domingo, 1 de março de 2026

A Paz e seus relativismos


A Paz e seus relativismos

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Lamento, mas o ser humano não é de paz. Ele é de guerra. Está intrínseco na sua essência a beligerância, o conflito, a discórdia. Portanto, não se deixe enganar pelos discursos que tentam justificar a guerra por uma tensão nuclear.

Não. Muito antes de 1945, dos bombardeios atômicos em Hiroshima e Nagasaki, a belicosidade já transitava entre os seres humanos. As páginas da historicidade não deixam dúvidas a respeito.  

Por isso, é preciso analisar, refletir, camada por camada, sobre esse assunto. Começando pela desigualdade. Esse é o ponto de partida. Afinal, todo e qualquer conflito é marcado pelo desequilíbrio.

É sempre o mais forte contra aquele que se considera mais fraco. Os oponentes nunca estão exatamente em pé de igualdade. Seja em relação aos exércitos, as armas, as estratégias, à disponibilidade de recursos financeiros, de apoios, ...

O que significa que os custos humanos e sociais caem desproporcionalmente sobre as populações. Nesse sentido, as guerras aprofundam, perpetuam a violência estrutural, derrotando o tecido social e colocando o poder político-econômico acima da vida civil.

Basta olhar para certos conflitos em curso na contemporaneidade.  Mianmar. Síria. Haiti. Iêmen. Sahel Africano (Mali, Burkina Faso e Níger).  Guerra Civil no Sudão. Guerra Israel-Hamas na Faixa de Gaza. Guerra entre a Rússia e a Ucrânia. Por todos os lados, o que se vê é a mais absoluta destruição.

De modo que ela precisa ser compreendida como um traço do fracasso civilizatório do ser humano, ou seja, uma ruptura do contrato social e um sintoma de tensão profunda na estrutura da humanidade.

Quando a guerra se torna o meio principal de resolução de conflitos, ocorre uma descivilização. O autocontrole e as normas sociais dão lugar à barbárie, provando que as instituições falharam em mediar as relações humanas de forma racional.

Além disso, é preciso entender que a beligerância não decorre da busca por solucionar conflitos. Analisando fria e pragmaticamente a história, a imensa maioria dos conflitos relatados foram motivados por interesses estratégicos, econômicos, políticos e/ou disputas de poder, não pela paz.

E dentro desse contexto, o que se desdobra e reverbera é comumente os sentimentos de ódio, de destruição, de intolerância e/ou do acirramento das disputas territoriais, desencadeados muito mais como uma extensão de políticas ocultas do que um instrumento de resolução pacífica.

Por essas e outras é que o pretexto da ameaça nuclear não se sustenta, na medida da sua assimetria. Ora, se alguns países podem possuir arsenais nucleares, porque outros não podem?

Veja, a falta de armas nucleares coloca muitos países em posição de vulnerabilidade, enquanto o equilíbrio do terror entre as potências armamentistas impede conflitos diretos entre elas, mas não resolve as ameaças regionais.

Assim, sem um desarmamento geral e completo, a desigualdade entre países armados e não armados mantém o risco nuclear perene. Esse é, portanto, o ponto que reafirma o impasse que atravessa a resistência das potências globais ao desarmamento nuclear geral e completo.

Enquanto os proponentes do desarmamento focam nas consequências humanitárias e na moralidade, os Estados nucleares operam sob a lógica da sobrevivência em um sistema anárquico internacional, onde as armas nucleares são vistas como o seguro final da sua soberania estatal, um ato prudente e necessário para a sua autopreservação.

Acontece que, embora as armas nucleares reduzam a probabilidade de uma guerra direta e total entre grandes potências, elas tendem a aumentar a probabilidade de conflitos menores ou indiretos, a partir da lógica de que os Estados se sentem protegidos contra uma escalada total.

Portanto, os conflitos não desaparecem. Eles são empurrados para países periféricos ou para o campo diplomático e econômico, por estratégias como guerras por procuração, ou seja, ao contrário de as grandes potências lutarem entre si, elas financiam e armam facções em países menores.

No mesmo viés, eles promovem ataques cibernéticos para sabotar infraestruturas críticas, roubar dados e causar danos econômicos, superando eventuais barreiras físicas.  Ou apoiam as insurgências, a partir do financiamento, armamento e/ou treinamento de grupos rebeldes para desestabilizar governos inimigos sem combate direto.

