sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Como dizem, por aí, "algo de errado não está certo"!


Como dizem, por aí, "algo de errado não está certo"!

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Como já é de conhecimento público, EUA e a Austrália anunciaram, hoje, o fechamento de seus consulados no Brasil por questão de segurança.

Cheguei, inclusive, a pensar se os países que formam a tal coalizão internacional de segurança, militar e coordenação política liderada pelos EUA, denominada Escudo das Américas, iriam participar também.

Mas, as horas se passaram e nenhum outro país se manifestou a respeito. Diante do estranhamento me debrucei a pensar e alguns fatos são interessantes para a reflexão.

Há uma cidadã australiana, considerada a pessoa mais rica da Austrália, que é uma ferrenha defensora da agenda política do atual governo estadunidense, pertencendo a um grupo de mulheres influentes que apoiam o líder dos Republicanos.

Presença constante em eventos e celebrações na residência do presidente dos EUA em Mar-a-Lago, ela tornou-se uma das principais acionistas da mineradora australiana Brazilian Rare Earths (BRE), que coordena o Projeto Monte Alto, focado na exploração de uma gigantesca reserva de terras raras e urânio no Vale do Jiquiriçá, na Bahia.  

Inclusive, esse projeto tem gerado forte mobilização local e controvérsia devido ao impacto ambiental em áreas de preservação e à pressão sobre comunidades rurais para a venda de terrenos.

Mas, o ponto principal dessa história envolve a Rockbridge Network, uma organização conservadora americana cofundada pelo vice-presidente eleito dos EUA, cujas informações veiculadas pela mídia apontaram que essa rede e aliados do entorno do atual presidente dos EUA passaram a se articular politicamente no Brasil.

Candidatos e opositores no cenário eleitoral brasileiro chegaram a denunciar que esses movimentos e redes americanas buscam influenciar o cenário político do país para facilitar a concessão e a garantia de contratos bilionários de exploração de minerais estratégicos, como as terras raras da Bahia.

Por isso, dissipa a ideia de estranhamento, considerando que só EUA e Australia tenham, sem maiores esclarecimentos e robustas fundamentações, decidido suspender os seus atendimentos presenciais e serviços consulares no Brasil, nesta sexta-feira. Inclusive, porque o fechamento ocorre às vésperas do primeiro turno das eleições brasileiras.

Na realidade frenética e enovelada da contemporaneidade, não é possível analisar as informações de maneira rasa e superficial. Mais do que as linhas, é nas entrelinhas que as ideias emergem e descortinam as verdadeiras intenções. O que está na superfície costuma ser apenas a fachada. O sentido real opera nos bastidores do texto, da fala e da imagem.

É preciso entender que todo discurso nasce em uma época, lugar e cultura específicos. Desse modo, se debruçar a compreender o cenário ao redor da mensagem ajuda a perceber o que se encontra invisibilizado, oculto, omitido.

Não se pode esquecer de que o silêncio também comunica. Muitas vezes, o que é deliberadamente deixado de fora de uma narrativa é justamente o ponto mais crucial. Frente a um cenário saturado de dados, exercitar esse olhar investigativo deixa de ser apenas uma habilidade intelectual e passa a ser uma ferramenta de emancipação, de autonomia, de cidadania.

Como dizia Eduardo Galeano, escritor e jornalista uruguaio, “Somos o que fazemos, mas somos, principalmente, o que fazemos para mudar o que somos”. Quando transposta para a geopolítica e a história da América Latina, especialmente diante do neoimperialismo contemporâneo, essa citação se conecta diretamente com a tensão entre a dominação externa e a busca por soberania.

Enquanto o neoimperialismo contemporâneo opera fortemente no campo político-econômico, tentando fazer com que os povos colonizados aceitem a liderança das potências globais de forma passiva, a verdadeira essência latino-americana reside na sua capacidade de resistir, reinventar suas estruturas e lutar de forma autônoma para transformar sua própria realidade.

Os impérios de mídia e comunicação


Os impérios de mídia e comunicação

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

À revelia da vontade de uns e outros, por aí, o tempo não para na sua saga de metamorfose. Pensamentos, hábitos, costumes, quereres, vontades, ... são recortados e atravessados pela dinâmica contínua da vida. O que explica a necessidade de prestar atenção e se permitir abraçar as mudanças de cenário trazidas pela força das conjunturas.

Quando esses processos são acompanhados no seu fluxo, a ideia da surpresa se dissipa, tornando-se naturalizada. Mas, não é isso que temos visto em relação aos impérios de mídia e comunicação. Ais e uis surgem a todo instante, como se a perplexidade tivesse mesmo um lugar a ocupar.

