terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Gaslighting. A violência pela manipulação.


Gaslighting. A violência pela manipulação.

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Diante de uma epidemia de violência no mundo contemporâneo; sobretudo, de gênero, é preciso refletir. O assunto é sim, extremamente complexo; mas, nem por isso há de se colocá-lo submerso em uma montanha de desculpas e justificativas insustentáveis.

Sempre existe um comportamento comum nas manifestações de violência, e observando diferentes episódios que têm sido divulgados pela imprensa, um deles se destaca. Trata-se do gaslighting, uma tática de manipulação emocional cujo objetivo é desestabilizar a vítima psicologicamente.

O termo se difundiu a partir da peça de teatro britânico " Gas Light " de 1938, escrita por Patrick Hamilton, cujo enredo fala de um marido que manipula a esposa, conduzindo a intensidade das luzes ao gás da casa e negando a mudança, fazendo-a duvidar de sua sanidade e memória.

Pois é, no contexto da violência de gênero, essa prática tem sido comumente usada como ferramenta de controle, valendo-se das desigualdades sócio-históricas de poder para silenciar e desestabilizar as mulheres. Afinal, o gaslighting atua na desconstrução da autonomia e identidade da vítima.

Tudo começa, quando o agressor nega os fatos, omite as informações ou inventa eventos para gerar uma confusão mental, por parte da vítima. Nesse contexto, ele utiliza frases do tipo "você está louca" ou "está exagerando" para desqualificar os sentimentos e o senso crítico da mulher.

Assim, o agressor parte da sua posição, seja ela emocional, social ou financeira, para validar a sua versão dos fatos como a única verdade, a fim de invalidar sistematicamente a manifestação da vítima. Por isso, frequentemente, o agressor convence terceiros de que a vítima é instável ou emocionalmente confusa, usando o poder social para silenciar qualquer tentativa de denúncia ou busca por ajuda.

De modo que o objetivo final não é apenas vencer uma discussão, mas manter uma dinâmica de dominação onde a vítima perde o controle sobre sua própria capacidade cognitiva. No entanto, muitos não se dão conta dessa dinâmica pelo fato de que ela é capaz de perpetuar ciclos de abuso sem o uso de força física. Pois, ao criar um ambiente de confusão mental, o agressor dificulta a percepção dessa violência por parte da vítima e de outras pessoas.

Daí a importância de não desqualificar os relatos de violência das mulheres. Esse é o ponto de partida para romper com estruturas históricas que perpetuam a desigualdade de gênero e a impunidade, em todo o mundo. Quando um relato é validado, ocorre um enfrentamento direto aos mecanismos que mantêm os ciclos da violência, interrompendo a reprodução da opressão.

A desqualificação, seja na forma do gaslighting ou do julgamento moral da vítima, é sim, uma forma de violência simbólica, a qual reafirma relações de poder e dominação masculina. Historicamente, os relatos femininos foram sempre confinados ao âmbito privado e silenciados para evitar uma eventual desagregação familiar ou social. Por isso, ao não desqualificar esses relatos permite-se que certos temas, antes considerados particulares, ganhem relevância e projeção pública e política.

Veja, o medo de não ser acreditada é um dos principais motivos pelos quais as mulheres não denunciam. Além disso, paira sobre elas o desconforto da revitimização, na medida em que ao ser desqualificada a vítima experencia um novo trauma. Contudo, vale ressaltar que o supremo Tribunal Federal (STF) já decidiu pela proibição de meios que desqualifiquem a mulher em processos, reconhecendo que isso fere a dignidade e a constitucionalidade.

Portanto, os ventos estão soprando de um modo diferente. Em pleno século XXI, já se dispõe de elementos suficientes para compreender que o descrédito sistemático das mulheres é um reflexo de uma sociedade patriarcal e misógina, de modo que não permitir colocar a fala feminina em posição de inferioridade se torna uma responsabilidade direta da própria sociedade.

