domingo, 16 de agosto de 2026

CIDADANIA. INCLUSÃO. ESPORTE. ...


CIDADANIA. INCLUSÃO. ESPORTE. ...

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Certas falas precisam ser mais bem definidas. Dizem, por aí, que o esporte é inclusão; mas, o que isso realmente quer dizer?! Afinal de contas, incluir significa integrar e acolher todas as pessoas de um coletivo social, seja ele qual for, sem nenhum tipo de preconceito ou discriminação.

E aí, prestando um bocadinho de atenção, aqui e ali, você começa a perceber que no contexto do esporte, o discurso não anda realmente alinhado com a prática. Daí a necessidade de dissecar o tema.

De saída, não é difícil perceber que a desigualdade de renda é o primeiro obstáculo para a consolidação do esporte inclusivo. Infelizmente, nem todos os componentes da pirâmide social contemporânea têm, de fato, acesso às práticas desportivas.

A falta de recursos financeiros não impede apenas a compra de equipamentos, o pagamento de mensalidades de clubes ou o custeio com transporte. Para milhares de pessoas, ela impede o acesso à moradia, à saúde, à educação, ao saneamento básico, ou seja, a tudo o que representa o senso de dignidade humana.

Depois, a carência de uma infraestrutura desportiva, em muitas cidades, para atender ao conceito de inclusão social. Uma questão que reflete a falta de planejamento urbano voltado para a acessibilidade universal desde a concepção dos espaços, o baixo investimento público na construção, reforma e manutenção de praças e centros esportivos nas cidades, e a incompatibilidade de equipamentos tradicionais com as necessidades de atletas paralímpicos ou pessoas com mobilidade reduzida.

Acontece que tudo isso reverbera no isolamento de certos grupos sociais, que não encontram locais seguros ou adaptados para a prática de atividades físicas, no aumento da desigualdade em relação ao acesso à saúde, ao bem-estar e ao desenvolvimento de talentos esportivos, e na perda de interação e conectividade coletiva, pois o esporte funciona como ferramenta de uma socialização contra à instrumentalização do preconceito.

Mas, certamente, um dos aspectos mais graves da ausência de inclusão no esporte, na contemporaneidade, seja em relação ao preconceito de gênero, o racismo e a xenofobia. A historicidade desportiva, infelizmente, é marcada por essas questões. Haja vista que o esporte nasceu elitista, masculino e eurocêntrico, de modo que essas marcas ainda ecoam nos estádios, nas quadras e nas instâncias de poder atuais.

Daí tantos exemplos estampados nas mídias sobre atletas imigrantes ou refugiados que enfrentam vaias, são excluídos ou sofrem questionamentos sobre sua identidade e direito de representar um país, tornando-se os primeiros a serem hostilizados de forma xenófoba quando sua equipe perde.

Ou os casos de insultos racistas vindos das arquibancadas contra atletas negros de elite em ligas mundiais, os quais acabam sustentando a narrativa que atribui o sucesso do atleta negro à genética que lhe fornece força física e o do atleta branco que possui inteligência tática.

Como se vê, debater a diversidade e a inclusão é essencial para garantir igualdade no meio esportivo. Grupos minorizados - mulheres, negros (as), pessoas com deficiência (PCD) e população LGBTQIA+ - vêm sofrendo a falta de acesso a direitos, poder e espaço também no esporte. Algo explicitado pelo preconceito, a invisibilidade midiática, a mudança de critérios para as competições e a desigualdade de investimento financeiro.

O caso mais recente é o da Confederação Brasileira de Voleibol (CBV), ao aderir à política do Comitê Olímpico Internacional (COI) que bane mulheres trans. Segundo a CBV esse novo critério passa a valer a partir da próxima temporada da Superliga e em outras competições nacionais.

Bem, o fato revela como o debate contemporâneo sobre a inclusão de atletas transgêneros, por exemplo, muitas vezes descamba para a marginalização, sem critérios puramente científicos.

Por um lado, entidades esportivas e defensores das novas regras argumentam que o objetivo é proteger a integridade e a igualdade de condições na categoria feminina, apontando vantagens fisiológicas residuais associadas ao desenvolvimento anatômico prévio.

Por outro, ativistas, clubes e atletas afetadas apontam a medida como um retrocesso na inclusão e na garantia do direito ao trabalho de mulheres trans, defendendo que o esporte deve buscar formatos de integração baseados em controle hormonal individualizado em vez de exclusão baseada apenas na genotipagem.

Independentemente de escolher um dos lados, a questão que se impõe é de que a inclusão no esporte não existe. Se existem barreiras, obstáculos, condicionantes, sejam de quais naturezas forem, impedindo que todos os cidadãos sejam incluídos no esporte, essa ideia que sempre prosperou como artifício de marketing precisa ser mudada.

A desconstrução do mito da inclusão esportiva plena é, portanto, urgente e necessária. Ainda que ela represente a admissão pública de todo o retrocesso que sobrevive na carência histórica de planejamento de políticas públicas e reformas institucionais, as quais possibilitem transformar o esporte em um espaço genuinamente mais acessível.

Sem a ruptura com as amarras do racismo, do elitismo, da xenofobia, do capacitismo, da homofobia, o esporte permanecerá exalando uma visão romantizada e totalmente desconectada da realidade do mundo.

Essa ideia de que o esporte é neutro, só faz esconder e omitir os próprios preconceitos, enquanto afasta pessoas dos direitos básicos de inclusão e cidadania. Aliás, não é incomum que se ouça no meio desportivo a velha frase "vencer pelo próprio esforço".

