A pseudocoesão
da ultradireita brasileira
Por Alessandra
Leles Rocha
O autoritarismo político da
ultradireita sempre se valeu das ameaças, da intimidação, da truculência, para
implantar o terror, o medo e o silenciamento das populações. Mas, pensando
profundamente a respeito, não consigo visualizar nada disso como elemento suficientemente
capaz de garantir e consolidar o poder.
Ao contrário do que se pensa, a ultradireita
não é uma massa homogênea e profundamente coesa. Por mais que existam pontos ideológicos
de convergência entre os seus eleitores, simpatizantes e apoiadores, quando o
assunto enviesa para o campo do poder econômico, aí a coesão se desconstrói pela
disseminação das fraturas.
Sobretudo, quando o excesso de euforia
histérica nas campanhas ultradireitistas começam a propagar verdades indigestas
que não só angariam uma péssima receptividade entre a amplidão dos eleitores,
como um desconforto terrível entre os seus próprios pares, os quais começam a
perceber riscos e ameaças aos seus interesses particulares.
Não, não é verdade que aquele que
pretende sentar-se na cadeira de Presidente da República fará da sua governança
um espaço democrático suficientemente capaz de atender à diversidade e à
pluralidade de expectativas criadas por seus eleitores, simpatizantes e
apoiadores.
Primeiro, porque o poder tem em
si mesmo o despertar de um sentimento individualista, egoísta e narcísico, que acaba
por inebriar e entorpecer aqueles que lhe olham fixamente nos olhos. Saba
aquela máxima de que “ninguém solta a mão de ninguém”? Bem, no caso da
ultradireita isso não é verdade! Fato que acende, ou pelo menos deveria acender,
o pisca-alerta de quem está ao redor.
Segundo, porque desde a Revolução
Industrial, lá na segunda metade do século XVIII, o mundo se viu às voltas com
uma proliferação de atividades econômicas e de interesses financeiros que
afastam as respostas governamentais de um alinhamento perfeito e ajustado de maneira
igualitária. Alguém sempre sai insatisfeito, aborrecido e/ou prejudicado, em
maior ou em menor escala.
Especialmente, se esses
indivíduos deixaram de considerar uma análise rigorosa do cenário econômico e
de comércio exterior, antes de oferecer apoio e lealdade absoluta ao seu
candidato. Apostas não significam necessariamente resultados positivos.
Basta uma consulta rápida para
descobrir que, no contexto atual, o principal parceiro comercial do Brasil,
contribuindo diretamente para o progresso e o desenvolvimento nacional,
impulsionando a balança comercial e a geração de empregos na indústria, o extrativismo
e agronegócio, é a China e não os EUA.
Desde 2009, a China ocupa o posto
de maior parceiro comercial do país. Em 2026, a corrente de comércio bilateral
somou mais de US$ 143,30 bilhões até setembro. A demanda insaciável chinesa por
petróleo e grãos sustenta o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro e gera
divisas internacionais primordiais para a estabilidade da taxa de câmbio
nacional.
Essa dinâmica reflete uma
profunda transição geopolítica e econômica global, consolidando o papel da
China como o motor das exportações brasileiras e evidenciando o pragmatismo da
política externa nacional, pautada no "não-alinhamento ativo", tendo
em vista de que o Brasil busca manter canais de diálogo e comércio abertos com
todos os blocos, defendendo seus próprios interesses econômicos e políticos de
forma pragmática e multilateral.
Enquanto os EUA, em razão da
imposição de barreiras tarifárias, o protecionismo e a volatilidade política de
Washington acabaram afastando os EUA de investimentos estruturais de longo
prazo no Brasil.
Além disso, o envolvimento estadunidense
em disputas geopolíticas consome recursos fiscais significativos que geram
inflação interna e pressões nas taxas de juros americanas, reduzindo a
atratividade e a capacidade do país de atuar como o principal polo de
transferência tecnológica para a América Latina.
Fato que deveria, então,
estabelecer um grau de análise mais criteriosa daqueles que consideram a
manutenção histórica dessa relação comercial como o melhor caminho para o
Brasil.
Segundo relatórios como o Inter-American
Dialogue e dados da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL),
leis como o Inflation Reduction Act priorizam subsidiar indústrias
locais estadunidenses.
Além disso, o aperto monetário
nos EUA atrai capital de volta para o Tesouro americano, de modo que os EUA
competem menos em grandes obras públicas internacionais. Por fim, padrões
ambientais e burocráticos complexos também desaceleram acordos.
Assim, enquanto os EUA reduzem o
ritmo de aportes estruturais, o ecossistema econômico global oferece outras
vias de desenvolvimento para o Brasil.
Haja vista o investimento estatal
chinês com aportes maciços em energia, ferrovias e telecomunicações (5G), o financiamento
via BRICS a partir do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD) que oferece crédito
alternativo, e a transferência tecnológica real por meio de parcerias de
manufatura avançada focadas na transição energética.
E, talvez, seja exatamente por
esse panorama é que a ira do autoritarismo político da ultradireita esteja intensificando
as ameaças, a intimidação, a truculência, para implantar o terror, o medo e o
silenciamento das populações; sobretudo, em relação aos espaços do conhecimento
como as Universidades Públicas e os Institutos Tecnológicos.
Bem, o país acabou de assistir ao
um incêndio de grandes proporções que destruiu completamente o prédio da
Diretoria de Inovação e Empreendedorismo, da Universidade Federal de Pernambuco
(UFPE), gerando um prejuízo estimado em mais de R$ 100 milhões e afetando cerca
de 200 pesquisas científicas. Entretanto, novas ameaças vêm sendo feitas contra
outras instituições de ensino país afora 1.
Sob essa ótica, esses locais são
frequentemente vistos pela ultradireita como polos de difusão de ideias
progressistas ou de esquerda.
Embora a ideia seja fazer
transparecer um sentimento de descontentamento em relação às manifestações
estudantis, por conta das pretensões do candidato ultradireitista, se eleito
for, quanto aos direitos do cidadão consagrados pela Constituição Federal de
1988, o que inclui a Educação pública e gratuita.
Porém, nas entrelinhas dos
acontecimentos não se pode descartar que o tensionamento contra essas
instituições seria uma forma de disputar a hegemonia cultural e conter a
influência de discursos alinhados a blocos geopolíticos que não os EUA.
Ao enfraquecer ou deslegitimar a
credibilidade dessas instituições, abre-se espaço para narrativas mais
alinhadas ao pensamento liberal e de mercado tradicional estadunidense.
Além disso, a própria pauta de
promover o desinvestimento na ciência e na educação superior pública indica qualquer
despreocupação em relação à perda de autonomia científica.
O que significa que sem
tecnologia própria, o país volta a ser um exportador de commodities e um
importador de soluções tecnológicas, softwares e patentes concentradas no
Hemisfério Norte.
Enquanto, do ponto de vista do
avanço de modelos educacionais baseados em fundações privadas e corporações
transnacionais de ensino, possibilita a importação do modelo corporativo estadunidense
de educação, transformando o conhecimento em uma mercadoria alinhada à lógica
de mercado deles.
Em linhas gerais, o que está
posto sobre a mesa brasileira, nesse exato momento, é a escolha entre uma
postura de autonomia e liderança regional ou de alinhamento com eixos
tradicionais de poder. O reflexo dessa decisão poderá significar, portanto, o avanço
ou o retrocesso para o povo brasileiro, incluindo as próprias elites herdeiras
do velho colonialismo nacional.


