Desserviço
Por Alessandra
Leles Rocha
A nova ordem que se estabeleceu na
mídia hegemônica brasileira é a do desserviço. Sob o viés do mau serviço, elas realizam
o jornalismo de forma errada, inútil e nociva, sem o menor constrangimento ou
senso de responsabilidade ética e social. O que causa não só prejuízos à
democracia e à soberania, como mostram a dimensão da sua deslealdade traidora
ao país.
Não, não restam dúvidas de que
esse conjunto de grandes veículos de comunicação, os quais concentram o poder
de influenciar a opinião pública e definir quais narrativas são aceitas como normais
ou dominantes, está trabalhando contra a reeleição do atual Presidente da
República.
Bem, não precisa ser nenhum expert
para saber que o compromisso fundamental do jornalismo ético é com a verdade
factual e o interesse público. Isso implica, portanto, em investigar e
checar os fatos de forma exaustiva antes de publicar qualquer informação.
Mas, também, em reconhecer que a
notícia impacta vidas e comunidades, respeitando a dignidade humana e a
privacidade. Em manter autonomia diante de pressões políticas, econômicas ou de
interesses particulares. Em ouvir os diferentes lados relevantes de um fato de
maneira justa, sem favorecimentos prévios. Em explicar os métodos de apuração e
revelar as fontes sempre que possível para gerar confiança. E em corrigir
erros publicamente e de forma ágil.
Acontece que não é isso o que
está acontecendo. Há um franco e vergonhoso favorecimento a um dos candidatos
que despontam na corrida eleitoral, no sentido de encobrir o seu envolvimento
com ilícitos graves, cujas provas vêm se multiplicando a partir de inúmeras investigações
policiais e jornalísticas.
A ideia é lançar os malfeitos
sobre os ombros de outras figuras públicas, mesmo que isso custe um malabarismo
exótico na formulação das ideias e uma confusão mental entre os eleitores mais
indecisos.
Contudo, contra fatos não há
argumentos. Quaisquer relativizações e condescendências não mudam o acervo
comprobatório dos apontamentos sobre os quais as investigações já lançaram luz.
O lobo em pele de cordeiro não
deixa de ser quem é. E a estratégia do silêncio providencial também não dissolve
os questionamentos, as desconfianças, a teia de absurdos em que ele está chafurdado
até a raiz do cabelo.
Por isso é triste ver como a mídia
hegemônica brasileira tem se permitido descer tão baixo, ao compactuar com a
inverdade, com a distorção da realidade, com a reafirmação da ilicitude alheia,
para favorecer a um candidato que sequer possui um projeto de governo para o
país.
Sim, porque se ele tivesse um, já
deveria ter apresentado aos cidadãos brasileiros. Acontece que ele não tem
porque sempre esteve preocupado em defender interesses próprios, particulares. Além
disso, já deixou bem claro a qual cidadania seus valores reverenciam, a qual
bandeira seu patriotismo respeita.
Sob esse aspecto, aliás, ele está
perfeitamente alinhado à essa mídia. Ambos só conseguem enxergar o próprio umbigo,
os próprios interesses mesquinhos e mercantis. Como se a ideia do “Money, Money,
Money” fosse a tábua de salvação para quaisquer problemas que surjam pelo
caminho.
A experiência durante o regime
ditatorial no Brasil, entre 1964 e1985, é um bom exemplo para ser levado em
conta. O embarque inicial em um projeto autoritário custou caro para as
expectativas de longo prazo desses veículos.
Primeiro, porque à medida em que
os abusos do governo militar, a tortura e a crise econômica do final dos anos
70 se tornaram evidentes, o público leitor e a sociedade civil passaram a
cobrar a conivência histórica da imprensa.
Segundo, porque décadas mais
tarde, esses grandes conglomerados de mídia trouxeram a reconhecimento público
textualmente o erro de ter apoiado o golpe de 1964, classificando a atitude
como um equívoco histórico.
Portanto, o imediatismo de tentar
manter as bases seculares da dominação elitista brasileira não acaba em bom
termo no campo jornalístico. Especialmente, considerando o fato de que a realidade
contemporânea do século XXI é diametralmente oposta ao que já se registra nas páginas
amareladas da história nacional.
O jornalismo contemporâneo vive o
paradoxo de ser mais necessário do que nunca para a sobrevivência da democracia
e da coesão social, ao mesmo tempo em que enfrenta suas maiores crises de
financiamento, prestígio e alcance de público.
No entanto, isso não pode servir
de justificativa para se descompromissar com a ética e a verdade factual. A
tentativa de manter estruturas seculares de dominação oligárquica e elitista
colide frontalmente com a pluralidade, a velocidade e a democratização do
acesso à informação no século XXI. Desse modo, o jornalismo que insiste em
falar apenas para ou pelas elites perde a conexão com a realidade do país.
E ainda que o setor esteja fragilizado
economicamente pela migração das verbas publicitárias para as grandes
plataformas de tecnologia e institucionalmente pelo ataque sistemático à sua
credibilidade, isso não justifica o abandono do método jornalístico.
Ao contrário, a apuração
rigorosa, a checagem de fatos e o compromisso com a verdade factual são, em
última análise, os únicos diferenciais competitivos que restam ao jornalismo
profissional frente ao oceano de conteúdos amadores ou mal-intencionados da
internet.
Por essas e outras é que não se
pode esquecer que atrás dessa cortina de grandes desastres e infortúnios ocorridos
na história brasileira, estão os tentáculos influenciadores da imprensa hegemônica
nacional, atuando muitas vezes como atores políticos com interesses próprios, e
não apenas como observadores neutros.
Haja vista as campanhas
midiáticas massivas e agressivas, lideradas por jornais da época, como a
Tribuna da Imprensa de Carlos Lacerda, realizando um clima de forte pressão
política que culminou no suicídio do Presidente da República, Getúlio Vargas.
O golpe militar de 1964, quando os
principais jornais e redes de rádio e televisão da época apoiaram abertamente a
deposição do Presidente da República João Goulart, e celebraram a intervenção
militar.
O Impeachment do Presidente da República
Fernando Collor, em 1992, e de Dilma Rousseff, em 2016, quando a cobertura
jornalística intensa e a espetacularização das crises econômicas e de corrupção
moldaram a opinião pública e aceleraram as quedas desses governos.
Portanto, que as mídias hegemônicas
nacionais reflitam sobre os caminhos de influência sobre a opinião pública que
estão traçando para o país nesse exato momento. A democracia e a soberania são valores
estruturais inegociáveis, porque só a partir deles se consegue êxito no que diz
respeito ao progresso e ao desenvolvimento de um país.
Diferentes setores da sociedade, incluindo juristas, jornalistas e cientistas políticos, argumentam que o pluralismo de ideias e a transparência na linha editorial são fundamentais para que os meios de comunicação atuem como pilares do sucesso socioeconômico, e não como controladores e manipuladores do discurso público.

