domingo, 14 de junho de 2026
CASAS AZUIS
quarta-feira, 10 de junho de 2026
É preciso ver além do pão e circo ...
É preciso
ver além do pão e circo ...
Por
Alessandra Leles Rocha
Apesar de ser um elemento
conectivo entre os seres humanos, não raros os momentos, ao longo da história,
em que os esportes foram utilizados para a reafirmação de poder e de
instrumento de alienação social.
Certos governantes sempre utilizaram
grandes eventos e manifestações de aptidão física para unificar os cidadãos sob
uma bandeira, e dessa forma distraírem a massa em relação aos problemas
estruturais internos e legitimar ideologias de superioridade nacional ou racial.
Quem nunca ouviu a expressão "pão
e circo", tradução do latim “panem et circenses”?! Durante a
Roma Antiga, ela foi utilizada pela primeira vez, pelo imperador Otávio
Augusto, como política que garantia a distribuição de trigo e espetáculos nas
arenas romanas a fim de desviar o foco da população das crises políticas e da
pobreza.
Depois, com a queda de Roma e o
advento do sistema feudal, a dinâmica mudou. De modo que o controle social
passou a ser exercido fortemente pela religião e pela monarquia absolutista,
com festividades religiosas e execuções públicas servindo muitas vezes como
válvulas de escape e espetáculos de massa para a população mais frágil e vulnerável.
Lembra do filme Coração de
Cavaleiro 1 (A
Knight's Tale), de 2002, dirigido por Brian Helgeland? Trata-se de um ótimo
exemplo de como o esporte cativava as massas medievais, desviando o foco de
questões sociais e funcionando especificamente como um palco para ascensão
social e controle.
Então, a partir da
contemporaneidade, a lógica do "pão e circo" evoluiu para a indústria
cultural e a política de massas, em que governos democráticos e regimes
autoritários, ao redor do mundo, passaram a utilizar grandes eventos
esportivos, shows patrocinados e o controle da mídia, como formas de promover o
ufanismo, elevar a popularidade de seus líderes e desviar a atenção pública de
crises econômicas ou corrupção.
O caso mais emblemático ocorreu
nas Olimpíadas de Berlim, em 1936, quando Adolf Hitler tentou transformar o
evento em uma vitrine para promover a ideologia da suposta supremacia ariana. Fato
muito bem retratado pelo filme Raça 2 (Race), de 2016, dirigido por Stephen
Hopkins.
Inicialmente, houve um grande
movimento nos EUA para boicotar o evento, por conta das políticas de segregação
e discriminação do regime nazista. No entanto, o filme mostra como o Comitê
Olímpico Internacional (COI), na figura de um de seus membros, saiu pela
Alemanha, ignorando os sinais de perseguição e fazendo acordos para garantir
que os Estados Unidos competissem, argumentando que a política e o esporte não
deveriam se misturar.
Portanto, o que aconteceu na
Alemanha nazista, em 1936, representou a abertura de um importante precedente
para que as mais importantes instituições ligadas ao esporte mundial se permitissem
influenciar por interesses políticos, deixando os ideais desportivos em último
plano.
Em 1970, durante um dos momentos
mais tenebrosos da repressão militar no Brasil, o governo se apropriou da
conquista do tricampeonato mundial de futebol, a partir do ufanismo gerado em
torno da seleção. Assim, a conquista foi usada para promover a alienação
política, mascarar a censura e a tortura, e fomentar um falso sentimento de
grandeza e unidade nacional.
Aliás, o mesmo ocorreu na
Argentina, em 1978. Quando a conquista da Copa do Mundo serviu para tentar
encobrir todos os atentados aos direitos humanos, ou seja, os desaparecimentos,
os sequestros e os assassinatos, que ocorreram no país durante aquele período.
Portanto, esse é o grande ponto
de reflexão para o momento atual da contemporaneidade. O uso do esporte para
legitimar regimes antidemocráticos e/ou desviar a atenção internacional sobre
questões fundamentais, tais como os direitos humanos, as guerras e as crises
socioeconômicas, conhecido como sportwashing, não pode ser invisibilizado
sob a fachada de exaltação nacional e de festividade global.
Afinal, é exatamente isso que
está acontecendo às vésperas da Copa do Mundo de 2026, a ser realizada nos EUA,
México e Canadá. A imprensa já dá conta de que tem ocorrido intensos protestos
e alertas devido à ausência de transparência e riscos aos direitos humanos.
Diversas denúncias relatam desde
ações de segurança hostis contra delegações e jornalistas até alertas gerais
emitidos por organizações da sociedade civil; sobretudo, em território
estadunidense.
