quarta-feira, 30 de setembro de 2026

O Sagrado e o Profano


O Sagrado e o Profano

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Infelizmente, temos diante dos sentidos a materialização da crise de ética pela mistura indigesta e despudorada entre o sagrado e o profano.

Assim, a fim de recapitular os termos, sagrado é aquilo que dá sentido, valor absoluto e fundamento à existência. Portanto, o sagrado está em templos e locais de culto, em cidades santas, em elementos da natureza, em livros, em objetos e ícones, em conceitos, pessoas e práticas.

Já o profano designa tudo o que pertence ao cotidiano, à rotina e ao mundo secular, situando-se fora do espaço sagrado ou religioso. Isso inclui as atividades rotineiras, os espaços públicos, o tempo cronológico e de trabalho, a música e a arte secular, a blasfêmia e as piadas religiosas, o vandalismo de símbolos sagrados, o uso inadequado de objetos litúrgicos e a quebra de tabus ou votos.

E se cada um deles, ao menos em tese, ocupa um espaço próprio, isso deveria indicar a existência de uma incompatibilidade em se devotar simultaneamente a ambos.  No entanto, quando saímos da teoria e observamos a história e o comportamento humano, essa incompatibilidade lógica se dissolve em uma complexa coexistência.

Primeiro, porque há uma permeabilidade das fronteiras, na qual eles não são estáticos; mas, delimitados pelo ser humano. Segundo, porque a raça humana está exposta ao sincretismo e a cultura popular.

Nesse sentido, a cultura popular utiliza o sincretismo para borrar as linhas entre o sagrado e o profano, provando que a fé e a festa, o rito e a vida cotidiana, fazem parte de uma mesma identidade cultural.

Haja vista, por exemplo, o Congado e o Moçambique que representam a devoção à Nossa Senhora do Rosário e a São Benedito, a partir da expressão cultural com forte herança de ritmos, tambores e cortejos reais africanos.

Acontece que a manifestação desses aspectos passa pela compartimentalização psíquica, ou seja, o ser humano possui a capacidade psicológica de transitar entre diferentes papéis sociais e sistemas de crenças sem experimentar uma crise de identidade permanente.

Nesse contexto, então, o indivíduo pode devotar-se ao sagrado em momentos de fragilidade, busca de sentido ou ritos comunitários, e guiar-se pela lógica profana no dia a dia, no trabalho e no consumo.

Inclusive, não se pode desconsiderar a existência de uma ambivalência do sagrado. Sim, por ser algo fora do comum, ele atrai o profano na medida em que o homem busca o sagrado justamente porque vive no profano. Desse modo, a simultaneidade não é necessariamente uma contradição, mas uma relação de necessidade mútua.

Contudo, o atual momento contemporâneo nacional expôs publicamente, a partir dos diversos veículos de mídia, notícias que materializam uma grave crise de ética pela mistura entre o sagrado e o profano, a partir de dois fenômenos importantes, a dessecularização e a instrumentalização da fé, os quais de certa forma explicam o retorno e o uso da religião no espaço público contemporâneo.

A dessecularização marca, então, o retorno da influência religiosa na sociedade, na cultura e na política, contrariando previsões históricas de que o mundo deveria ser totalmente ateu ou laico. Assim, ao contrário de desaparecer, as instituições e crenças religiosas ganharam um novo protagonismo na esfera pública e nas decisões políticas.

Quanto à instrumentalização da fé, ela ocorre quando líderes políticos, econômicos ou as próprias lideranças religiosas utilizam as crenças e os símbolos sagrados como uma ferramenta para alcançar objetivos mundanos, como poder, votos, dinheiro ou controle social.

Desse modo, a fé deixa de ser estritamente uma busca espiritual ou moral e passa a ser usada de forma estratégica para manipular as massas, validar os discursos ideológicos e/ou obter vantagens financeiras.

