terça-feira, 31 de março de 2026

O boneco ventríloquo


O boneco ventríloquo

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

As novas gerações, talvez, não conheçam o boneco ventríloquo. Embora suas origens remontem da Grécia e Roma Antiga, foi nos séculos XIX e XX, que esses bonecos, dotados de mecanismos complexos para movimentos com a cabeça, os olhos e a boca articulada, tornaram-se populares em shows de variedades e, posteriormente, na televisão. De modo que através da manipulação por um artista que fala sem mexer os lábios, tem-se a ilusão de que o boneco inanimado tem vida própria e voz independente.

Mas, por que escrever sobre tais bonecos? Simples. A construção da imagem auxilia na compreensão dos fatos sociais ao transformar conceitos abstratos em evidências visuais, mediando nossa percepção de realidade, história e relações de poder. Nesse sentido, as imagens não apenas refletem o mundo, mas através da sua identidade o constroem, moldando os estereótipos e as memórias coletivas.

Então, como estamos em ano eleitoral, não pude deixar de traçar um paralelo entre os bonecos ventríloquos e o movimento dos pretensos candidatos alinhados à Direita e seus matizes. Sim, porque a fragmentação dentro desse espectro político-partidário transforma alguns indivíduos em bonecos ventríloquos para auxiliar na construção de uma imagem, até certo ponto moderada, daquele que se destaca para o pleito.

Afinal, os bonecos ventríloquos são verborrágicos. Eles falam sem parar, atropelam a fala do outro e não têm filtros. Acontece que essa compulsão pela fala possui uma função social profunda, centrada para vencer o silêncio constrangedor das verdades reprimidas, ou seja, ele fala muito porque tem a urgência de dizer o que o humano não pode dizer. Então, ele despeja a realidade nua e crua.

Veja, o boneco pode ser racista, misógino, cruel, politicamente incorreto, ... Mas, se um ser humano fizesse as mesmas considerações ou críticas, ele seria sumariamente cancelado ou hostilizado pela plateia. Isso significa que a sociedade tende a aceitar a agressividade verbal e a torrente de palavras do boneco porque finge acreditar na ilusão de que ele possui uma consciência própria independente.

Só que não. O que acontece, de fato, é que o manipulador do boneco utiliza desse recurso para limpar sua própria imagem perante as normas sociais. Ele coloca palavras na boca do boneco para fazer valer os seus próprios argumentos. Essas são, na verdade, táticas de guerrilha da comunicação que permitem suspender temporariamente as regras sociais da etiqueta para dar vazão à verdade dos valores, crenças, princípios, que norteiam a vida do manipulador.

Alguém que, nesse caso, é o pretenso candidato alinhado à Direita e seus matizes com maior destaque para o pleito eleitoral, segundo certas pesquisas de opinião. Portanto, ele e qualquer outro boneco ventríloquo, que surja pelo caminho, pertencem ao mesmo espectro político-partidário, ou seja, comungam da mesma ideologia, valores, crenças e princípios.

Mas, como ele teme por uma rejeição, uma repulsa dos eleitores, ele utiliza desse artifício, ou seja, os porta-vozes ou as figuras controladas, como são os bonecos ventríloquos, para despejar discursos e moldar a opinião pública, sem necessariamente dar a cara a tapa.

Preste atenção, essas pessoas só aceitam esse papel coadjuvante, porque almejam, com todas as forças, se manter no poder.  Afinal, a direita no Brasil, com seus diferentes matizes, tradicionalistas, liberais, conservadores ou libertários, reflete uma estrutura histórica, baseada na manutenção de posições sociais e na resistência à participação popular.

Assim, esse pensamento incorpora valores herdados do período colonial, como o imobilismo social, a dificuldade de compatibilização entre a tradição e a modernidade, e a prevalência de regalias e de privilégios. Daí esse espectro político-partidário, apesar de tantas siglas, rostos e nomes, ser capaz de abranger desde a tradição conservadora até o liberalismo econômico, evoluindo de uma visão corporativista para coalizões que incluem o neoliberalismo e a direita ultranacionalista.

