terça-feira, 6 de outubro de 2026

A democracia verga, mas não quebra!


A democracia verga, mas não quebra!

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Quer saber?! Que me importa se deu segundo turno! Não, não estou diminuindo os fatos ou exercitando um otimismo ingênuo. Acontece que, pouca gente já se deu conta, diante desse resultado o Brasil foi parar no centro do palco. Pois é.

É preciso entender que a expansão e a disseminação da ultradireita desconforta o planeta, com todas as lembranças e memórias nefastas que recortam a Segunda Guerra Mundial. Todos os seus discursos e plataformas indigestos e desumanos. Toda a sua barbárie que tenta sufocar os pilares democráticos.

Caro (a) leitor (a), o mundo entre 1914 e 1945, ou seja, no período que abarca a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais, tem a dimensão exata do que foi experienciar o cotidiano desses acontecimentos. Tanto que, principalmente na Europa, a historicidade desse tempo é contada e recontada ao longo das gerações para não se deixar esquecer.

Então, retornando ao século XXI, com todas as suas investidas fascistas e neoimperialistas, a ultradireita desperta uma legião contraria às suas aspirações em tomar de assalto o planeta. Como dizia Michel Foucault, filósofo e historiador francês, “Onde há poder há resistência”. Simples, assim. De modo que, no século XXI, essa premissa se manifesta fortemente nas tensões globais envolvendo o antifascismo e o anti-imperialismo.

Quem diria, não é mesmo?! O Brasil não está só. Depois do seu retorno triunfal ao cenário diplomático mundial, se apropriando do seu protagonismo genuíno, consolidado pela participação consistente nos BRICS, ele se mostra como um bastião de resistência fundamental. Por isso, todos os olhos do mundo se voltam para ele e estendem seu apoio.   

Agora, não apenas os fã-clubes e comunidades digitais (fandoms) de artistas nacionais, como Anitta e Luísa Sonza, se engajam na campanha do segundo turno em favor da democracia e contra o estado de barbárie que deseja implementar a ultradireita.

Também os administradores dos fã-clubes dedicados a Beyoncé, Taylor Swift, entre outros, abriram seus canais de comunicação para divulgar materiais da campanha de Lula, informar eleitores indecisos e incentivar o comparecimento às urnas no dia 25 de outubro.

O manifesto esclarece que a mobilização é organizada de forma autônoma pelos administradores das comunidades de fãs em defesa da democracia, não significando necessariamente que todos os artistas citados tenham declarado apoio individual à candidatura.

Entretanto, a iniciativa não deixa de lançar um canhão de luz gigantesco sobre os riscos que a democracia está correndo, não só no Brasil, impondo a necessidade de união pela democracia.

Sim, porque a ultradireita se apropria de todos os demais vieses direitistas para se tornar hegemônica e suficientemente capaz de estabelecer o seu populismo e polarização, fazendo com que suas lideranças usem a divisão social para enfraquecer o contraditório, façam do adversário político um inimigo existencial, desacreditem na alternância de poder para se perpetuarem de forma recorrente.

Tendo em vista de que esses são tempos altamente tecnológicos, a ultradireita utiliza, então, como estratégia de desinformação as redes sociais. Seja pelos algoritmos potencializam mentiras e teorias conspiratórias. Seja pelo sistemático questionamento em relação à integridade dos processos eleitorais. Seja pelo implacável desgaste contra a confiança pública na imprensa livre.

Porém, enquanto está ensimesmada na sua vaidade narcísica, ela acaba deixando de perceber como o antifascismo e o anti-imperialismo do século XXI atuam como as contraforças diretas ao seu pseudopoder. Eles se organizam tanto em movimentos de rua quanto em redes digitais, coletivos de checagem de fatos, defesa dos direitos humanos e frentes amplas democráticas.

De modo que emergem assuntos extremamente desconfortáveis para o fascismo ultradireitista como a defesa de povos indígenas contra o avanço de mineradoras estrangeiras, os movimentos por soberania, a segurança alimentar, a busca por moedas alternativas para fugir do domínio do dólar, e o fortalecimento de blocos regionais que buscam um mundo multipolar.

Portanto, caro (a) leitor (a), o Brasil não está só, como já esteve em algum momento do seu passado. O Brasil aprendeu o que é ter vez e voz no mundo. Aprendeu a se fazer respeitar.

Sendo assim, no cenário internacional do século XXI, o protagonismo brasileiro se fortalece não somente por uma onda de manifestações contundentes contra o avanço do fascismo e do neoimperialismo, representado por pressões hegemônicas e sanções unilaterais de elementos da ultradireita; mas, pela força do espírito democrático global que crê na autodeterminação dos povos como o caminho para potencializar o multilateralismo.  

#PELADEMOCRACIA



segunda-feira, 5 de outubro de 2026

A cidadania brasileira e a Constituição de 1988


A cidadania brasileira e a Constituição de 1988

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Em tempos de uma ampla disseminação da Teologia da Prosperidade e da Teologia do Domínio, milhões de pessoas são levadas a acreditar e viver sob promessas que não se sustentam por si mesmas.

