segunda-feira, 13 de julho de 2026

Sempre é tempo de lutar contra as tiranias


Sempre é tempo de lutar contra as tiranias

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

14 de julho de 1789, eis a maior das marcas históricas, a Tomada da Bastilha, evento que deflagrou a Revolução Francesa. A prova de que a tirania monárquica podia ser desafiada. Se enganam os que pensam que essa história só diz respeito aos franceses. Não. Ela é importante para todos os seres humanos, desde então.

Por quê? Porque a tirania se manifesta de várias formas ao longo da história. Tiranos em todo o mundo ascendem prometendo segurança e ordem durante períodos de guerra, instabilidade econômica ou colapso social.

Aí, monopolizam a verdade, a partir da supressão de opiniões divergentes e por meio do controle da propaganda buscam ditar como a população deve pensar e agir.

Até que essa estrutura alcance o seu limite na expressão da desigualdade e da exclusão, tendo em vista de que esses regimes opressivos frequentemente se aproveitam de vulnerabilidades socioeconômicas para manter o poder e o controle nas mãos de poucos.

Então, apesar da Revolução Francesa ter cumprido um papel vital para a humanidade, era também impossível que ela, sozinha, conseguisse exterminar a tirania da face da Terra. Pois se trata de uma manifestação de poder que aparece desde os primórdios da civilização humana.

Sim, quando o indivíduo percebeu que poderia exercer o seu poder de forma ilegítima ou abusiva, frequentemente, se valendo da força e da supressão das liberdades individuais.

Nesse sentido, então, se torna possível compreender que a luta contra a tirania exige vigilância contínua, pois ela não se limita a isso ou aquilo, na medida em que ela permeia as relações sociais, locais e institucionais.

Portanto, essa resistência diária envolve questionar os abusos de autoridade, defender os direitos humanos e promover a participação cidadã, em relação aos mais diversos assuntos, em todas as esferas de poder.

Aí, se pensarmos que, lá no século XVIII, a Revolução Francesa promove uma luta contra a tirania monárquica em favor da sobrevivência das camadas mais frágeis e vulneráveis da população, eis que o século XXI, nos confronta com a necessidade de uma outra luta antitirânica diante do risco de colapso da espécie humana no planeta, decorrente não só do negacionismo científico; mas, da mesma ganância que sempre moveu a humanidade.

Portanto, precisamos falar sobre o Antropoceno, um conceito científico, proposto em 2000 pelo químico Paul Crutzen e pelo biólogo Eugene Stoermer, que descreve uma nova época geológica não oficial na qual as atividades humanas passaram a ser a principal força de alteração do clima e dos ecossistemas terrestres.

De modo que nesse cenário, a centralização, o domínio sobre a natureza e a lógica de apropriação dos recursos, iniciada com a Revolução Francesa, evoluiu para o modelo de produção capitalista predatório, no qual a tirania do capital e o produtivismo extremo vem explorando o planeta de forma insustentável e ameaçando a sobrevivência da humanidade; sobretudo, das parcelas mais frágeis e vulneráveis.

Basta olhar para a Islândia, para ver como o derretimento das geleiras e o impacto econômico e cultural já sinalizam como deve se processar o colapso socioambiental no planeta. O país já abriga o primeiro memorial global de geleiras extintas, atuando como um alerta sobre o futuro do clima na Terra. Razão pela qual o país é considerado um laboratório vivo das mudanças climáticas.

Portanto, a luta contra a tirania socioambiental, no século XXI, marcada pela exploração predatória e pela imposição de projetos que ignoram os limites ecológicos e a justiça social exige uma combinação de desobediência civil não violenta, de insurgências decoloniais, de ações diretas e de resistência comunitária e territorial; posto que o propósito dessas rebeldias é subverter as lógicas de poder hegemônico.

Isso significa, então, se posicionar a partir de ações que confrontem deliberadamente as normas administrativas para forçar governos e corporações a responderem à emergência planetária.

A apoiar os movimentos liderados por povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais que desafiam o modelo econômico de produtivismo extremo, recusando a mercantilização da natureza e reafirmando a cosmovisão de que o ambiente é um sujeito vivo e base de existência, e não mero recurso.

E a usar o sistema judicial para subverter a tirania corporativa e governamental, exigindo responsabilização por desastres decorrentes do Antropoceno.

Mas, também, na perspectiva individual, ao construir alternativas cotidianas de produção, tais como a agroecologia e a autogestão de recursos hídricos e florestais, cujas ações se contrapõem à apropriação privada de bens comuns.