No entanto, esses dois fenômenos, que envolvem diretamente o sagrado e o profano, fazem emergir uma crise ética sem precedentes, porque rompem a fronteira entre as esferas pública e privada, esvaziando tanto a autonomia da moral laica quanto a integridade do próprio sentimento religioso.

Esse cenário possibilita a perda de um referencial moral absoluto; pois, a fé, que originalmente serve como um guia transcendental para a conduta humana, passa a ser moldada para justificar ações profanas como a corrupção, a exclusão social e a busca pelo poder, levando à destruição da autoridade moral da própria religião.

Fato que emerge em razão da relativização do bem e do mal. Ora, o que deveria ser universalmente ético torna-se utilitarista, de modo que o sagrado deixa de ser um fim em si mesmo e vira um meio de manipulação, permitindo que atitudes antiéticas passem a ser validadas e perdoadas sob o pretexto de estarem servindo a um propósito divino.

Diante disso, a fragmentação social e a polarização se consolidam a partir de uma instrumentalização que divide a sociedade entre santos e pecadores, inviabilizando o debate público baseado na razão e no bem comum. Perde-se, portanto, a ética da alteridade, do respeito ao outro, pelo fato de que essa é substituída pela demonização de quem pensa diferente.

Uma realidade que leva ao enfraquecimento das instituições laicas.  A justiça, a política e os direitos humanos deixam de se apoiar em leis universais e consensuais para depender de dogmas interpretados de forma conveniente por determinados grupos.

Por isso, a crise ética ao instrumentalizar a fé, possibilita ao ser humano retirar a transcendência do sagrado e a racionalidade do profano, deixando a sociedade sem nenhum norte moral seguro para guiar suas ações.

Sem a pureza ética da espiritualidade e sem a lucidez da razão crítica, a sociedade fica à mercê do relativismo de conveniência, onde as regras morais mudam conforme o interesse de quem está no poder. Para a democracia e a soberania nacional, os riscos são imensos.

O que significa que o adversário político deixa de ser um concorrente legítimo e passa a ser tratado como um inimigo a ser destruído. As leis e os direitos fundamentais passam a ser relativizados se não atenderem à narrativa do grupo que instrumentaliza a fé.

Por fim, as populações fragilizadas tornam-se alvos fáceis de manipulação, o que enfraquece a soberania popular, já que o voto e a opinião pública deixam de ser escolhas conscientes e passam a ser obrigações de rebanho.

Por essas e outras é preciso manter a fé protegida da manipulação política e a política guiada pela racionalidade laica, como as únicas formas de garantir que tanto a espiritualidade quanto a democracia possam coexistir de forma saudável.

Daí a necessidade de compreender que o Estado laico não é antirreligioso, mas sim neutro. Essa neutralidade garante que cidadãos de todas as crenças e os que não têm nenhuma sejam tratados com igualdade perante a lei, utilizando a razão e os direitos humanos como base comum para o diálogo.

É dessa forma que a laicidade protege a própria liberdade religiosa, assegurando que nenhuma fé majoritária use a máquina pública para suprimir ou discriminar minorias espirituais.

terça-feira, 29 de setembro de 2026

Afinal, o Brasil é ou não é para amadores?


Afinal, o Brasil é ou não é para amadores?

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Para se entender a história é preciso acompanhar a sequência de fatos que a encadeiam. Isso é básico! Todos já deveriam estar cientes disso! Portanto, não há como negar que os últimos anos da historicidade brasileira foram sim marcados por episódios que apontaram para uma escalada de retrocessos significativos. Algo bastante preocupante ou, pelo menos, deveria ser.

Entre 2019 e 2022, brasileiros e brasileiras puderam presenciar em termos ambientais, por exemplo, a mais profunda flexibilização das regras por meio de portarias e decretos.

Ocorreu o "Dia do Fogo" que representou uma ação coordenada de incêndios criminosos, entre os dias 10 e 11 de agosto de 2019, no estado do Pará.

