domingo, 19 de julho de 2026

A ilusão de objetividade na era dos dados


A ilusão de objetividade na era dos dados

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

A consciência sobre a realidade da vida é sim, para muitos, desafiadora. Por quê? Porque ela, de certa forma, obriga a uma ação, a um posicionamento, a uma atitude, sob pena de resignar-se à indiferença, à omissão, à negligencia, que cobra um ônus ético e moral pesado.

Afinal, quando o indivíduo adquire esse nível de consciência, a ignorância deixa de ser uma desculpa. Daí a exigência de um posicionamento ativo. Pois, diante de uma injustiça ou um problema, o silêncio deixa de ser neutro e passa a ser uma escolha.

Acontece que a negligência cobra um preço alto da integridade humana, na medida em que o maior juiz passa a ser você mesmo, sabendo que traiu seus próprios valores ao escolher a indiferença, o silêncio.

Mas, o estopim dessa reflexão é necessidade de discutir a relação dessa consciência com a ideia de dados subestimados. Bem, isso significa a quantidade ou a proporção de um fenômeno que foi calculada ou registrada de forma incompleta, fazendo com que o número final pareça menor do que deveria.

O termo é muito usado em áreas como saúde, demografia, economia e meio ambiente para descrever situações onde há subnotificação, quando os dados reportados nos canais oficiais não refletem o número total de ocorrências que realmente existem, gerando estatísticas distorcidas, ou falhas na coleta de informações.

E diante da existência de dados subestimados acaba-se por legitimar e constituir uma percepção distorcida e equivocada do mundo, como se certas situações não existissem, impedindo que as medidas cabíveis fossem tomadas. E são muitos os exemplos a respeito.

Quando as vítimas deixam de registrar boletins de ocorrência, isso faz com que certas regiões pareçam estatisticamente seguras, mascarando a criminalidade real. Sem o registro, o Estado perde a oportunidade de iniciar investigações, identificar crimes e prevenir novos delitos, o que encoraja os infratores.

Quando falta a testagem em massa, em contextos de endemias, epidemias ou pandemias, o números oficiais ficam muito abaixo da realidade, gerando uma falsa impressão de que a doença está controlada, levando ao relaxamento precoce de medidas preventivas.

Quando o medo de retaliação, a vergonha ou a dependência financeira fazem com que muitos casos não sejam denunciados, as autoridades podem subestimar a gravidade da violência do gênero, a violência doméstica e o assédio, em uma comunidade com base nesses dados.

Quando o impacto de atividades humanas e os riscos climáticos são frequentemente calculados abaixo da realidade, isso pode comprometer o combate às mudanças climáticas. Essa discrepância entre a realidade técnica e os dados divulgados reflete-se na sociedade; sobretudo, dificultando o engajamento da população na adoção de práticas sustentáveis cotidianas.

Como se vê, há uma relação direta entre a construção de um mundo melhor, mais justo e solidário e o enfretamento aos dados subestimados, pois a invisibilidade estatística é uma das maiores barreiras para a efetivação de direitos e políticas públicas.

Dados que não refletem a realidade, permitem que diversas populações seja submetidas aos efeitos das desigualdades e problemas estruturais permaneçam sem solução. As principais consequências desse problema incluem, portanto, a invisibilidade pública com populações marginalizadas que deixam de existir nos planos governamentais se não forem contabilizadas corretamente; os erros de orçamento, considerando que as verbas são distribuídas com base em estimativas defasadas, deixando áreas necessárias sem recursos mínimos; o mascaramento do racismo  a partir da falta de recortes étnico-raciais detalhados em dados de segurança pública e emprego, os quais impedem a criação de políticas afirmativas eficientes; e, a perpetuação de ciclos, na medida em que os problemas estruturais tornam-se invisíveis no papel, fazendo com que pareçam inexistentes ou menos urgentes.

Para romper com essas barreiras, não somente os censos e pesquisas nacionais precisam evoluir constantemente; mas, o próprio senso crítico da sociedade, diante da ilusão estatística, em que se aceitam médias e grandes números como verdades absolutas, ignorando as suas nuances.

É fundamental questionar a metodologia por trás do número. Afinal, populações vulneráveis, trabalhadores informais e comunidades periféricas mudam mais rapidamente do que os manuais de coleta, razão pela qual é preciso incluir recortes de raça, gênero, identidade e território de forma cada vez mais refinada para evitar apagamentos históricos. Bem como, adotar geoprocessamento e índices de dados em tempo real para reduzir as margens de erro.

