Dizia Horácio,
filósofo da Roma antiga, “Quando a casa do vizinho está pegando fogo, a minha
casa está em perigo”.
Por
Alessandra Leles Rocha
Por sorte, sem registro de
feridos ou vítimas fatais, um incêndio de grandes proporções destruiu o antigo
prédio da Diretoria de Inovação e Empreendedorismo (Dine) da Universidade
Federal de Pernambuco (UFPE), localizado na Cidade Universitária, na Zona Oeste
do Recife, na noite de ontem. O fogo gerou um prejuízo estimado em R$ 100
milhões e causou a perda irreparável de cerca de 20 anos de pesquisas
científicas acumuladas. Então, é preciso refletir...
O domínio e o uso do fogo
aconteceram durante a Idade da Pedra, há cerca de 2,5 a 3,3 milhões de anos,
quando como o Homo erectus aprendeu a criar chamas através do atrito de
pedaços secos de madeira ou do choque entre pedras. Desde, então, o fogo tem
sido um dos motores mais potentes da evolução, da cultura e do avanço
tecnológico da humanidade, transformando profundamente a nossa relação com o
meio ambiente e moldando o mundo contemporâneo.
Acontece que ele expressa a dualidade
entre a criação e a destruição. Razão pela qual o mesmo elemento que iluminou a
pré-história e permitiu o desenvolvimento cognitivo e social também atuou como
um agente devastador de nossa própria memória. Ao longo dos séculos, grandes
incêndios apagaram registros insubstituíveis, redesenhando o mapa do
conhecimento e da cultura global.
Começando pela destruição da Biblioteca
de Alexandria, no Egito. Talvez a perda cultural mais citada da história.
Alexandria abrigava o maior centro de saber da Antiguidade, com centenas de
milhares de rolos de papiro contendo obras de filosofia, matemática, astronomia
e literatura.
Na verdade, sua destruição se deu
por etapas, envolvendo o famoso incêndio acidental causado por Júlio César em
48 a.C. e ataques posteriores, até que o desaparecimento de seu acervo criou
lacunas científicas e históricas que a humanidade levou séculos para tentar
preencher.
Depois, o grande incêndio de Roma,
em 64 d.C., durante o reinado do imperador Nero, quando o fogo consumiu 10 das
14 regiões da capital do Império Romano. Além da crise humanitária e política,
as chamas destruíram templos antigos, palácios e incontáveis documentos
oficiais, obras de arte gregas e registros históricos dos primeiros séculos de
Roma, forçando uma reconstrução total da identidade urbana e arquitetônica da
cidade.
Já no século XX, ocorreu a queima
da Biblioteca de Lovaina, na Bélgica, em 1914 e 1940. Durante a Primeira Guerra
Mundial, o exército alemão incendiou deliberadamente a biblioteca da
Universidade de Lovaina, destruindo cerca de 300 mil livros e manuscritos
medievais raros. Na Segunda Guerra Mundial, o local foi bombardeado e queimado
novamente.
O episódio chocou o mundo e
transformou-se no símbolo máximo do memoricídio moderno, ou seja, a
destruição intencional do patrimônio cultural de um povo para apagar sua
identidade.
Em 1992, o incêndio da Biblioteca
Nacional de Sarajevo, durante a guerra da Bósnia. Nesse episódio, a biblioteca foi
deliberadamente bombardeada por forças sérvias. Mais de 1,5 milhão de volumes,
incluindo 155 mil obras raras e manuscritos islâmicos e cristãos medievais,
viraram cinzas.
Cidadãos e bibliotecários
arriscaram suas vidas sob fogo de atiradores de elite para tentar salvar os
livros. A perda representou uma tentativa violenta de apagar a história da
coexistência multiétnica da região.
Em 2018, no Brasil, o incêndio do
Museu Nacional do Rio de Janeiro, consumiu cerca de 90% de um acervo de 20
milhões de itens. Foram perdidos registros linguísticos e gravações de línguas
indígenas já extintas, coleções egípcias e greco-romanas, além de fósseis
únicos, como o crânio de Luzia, o mais antigo das Américas, posteriormente
recuperado em partes.
Foi uma das maiores catástrofes
arqueológicas e antropológicas contemporâneas. A fachada do palácio e o telhado
foram totalmente recuperados e entregues como parte das celebrações do
bicentenário da Independência do Brasil, em 2022.
Em dezembro de 2024, a
instituição ganhou ainda mais relevância jurídica e cultural ao ser declarada
Patrimônio Cultural Imaterial do estado do Rio de Janeiro. Mas, a reconstrução
dos laboratórios de pesquisa e de toda a infraestrutura interna do prédio ainda
continua acontecendo.
Contudo, as perdas em si trazidas
pelo fogo não contam tudo, não estimulam por inteiro as reflexões que precisam
se dar diante desses episódios terríveis. Os incêndios provocados por disputas
geopolíticas e ideológicas moldaram a historicidade humana através do "bibliocídio",
que significa a destruição deliberada ou colateral de acervos culturais para
apagar a memória de povos conquistados e consolidar o poder de novos impérios.