Houve a paralisação do Fundo Amazônia que suspendeu mais de R$ 1 bilhão em doações da Noruega e da Alemanha destinados ao combate ao desmatamento.

Promoveram o esvaziamento do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) e da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (FUNAI), a partir do corte expressivo no orçamento de fiscalização, redução na aplicação de multas ambientais e militarização de cargos diretivos.

Em relação à Educação e à Ciência, houve um contingenciamento de verbas, em 2019, o qual também repercutiu no enfraquecimento das agências de fomento; visto que, as bolsas de pós-graduação e fomento à pesquisa da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) sofreram reduções severas.

Sem contar a instabilidade institucional desencadeada por quatro ministros diferentes em quatro anos, gerando crises de gestão e denúncias que afetaram a continuidade das metas do Plano Nacional de Educação.

No setor cultural, esse período assistiu a um processo de desestruturação institucional e estrangulamento financeiro. Começando pela extinção do Ministério da Cultura (MinC), no início de 2019, o transformando em uma Secretaria Especial, inicialmente vinculada ao Ministério da Cidadania e depois transferida para o Ministério do Turismo.

De modo que as sucessivas trocas de comando, com sete titulares diferentes em quatro anos, geraram descontinuidade administrativa e paralisia de programas estratégicos; mas, também, uma redução drástica de recursos federais diretos, com paralização de seus mecanismos, e ataques diretos e censura ao setor.  

Contudo, a mais terrível das experiências do desmantelamento institucional do país aconteceu na área da Saúde. Diante da Pandemia de Covid-19, uma das maiores e mais complexas crises sanitárias da história mundial recente, a sua condução pelo governo foi marcada pelo atraso na compra de vacinas, na promoção do chamado tratamento precoce com medicamentos sem eficácia comprovada e as frequentes trocas no comando do Ministério da Saúde.

Isso sem falar, no aperto orçamentário estrutural que excluiu os gastos emergenciais e provisórios da pandemia, fazendo com que o orçamento real da saúde pública regular encolhesse ao longo do período.

Mas, não se pode esquecer da reafirmação do negacionismo científico como uma marca central da gestão federal, nesse período, com impactos profundos nas políticas públicas, tais como o discurso antivacinas e a hesitação vacinal, que incluíram as campanhas contrárias ao cartão vacinal e ao uso de máscaras.

O que explica porque razão, entre 2020 e 2022, o Brasil registrou mais de 29 milhões de casos confirmados e cerca de 690 mil mortes oficiais contabilizadas por COVID-19, tornando-se um dos epicentros globais da doença. Porém, vale lembrar que os números reais foram significativamente maiores devido a barreiras estruturais de testagem e diagnóstico durante a pandemia.

Portanto, dentro da perspectiva de direitos humanos e políticas sociais, o Brasil viveu além da pandemia, a situação da extinção de conselhos de participação social, logo no início de 2019, a partir do Decreto nº 9.759 que afetou diretamente dezenas deles, impossibilitando a participação da sociedade civil nas decisões políticas.

Fato que levou ao não financiamento das políticas identitárias, permitindo que as secretarias e os programas do setor operassem com orçamentos mínimos ou sofressem mudanças de escopo que esvaziaram as suas funções originais. Fato que acabou retornando o país ao Mapa da Fome.

Sim. Entre 2019 e 2022, o Brasil retornou e permaneceu no Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas (FAO/ONU), impulsionado pelos impactos econômicos, desmonte de políticas públicas de segurança alimentar e pela pandemia de COVID-19.

Nesse recorte temporal a subalimentação atingiu 4,1% da população brasileira, ou seja, cerca de 8,6 milhões de pessoas em estado de desnutrição. Já se esqueceu dos episódios extremos como a chamada Fila do Osso? Pois é, cidadãos formavam filas em açougues e frigoríficos para receber ou comprar restos de ossos bovinos, carcaças de frango e restos de peixe para tentar aplacar a fome.

