domingo, 29 de março de 2026

Nos vagões da história ...


Nos vagões da história ...

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Diante da dimensão que ganha o conflito entre os EUA/Israel e o Irã, de repente, não pude deixar de pensar nos tempos em que a vida transitava pelo fluxo das ferrovias.

Particularmente, eu não tive o privilégio de viajar de trem; mas, minha alma foi preenchida pelas histórias contadas pelos meus avós e minha mãe.

Lembranças que parecem embaladas pelo som do Trenzinho Caipira 1, o quarto movimento das Bachianas Brasileiras nº 2, de Heitor Villa-Lobos, que depois ganhou letra pelas mãos do poeta Ferreira Gullar, em 1978.

Contudo, escrever sobre os trens ajuda, de alguma forma, a desanuviar as preocupações atuais em relação ao petróleo. Afinal de contas, ao longo da história, as ferrovias experenciaram momentos distintos.

Começaram sua jornada com a utilização da lenha e do carvão mineral, nas máquinas a vapor, na Primeira Revolução Industrial. Depois veio o óleo diesel, que dominou a tração diesel-elétrica.

Atualmente, é na eletricidade que se concentra a principal fonte de energia para os trens de alta velocidade. Valendo destacar que as pesquisas em combustíveis renováveis para o setor já existem.

Em terras brasileiras, as ferrovias tiveram início com a Estrada de Ferro Mauá, em 1854, conectando o porto à serra de Petrópolis. A expansão foi impulsionada pela economia cafeeira, conectando áreas produtoras, especialmente São Paulo, aos portos. Transportavam-se viajantes e as cargas agrícolas.

No início do século XX, durante a República Velha, houve uma expansão acelerada, com a rede ferroviária superando 30.000 km, graças ao financiamento majoritário promovido por investimentos ingleses voltados para exportação.

Entretanto, por volta da segunda metade do século XX, o foco mudou para as rodovias, especialmente no governo do Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira, levando ao abandono e à estatização de muitas linhas ferroviárias.

Por quê? Simples. O imperialismo dos EUA. Isso significa que eles influenciaram, de maneira decisiva, a substituição do transporte ferroviário pelo rodoviário no Brasil, impulsionando o modelo das rodovias a partir de meados do século XX.

Uma mudança alinhada à política de progresso e desenvolvimento industrial, cujo objetivo principal era promover a dependência do petróleo e dos combustíveis fósseis; bem como, fortalecer a indústria automobilística e petroleira norte-americana na América Latina.

Nessa geopolítica do petróleo, então, o tipo de desenvolvimento atrelado ao consumo de combustíveis fósseis, tornou a infraestrutura brasileira vulnerável aos interesses externos e às variações nos preços internacionais do barril.

Sem contar que essa estratégia limitou o desenvolvimento de alternativas mais eficientes de transporte, como as ferrovias e as hidrovias, no Brasil, focando na circulação de riquezas baseadas no diesel e na gasolina.

Foi assim, então, que a priorização das rodovias levou à negligência sistemática da malha ferroviária brasileira. Elas que integravam o país desde o século XIX foram deixadas de lado por não apresentarem o mesmo apelo de progresso rápido ou visibilidade política imediata que as estradas de asfalto.

Nesse cenário, a escolha pelo caminhão como principal meio de transporte de cargas tornou o abastecimento nacional refém das flutuações do preço do petróleo e de crises externas.

Além disso, a má conservação das pistas não só aumenta o gasto com combustível e manutenção, elevando o preço final dos produtos para o consumidor, como contribui para a alta emissão de CO2 e substâncias atmosféricas, causando problemas de proteção e acelerando as mudanças climáticas, por conta do uso massivo dos motores a diesel.

E nessa toada, a concentração do transporte em rodovias resulta em altos índices de acidentes, roubos de carga e desgaste físico exaustivo para os motoristas brasileiros. Uma história que contraria o modelo desenvolvido dentro dos EUA.

Pois é, por lá se manteve uma malha ferroviária extensa e padronizada para cargas e viajantes. Assim, o cidadão tem opção de escolha de transporte para os seus deslocamentos; enquanto, produtores e comerciantes conseguem reduzir significativamente o custo de transporte das cargas por tonelada.