Porque essa desobediência intelectual e cultural, que questiona a narrativa oficial de desenvolvimento a qualquer custo, valoriza o conhecimento tradicional e promove uma educação ambiental crítica, tão fundamentais no combate ao esgotamento ecológico e a crise civilizatória contemporânea.

Como se vê, não há como negar que há uma intersecção entre a desigualdade, o racismo ambiental e a crise climática para que haja a formulação dessas resistências. Desse modo, a história nos diz que o denominador comum entre a Revolução Francesa e a luta socioambiental contemporânea é a emancipação humana contra as tiranias que monopolizam a vida.

Em ambos os casos o que se tem é o enfrentamento às estruturas de poder que concentram recursos vitais, exigindo a democratização do acesso aos meios de sobrevivência. A crítica social e ambiental reconhece que a liberdade sem igualdade e sem fraternidade leva à exclusão e ao extermínio da própria espécie. 

segunda-feira, 6 de julho de 2026

A bola fora


A bola fora

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Surpresa zero. Afinal, depois de ter perdido de 7x1 para a Alemanha, o que de fato aconteceu ao futebol brasileiro? Nada. Construímos uma carapaça de lamentações e choramingos; mas, não sacodimos a poeira e demos a volta por cima.

Não entendemos que aquele foi o cisma, a ruptura decisiva com o futebol romântico, e se quiséssemos manter as coisas no seu devido lugar seria necessária uma dose generosa de análise crítica e de reflexão.

O pior adversário é aquele que habita em você. Portanto, o pior adversário da seleção brasileira é ela mesma. Sobretudo, quando se ilude em viver de suas glórias antigas, como se o trabalho fosse feito apenas de lembranças e memórias.

Cada conquista carregou em si mesma os seus desafios, as suas conjunturas, as suas superações. Eram outros personagens, outros recortes de tempo, outros desejos e ambições. De modo que aquelas seleções cumpriram o seu próprio legado e ponto final.

Assim, quem chega tem o dever de construir o seu próprio caminho, a sua própria história, a partir do momento atual. A gestão de uma marca é um processo contínuo, o qual precisa ser reafirmado diariamente para não ser ultrapassado e superado por outras.

Talvez, por isso, carregar o peso da amarelinha seja o maior de todos. Porque se trata de uma marca que já conquistou 5 títulos mundiais, alguns deles sob o forte impacto do encantamento coletivo. E isso, inevitavelmente, gera não só uma cobrança histórica por vitórias, como uma expectativa de continuidade dessa mística.

Entendo e reafirmo que a vida não é uma receita de bolo; mas, alguns parâmetros e valores são fundamentais. A seleção brasileira para se tornar um nome de impacto entendeu desde o princípio que futebol era esporte coletivo, por mais talentos e estrelas que viessem a vestir a sua camisa.

Bastava olhar para os gramados brasileiros para entender que a escolha dos representantes canarinhos era uma tarefa difícil. Tanto que muita gente boa ficou de fora de Copas do Mundo pela simples impossibilidade numérica de convocação. Mas, as equipes nunca foram resumidas a esse ou aquele jogador.

A Seleção Brasileira na final da Copa do Mundo de 1958, por exemplo, contava com Gilmar, Djalma Santos, Bellini, Orlando, Nilton Santos, Zito, Didi, Garrincha, Vavá, Pelé e Zagallo.

Em 1962, foram Gilmar, Djalma Santos, Mauro, Zózimo, Nilton Santos, Zito, Didi, Garrincha, Amarildo, Vavá e Zagallo, na partida final. Valendo destacar que o Amarildo assumiu a titularidade após a lesão de Pelé ainda na fase de grupos. E vejam só, fomos bicampeões mundiais!

Em 1970, a lendária Seleção Brasileira tricampeã mundial teve no conjunto dos 22 convocados, a seguinte estrutura. Os goleiros eram Félix (titular), Ado e Leão. Na defesa, Carlos Alberto (capitão), Brito, Piazza e Everaldo, como titulares, e Baldochi, Fontana, Joel Camargo, Marco Antônio e Zé Maria, na reserva. Como meiocampistas, Clodoaldo e Gérson eram os titulares, e Paulo César Caju era o reserva. E no ataque, Jairzinho, Tostão, Pelé e Rivellino eram os titulares, e Dadá Maravilha, Edu e Roberto Miranda eram os reservas.