Portanto, esse período foi marcado por uma severa crise socioeconômica, caracterizada pelo enfraquecimento de estruturas estatais, o impacto global da pandemia de Covid-19, inflação persistente e um expressivo aumento da vulnerabilidade social brasileira.  

De modo que a gestão posterior, diante desse cenário de “terra arrasada”, teve que implementar uma reconstrução. Fato que impede qualquer um de nutrir idealizações ou projeções miraculosas, tendo em vista de que reconstruir é bem mais complexo e árduo do que dar continuidade ao que já estava em curso.

Inclusive, não se pode esquecer de que nesse processo de reconstrução, o país ainda teve que enfrentar uma tentativa de golpe de Estado. Me refiro aos atos de 8 de janeiro de 2023, expressos por ataques às sedes dos Três Poderes em Brasília/DF e enquadrados como crimes de golpe de Estado, abolição violenta do Estado Democrático de Direito, associação criminosa armada, dano qualificado e deterioração de patrimônio tombado, pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

Diante desse breve exposto, me causa espanto e estranheza que amostras populacionais ainda se permitam expressar, com certa aspereza, algum descontentamento ao governo em curso. É como se negassem ou desconsiderassem o cenário demasiadamente desafiador que foi enfrentado.  

Apesar de todos os pesares, muito foi feito nessa empreitada de reconstrução. Houve a aprovação da reforma tributária, o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) e do emprego, a retomada e ampliação de obras, o combate à fome, o recorde de cirurgias eletivas, a queda do desmatamento e a retomada da projeção internacional.

É, o Brasil retornou ao centro de debates multilaterais, exercendo o seu protagonismo na defesa da democracia e da soberania nacional, ainda que sob fortes ameaças neoimperialistas, que lhe impuseram elevadas tarifas comerciais.

Há de se admitir que são mais de 500 anos de história, os quais acumulam problemas e desafios, a serem enfrentados por cada governo que se estabelece como liderança.

Infelizmente, ainda somos um dos países mais desiguais do mundo, com grande concentração de renda e disparidades regionais marcantes, especialmente entre as regiões Centro-Sul e Norte-Nordeste.

Ainda enfrentamos custos logísticos elevados, gargalos nos transportes e a necessidade de modernização tecnológica das indústrias.

Ainda somos confrontados por uma complexidade fiscal, que significa equilibrar o orçamento público, gerenciar a dívida interna e garantir a eficiência dos gastos públicos sem comprometer os investimentos essenciais.

Ainda precisamos superar os abismos de aprendizado entre a rede pública e a privada, além de alinhar o ensino técnico e superior às demandas do mercado de trabalho do século XXI.

Ainda se faz necessário expandir a infraestrutura básica de esgoto e água tratada para as periferias e áreas rurais, e fortalecer a gestão do Sistema Único de Saúde (SUS).

Ainda persiste a luta para combater o crime organizado, o tráfico de influência e a corrupção, o narcotráfico, as milícias, a fim de reduzir os índices de violência urbana e promover uma reforma satisfatória no sistema prisional.

Ainda resiste o impasse de conciliar a força do agronegócio com a preservação ambiental, especialmente na Amazônia e no Cerrado.

Ainda somos desafiados a aproveitar o enorme potencial de energia limpa para reindustrializar o país de forma sustentável. Enfim...

Assim, por mais indigesta que pareça a pergunta, temos que fazê-la: O Brasil é ou não é para amadores? Segundo as palavras de Contardo Calligaris, escritor, psicanalista e dramaturgo italiano radicado no Brasil:

“Veja a frase ‘O Brasil não é para principiantes’. Isso supõe que a nossa malandragem nos torna especiais e só interpretáveis por especialistas. Pelo contrário: o Brasil é para amadores e principiantes. Porque pagar e corromper é muito fácil. O difícil é construir uma coletividade em que haja leis, institucionalidade. O difícil é ser moral. Ser imoral é que é para principiantes. A malandragem é uma conduta moral de uma criança de nove anos. O difícil é crescer. Governar pagando o cara para votar comigo é que é amador. O profissional é construir um discurso que convença, é falar com o outro” 1.