Por isso, diante do cenário contemporâneo; sobretudo, no pós-pandemia, o Brasil passou a intensificar as discussões e os projetos para a retomada do transporte ferroviário de cargas.

A ideia atual baseia-se em parcerias com o setor privado, incluindo a compra de novas locomotivas e renovações antecipadas de contratos de concessão.

Esse movimento busca conectar novas áreas de produção ao porto de Santos, otimizando o transporte de cargas de alto volume. Por isso, ela é tão estratégica para o Brasil, considerando que um dos maiores gargalos do país é o custo logístico.

Um país de dimensões continentais, a dependência quase exclusiva do modelo rodoviário mostra a sua ineficiência e ônus. Assim, um único trem pode substituir centenas de caminhões e facilitar a chegada de soja, milho e minério de ferro aos portos, tornando o produto brasileiro mais competitivo no mercado internacional.

Na perspectiva das rodovias, tal iniciativa permite reduzir a sobrecarga de tráfego, evitando gastos públicos com reparos asfálticos e acidentes, por exemplo, a emissão muito menor de CO2 por tonelada transportada, e o menor consumo de combustível por tonelada útil.  

Portanto, a retomada da malha ferroviária no Brasil surge como uma reparação histórica, no sentido de corrigir um desequilíbrio gerado pelo foco exclusivo no rodoviarismo, permitindo aumentar a competitividade econômica, a partir da redução de custos de transporte e a otimização do escoamento de cargas.

terça-feira, 24 de março de 2026

Tudo começa pelo começo. Com a violência não é diferente.


Tudo começa pelo começo. Com a violência não é diferente.

 

Por Alessandra Leles Rocha  

 

De todos os lados nos chegam relatos de violência diariamente. Alguns falam em uma epidemia do ódio. Outros, de um retrocesso à incivilidade, à barbárie humana. Bem, adjetivos para tentar explicar tal fenômeno de nada adiantam. De modo que resolvi parar, pensar, a partir da construção de uma linha de acontecimentos, os quais me impactaram bastante.

A impressão que se tem é de que a vida humana perdeu seu valor. Mata-se qualquer um. Por qualquer motivo, sob qualquer justificativa, a qualquer hora do dia ou da noite, em qualquer lugar, enfim. Então, de repente, essa brutalidade descompensada, apesar de toda a sua crueldade e perversidade, merece ser olhada nos detalhes.

Considerando que qualquer um, independente do gênero, da raça, da religião, da escolaridade, do status socioeconômico, pode ser a bola da vez, a análise deve partir do início.  Não há como discordar que a infância perdeu a sua aura de inocência, de alegria, de blindagem frente aos males do mundo. Ser criança está cada vez mais difícil e complexo.

Em 2016, o documentário O COMEÇO DA VIDA, apoiado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e dirigido por Estela Renner, não só mostrava a importância fundamental dos primeiros anos de vida para o desenvolvimento infantil, como destacava que o afeto, as relações amorosas e os ambientes seguros moldam o cérebro e a personalidade da criança, sendo crucial para o seu futuro e o da sociedade.

Mas, o que parece, olhando a realidade contemporânea da infância, é que houve um desvirtuamento ético/moral, em relação a responsabilidade, ao comprometimento, a disponibilidade, que são os pilares a sustentar a maternidade e a paternidade, contrapondo-se totalmente ao que propõe o referido documentário.

Chegou-se ao ponto em que a violência contra a infância não exime nem os recém-nascidos! Sim, crianças, em diferentes faixas etárias, são expostas a uma realidade de negligências, de abandonos, de descuidos, que escalam rápida e vertiginosa para situações de humilhação, desvalorização da autoestima, ameaças, agressões, castigos físicos severos, queimaduras e violência sexual.

Acontece que a infância é o alicerce da vida humana. São as experiências nessa fase que determinam o que seremos como adultos. E na infância, a identidade não está pronta! Ela é refletida, então, pelo olhar dos “cuidadores”.

A criança começa a entender quem é a partir do afeto, da validação e das palavras de quem as cerca. Então, elas despertam a necessidade do pertencimento, em decorrência dos vínculos de apego construídos, muitas vezes, de maneira muito frágil.  