Nesse cenário, então, está posta uma necessidade de escuta empática e de validação discursiva das mulheres, enquanto formas de resistência sistemática e contínua contra a manipulação psicoemocional, a fim de não apenas desafiar; mas, de desconstruir toda essa estrutura social tóxica e nociva, que vem reverberando historicamente. 

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Dia Mundial de Combate ao Câncer (04/02)


Dia Mundial de Combate ao Câncer (04/02)

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

O objetivo da data é aumentar a conscientização e a educação mundial sobre a doença, além de influenciar governos e indivíduos para que se mobilizem pelo controle do câncer.

Pois se trata de um conjunto de mais de 100 doenças que têm em comum o crescimento desordenado de células, que invadem tecidos e órgãos. Dividindo-se rapidamente, estas células tendem a ser muito agressivas e incontroláveis, determinando a formação de tumores, que podem espalhar-se para outras regiões do corpo” 1.

Segundo dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA), o “Brasil deve registrar 781 mil novos casos da doença por ano até 2028. Quando excluídos os tumores de pele não melanoma (de alta incidência, mas baixa letalidade), a projeção é de aproximadamente 518 mil casos anuais. As previsões confirmam que o câncer vem se consolidando como uma das principais causas de adoecimento e morte no Brasil, aproximando-se das doenças cardiovasculares.” 2.

E para compreender a dinâmica desse avanço do câncer, seja a nível brasileiro quanto global, é preciso ter em mente que os principais fatores de sua incidência na população contemporânea incluem o tabagismo, o consumo de álcool, a obesidade, a dieta excessiva, o sedentarismo e a exposição à poluição, incluindo os agrotóxicos.

Em relação ao tabagismo, ele atua na promoção do câncer a partir da inalação de mais de 7 mil substâncias, sendo cerca de 70 delas carcinogênicas. Portanto, elas causam danos físicos ao DNA, mutações genéticas e inflamação celular. Assim, tais alterações sobrecarregam o reparo celular e aceleram a divisão de células, favorecendo o surgimento de tumores malignos, especialmente na boca e no esôfago.

Quanto ao consumo de álcool, ele promove o desenvolvimento do câncer através da metabolização do etanol em acetaldeído, um composto tóxico que danifica o DNA das células e causa alterações, as quais produzem lesões. Além disso, ele aumenta os níveis de estrogênio, provocando uma inflamação crônica que gera estresse oxidativo e facilita a penetração de carcinógenos nos tecidos, elevando os riscos de tumores na boca, mama, fígado, esôfago e cólon.

A obesidade promove o desenvolvimento do câncer, principalmente, por induzir um estado de inflamação crônica, o qual aumenta os níveis de hormônios, tais como o estrogênio e a insulina. A produção excessiva de hormônios atua principalmente como um estimulante para a divisão celular acelerada, o que aumenta as chances de erros genéticos e o crescimento de tumores em tecidos sensíveis.

E nesse contexto, a dieta excessiva e a má nutrição são consideradas a segunda principal causa de câncer que pode ser prevenida. Por isso, recomenda-se priorizar alimentos de origem vegetal, como frutas e grãos integrais, e evitar o consumo de bebidas adoçadas e embutidos. Afinal, alimentos que promovem a inflamação crônica, tais como salsicha, bacon, presunto e linguiça, açúcar, farinha branca, gorduras saturadas e trans, e bebidas alcoólicas, criam um ambiente propício para o desenvolvimento e progressão de tumores.

O que somado ao sedentarismo vem promovendo a expansão do câncer na população contemporânea. Sim, porque a ausência de atividade física regular pode levar o indivíduo a obesidade, a inflamação crônica e a redução da eficiência imunológica, permitindo o surgimento de um ambiente celular favorável ao crescimento tumoral. Razão pela qual, o sedentarismo tem sido associado diretamente a certos tumores, tais como o de mama, de cólon, de endométrio e renal.

Por fim, a exposição aos agrotóxicos e poluentes no ambiente, seja no ar, na água e/ou nos alimentos, aumenta o risco de câncer dada a contaminação crônica. Trabalhadores rurais e residentes próximos a áreas de plantio intensivo estão mais expostos, com maior incidência de internações e óbitos por câncer.