Viu só?! Essa é uma metáfora perfeita! No fundo, o boneco ventríloquo e o seu manipulador são exatamente a mesma coisa, divididos em dois corpos para criar uma ilusão. A fim de que o boneco sirva como um escudo social para as verdades ou sombras do próprio artista. 

domingo, 29 de março de 2026

Nos vagões da história ...


Nos vagões da história ...

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Diante da dimensão que ganha o conflito entre os EUA/Israel e o Irã, de repente, não pude deixar de pensar nos tempos em que a vida transitava pelo fluxo das ferrovias.

Particularmente, eu não tive o privilégio de viajar de trem; mas, minha alma foi preenchida pelas histórias contadas pelos meus avós e minha mãe.

Lembranças que parecem embaladas pelo som do Trenzinho Caipira 1, o quarto movimento das Bachianas Brasileiras nº 2, de Heitor Villa-Lobos, que depois ganhou letra pelas mãos do poeta Ferreira Gullar, em 1978.

Contudo, escrever sobre os trens ajuda, de alguma forma, a desanuviar as preocupações atuais em relação ao petróleo. Afinal de contas, ao longo da história, as ferrovias experenciaram momentos distintos.

Começaram sua jornada com a utilização da lenha e do carvão mineral, nas máquinas a vapor, na Primeira Revolução Industrial. Depois veio o óleo diesel, que dominou a tração diesel-elétrica.

Atualmente, é na eletricidade que se concentra a principal fonte de energia para os trens de alta velocidade. Valendo destacar que as pesquisas em combustíveis renováveis para o setor já existem.

Em terras brasileiras, as ferrovias tiveram início com a Estrada de Ferro Mauá, em 1854, conectando o porto à serra de Petrópolis. A expansão foi impulsionada pela economia cafeeira, conectando áreas produtoras, especialmente São Paulo, aos portos. Transportavam-se viajantes e as cargas agrícolas.

No início do século XX, durante a República Velha, houve uma expansão acelerada, com a rede ferroviária superando 30.000 km, graças ao financiamento majoritário promovido por investimentos ingleses voltados para exportação.

Entretanto, por volta da segunda metade do século XX, o foco mudou para as rodovias, especialmente no governo do Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira, levando ao abandono e à estatização de muitas linhas ferroviárias.

Por quê? Simples. O imperialismo dos EUA. Isso significa que eles influenciaram, de maneira decisiva, a substituição do transporte ferroviário pelo rodoviário no Brasil, impulsionando o modelo das rodovias a partir de meados do século XX.

Uma mudança alinhada à política de progresso e desenvolvimento industrial, cujo objetivo principal era promover a dependência do petróleo e dos combustíveis fósseis; bem como, fortalecer a indústria automobilística e petroleira norte-americana na América Latina.

Nessa geopolítica do petróleo, então, o tipo de desenvolvimento atrelado ao consumo de combustíveis fósseis, tornou a infraestrutura brasileira vulnerável aos interesses externos e às variações nos preços internacionais do barril.

Sem contar que essa estratégia limitou o desenvolvimento de alternativas mais eficientes de transporte, como as ferrovias e as hidrovias, no Brasil, focando na circulação de riquezas baseadas no diesel e na gasolina.

Foi assim, então, que a priorização das rodovias levou à negligência sistemática da malha ferroviária brasileira. Elas que integravam o país desde o século XIX foram deixadas de lado por não apresentarem o mesmo apelo de progresso rápido ou visibilidade política imediata que as estradas de asfalto.

Nesse cenário, a escolha pelo caminhão como principal meio de transporte de cargas tornou o abastecimento nacional refém das flutuações do preço do petróleo e de crises externas.

Além disso, a má conservação das pistas não só aumenta o gasto com combustível e manutenção, elevando o preço final dos produtos para o consumidor, como contribui para a alta emissão de CO2 e substâncias atmosféricas, causando problemas de proteção e acelerando as mudanças climáticas, por conta do uso massivo dos motores a diesel.

E nessa toada, a concentração do transporte em rodovias resulta em altos índices de acidentes, roubos de carga e desgaste físico exaustivo para os motoristas brasileiros. Uma história que contraria o modelo desenvolvido dentro dos EUA.