Portanto, penso que se conseguirmos realizar esse questionamento, de certa forma, se tornará possível abandonar a autocomplacência e a romantização do jeitinho brasileiro, compreendendo que a verdadeira maturidade nacional exige abandonar práticas infantis em favor da responsabilidade ética, moral e institucional. Afinal, para satisfazer quaisquer expectativas de desenvolvimento e de progresso é fundamental essa reflexão.

domingo, 27 de setembro de 2026

Jogando com a vida ... Jogando com o próprio envelhecimento.


Jogando com a vida ... Jogando com o próprio envelhecimento.

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Por favor, não confunda alhos com bugalhos! As loterias federais e as apostas esportivas, conhecidas como bets, possuem naturezas jurídicas e estruturas completamente diferentes no Brasil.

E foi colocando na balança os prós e os contra a respeito, de que o ganho com impostos diretos dessas plataformas online era superado pelos prejuízos indiretos na economia e na saúde pública, que o governo federal tomou a decisão de editar uma Medida Provisória determinando a proibição das bets no país.

Para início de conversa, enquanto as loterias federais representam jogos de azar baseados em sorteio de números, onde todos os participantes têm exatamente a mesma chance matemática, as bets são variáveis, as chances dependem de análise estatística de eventos reais como o desempenho de um time, clima, lesões.

Nas loterias, o prêmio total acumulado é dividido igualmente entre as combinações que acertarem os números sorteados. Nas bets, o prêmio é por cota fixa, ou seja, é multiplicado pelo valor fixado pela casa no momento da aposta.

Sobre a margem de lucro matemática e estatística, no caso das loterias, ela é retida diretamente do valor total arrecadado antes de compor o prêmio final. Enquanto nas bets, ela está embutida matematicamente nas cotas fixas, reduzindo o pagamento real em relação à probabilidade pura do evento acontecer.

Quanto à destinação dos recursos, as loterias destinam quase metade, cerca de 48%, de toda a sua arrecadação para investimentos em benefícios sociais e políticas públicas, de modo que o Repasse Social é considerado a atividade-fim das Loterias CAIXA.

O que significa transformar o valor das apostas em recursos diretos para o desenvolvimento do país em áreas como segurança pública, com repasses para o Fundo Nacional de Segurança Pública (FNSP) para combater a criminalidade; educação,  a partir do Fundo de Financiamento Estudantil (FIES); o esporte, com recursos para o Comitê Olímpico e Paralímpico Brasileiro, além de clubes de futebol; a seguridade social e saúde, com o apoio à previdência e à saúde pública; e, a cultura, com verbas destinadas ao Fundo Nacional da Cultura (FNC).

Além disso, as mais de 13 mil casas lotéricas espalhadas pelo país funcionam como pequenos negócios que ativam a economia local. Seja pela arrecadação de tarifas, tendo em vista de que elas atuam como correspondentes bancários, permitindo o pagamento de contas, saques e recebimento de benefícios sociais, como o Bolsa Família, o que atrai fluxo de pessoas para o comércio do entorno. Seja pela comissão recebida pelos lotéricos, que significa uma porcentagem de cada aposta que fica com o empresário lotérico, movimentando o setor de serviços.

E o setor lotérico é um forte empregador direto e indireto. Haja vista a quantidade de atendentes de caixa, gerentes e pessoal de segurança nas agências lotéricas, as empresas de tecnologia que prestam suporte técnico, de transporte de valores, de segurança privada, de marketing e de impressão de bilhetes.