O que ocorre devido ao contato e/ou a ingestão contínua, ainda que em baixas doses, via alimentos, ar e água contaminada, que leva ao acúmulo de tóxicos no organismo ao longo do tempo. Inclusive, estudos relacionados aos agrotóxicos e aos poluentes ambientais apontam para uma maior incidência de câncer no cérebro, na próstata, no rim, no fígado, no pulmão, além de leucemia e linfoma.

Daí a importância em destacar que esses contaminantes têm a capacidade de iniciar, promover e acelerar mutações, sendo muitos deles classificados como genotóxicos, ou seja, aptos a danificar o DNA, resultando no desenvolvimento de tumores. Bem como, interferem no sistema hormonal, provocando doenças, mesmo em níveis muito baixos de exposição.

Como se vê, então, enfrentar o avanço do câncer na sociedade contemporânea exige uma abordagem multifatorial, pois se trata de uma doença que não é apenas de natureza biológica, mas também um reflexo de nossos hábitos, ambiente e estruturas socioeconômicas.

Por isso, um dos maiores obstáculos no combate ao câncer está na desigualdade socioeconômica. As populações mais vulneráveis ​​enfrentam maiores riscos de exposição a certos fatores, tais como alimentação precária, tabagismo, alcoolismo e poluição ambiental, e sofrimentos com diagnósticos tardios, elevando a mortalidade.

Nesse sentido, é preciso entender que a desigualdade, nesse cenário, é uma questão estrutural. A falta de políticas públicas eficientes e o investimento insuficiente na prevenção aumentam a carga da doença entre os menos favorecidos, impactando diretamente o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano).  

Ocorre que apesar de os países de alto IDH terem maior número absoluto de casos, a incidência e a mortalidade aumentam proporcionalmente e mais rapidamente em países de baixo e médio IDH.

O que tende a explicar, por exemplo, porque em contextos de baixa renda, com menor IDH, o câncer é mais letal; pois, o combate se dá de maneira desigual. Esses países sofrem com a falta de infraestrutura e investimento para diagnóstico precoce e tratamento, condenando milhares de pessoas à morte prematura, fato que torna o câncer uma doença diretamente ligada à desigualdade social e ao nível de desenvolvimento.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Educação no Brasil: O que escondem certas novidades?


Educação no Brasil: O que escondem certas novidades?

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Vira daqui, mexe dali, e a Educação no Brasil é motivo de reflexão. A oferta de ensino público no país é descentralizada e compartilhada, com municípios focados na educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental, os estados nos anos finais do ensino fundamental e médio, e a União com o ensino técnico e superior.

Sendo que o financiamento do ensino básico é realizado majoritariamente pelo Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb), a partir da redistribuição dos recursos mediante o número de matrículas efetivadas.

E essa informação é de suma importância. Começando pelo fato de que o ensino básico no Brasil - ensino infantil, fundamental e médio -, que corresponde a 18 anos de formação do aluno, encontra-se sob gestão dos municípios e dos estados. Assim, eles   dividem as tarefas logísticas e operacionais, ou seja, transporte escolar, infraestrutura e manutenção de prédios e equipamentos, merenda e insumos físicos, e gestão do calendário e vagas, para garantir o funcionamento das redes de ensino público. Estas obrigações são fundamentais para o acesso físico e estrutural dos alunos às escolas.

Aspectos que têm povoado os veículos de comunicação e informação, com notícias que apontam para uma realidade, frequentemente, destoante dessas e de outras obrigações previstas na Lei de Diretrizes e Bases da Educação (Lei nº 9.394/1996) e na Constituição Federal de 1988 (arts. 205 a 214). Sendo que um dos aspectos que se sobressai, nesse contexto, se refere à infraestrutura e à manutenção de prédios e equipamentos.

