sexta-feira, 24 de abril de 2026

Educação humanizada. Indicador de desenvolvimento.


Educação humanizada. Indicador de desenvolvimento.

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Não, não há como negar que o desenvolvimento científico e tecnológico de um país é o principal motor de transformação de sua população, impactando diretamente na qualidade de vida, na estrutura demográfica e no comportamento social. Acontece que esse é, em geral, um processo que se dá de forma assimétrica na globalização.

Isso significa que em países em desenvolvimento, os quais frequentemente implementam tecnologias após os países desenvolvidos já o terem feito, a realidade demonstra que o resultado se expressa por diversos ônus sociais, econômicos e culturais sem, de fato, possibilitarem que usufruam totalmente dos bônus decorrentes desse processo.

Eu fui tomada por essa reflexão após me deparar com a informação de que na grade curricular de alunos entre 6 e 16 anos, na Dinamarca, foi estabelecido desde 1993, o ensino de empatia como disciplina obrigatória, conhecida como "Klassens tid" (hora da turma).

Durante uma hora por semana, alunos e professores se reúnem em círculo, geralmente tomando chá e comendo bolo, para discutir assuntos, compartilhar sentimentos e resolver problemas. Portanto, essa não é uma disciplina acadêmica e não será avaliada com nota; mas, permite aprender a ouvir, compreender diferentes perspectivas e resolver conflitos pacificamente.

Afinal, um dos efeitos mais nefastos que tem sido observados na contemporaneidade é exatamente a desumanização, decorrente da corrida pelo desenvolvimento científico e tecnológico.

Embora a Dinamarca seja reconhecida como uma das economias mais desenvolvidas do mundo, caracterizada por um alto padrão de vida, forte estado de bem-estar social e baixa desigualdade, seus cidadãos perceberam a importância de não negligenciar a humanização nas relações humanas, dentro dos seus propósitos de desenvolvimento.

Então, eles decidiram nutrir cada vez mais essa consciência de que as pessoas não devem serem vistas e compreendidas apenas como dados ou engrenagens produtivas, perdendo sua individualidade e subjetividade.

E nada melhor do que a escola para exercer o papel multiplicador e transformador a esse respeito. Porque nesse espaço existem todas as condições para a reflexão sobre como a desumanização social impacta diretamente na expressão da ética, na medida em que o poder fazer acaba atropelando o deve fazer, por conta da velocidade do avanço científico e tecnológico.

Nesse sentido, é que países como o Brasil, considerados em desenvolvimento, precisam olhar com atenção os impactos do seu próprio comportamento desenvolvimentista, porque apesar de serem expressões globais, a sua intensidade e forma variam muito devido à dinâmica de absorção psicoemocional dos indivíduos.

Acontece que, quando um país se dedica, quase que exclusivamente, em favor do desenvolvimento científico e tecnológico, em nome da competitividade global, quase sempre essa dinâmica tende a inverter a lógica da humanização social, do contato físico, do exercício da subjetividade.

E esse tipo de imersão social, no fim das contas, gera perdas incalculáveis; sobretudo, afetando diretamente a construção identitária e de valores dos indivíduos. Algo que se identifica pelo individualismo, o consumismo e, por vezes, uma perda da conexão humana, afetiva, empática.

De modo que os efeitos e consequências disso não poderiam ser outros senão alcançar a exacerbação da beligerância, das violências e do ódio, na dinâmica das relações sociais. Porque esse cenário potencializa a disseminação de estigmas, de rótulos, de polarizações, e da transferência de conflitos do ambiente virtual para o mundo físico.

Daí a corrida pelo desenvolvimento científico e tecnológico estar sim, potencializando a inversão da lógica do contato físico, aproximando virtualmente e afastando fisicamente as pessoas. O que gera uma epidemia emocional, onde o uso excessivo de redes sociais, por exemplo, resulta em relações rasas, solidão e redução da capacidade de construção de vínculos.

Já há estudos demonstrando a relação entre a FOMO (Fear of Missing Out - medo de perder algo) e nomofobia (medo irracional e a ansiedade extrema de ficar sem o celular, bateria, sinal ou conexão com a internet) e os comportamentos antissociais, agressivos e violentos.

Alguns, inclusive, sugerem uma relação de longo prazo entre a dependência digital e os comportamentos agressivos ou disruptivos; pois, ela pode levar o indivíduo aos gatilhos extremos de abstinência, como quaisquer outras drogas.

Então, enquanto o Brasil corre atrás de uma educação tecnológica, concentrando seus esforços no acesso a dispositivos e internet, ele deixa de perceber que muitos dos países desenvolvidos já estão, há décadas, em um processo de revisão dos seus paradigmas a esse respeito.

Ora, o Brasil está distante de uma educação humanizada, focada em competências socioemocionais, valores humanos e pensamento crítico. Desse modo, ele se vê obrigado a conviver amiúde com o (ciber)bullying e outras violências, com a incapacidade de discutir assuntos, de compartilhar sentimentos, de resolver problemas, e, até mesmo, lidar com crimes de ódio motivados por preconceito e intolerância no ambiente escolar.

Já os países desenvolvidos estão, cada vez mais, se voltando para uma formação que não se perca do humanismo, da empatia, da coexistência e convivência harmônicas, com foco em competências socioemocionais e de pensamento ético e crítico.