Nesse cenário, a formação psicoemocional aponta que se houver negligência, descuido, desatenção, a base pode ser de medo e instabilidade. Algo que se reflete através da capacidade de nomear e lidar com as emoções, seja frustração, raiva, tristeza.

Desse modo, o seu comportamento se torna, em grande parte, um reflexo de padrões aprendidos dentro do meio social em que estão inseridas e por mecanismos de defesa criados instintivamente. A criança, então, acaba por replicar dinâmicas de resolução de conflitos e hábitos sociais que experenciou.

Diante dessas considerações, o que é possível aferir é que as deformidades sociocomportamentais e psicoemocionais, as quais um indivíduo é exposto na sua infância, reverberam até consolidar um adulto repleto de insatisfações, traumas, bloqueios, neuroses e violências.

Em muitos casos, sem a oportunidade de assistência profissional, ainda na infância, o quadro só tende a se cronificar e se intensificar sem possibilidades de reabilitação.

Acontece que sem uma proposta de transformação para esses indivíduos, a sociedade, querendo ou não, terá que enfrentar os desajustes sociais carregados por eles.

Começando pela convivência com uma legião de pais e mães despidos de quaisquer competências, habilidades e talentos para a criação de um filho. Sim, porque tanto o maternar quanto o paternar vão muito além de condições materiais.

O essencial para o exercício desses atos reside no subjetivo, na capacidade de cuidar, de proteger e de educar; portanto, indo além do laço biológico para criar um vínculo afetivo.

E é aí que a situação complica, porque milhares de pessoas não trazem essa possibilidade de realização. Isso significa que a humanidade, que a sociedade brasileira, que todos nós, estamos diante de um desafio que demandará muito tempo para ser enfrentado.

Não, não é dá noite para o dia. Serão décadas e décadas debruçados sobre a necessidade urgente de reconstruir a realidade da infância.

Isso quer dizer tecer uma rede de proteção a elas contra as violências, os desastres, a pobreza e a exploração, porque investir na infância não é apenas uma questão social, mas também econômica, na medida em que traz retornos para a sociedade ao criar indivíduos mais saudáveis ​​e capacitados.

Mas, em paralelo a esse processo, é preciso resgatar a humanidade dentro de seres humanos que não conseguiram, até agora, saber quem são, como se sentem, porque agem dessa ou daquela forma.

As violências contemporâneas possuem sim, componentes profundos de insalubridade mental, ocorrendo tanto como causa quanto como consequência de transtornos psicológicos, muitas vezes, herdados em decorrência da própria infância.

Por isso, para falar, debater e resolver as violências contemporâneas não tem como fugir dessa linha sociotemporal, ou seja, da infância à fase adulta.

Lembre-se das palavras da escritora estadunidense, Veronica Shoffstall, “Aprende que há mais dos seus pais em você do que você supunha. Aprende que nunca se deve dizer a uma criança que sonhos são bobagens, poucas coisas são tão humilhantes e seria uma tragédia se ela acreditasse nisso. Aprende que quando está com raiva tem o direito de estar com raiva, mas isso não te dá o direito de ser cruel”.

Porque elas, de alguma forma, podem resgatar em você a consciência de que toda criança tem direitos, segundo consta da Declaração dos Direitos da Criança, proclamada pela Organização das nações Unidas (ONU), em 20 de novembro de 1959.

Talvez, assim, as crianças que vierem a nascer, de agora em diante, nascerão em um mundo mais belo, mais justo, mais humano. Aconchegadas pelo afeto, o carinho, os cuidados. Sem barulhos de explosões, de tiros, de bombas, de gritos. Protegidas em lares dignos. Distantes da insegurança alimentar, da pobreza e da insalubridade. Próximas do lazer, do esporte e da cultura.

Afinal, a grande verdade dessa vida é que “Não é o sofrimento das crianças que se torna revoltante em si mesmo, mas sim que nada justifica tal sofrimento” (Albert Camus - Prêmio Nobre de Literatura em 1957).

A vitimização como recurso


A vitimização como recurso

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

O assunto da vez é: haverá ou não prisão domiciliar, em caráter humanitário, ao ex-Presidente da República brasileiro? Não sei, mas há muitas camadas a serem dissecadas e refletidas sobre essa questão.

