Nenhuma
morte no trânsito é aceitável, concorda?!
Por
Alessandra Leles Rocha
Aos que ainda não se deram conta,
veículos automotores são armas tão perigosas quanto quaisquer outras. Por quê? Porque
não se trata apenas de um meio de transporte, mas de um instrumento de poder, de
controle e de violência potencial dentro do espaço público, apesar de ser um objeto
de consumo cotidiano.
O que permite pensar como a
sociedade contemporânea está imersa em uma violência estrutural, na qual a
infraestrutura urbana privilegia a máquina em detrimento da vida humana. Os veículos
automotores têm se mostrado a mais perfeita manifestação do ego e do poder, na
medida em que milhares de indivíduos se valem dessas máquinas para exercer a
sua desumanização.
É, o outro deixa de ser uma
pessoa para se tornar um obstáculo. Isso ocorre porque os automóveis potencializam
a oferta de um anonimato cego que encoraja os comportamentos agressivos,
delituosos, transgressores, transformando-os em instrumentos de coerção e de imposição
de vontade sobre os mais vulneráveis nas vias de tráfego.
Além disso, o uso do veículo como
arma também reflete a desigualdade social. Há uma tendência, por parte daquele
que possui o veículo maior ou mais potente, de exercer ainda que simbolicamente
uma ideia de importância ou de uma prioridade na via.
Assim, as consequências refletem
como o espaço público, especificamente as vias de tráfego, se torna um
microcosmo das posições de poder da sociedade. Dentro dessa lógica, então, um
veículo grande ou potente não é apenas um meio de transporte; mas, uma armadura
social.
O que significa que o motorista
projeta a sua identidade e seu status no carro, sentindo que sua importância socioeconômica
deve ser respeitada fisicamente no asfalto.
Por isso, em geral, quem está no
veículo maior exerce uma dominância espacial que age sobre os demais, alguns
visivelmente menores, tais como os pedestres, os ciclistas ou os carros
populares, a fim de cederem passagem.
Infelizmente, essa dinâmica faz
com que o veículo maior diminua a empatia pelos outros, reforçando a ideia de
que o tempo e a trajetória de quem possui a máquina mais potente, mais cara,
são mais valiosos.
Trata-se do cenário no qual o
trânsito atua como um palco de disputa de classe, onde a posse de um bem
superior é usada para validar uma prioridade que a lei não concede, mas que a
cultura da ostentação e do poder ratifica.
O pior é que não para por aí. Haja
vista a intensificação no número de acidentes automobilísticos, com mortos ou vítimas
severas, no país. Por trás das estatísticas está, portanto, o fenômeno do
descumprimento deliberado das leis de trânsito.
Seja pelo excesso de velocidade, pelo
consumo de álcool e outras substâncias entorpecentes, pela adrenalina da transgressão,
esse descumprimento passa a sinalizar uma tentativa de domínio sobre o espaço
público e sobre o outro, a partir de uma construção ideológica que confere a
certos indivíduos a possibilidade de se sentirem no direito de ditar as regras.
Acontece que essa realidade
ultrapassa a própria dor das perdas humanas, decorrentes desse pensamento, na
medida em que ela permanece reverberando o caos nefasto da violência estrutural
derivada das más práticas no trânsito.
Pois é, muitos veem as normas de
trânsito como uma interferência pessoal em seu direito de ir e vir, e por essa
razão, o descumprimento é uma forma de burlar o obstáculo em nome do desejo
individual.
Assim, o freio moral desaparece e
a transgressão deliberada ao volante torna-se a linguagem comum. Inclusive, permitindo
que o indivíduo descarregue suas frustrações sociais sem o contato cara a cara,
desumanizando pedestres e outros motoristas.
Daí o perigo de tratar os acidentes
de trânsito como fatalidades, e não como crimes ou falhas sistêmicas. Essa
naturalização retira a carga de responsabilidade dos condutores.
Ao ignorar o risco de morte em
prol da conveniência, seja por dirigir alcoolizado ou por usar o celular, por
exemplo, o indivíduo assume uma postura de indiferença ética em relação à vida
alheia, consolidando o potencial bélico do automóvel.
Por isso, a população brasileira,
em sua totalidade, precisa se conscientizar de que o seu país é o 3º com mais
mortes no trânsito em todo o mundo, são aproximadamente 92 óbitos por dia. As principais
vítimas são os motociclistas, os quais representam a maior parcela das
fatalidades e internações.
Cerca de 200 pessoas são
afastadas do mercado de trabalho diariamente por sinistros de trânsito. Dados
oriundos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) 1 e da Associação Brasileira de Medicina
de Tráfego (ABRAMET).
Portanto, a estatística só faz
refletir que a recorrência de infrações aponta para uma cultura de baixa
internalização e respeito às leis, onde a proteção é vista como arbitrária e
não como uma medida para resguardar a coletividade.
Sem contar que há uma crise de
alteridade e de desumanização em curso no trânsito brasileiro; mas, sobretudo,
na contemporaneidade em si, que pode ser traduzida pela dificuldade em lidar
com a igualdade democrática no espaço comum, onde o veículo funciona como uma
armadura que isola o indivíduo da responsabilidade ética para com o próximo.
Então, quando as regras de
trânsito são percebidas apenas na imagem da multa, que é o mais comum na
maioria das vezes, não como um valor ético de convivência, o comportamento
passa a ser guiado pelo jeitinho ou pela lei do mais forte.
Entretanto, esse não é, nem nunca foi, o caminho para uma convivência e uma coexistência social equilibrada e humanizada, tendo em vista de que ao tornar o medo da multa o único freio contra as práxis transgressoras e delituosas, o indivíduo não se torna um cidadão, mas apenas um infrator em potencial que aguarda a ausência de fiscalização para agir conforme seu próprio interesse.


