Por todos
os lugares ...
Por Alessandra Leles Rocha
Daqui e dali se ouvem relatos de
pessoas sendo hostilizadas, agredidas, desrespeitadas no seu direito de ir e
vir em paz, simplesmente por estarem vestindo roupas na cor vermelha. Vejam só
a que ponto chegou a estupidez e o radicalismo humano?! Estão fomentando beligerância
a partir de uma cor. Então, convido você, caro (a) leitor (a), a respirar
fundo, guardar a artilharia pesada, e seguir por uma breve reflexão.
Para início de conversa, na
psicologia comportamental e das cores, o vermelho é uma cor de alta intensidade
que simboliza paixão, energia, poder e excitação, além de estar associada a
alertas de perigo. Biologicamente, ela acelera a frequência cardíaca e a
pressão arterial, estimulando a ação imediata.
Talvez, por isso, ela esteja tão
disseminada entre os seres humanos. O vermelho é uma das cores mais antigas e
poderosas da história. Associado primariamente ao sangue e ao fogo, ele carrega
uma dualidade marcante, não só simbolizando simultaneamente à vida, a paixão, o
poder e a sorte, bem como o perigo, a guerra, a violência e a morte.
Utilizado desde a Pré-História
com o ocre vermelho na arte rupestre, o vermelho era extraído de elementos
naturais como o urucum nas culturas indígenas brasileiras e do inseto
cochonilha no México antigo, um pigmento que revolucionou a pintura ocidental.
Inclusive, em diversas etnias
indígenas brasileiras, quando extraída de sementes como o urucum essa coloração
era fundamental para a pintura corporal e vestimentas; pois, expressa
identidade, status social, proteção contra elementos naturais e conexão com
rituais de guerra ou celebração.
No cristianismo, o vermelho representa
o sangue de Cristo e o sacrifício dos mártires. Na Igreja Católica, tornou-se a
cor dos cardeais. No xintoísmo e no budismo, é usado para afastar maus
espíritos e atrair proteção. Por isso, na China, é a cor da boa sorte, da
prosperidade e das celebrações, sendo tradicionalmente usada em casamentos. Enquanto
no Japão, protege contra infortúnios.
Desde a Roma Antiga, com os
mantos dos generais e imperadores, até as vestes reais e a política moderna, o
vermelho sinaliza status, soberania, revolução e rebelião. Devido à sua
intensidade e ligação ao sangue vertido em batalha, o vermelho transformou-se
na cor oficial da revolução, da rebeldia e dos movimentos progressistas em todo
o mundo moderno, como na Revolução Francesa e nos movimentos operários.
No viés biológico, a cor vermelha
está intrinsecamente ligada à sobrevivência, reprodução e sinalização de
estados internos. Ela é a cor mais significativa do ponto de vista evolutivo e
fisiológico para a nossa espécie. No sangue humano ela ocorre em razão da hemoglobina,
uma proteína rica em ferro presente nos glóbulos vermelhos que transporta o
oxigênio. Aliás, a tonalidade do vermelho indica o nível de oxigenação, ou
seja, o sangue arterial rico em oxigênio é vermelho-vivo, enquanto o venoso é
mais escuro.
Os primatas ancestrais evoluíram
a visão tricromática, que é a capacidade de ver o vermelho, o verde e o azul,
principalmente, para detectar frutos vermelhos maduros contra o fundo verde das
florestas. Essa mutação visual também ajudou a identificar folhas jovens e
brotos que costumam ter tons avermelhados, que são mais nutritivos e fáceis de
digerir do que as folhas velhas.
No reino animal e nos humanos, o
rubor facial gerado pela raiva serve como um aviso visual de dominância e
prontidão para o combate. Sem contar que a visualização da cor vermelha
estimula a amígdala e o sistema nervoso, aumentando a frequência cardíaca e as
reações de reflexo. Por isso, biologicamente, ela funciona como o sinal
universal de perigo e alerta.
No aspecto da biodiversidade
natural e ecológica, a cor vermelha funciona como um dos canais de comunicação
visual mais poderosos e multifuncionais dos ecossistemas. Ela atua
principalmente como um sinalizador biológico crucial para a sobrevivência, reprodução
e interações entre espécies.