Além disso, é preciso construir um letramento de dados, no qual os cidadãos, os jornalistas e os tomadores de decisão tenham que aprender a ler o que está implícito ou ausente nos gráficos. Exercendo um questionamento de neutralidade em que se entenda que a escolha do que se pergunta, e do que se deixa de perguntar, em um censo já é uma decisão política e social. Daí a necessidade de dar voz local, de validar a experiência vivida pelas comunidades, que muitas vezes contraria a normalidade linear apresentada pelos números oficiais.

A sociedade contemporânea precisa compreender, de uma vez por todas, que os dados servem para iluminar os problemas, mas dados mal desenhados ou mal interpretados funcionam como uma cortina de fumaça que perpetua desigualdades, desrespeitos, omissões e violências.

Porque esses são tempos em que dados históricos usados ​​para treinar uma inteligência artificial acabam por refletir uma sociedade desigual, com racismo, machismo ou elitismo estrutural, de modo que a máquina apenas aprenderá a replicar e a escalar essas discriminações. Nesse sentido, números dão um ar de legitimidade às decisões, de modo que essas se tornam mais difíceis de contestar porque a matemática provou que é assim.

E a consequência direta desse processo é a exclusão de minorias; pois, quando grandes conjuntos de dados não representam de forma justa as populações marginalizadas, essas pessoas simplesmente desaparecem das políticas públicas, da cidadania do país. Haja vista que a quantificação da complexidade humana em métricas simplificadas, que ignoram as nuances, as histórias de vida e as vulnerabilidades, permite que as omissões e as violências sejam justificadas como meros danos colaterais.

Portanto, não se esqueça de que os dados não nascem prontos na natureza. Eles são coletados, categorizados e interpretados por seres humanos e sistemas que carregam visões de mundo. Quando um indicador é mal desenhado, mal interpretado, ele mascara a realidade e serve como desculpa e instrumento para a omissão ou para a manutenção de regalias e privilégios de alguém e/ou de certos interesses.

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Sempre é tempo de lutar contra as tiranias


Sempre é tempo de lutar contra as tiranias

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

14 de julho de 1789, eis a maior das marcas históricas, a Tomada da Bastilha, evento que deflagrou a Revolução Francesa. A prova de que a tirania monárquica podia ser desafiada. Se enganam os que pensam que essa história só diz respeito aos franceses. Não. Ela é importante para todos os seres humanos, desde então.

Por quê? Porque a tirania se manifesta de várias formas ao longo da história. Tiranos em todo o mundo ascendem prometendo segurança e ordem durante períodos de guerra, instabilidade econômica ou colapso social.

Aí, monopolizam a verdade, a partir da supressão de opiniões divergentes e por meio do controle da propaganda buscam ditar como a população deve pensar e agir.

Até que essa estrutura alcance o seu limite na expressão da desigualdade e da exclusão, tendo em vista de que esses regimes opressivos frequentemente se aproveitam de vulnerabilidades socioeconômicas para manter o poder e o controle nas mãos de poucos.

Então, apesar da Revolução Francesa ter cumprido um papel vital para a humanidade, era também impossível que ela, sozinha, conseguisse exterminar a tirania da face da Terra. Pois se trata de uma manifestação de poder que aparece desde os primórdios da civilização humana.

Sim, quando o indivíduo percebeu que poderia exercer o seu poder de forma ilegítima ou abusiva, frequentemente, se valendo da força e da supressão das liberdades individuais.

Nesse sentido, então, se torna possível compreender que a luta contra a tirania exige vigilância contínua, pois ela não se limita a isso ou aquilo, na medida em que ela permeia as relações sociais, locais e institucionais.

Portanto, essa resistência diária envolve questionar os abusos de autoridade, defender os direitos humanos e promover a participação cidadã, em relação aos mais diversos assuntos, em todas as esferas de poder.

Aí, se pensarmos que, lá no século XVIII, a Revolução Francesa promove uma luta contra a tirania monárquica em favor da sobrevivência das camadas mais frágeis e vulneráveis da população, eis que o século XXI, nos confronta com a necessidade de uma outra luta antitirânica diante do risco de colapso da espécie humana no planeta, decorrente não só do negacionismo científico; mas, da mesma ganância que sempre moveu a humanidade.

Portanto, precisamos falar sobre o Antropoceno, um conceito científico, proposto em 2000 pelo químico Paul Crutzen e pelo biólogo Eugene Stoermer, que descreve uma nova época geológica não oficial na qual as atividades humanas passaram a ser a principal força de alteração do clima e dos ecossistemas terrestres.

De modo que nesse cenário, a centralização, o domínio sobre a natureza e a lógica de apropriação dos recursos, iniciada com a Revolução Francesa, evoluiu para o modelo de produção capitalista predatório, no qual a tirania do capital e o produtivismo extremo vem explorando o planeta de forma insustentável e ameaçando a sobrevivência da humanidade; sobretudo, das parcelas mais frágeis e vulneráveis.

