Fato que evoluiu para a ferramenta de dominação e exploração, em que o fogo industrial passou a alimentar as máquinas das potências coloniais. Pela queima do carvão e do petróleo, o fogo não apenas transformou a economia global, mas também estabeleceu uma hierarquia de poder baseada em quem controlava os recursos energéticos, muitas vezes à custa da exploração de povos e territórios vulneráveis.

E assim, o fogo alcança também o patamar da queima do imaterial. Ao longo da história, bibliotecas inteiras, templos, registros sagrados e línguas escritas de povos colonizados foram transformados em cinzas para apagar sua memória e impor uma nova cultura dominante. Portanto, quem controla o fogo, na maioria das vezes, tenta controlar a narrativa da história.

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

O excesso de CERTEZA ...


O excesso de CERTEZA ...

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Sabe o que é mais interessante em certas pessoas, por aí? O excesso de CERTEZA. Pensam, falam, agem, se comportam, como se o imprevisível, o incerto, o inesperado, o imponderável, não pudesse cortar ou atravessar os seus caminhos. Acontece que a teoria na prática é bem diferente!

Sim, porque o excesso de certeza, inevitavelmente, conflita com a dinâmica de que toda e qualquer ação corresponde a uma reação. Na vida, quando alguém age com excesso de certeza, demonstrando uma profunda arrogância e inflexibilidade, costuma aplicar uma força desproporcional sobre a realidade ou sobre os outros. Daí a reação do ambiente costuma vir na mesma proporção, ou seja, com resistência, conflito ou frustração extrema quando as coisas não saem como planejado.

Recém-saído do primeiro turno eleitoral, vestido pela soberba de uma relativa vitória, o candidato da ultradireita brasileira já brada aos quatro cantos uma série de medidas que cabem dentro do discurso e da teoria; mas, que carecem de uma análise séria, dados os resultados nefastos que irão incomodar muitos dos seus apoiadores de campanha e simpatizantes.

Afinal, a relação da ultradireita com as elites e os poderosos é baseada na manutenção de regalias e privilégios entre eles. Nesse sentido, a consolidação do caos a partir do desmonte institucional, da inversão de valores, da ruptura constitucional, do arrocho econômico, do negacionismo cientifico e ambiental, do desinvestimento em saúde e educação, não só irá afetar as camadas mais frágeis e vulneráveis; mas, também, às classes dominantes.

Embora a base piramidal sofra os impactos imediatos e mais severos do desmonte público, a consolidação do caos social e institucional gera consequências que retroalimentam e prejudicam o ambiente de negócios e a segurança das próprias elites. A começar pelo fato de que os mercados e investidores nacionais e internacionais dependem de regras claras e previsíveis, de modo que a erosão das instituições e a ameaça de rupturas constitucionais afugentam o capital estrangeiro, desvalorizam a moeda e aumentam o risco-país.

Mas não é só isso. O desrespeito aos tratados climáticos e o avanço da degradação ambiental fecham mercados externos de exportação. Grandes fundos globais de investimento hoje exigem critérios de sustentabilidade (ESG), boicotando países que promovem o desmonte ambiental.

No que diz respeito à falta de recursos em educação drena-se a formação de mão de obra qualificada, essa estratégia reduz a produtividade e a capacidade de inovação das empresas locais, enquanto o colapso na saúde pode gerar crises sanitárias que paralisam o comércio e o consumo.

Bem, quando esses dois pilares básicos falham, o mercado de trabalho e o setor produtivo sofrem um efeito cascata que limita o crescimento do país. A escassez de recursos na formação escolar e técnica impede que trabalhadores desenvolvam habilidades complexas. Sem profissionais qualificados, as empresas locais perdem competitividade e enfrentam dificuldades para inovar.

Do mesmo modo, as comunidades com assistência médica precária ficam vulneráveis a surtos e crises sanitárias. E como já visto historicamente, problemas graves de saúde pública afastam os consumidores e interrompem as cadeias de suprimentos.

Assim, a soma de baixa produtividade com crises frequentes reduz a renda média e joga mais pessoas na informalidade ou no desemprego. Isso sobrecarrega os cofres públicos com programas de assistência, em vez de consolidar uma População Economicamente Ativa (PEA) autossuficiente.

