Afinal,
quem usa quem?
Por
Alessandra Leles Rocha
Desde ontem, não se fala em outra
coisa a não ser que os EUA, na figura do seu Secretário de Estado, declarou o PCC
e CV como facções narcoterroristas 1. Acontece que esse discurso não
reflete a realidade dos fatos. Não se trata de segurança. Não se trata de
reduzir o tráfico de drogas nas Américas. Não se trata da segurança nacional
estadunidense.
Nem tampouco, foi fruto da subserviência
sabuja de certos brasileiros, que se prestam ao papel de render respeito à
bandeira de outro país que não seja o seu próprio. A eles coube somente os
chamados 15 minutos de fama. Daí a necessidade de perguntar: quem usa quem?
A verdade nua e crua, caro (a)
leitor, é que eles foram somente o pretexto de algo que já estava no plano
neoimperialista contemporâneo dos EUA; mas, principalmente, do seu Secretário
de Estado, que tem pretensões eleitorais à Casa Branca a partir de um projeto
de retomada dos países latino-americanos, como o velho quintal estadunidense. Só
isso.
Os grandes analistas da geopolítica
contemporânea mostram em suas análises cirúrgicas que esses são tempos de uma
guerra híbrida. Isso significa uma estratégia de conflito que combina táticas
militares tradicionais com métodos não convencionais, tais como a desinformação,
os ataques cibernéticos, as avaliações econômicas e a interferência política,
com o intuito de causar algum tipo de desestabilização ao adversário e atingir
objetivos estratégicos sem a necessidade de um confronto bélico direto e aberto.
Mas, pensando à luz da realidade atual,
o que está em jogo sobre o tabuleiro é a disputa de poder entre os EUA e a
China. O que significa que o Brasil é um player de extremo interesse para
ambos. Afinal, o Brasil desempenha um papel de protagonismo e equilíbrio nos
BRICS, atuando como uma ponte geopolítica entre o Ocidente e o Sul Global, a
fim de promover a defesa do multilateralismo, a busca por reformas nos
organismos internacionais e a ampliação de oportunidades estratégicas para a
economia e o comércio exterior.
Nesse sentido, a ideia que
atravessa a recente declaração do Secretário de Estado estadunidense pode ser
traduzida em dois aspectos importantes. Primeiro, os ataques cibernéticos.
A partir de invasões a sistemas governamentais, infraestruturas
críticas e, principalmente, bancos de dados civis e
militares/institucionais, tornam o ciberespaço um campo de batalha
invisível. Isso significa que agentes espiões utilizam tecnologias para sequestro
de dados, com capacidade de comprometer, por exemplo, redes de energia,
sistemas financeiros e operações governamentais.
Segundo, a apropriação ilegal
de dados. Há, portanto, um roubo de informações pessoais, industriais,
institucionais e militares, que passa a ser usada como instrumento de
espionagem e disputa geopolítica. De modo que ao contrário de focar no
código do sistema, as técnicas utilizadas manipulam o fator humano através de
emoções como medo, coerção, urgência, curiosidade ou corrupção.
É dessa maneira que esses agentes
de espionagem e grupos de ameaça persistentes avançados (APTs) utilizam
malwares sofisticados, como ransomware e limpadores, para sequestrar ou
destruir dados em infraestruturas críticas. No sistema financeiro, por
exemplo, o foco costuma ser a interrupção de transações e o roubo de dados
sensíveis para desestabilizar a confiança econômica ou financiar operações
estatais.
Além disso, é preciso compreender
que em uma guerra híbrida as condições táticas favorecem a apropriação de
recursos econômicos pelas potências imperialistas ao desestabilizar a soberania
financeira de um país através de meios não convencionais que instrumentalizam o
sistema baseado no dólar.
Isso quer dizer que o uso do
dólar como arma permite que potências apliquem avaliações econômicas e
políticas financeiras que levam ao colapso de moedas locais, com inevitável fuga
de capitais para moedas fortes, como é o caso do dólar, drenando as reservas do
país alvo. Tudo isso, então, facilita a entrega de ativos nacionais a
conglomerados estrangeiros.
Já no caso das operações
governamentais, o sequestro de dados é usado tanto para chantagem política
quanto para paralisar serviços públicos essenciais, impedindo a resposta a
crises e a comunicação oficial. Esse tipo de ação gera paralisia de serviços
essenciais, coloca os sistemas de emergência e comunicação fora do ar, impõe a
desinformação em massa, e, por fim, atua na chantagem política e na extorsão. Sim,
o roubo de dados governamentais sensíveis é usado para chantagear líderes ou
expor informações sigilosas, gerando caos interno.
Portanto, o que se pode extrair do
quadro atual é que para confrontar a China, os EUA resolveram abrir uma guerra
híbrida contra o Brasil. Tendo em vista que a América Latina se tornou uma
região estratégica para os chineses garantirem commodities adequadas,
expandirem infraestrutura e buscarem novos mercados.
Por essa razão, os EUA entendem
que essa aproximação prejudica diretamente os seus interesses hegemônicos e imperialistas,
gerando uma pressão diplomática e comercial para que os países do Sul Global se
alinhem aos seus interesses.
O que está em jogo para o Brasil,
nesse momento, em relação à declaração dos EUA de que o PCC e o CV são facções
narcoterroristas, é a soberania brasileira em seus mais importantes aspectos.
Primeiro, em relação ao seu poder
de criar leis, manter a ordem, cobrar impostos e fazer cumprir as decisões
judiciais dentro de suas próprias fronteiras; bem como, o monopólio do uso
legítimo da força para garantir o equilíbrio da convivência e da coexistência social.
Segundo, o direito de autodeterminação para discutir tratados, definir alianças
e não sofrer intervenções de potências estrangeiras.
Mas, não para por aí. No cenário
globalizado, o conceito se expande e engloba também a soberania econômica, que
é a capacidade de ditar a própria política fiscal, monetária e comercial,
emitir moeda própria e proteger a economia nacional contra choques externos e
domínio estrangeiro.
A soberania alimentar, que trata da
autonomia para produzir e decidir sobre os alimentos que abastecem a população.
A soberania energética, ou seja, a capacidade de gerar, controlar e gerenciar a
própria matriz e infraestrutura de energia.
E a soberania tecnológica e
cibernética, que envolve o poder de controlar dados nacionais, infraestruturas
críticas de comunicação, tais como redes de dados e inteligência artificial, e
diminuir a dependência de tecnologias estrangeiras.
Daí a necessidade de reflexão
sobre as intenções de quem usa quem, nessa história. Afinal, a fragilidade da
democracia e a erosão da soberania têm se mostrado características
contemporâneas interligadas; pois, enquanto a democracia sofre com a
desinformação e o descrédito institucional, a soberania dos Estados-Nação tem
sido desafiada pelo neoimperialismo estadunidense, pela interdependência
econômica e pelo poder das redes digitais.
1 Enquanto os grupos terroristas são organizações que utilizam violência, medo e atos para alcançar objetivos políticos, religiosos extremos ou ideológicos, as facções criminosas comuns têm como motivação a busca pelo lucro financeiro. Assim, para os terroristas a violência não é um meio para um fim comercial, mas sim uma ferramenta para promover dogmas religiosos, causas separatistas, extremismo político ou ódio a determinados grupos. Como exemplos internacionais de facções terroristas tem-se o Hamas, a Al-Qaeda e o Estado Islâmico (ISIS).