Na final da Copa do Mundo de 1994, a escalação era Taffarel, Jorginho/Cafu, Aldair, Márcio Santos, Branco, Mauro Silva, Dunga, Mazinho, Zinho, Bebeto e Romário. E no último título mundial, em 2002, o time que entrou em campo na final foi Marcos, Lúcio, Roque Júnior, Edmílson, Cafu (capitão), Roberto Carlos, Gilberto Silva, Kléberson, Ronaldinho Gaúcho, Rivaldo e Ronaldo Fenômeno.

Veja, essas escalações servem para provar que todos eram estrelas de primeira grandeza, que faziam diferença para se alcançar o objetivo final. Nenhum deles era mais ou menos importante. O time não funcionava por causa desse ou daquele jogador. Todos tinham que estar aptos, capazes de oferecer o seu melhor, para que fosse possível ostentar a identidade do seu país em campo.

Mas, o passado é o passado. Já foi. Já era. O Brasil, um dia potência futebolística do século XX e início do século XXI, não é mais o mesmo. Por isso, não dá para se ancorar nele e esperar acontecimentos surpreendentes agora.

A partir de 2006, a seleção brasileira entrou em um declínio visível, como se a sua identidade nacional tivesse sofrido uma fratura existencial. O time não demonstrava mais a sua genialidade, a sua potencialidade vitoriosa, a sua alma guerreira e combativa.

Apesar das estrelas presentes, o fracasso desse tempo deu início a um longo período de dúvidas. O ponto nevrálgico dessa deterioração parecia ser a dificuldade de adaptação tática ao futebol europeu moderno, que acabava por criar uma sensação de distanciamento entre a Seleção, o Brasil e o torcedor.

A partir dessa perspectiva, a trajetória da Seleção nas Copas do Mundo seguintes foi marcada por eliminações em fases decisivas e debates profundos sobre a perda da essência do futebol brasileiro, da desconexão com a sua identidade nacional; sobretudo, em consequência da formação de atletas focada em exportações prematuras, as quais alteraram a forma como o Brasil desempenha o seu jogo em campo.

Portanto, 2026 foi apenas mais uma bola fora. Um constrangimento desnecessário; posto que, as devidas análises e reflexões sobre os (des)caminhos da seleção nunca estiveram em pauta, para que ocorresse alguma efetiva transformação.

Dizia Nelson Rodrigues, dramaturgo, escritor e jornalista brasileiro, “O escrete é a pátria em calções e chuteiras. Ele representa os nossos defeitos e as nossas virtudes”. Pura verdade! O futebol não ocorre em um vácuo, ela absorve as características do solo onde é gestado; por isso, se às vezes ele traduz genialidade, ginga, criatividade e resiliência, da mesma forma pode, em outros momentos, refletir   a indisciplina, o individualismo, a irregularidade emocional e a propensão ao tanto fez como tanto faz.

Por essas e outras é que uma vitória ou uma derrota da equipe brasileira tende a mimetizar o sucesso ou o fracasso, na medida em que o campo se torna o teatro onde o povo vivencia suas maiores alegrias e suas mais profundas angústias.

Assim, “O futebol é a coisa mais importante entre as coisas menos importantes”, porque “Para nós [brasileiros], o futebol não se traduz em termos técnicos e táticos, mas puramente emocionais" (Nelson Rodrigues).

Daí a necessidade de refletirmos sobre essa sociedade que busca nos heróis do esporte uma compensação psicológica para suas mazelas sociais e políticas, deixando de enxergar e nomear o que significa a própria realidade do futebol e além dele.

terça-feira, 30 de junho de 2026

A humanidade e sua comoção seletiva


A humanidade e sua comoção seletiva

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Infelizmente, observando o fluxo da historicidade humana, cada vez mais me convenço de que o instinto nato de sobrevivência da espécie não dispõe, na verdade, de uma relação direta com o sentimento de comoção.

Apesar de a empatia e a solidariedade terem sido mecanismos fundamentais para a manutenção do Homo sapiens na Terra, a história, de fato, demonstra que essas emoções costumam operar de forma limitada e enviesada.

De modo que, diante de tragédias naturais ou antrópicas, o que se percebe é que a comoção se mostra totalmente assimétrica. Isso significa que a indignação pública, a empatia e a solidariedade são despertadas de forma desigual, ou seja, dependendo de quem são as vítimas, onde o evento ocorreu ou de como a mídia ou o contexto tratam o assunto.

Esse comportamento, então, revela vieses inconscientes e escolhas, muitas vezes, calculadas. Começando pelo fato de que as pessoas tendem a se comover mais com as tragédias que afetam indivíduos mais próximos de sua raça, classe social, nacionalidade ou estilo de vida.

