terça-feira, 17 de março de 2026

Territorialidade de risco: O aterramento de áreas urbanas (ou não) com resíduos sólidos


Territorialidade de risco: O aterramento de áreas urbanas (ou não) com resíduos sólidos

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Há alguns dias eu escrevi um texto falando sobre a territorialidade de risco; mas, a fim de não o tornar muito extenso, optei por desmembrar uma parte muito importante, a qual diz respeito à prática do aterramento de áreas de fundo de vale ou de erosão com resíduos sólidos, presentes em zonas urbanas ou não.

Bem, até o início do século XX, essa era uma prática esporádica, que acontecia em pequenas erosões rurais ou periurbanas. No entanto, entre as décadas de 1950 e 1970, com o crescimento da urbanização no Brasil, a falta de saneamento básico e a precariedade da gestão de lixo, as voçorocas urbanas foram usadas como lixões ou aterros informais para lixo doméstico e entulho.

Acontece que essa dinâmica persistiu e, apesar da Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei 12.305/2010) tê-la tornado ilegal, infelizmente, ela ainda ocorre, especialmente em áreas periféricas, devido ao fato de muitos gestores públicos acreditarem que o baixo custo dessa prática é mais vantajoso, do ponto de vista orçamentário, do que a realização do tratamento da erosão pela engenharia geotécnica.

Só que não. Primeiro, porque esse tipo de preenchimento representa uma intervenção profunda na geografia e na geologia do local. Veja, as voçorocas ou áreas de erosão são formadas por água subterrânea e superficial, ou seja, pelo lençol freático exposto, decorrente da perda da cobertura vegetal, principalmente, por desmatamento e queimadas. Desse modo, os resíduos preenchem o espaço; mas, são incapazes de conter a água. Como resultado tem-se o entupimento do fluxo natural, criando uma represa subsuperficial assustadora.

Segundo, porque o uso de entulho de construção civil, de resíduos industriais ou do próprio lixo doméstico para o preenchimento traz riscos seríssimos. Começando pelos metais pesados, tintas e solventes que se infiltram diretamente no lençol freático, já que a voçoroca é uma exposição profunda do solo. Depois, a presença de materiais orgânicos que leva a um processo de decomposição desses, gerando vazios internos, os quais podem causar a desestabilização do terreno aterrado. Por fim, esse descarte inadequado impede uma drenagem correta da água, criando outras frentes de erosão nas bordas do aterro.

Isso significa que esse tipo de material comumente usado não possui coesão. Então, sendo exposto ao peso de eventuais edificações, o solo cede, causando rachaduras e colapsos. Assim, ao ignorar a dinâmica hídrica e geológica, o que deveria ser uma solução urbanística se transforma em uma área de risco iminente.

Um episódio clássico foi o conjunto habitacional Cingapura Zaki Narchi, na Zona Norte de São Paulo, construído na década de 1990, com o propósito de substituir as habitações precárias por edifícios verticalizados, atendendo cerca de 700 famílias. Porém, não se levou em conta que ele foi construído em área de antigo lixão, gerando a percolação do metano pelo solo até a superfície e, portanto, os riscos de explosão devido ao acúmulo de gás no subsolo.

A concentração de metano no subsolo dos 140 apartamentos térreos atingiu níveis extremamente perigosos, incluindo explosão, de modo que a Prefeitura de SP instalou 20 drenos para aliviar a pressão do gás e evitar uma evacuação dos moradores, afirmando ter resolvido o problema em novembro de 2011. No entanto, embora tenha sido relatado a mitigação do risco imediato com os drenos, a situação no local permanece sob observação devido à natureza do subsolo.

E esse não é o único caso, embora não exista um levantamento nacional estatístico exato para contabilizar o número de ocorrências de instabilidade em áreas urbanas, decorrentes do aterramento de voçorocas com resíduos sólidos no Brasil. Além disso, é preciso lembrar de que a situação é muitas vezes agravada pela combinação de terrenos acidentados, alta intensidade de chuvas e o lançamento irregular de diferentes resíduos, comprometendo a estabilidade das áreas aterradas.

Haja vista a situação das áreas aterradas com resíduos sólidos e entulho na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), as quais apresentam riscos geológicos elevados, especialmente durante o período chuvoso. A combinação de solo instável, acúmulo de lixo e infraestrutura de drenagem insuficiente causa desmoronamentos e erosões graves que ameaçam a segurança da população.

Seja como for, o fato é que essas áreas quando ocupadas ou urbanizadas tornam-se, portanto, zonas de alto risco de acidentes e contaminação. Porque além da instabilidade física do terreno, esse aterramento causa poluição hídrica e do solo, gerando sérios riscos à saúde pública. Não só pelo acúmulo de lixo atrai animais como ratos, baratas, escorpiões e mosquitos, elevando casos de dengue e outras zoonoses; mas, pelo fato de que a decomposição de certos resíduos, nesses locais, pode liberar gases e partículas tóxicas, causadoras de doenças graves.