Vejam que ele, até bem pouco tempo, era alguém que ostentava força física, porte atlético, quase um exemplo de imortalidade, de invencibilidade, e agora, tem sua banca de advogados defendendo a tese de prisão domiciliar, em caráter humanitário, dada a sua condição clínica.

Até agora, todas as patologias identificadas pelos médicos em razão das ocorrências que o levaram à hospitalização, em si não representam um fundamento consistente para a prisão domiciliar. São doenças de natureza crônica, que vez por outra se desequilibram e merecem atenção mais intensiva.

Algo que ele tem recebido sem restrições, contrapondo-se ao fato de que os cerca de 700 mil custodiados, que ocupam unidades físicas prisionais em regime fechado ou semiaberto, não desfrutam das mesmas regalias e privilégios; sobretudo, em relação à saúde.  

Vejam, ele não foi condenado a 27 anos e três meses de prisão em regime fechado à toa. Seus crimes, apontados na acusação que o levou à prisão em regime fechado, foram vastamente comprovados.

E se outras acusações fossem levadas a outros julgamentos é bem provável que novas penas de reclusão lhe seriam imputadas, dada a gravidade dos delitos cometidos durante o seu governo.

Haja vista os mais de 700 mil mortos de COVID-19, durante a Pandemia, em que pesquisas apontam que 400 mil poderiam ter sido evitadas pelo governo na época.

De modo que todo esse imbróglio, nos faz, ou pelo menos deveria fazer, pensar até que ponto pode ser considerada ética a influência política nas decisões do judiciário brasileiro.

Sim, porque esse é um caso em que não restam dúvidas da existência de um cálculo político pairando e contaminando os caminhos jurídicos, criando uma flagrante assimetria da isonomia no sistema penal brasileiro.  

Fato que reflete uma falha na aplicação igualitária da lei, onde fatores socioeconômicos e status social resultam em tratamentos diferenciados.

Sim, porque sua presença em recinto penitenciário não passa despercebida das observações do mundo. Há, inclusive, quem diga que a sua cela se transformou em escritório paralelo de discussão política, considerando o número de visitas solicitadas por correligionários, nos dias determinados pelo estabelecimento penal.

Elas vão muito além da já privilegiada assistência médico-hospitalar e familiar. De modo que em prisão domiciliar o ambiente seria mesmo de um espaço de campanha, em razão da candidatura do filho dele à Presidência da República.

Por isso, causa sim profundo estranhamento diante do pedido de prisão domiciliar, em caráter humanitário. Alguém em condições de saúde tão fragilizada e com algum risco de complicação, como dão conta os veículos de imprensa, precisa de acompanhamento médico constante, alimentação apropriada e descanso.

Nada de estresse, de burburinhos e agitações político-partidárias. Tudo isso deveria estar fora de cogitação para lhe garantir um restabelecimento adequado de suas condições clínicas, seja em que ambiente for. 

E como, nessa vida, não há acaso, os reiterados pedidos para prisão domiciliar, em caráter humanitário, parecem configurar um cenário de vitimização, semelhante ao que foi visto em outro momento da recente história brasileira.

Uma tecitura que se abstém de se concentrar nos fatos para se desviar entre teias milimetricamente calculadas pela política, contribuindo para consolidar uma persona, ou seja, uma variante muito diferente da verdadeira personalidade do indivíduo.

A grande questão é: se a vitimização se tornar instrumento de justificativa para pedidos de prisão domiciliar, em caráter humanitário, como se portará o Judiciário brasileiro para garantir constitucionalmente a isonomia no sistema penal?

Bem, a pergunta é pertinente, levando-se em conta o fato de que o sistema penal, nas condições em que se encontra no Brasil, acaba operando como uma máquina de produção de vítimas do próprio Estado, perpetuando ciclos de violência e desigualdade nas camadas mais frágeis e vulneráveis da população, por conta da seletividade de suas análises.

Não é sem motivo, então, que exista no campo político-partidário, quem ainda acredite que o crime compensa, considerando que a capacidade financeira permanece influenciando diretamente a qualidade da defesa técnica e fazendo gerar uma disparidade de armas no processo penal, como amiúde se revela nos veículos de comunicação e de informação nacionais e estrangeiros.