Anfíbios como as rãs-flecha
(Dendrobatidae), certas cobras como a coral-verdadeira e insetos como joaninhas
e percevejos usam o vermelho para evitar o ataque de predadores, que associam a
cor ao perigo ou mal-estar.
Muitas flores vermelhas evoluíram
especificamente para atrair beija-flores e outras aves, que possuem uma
excelente visão para o espectro do vermelho. Sim, certas aves são atraídas por
essas flores, que geralmente não têm forte odor, mas produzem muito néctar.
Frutos vermelhos maduros como
pitangas, morangos silvestres e frutos de palmeiras) contrastam fortemente com
as folhas verdes, de modo que servem como um farol para aves e mamíferos
consumirem o fruto e dispersarem as sementes pelas fezes, garantindo a
reprodução da planta.
Em muitas espécies de aves como o
cardeal ou o flamingo e alguns peixes, a intensidade do vermelho nas penas ou
escamas é determinada pela quantidade de carotenoides ingeridos na dieta. Um
vermelho vivo indica que o animal é forte, saudável, livre de parasitas e um
bom parceiro para o acasalamento.
Embora pareça contraditório, o
vermelho também serve como camuflagem em ecossistemas específicos, como o mar
profundo. Por isso, animais marinhos de águas profundas que são totalmente
vermelhos parecem efetivamente pretos ou invisíveis na penumbra oceânica,
protegendo-se de predadores.
Fora do aspecto puramente
biológico e entrando na ecologia aplicada à conservação, o termo vermelho
batiza a Lista Vermelha da IUCN (União Internacional para a Conservação da
Natureza), que é o inventário mais detalhado do mundo sobre o estado de
conservação global de espécies vegetais e animais, utilizando a cor como o
alerta máximo para o risco de extinção da biodiversidade.
Feito esse breve apanhado de
informações, parece clara a impossibilidade de se abolir a presença do vermelho
na existência humana, porque ele não se resume as discussões ou as simpatias
político-partidárias. A tentativa de reduzir o vermelho a uma única bandeira,
nesses casos, é apenas um fenômeno recente na linha do tempo humana. De modo
que a apropriação do vermelho por movimentos políticos modernos é apenas um
fragmento milenar perto do impacto que essa cor tem no dia a dia, na nossa
biologia ou no nosso imaginário cultural desde o início dos tempos.
Por isso, qualquer violência,
ameaça ou intimidação em que a cor de uma roupa, de uma bandeira ou de um símbolo
é usada como justificativa não encontra respaldo ou legitimidade jurídico-institucional.
Os principais fundamentos legais que condenam e punem esse tipo de conduta
estão na Constituição Federal de 1988, art. 1º, III e V, art. 5º, IV; no Código
Penal, art. 129, art. 147, art 163; e, na Lei das Contravenções Penais, art. 21.
Vale ressaltar que, o Código Penal prevê que crimes cometidos por motivo torpe ou
fútil têm suas penas agravadas, segundo o art. 61, II, "a".
Relembrando, então, as palavras do
poeta brasileiro Manuel de Barros, “Sou livre para o silêncio das formas e
das cores”. Afinal, elas se conectam diretamente à liberdade existencial e
ao exercício da cidadania através da autonomia do pensamento, da emancipação
criativa e da recusa às amarras sociais impostas. Para exercer uma cidadania
genuína, o indivíduo precisa primeiro ser dono de sua própria subjetividade.
Nesse sentido, o "silêncio
das formas e das cores" representa o recolhimento, a contemplação e a
capacidade de dar sentido ao mundo por si mesmo, sem repetir fórmulas prontas.
Sem essa liberdade existencial para digerir a realidade em silêncio, a
cidadania se reduz a um ato mecânico de seguir regras, em vez de uma
participação consciente e crítica.
A liberdade existencial defende o
direito de o ser humano ser, e não apenas produzir. Uma cidadania plena só
existe quando o Estado e a sociedade garantem os direitos fundamentais que
protegem esse espaço de subjetividade, permitindo que as pessoas escolham suas
identidades, suas crenças e suas formas de expressão sem o medo da opressão ou
da padronização.
Portanto, estar livre para o silêncio é um ato de resistência política. O que significa que a cidadania não começa no voto ou no cumprimento das leis. Ela começa na garantia de que o indivíduo é existencialmente livre para contemplar, criar e existir em sua total singularidade.