Surgida nos EUA, em meados do século XX, e ganhado força global nas décadas de 1970 e 1980, a Teologia da Prosperidade defende que Deus deseja ver seus fiéis ricos, saudáveis e felizes nesta vida, ou seja, ensina que doações financeiras, como dízimos e ofertas, funcionam como uma semente que garante o retorno material em dobro; sobretudo, quando se manifestados conjuntamente com palavras de decreto, visualização e exigência de bênçãos a Deus.

Também surgida nos EUA em meio a vertentes ultraconservadoras do protestantismo, entre as décadas de 1970 e 1980, a Teologia do Domínio defende que os cristãos devem ocupar e controlar as esferas de poder da sociedade, tais como a política, a economia, a cultura e a educação, para subordinar o Estado civil às leis e aos preceitos bíblicos. De modo que a sua presença vem se consolidando a partir de discursos de lideranças e agentes públicos que encaram mandatos políticos como missões espirituais para libertar a nação.

Então, decidi escrever a respeito, porque 05 de outubro marca a promulgação da Constituição de 1988, conhecida como “Constituição Cidadã”, a qual contou com a participação de 559 parlamentares titulares na Assembleia Nacional Constituinte, responsáveis por elaborar e aprovar o texto constitucional ao longo de 20 meses de trabalho, além de juristas e forte participação popular.

Foi a partir, então, dessa Carta Magna, que a população brasileira; sobretudo, as camadas mais frágeis e vulneráveis, teve garantidos seus direitos civis e sociais. Isso significa, por exemplo, o surgimento do Sistema Único de Saúde (SUS) que garantiu o acesso universal e gratuito à saúde como um direito de todos e dever do Estado.

Para quem não sabe, antes de 1988, apenas trabalhadores com carteira assinada tinham direito ao atendimento público de saúde através do antigo Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social (Inamps). Quem trabalhava na informalidade, desempregados ou sem carteira assinada não tinha direito ao atendimento pelo Inamps.

A Previdência Social Rural que permitiu a aposentadoria de trabalhadores rurais e agricultores familiares sem a necessidade de contribuição formal prévia, beneficiando diretamente milhões de idosos no interior do país e reduzindo a pobreza no campo.

O Benefício de Prestação Continuada (BPC) que garante um salário-mínimo mensal para pessoas com deficiência e idosos a partir de 65 anos que comprovem não possuir meios de prover a própria manutenção.

O amparo legal para a construção de políticas públicas de combate à pobreza e transferência de renda, quando em seu artigo 3º, inciso III, ela coloca expressamente que um dos objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil é erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais. Isso deu legitimidade jurídica irrefutável para que governos subsequentes criassem programas focados na redistribuição de renda.

O destaque para a educação e as ações afirmativas, na medida em que ela rompeu com o modelo anterior ao tratar a educação não apenas como um serviço, mas como um direito social fundamental de todos e um dever do Estado.

Assim, o artigo 205 definiu a educação como direito de todos e dever do Estado e da família, de modo que o não oferecimento do ensino obrigatório pelo poder público importa responsabilidade da autoridade competente.

Fato que garantiu o ensino fundamental gratuito e, com reformas posteriores baseadas em seus princípios, estendeu a obrigatoriedade da faixa dos 4 aos 17 anos.

Sem contar que o artigo 212 blindou os recursos da educação, obrigando a União a aplicar nunca menos de 18%, e Estados e Municípios no mínimo 25% da receita de impostos na manutenção e desenvolvimento do ensino.

Permitindo, então, organizar os sistemas de ensino de forma que os Municípios atuam prioritariamente no ensino fundamental e infantil, os Estados no ensino fundamental e médio, e a União coordena o sistema nacional e redistribui recursos para diminuir desigualdades regionais.

O que significou a base para a criação do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério (Fundef) e, posteriormente, do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb).

A promoção dos Direitos Civis e proteção de grupos vulneráveis. Haja vista o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA - 1990), que passou a enxergar crianças e adolescentes como sujeitos de direitos e prioridade absoluta do Estado, proibindo o trabalho infantil e criando os Conselhos Tutelares.

A Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006) e Lei do Feminicídio (Lei nº 13.104/2015), que foi tornado crime autônomo pela Lei nº 14.994/2024. Criando-se, então, mecanismos rigorosos para coibir e prevenir a violência doméstica e familiar contra a mulher, tipificando o assassinato de mulheres por razões de gênero; bem como, tipificando as diferentes formas de violência doméstica e familiar contra a mulher – física, psicológica, sexual, patrimonial e moral.

O Estatuto do Idoso (Lei nº 10.741/2003) e Estatuto da Pessoa com Deficiência (Lei nº 13.146/2015), que são legislações que asseguram direitos específicos de atendimento prioritário, acessibilidade, habitação e proteção contra o abandono e a violência.

