sexta-feira, 14 de agosto de 2026

LACRAÇÃO, LIKE e LUCRO. O caminho para a ruína da sociedade contemporânea.


LACRAÇÃO, LIKE e LUCRO. O caminho para a ruína da sociedade contemporânea.

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

O pó de pirlimpimpim contemporâneo parece ser LACRAÇÃO, LIKE e LUCRO. Só que não. Basta um mínimo de atenção aos veículos de informação para perceber que, além desse tripé ser totalmente incapaz de resolver os problemas do mundo, incluindo os seus, ele tem um potencial devastador de intensificá-los.

Infelizmente, a vida não é feita de soluções rápidas e superficiais. Atalhos nunca levam ninguém ao que se espera. Por isso, o cenário da monetização digital, que significa transformar conteúdo, tráfego, audiência ou presença na internet em receita financeira, não vai promover uma alteração substancial na realidade contemporânea.

Enquanto chuvas torrenciais assolam o território japonês, incêndios florestais arrasam com a Europa e os EUA, sem que nada de efetivo possa ser feito para mudar o cenário. Recentemente houve um terremoto na Venezuela, agora, outro aconteceu na Colômbia. Cientistas já afirmam que o super El Niño trará fome e escassez para grande parte do planeta nos próximos meses. Portanto, a dinâmica geoambiental do planeta se mostra alterada, colocando as incertezas no topo da lista. 

Gostemos ou não, tudo isso aponta para um processo de intensa desconstrução e reconstrução, sem fim. Por quê? Porque a contemporaneidade se esqueceu de que o ser humano é sempre o centro das ações e das preocupações.

Portanto, na medida em que a mercantilização e a monetização social assumiram o controle do cotidiano houve um inevitável apagamento e invisibilização dos indivíduos. Suas necessidades, carências, desafios, foram deixados de lado, à mercê da própria sorte.

Contudo, o ato de transformar direitos, relações ou bens sociais em produtos com preço de mercado ou de gerar ganho financeiro a partir de uma audiência, de uma rede de contatos ou do engajamento digital, não faz evaporar dos veículos de comunicação e de informação as estatísticas e os problemas socioeconômicos e ambientais que recortam a realidade contemporânea.  

O tripé dos três L citados acima é, portanto, somente uma cortina de fumaça para tentar esconder a ausência total de uma solução, de um plano para resolver as crises que afetam milhões de seres humanos todos os dias.  Sabe a velha história do cachorro correndo atrás do próprio rabo? É exatamente isso.

Apesar de triste e constrangedor é preciso admitir, as responsabilidades socioeconômicas e ambientais, sejam elas simples ou complexas, quase sempre, estão a cargo de pessoas despreparadas, carentes de competência, desprovidas de ética, que foram alocadas em posição de poder e se apropriaram dele, apesar de totalmente inaptas.

Aí, enquanto bilhões de pessoas se entretém nessa corrida frenética por LACRAÇÃO, LIKE e LUCRO, tentando desesperadamente capitalizar alguns vinténs e/ou ocupar um último lugar na fila do pertencimento social, o mundo continua girando, girando, girando ... Sem que as urgências e as emergências socioeconômicas e ambientais sejam resolvidas.

Sem que a pirâmide social deixe de exaltar uma base imensa e uma ínfima ponta, não deixando dúvidas de que as desigualdades permanecem cada vez mais inabaláveis. ...    

Além disso, não se pode esquecer que o tripé dos três L tem também promovido o apogeu do ódio, para amplificar ainda mais os rendimentos. Não entendeu? Esse ciclo gera engajamento extremo, aumenta a visualização de conteúdos polêmicos e converte reações raivosas e violentas em ganhos financeiros diretos para plataformas e criadores.

Por isso, com ou sem uma consciência formada a respeito, a sociedade contemporânea marcha rumo à banalização do mal, como já aconteceu em outros momentos da sua historicidade.