Quando um prêmio é pago, por exemplo, os novos milionários e ganhadores de faixas menores reinjetam esse dinheiro no mercado fomentando um efeito multiplicador na economia por meio da compra de imóveis e automóveis, de investimentos em novos negócios, de aplicações financeiras que geram liquidez para os bancos, e de consumo geral de bens e serviços, movimentando a cadeia de comércio.

Sem contar que os prêmios das loterias federais sofrem retenção de Imposto de Renda (IR) direto na fonte, uma alíquota de 30%, e esse valor vai direto para o caixa da União, ajudando a compor o orçamento do Estado para investimentos públicos.

Já as bets têm lucro privado. O que significa que o dinheiro vai para empresas particulares, chamadas de operadoras, restando ao Estado apenas a arrecadação de impostos regulatórios. Por quê?

Porque a maior parte das operadoras possui sede internacional, de modo que o fluxo financeiro segue um caminho que limita o impacto positivo na economia local. O dinheiro apostado que não retorna aos jogadores como prêmio é convertido em moeda estrangeira e transferido para suas matrizes no exterior.

Assim, muitas das grandes plataformas globais operam a partir de territórios com baixa tributação e sigilo fiscal como Malta, Gibraltar, Curaçao ou Ilhas Caimã, o que minimiza os impostos corporativos sobre o lucro líquido global delas.

Esse movimento reduz a circulação de riqueza dentro do país de origem, pois o lucro privado deixa de ser reinvestido no comércio, na indústria ou em infraestrutura local. Portanto, apesar do eventual ganho fiscal direto nos cofres públicos, o mercado das bets acabou retirando muito mais dinheiro da economia do que o total devolvido em impostos.

Foram retirados da atividade econômica de R$ 120 bilhões a R$ 141 bilhões em 2025, equivalente a até 1,1% do PIB. O dreno financeiro provocado pelas plataformas operou sob a lógica de retirar dinheiro de setores com alto efeito multiplicador como comércio, serviços e varejo tradicional, e concentrá-lo em um setor de baixíssimo retorno econômico interno.

Quanto à perda no comércio tradicional houve uma redução de faturamento, afetando o consumo das famílias. O dinheiro gasto nas plataformas de apostas saiu diretamente do orçamento que elas utilizavam para compras do dia a dia, como alimentação, roupas e lazer tradicional.

Acontece que esse aumento do uso do orçamento doméstico e, por vezes, linhas de crédito para apostas, reduziu o poder de compra futuro, já que as famílias precisavam quitar dívidas antes de voltar a consumir.

Nesse contexto, as populações de menor poder aquisitivo tenderam a comprometer uma fatia proporcionalmente maior de sua renda com as apostas, gerando um efeito imediato no comércio de bairros e bens de primeira necessidade.

Vale ressaltar que as apostas de quota fixa foram legalizadas no final de 2018, pelo governo Michel Temer, mas as regras de taxação e concessão de outorgas só passaram a valer efetivamente a partir de janeiro de 2025.

Assim, estima-se que nesse período o Brasil deixou de arrecadar entre R$ 30 bilhões e R$ 40 bilhões em impostos durante os quatro anos em que as apostas online operaram no país sem nenhuma regulamentação ou tributação efetiva.

Porém, mesmo após a regulamentação, o país deixou de arrecadar bilhões. O que em termos de prejuízos sociais gerais, o custo estimado de R$ 39 bilhões com endividamento familiar, gerou uma imensa perda de produtividade e gastos de saúde.

De modo que os impactos diretos na saúde corresponderam à custos associados ao aumento de mortes por suicídio, que chegou a ser 15 vezes maior em pessoas com ludopatia/transtorno do jogo; e a perda de qualidade de vida severa decorrente da depressão e outros transtornos psicoemocionais, cujos tratamentos e atendimentos médicos diretos são realizados em sua imensa maioria pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Caro (a) leitor (a), só esses pontos já mereceriam a nossa atenção. Porém, há muito mais questões a serem pensadas e repensadas por todos nós. Começando pela relação entre o prejuízo causado pelas plataformas de apostas online e o envelhecimento da população brasileira que já representa uma crise econômica e de saúde pública sobreposta.

