quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Já dizia Aldous Huxley, “O dinheiro não fala apenas, ele também impõe o silêncio”.


Já dizia Aldous Huxley, “O dinheiro não fala apenas, ele também impõe o silêncio”.

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Em dezembro de 2022, eu escrevi o texto O AVESSO DO MUNDO VIRTUAL, no qual eu compartilhava a seguinte experiência no antigo Twitter: “em 08 de outubro fui pega de surpresa com a suspensão permanente das minhas contas, por uma suposta violação das regras de utilização. Acontece que não só faltaram maiores esclarecimentos a respeito dessa violação, como as minhas manifestações recorrendo da suspensão não foram sequer respondidas. Uma notificação padrão de análise era encaminhada; mas, não passou disso. E diante dessa situação, eu decidi desativar as contas; mas, fui impedida por uma mensagem alegando a suspensão das mesmas. Vejam só que situação absurda!”.

Passados 4 anos, a situação se repete da mesma forma, de maneira ainda mais surpreendente, dessa vez a plataforma foi o Youtube. Acordei, essa manhã, e quando liguei o celular para me inteirar das notícias do dia, descobri que a minha conta havia sido removida ou, segundo eles, “o meu Canal foi removido”. Não houve quaisquer avisos prévios, quaisquer menções de que eu estaria infringindo alguma regra ou política da plataforma. Foi uma decisão sumária. Exatamente como da outra vez.

Acontece que eu não tenho um canal, nunca gravei um vídeo sequer nessa ou em quaisquer outra plataforma, tratando de qualquer assunto. Eu apenas acompanhava as publicações presentes naquele espaço. Seguia assuntos diversos, entre importantes e supérfluos, sérios e engraçados.  Algumas vezes, eu compartilhava assuntos interessantes e importantes. Mas, na maioria do tempo, eu me dedicava a acompanhar a dinâmica do dia.

Então, eu me perguntei: onde está a liberdade de decidir, de escolher? Ela desapareceu. Como fumaça. Como um passe de mágica. Diante da presença dos algoritmos, os quais, por alguma razão, decidiram que as minhas escolhas, a minha decisão em torno da busca por informações, estaria destoando gravemente do que eles consideram certo, do que eles consideram relevante. Os algoritmos interferiram diretamente na construção do meu conhecimento de mundo.

Exatamente, como aconteceu no Brasil, durante a Primeira República ou República Velha, entre 1889 e 1930, com o chamado voto de cabresto, um importante mecanismo utilizado para controlar o comportamento eleitoral da população. Pois é, em pleno século XXI, o controle social vem sendo exercido pelos algoritmos, através da modulação do comportamento e da gestão da informação em larga escala, limitando o debate público e a exposição ao contraditório. Esse uso de metadados permite, então, não apenas influenciar processos democráticos, por exemplo, como estabelecer padrões de consumo e comportamento.

Afinal de contas, os algoritmos de redes sociais e buscadores são projetados para maximizar o engajamento, o que promove as bolhas de filtro, nas quais a exposição ao contraditório é eliminada, restringindo a liberdade intelectual e a capacidade de escolha. O que significa que a falta de transparência sobre como essas decisões são tomadas aliena o direito do cidadão de contestar ou compreender as lógicas que restringem seu acesso a direitos e oportunidades no ambiente virtual.

Portanto, o controle social exercido por algoritmos na contemporaneidade, impacta diretamente a autonomia individual, na medida em que limita o acesso a perspectivas divergentes, reduzindo a base de informações necessárias para uma escolha livre e consciente. De modo que, muitas vezes, esse controle manifestado pelos algoritmos exerce uma ação direta sobre a manutenção ou o cancelamento de contas e/ou perfis. Como se eles atuassem na figura de juízes automatizados, promovendo uma censura silenciosa e impeditiva de recursos e de autodefesa, por parte do cidadão. 

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Não adianta torcer o nariz ...


Não adianta torcer o nariz ...

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

O ser humano é um ser cultural.  O que significa que ele não é definido apenas pela sua biologia, mas principalmente pela sua capacidade de criar, de transformar e de transmitir significados, valores, costumes e conhecimentos.

Por isso, ele molda tanto o seu ambiente quanto a si mesmo, tornando-se um produto e agente da história e da sociedade, de modo a refletir sobre o mundo as suas compreensões, percepções e expectativas, dessa forma, atribuindo sentidos e construindo identidades.

Daí a cultura não ser apenas um produto de consumo, mas um recurso que gera emprego e renda através da Economia Criativa, onde a criatividade e o capital intelectual tornam-se os principais motores do valor nacional, gerando riqueza, trabalho e desenvolvimento humano, indo além dessa perspectiva, para algo maior que promove a inclusão social, a diversidade sociocultural e o bem-estar comunitário, redefinindo o papel do indivíduo e da comunidade na economia contemporânea.

Em termos de Brasil, a economia criativa se destaca por sua velocidade de expansão, superando atividades tradicionais e contribuindo significativamente para a economia nacional.

Haja vista que o setor ultrapassou a marca de R$ 393,3 bilhões em 2023, representando 3,59% do PIB brasileiro, com projeções de aumento em 2025.

