sábado, 8 de agosto de 2026

A realidade contemporânea da coabitação multigeracional


A realidade contemporânea da coabitação multigeracional

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Apesar da raça humana ter iniciado a sua jornada sobre a Terra, vivendo coletivamente dentro de um mesmo espaço, sob um mesmo teto, a própria dinâmica social se impôs para promover um processo de desagregação dos grupos, para que os indivíduos pudessem desfrutar da sua autonomia e independência.

Então, no contexto do século XXI, quando muitos expressam o seu espanto ou indignação diante de gerações que estão compartilhando o seu cotidiano dentro de uma mesma casa, é preciso parar e refletir sobre as conjunturas que levaram a esse cenário social contemporâneo.

Queiramos ou não admitir, o desenvolvimento científico e tecnológico decorrente da Revolução Industrial, na segunda metade do século XVIII, teve sim um papel de arauto do progresso humano ao propagandear a sua possibilidade de existir e viver por conta própria. Acontece que na prática a teoria nem sempre se alinha dentro das perspectivas e expectativas.

Esse recorte histórico-temporal que viria mudar, para sempre, o curso da humanidade, gerou um sistema sociocultural e econômico tão engessado e limitante, quanto aquele que existia até a Revolução Francesa. O cenário que prometia a libertação humana pelo domínio da estrutura monárquica acabou criando novas formas de aprisionamento social.

Veja, a Revolução Industrial vendeu a ideia de emancipação total do homem através da máquina e da ciência; mas, na verdade, o ser humano deixou de ser refém das intempéries da natureza para se tornar refém do relógio, da fábrica e do capital. Tanto que a arte, antes dominante sobre todo o processo produtivo, transformou-se em mera extensão da especialização industrial.

O direito de sangue da nobreza feudal foi substituído pelo poder financeiro da burguesia. Nesse sentido, a mobilidade social permaneceu severamente limitada a tal ponto que o trabalhador urbano se viu preso a jornadas de 16 horas e condições miseráveis, sem vias de fuga. Assim, o controle social mudou o soberano, ou seja, do Rei para o Mercado, mas uma estrutura de domínio e de desigualdade extremamente centralizada permaneceu.

E quanto mais o tempo passa mais esse sistema recrudesce, deteriorando de maneira bastante contundente quaisquer vestígios de autonomia e de independência dos indivíduos. Haja vista que, em 2026, a distribuição de renda e riqueza global continua em patamares de concentração extremos, com os 10% mais ricos detendo cerca de 75% da riqueza global e a metade mais pobre ficando com apenas 2%.

Isso significa que o mundo vem se tornando materialmente muito mais rico, porém o abismo absoluto entre os mais ricos e os mais pobres é concretamente maior do que no início da Revolução Industrial, por volta da segunda metade do século XVIII. Apesar de a pobreza extrema global ter decrescido dramaticamente em termos percentuais, a fatia da renda capturada pelo topo da pirâmide se mostra hiperconcentrada e distante de uma realidade ampliada.

Acontece que essa dinâmica do capital é que rege as possibilidades do exercício existencial autônomo e independente. Sem a suficiência de recursos não há eficiência para a construção das bases da dignidade humana. Daí o retrato de gerações familiares sendo obrigadas a viver sob um mesmo teto. Quem já leu sobre o dilema do porco-espinho, criado pelo filósofo alemão Arthur Schopenhauer em 1851, entende bem. Apesar de todos os desafios impostos pela diversidade e pluralidade humana essa coabitação multigeracional forçada é a única forma de sobreviver.

Ela, na verdade, representa uma válvula de escape econômico e uma rede de segurança privada diante dos altos custos de vida, da escassez de recursos e da financeirização da moradia dentro do capitalismo contemporâneo.

Nesse sentido, ela transferiu para o espaço doméstico o suporte que o Estado deixou de cumprir em relação ao bem-estar social liberal, o qual havia teoricamente prometido. O pior é que o sistema capitalista se beneficia dessa estrutura ao abafar o descontentamento social e reduzir a pressão por políticas públicas de habitação e seguridade.