Pois é, por lá se manteve uma malha ferroviária extensa e padronizada para cargas e viajantes. Assim, o cidadão tem opção de escolha de transporte para os seus deslocamentos; enquanto, produtores e comerciantes conseguem reduzir significativamente o custo de transporte das cargas por tonelada.

Por isso, diante do cenário contemporâneo; sobretudo, no pós-pandemia, o Brasil passou a intensificar as discussões e os projetos para a retomada do transporte ferroviário de cargas.

A ideia atual baseia-se em parcerias com o setor privado, incluindo a compra de novas locomotivas e renovações antecipadas de contratos de concessão.

Esse movimento busca conectar novas áreas de produção ao porto de Santos, otimizando o transporte de cargas de alto volume. Por isso, ela é tão estratégica para o Brasil, considerando que um dos maiores gargalos do país é o custo logístico.

Um país de dimensões continentais, a dependência quase exclusiva do modelo rodoviário mostra a sua ineficiência e ônus. Assim, um único trem pode substituir centenas de caminhões e facilitar a chegada de soja, milho e minério de ferro aos portos, tornando o produto brasileiro mais competitivo no mercado internacional.

Na perspectiva das rodovias, tal iniciativa permite reduzir a sobrecarga de tráfego, evitando gastos públicos com reparos asfálticos e acidentes, por exemplo, a emissão muito menor de CO2 por tonelada transportada, e o menor consumo de combustível por tonelada útil.  

Portanto, a retomada da malha ferroviária no Brasil surge como uma reparação histórica, no sentido de corrigir um desequilíbrio gerado pelo foco exclusivo no rodoviarismo, permitindo aumentar a competitividade econômica, a partir da redução de custos de transporte e a otimização do escoamento de cargas.

terça-feira, 24 de março de 2026

Tudo começa pelo começo. Com a violência não é diferente.


Tudo começa pelo começo. Com a violência não é diferente.

 

Por Alessandra Leles Rocha  

 

De todos os lados nos chegam relatos de violência diariamente. Alguns falam em uma epidemia do ódio. Outros, de um retrocesso à incivilidade, à barbárie humana. Bem, adjetivos para tentar explicar tal fenômeno de nada adiantam. De modo que resolvi parar, pensar, a partir da construção de uma linha de acontecimentos, os quais me impactaram bastante.

A impressão que se tem é de que a vida humana perdeu seu valor. Mata-se qualquer um. Por qualquer motivo, sob qualquer justificativa, a qualquer hora do dia ou da noite, em qualquer lugar, enfim. Então, de repente, essa brutalidade descompensada, apesar de toda a sua crueldade e perversidade, merece ser olhada nos detalhes.

Considerando que qualquer um, independente do gênero, da raça, da religião, da escolaridade, do status socioeconômico, pode ser a bola da vez, a análise deve partir do início.  Não há como discordar que a infância perdeu a sua aura de inocência, de alegria, de blindagem frente aos males do mundo. Ser criança está cada vez mais difícil e complexo.

Em 2016, o documentário O COMEÇO DA VIDA, apoiado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e dirigido por Estela Renner, não só mostrava a importância fundamental dos primeiros anos de vida para o desenvolvimento infantil, como destacava que o afeto, as relações amorosas e os ambientes seguros moldam o cérebro e a personalidade da criança, sendo crucial para o seu futuro e o da sociedade.

Mas, o que parece, olhando a realidade contemporânea da infância, é que houve um desvirtuamento ético/moral, em relação a responsabilidade, ao comprometimento, a disponibilidade, que são os pilares a sustentar a maternidade e a paternidade, contrapondo-se totalmente ao que propõe o referido documentário.

Chegou-se ao ponto em que a violência contra a infância não exime nem os recém-nascidos! Sim, crianças, em diferentes faixas etárias, são expostas a uma realidade de negligências, de abandonos, de descuidos, que escalam rápida e vertiginosa para situações de humilhação, desvalorização da autoestima, ameaças, agressões, castigos físicos severos, queimaduras e violência sexual.

Acontece que a infância é o alicerce da vida humana. São as experiências nessa fase que determinam o que seremos como adultos. E na infância, a identidade não está pronta! Ela é refletida, então, pelo olhar dos “cuidadores”.

