Segundo Michel
Foucault, “Precisamos resolver nossos monstros secretos, nossas feridas
clandestinas, nossa insanidade oculta”.
Por
Alessandra Leles Rocha
Apesar de a Direita em todos os
seus matizes mais ou menos extremistas terem alcançado uma maioria expressiva
para o Congresso Nacional na próxima legislatura, o resultado das urnas para a
Presidência da República trouxe não só um desconforto; mas, uma instabilidade
organizacional para os membros desse espectro político-partidário. Sobretudo,
após a fuga inesperada do seu candidato recém-derrotado para os EUA.
Não vamos nos esquecer de que o
poder costuma exercer sobre os indivíduos uma rivalidade pela disputa de
posições e influências. Trata-se da autofagia política em que um grupo,
partido, corrente ou liderança política promove sua própria destruição ou
enfraquecimento por meio de conflitos internos, disputas, escândalos ou divisão
de bases.
Nesse sentido, até que haja uma
pacificação político-ideológica no campo da direita brasileira, é precipitado
tecer conjecturas sobre o seu próprio posicionamento no cenário político dos
próximos pleitos. Inclusive, porque certas ideias que circularam a partir desses
mesmos indivíduos ainda ecoam de maneira indigesta entre o eleitorado nacional.
Em razão do fato de que elas reacendem
certos ranços coloniais históricos sobre determinados segmentos sociais; mas,
que se encontram totalmente desalinhados da realidade contemporânea do século
XXI. Nesse contexto incluem-se o racismo, a xenofobia, a misoginia, a intolerância
religiosa, a sanha depredatória dos recursos naturais, a eliminação dos povos
originários e remanescentes quilombolas.
Tanto que, ainda sob o calor das
tensões ideológicas discursivas que vieram à tona no pleito eleitoral de 2026,
trazidas por elementos do espectro político da Direita, em todos os seus
matizes mais ou menos extremistas, povos indígenas de Mato Grosso do Sul, como
os Guarani Kaiowá e Terena, denunciaram uma escalada de violência, ameaças de
morte e manifestações racistas logo após o segundo turno das eleições. As
denúncias foram formalizadas pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil
(APIB) e por parlamentares. Elas apontam para ataques coordenados com motivação
política após a divulgação do resultado eleitoral.
O cenário de hostilidade inclui
relatos graves de agressões físicas, tentativas de homicídio contra lideranças
de comunidades tradicionais e ameaças de envenenamento da água em retaliação ao
resultado das urnas. De modo que as denúncias foram encaminhadas a órgãos
federais e ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por configurarem crime de
violência política.
Diante das ocorrências, o
Ministério Público Federal (MPF) passou a apurar o caso criminalmente, e os
ministérios dos Povos Indígenas (MPI), dos Direitos Humanos e da Cidadania
(MDHC) e da Igualdade Racial (MIR) formaram uma força-tarefa conjunta para monitorar
a segurança das aldeias e também apurar episódios semelhantes dirigidos a
comunidades quilombolas e povos de terreiro.
Também, proliferaram as denúncias
de empregadores e políticos que têm promovido campanhas contra funcionários que
tenham votado no candidato à Presidência da República que se sagrou vencedor. Veja,
o assédio eleitoral e a perseguição política no ambiente de trabalho são
ilegais e constituem crime no Brasil, mesmo após o encerramento das eleições.
O Ministério Público do Trabalho
(MPT) registrou uma explosão de denúncias após o segundo turno das Eleições
2026, motivada por publicações de políticos, empresários e influenciadores
digitais incentivando a demissão ou o boicote de trabalhadores que declararam
voto ou manifestaram apoio ao presidente reeleito.
Além disso, o cenário pós-segundo
turno das Eleições 2026 também gerou uma onda inédita de movimentos coordenados
de boicote comercial nas redes sociais, a partir da disseminação de listas de
estabelecimentos, incluindo restaurantes, comércios e prestadores de serviços,
associados a apoiadores ao presidente reeleito, de forma viral no ambiente
digital.
Vale ressaltar que essa práxis pautada
pelo método da exclusão, utilizando o mapeamento, a exposição pública e a conclamação
da sociedade para sufocar economicamente um grupo específico de cidadãos
unicamente em virtude de sua identidade, pensamento ou posicionamento político,
é preocupante e inconstitucional.
