COP 31 - Conferência
das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas
Por
Alessandra Leles Rocha
As COPs ou Conferência das Partes são
o principal fórum diplomático global da ONU para coordenar o combate às
mudanças climáticas, tornando-se indispensáveis diante do Super El Niño, pois
eventos extremos amplificam o aquecimento global e exigem cooperação imediata
em adaptação e financiamento.
O governo brasileiro irá
participar do evento que acontece de 9 a 20 de novembro, na Turquia. Em relação
ao objetivo dessa conferência, o que os países participantes pretendem é dar
seguimento às metas do Acordo de Paris, debatendo a transição energética, o financiamento
climático e os roteiros para desmatamento e combustíveis fósseis.
Aí não pude deixar de pensar que, pelo fato
de o governo brasileiro contar com um dos nomes mais influentes e qualificados
do mundo em questões ambientais, a Sra. Marina Silva, o assunto se tornou um grande
“tendão de Aquiles” em razão do ministro de Minas e Energia, dada a sua posição
em tentar, de todas as maneiras, impor um discurso em relação a conciliar
energias limpas com a exploração de combustíveis fósseis e mineração.
Bem, essa ideia esconde riscos
socioambientais e econômicos graves que podem atrasar o combate à crise
climática. Na prática, as fontes renováveis muitas vezes estão apenas somando
energia ao sistema global, em vez de substituir o petróleo, o carvão e o gás, o
que faz com que o consumo total de energia cresça, mantendo as emissões de
gases de efeito estufa em níveis críticos e inviabilizando as metas climáticas
internacionais.
Além disso, há o chamado Greenwashing,
também conhecido como lavagem verde ou maquiagem verde, que é a prática em que
uma empresa, produto ou serviço utiliza estratégias de marketing para parecer
mais ecológico, sustentável ou responsável do que realmente é.
Nesse contexto, muitas petrolíferas
usam desse artifício, o que atrasa a descarbonização profunda, prendendo países
em infraestruturas fósseis onerosas por décadas e desviando recursos públicos
que deveriam ir exclusivamente para alternativas limpas.
Do ponto de vista das atividades
mineradoras, o colonialismo verde que ocorre quando países ricos e grandes
corporações transferem os custos ambientais da transição energética para o Sul
Global, a fim de descarbonizar suas economias com carros elétricos e energias
renováveis, optam por demandar volumes massivos de minerais críticos,
reproduzindo antigas dinâmicas históricas de exploração extrativista.
Mas, não bastasse esses
apontamentos socioambientais, há uma questão fundamental que, para muitos é
desconhecida. Trata-se do fato de que o referido ministro conflita os
interesses do governo, em razão de manter relações pessoais diretas com indivíduos
que exercem atividades ligadas à exploração de combustíveis fósseis e mineração.
Algumas dessas pessoas, inclusive, são alvos de investigação pela justiça, a
partir de operações realizadas pela Polícia Federal (PF).
Temos que relembrar que, esse ano,
com a anuência do Ministério de Minas e Energia, a Agência Nacional de Energia
Elétrica (ANEEL) homologou um leilão de eletricidade que contratou energia a
gás e carvão, por até 15 anos, trazendo importantes impactos socioambientais e
econômicos para os brasileiros.
Acontece que a contratação de
fontes fósseis mais caras, como é o caso, pode gerar um custo anual estimado
entre R$ 39 bilhões e R$ 40 bilhões, com previsão de encarecimento médio das
tarifas de energia em cerca de 10% para residências e até 20% para empresas.
O que significa aumento da
inflação e pressão no custo de vida, considerando que o repasse desses encargos
nas tarifas elétricas afeta toda a cadeia produtiva, encarecendo produtos e
serviços no país.
Afinal, como são usinas de
reserva, contratadas para ficarem de prontidão para evitar desabastecimentos
nos horários de pico, os consumidores pagarão uma receita fixa para mantê-las
paradas e arcarão com custos ainda maiores de combustível sempre que elas forem
acionadas.
Além disso, o domínio de fontes
fósseis, que representam a vasta maioria do leilão, vai na contramão dos
esforços globais para a transição energética e a redução de gases de efeito
estufa, agravando a crise climática.
Razão pela qual o leilão foi
amplamente questionado pelo Ministério Público Federal (MPF), pelo Tribunal de
Contas da União (TCU) e por entidades de defesa do consumidor, que apontam
favorecimento a grupos empresariais e criticam a recusa em priorizar
alternativas mais limpas e flexíveis, como armazenamento por baterias.
Por essas e outras é que esses
pontos fragilizam o protagonismo e o sucesso das discussões brasileiras na COP
31, na medida em que eventuais narrativas do ministro de Minas e Energia durante
o evento podem transmitir sinais contraditórios que geram insegurança e falta
de credibilidade ao governo.
Algo que jamais poderia acontecer
ao Brasil, que nas últimas décadas, tem se esforçado para manter o seu
protagonismo global na seara da sustentabilidade socioambiental.
É importante destacar que todo o
panorama acima descrito é facilmente comprovado a partir de documentos e de matérias
jornalísticas diversas.
O que significa que o assunto circula,
há algum tempo, mesmo que somente nos bastidores, entre muitos dos participantes,
favorecendo a uma relativização pública sobre o verdadeiro entendimento do país
em relação às demandas e decisões globais sobre o meio ambiente.
Veja, o conflito de interesses no
setor ambiental compromete decisões técnicas e gera danos profundos à
sociedade, às instituições e aos ecossistemas. Quando interesses privados,
econômicos ou políticos prevalecem sobre o bem comum e a ciência, a proteção
ambiental é enfraquecida em favor de ganhos imediatos.
Basta pensar, por exemplo, que a flexibilização
indevida de leis e licenças ambientais facilita o desmatamento, a poluição
hídrica e a perda de biodiversidade, pois ocorrem a partir de decisões técnicas
enviesadas, as quais aprovam empreendimentos de alto risco, resultando em
desastres ecológicos de difícil recuperação. Podendo afetar comunidades
próximas a essas áreas impactadas, que ficam mais expostas a contaminantes no
ar, na água e no solo. Nesse sentido, povos tradicionais, agricultores
familiares e pescadores sofrem diretamente com a destruição dos ecossistemas
dos quais dependem.
Mas, não é só isso. Órgãos
reguladores e conselhos ambientais perdem a confiança da sociedade quando
parecem favorecer grupos privados em vez do interesse público.
É nesse cenário que as
consultorias ambientais contratadas diretamente pelas empresas interessadas na
obra, passam a gerar pressão por laudos favoráveis. E profissionais que
transitam rapidamente entre cargos de chefia em órgãos ambientais públicos e
diretorias de grandes empresas poluidoras ou do agronegócio, agilizam os
processos.
Aí o gran finale acontece. Quando o setor regulado passa a controlar o órgão fiscalizador ocorre a paralisia das políticas públicas, gerando insegurança jurídica; bem como, o financiamento de campanhas políticas por setores com interesse direto no afrouxamento de normas de proteção ambiental se concretiza. Portanto, é necessário que se faça uma longa e profunda reflexão sobre esse assunto.