Sim, a infraestrutura escolar no Brasil contemporâneo reflete profundas desigualdades socioespaciais, onde a precariedade de prédios e equipamentos, principalmente, em áreas periféricas e rurais limita o aprendizado e perpetua a exclusão social. A falta de equipamentos adequados limita as metodologias educacionais e a inclusão de novos contingentes sociais, impactando a formação global do aluno.

Bem, ainda que existam investimentos, há um alto índice de insatisfação com instalações básicas, tais como banheiros, refeitórios, laboratórios, bibliotecas, quadras de esporte, evidenciando a necessidade de alocação eficiente de recursos para garantir, inclusive, as exigências de educação em tempo integral. Mas, se fosse para considerar apenas os prédios onde se localizam as salas de aula, a situação já seria extremamente crítica.

Sejam escolas urbanas ou rurais, não é difícil verificar como inúmeras delas se encontram em situação de extrema precariedade. Carecem de reformas estruturais, de ventilação adequada, de falta de água potável, de esgotamento sanitário, de energia elétrica, de mobiliário compatível às atividades escolares, ...

Além disso, prédios abandonados tornam-se vulneráveis ​​a furtos, vandalismo e invasões, transformando o que deveria ser um polo educativo em um problema de segurança pública para a vizinhança.

E diante desse cenário de abandono e precariedade enfrentado por diversas escolas públicas, sob gestão de municípios e de estados, é inevitável que, em algum momento, se chegue ao seu fechamento e encerramento das atividades educacionais.

Acontece que o processo não para no abandono e posterior fechamento dessas escolas públicas. Em algum momento, ele é seguido de novas construções em outros locais, tendo como justificativa uma eventual readequação da rede escolar. No entanto, a realidade dessas escolas fechadas por falta de manutenção e estrutura inconveniente, poderia ser facilmente solucionada através de reformas. E por que não é?

Ora, porque a construção de novas unidades atende a interesses políticos locais em realizar inaugurações, especialmente, em anos eleitorais, deslocando alunos para áreas periféricas ou reduzindo o número total de escolas funcionando simultaneamente. Desse modo, inaugurar uma nova escola pode mascarar o fechamento de outras, resultando em saldo nulo ou negativo na quantidade total de estabelecimentos, impactando a cobertura educacional, especialmente no ensino básico.

O fechamento de escolas municipais/estaduais seguido da inauguração de novas unidades cria, portanto, a falsa sensação de ampliação; pois, foca na construção, na novidade, ignorando a redução líquida do patrimônio escolar. Trata-se de uma manobra política para construir uma propaganda oficial que destaca apenas as novas unidades construídas.

Afinal, essas inaugurações geram visibilidade política e fotos de escolas modernas, enquanto o fechamento de unidades menores ou rurais, que atendem a esse modelo de reordenamento da rede, ocorre de forma silenciosa e dispersa. Não é à toa que, frequentemente, governos municipais e estaduais anunciam novas construções enquanto deixam milhares de obras escolares paradas, gerando um esquema onde o número de unidades educacionais efetivas em funcionamento não cresce, ou até diminui.

Diante desse modelo de reordenamento escolar, com o fechamento de unidades próximas às comunidades, especialmente na zona rural, tem-se um aumento da distância para os alunos, contribuindo para a evasão escolar. A precariedade física, portanto, não é apenas um problema técnico, mas uma barreira que impede que uma escola pública exerça sua função de mobilidade social, mantendo a estrutura da pirâmide social brasileira.

O que significa que a evasão escolar não é um evento acidental, mas uma característica estrutural muitas vezes utilizada para validar políticas de austeridade, que consistem no corte rigoroso de gastos públicos; sobretudo, quanto aos investimentos em infraestrutura, saúde e educação.

Por isso, quando as taxas de evasão sobem, o custo por aluno formado aumenta, fazendo com que se torne o argumento técnico para reduzir repasses, sob a lógica de que o sistema é ineficiente e precisa ser ajustado. Assim, menos alunos em sala resultam em menos recursos para a escola, perpetuando a precariedade.