De repente, pairou no ar a sensação de que esses impérios estão, cada vez mais, incapazes de esconder ou ofuscar a sua decadência, o seu declínio. A força conjuntural contemporânea se impõe de tal forma que esse movimento ocorre devido a um fenômeno histórico conhecido como a destruição criativa da tecnologia e a fragmentação do público. Quando a tecnologia muda se inicia o ciclo de declínio das lideranças tradicionais.

Bem, por décadas, o modelo de negócios dessas corporações baseou-se no monopólio da informação, permitindo-lhes moldar os rumos políticos e econômicos de nações inteiras.

Tradicionalmente, as grandes redes de TV, rádio e jornais impressos decidiam o que era debatido publicamente, filtrando a realidade, de modo a marginalizar as pautas da cidadania popular para proteger interesses de elites econômicas.

Assim, a perda do monopólio dessa agenda deu o pontapé inicial para o processo que está em curso. Não há como negar que durante décadas, a capacidade de induzir crises políticas, inflar ou destruir candidaturas e chancelar regimes autoritários, por exemplo, gerou um passivo de desconfiança que desaguou na atual crise de credibilidade.

Afinal, eis que o surgimento e a ampla disseminação da internet e das redes sociais permitiram que a cidadania popular produzisse e distribuísse seu próprio conteúdo. A comunicação, antes unidirecional, de repente, tornou-se multidirecional.

De modo que os movimentos sociais e a população em geral passaram a identificar os vieses corporativos da velha e tradicional mídia, buscando fontes alternativas ou independentes de informação.

Além disso, a migração da publicidade para as plataformas de tecnologia asfixiou financeiramente os impérios de mídia e comunicação, forçando demissões em massa e o fechamento de muitos desses veículos.

Ao menos em tese, o declínio dos impérios de mídia e comunicação redesenhou a disputa pelo poder, transferindo o eixo do controle editorial das redações tradicionais para a arquitetura invisível dos algoritmos das plataformas digitais.

Digo isso, porque muitos deles ainda insistem em velhas práxis desalinhadas às demandas e à realidade atual. Haja vista, o modelo de debates eleitorais entre os pretensos candidatos aos cargos representativos nacionais.  

Não, não há como negar que o modelo atual de debate na TV se mostra engessado, com tempos rigidamente cronometrados, favorecendo respostas ensaiadas, frases de efeito e ataques pessoais em detrimento de uma discussão profunda de propostas, assemelhando-se a um fóssil analógico que tenta sobreviver na era do imediatismo digital.

Também há de se falar sobre a parcialidade ou o tom das perguntas feitas por jornalistas, de diferentes veículos de mídia e comunicação. É fácil perceber insinuações acusatórias ou escolha de temas tendenciosos, além de uma condução das regras que favorece ou prejudica determinados candidatos.

Tudo isso, à luz da contemporaneidade, evidencia com bastante propriedade que esse formato engaja menos o público jovem, acostumado à dinâmica das redes sociais.

Sem contar que muitas vezes, essa estratégia tende a privilegiar a criação de recortes para a internet, com frases de efeito em detrimento de um debate profundo de propostas.

Algo que torna esse padrão ineficaz para o seu propósito original, que seria debater ideias e propostas para o desenvolvimento e o progresso do país e sua população.

De modo que a espetacularização do debate eleitoral em detrimento do conteúdo programático, no fim das contas, revela em cores fortes o declínio dos impérios de mídia e comunicação, a partir de uma crise de hegemonia no ecossistema de comunicação, com impactos profundos, inclusive no Brasil.

Agora, a comunicação está pulverizada por plataformas digitais e redes sociais. Nesses novos espaços de comunicação e dialogia, o algoritmo privilegia o conflito, a indignação e o espetáculo, em forma de recorte rápido, de lacração, de meme.

Afinal, essas reações geram mais tempo de tela, de interações e de monetização.  Portanto, o conteúdo programático que exige nuance, tempo e dados, acaba naturalmente desfavorecido por essa estrutura técnica.

Desse modo, enquanto os conglomerados tradicionais de comunicação enfrentam dificuldades financeiras e perda de audiência, as Big Techs tornam-se os novos impérios de mídia, moldando o debate eleitoral sem as amarras regulatórias ou o compromisso editorial que, teoricamente, balizavam a imprensa tradicional.

Sim, estamos diante também do declínio da qualidade deliberativa da democracia, impulsionado por um modelo de negócios tecnológico que lucra com o espetáculo e a polarização. Reconhecer esse processo é, portanto, fundamental.