Portanto, embora pareça uma resistência comunitária, trata-se de uma imposição que limita a mobilidade social e a autonomia individual das novas gerações. Fato que desencadeia uma série de consequências nefastas, tais como o estresse psicológico devido à falta de privacidade e choque de valores geracionais, a sobrecarga feminina traduzida pelo acúmulo do trabalho doméstico e de cuidado com as diversas gerações, e a manifestação de uma solidariedade compulsória, na qual o afeto e os laços familiares são instrumentalizados e desgastados pela pressão econômica externa.

Mas, talvez, a raça humana já esteja diante de uma fronteira social ainda pior. Ao redor do planeta existem milhares de famílias que já perderam o próprio teto em razão dessa dinâmica. Essa coabitação multigeracional está sendo forçada a viver nas ruas dos centros urbanos; sobretudo, as grandes e médias cidades.

O aumento do preço dos aluguéis e a escassez de moradia acessível forçam milhares de pessoas a viverem ao ar livre. Por consequência, os espaços urbanos sofrem com a falta de infraestrutura e políticas públicas para acolher essas populações vulneráveis. A perda do teto rompe, então, a rede de apoio familiar e gera graves riscos à saúde e à segurança humana, exigindo ações integradas de assistência social, saúde pública e planejamento urbano.

Segundo o Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos (ONU-Habitat), cerca de 318 milhões de pessoas enfrentam a falta absoluta de moradia no mundo, enquanto quase 3 bilhões sofrem com habitação inadequada, morando em favelas ou assentamentos informais. Esse cenário reflete as crises sistêmicas de desigualdade urbana, exigindo políticas públicas integradas de saneamento, saúde e planejamento territorial.

Afinal, a ausência de políticas integradas agrava múltiplos fatores de risco nos centros urbanos. A começar pelo fato de que a falta de teto isola o indivíduo e desestrutura os laços familiares e comunitários.

O que traz consequências significativas, tais como o agravamento do desequilíbrio em relação à saúde pública, dada a exposição contínua às intempéries, à poluição urbana e à falta de saneamento que dispara os índices de adoecimento físico e mental entre a população.

Fato que culmina na consolidação de ciclos de exclusão; pois, as respostas institucionais baseadas apenas na repressão ou em ações emergenciais de curto prazo falham em estancar o problema estrutural da pobreza e da indignidade humana.

Daí a necessidade de olhar para a vida como ela é. De se permitir a reflexão a respeito da submissão que constrói a alienação humana diante desse sistema socioeconômico estabelecido há pouco mais de 3 séculos, o qual só faz recrudescer as diversas barbáries sociais historicamente conhecidas. Porque a consciência é o primeiro passo para resistir à coisificação humana e se reposicionar como sujeito da própria história, se apropriando da condição de ser autônomo e independente.

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Parece ... Mas não é.

Parece ... Mas não é.

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

De maneira franca, clara e objetiva, a identidade é algo pessoal e intransferível, o que significa que ela pertence a apenas um indivíduo e não pode ser dada ou emprestada a outra pessoa. Dito isso, por mais que um (a) filho (a) se pareça de algum modo com seus genitores, cada indivíduo tem a sua própria história.

O que move essa reflexão advém do que está presente nas mídias sociais. As figuras de dois pais e dois filhos são o objeto de uma análise bastante importante e interessante.

No primeiro caso, o pai já foi Presidente da República. Portanto, já submeteu o seu trabalho e a sua história política ao escrutínio popular. O filho, primogênito, dada a impossibilidade jurídica do pai concorrer a um novo pleito, se colocou na disputa. Seus anos na política trouxeram uma experiência limitada ao Legislativo. Razão pela qual, ele se apega de todas as maneiras ao nome do pai como se o papel de sucessor político, de maneira automática e instantânea, fosse reproduzir também uma apropriação identitária.

No segundo caso, o pai é Presidente da República. Inclusive, está em seu terceiro mandato. O que significa que o seu trabalho e a sua história política se permitiram colocar em escrutínio popular mais de uma vez. O filho, primogênito, nunca manifestou pretensões políticas. No entanto, dado o viés político-partidário do pai, ele sempre esteve no alvo dos opositores sob alegações de alguma conduta ilícita, sem que nada fosse, de fato, comprovado.