Diante disso, a geopolítica contemporânea não deixa dúvidas de como a posse de armas de destruição em massa altera o comportamento das nações no xadrez global, na medida em que transfere as agressões dos campos de batalha diretamente para formas mais sutis e fragmentadas de conflito, na ótica da relação custo-benefício.

Sim, porque considerando que o custo da guerra nuclear é infinito, logo, as nações buscam o ganho marginal através de pequenos conflitos. Então, como se vê, a síntese dessa construção é simples, a humanidade vive, desde 1945, uma paz nuclear.

Trata-se, então, de uma paz armada e desigual, na qual o medo da aniquilação total não é capaz de eliminar a agressividade, a incivilidade, seja ela humana ou estatal. A partir de mecanismos que forçam as nações a encontrarem caminhos menos diretos e mais complexos para se manifestar.

Por isso, em plena contemporaneidade, pouco mais de 8 bilhões de seres humanos são obrigados, à revelia de suas vontades e queres, a permanecer vivendo sob o tempo da desinformação, da espionagem e da guerra psicológica, explícita ou velada. A viver em um estado de vigilância e tensão constante, mesmo sem o risco iminente de uma bomba nuclear.


sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Reflexões geradas por uma revolução atemporal


Reflexões geradas por uma revolução atemporal

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Não, não dá para tratar certos assuntos sem olhar para a historicidade humana; sobretudo, recapitulando o evento mais importante de todos os tempos, a Revolução Francesa.

Ao derrubar o absolutismo e os privilégios feudais, ela remodelou a estrutura social, transformando os privilégios dos cidadãos e estabelecendo as bases dos direitos humanos universais, o processo histórico e gradual onde instituições, comportamentos e normas sociais perderam a influência religiosa, tornando-se mais racionais, seculares e laicas, e os ideais democráticos passaram a definir o mundo contemporâneo.

O referido levante popular francês, então, declarou a capacidade de mobilização das classes desfavorecidas, gerando pânico à aristocracia e desestabilizando a ordem social tradicional. Isso significa que estamos falando de um fator crucial de exigência de novas formas de entender a organização da sociedade, minando a base de regalias hereditárias.

De modo que apesar de todos os esforços das elites dominantes, ao longo dos séculos que sucederam à Revolução Francesa, a força da ação coletiva popular permaneceu reverberando.

Desde o século XVIII, o mundo assiste ao desconforto e ao temor das elites em razão de uma possível nova radicalização desses ideais, podendo ameaçar seus interesses, poderes, regalias e privilégios dentro da ordem capitalista e da propriedade privada vigente.

Acontece que focadas na manutenção da riqueza como seu objetivo principal, em detrimento do projeto de nação ou bem-estar coletivo, as elites dominantes também tiveram que utilizar mecanismos institucionais e ideológicos para conter as mudanças que pudessem ameaçar a hegemonia do seu status quo.

E esse é um dilema complexo. Pois, a ambição de poder supera a função social de liderança e, por consequência, passa a servir mais aos interesses econômicos das minorias do que às demandas da maioria, gerando descrédito e descontentamento em relação ao sistema democrático.

Ao priorizar o enriquecimento e a contenção social, a elite fragmenta o tecido social. Isso abre espaço para o surgimento do populismo, onde líderes prometem romper essa barreira entre o povo e a elite egoísta, degradando ainda mais as instituições políticas. Algo que se vê claramente nos períodos eleitorais.

A teoria das elites, em períodos eleitorais contemporâneos, manifesta-se através da disputa entre grupos organizados pela manutenção ou conquista do poder, evidenciando o modo como uma pequena elite se torna protagonista, possibilitando que os partidos e as lideranças se profissionalizem, criando uma classe dirigente que busca perpetuar o seu padrão social.

Daí o que se consegue extrair desse comportamento é bastante significativo. Afinal, essas elites contemporâneas tendem a se desconectar da realidade das camadas populares, focando na preservação de privilégios e na reprodução de seus próprios poderes. Sobretudo, porque elas interpretam os avanços populares como riscos diretos à manutenção do seu espaço de poder.

Por isso, elas frequentemente utilizam narrativas distorcidas e enviesadas para explicar porque devem permanecer onde estão, tentando convencer as camadas populares de que seus ideários são impraticáveis ​​e/ou extremamente perigosos.