Sim, à medida em que a população acima de 60 anos cresce rapidamente no Brasil, passando de 15,2 milhões em 2000 para mais de 33 milhões, esse público torna-se um dos alvos mais financeira e psicologicamente fragilizados pela facilidade do Pix e pelo isolamento social.

Tanto que dados do Banco Central apontaram que cerca de dois milhões de idosos jogam mensalmente, registrando um gasto médio individual de R$ 3 mil por mês com apostas. Um valor muito superior à média das aposentadorias rurais e urbanas do país que variam entre R$ 1,4 mil e R$ 1,8 mil.

Acontece que esse cenário possibilita, então, o surgimento de uma verdadeira bola de neve na medida em que para sustentar as perdas e tentar recuperar o dinheiro, muitos idosos recorrem a empréstimos consignados, comprometendo o orçamento familiar a longo prazo e gerando superendividamento.

Inclusive, uma parcela significativa dos idosos afetados depende do Benefício de Prestação Continuada (BPC), convertendo os recursos destinados à sua subsistência básica em receita para as bancas de apostas. Assim, idosos com rendas fixas baixas são facilmente seduzidos por propagandas agressivas que vendem a ideia de renda extra fácil para fechar as contas do mês.

É fato que dissecando as histórias têm-se que muitas delas surgem pelos desafios do próprio envelhecimento populacional, o qual muitas vezes vem acompanhado de solidão, perdas familiares e falta de ocupação diária. É nesse contexto que os jogos de azar no celular acabam por oferecer estímulos rápidos de dopamina e uma falsa sensação de companhia ou entretenimento.

De repente, a sociedade brasileira se vê diante do vício em jogos, a ludopatia, entre a terceira idade. Fenômeno que elevou os índices de depressão, forte ansiedade e ideação suicida, fazendo com que os atendimentos no SUS por transtornos ligados a jogos e apostas saltassem cerca de 140% nos últimos anos.

O que quase ninguém vê, ou prefere não ver, é que o custo dos danos sociais e de saúde gerados pelo mercado de apostas no Brasil, dentro desse recorte relativo à uma população que envelhece, o dinheiro que deveria financiar cuidados geriátricos, remédios e planos de saúde acaba sendo drenado pelas plataformas.

Além disso, considerando que os idosos frequentemente atuam como provedores ou esteios financeiros de famílias inteiras no Brasil, o prejuízo causado pelas bets nessa faixa etária desestrutura a segurança econômica de múltiplas gerações dependentes daquela aposentadoria.

Portanto, é sobre tudo isso que precisamos refletir antes de sair falando bobagens aleatórias, por aí. À medida que o Brasil passa por uma transição demográfica acelerada com o aumento do número de idosos, a população precisa se debruçar sobre todos os temas que atuam diretamente sobre as vulnerabilidades financeiras, sociais e psicoemocionais dessa parcela da população. Não dá para ficar analisando a questão pela perspectiva do jogar ou não jogar. As camadas são muito mais profundas e desafiadoras do que isso.

Como escreveu Simone de Beauvoir, intelectual, filósofa existencialista, ativista política e teórica social francesa, "O envelhecimento é uma questão de cidadania, mas a sociedade muitas vezes prefere fechar os olhos para aqueles que construíram o presente”.

Uma verdade dura que, pensada à luz das apostas e jogos online, nos permite entender que o envelhecimento ativo exige cidadania e proteção social, enquanto a desregulação desses pseudoinstrumentos de entretenimento explora a vulnerabilidade cognitiva e financeira dos idosos, transformando uma fase de descanso em risco de exclusão e ruína.