Por quê? Porque a historicidade brasileira, marcada por um modelo colonial, consolidou uma herança política em que os poderes costumam seguir, quase sempre, o fluxo da hereditariedade familiar. Então, torná-lo objeto de contestação pública, apesar de ele não ter escolhido ocupar um lugar na vida política, se torna um modo de tentar afetar ou arranhar a imagem do pai.

Acontece que na escolha democrática, o candidato é um individuo dotado de identidade própria. O registro e a votação são baseados puramente na figura do indivíduo, não existindo candidaturas coletivas ou de listas fechadas independentes de nomes.

Cada candidato concorre sob um número e nome de urna específicos; bem como, ele responde individualmente pelo que diz, pelo que promete, por suas contas e atos de campanha. E é sobre essa figura que o eleitor deve dedicar a sua análise crítica.  

O exercício do voto consciente, na democracia, implica necessariamente em avaliar de maneira profunda e objetiva os pretensos candidatos. Verificar mandatos anteriores, projetos aprovados e coerência partidária. Investigar a existência de processos judiciais ou condenações por corrupção. Ler as propostas oficiais ou planos de governo registrados na Justiça Eleitoral. Analisar se os projetos possuem orçamento e base legal realizáveis. Identificar quem são os principais doadores e grupos de interesse do candidato.

Informações que podem ser obtidas na Plataforma do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e nos portais de transparência, os quais incluem os sites da Câmara, do Senado ou das assembleias legislativas.

A escolha representativa político-partidária deve, então, basear-se em propostas concretas e de competência administrativa, e não em distorções de identidade ou expectativas ilusórias. Quando o voto é guiado por visões de projeções identitárias irreais, o debate público perde profundidade técnica e passa a ter foco em narrativas superficiais e equivocadas.

De modo que para superar esses vieses há de se construir uma análise de histórico, avaliando o passado político, as votações anteriores e os processos do candidato. Um profundo estudo de propostas, verificando a viabilidade econômica e técnica dos planos apresentados. Exercendo uma cobrança partidária a partir do monitoramento do partido político quanto aos apoios em projetos alinhados ao interesse coletivo.

Mas, para isso, só consumindo notícias de diferentes veículos de imprensa para evitar bolhas de informação. Afinal, elas são tentáculos que capturam a sua liberdade de escolha e te fazem refém das decisões de outras pessoas que você sequer conhece ou já ouviu falar. O que geralmente acontece por meio de algoritmos, personalização de feeds e viés de confirmação.

Portanto, desconfie de conteúdos que parecem feitos sob medida para agradar ou irritar você. Limpe o seu histórico de navegação e redefina as preferências dos seus aplicativos. Busque a diversidade! Leia sites e perfis com pontos de vista contrários aos seus. E não se esqueça, “O mais corajoso dos atos ainda é pensar com a própria cabeça” (Coco Chanel - estilista e empresária francesa).

sexta-feira, 31 de julho de 2026

A personalização da raiva


A personalização da raiva

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Quem assistiu ao filme COMER, REZAR, AMAR (2010), a protagonista Liz Gilbert faz uma comparação com a atriz Ingrid Bergman, dentro de uma reflexão sobre a pressão da perfeição, aceitando sua própria imperfeição e reconhecendo o sagrado em si mesma.

Ela diz: “A verdade da aventura aqui na Índia está em uma fala: Deus reside dentro de você, como você. Ele não quer ver uma performance de como alguém espiritualizado se veste e se comporta. A garota quieta que passeia com um sorriso etéreo e gentil. Quem é essa pessoa? É Ingrid Bergman, em ‘Os sinos de Santa Maria’. Essa não sou eu. Deus reside dentro de mim, como eu”.

E por que me lembrei disso? Bem, o discurso contemporâneo sobre a liberdade esconde aspectos bastante importantes para ficarem obscuros ou serem negligenciados. A começar pelo fato de que incide sobre as emoções e os sentimentos uma questão de gênero, que ao longo de séculos e séculos têm causado efeitos extremamente nocivos ao equilíbrio social.

Sim. A divisão social que atribuiu racionalidade aos homens e emotividade às mulheres é uma construção histórica. E essa imposição de papéis limitou a expressão humana legítima e gerou um abismo de desigualdades. Razão pela qual é tão importante questionar e analisar essa questão para que se torne possível romper com esses estereótipos e humanizar o direito ao sentimento, como um passo fundamental para uma sociedade mais justa e saudável.