A criança começa a entender quem é a partir do afeto, da validação e das palavras de quem as cerca. Então, elas despertam a necessidade do pertencimento, em decorrência dos vínculos de apego construídos, muitas vezes, de maneira muito frágil.  

Nesse cenário, a formação psicoemocional aponta que se houver negligência, descuido, desatenção, a base pode ser de medo e instabilidade. Algo que se reflete através da capacidade de nomear e lidar com as emoções, seja frustração, raiva, tristeza.

Desse modo, o seu comportamento se torna, em grande parte, um reflexo de padrões aprendidos dentro do meio social em que estão inseridas e por mecanismos de defesa criados instintivamente. A criança, então, acaba por replicar dinâmicas de resolução de conflitos e hábitos sociais que experenciou.

Diante dessas considerações, o que é possível aferir é que as deformidades sociocomportamentais e psicoemocionais, as quais um indivíduo é exposto na sua infância, reverberam até consolidar um adulto repleto de insatisfações, traumas, bloqueios, neuroses e violências.

Em muitos casos, sem a oportunidade de assistência profissional, ainda na infância, o quadro só tende a se cronificar e se intensificar sem possibilidades de reabilitação.

Acontece que sem uma proposta de transformação para esses indivíduos, a sociedade, querendo ou não, terá que enfrentar os desajustes sociais carregados por eles.

Começando pela convivência com uma legião de pais e mães despidos de quaisquer competências, habilidades e talentos para a criação de um filho. Sim, porque tanto o maternar quanto o paternar vão muito além de condições materiais.

O essencial para o exercício desses atos reside no subjetivo, na capacidade de cuidar, de proteger e de educar; portanto, indo além do laço biológico para criar um vínculo afetivo.

E é aí que a situação complica, porque milhares de pessoas não trazem essa possibilidade de realização. Isso significa que a humanidade, que a sociedade brasileira, que todos nós, estamos diante de um desafio que demandará muito tempo para ser enfrentado.

Não, não é dá noite para o dia. Serão décadas e décadas debruçados sobre a necessidade urgente de reconstruir a realidade da infância.

Isso quer dizer tecer uma rede de proteção a elas contra as violências, os desastres, a pobreza e a exploração, porque investir na infância não é apenas uma questão social, mas também econômica, na medida em que traz retornos para a sociedade ao criar indivíduos mais saudáveis ​​e capacitados.

Mas, em paralelo a esse processo, é preciso resgatar a humanidade dentro de seres humanos que não conseguiram, até agora, saber quem são, como se sentem, porque agem dessa ou daquela forma.

As violências contemporâneas possuem sim, componentes profundos de insalubridade mental, ocorrendo tanto como causa quanto como consequência de transtornos psicológicos, muitas vezes, herdados em decorrência da própria infância.

Por isso, para falar, debater e resolver as violências contemporâneas não tem como fugir dessa linha sociotemporal, ou seja, da infância à fase adulta.

Lembre-se das palavras da escritora estadunidense, Veronica Shoffstall, “Aprende que há mais dos seus pais em você do que você supunha. Aprende que nunca se deve dizer a uma criança que sonhos são bobagens, poucas coisas são tão humilhantes e seria uma tragédia se ela acreditasse nisso. Aprende que quando está com raiva tem o direito de estar com raiva, mas isso não te dá o direito de ser cruel”.

Porque elas, de alguma forma, podem resgatar em você a consciência de que toda criança tem direitos, segundo consta da Declaração dos Direitos da Criança, proclamada pela Organização das nações Unidas (ONU), em 20 de novembro de 1959.

Talvez, assim, as crianças que vierem a nascer, de agora em diante, nascerão em um mundo mais belo, mais justo, mais humano. Aconchegadas pelo afeto, o carinho, os cuidados. Sem barulhos de explosões, de tiros, de bombas, de gritos. Protegidas em lares dignos. Distantes da insegurança alimentar, da pobreza e da insalubridade. Próximas do lazer, do esporte e da cultura.

Afinal, a grande verdade dessa vida é que “Não é o sofrimento das crianças que se torna revoltante em si mesmo, mas sim que nada justifica tal sofrimento” (Albert Camus - Prêmio Nobre de Literatura em 1957).