A ilusão
de objetividade na era dos dados
Por Alessandra
Leles Rocha
A consciência sobre a realidade
da vida é sim, para muitos, desafiadora. Por quê? Porque ela, de certa forma,
obriga a uma ação, a um posicionamento, a uma atitude, sob pena de resignar-se
à indiferença, à omissão, à negligencia, que cobra um ônus ético e moral
pesado.
Afinal, quando o indivíduo adquire
esse nível de consciência, a ignorância deixa de ser uma desculpa. Daí a exigência
de um posicionamento ativo. Pois, diante de uma injustiça ou um problema, o
silêncio deixa de ser neutro e passa a ser uma escolha.
Acontece que a negligência cobra
um preço alto da integridade humana, na medida em que o maior juiz passa a ser
você mesmo, sabendo que traiu seus próprios valores ao escolher a indiferença,
o silêncio.
Mas, o estopim dessa reflexão é necessidade
de discutir a relação dessa consciência com a ideia de dados subestimados. Bem,
isso significa a quantidade ou a proporção de um fenômeno que foi calculada ou
registrada de forma incompleta, fazendo com que o número final pareça menor do
que deveria.
O termo é muito usado em áreas
como saúde, demografia, economia e meio ambiente para descrever situações onde
há subnotificação, quando os dados reportados nos canais oficiais não refletem
o número total de ocorrências que realmente existem, gerando estatísticas
distorcidas, ou falhas na coleta de informações.
E diante da existência de dados subestimados
acaba-se por legitimar e constituir uma percepção distorcida e equivocada do mundo,
como se certas situações não existissem, impedindo que as medidas cabíveis fossem
tomadas. E são muitos os exemplos a respeito.
Quando as vítimas deixam de
registrar boletins de ocorrência, isso faz com que certas regiões pareçam
estatisticamente seguras, mascarando a criminalidade real. Sem o registro, o
Estado perde a oportunidade de iniciar investigações, identificar crimes e
prevenir novos delitos, o que encoraja os infratores.
Quando falta a testagem em massa,
em contextos de endemias, epidemias ou pandemias, o números oficiais ficam
muito abaixo da realidade, gerando uma falsa impressão de que a doença está
controlada, levando ao relaxamento precoce de medidas preventivas.
Quando o medo de retaliação, a
vergonha ou a dependência financeira fazem com que muitos casos não sejam
denunciados, as autoridades podem subestimar a gravidade da violência do gênero,
a violência doméstica e o assédio, em uma comunidade com base nesses dados.
Quando o impacto de atividades
humanas e os riscos climáticos são frequentemente calculados abaixo da
realidade, isso pode comprometer o combate às mudanças climáticas. Essa
discrepância entre a realidade técnica e os dados divulgados reflete-se na
sociedade; sobretudo, dificultando o engajamento da população na adoção de
práticas sustentáveis cotidianas.
Como se vê, há uma relação direta
entre a construção de um mundo melhor, mais justo e solidário e o enfretamento
aos dados subestimados, pois a invisibilidade estatística é uma das maiores
barreiras para a efetivação de direitos e políticas públicas.
Dados que não refletem a
realidade, permitem que diversas populações seja submetidas aos efeitos das
desigualdades e problemas estruturais permaneçam sem solução. As principais consequências desse problema
incluem, portanto, a invisibilidade pública com populações marginalizadas que
deixam de existir nos planos governamentais se não forem contabilizadas corretamente;
os erros de orçamento, considerando que as verbas são distribuídas com base em
estimativas defasadas, deixando áreas necessárias sem recursos mínimos; o mascaramento
do racismo a partir da falta de recortes
étnico-raciais detalhados em dados de segurança pública e emprego, os quais
impedem a criação de políticas afirmativas eficientes; e, a perpetuação de
ciclos, na medida em que os problemas estruturais tornam-se invisíveis no
papel, fazendo com que pareçam inexistentes ou menos urgentes.
Para romper com essas barreiras, não
somente os censos e pesquisas nacionais precisam evoluir constantemente; mas, o
próprio senso crítico da sociedade, diante da ilusão estatística, em que se aceitam
médias e grandes números como verdades absolutas, ignorando as suas nuances.
É fundamental questionar a
metodologia por trás do número. Afinal, populações vulneráveis, trabalhadores
informais e comunidades periféricas mudam mais rapidamente do que os manuais de
coleta, razão pela qual é preciso incluir recortes de raça, gênero, identidade
e território de forma cada vez mais refinada para evitar apagamentos
históricos. Bem como, adotar geoprocessamento e índices de dados em tempo real
para reduzir as margens de erro.
Além disso, é preciso construir
um letramento de dados, no qual os cidadãos, os jornalistas e os tomadores de
decisão tenham que aprender a ler o que está implícito ou ausente nos gráficos.
Exercendo um questionamento de neutralidade em que se entenda que a escolha do
que se pergunta, e do que se deixa de perguntar, em um censo já é uma decisão
política e social. Daí a necessidade de dar voz local, de validar a experiência
vivida pelas comunidades, que muitas vezes contraria a normalidade linear
apresentada pelos números oficiais.
A sociedade contemporânea precisa
compreender, de uma vez por todas, que os dados servem para iluminar os problemas,
mas dados mal desenhados ou mal interpretados funcionam como uma cortina de
fumaça que perpetua desigualdades, desrespeitos, omissões e violências.
Porque esses são tempos em que dados
históricos usados para treinar uma inteligência artificial acabam por refletir uma
sociedade desigual, com racismo, machismo ou elitismo estrutural, de modo que a
máquina apenas aprenderá a replicar e a escalar essas discriminações. Nesse sentido, números dão um ar de
legitimidade às decisões, de modo que essas se tornam mais difíceis de
contestar porque a matemática provou que é assim.
E a consequência direta desse
processo é a exclusão de minorias; pois, quando grandes conjuntos de dados não
representam de forma justa as populações marginalizadas, essas pessoas
simplesmente desaparecem das políticas públicas, da cidadania do país. Haja
vista que a quantificação da complexidade humana em métricas simplificadas, que
ignoram as nuances, as histórias de vida e as vulnerabilidades, permite que as omissões
e as violências sejam justificadas como meros danos colaterais.
Portanto, não se esqueça de que os dados não nascem prontos na natureza. Eles são coletados, categorizados e interpretados por seres humanos e sistemas que carregam visões de mundo. Quando um indicador é mal desenhado, mal interpretado, ele mascara a realidade e serve como desculpa e instrumento para a omissão ou para a manutenção de regalias e privilégios de alguém e/ou de certos interesses.