Por isso, o arrocho econômico extremo reduz o poder de compra da população. Sem uma classe média ativa e com o empobrecimento da base, o mercado interno encolhe, afetando o lucro das próprias indústrias e do varejo. Além disso, o aumento da miséria costuma vir acompanhado da escalada da violência urbana, impactando a qualidade de vida e a segurança de todos.

A ultradireita faz questão de não enxergar a sua dependência umbilical com as bases que sustentam a pirâmide social. Sem essas camadas o topo simplesmente desabaria. Por isso, o colapso ou a precarização excessiva da base compromete a estabilidade de toda a estrutura socioeconômica. Bastaria, então, olhar para o texto constitucional vigente para alcançar esse entendimento.

Na Constituição Federal de 1988 essa interdependência e a centralidade das bases sociais ficam evidentes em vários pontos fundamentais. Já no art. 1º, está estabelecido que a República tem como fundamentos a dignidade da pessoa humana e os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa, o que significa que o trabalho e a dignidade humana se encontram no mesmo nível de importância do desenvolvimento econômico.

Em seguida, no art. 3º, impõe-se ao Estado o dever de erradicar a pobreza e a marginalização, além de reduzir as desigualdades sociais e regionais. O que demonstra que o pacto social brasileiro pressupõe o fortalecimento da base para garantir a solidez da nação.

No art. 6º, garante-se o acesso universal à educação, saúde, trabalho, moradia, transporte e segurança, considerando que esses direitos funcionam como uma rede de proteção e sustentação para que as camadas mais baixas possam viver e produzir com dignidade.

E no art. 170, determina-se que a ordem econômica deve ser fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, tendo por fim assegurar a todos uma existência digna, conforme os ditames da justiça social.

Mas, não são só esses artigos, ao longo de todo o texto constitucional de 1988 fica claro porque essa Constituição Federal é conhecida como Cidadã. Ela rompeu com o regime ditatorial anterior e colocou a dignidade da pessoa humana e os direitos sociais no centro do ordenamento jurídico brasileiro. Diferente de outras constituições, ela traz os direitos individuais e coletivos logo no Artigo 5º, antes mesmo de organizar o Estado. Isso mostra que o cidadão vem primeiro.

Inclusive, é fundamental destacar que foi ela quem deu origem ao SUS (Sistema Único de Saúde), garantindo que a saúde passasse a ser um direito de todos e dever do Estado, além de universalizar o acesso à educação pública. Também, houve a criminalização do racismo, como crime inafiançável e imprescritível, e o reconhecimento explícito dos direitos territoriais e culturais dos povos indígenas e quilombolas.

E de maneira extraordinária, ela não permitiu apenas o voto, mas também criou ferramentas para o cidadão propor leis de iniciativa popular e participar de decisões importantes por meio de plebiscitos e referendos; bem como, consolidou conquistas históricas como o seguro-desemprego, o FGTS, o décimo terceiro, a licença-maternidade de 120 dias e a licença-paternidade.

Por isso, ela é Cidadã. Porque deixou de ser apenas um manual de organização do governo para se tornar um verdadeiro pacto de proteção ao cidadão, buscando reduzir as desigualdades e garantir que todos tenham uma vida digna. Quaisquer tentativas de desconstruir essas conquistas irá trazer consequências imediatas, portanto, aos apoiadores de campanha e simpatizantes da ultradireita e demais vieses da direita brasileira.

Trata-se de lógica pura. A realidade dos fatos não se submete às vontades e quereres autoritários, de quem quer que seja. No mundo real a idealização vira fumaça. As consequências indigestas e inoportunas sempre batem à porta. Por isso, “Se teu cão passa fome, qualquer pessoa que oferecer um pedaço de comida consegue afastá-lo de ti” (Provérbio Árabe).

terça-feira, 6 de outubro de 2026

A democracia verga, mas não quebra!


A democracia verga, mas não quebra!

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Quer saber?! Que me importa se deu segundo turno! Não, não estou diminuindo os fatos ou exercitando um otimismo ingênuo. Acontece que, pouca gente já se deu conta, diante desse resultado o Brasil foi parar no centro do palco. Pois é.

