segunda-feira, 19 de janeiro de 2026
quarta-feira, 14 de janeiro de 2026
Já dizia Aldous Huxley, “O dinheiro não fala apenas, ele também impõe o silêncio”.
Já dizia Aldous
Huxley, “O dinheiro não fala apenas, ele também impõe o silêncio”.
Por Alessandra
Leles Rocha
Em dezembro de 2022, eu escrevi o
texto O AVESSO DO MUNDO VIRTUAL, no qual eu compartilhava a seguinte
experiência no antigo Twitter: “em 08 de outubro fui pega de surpresa com a suspensão
permanente das minhas contas, por uma suposta violação das regras de
utilização. Acontece que não só faltaram maiores esclarecimentos a respeito
dessa violação, como as minhas manifestações recorrendo da suspensão não
foram sequer respondidas. Uma notificação padrão de análise era encaminhada;
mas, não passou disso. E diante dessa situação, eu decidi desativar
as contas; mas, fui impedida por uma mensagem alegando a suspensão das mesmas.
Vejam só que situação absurda!”.
Passados 4 anos, a situação se
repete da mesma forma, de maneira ainda mais surpreendente, dessa vez a plataforma
foi o Youtube. Acordei, essa manhã, e quando liguei o celular para me inteirar
das notícias do dia, descobri que a minha conta havia sido removida ou, segundo
eles, “o meu Canal foi removido”. Não houve quaisquer avisos prévios, quaisquer
menções de que eu estaria infringindo alguma regra ou política da plataforma. Foi
uma decisão sumária. Exatamente como da outra vez.
Acontece que eu não tenho um canal,
nunca gravei um vídeo sequer nessa ou em quaisquer outra plataforma, tratando de
qualquer assunto. Eu apenas acompanhava as publicações presentes naquele espaço.
Seguia assuntos diversos, entre importantes e supérfluos, sérios e engraçados. Algumas vezes, eu compartilhava assuntos
interessantes e importantes. Mas, na maioria do tempo, eu me dedicava a acompanhar
a dinâmica do dia.
Então, eu me perguntei: onde está
a liberdade de decidir, de escolher? Ela desapareceu. Como fumaça. Como um
passe de mágica. Diante da presença dos algoritmos, os quais, por alguma razão,
decidiram que as minhas escolhas, a minha decisão em torno da busca por
informações, estaria destoando gravemente do que eles consideram certo, do que
eles consideram relevante. Os algoritmos interferiram diretamente na construção
do meu conhecimento de mundo.
Exatamente, como aconteceu no
Brasil, durante a Primeira República ou República Velha, entre 1889 e 1930, com
o chamado voto de cabresto, um importante mecanismo utilizado para controlar o
comportamento eleitoral da população. Pois é, em pleno século XXI, o controle social
vem sendo exercido pelos algoritmos, através da modulação do comportamento e da
gestão da informação em larga escala, limitando o debate público e a exposição
ao contraditório. Esse uso de metadados permite, então, não apenas influenciar
processos democráticos, por exemplo, como estabelecer padrões de consumo e
comportamento.
Afinal de contas, os algoritmos
de redes sociais e buscadores são projetados para maximizar o engajamento, o
que promove as bolhas de filtro, nas quais a exposição ao contraditório é
eliminada, restringindo a liberdade intelectual e a capacidade de escolha. O que
significa que a falta de transparência sobre como essas decisões são tomadas
aliena o direito do cidadão de contestar ou compreender as lógicas que
restringem seu acesso a direitos e oportunidades no ambiente virtual.
Portanto, o controle social exercido por algoritmos na contemporaneidade, impacta diretamente a autonomia individual, na medida em que limita o acesso a perspectivas divergentes, reduzindo a base de informações necessárias para uma escolha livre e consciente. De modo que, muitas vezes, esse controle manifestado pelos algoritmos exerce uma ação direta sobre a manutenção ou o cancelamento de contas e/ou perfis. Como se eles atuassem na figura de juízes automatizados, promovendo uma censura silenciosa e impeditiva de recursos e de autodefesa, por parte do cidadão.
terça-feira, 13 de janeiro de 2026
Não adianta torcer o nariz ...
Não
adianta torcer o nariz ...
Por Alessandra
Leles Rocha
O ser humano é um ser cultural. O que significa que ele não é definido apenas
pela sua biologia, mas principalmente pela sua capacidade de criar, de transformar
e de transmitir significados, valores, costumes e conhecimentos.
Por isso, ele molda tanto o seu
ambiente quanto a si mesmo, tornando-se um produto e agente da história e da
sociedade, de modo a refletir sobre o mundo as suas compreensões, percepções e
expectativas, dessa forma, atribuindo sentidos e construindo identidades.
Daí a cultura não ser apenas um
produto de consumo, mas um recurso que gera emprego e renda através da Economia
Criativa, onde a criatividade e o capital intelectual tornam-se os principais
motores do valor nacional, gerando riqueza, trabalho e desenvolvimento humano,
indo além dessa perspectiva, para algo maior que promove a inclusão social, a
diversidade sociocultural e o bem-estar comunitário, redefinindo o papel do
indivíduo e da comunidade na economia contemporânea.
Em termos de Brasil, a economia
criativa se destaca por sua velocidade de expansão, superando atividades
tradicionais e contribuindo significativamente para a economia nacional.
Haja vista que o setor
ultrapassou a marca de R$ 393,3 bilhões em 2023, representando 3,59% do PIB
brasileiro, com projeções de aumento em 2025.