A ideia dessas elites é reafirmar que elas sempre serão organizadas enquanto a massa popular será sempre desorganizada. Para tal, contam com as mídias sociais contemporâneas para consolidar a deslegitimação das camadas populares nos processos eleitorais.

As práxis utilizadas são muitas. Amplificam a desinformação por meio de fake News. Destroem reputações de possíveis adversários. Criam bolhas algorítmicas que limitam a exposição a propostas estruturais. Facilitam o uso de microtargeting, ou seja, a estratégia de personalizar anúncios para decisões de consumo e/ou políticas. Enfim...

Tudo com o propósito de propagar notícias falsas a fim de afligir a democracia; pois, ao perverter os fatos e não dar tempo para o contraditório, prejudicam os cidadãos com um menor acesso à educação política formal.

Algo que reforça crenças pré-existentes, isolando seus grupos sociais em bolhas capazes de impedir o acesso as informações diversificadas, fragilizando o consenso democrático.

Basta um pouco atenção para perceber como certos candidatos usam dados pessoais para segmentar mensagens personalizadas, muitas vezes direcionando conteúdos superficiais ou apelativos para camadas populares, em vez de discutir políticas públicas estruturais.

Sem contar, o uso de perfis falsos, os quais simulam apoio popular artificial a pautas extremistas, transparecendo a existência de uma voz popular que, na realidade, é manipulada para servir aos interesses de certas elites políticas.

Desse modo, essas dinâmicas tecnológicas contemporâneas, ao invés de democratizar, têm frequentemente submetido as camadas populares a um ambiente de pós-verdade.

Nesse contexto, a verdade factual se torna secundária ou irrelevante diante do que o indivíduo percebe como sendo verdade ou que o faz reforçar sua própria visão de mundo.

Em síntese, o debate de propostas acaba substituído por emoções acaloradas e insanas, nutridas de muitas desinformação e engano. Daí a necessidade de um exercício reflexivo, a partir dessas breves considerações.  

Ainda que seja penoso admitir, já que estamos em pleno século XXI, o ranço histórico advindo da Revolução Francesa permanece instrumentalizando as elites em sua busca por fechar as portas para novos grupos sociais, ou seja, evitar que as camadas populares ascendam e ameacem suas prerrogativas.

E para alcançar seus propósitos, a elite precisa de mecanismos de controle que vão além da força física. Assim, olhando para a contemporaneidade, a pós-verdade funciona como essa nova fórmula.

Afinal, se não há consenso sobre o que é verdade, as camadas populares não conseguem se unir em torno de uma pauta comum. Tornando-se fácil pautar o debate público com questões emocionais, morais e/ou conspiratórias, possibilitando às elites desviarem a atenção de temas estruturais como, por exemplo, a desigualdade de renda, as reformas institucionais – política, administrativa e tributária - e a concentração de terras.

Assim, ao colocar a massa popular ocupada combatendo pseudoinimigos invisíveis, criados por narrativas de pós-verdade, as regalias fiscais, os subsídios e o poder político das elites permanecem intocados e fora do radar do debate público sério e efetivamente cidadão.


terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Sob o pretexto da excepcionalidade sobrevive a necropolítica ambiental


Sob o pretexto da excepcionalidade sobrevive a necropolítica ambiental

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Tratar catástrofes ambientais como EXCEPCIONALIDADE, não muda a história. O recrudescimento dos eventos extremos do clima é um fato incontestável. Não são episódios isolados, fortuitos; mas, uma série de respostas naturais ao desequilíbrio que a raça humana vem impondo ao meio ambiente, ao longo de séculos.

A partir da 1ª Revolução Industrial, na segunda metade do século XVIII, quando o uso e a ocupação dos espaços geográficos naturais aconteceu de maneira imprevidente e não criteriosa, iniciou-se a escalada do desrespeito aos princípios biológicos. Começando pelo equilíbrio.

No entanto, frente aos constantes movimentos de industrialização somados à urbanização e à expansão das fronteiras agrícolas ocorridos, ao longo de quase três séculos, a incapacidade ambiental de conseguir adaptar-se aos novos cenários e garantir o equilíbrio tornou-se realidade.