É preciso entender que a expansão e a disseminação da ultradireita desconforta o planeta, com todas as lembranças e memórias nefastas que recortam a Segunda Guerra Mundial. Todos os seus discursos e plataformas indigestos e desumanos. Toda a sua barbárie que tenta sufocar os pilares democráticos.

Caro (a) leitor (a), o mundo entre 1914 e 1945, ou seja, no período que abarca a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais, tem a dimensão exata do que foi experienciar o cotidiano desses acontecimentos. Tanto que, principalmente na Europa, a historicidade desse tempo é contada e recontada ao longo das gerações para não se deixar esquecer.

Então, retornando ao século XXI, com todas as suas investidas fascistas e neoimperialistas, a ultradireita desperta uma legião contraria às suas aspirações em tomar de assalto o planeta. Como dizia Michel Foucault, filósofo e historiador francês, “Onde há poder há resistência”. Simples, assim. De modo que, no século XXI, essa premissa se manifesta fortemente nas tensões globais envolvendo o antifascismo e o anti-imperialismo.

Quem diria, não é mesmo?! O Brasil não está só. Depois do seu retorno triunfal ao cenário diplomático mundial, se apropriando do seu protagonismo genuíno, consolidado pela participação consistente nos BRICS, ele se mostra como um bastião de resistência fundamental. Por isso, todos os olhos do mundo se voltam para ele e estendem seu apoio.   

Agora, não apenas os fã-clubes e comunidades digitais (fandoms) de artistas nacionais, como Anitta e Luísa Sonza, se engajam na campanha do segundo turno em favor da democracia e contra o estado de barbárie que deseja implementar a ultradireita.

Também os administradores dos fã-clubes dedicados a Beyoncé, Taylor Swift, entre outros, abriram seus canais de comunicação para divulgar materiais da campanha de Lula, informar eleitores indecisos e incentivar o comparecimento às urnas no dia 25 de outubro.

O manifesto esclarece que a mobilização é organizada de forma autônoma pelos administradores das comunidades de fãs em defesa da democracia, não significando necessariamente que todos os artistas citados tenham declarado apoio individual à candidatura.

Entretanto, a iniciativa não deixa de lançar um canhão de luz gigantesco sobre os riscos que a democracia está correndo, não só no Brasil, impondo a necessidade de união pela democracia.

Sim, porque a ultradireita se apropria de todos os demais vieses direitistas para se tornar hegemônica e suficientemente capaz de estabelecer o seu populismo e polarização, fazendo com que suas lideranças usem a divisão social para enfraquecer o contraditório, façam do adversário político um inimigo existencial, desacreditem na alternância de poder para se perpetuarem de forma recorrente.

Tendo em vista de que esses são tempos altamente tecnológicos, a ultradireita utiliza, então, como estratégia de desinformação as redes sociais. Seja pelos algoritmos potencializam mentiras e teorias conspiratórias. Seja pelo sistemático questionamento em relação à integridade dos processos eleitorais. Seja pelo implacável desgaste contra a confiança pública na imprensa livre.

Porém, enquanto está ensimesmada na sua vaidade narcísica, ela acaba deixando de perceber como o antifascismo e o anti-imperialismo do século XXI atuam como as contraforças diretas ao seu pseudopoder. Eles se organizam tanto em movimentos de rua quanto em redes digitais, coletivos de checagem de fatos, defesa dos direitos humanos e frentes amplas democráticas.

De modo que emergem assuntos extremamente desconfortáveis para o fascismo ultradireitista como a defesa de povos indígenas contra o avanço de mineradoras estrangeiras, os movimentos por soberania, a segurança alimentar, a busca por moedas alternativas para fugir do domínio do dólar, e o fortalecimento de blocos regionais que buscam um mundo multipolar.

Portanto, caro (a) leitor (a), o Brasil não está só, como já esteve em algum momento do seu passado. O Brasil aprendeu o que é ter vez e voz no mundo. Aprendeu a se fazer respeitar.

Sendo assim, no cenário internacional do século XXI, o protagonismo brasileiro se fortalece não somente por uma onda de manifestações contundentes contra o avanço do fascismo e do neoimperialismo, representado por pressões hegemônicas e sanções unilaterais de elementos da ultradireita; mas, pela força do espírito democrático global que crê na autodeterminação dos povos como o caminho para potencializar o multilateralismo.