Os principais casos falam do
extremo controle migratório e perfilamento étnico nos EUA, apontando abusos nas
fronteiras e fiscalização abusiva contra visitantes e participantes dos jogos. Também,
casos de revistas vexatórias, com uso de detectores de metal na pista do
aeroporto durante o desembarque de certas pessoas, vem repercutindo fortemente.
Grupos de defesa da diversidade e
torcedores de diversos países temem a insegurança para transitar e se
manifestar nos EUA e no México, citando legislações estaduais restritivas e o
histórico de violência contra pessoas transexuais.
No Canadá, ativistas falam sobre
o deslocamento forçado e a remoção de pessoas em situação de rua de abrigos de
inverno para dar lugar a espaços e comitivas requisitadas pela organização do
evento.
E nessa história toda, onde ficou
a beleza do esporte?! Grandes eventos esportivos deveriam se concentrar na
promoção da coesão social, da inclusão de minorias e do sentimento de
identidade coletiva global.
Afinal, a função principal do esporte
é disseminar valores como respeito, cooperação e paz, além de contribuir para
as transformações urbanas, o turismo e o desenvolvimento econômico; sobretudo, nas
cidades-sede.
Infelizmente, esses têm sido
tempos difíceis e tristes para a humanidade, dada a dificuldade de unir nações
e comunidades em torno de um propósito comum, gerando orgulho cívico e
quebrando barreiras culturais, religiosas e políticas. Parece cada vez mais
impossível por conta das guerras, dos conflitos, da beligerância em suas mais
diversas formas, alcançar esses objetivos.
O esporte não é apenas
competição, mas uma ferramenta fundamental para unir seres humanos, promover a
inclusão social e criar espaços seguros para o diálogo.
Contudo, a Copa do Mundo de 2026
está transitando na contramão desses valores e contribuindo para o
recrudescimento das tensões e das violências. A tensão diplomática presente,
antes mesmo do evento começar, já retira o brilho e o entusiasmo que esse tipo
de competição sempre desfrutou.
Diferentemente das edições
anteriores, onde se buscava uma estrita neutralidade, o Mundial de 2026 tem
lidado com interferências diretas de Estados sobre o esporte.
Por isso, a partir desse recorte esportivo,
se torna imprescindível tecer uma reflexão mais ampla e profunda do que está
acontecendo no mundo, nesse exato momento, na perspectiva das seguintes palavras
de Bertolt Brecht: “Primeiro levaram os negros. Mas não me importei com
isso. Eu não era negro. Em seguida levaram alguns operários. Mas não me
importei com isso. Eu também não era operário. Depois prenderam os miseráveis. Mas não me importei com isso. Porque eu
não sou miserável. Depois agarraram uns
desempregados. Mas como tenho meu emprego, também, não me importei. Agora eu estou sendo
levado. Mas já é tarde. Como eu não me importei com ninguém, ninguém se importa comigo”.
sábado, 6 de junho de 2026
Colonialismo Químico
Colonialismo
Químico
Por
Alessandra Leles Rocha
O impacto de duas notícias me
fazem escrever esse texto, “Produtores de soja são acusados de intoxicar
indígenas com agrotóxicos em Rondônia” 1 e “Sem a União Europeia,
Brasil pode deixar de exportar quase US$ 2 bilhões ao ano em carnes; entenda”
2.
Pode não parecer mas os assuntos apresentam um ponto em comum, as práxis
produtivas brasileiras.
Não é de hoje que faço
considerações a respeito do ranço colonial que afeta a dinâmica do
desenvolvimento e do progresso brasileiro. Historicamente, as práticas de
produção agrícola e animal brasileiras não envolvem uma preocupação real em
relação à natureza dos processos empregados e seus impactos sobre a saúde do
consumidor ou às diretrizes que envolvem o comércio exterior.
Por décadas, o modelo se baseou
na expansão de fronteiras e na alta produtividade a curto prazo, priorizando a
ocupação territorial e o volume de exportações em detrimento da
sustentabilidade e das exigências sanitárias.
Haja vista, por exemplo, que o Brasil
é um dos maiores consumidores mundiais de agrotóxicos, impulsionado pela
extensão e intensidade de sua produção agrícola.
E isso acontece em razão do chamado
Colonialismo Químico. Sim, grandes empresas do setor químico, com sede principalmente
na Europa e nos EUA, produzem e exportam toneladas de pesticidas que não
utilizam em seus próprios territórios, porque dispõem de amplo mercado
consumidor em países em desenvolvimento, cujas legislações ambientais e
sanitárias são, em geral, menos restritivas e/ou apresentam processos de
avaliação mais demorados.
Por essa razão é que certos agrotóxicos
continuam sendo amplamente utilizados no Brasil. É o caso, por exemplo, do
glifosato, do mancozebe e da atrazina.