Sem contar que ela emprega mais
de 7 milhões de pessoas no Brasil, com projeções de chegar a 8,4 milhões até
2030, considerando que a expectativa é de que esse crescimento tanto no mercado
formal, com carteira assinada, quanto no informal, seja impulsionado principalmente
por setores como games, audiovisual, moda e tecnologia.
De modo que a criatividade
individual e coletiva; bem como, o conhecimento e a imaginação, passam a ser
recursos econômicos tão importantes quanto o capital físico tradicional. Afinal,
a economia criativa gera não só renda e empregos, mas também fortalece a
identidade cultural.
E certamente esse pode ser
considerado o grande pulo do gato, porque além de promover a autoestima e a
qualidade de vida, empoderando comunidades marginalizadas, faz da cultura um instrumento
real de ruptura com o "complexo de vira-lata", quando inverte a
lógica de valorização da produção nacional, alterando a exportação de
commodities pela exportação de capital intelectual e identidade cultural
brasileira.
O primeiro semestre de 2025 viu,
por exemplo, as exportações de livros brasileiros crescerem 7%, superando o
total de 2024, impulsionadas pelo programa Brazilian Publishers, projeto
da Câmara Brasileira do Livro (CBL) em parceria com a Agência Brasileira de
Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), com apoio do Ministério
das Relações Exteriores (MRE), que movimentou USD 14.367.900 em negócios nas
principais feiras literárias do mundo. O valor representa um crescimento de 7%
em relação ao ano todo de 2024.
No campo audiovisual, os filmes
brasileiros ganharam espaço, atingindo uma participação de 11,2% do público
total nos cinemas até agosto de 2025. O mercado audiovisual brasileiro projetou
um crescimento de 5% ao longo do ano, impulsionado por investimentos do Fundo
Setorial do Audiovisual (FSA).
Em suma, o audiovisual brasileiro
mostrou forte expansão, com o mercado de VoD (Vídeo sob Demanda) identificando
mais de 138 mil títulos e consolidando-se, enquanto o cinema viu um aumento na
presença de conteúdo nacional, 14,1% das sessões, e um crescimento expressivo
na venda de ingressos para filmes brasileiros, proporcionando um setor
resiliente e em crescimento, impulsionado também pelo aumento de salas e da projeção
de expansão econômica.
Além disso, a economia criativa
brasileira também expandiu seu foco em outros pilares. O fortalecimento de
laboratórios de inovação. As plataformas de crowdfunding (financiamento
coletivo). As soluções em gestão de resíduos eletrônicos. A ascensão do slow
fashion (produção ética e sustentável). O upcycling (reaproveitamento e customização
de materiais que seriam descartados). O design de produtos ecológicos,
valorizando a produção local e consciente. A construção de roteiros
personalizados, constituindo o chamado turismo de experiência, e a gastronomia
artesanal, os quais ganham força com propostas únicas de valorização cultural
local.
ARTESANATO, GASTRONOMIA, MÚSICA,
ARTES CÊNICAS, PATRIMÔNIO, MODA, DESIGN GRÁFICO, DESIGN DE INTERIORES, SOFTWARE,
JOGOS ELETRÔNICOS, CINEMA, TELEVISÃO, NOVAS MÍDIAS, PUBLICIDADE, ARQUITETURA,
MARKETING, FOTOGRAFIA, EDIÇÃO, carregam, portanto, um recurso
abundante e multiplicável, capaz de contribuir para a inovação e o
desenvolvimento de uma sociedade, em todos os tempos.
É por essa força pulsante e
vigorosa, que os brasileiros e brasileiras puderam iniciar o ano de 2026,
celebrando a conquista notável do filme O Agente Secreto, ao vencer no Globo
de Ouro 2026, em Los Angeles, as categorias de Melhor Filme em Língua
Não Inglesa e Melhor Ator em Filme de Drama, com Wagner Moura;
bem como, no Critics Choice Awards 2026 como Melhor Filme
Estrangeiro.
Aliás, não se pode esquecer que
as inúmeras premiações que o filme já conquistou, até o momento, tiveram como
ponto de partida a sua estreia mundial em 18 de maio de 2025, como parte da
Seleção Oficial do 78º Festival de Cannes, onde concorreu pela Palma de
Ouro.
Na ocasião, ele conquistou os prêmios
de Melhor Direção para Kleber Mendonça Filho, Melhor Ator para Wagner
Moura, tornando-o o primeiro sul-americano a vencer nesta categoria em
Cannes, o Prêmio FIPRESCI de crítica internacional, e o Prêmio Art
House Cinema (Prix des Cinémas Art et Essai).
É preciso compreender e
reconhecer a importância simbólica e material da cultura para a sociedade
brasileira contemporânea, na medida em que ela oferece um arcabouço de
significados que permitem aos brasileiros se apropriarem da sua condição de nação,
valorizando a complexa miscigenação do país, a partir do compartilhamento dos códigos,
dos valores e das tradições que são capazes de criar um sentimento de
solidariedade que facilita a comunicação e a cooperação coletiva; bem como,
fortalece o seu espírito soberano.
Relembrando as palavras de
Fernanda Montenegro, uma das mais importantes atrizes brasileiras da história, “Nossa
deformação cultural nos faz pensar que cabe a um segmento da sociedade levar
cultura a outro. Nós temos é que buscar a cultura no povo, dando condições para
que ela brote. Só assim torna-se possível criar uma real identidade cultural”.
Porque é com essa consciência que
a riqueza das manifestações culturais brasileiras permite desafiar as normas
impostas ao longo da colonização do país, consolidando-se como um motor de
inovação e resistência nacional, que nos permite dizer alto, e muitas vezes, VIVA
A CULTURA BRASILEIRA!