Considerando, então, que o mal não nasce necessariamente de um ódio profundo ou perversidade demoníaca, mas da incapacidade de pensar criticamente, esse é o grande perigo, porque qualquer indivíduo que abdique de sua consciência e julgamento moral pode perpetuar injustiças de forma mecânica e contínua.

Na verdade, pode estar contribuindo, nesse exato momento, para que as cortinas de fumaça facilitem a falência e o colapso da vida na Terra, dada a ausência de soluções para o recrudescimento dos problemas que já vigoram há séculos.

Lembremo-nos, então, das seguintes palavras do Chefe Seatle, líder dos povos Duwamish e Suquamish nos EUA, “O homem não tece a teia da vida; é antes um de seus fios. O que quer que faça a essa teia, faz a si próprio”.

Assim, a ação de um indivíduo reverbera no todo e retorna a ele próprio. Cada ato afeta o tecido social na sua totalidade, de modo que a ética deixa de ser apenas um dever entre humanos e passa a incluir o ambiente e o futuro do planeta.

4º Simpósio sobre Feminicídios - UFU/Uberlândia



sábado, 8 de agosto de 2026

A realidade contemporânea da coabitação multigeracional


A realidade contemporânea da coabitação multigeracional

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Apesar da raça humana ter iniciado a sua jornada sobre a Terra, vivendo coletivamente dentro de um mesmo espaço, sob um mesmo teto, a própria dinâmica social se impôs para promover um processo de desagregação dos grupos, para que os indivíduos pudessem desfrutar da sua autonomia e independência.

Então, no contexto do século XXI, quando muitos expressam o seu espanto ou indignação diante de gerações que estão compartilhando o seu cotidiano dentro de uma mesma casa, é preciso parar e refletir sobre as conjunturas que levaram a esse cenário social contemporâneo.

Queiramos ou não admitir, o desenvolvimento científico e tecnológico decorrente da Revolução Industrial, na segunda metade do século XVIII, teve sim um papel de arauto do progresso humano ao propagandear a sua possibilidade de existir e viver por conta própria. Acontece que na prática a teoria nem sempre se alinha dentro das perspectivas e expectativas.

Esse recorte histórico-temporal que viria mudar, para sempre, o curso da humanidade, gerou um sistema sociocultural e econômico tão engessado e limitante, quanto aquele que existia até a Revolução Francesa. O cenário que prometia a libertação humana pelo domínio da estrutura monárquica acabou criando novas formas de aprisionamento social.

Veja, a Revolução Industrial vendeu a ideia de emancipação total do homem através da máquina e da ciência; mas, na verdade, o ser humano deixou de ser refém das intempéries da natureza para se tornar refém do relógio, da fábrica e do capital. Tanto que a arte, antes dominante sobre todo o processo produtivo, transformou-se em mera extensão da especialização industrial.

O direito de sangue da nobreza feudal foi substituído pelo poder financeiro da burguesia. Nesse sentido, a mobilidade social permaneceu severamente limitada a tal ponto que o trabalhador urbano se viu preso a jornadas de 16 horas e condições miseráveis, sem vias de fuga. Assim, o controle social mudou o soberano, ou seja, do Rei para o Mercado, mas uma estrutura de domínio e de desigualdade extremamente centralizada permaneceu.

E quanto mais o tempo passa mais esse sistema recrudesce, deteriorando de maneira bastante contundente quaisquer vestígios de autonomia e de independência dos indivíduos. Haja vista que, em 2026, a distribuição de renda e riqueza global continua em patamares de concentração extremos, com os 10% mais ricos detendo cerca de 75% da riqueza global e a metade mais pobre ficando com apenas 2%.

Isso significa que o mundo vem se tornando materialmente muito mais rico, porém o abismo absoluto entre os mais ricos e os mais pobres é concretamente maior do que no início da Revolução Industrial, por volta da segunda metade do século XVIII. Apesar de a pobreza extrema global ter decrescido dramaticamente em termos percentuais, a fatia da renda capturada pelo topo da pirâmide se mostra hiperconcentrada e distante de uma realidade ampliada.