Enquanto o fogo na base da
civilização representou a criação e a sociabilidade, na guerra ele foi refinado
como arma de aniquilação sociocultural. Mas, não é só isso. Incêndios em
espaços de desenvolvimento científico e tecnológico, que sustentam pesquisas de
elevado padrão intelectual, podem significar ameaças ao protagonismo de certas
nações, de modo que precisam ser interrompidas, a partir de protocolos
neoimperialistas.
Afinal de contas, quando um país
perde seus laboratórios de ponta, bancos de dados genéticos, acervos históricos
ou protótipos tecnológicos por conta de sinistros, sejam eles acidentais ou
fruto de sabotagem, o impacto vai muito além do prejuízo financeiro. Há uma
interrupção abrupta do ritmo de inovação, o que pode atrasar uma nação em
décadas e consolidar a dependência tecnológica em relação às potências globais.
Nesse sentido, a destruição de
infraestruturas de pesquisa locais desestimula a permanência de cientistas de
alto nível em seus países de origem, empurrando-os para centros de pesquisa
estrangeiros mais seguros e financiados. O que potencializa a perda de
soberania científica, impedindo que países em desenvolvimento criem soluções
próprias para suas demandas, tais como vacinas, transição energética ou defesa,
obrigando-os a importar pacotes tecnológicos fechados.
Além disso, é fundamental pensar
que, no cenário contemporâneo, a segurança de um ecossistema científico não se
limita a brigadas de incêndio tradicionais, mas exige blindagem contra ataques
híbridos físicos e digitais que visam paralisar o avanço de concorrentes
geopolíticos.
Dessa forma, a proteção física e
digital de espaços de alta tecnologia não é apenas uma questão de
infraestrutura ou de zeladoria patrimonial; é uma estratégia essencial de
segurança nacional e de garantia da soberania intelectual frente às pressões
externas.
Aliás, a Tragédia de Alcântara, o
maior desastre do Programa Espacial Brasileiro, ocorrido em 2003 no Centro
Espacial de Alcântara, no Maranhão, durante os preparativos finais da Operação
São Luís que colocaria dois satélites brasileiros em órbita, eliminou, de uma
só vez, cerca de um quinto de toda a equipe científica espacial do Brasil,
paralisando o projeto do VLS por anos.
Se o programa brasileiro
prosperasse, o país se tornaria um concorrente direto de grandes potências,
especialmente do Centro Espacial de Kourou, na Guiana Francesa. Diante disso,
teorias populares frequentemente apontam o envolvimento de agências estrangeiras,
tais como a CIA estadunidense ou o serviço secreto francês, em uma suposta
sabotagem por pulsos eletromagnéticos ou interferência eletrônica, apesar de o
relatório oficial da Aeronáutica ter mantido o caso oficialmente encerrado como
uma falha técnica trágica e acidental.
De qualquer forma, o fogo e os
interesses geopolíticos desfrutam de uma relação importante, profunda,
histórica e extremamente atual. O fogo deixou de ser apenas um fenômeno natural
ou um desastre ambiental para se tornar uma ferramenta de poder,
desestabilização econômica e disputa territorial no cenário global.
Haja vista as mudanças climáticas
e a geopolítica do Ártico, em que o aumento das queimadas e dos incêndios
florestais em regiões como a Sibéria (Rússia), Alasca (EUA) e norte do Canadá
acelera o derretimento do solo congelado.
Assim, o recuo do gelo e o
controle do fogo nessas regiões abrem novas rotas comerciais marítimas, como a
Rota do Mar do Norte, e dão acesso a reservas gigantescas de petróleo, gás
natural e minérios até então inacessíveis. Por isso, diferentes países disputam
diretamente a hegemonia e a militarização dessa nova fronteira.
Do mesmo modo acontece na América
do Sul, onde o fogo é historicamente utilizado como técnica de manejo da terra,
mas frequentemente associado ao desmatamento ilegal para a expansão da
agropecuária e da mineração.
Ou em conflitos recentes no Leste
Europeu ou no Oriente Médio, em que o uso de incêndios provocados em campos de
trigo e infraestruturas de energia visa desestabilizar a segurança alimentar e
econômica de nações inteiras, forçando migrações em massa e alterando o
equilíbrio de forças na região.
Portanto, o fogo não é só o fogo.
Ele é o combustível da guerra, do conflito, da dominação, da exploração, da
aculturação. Da pólvora às armas termobáricas, o domínio do fogo ditou quem
venceria batalhas e quem seria subjugado, a partir da destruição das terras,
vilas e plantações do inimigo, essa foi sempre foi uma tática cruel de submissão.
Fato que evoluiu para a
ferramenta de dominação e exploração, em que o fogo industrial passou a alimentar
as máquinas das potências coloniais. Pela queima do carvão e do petróleo, o
fogo não apenas transformou a economia global, mas também estabeleceu uma
hierarquia de poder baseada em quem controlava os recursos energéticos, muitas
vezes à custa da exploração de povos e territórios vulneráveis.
E assim, o fogo alcança também o patamar da queima do imaterial. Ao longo da história, bibliotecas inteiras, templos, registros sagrados e línguas escritas de povos colonizados foram transformados em cinzas para apagar sua memória e impor uma nova cultura dominante. Portanto, quem controla o fogo, na maioria das vezes, tenta controlar a narrativa da história.