Tentar criar bodes expiatórios para justificar o que não se quer admitir só piora a situação. Por mais que a pós-verdade esteja circulando por aí, a verdade sempre prevalece e se impõe; sobretudo, em momentos cruciais, decisivos.

Essa busca por culpados simplistas serve apenas como uma cortina de fumaça para evitar a autocrítica e o reconhecimento de falhas estruturais na sua própria capacidade de conduzir a realidade.

Assim, a decadência institucional e a profunda crise ética, moral e profissional vêm destruindo sistematicamente a audiência, a credibilidade e a confiança do público nos grandes impérios de mídia e comunicação.

Quando o compromisso com a verdade é substituído por interesses políticos ou econômicos, o jornalismo perde sua função social essencial e se transforma em mera propaganda, afastando o cidadão comum.

O que significa que essa ruptura de confiança só faz gerar uma fragmentação do debate público, onde a audiência busca alternativas fora dos canais tradicionais para tentar encontrar isenção.

A política do medo


A política do medo

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

A política do medo na contemporaneidade atua como uma estratégia de governança e manipulação da opinião pública, onde o medo é utilizado por líderes políticos, governos e grupos de interesse para centralizar o poder, angariar votos e justificar medidas de exceção. Mas, há um aspecto a se levar em consideração que é a política do medo exercida por agentes externos.

EUA e a Austrália anunciaram, hoje, o fechamento de seus consulados no Brasil por questão de segurança, por exemplo. Estabelecer uma tensão, um clima de insegurança e medo, às vésperas do pleito eleitoral no Brasil é sim uma forma de ingerência e de manipulação social tendenciosa.

Não se trata de quaisquer teorias da conspiração. Veículos de mídia com linhas editoriais críticas à política externa de Washington, bem como acadêmicos de relações internacionais, vêm apontando que o governo dos EUA tem utilizado mecanismos diplomáticos, sanções econômicas, financiamento de organizações não governamentais (ONGs) e apoio a grupos de oposição para influenciar desfechos políticos que alinhem certos países aos seus interesses estratégicos e econômicos.

Isso se dá principalmente pelo exercício e instrumentalização da política do medo. Reportagens de veículos estrangeiros de grande relevância têm repercutido as preocupações de autoridades brasileiras e estadunidenses sobre as ações da atual administração de Washington na América Latina. O que já incluiu medidas diplomáticas e econômicas, tais como a aplicação de sanções, restrição de vistos e tarifas, são utilizadas de forma estratégica para exercer pressão política e favorecer determinadas candidaturas.

Mas, o ponto principal está no risco do uso coordenado de redes sociais, algoritmos e ferramentas de inteligência artificial para espalhar narrativas que manipulam o sentimento do eleitorado, gerando desconfiança nas instituições democráticas. Afinal de contas, é de conhecimento público geral que há uma flagrante aproximação com os EUA, que se alinha contra o avanço de agendas progressistas na América a partir de uma discursividade pautada no medo para persuadir eleitores.

Acontece que a política do medo trabalha na fragilização e no esgarçamento da democracia, da soberania e da identidade nacional. O medo transforma adversários políticos em inimigos existenciais, reduzindo o espaço para o diálogo e o consenso. Permitindo que as populações sob forte sentimento dessa ameaça tendam a aceitar a centralização do poder e a perda de freios e contrapesos em troca de uma promessa de segurança.

É nesse contexto que a soberania muitas vezes é relativizada quando o medo é usado para justificar o alinhamento cego a blocos geopolíticos. Assim, tanto os discursos de pânico econômico ou de vulnerabilidade militar podem levar um país a assinar acordos desvantajosos ou a se submeter à influência de potências estrangeiras em troca de estabilidade aparente, quanto o receio de crises severas pode ser utilizado para justificar a entrega apressada de setores estratégicos e riquezas nacionais, enfraquecendo a capacidade de autodeterminação do Estado.

Por essas e outras, sociedades que operam sob o signo do medo tendem a trocar a liberdade pela promessa de segurança, a partir de um movimento que historicamente fragiliza os laços democráticos e soberanos. Além de destruir o tecido social e a verdadeira riqueza da identidade de um país, substituindo-a por um nacionalismo defensivo, excludente e intolerante.

Lembre-se das palavras de Platão, filósofo grego da Antiguidade, “Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz”. Isso significa que a política do medo tenta infantilizar os cidadãos, fazendo-os abrir mão da própria racionalidade e aceitarem a servidão voluntária por medo de enfrentar a realidade de peito aberto.