Acontece que essa dinâmica do capital é que rege as possibilidades do exercício existencial autônomo e independente. Sem a suficiência de recursos não há eficiência para a construção das bases da dignidade humana. Daí o retrato de gerações familiares sendo obrigadas a viver sob um mesmo teto. Quem já leu sobre o dilema do porco-espinho, criado pelo filósofo alemão Arthur Schopenhauer em 1851, entende bem. Apesar de todos os desafios impostos pela diversidade e pluralidade humana essa coabitação multigeracional forçada é a única forma de sobreviver.

Ela, na verdade, representa uma válvula de escape econômico e uma rede de segurança privada diante dos altos custos de vida, da escassez de recursos e da financeirização da moradia dentro do capitalismo contemporâneo.

Nesse sentido, ela transferiu para o espaço doméstico o suporte que o Estado deixou de cumprir em relação ao bem-estar social liberal, o qual havia teoricamente prometido. O pior é que o sistema capitalista se beneficia dessa estrutura ao abafar o descontentamento social e reduzir a pressão por políticas públicas de habitação e seguridade.

Portanto, embora pareça uma resistência comunitária, trata-se de uma imposição que limita a mobilidade social e a autonomia individual das novas gerações. Fato que desencadeia uma série de consequências nefastas, tais como o estresse psicológico devido à falta de privacidade e choque de valores geracionais, a sobrecarga feminina traduzida pelo acúmulo do trabalho doméstico e de cuidado com as diversas gerações, e a manifestação de uma solidariedade compulsória, na qual o afeto e os laços familiares são instrumentalizados e desgastados pela pressão econômica externa.

Mas, talvez, a raça humana já esteja diante de uma fronteira social ainda pior. Ao redor do planeta existem milhares de famílias que já perderam o próprio teto em razão dessa dinâmica. Essa coabitação multigeracional está sendo forçada a viver nas ruas dos centros urbanos; sobretudo, as grandes e médias cidades.

O aumento do preço dos aluguéis e a escassez de moradia acessível forçam milhares de pessoas a viverem ao ar livre. Por consequência, os espaços urbanos sofrem com a falta de infraestrutura e políticas públicas para acolher essas populações vulneráveis. A perda do teto rompe, então, a rede de apoio familiar e gera graves riscos à saúde e à segurança humana, exigindo ações integradas de assistência social, saúde pública e planejamento urbano.

Segundo o Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos (ONU-Habitat), cerca de 318 milhões de pessoas enfrentam a falta absoluta de moradia no mundo, enquanto quase 3 bilhões sofrem com habitação inadequada, morando em favelas ou assentamentos informais. Esse cenário reflete as crises sistêmicas de desigualdade urbana, exigindo políticas públicas integradas de saneamento, saúde e planejamento territorial.

Afinal, a ausência de políticas integradas agrava múltiplos fatores de risco nos centros urbanos. A começar pelo fato de que a falta de teto isola o indivíduo e desestrutura os laços familiares e comunitários.

O que traz consequências significativas, tais como o agravamento do desequilíbrio em relação à saúde pública, dada a exposição contínua às intempéries, à poluição urbana e à falta de saneamento que dispara os índices de adoecimento físico e mental entre a população.

Fato que culmina na consolidação de ciclos de exclusão; pois, as respostas institucionais baseadas apenas na repressão ou em ações emergenciais de curto prazo falham em estancar o problema estrutural da pobreza e da indignidade humana.

Daí a necessidade de olhar para a vida como ela é. De se permitir a reflexão a respeito da submissão que constrói a alienação humana diante desse sistema socioeconômico estabelecido há pouco mais de 3 séculos, o qual só faz recrudescer as diversas barbáries sociais historicamente conhecidas. Porque a consciência é o primeiro passo para resistir à coisificação humana e se reposicionar como sujeito da própria história, se apropriando da condição de ser autônomo e independente.