Veja, o uso e ocupação do solo diz respeito diretamente à organização social do espaço. Portanto, diz respeito as relações de poder, as desigualdades, a cultura, as interações humanas; mas, particularmente, aos impactos gerados sobre o ambiente, na expressão de seus mais diversos ecossistemas e ciclos biológicos. O que em síntese significa a materialização da perda de biodiversidade, o desmatamento, a poluição da água, ar e solo, e as mudanças climáticas.

Para uns e outros, por aí, pode parecer pouco; mas, não é. A dimensão negativa dessas manifestações, na realidade humana contemporânea, aponta para uma crise civilizatória que compromete a sobrevivência, a economia e o bem-estar social.

Afinal, a verdade é uma só, a humanidade não se preparou para um revés dessa magnitude e está diante, portanto, de questões a serem equacionadas, as quais não sabe por onde começar. Iludidos por todas as promessas de desenvolvimento e progresso, os seres humanos esqueceram de observar o que era realmente essencial.

Desse modo, o temporal que atingiu as cidades da Zona da Mata entre a noite da última segunda-feira e a madrugada desta terça-feira, em Minas Gerais, não deixa dúvidas a respeito. Foram volumes pluviométricos descomunais, que caíram sobre a região em um intervalo de tempo relativamente curto, impondo-se de maneira devastadora sobre o modo com o qual aquele espaço geográfico tem sido usado e ocupado pela população.

É, não há mais como contemporizar essas catástrofes socioambientais! Os conhecimentos em torno do uso e ocupação geográfica não se alinham à realidade contemporânea dos eventos extremos do clima. Edificações são destruídas como se fossem de papel. Telhados são varridos pela força dos ventos sem qualquer resistência. As tempestades de raios representam uma ameaça crítica e crescente no país. Os deslizamentos de encostas refletem as ocupações irregulares, o desmatamento e as falhas na infraestrutura urbana. O assoreamento mostra o quão rasos se encontram os cursos d’água, possibilitando a ocorrência de transbordamentos rápidos e inundações urbanas. ...

Acontece que tudo isso já é de conhecimento público, há décadas. Não somente dos acadêmicos e pesquisadores, em todo o Brasil; mas, dos próprios gestores públicos, representantes do espectro político-partidário nacional e da população em geral.

Os veículos de informação e de comunicação, tradicionais e alternativos, estão repletos de coberturas de eventos extremos do clima. Reportagens que traduzem o luto de diferentes populações, ao mesmo tempo em que causam indignação e vergonha diante do descaso e da inação governamental, mascaradas pela desfaçatez das promessas vazias.

Infelizmente, é preciso reconhecer que a pauta das emergências climáticas caiu como uma luva para as pretensões dos projetos necropolíticos que se distribuem Brasil afora. Sei que já trouxe em outros escritos a definição de necropolítica; mas, é sempre bom relembrar.  

Trata-se do “Uso do poder político e social, especialmente por parte do Estado, de forma a determinar, por meio de ações ou omissões (gerando condições de risco para alguns grupos ou setores da sociedade, em contextos de desigualdade, em zonas de exclusão e violência, em condições de vida precárias, por exemplo), quem pode permanecer vivo ou deve morrer. [Termo cunhado pelo filósofo, teórico político e historiador camaronês Achille Mbembe, em 2003, em ensaio homônimo e, posteriormente, livro.]” 1.

Sim, o que está bem diante do nariz, então, é uma necropolítica de viés ambiental, climática. A gestão política da morte por meio da negligência ou ação do Estado diante de eventos extremos do clima, tem exposto populações inteiras; sobretudo, as parcelas mais frágeis e vulneráveis, a riscos fatais.

Sob a justificativa da EXCEPCIONALIDADE, os agentes e gestores públicos tentam se eximir das responsabilidades quanto às decisões estruturais que sacrificam vidas em prol de interesses econômicos e neoliberais.

Contrariando todo o conhecimento científico disponível, esses eventos extremos são tratados, então, como desastres naturais para mascarar a falta de adaptação e infraestrutura, naturalizando a morte de grupos específicos da população, em razão da historicidade que permeia a territorialidade do risco.

Portanto, não há como negar que a necropolítica em relação aos eventos climáticos transforma a crise ambiental em um mecanismo de sacrifícios humanos, onde a omissão do Estado se reflete na determinação de quais vidas podem e merecem viver.