Preocupante porque ela fere
princípios fundamentais da democracia, dos direitos humanos e da livre
iniciativa. A democracia pressupõe a coexistência de pensamentos divergentes.
Mecanismos de sufocamento buscam impor uma homogeneidade ideológica pelo medo,
eliminando a diversidade de opiniões. Tratar o oponente político não como
alguém que pensa diferente, mas como um inimigo que deve ser destruído
financeiramente, destrói a empatia e a coesão social.
Mas, talvez, a pior consequência
seja o surgimento da Espiral da Vingança. Sim, quando o grupo hoje minoritário
ou boicotado alcançar o poder ou a maioria econômica, a tendência natural é que
ele utilize as mesmas armas de exclusão contra os seus antigos algozes, gerando
um ciclo interminável de perseguição mútua.
Assim, a preocupação passa a
residir no fato de que esse método substitui as ferramentas democráticas de
persuasão, voto e debate pela coerção econômica e pela segregação social,
aproximando a sociedade de lógicas autoritárias de perseguição, como já se viu
outras vezes no curso da historicidade humana.
Sobre ser inconstitucional, aos que
desconhecem o texto da Carta Magna de 1988, a manifestação do pensamento é
livre, sendo vedado o anonimato, segundo o art. 5º, inciso IV. A perseguição baseada em convicções políticas
fere o pluralismo político, que é um dos fundamentos da República, art. 1º, inciso
V. O art. 5º, inciso X, garante a proteção à intimidade, à vida privada, à
honra e à imagem das pessoas, assegurando o direito à indenização por dano
material ou moral decorrente de sua violação. O sufocamento econômico
intencional pode violar o princípio da livre iniciativa e do livre exercício de
qualquer trabalho, ofício ou profissão, conforme estabelece o art. 5º, XIII e o
art. 170. Por fim, todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer
natureza, sendo proibidas discriminações atentatórias aos direitos e liberdades
fundamentais (art. 5º).
Dessa forma, sob a ótica do
ordenamento jurídico, métodos de exclusão que visam punir civil ou
economicamente cidadãos pelo simples exercício de sua identidade ou
posicionamento político violam o pacto democrático e os direitos fundamentais. Afinal,
a punição civil ou econômica baseada na identidade ou convicção política
transforma a divergência democrática em um mecanismo de segregação social e
morte civil.
Isso significa que, na medida em
que o pertencimento a um grupo identitário ou político se torna critério para
sanções econômicas ou civis, tais como demissões, boicotes sistemáticos ou
perda de direitos, o Estado ou a própria sociedade civil opera uma subcidadania.
O que representa uma violência simbólica; pois, é uma forma de dominação que
não utiliza a força física, mas sim mecanismos culturais, econômicos e
institucionais para impor a censura e a marginalização de determinados grupos.
E essa imposição gera um fenômeno
conhecido como Espiral do Silêncio. Os indivíduos
que percebem que suas identidades ou opiniões atraem sanções financeiras ou
exclusão civil tendem a se calar por medo do isolamento ou da ruína econômica. Fato
que estabelece uma falsa unanimidade; pois, empobrece o debate público, criando
uma homogeneidade artificial e sufocando o pluralismo, que é a base vital de
qualquer democracia.
Portanto, quando a punição
econômica entra em jogo, o debate deixa de ser agonístico, uma disputa entre
adversários políticos legítimos, e passa a ser antagônico, uma luta existencial
para aniquilar o outro economicamente ou socialmente. Sendo esse o caminho para
estabelecer a polarização estrutural, na qual o indivíduo perde a capacidade de
transitar por diferentes esferas sociais. A economia, o trabalho e as relações
civis passam a ser filtrados por barreiras ideológicas, fragmentando a
sociedade em bolhas intransponíveis.
Por essas e outras, o que tem se apresentado nos últimos dias no Brasil é o surgimento de um tribunal moral, que não apenas viola a separação entre a esfera pública, onde se debate a política, e a esfera privada e/ou de subsistência; mas, reafirma o anseio de retrocesso histórico manifesto a partir do elitismo que almeja o estrangulamento social com fins de neutralizar uma eventual ascensão de certos grupos sociais.


