domingo, 12 de abril de 2026

Aquilo que passa despercebido das estatísticas


Aquilo que passa despercebido das estatísticas

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Não se engane, o feminicídio não é um evento isolado ou uma explosão de violência gratuita, mas o ápice de um processo de dominação e controle exercido sob uma lógica patriarcal. Desse modo, antes dele acontecer, há uma progressão de outras violências.

Geralmente começa pelo isolamento social, o controle de redes sociais, a vigilância constante e a depreciação da autoestima da mulher. Depois, o controle do dinheiro, a destruição de documentos ou de objetos de valor para criar dependência. Em seguida, empurrões, tapas e agressões que escalam em gravidade, inclusive, com a imposição de relações sexuais não desejadas como forma de poder. Então, o último estágio é o feminicídio, o assassinato da mulher pela condição de ser mulher. E a tendência de alta no número de casos persiste ano a ano.

E a pergunta mais comum sobre isso é: por quê? Porque o feminicídio e a misoginia são construções ideológicas do patriarcado, ideologia secular que molda a cultura e as instituições, educando homens para a dominação e mulheres para a submissão.

Nesse sentido, o ódio ou desprezo pelo feminino, alimentado por valores que enaltecem a violência e enxergam a mulher como ser inferior ou como um objeto, reflete como o pensamento social estruturado na permissividade com a violência de gênero, perpetua uma série de desigualdades historicamente.

Daí essa estrutura sociocultural reafirmar continuamente a hierarquização dos gêneros, colocando os homens em posição de poder e propriedade, enquanto transforma o corpo feminino em alvo de controle e eliminação, baseando-se em valores de dominação e posse. O que aponta para a necessidade de ruptura desconstrutiva dessa base ideológica, caso se pretenda, de fato, resolver a manifestação concreta das violências contra as mulheres.

Em linhas gerais, isso significa que a estrutura social como um todo, ou seja, homens e mulheres, precisam desenvolver uma outra perspectiva sobre a sua importância social. Infelizmente, o patriarcado estabeleceu normas que definiram, até aqui, o que é ser homem e ser mulher na sociedade.

Historicamente, essas normas foram internalizadas por todos através da família, da escola e das mídias. Haja vista, por exemplo, porque mulheres também reproduzem discursos misóginos, tais como a rivalidade feminina ou a culpabilização da vítima, em razão da construção do pensamento pela perspectiva patriarcal.

É nesse viés, então, que se torna fundamental o papel da SORORIDADE. Para quem desconhece o conceito, a sororidade é a manifestação da união e da solidariedade entre mulheres, baseada na empatia e no compromisso ético para combater o patriarcado.

Assim, através dela a sociedade se habilita para desconstruir a violência de gênero ao romper com a rivalidade feminina imposta, fortalecendo as redes de apoio, de acolhimento e de combate à naturalização de violências estruturais.

Estamos falando, então, sobre substituir a competição pela colaboração, fortalecendo a resiliência e a autonomia feminina a fim de contribuir para uma sociedade mais justa, com maior participação política e decisão das mulheres, impactando positivamente a estrutura social.

Permitindo, portanto, uma reelaboração da saúde social, ou seja, da capacidade dos indivíduos criarem, manterem e nutrirem relações interpessoais saudáveis, promovendo um sentimento de pertencimento e coesão comunitária.

Desse modo, quando as mulheres se unem e rejeitam comportamentos misóginos, elas forçam o sistema social a se reequilibrar, permitindo que o homem abandone o papel de agressor ou de dominante para existir de forma mais humana.

Por isso, a sororidade ao estabelecer novos padrões de valorização e respeito cria um ambiente social onde a violência deixa de ser uma moeda de troca aceitável para a manutenção do status quo vigente.

E se não há a inferiorização feminina que faz com que as mulheres sejam dominadas, o impulso da violência perde a sua função estrutural, beneficiando a saúde mental e o comportamento dos homens, que deixam de ser escravos dessa gravidade de opressão, oriunda de uma necessidade histórica de validação através do poder.

Segundo a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, “Temos um mundo cheio de mulheres que não conseguem respirar livremente porque estão condicionadas demais a assumir formas que agradem aos outros”.

Portanto, ao mudar a forma como as mulheres se relacionam entre si e com o mundo, a sociedade descortina um novo limite ético que convida a todos os atores sociais a abandonarem a violência como linguagem única e universal.