Daí a importância da discussão crítico-reflexiva sobre esse assunto, pela população brasileira, na medida em que sob a ótica da territorialidade de risco, essa prática consolida vulnerabilidades diversas. Portanto, essa prática transforma áreas erosivas em territórios de risco habitacional e sanitário, onde uma população local, muitas vezes de baixa renda, vive em ambiente degradado e insalubre, intensificando a desigualdade socioambiental no país.

É fundamental ter em mente que a insalubridade de uma área de risco, seja ela urbana ou não, compromete a salubridade de toda a região afetada. Porque o ambiente daquele espaço geográfico funciona como um sistema interconectado, onde problemas localizados em regiões vulneráveis geram impactos que se propagam por todo o território através de vetores biológicos, ambientais e sociais. 

O Oscar não nos define!


O Oscar não nos define!

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

É isso mesmo! Por quê precisamos da legitimação internacional para celebrar a nossa cultura?! Essa é a pergunta que temos que fazer hoje, amanhã, depois, sempre. Porque romper as bolhas, expandir as fronteiras, intercambiar pontos de vista, é nisso que reside a força sociocultural brasileira.

Apesar de estarmos em pleno século XXI, não podemos fingir que o mundo não vive sob a influência imperialista, monopolista, egocentrista, ... porque essa é uma verdade fática. E o cinema faz parte do mundo, por isso, ele também é afetado por essas questões.

Os olhos que acompanham as atuações, as produções e as exibições públicas, no cenário internacional, de certa forma ainda estão contaminados por certos vieses ideológicos, os quais possibilitam a construção de senões aos filmes que estão fora do espectro dominante da cinematografia mundial.

Desse modo as escolhas não são, então, pautadas basicamente por questões técnicas. Cada corpo de jurados traz consigo crenças, valores, convicções, interesses, simpatias, que acabam por esgarçar o seu processo decisório, afastando-os de um posicionamento mais ético e isento.

Nesse sentido, inclusive, é importante destacar o papel lobista que atua sobre a dinâmica cinematográfica. Infelizmente, o lobby do cinema nas premiações não é apenas uma estratégia de marketing, mas um mecanismo de reprodução de poder e consagração da dominância cultural.

Por isso, não cabe ingenuidade na análise dos acontecimentos. Quando grandes estúdios investem milhões para influenciar os votantes, eles transformam o mérito artístico em uma extensão do capital econômico e social, com o único propósito de garantir que o sucesso se concentre nos mesmos grupos.

Além disso, o prêmio é uma ferramenta de marketing que aumenta o valor do filme e a empregabilidade dos envolvidos, reforçando uma estrutura de classes dentro da indústria cinematográfica.

Assim, em linhas gerais, o alto custo das campanhas lobistas atua como uma barreira para filmes independentes ou de países fora do eixo tradicional; bem como, se encarrega de negligenciar quaisquer narrativas que fujam do padrão cinematográfico tradicional ou vigente.

Para isso, não é incomum que o lobby, muitas vezes, envolva campanhas difamatórias ou desqualificantes contra concorrentes, modificando a escolha artística em um processo puramente político e estratégico. Como já aconteceu na história do cinema.

Caro (a) leitor (a), daí a importância de entender que a manifestação da cultura é, antes de tudo, uma expressão interna, uma relação direta com seu próprio povo. Só depois, é que ela pode ser compartilhada com o externo, com o mundo, porque aí ela já está fortalecida, enriquecida pela própria identidade nacional.   

E nesse momento, então, a sua aclamação ou a sua incompreensão pelo estrangeiro pode ser decodificada de uma maneira adequada e satisfatória. Por isso, mesmo tensionada, sob a pressão externa, as crises econômicas ou os conflitos internos, a cultura se adapta e resiste porque não é algo que se possui, mas algo que se é.

Então, munida dessa impessoalidade para analisar os acontecimentos, sem precisar dessa ou daquela legitimação alheia para se sentir confortável, plena e feliz, ela se mantém. Porque a cultura é capaz de incorporar quaisquer elementos dos eventuais contratempos e se transformar, mantendo intacto o seu núcleo identitário.

Assim, o maior prêmio para quaisquer manifestações ou expressões culturais é a capacidade de realizar, de dar vida às ideias, aos projetos, gerando uma conexão coletiva inimaginável. Aí, nesse instante, ela deixa de pertencer apenas ao criador e passa a dialogar com a sociedade de maneira plena, inteira e extraordinária. 

quinta-feira, 12 de março de 2026

Pesquisas políticas ... bússola ou oráculo para a sociedade contemporânea?


Pesquisas políticas ...  bússola ou oráculo para a sociedade contemporânea?

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Não há como negar, o tempo todo a sociedade contemporânea é bombardeada por pesquisas e dados. São tempos da racionalização, ou seja, da necessidade de medir, calcular e prever o comportamento humano para que nos sintamos seguros ou informados.

Assim, além da tradicional pesquisa de opinião, a contemporaneidade é marcada pela valorização da pesquisa baseada em comportamento, dados reais e experiências. Como se a pesquisa tivesse se transformado em bússola ou oráculo para a sociedade contemporânea.