Inclusive, em locais onde a violência ou a pobreza são crônicas, a sociedade acaba por desenvolver uma cegueira ou apatia, enquanto eventos inesperados em áreas privilegiadas geram comoção global, ás vezes, por meses.

Portanto, as vidas marginalizadas tendem a não receber o mesmo luto público que as vidas pertencentes a grupos dominantes, gerando uma reflexão crítica sobre quais vidas são consideradas importantes e quais não são.

Aí, para completar esse cenário, o destaque dado pelos veículos de imprensa e redes sociais para tais tragédias obedecer ao escrutínio dos interesses daqueles que detém os diferentes tipos de poder na sociedade. Tanto que, não é raro verificar, que em relação àquilo que gera indignação em massa seja tratado como mera estatística.

É dessa forma que a comoção seletiva constrói uma solidariedade assimétrica. Basta olhar para certos exemplos recentes. As inundações históricas na região sul do Brasil geraram uma mobilização nacional massiva, com arrecadações bilionárias, enquanto os desastres contínuos e severos causados ​​por secas prolongadas no semiárido ou enchentes nas periferias do Norte e Nordeste costumam ter menor cobertura midiática e comoção institucional.

Mas, extrapolando as fronteiras nacionais, o conflito no Leste Europeu, com a guerra entre a Ucrânia e a Rússia gerou uma onda global de solidariedade imediata, com abertura de fronteiras, campanhas de ações e forte cobertura da mídia.

Acontece que, paralelamente, crises humanitárias prolongadas, embargos e guerras civis com números devastadores de mortos e refugiados recebem uma fração ínfima da atenção global. Palestinos, sudaneses, iemenitas, congoleses, cubanos.

Milhões de vidas humanas já enfrentam deslocamentos forçados, fome severa, violência extrema, colapso dos sistemas de saúde nessas regiões, desabastecimento de recursos básicos, ausência de moradia, frequentemente exacerbados por cortes em orçamentos de assistência internacional. Mas, a gravidade alarmante dessa situação parece não existir para muitas pessoas, provando que a comoção é seletiva.

De repente, descobri que há uma relação direta entre a comoção seletiva e a necropolítica. Acontece que a comoção seletiva opera como o braço ideológico e midiático desse processo, na medida em que ela se manifesta quando a sociedade civil e os meios de comunicação reagem com indignação a algumas tragédias, ao mesmo tempo em que naturalizam ou ignoram a violência extrema e as mortes diárias que atingem populações marginalizadas; sobretudo as minorias sociais, que possuem menor acesso ao poder, recursos e representatividade, e são excluídos de maneira sistêmica  em razão das desigualdades de gênero, raça, orientação sexual, religião ou deficiência.

Desse modo, o que se tem é uma distinção tácita entre vidas que importam e vidas que não importam e sequer são passíveis de luto. Por isso, quando uma tragédia atinge setores hegemônicos, há comoção e solidariedade imediata; mas, quando os vulneráveis ​​são atingidos, a morte é banalizada como um dano colateral ou consequência natural de sua condição social.

Há uma franca desumanização desses indivíduos, como se eles pudessem ser tratados como indesejáveis ou indignos. Aí, a partir dessa estereotipização, há uma legitimação da violência. O silêncio ou a apatia diante da morte de minorias proporciona um aval social para que o Estado continue operando políticas de negligência e força bruta nesses territórios.

Nesse sentido a necropolítica, por meio da comoção seletiva, traça uma linha divisória na sociedade contemporânea demonstrando um alinhamento ideológico do ser humano em relação à desumanização.

Assim, é fácil identificar quem aceita que corpos humanos estejam sujeitos à eliminação e à violência diária, ou normalizem/invisibilizem o sofrimento diário das populações vulneráveis, ou reafirmem o processo de objetificação/coisificação, o qual facilita a manutenção das estruturas de opressão e exclusão social, porque o filtro ideológico dessas pessoas molda e traduz a narrativa para que a morte de certos grupos sociais seja vista como natural ou necessária.

Por isso, a comoção seletiva não tem nada a ver com emoção, sentimento ou lógica. Ela é fria, dura, insensível, estratégica.  Totalmente despojada de ética, de consciência, para a ser o mais cruel e perverso cálculo moral. E isso me faz concordar com Frantz Omar Fanon, psiquiatra e filósofo político franco-caribenho, “O que importa não é conhecer o mundo, mas mudá-lo”; pois, o conhecimento em si mesmo é só perfumaria. Para ser instrumento de transformação, ele precisa ser aplicado com consciência, com objetivo, com senso de humanidade.