Afinal, “A linguagem é o repositório de nossos preconceitos, de nossas crenças, de nossos pressupostos”, desse modo, “Imagine como seríamos mais felizes, o quão livres seríamos para sermos nós mesmos, se não tivéssemos o peso das expectativas de gênero” (Chimamanda Ngozi Adichie).

segunda-feira, 6 de abril de 2026

Mais do mesmo... A fragmentação política por conveniência.


Mais do mesmo... A fragmentação política por conveniência.

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Sempre que preciso me referir ao espectro político de direita faço uma ressalva à existência de vieses mais ou menos radicais e extremistas dentro dele. Por quê? Para que fique bem claro que, apesar de eventuais diferenças entre os seus representantes, seguidores, simpatizantes e apoiadores, no fim das contas, existe uma linha discursiva comum que os agrega.

E acabo de comprovar que estava certa, na minha observação. A corrida eleitoral de 2026, no Brasil, nem começou efetivamente, e o referido espectro político já despontou com diferentes nomes para concorrer à Presidência da República. Alguns com mais e outros com menos possibilidade de êxito; mas, não deixa de chamar atenção.

No entanto, o que pretende esse movimento de múltiplos candidatos é tentar levar o pleito eleitoral para um segundo turno e depois promover uma agregação dos candidatos derrotados, desse espectro político, em torno daquele que se sagrou bem sucedido. O que deixa claro como os diferentes, nesse caso, são mais iguais do que se possa imaginar!

Caro (a) leitor (a), essa não é uma questão difícil de compreender! Veja, a direita brasileira, em todos os seus vieses, construiu-se historicamente sobre as raízes coloniais tradicionalistas e elitistas.

De modo que ela visa preservar a ordem social oligárquica e as disparidades socioeconômicas. E para tal ela criou uma cultura de hierarquia naturalizada, opondo-se a quaisquer projetos de transformação social.

Basta uma breve visita aos veículos de informação e comunicação para se deparar, então, com diversas notícias que retratam exatamente isso.

Ora, ao longo desses pouco mais de 500 anos de história, diferentes setores da elite oligárquica brasileira se organizam para limitar os direitos socioeconômicos e trabalhistas da grande massa da população.

Seja defendendo uma agenda de liberalismo econômico no plano nacional ou promovendo pautas de costumes tradicionais, suas ideias são sempre marcadas por um caráter autoritário, antidemocrático.

Por isso, quando se aproxima o período eleitoral, esses indivíduos correm para manter suas regalias e privilégios de poder. Afinal, formada no curso dos séculos, as classes historicamente dominantes não governam apenas pela força, mas pelo consenso hegemônico construído.  

Nesse sentido, é no período eleitoral que os diferentes vieses da direita buscam reafirmar as velhas práxis, as quais sempre impuseram seus valores como se fossem o interesse de toda a sociedade.

Viu só?! É nesse recorte temporal, então, que essas elites se organizam para garantir que, independentemente de quem vença o pleito eleitoral, o acesso aos recursos do Estado e aos mecanismos de decisão permaneçam em suas mãos.

As nuances e divisões internas da direita, portanto, se unem nesse momento para impedir a ascensão de grupos que representem uma ruptura real com o seu sistema de privilégios. Afinal de contas, o poder não é apenas dinheiro, mas também as redes de influência. Assim, a corrida para manter as regalias e os privilégios é, na verdade, um esforço para manter o controle sobre o aparelho estatal, o grande responsável por distribuir subsídios, definir isenções fiscais, ... enfim, ditar as regras do jogo político-econômico nacional.

Por isso, a união entre os diferentes vieses da direita, em épocas de eleição, funciona como um mecanismo de defesa do seu status quo fundamental.

Por mais que a direita se fragmente em rótulos como liberal, conservadora, libertária ou ultradireitista, a verdade é que só existe um único núcleo de valores que unifica o seu discurso. Especialmente em períodos eleitorais.

O que está posto, então, é uma narrativa que tende a institucionalizar ou manter estruturas sociais sem mudanças. Isso significa que ela é frequentemente ancorada na figura do inimigo interno ou de ameaças à estabilidade, transformando o Estado ou o pretenso líder como garantidores da ordem.

Além disso, a ideia de que uma sociedade é composta por indivíduos e famílias, e não por classes ou grupos identitários, esvazia as pautas coletivistas e foca a solução de problemas na responsabilidade individual e na liberdade de mercado.

Assim, embora existam rachas políticos, o núcleo ideológico da direita sempre permanecerá focado no conservadorismo e no neoliberalismo, mostrando que a demanda por essa agenda é maior do que quaisquer lideranças individuais. A fragmentação é somente uma estratégia de adaptação e de expansão da direita. Pura conveniência de quem almeja mais do mesmo.