Mas, quando a pesquisa se dedica à análise do campo político atual, ela assume um caráter predominantemente empírico-analítico e pós-estruturalista.

Isso significa que a pesquisa empírico-analítica foca em dados que podem ser observados, medidos e testados, buscando a objetividade e a neutralidade.

Enquanto a pesquisa pós-estruturalista questiona a ideia de verdade absoluta ou da objetividade total, concentrando-se em como a linguagem, o poder e a cultura moldam o que chamamos de realidade.

Por essas e outras é que nenhum estudo é puramente neutro ou perfeito. O resultado de uma pesquisa é moldado por fatores que acontecem tanto dentro quanto fora do controle do pesquisador.

Veja, por exemplo, as escolhas feitas no desenho do estudo.  Se a amostra for pequena, se as perguntas do questionário forem indutivas ou se houver falhas na análise dos dados, o resultado será afetado.

Também, as pressões do mundo real, quem financia, os prazos apertados, os interesses políticos e/ou as mudanças súbitas no cenário socioeconômico enquanto a pesquisa ocorre, podem enviesar tendenciosamente o resultado.   

Sem contar que a escolha do próprio pesquisador aponta para o fato de que ele traz consigo crenças e vivências que podem sim, adicionar influências à interpretação dos fatos, mesmo que ele tente ser imparcial.

Feitas essas breves considerações e pensando objetivamente nas pesquisas políticas, não é difícil entender, então, a dimensão do peso relativo ao momento ou ao recorte temporal em que uma pesquisa é realizada.

Ora, ele representa o fator crítico que determina se uma pesquisa eleitoral pode ser considerada um raio-X preciso da opinião pública ou apenas um registro obsoleto de uma percepção volátil.

Por isso, pesquisas políticas não preveem o futuro, elas apenas mapeiam tendências em um tempo e espaço específicos. Como uma fotografia estática de uma realidade política fluida, dinâmica; posto que, o momento da coleta define o quanto essa foto poderá, de algum modo, se assemelhar ao resultado esperado.

E as razões disso são óbvias. A começar pelo fato de que a vida é instável e uma série de acontecimentos (im)previsíveis podem mudar o curso da história diariamente.

Desse modo, no caso da política, eventos de grande impacto, tais como um debate, uma denúncia, um escândalo, uma decisão judicial, podem mudar drasticamente a opinião do cidadão sobre alguma questão ou a sua intenção de voto. Uma pesquisa feita 10 dias antes da eleição, por exemplo, pode não captar uma mudança de tendência de última hora.

A realidade do resultado, expressa pela opinião do entrevistado, é afetada pela vida útil e o tipo de informação que foi absorvida pela memória do eleitor. Daí os entrevistados serem voláteis, estarem sujeitos as mudanças. O que explica, também, a razão da existência de alto índice de indecisos ou votos em branco ou nulo.

Mas, não se pode negligenciar a existência de eventos extremos globais, tais como crises climáticas, pandemias, desequilíbrios econômicos e/ou guerras, que são capazes de gerar o chamado efeito de transbordamento, afetando a percepção do cidadão.

Quando ocorre um desastre global, por exemplo, o cidadão tende a projetar o medo do macro no micro. Então, em pesquisas políticas, isso se traduz em uma busca por figuras de autoridade ou lideranças que transpirem uma credibilidade capaz de garantir proteção e ordem, mesmo que o problema local seja diferente do global.

Não é à toa que tais eventos podem servir tanto como cortina de fumaça quanto bode expiatório, no âmbito das pesquisas. Afinal, enquanto alguns podem ser mais tolerantes com as falhas do governo local ao acreditarem que o mundo todo está em crise, outros podem punir o político local por problemas globais, ignorando a falta de controle dos gestores externos sobre o evento.  

Por isso, um evento extremo pode sim, mudar o que o cidadão considera importante. Se há uma crise global de saúde, pautas locais, tais como reforma urbana e inclusão escolar ou cultural, perdem peso na avaliação política. O cidadão passa a julgar o candidato exclusivamente pela sua capacidade de gestão de crise.

Desse modo, a percepção do indivíduo deixa de ser fruto apenas da sua vivência imediata e passa a ser mediada por eventos distantes, tornando a opinião pública local muito mais volátil e imprevisível.

Inclusive, ele pode responder a uma pesquisa baseada em polarizações globais em vez de focar em problemas específicos do seu bairro, da sua cidade ou do seu estado.

Assim, lembre-se: as pesquisas não são, e nunca serão, uma bola de cristal, uma ferramenta de futurologia, para serem utilizadas para monitorar uma sociedade cada vez mais complexa, fragmentada e volátil.

Uma pesquisa reflete o que o eleitor pensou ontem, mas não garante o comportamento de amanhã, especialmente com a rapidez das redes sociais e o visível aumento da polarização e das mudanças nos hábitos de comunicação que dificultam a criação de amostras sociais que sejam efetivamente perfeitas.

Além disso, fenômenos como o voto envergonhado ou a recusa em participar de pesquisas tendem a ampliar a distorção dos dados, impedindo que eles reflitam a totalidade e a sinceridade do pensamento das partes interessadas.