Segundo eles, a tecnologia deve ser vista como ferramenta para personalizar o ensino, enquanto o contato humano tem que ser valorizado para o desenvolvimento de competências comportamentais e saúde mental.

Por essas e outras que a construção de políticas voltadas para a Democracia, a Cidadania e a Humanização nas escolas é considerada um indicador fundamental do nível de desenvolvimento de um país, na medida em que reflete a capacidade da nação de formar sujeitos críticos, éticos e ativos, e não apenas de transmitir conteúdo acadêmico.

A humanização no ambiente escolar valoriza a afetividade, a empatia e a ética, resultando em um ambiente mais saudável, um maior engajamento dos estudantes e uma formação integral, indo além da lógica de mercado.

Razão pela qual os países com melhores indicadores de educação cidadã e humana demonstram maior desenvolvimento social e econômico, com populações que zelam pelo cumprimento das leis e exercem sua participação na vida pública. 

Delivery: De praticidade à dor de cabeça contemporânea

Delivery: De praticidade à dor de cabeça contemporânea

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Nada mais comum na sociedade contemporânea do que os serviços de delivery ou entrega em domicílio. O fenômeno, de fato, se intensificou a partir da pandemia de COVID-19, mas a sua boa aceitação e popularização foi impulsionada em razão da conveniência, da transformação sociodigital e da mudança nos hábitos de consumo.

Refletindo-se não somente como um direito à praticidade social contemporânea, como uma mudança profunda nas relações de consumo, trabalho e no ritmo da vida urbana.

Desse modo, no que diz respeito às relações de consumo contemporâneo, o delivery se configura como um pilar central da sociedade da plataforma, ou capitalismo de plataforma, cujo processo dinâmico em diferentes setores socioeconômicos foi reorganizado em torno de plataformas digitais.

Daí o consumidor assumir um papel ativo na avaliação de serviços, tais como a agilidade da entrega, o resultado dos pedidos, ... representando a transferência da gestão de qualidade do estabelecimento para o cliente final, transformando-o em um fiscal ou agente de controle de qualidade e conduta do prestador.

Mas, para que o consumidor satisfaça as suas demandas através dessa nova realidade comercial, a relação entre os aplicativos de delivery ou plataformas digitais e as empresas parceiras é estruturada como uma intermediação de serviços baseada em tecnologia.

Fato que, segundo o Código de Proteção e Defesa do Consumidor (Lei nº 8.078 de 11 de setembro de 1990), estabelece essa relação comercial como uma cadeia de fornecimento, gerando responsabilidade solidária.

Sim, as plataformas não são apenas intermediárias; elas respondem conjuntamente com a empresa parceira por falhas na entrega, na qualidade do produto e nos pagamentos. Em caso de problemas, tais como atraso, produto errado, pedido incompleto, ... o consumidor pode reclamar tanto à empresa quanto ao aplicativo.

Além disso, em relação ao aplicativo, ele responde por danos ao consumidor independente de culpa, pois faz parte da cadeia de produção e distribuição, como estabelece o art. 14, CDC. Afinal, sendo o aplicativo uma vitrine virtual capaz de fornecer sistema de pagamento e logística, ele se torna, então, um fornecedor de serviços.

Contudo, apesar da legislação brasileira, o desrespeito aos direitos do consumidor por parte das empresas parceiras e dos aplicativos de entrega tem sido comum devido a uma combinação de crescimento exponencial do setor, de inúmeras falhas na responsabilização das plataformas, no atendimento automatizado deficiente e na imposição de complexidades na resolução de problemas.

O que era para transcorrer de maneira clara, objetiva e fácil, se transformou em um verdadeiro cavalo de batalha. Primeiro, porque as plataformas de entrega frequentemente alegam ser apenas uma ponte entre as empresas parceiras e os consumidores, dificultando a responsabilização do aplicativo em problemas como pedidos errados, danificados ou atrasos, empurrando a culpa para terceiros, incluindo o próprio entregador.

Depois, pela dificuldade de contato direto com humanos e a burocracia para conseguir reembolso, troca ou cancelamento de produtos, gerando frustração e desejo de denúncia.

Na verdade, o que está por trás dessa realidade é que os problemas como atrasos, produtos errados e pedidos danificados refletem a falta de estrutura adequada em muitos desses estabelecimentos que compõem a cadeia de fornecimento.

Contudo, caso o pedido esteja errado ou danificado, o cliente tem direito à troca ou estorno de valor. Se houver atraso, ele pode recusar a entrega e solicitar o reembolso total.

A manifestação dos direitos pelo consumidor é fundamental para combater as práticas abusivas nas relações de consumo, porque transforma as normas abstratas em ações concretas, equilibrando a relação de consumo, forçando os fornecedores a cumprirem a legislação.

Não se esqueça, a reclamação e a denúncia é que tornam possível a aplicação do Código de Defesa do Consumidor (CDC). O consumidor é reconhecido jurídica e economicamente como a parte vulnerável; por isso, manifestar seus direitos é a forma de reequilibrar essa relação. Além disso, exercer o direito de reclamar não é apenas um ato individual de reparação, mas uma ferramenta de cidadania que fortalece o mercado e protege a coletividade.