Bem, sem inclusão fica difícil! Por trás dessas palavras esconde-se uma verdade bastante indigesta; visto que, o ponto de partida dos atletas é totalmente desigual devido às opressões sociais.

Portanto, o esporte só será verdadeiramente democrático quando a inclusão e a segurança de minorias estiver acima das prioridades institucionais, e não apenas em rasos discursos de marketing. 

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

LACRAÇÃO, LIKE e LUCRO. O caminho para a ruína da sociedade contemporânea.


LACRAÇÃO, LIKE e LUCRO. O caminho para a ruína da sociedade contemporânea.

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

O pó de pirlimpimpim contemporâneo parece ser LACRAÇÃO, LIKE e LUCRO. Só que não. Basta um mínimo de atenção aos veículos de informação para perceber que, além desse tripé ser totalmente incapaz de resolver os problemas do mundo, incluindo os seus, ele tem um potencial devastador de intensificá-los.

Infelizmente, a vida não é feita de soluções rápidas e superficiais. Atalhos nunca levam ninguém ao que se espera. Por isso, o cenário da monetização digital, que significa transformar conteúdo, tráfego, audiência ou presença na internet em receita financeira, não vai promover uma alteração substancial na realidade contemporânea.

Enquanto chuvas torrenciais assolam o território japonês, incêndios florestais arrasam com a Europa e os EUA, sem que nada de efetivo possa ser feito para mudar o cenário. Recentemente houve um terremoto na Venezuela, agora, outro aconteceu na Colômbia. Cientistas já afirmam que o super El Niño trará fome e escassez para grande parte do planeta nos próximos meses. Portanto, a dinâmica geoambiental do planeta se mostra alterada, colocando as incertezas no topo da lista. 

Gostemos ou não, tudo isso aponta para um processo de intensa desconstrução e reconstrução, sem fim. Por quê? Porque a contemporaneidade se esqueceu de que o ser humano é sempre o centro das ações e das preocupações.

Portanto, na medida em que a mercantilização e a monetização social assumiram o controle do cotidiano houve um inevitável apagamento e invisibilização dos indivíduos. Suas necessidades, carências, desafios, foram deixados de lado, à mercê da própria sorte.

Contudo, o ato de transformar direitos, relações ou bens sociais em produtos com preço de mercado ou de gerar ganho financeiro a partir de uma audiência, de uma rede de contatos ou do engajamento digital, não faz evaporar dos veículos de comunicação e de informação as estatísticas e os problemas socioeconômicos e ambientais que recortam a realidade contemporânea.  

O tripé dos três L citados acima é, portanto, somente uma cortina de fumaça para tentar esconder a ausência total de uma solução, de um plano para resolver as crises que afetam milhões de seres humanos todos os dias.  Sabe a velha história do cachorro correndo atrás do próprio rabo? É exatamente isso.

Apesar de triste e constrangedor é preciso admitir, as responsabilidades socioeconômicas e ambientais, sejam elas simples ou complexas, quase sempre, estão a cargo de pessoas despreparadas, carentes de competência, desprovidas de ética, que foram alocadas em posição de poder e se apropriaram dele, apesar de totalmente inaptas.

Aí, enquanto bilhões de pessoas se entretém nessa corrida frenética por LACRAÇÃO, LIKE e LUCRO, tentando desesperadamente capitalizar alguns vinténs e/ou ocupar um último lugar na fila do pertencimento social, o mundo continua girando, girando, girando ... Sem que as urgências e as emergências socioeconômicas e ambientais sejam resolvidas.

Sem que a pirâmide social deixe de exaltar uma base imensa e uma ínfima ponta, não deixando dúvidas de que as desigualdades permanecem cada vez mais inabaláveis. ...    

Além disso, não se pode esquecer que o tripé dos três L tem também promovido o apogeu do ódio, para amplificar ainda mais os rendimentos. Não entendeu? Esse ciclo gera engajamento extremo, aumenta a visualização de conteúdos polêmicos e converte reações raivosas e violentas em ganhos financeiros diretos para plataformas e criadores.

Por isso, com ou sem uma consciência formada a respeito, a sociedade contemporânea marcha rumo à banalização do mal, como já aconteceu em outros momentos da sua historicidade.

Considerando, então, que o mal não nasce necessariamente de um ódio profundo ou perversidade demoníaca, mas da incapacidade de pensar criticamente, esse é o grande perigo, porque qualquer indivíduo que abdique de sua consciência e julgamento moral pode perpetuar injustiças de forma mecânica e contínua.

Na verdade, pode estar contribuindo, nesse exato momento, para que as cortinas de fumaça facilitem a falência e o colapso da vida na Terra, dada a ausência de soluções para o recrudescimento dos problemas que já vigoram há séculos.

Lembremo-nos, então, das seguintes palavras do Chefe Seatle, líder dos povos Duwamish e Suquamish nos EUA, “O homem não tece a teia da vida; é antes um de seus fios. O que quer que faça a essa teia, faz a si próprio”.

Assim, a ação de um indivíduo reverbera no todo e retorna a ele próprio. Cada ato afeta o tecido social na sua totalidade, de modo que a ética deixa de ser apenas um dever entre humanos e passa a incluir o ambiente e o futuro do planeta.

4º Simpósio sobre Feminicídios - UFU/Uberlândia