Quantas vezes você já não ouviu, por aí, alguém rotular uma mulher como “histérica”, “descompensada”, “briguenta”, “barraqueira”, ..., quando ela estava expressando a sua raiva?! Por trás desses e outros adjetivos pejorativos o que se esconde é a existência de uma imposição social que pune as mulheres, desde crianças, a não manifestarem suas emoções e sentimentos a fim de não ferir os padrões sociocomportamentais preestabelecidos para elas. E quais são eles? Bem, a partir dos adjetivos você descobre. Submissa. Dócil. Delicada. Abnegada. Recatada. Protetora. Prendada. Zelosa. Maternal. ...

Mas, se um homem fala mais alto, ou xinga, ou bate a mão na mesa, ou discute, ninguém diz absolutamente nada. Porque, segundo as históricas convenções do patriarcado, o sistema social em que o homem detém o poder principal, tal comportamento está alinhado à sua liberdade de expressão. Isso significa que ele foi historicamente legitimado pela sociedade, diga-se os seus próprios pares, para se comportar dessa forma.

Acontece que é parte da natureza humana a manifestação das emoções e sentimentos. Isso não tem nada a ver com gênero. Reprimir o que sentimos, o que pensamos, vai contra a nossa própria biologia. Emoções e sentimentos funcionam como bússolas internas que auxiliam no modo como o ser humano se coloca diante do mundo e reafirma o seu papel social como cidadão.

E pensando à luz da contemporaneidade, esses são tempos em que o volume cotidiano de tensões desnecessárias é tão grande, que por mais que se deseje manter uma aura zen budista, quando o indivíduo se dá conta ele (a) já explodiu. Aliás, eu trago um pouco desses estopins na crônica “A desumanização nossa de cada dia” 1, apontando como esse é um assunto muito sério.

Afinal, grande parte da raiva sentida nasce justamente do processo de desumanização. O que no caso das mulheres é acrescido pela arbitrariedade de uma repressão protocolar das emoções e dos sentimentos. Como se ela fosse obrigada a passar pelos episódios de desumanização e não tivesse o direito de expressar suas emoções e sentimentos, porque é mulher. Desse modo, em termos de dor, de sofrimento, de violência, as mulheres são obrigadas a aceitar a revitimização das desumanizações sofridas para não fugir aos protocolos e etiquetas sociais historicamente definidos para elas.

Mas, a pergunta que não quer calar é: até quando? Ora, as mulheres têm total direito de sentir e expressar suas emoções, seus sentimentos, incluindo a raiva. Estamos falando de algo que traduz uma resposta natural do corpo humano diante de injustiças ou limites violados. Portanto, a raiva não deve ser negada a ninguém por causa do gênero.

Reconhecer e expressar a raiva evita o adoecimento emocional decorrente do acúmulo de emoções e sentimentos reprimidos. Por isso, ela impede o esgotamento emocional e ajuda a impor limites necessários. Sim, ela avisa quando um limite pessoal foi violado ou quando alguém sofre uma injustiça, fornecendo a energia necessária para mudar situações abusivas ou desconfortáveis.

Não se esqueça de que a raiva guardada se transforma em tensão muscular, dores de cabeça, problemas digestivos e baixa imunidade. O que em longo prazo faz emergir o adoecimento mental, que significa um acúmulo contínuo de raiva e outros sentimentos negativos capazes de gerar quadros de ansiedade, de ressentimento periódico e de depressão.

Razão pela qual reprimir a raiva funciona como uma panela de pressão, ou seja, o resultado final costuma ser uma explosão desproporcional.

Assim, a chave para a saúde mental não é evitar a raiva, mas buscar alternativas e caminhos para lidar com ela. Começando pela validação dos próprios sentimentos e emoções, como algo legítimo e humano. Ainda que estejamos falando de raiva.

Depois, canalizando a expressão, a partir de uma forma mais assertiva ou descarregando toda a fúria energética de forma segura através de exercícios físicos ou de escrita terapêutica, por exemplo.

O fundamental é não esquecer de que essas sugestões não são um manual infalível. Às vezes vai dar certo. Outras não. Afinal, a vida é assim, na sua dinâmica de altos e baixos, de idas e vindas, porque todo ser humano é um ser em franca construção.