Basta olhar para a Islândia, para ver como o derretimento das geleiras e o impacto econômico e cultural já sinalizam como deve se processar o colapso socioambiental no planeta. O país já abriga o primeiro memorial global de geleiras extintas, atuando como um alerta sobre o futuro do clima na Terra. Razão pela qual o país é considerado um laboratório vivo das mudanças climáticas.

Portanto, a luta contra a tirania socioambiental, no século XXI, marcada pela exploração predatória e pela imposição de projetos que ignoram os limites ecológicos e a justiça social exige uma combinação de desobediência civil não violenta, de insurgências decoloniais, de ações diretas e de resistência comunitária e territorial; posto que o propósito dessas rebeldias é subverter as lógicas de poder hegemônico.

Isso significa, então, se posicionar a partir de ações que confrontem deliberadamente as normas administrativas para forçar governos e corporações a responderem à emergência planetária.

A apoiar os movimentos liderados por povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais que desafiam o modelo econômico de produtivismo extremo, recusando a mercantilização da natureza e reafirmando a cosmovisão de que o ambiente é um sujeito vivo e base de existência, e não mero recurso.

E a usar o sistema judicial para subverter a tirania corporativa e governamental, exigindo responsabilização por desastres decorrentes do Antropoceno.

Mas, também, na perspectiva individual, ao construir alternativas cotidianas de produção, tais como a agroecologia e a autogestão de recursos hídricos e florestais, cujas ações se contrapõem à apropriação privada de bens comuns.

Porque essa desobediência intelectual e cultural, que questiona a narrativa oficial de desenvolvimento a qualquer custo, valoriza o conhecimento tradicional e promove uma educação ambiental crítica, tão fundamentais no combate ao esgotamento ecológico e a crise civilizatória contemporânea.

Como se vê, não há como negar que há uma intersecção entre a desigualdade, o racismo ambiental e a crise climática para que haja a formulação dessas resistências. Desse modo, a história nos diz que o denominador comum entre a Revolução Francesa e a luta socioambiental contemporânea é a emancipação humana contra as tiranias que monopolizam a vida.

Em ambos os casos o que se tem é o enfrentamento às estruturas de poder que concentram recursos vitais, exigindo a democratização do acesso aos meios de sobrevivência. A crítica social e ambiental reconhece que a liberdade sem igualdade e sem fraternidade leva à exclusão e ao extermínio da própria espécie. 

segunda-feira, 6 de julho de 2026

A bola fora


A bola fora

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Surpresa zero. Afinal, depois de ter perdido de 7x1 para a Alemanha, o que de fato aconteceu ao futebol brasileiro? Nada. Construímos uma carapaça de lamentações e choramingos; mas, não sacodimos a poeira e demos a volta por cima.

Não entendemos que aquele foi o cisma, a ruptura decisiva com o futebol romântico, e se quiséssemos manter as coisas no seu devido lugar seria necessária uma dose generosa de análise crítica e de reflexão.

O pior adversário é aquele que habita em você. Portanto, o pior adversário da seleção brasileira é ela mesma. Sobretudo, quando se ilude em viver de suas glórias antigas, como se o trabalho fosse feito apenas de lembranças e memórias.

Cada conquista carregou em si mesma os seus desafios, as suas conjunturas, as suas superações. Eram outros personagens, outros recortes de tempo, outros desejos e ambições. De modo que aquelas seleções cumpriram o seu próprio legado e ponto final.

Assim, quem chega tem o dever de construir o seu próprio caminho, a sua própria história, a partir do momento atual. A gestão de uma marca é um processo contínuo, o qual precisa ser reafirmado diariamente para não ser ultrapassado e superado por outras.

Talvez, por isso, carregar o peso da amarelinha seja o maior de todos. Porque se trata de uma marca que já conquistou 5 títulos mundiais, alguns deles sob o forte impacto do encantamento coletivo. E isso, inevitavelmente, gera não só uma cobrança histórica por vitórias, como uma expectativa de continuidade dessa mística.

Entendo e reafirmo que a vida não é uma receita de bolo; mas, alguns parâmetros e valores são fundamentais. A seleção brasileira para se tornar um nome de impacto entendeu desde o princípio que futebol era esporte coletivo, por mais talentos e estrelas que viessem a vestir a sua camisa.

Bastava olhar para os gramados brasileiros para entender que a escolha dos representantes canarinhos era uma tarefa difícil. Tanto que muita gente boa ficou de fora de Copas do Mundo pela simples impossibilidade numérica de convocação. Mas, as equipes nunca foram resumidas a esse ou aquele jogador.

