Já dizia
Albert Einstein, “Não busque ser um homem de sucesso, busque ser um homem de
valor”.
Por Alessandra
Leles Rocha
O que desnuda o ser humano são os
seus valores. Sim, são eles que revelam a verdadeira essência do indivíduo na
medida em que orientam suas escolhas, atitudes e o modo como lida com o mundo.
Portanto, eles não apenas guiam
decisões e dão rumo à vida, como mostram-se na prática diária, e não apenas em
discursos. Na verdade, eles definem o caráter e a postura diante de crises ou
tentações mundanas.
De modo que resolvi partir desse
ponto de entendimento para escrever sobre a corrupção, esse assunto tão
historicamente presente na sociedade brasileira e no mundo.
Para início de conversa, é
preciso deixar claro o que significa corrupção. Trata-se do abuso de poder
confiável ou de uma posição de autoridade para obter benefícios ilícitos ou
ganhos pessoais.
Assim, há corrupção no suborno/propina,
ou seja, quando há o oferecimento ou coleta de dinheiro, presentes ou favores
para influenciar a decisão de alguém em cargo de poder.
Há corrupção no peculato, que acontece
quando há o desvio de dinheiro ou de bens públicos por parte de um funcionário
que tem acesso a eles em razão de seu cargo.
Há corrupção no nepotismo, que é o
favorecimento de parentes ou amigos vindo em nomeações ou promoções para cargos
públicas, sem considerar a qualificação técnica.
Há corrupção no tráfego de influência,
que representa a situação em que uma pessoa usa sua proximidade ou prestígio
com autoridades para obter favores ou decisões vantajosas de forma ilegal.
Há corrupção na fraude em
licitações, quando ocorre a manipulação de processos de concorrência pública
para direcionar contratos a empresas específicas, geralmente gerando
superfaturamento.
Dentro de cenário, então, ela
pode ser ativa, quando um particular oferece a vantagem indevida a um agente
público, ou passiva, quando o funcionário público solicita ou aceita tal
vantagem.
Não importando se tais práxis ocorrem
na esfera pública ou privada, porque a grande questão está no fato de que a
corrupção descreve a manipulação de valores éticos e de costumes, abrangendo diversas
formas de desonestidade diárias que prejudicam a coletividade.
No Brasil, infelizmente, a
corrupção é um mal histórico. Começou nos tempos coloniais e se arrasta ao
longo de mais de 500 anos de história, dada a sua banalização e trivialização
social; sobretudo, entre as camadas mais abastadas e influentes da sociedade.
Nesse sentido, o patrimonialismo
estruturado nos tempos coloniais é a principal raiz histórica da corrupção
endêmica no Brasil, pois estabeleceu uma cultura em que os governantes
confundem o patrimônio público com os seus bens privados.
O que significa que a
persistência de práticas corruptas diante da forte concentração de renda e
poder possibilita compreender como os grupos economicamente dominantes exercem,
historicamente, uma grande influência sobre as decisões do Estado, o que por
vezes é resolvido na manutenção de suas funções e na perpetuação da impunidade.
Desse modo, se reflete uma
tolerância cultural generalizada na medida em que o velho conhecido “jeitinho
brasileiro”, ao contrário de ser entendido como o produto de falhas
institucionais e burocráticas específicas, é meramente visto como um traço
cultural imutável.
Pode parecer absurdo; mas, a
corrupção brasileira é sim a materialização dos valores presentes em uma
parcela significativa da população.
Fato que fica evidenciado quando episódios,
recentes ou não, são noticiados e não causam entre essas pessoas nenhum
sentimento de repulsa, indignação, vergonha ou constrangimento.
Pelo contrário, a maioria delas
tem a ousadia de permanecer arraigada na defesa dos corruptos como se fosse
incapaz de ver os fatos como eles realmente são. Como se não compreendessem que
a corrupção também as prejudica, afetando a sua cidadania e o seu bem-estar
cotidiano.
Dentro dessa perspectiva, se por
um lado a tolerância ou a defesa cega de figuras públicas corrompidas são, na verdade,
extensões de uma moralidade flexível ou de um clientelismo enraizado, onde o
benefício pessoal ou do seu grupo se sobrepõe ao bem comum; por outro, a
população muitas vezes demonstra apatia ou defende certas políticas não por
falta de moral, mas por desilusão com o sistema político, polarização
ideológica extrema ou porque associam certas figuras a melhorias diretas em
suas vidas, ignorando os desvios em prol de um pragmatismo econômico.
Seja qual for o motivo, ocorre que
o debate público quando deixa de ser sobre propostas e fiscalização e passa a
ser sobre idolatria e torcida, o maior prejudicado é o próprio cidadão, independentemente
da camada social a qual pertença.
Porque ele se permite assumir uma
postura de subordinação, defendendo erros evidentes em vez de cobrar melhorias
que lhes são importantes ou fundamentais. Permitindo que os desvios de conduta
passem a ser tolerados ou justificados o que acaba por quebrar o diálogo cidadão
saudável.
Veja, a verdadeira cidadania
exige distanciamento crítico; pois, os governantes e parlamentares são
funcionários públicos temporários, e os pagamentos com os impostos da população
são para administrar o bem comum e não custear as regalias e os privilégios de certos
líderes que se consideram intocáveis.
Por essas e outras é que antes de
se posicionar contra a corrupção é necessário olhar profundamente para dentro
de si e verificar se não existe nenhum vestígio de microcorrupções,
caracterizadas por desvios éticos cotidianos, muitas vezes considerados atos
inofensivos e desimportantes.
Pode ser o uso indevido de vagas
exclusivas. A falsificação de atestado médico. A fraude acadêmica. O roubo de
tempo do horário de trabalho. O furar filas. O suborno informal. O uso de
transporte público sem pagar. A sonegação velada. A pirataria digital. O abuso
de reembolso laboral. O consumo sem pagar no comércio. O gato de serviços
essenciais. As mentiras de conveniência. ...
Afinal, as microcorrupções
funcionam como um espelho da moral individual, revelando o que uma pessoa
realmente valoriza quando acredita que ninguém está olhando ou que o ato é pequeno
demais para ter consequências.
Porém, a grande corrupção
frequentemente se alimenta dessa cultura que tolera e normaliza essas pequenas
infrações diárias. De modo que a mudança social começa no monitoramento das
nossas próprias escolhas.
Segundo Ellen Gould White, autora
americana, “A maior necessidade do mundo é a de homens - homens que não se
compram nem se vendam; homens que no íntimo da alma sejam verdadeiros e
honestos; homens que não temam chamar o erro pelo seu nome; homens, cuja
consciência seja tão fiel ao dever como a bússola o é ao polo; homens que
permaneçam firmes pelo que é reto, ainda que aconteça tudo errado”.
Portanto, antes de pensar na corrupção como um problema institucional, tenha sempre em mente que ela é um reflexo da crise de valores individuais. Daí a solução para esse problema exigir a restauração da integridade individual a partir dos valores que se têm guardados no íntimo da alma.