A PEC das Domésticas (Emenda Constitucional nº 72, de 2013), que garantiu aos trabalhadores (as) domésticos (as), uma categoria historicamente vulnerável e majoritariamente feminina e negra, os mesmos direitos trabalhistas dos demais trabalhadores urbanos e rurais, como FGTS, hora extra e seguro-desemprego.

Os Direitos LGBTQIA+ materializadas por conquistas obtidas principalmente via Poder Judiciário, Supremo Tribunal Federal (STF), como o reconhecimento da união estável homoafetiva (2011), o direito à alteração de nome e gênero no registro civil para pessoas trans (2018) e a criminalização da homofobia e da transfobia (2019).

A Constituição de 1988 tornou o racismo um crime inafiançável e imprescritível. Então, a fim de formular políticas públicas para corrigir as desigualdades históricas que afetam a população negra, a Lei do Racismo (Lei nº 7.716/1989), o Estatuto da Igualdade Racial (Lei Federal nº 12.288, de 2010) e a Lei da Injúria Racial (Lei nº 14.532/2023) vem auxiliar nesse processo e contribuir para a criminalização do racismo, no Brasil.

No entanto, de repente, a partir da disseminação da Teologia da Prosperidade e do Domínio, dentro do país, vem se estabelecendo um debate contestatório aos avanços sociais promovidos pela Constituição Federal de 1988. A introdução de uma nova gramática moral e econômica no debate público tem desencadeado, portanto, um choque direto com o pacto social de 1988.

Sob essa ótica, políticas de redistribuição de renda ou assistência estatal têm sido vistas como incentivos à acomodação ou interferências indevidas na liberdade individual, esvaziando o conceito de solidariedade social garantido pela Constituição. Inclusive, havendo uma contestação aos avanços de direitos voltados a minorias políticas, igualdade de gênero e diversidade sexual.

Trata-se de uma concepção baseada, muitas vezes, no argumento de que os direitos sociais da Constituição de 1988 geraram um Estado inchado e ineficiente, unindo o conservadorismo moral ao ultraliberalismo econômico, necessitando desidratar certas garantias constitucionais por meio de reformas estruturais, sob a justificativa de que a austeridade e a moralização do Estado são o único caminho para a prosperidade da nação.

Em linhas gerais, a disseminação dessas ideologias propõe passar de um modelo de responsabilidade coletiva e direitos sociais garantidos pelo Estado para um modelo de mérito individual, moralismo religioso e mercado livre, colocando a Constituição de 1988 no centro de uma disputa civilizatória.

Porém, essa percepção se abstém, por completo, de considerar os pouco mais de 500 anos de história nacional, que estão sedimentados por todo tipo de desigualdades socioeconômicas. Nesse sentido, vale perguntar se a mudança de paradigma social poderia, de fato, ser resolvida pela lógica do mérito individual, do moralismo religioso e do livre mercado?  

Considerando que esses pouco mais de 500 anos de história brasileira, marcados por séculos de escravidão, colonialismo e exclusão marginal, geraram desigualdades estruturais tão profundas que impedem um ponto de partida igualitário, tal mudança não encontra respaldo.  

Ora, sem condições iniciais minimamente equilibradas, a meritocracia é vista como um conceito ilusório que apenas perpetua privilégios herdados. Daí a necessidade do Estado como um regulador indispensável para mitigar as falhas de mercado e proteger os mais vulneráveis.

Sem essa intervenção estatal, bens essenciais e serviços públicos básicos poderiam se tornar inacessíveis para grandes parcelas da população de baixa renda. Por isso não há como desconsiderar o passivo histórico de desigualdade, no Brasil.

Por essas e outras, quando a linha de chegada é a mesma, mas os pontos de partida são abissalmente diferentes, o sucesso dos que largaram no topo é legitimado como mérito próprio, enquanto o fracasso dos que largaram na base é tratado como falha pessoal. Fato que produz a chamada soberba meritocrática entre os vencedores e a humilhação social entre os que foram deixados para trás, perpetuando privilégios dinásticos disfarçados de competência.

É nesse contexto, então, que ignorar o peso da história ao avaliar o sucesso individual de um cidadão no Brasil é ignorar as barreiras invisíveis, apesar de perfeitamente mensuráveis, que moldam a trajetória de cada indivíduo.

Entende agora a importância da Constituição Federal de 1988? Políticas públicas compensatórias, tais como cotas, programas de transferência de renda e investimentos estruturais em periferias, não são distorções do mercado, mas sim tentativas de calibrar a balança para que a competição possa, algum dia, ser minimamente justa.

Assim, sempre que tiver dúvidas sobre o papel da Constituição de 1988, na sua vida e de todos os mais de 214 milhões de cidadãos brasileiros, sugiro ler e reler o poema OS ESTATUTOS DO HOMEM 1, de Thiago de Mello, escrito em 1964 em Santiago, no Chile, logo após o golpe militar no Brasil.