A Seleção Brasileira na final da Copa do Mundo de 1958, por exemplo, contava com Gilmar, Djalma Santos, Bellini, Orlando, Nilton Santos, Zito, Didi, Garrincha, Vavá, Pelé e Zagallo.

Em 1962, foram Gilmar, Djalma Santos, Mauro, Zózimo, Nilton Santos, Zito, Didi, Garrincha, Amarildo, Vavá e Zagallo, na partida final. Valendo destacar que o Amarildo assumiu a titularidade após a lesão de Pelé ainda na fase de grupos. E vejam só, fomos bicampeões mundiais!

Em 1970, a lendária Seleção Brasileira tricampeã mundial teve no conjunto dos 22 convocados, a seguinte estrutura. Os goleiros eram Félix (titular), Ado e Leão. Na defesa, Carlos Alberto (capitão), Brito, Piazza e Everaldo, como titulares, e Baldochi, Fontana, Joel Camargo, Marco Antônio e Zé Maria, na reserva. Como meiocampistas, Clodoaldo e Gérson eram os titulares, e Paulo César Caju era o reserva. E no ataque, Jairzinho, Tostão, Pelé e Rivellino eram os titulares, e Dadá Maravilha, Edu e Roberto Miranda eram os reservas.

Na final da Copa do Mundo de 1994, a escalação era Taffarel, Jorginho/Cafu, Aldair, Márcio Santos, Branco, Mauro Silva, Dunga, Mazinho, Zinho, Bebeto e Romário. E no último título mundial, em 2002, o time que entrou em campo na final foi Marcos, Lúcio, Roque Júnior, Edmílson, Cafu (capitão), Roberto Carlos, Gilberto Silva, Kléberson, Ronaldinho Gaúcho, Rivaldo e Ronaldo Fenômeno.

Veja, essas escalações servem para provar que todos eram estrelas de primeira grandeza, que faziam diferença para se alcançar o objetivo final. Nenhum deles era mais ou menos importante. O time não funcionava por causa desse ou daquele jogador. Todos tinham que estar aptos, capazes de oferecer o seu melhor, para que fosse possível ostentar a identidade do seu país em campo.

Mas, o passado é o passado. Já foi. Já era. O Brasil, um dia potência futebolística do século XX e início do século XXI, não é mais o mesmo. Por isso, não dá para se ancorar nele e esperar acontecimentos surpreendentes agora.

A partir de 2006, a seleção brasileira entrou em um declínio visível, como se a sua identidade nacional tivesse sofrido uma fratura existencial. O time não demonstrava mais a sua genialidade, a sua potencialidade vitoriosa, a sua alma guerreira e combativa.

Apesar das estrelas presentes, o fracasso desse tempo deu início a um longo período de dúvidas. O ponto nevrálgico dessa deterioração parecia ser a dificuldade de adaptação tática ao futebol europeu moderno, que acabava por criar uma sensação de distanciamento entre a Seleção, o Brasil e o torcedor.

A partir dessa perspectiva, a trajetória da Seleção nas Copas do Mundo seguintes foi marcada por eliminações em fases decisivas e debates profundos sobre a perda da essência do futebol brasileiro, da desconexão com a sua identidade nacional; sobretudo, em consequência da formação de atletas focada em exportações prematuras, as quais alteraram a forma como o Brasil desempenha o seu jogo em campo.

Portanto, 2026 foi apenas mais uma bola fora. Um constrangimento desnecessário; posto que, as devidas análises e reflexões sobre os (des)caminhos da seleção nunca estiveram em pauta, para que ocorresse alguma efetiva transformação.

Dizia Nelson Rodrigues, dramaturgo, escritor e jornalista brasileiro, “O escrete é a pátria em calções e chuteiras. Ele representa os nossos defeitos e as nossas virtudes”. Pura verdade! O futebol não ocorre em um vácuo, ela absorve as características do solo onde é gestado; por isso, se às vezes ele traduz genialidade, ginga, criatividade e resiliência, da mesma forma pode, em outros momentos, refletir   a indisciplina, o individualismo, a irregularidade emocional e a propensão ao tanto fez como tanto faz.

Por essas e outras é que uma vitória ou uma derrota da equipe brasileira tende a mimetizar o sucesso ou o fracasso, na medida em que o campo se torna o teatro onde o povo vivencia suas maiores alegrias e suas mais profundas angústias.

Assim, “O futebol é a coisa mais importante entre as coisas menos importantes”, porque “Para nós [brasileiros], o futebol não se traduz em termos técnicos e táticos, mas puramente emocionais" (Nelson Rodrigues).

Daí a necessidade de refletirmos sobre essa sociedade que busca nos heróis do esporte uma compensação psicológica para suas mazelas sociais e políticas, deixando de enxergar e nomear o que significa a própria realidade do futebol e além dele.