Sem contar que ela emprega mais de 7 milhões de pessoas no Brasil, com projeções de chegar a 8,4 milhões até 2030, considerando que a expectativa é de que esse crescimento tanto no mercado formal, com carteira assinada, quanto no informal, seja impulsionado principalmente por setores como games, audiovisual, moda e tecnologia.

De modo que a criatividade individual e coletiva; bem como, o conhecimento e a imaginação, passam a ser recursos econômicos tão importantes quanto o capital físico tradicional. Afinal, a economia criativa gera não só renda e empregos, mas também fortalece a identidade cultural.

E certamente esse pode ser considerado o grande pulo do gato, porque além de promover a autoestima e a qualidade de vida, empoderando comunidades marginalizadas, faz da cultura um instrumento real de ruptura com o "complexo de vira-lata", quando inverte a lógica de valorização da produção nacional, alterando a exportação de commodities pela exportação de capital intelectual e identidade cultural brasileira.

O primeiro semestre de 2025 viu, por exemplo, as exportações de livros brasileiros crescerem 7%, superando o total de 2024, impulsionadas pelo programa Brazilian Publishers, projeto da Câmara Brasileira do Livro (CBL) em parceria com a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), com apoio do Ministério das Relações Exteriores (MRE), que movimentou USD 14.367.900 em negócios nas principais feiras literárias do mundo. O valor representa um crescimento de 7% em relação ao ano todo de 2024.

No campo audiovisual, os filmes brasileiros ganharam espaço, atingindo uma participação de 11,2% do público total nos cinemas até agosto de 2025. O mercado audiovisual brasileiro projetou um crescimento de 5% ao longo do ano, impulsionado por investimentos do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA).

Em suma, o audiovisual brasileiro mostrou forte expansão, com o mercado de VoD (Vídeo sob Demanda) identificando mais de 138 mil títulos e consolidando-se, enquanto o cinema viu um aumento na presença de conteúdo nacional, 14,1% das sessões, e um crescimento expressivo na venda de ingressos para filmes brasileiros, proporcionando um setor resiliente e em crescimento, impulsionado também pelo aumento de salas e da projeção de expansão econômica.

Além disso, a economia criativa brasileira também expandiu seu foco em outros pilares. O fortalecimento de laboratórios de inovação. As plataformas de crowdfunding (financiamento coletivo). As soluções em gestão de resíduos eletrônicos. A ascensão do slow fashion (produção ética e sustentável). O upcycling (reaproveitamento e customização de materiais que seriam descartados). O design de produtos ecológicos, valorizando a produção local e consciente. A construção de roteiros personalizados, constituindo o chamado turismo de experiência, e a gastronomia artesanal, os quais ganham força com propostas únicas de valorização cultural local.

ARTESANATO, GASTRONOMIA, MÚSICA, ARTES CÊNICAS, PATRIMÔNIO, MODA, DESIGN GRÁFICO, DESIGN DE INTERIORES, SOFTWARE, JOGOS ELETRÔNICOS, CINEMA, TELEVISÃO, NOVAS MÍDIAS, PUBLICIDADE, ARQUITETURA, MARKETING, FOTOGRAFIA, EDIÇÃO, carregam, portanto, um recurso abundante e multiplicável, capaz de contribuir para a inovação e o desenvolvimento de uma sociedade, em todos os tempos.

É por essa força pulsante e vigorosa, que os brasileiros e brasileiras puderam iniciar o ano de 2026, celebrando a conquista notável do filme O Agente Secreto, ao vencer no Globo de Ouro 2026, em Los Angeles, as categorias de Melhor Filme em Língua Não Inglesa e Melhor Ator em Filme de Drama, com Wagner Moura; bem como, no Critics Choice Awards 2026 como Melhor Filme Estrangeiro.

Aliás, não se pode esquecer que as inúmeras premiações que o filme já conquistou, até o momento, tiveram como ponto de partida a sua estreia mundial em 18 de maio de 2025, como parte da Seleção Oficial do 78º Festival de Cannes, onde concorreu pela Palma de Ouro.

Na ocasião, ele conquistou os prêmios de Melhor Direção para Kleber Mendonça Filho, Melhor Ator para Wagner Moura, tornando-o o primeiro sul-americano a vencer nesta categoria em Cannes, o Prêmio FIPRESCI de crítica internacional, e o Prêmio Art House Cinema (Prix des Cinémas Art et Essai).

É preciso compreender e reconhecer a importância simbólica e material da cultura para a sociedade brasileira contemporânea, na medida em que ela oferece um arcabouço de significados que permitem aos brasileiros se apropriarem da sua condição de nação, valorizando a complexa miscigenação do país, a partir do compartilhamento dos códigos, dos valores e das tradições que são capazes de criar um sentimento de solidariedade que facilita a comunicação e a cooperação coletiva; bem como, fortalece o seu espírito soberano.  

Relembrando as palavras de Fernanda Montenegro, uma das mais importantes atrizes brasileiras da história, “Nossa deformação cultural nos faz pensar que cabe a um segmento da sociedade levar cultura a outro. Nós temos é que buscar a cultura no povo, dando condições para que ela brote. Só assim torna-se possível criar uma real identidade cultural”.

Porque é com essa consciência que a riqueza das manifestações culturais brasileiras permite desafiar as normas impostas ao longo da colonização do país, consolidando-se como um motor de inovação e resistência nacional, que nos permite dizer alto, e muitas vezes, VIVA A CULTURA BRASILEIRA!