Apesar de enfrentarem fortes
restrições ou terem sido proibidos no exterior devido a evidências científicas
que os associam a riscos de contaminação da água, danos aos ecossistemas como,
por exemplo, a morte de abelhas, e graves impactos à saúde humana, incluindo
distúrbios hormonais e doenças neurológicas, lamentavelmente, eles fazem parte
da realidade agrícola brasileira.
De modo que a utilização de
substâncias banidas em outros países se mostra um verdadeiro desafio
diplomático e comercial para o agronegócio brasileiro. Afinal, estamos falando
de uma relação comercial completamente assimétrica.
Posto que o uso desses
agrotóxicos no Sul Global, principal mercado consumidor desses produtos,
resulta em alimentos produzidos com concentrações de compostos químicos
superiores às permitidas para importação na Europa e nos EUA, por exemplo.
Assim, essas commodities agrícolas
quando chegam ao mercado internacional, podem ser barradas por ultrapassarem os
limites sanitários.
Fazendo com que o verdadeiro
custo dessa assimetria recaia sobre os países produtores, na medida em que implica
diretamente em riscos à saúde dos trabalhadores rurais, das comunidades locais
próximas as áreas de produção, além da contaminação ambiental da água e do solo,
enquanto os lucros da venda dos defensivos permanecem concentrados nas
indústrias químicas estrangeiras.
Entretanto, apesar disso não se
pode desconsiderar o fato de haver uma resistência por parte de muitos produtores
agrícolas brasileiros quanto a promover mudanças radicais nas práticas de
manejo, interrompendo o histórico ciclo do Colonialismo Químico.
Isso se dá em razão dela derivar
de fatores econômicos e estruturais. Ora, essas práticas têm um histórico de
incentivos e subsídios no modelo agrícola nacional. E para superar essas
barreiras, então, é necessário promover um novo alinhamento das políticas
públicas com alternativas economicamente viáveis.
Veja, esse modelo amplamente dependente
de agroquímicos é, muitas vezes, estruturalmente mais barato a curto prazo
devido a isenções fiscais, tornando o processo de transição um desafio
financeiro imediato para o produtor. Além disso, a falta de assistência técnica
em larga escala para métodos regenerativos e agroecológicos tende a gerar
insegurança no campo, por parte do produtor rural.
Contudo, o principal obstáculo
para uma transição ecológica, para o Manejo Integrado de Pragas (MIP) ou
Controle Biológico, reside no enorme poder político e econômico das indústrias
transnacionais de pesticidas e de sua base de apoio no Congresso Nacional.
A partir dessa conexão
político-ideológica é que se garante a aprovação acelerada de defensivos
químicos sintéticos, atrasando as políticas
de redução desse tipo de consumo, dificultando a expansão do manejo sustentável
e ecológico.
Basta observar, por exemplo, como
o modelo latifundiário exportador é altamente dependente desse tipo de produtos
agroquímicos, facilitando a concentração de mercado para eles, e o modo como os
legisladores vinculados à bancada ruralista atuam para enfraquecer o rigor de
órgãos como Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e o Instituto
Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) no
processo de registro desses produtos.
Por isso, enquanto o Colonialismo
Químico permanecer naturalizado e banalizado na cultura econômica brasileira, o
país continuará não só em constante sobressalto, no campo do comércio exterior,
como padecendo de um franco adoecimento socioambiental derivado da utilização
de produtos agroquímicos nas sua produções de alimentos.
Portanto, continuar nessa histórica
condição de servir como lixão e/ou vitrine para agrotóxicos e outros produtos químicos
banidos no mercado internacional, reforça a desimportância que é dada à
soberania nacional.
Primeiro, porque a dependência de
insumos importados ou controlados por corporações estrangeiras drena recursos
que poderiam ser investidos em tecnologia, pesquisa e desenvolvimento de
alternativas nacionais, como os bioinsumos.
Segundo, porque há uma
subalternização territorial, considerando que o país é tratado como depósito de
lixo químico e área de sacrifícios, gerando contaminação dos recursos naturais
e promovendo o adoecimento de populações rurais e urbanas.
Por fim, porque há um controle da
produção na medida em que a dependência desses insumos enriquecedores das corporações
estrangeiras subordina o modelo agrícola local às demandas externas, colocando
em risco a autonomia alimentar e a saúde pública.
Como bem escreveu Eduardo Galeano,
escritor e jornalista uruguaio, “Na alquimia colonial e neocolonial o ouro
se transfigura em sucata, os alimentos em veneno”. Afinal de contas, essas
palavras desnudam a realidade perversa e cruel, na qual o sistema de
exploração, em curso na história da humanidade, faz da riqueza local um
instrumento para gerar atraso e subdesenvolvimento ao invés de progresso e
desenvolvimento real.


