Mais do
mesmo... A fragmentação política por conveniência.
Por Alessandra
Leles Rocha
Sempre que preciso me referir ao
espectro político de direita faço uma ressalva à existência de vieses mais ou
menos radicais e extremistas dentro dele. Por quê? Para que fique bem claro que,
apesar de eventuais diferenças entre os seus representantes, seguidores,
simpatizantes e apoiadores, no fim das contas, existe uma linha discursiva
comum que os agrega.
E acabo de comprovar que estava
certa, na minha observação. A corrida eleitoral de 2026, no Brasil, nem começou
efetivamente, e o referido espectro político já despontou com diferentes nomes
para concorrer à Presidência da República. Alguns com mais e outros com menos
possibilidade de êxito; mas, não deixa de chamar atenção.
No entanto, o que pretende esse
movimento de múltiplos candidatos é tentar levar o pleito eleitoral para um
segundo turno e depois promover uma agregação dos candidatos derrotados, desse
espectro político, em torno daquele que se sagrou bem sucedido. O que deixa
claro como os diferentes, nesse caso, são mais iguais do que se possa imaginar!
Caro (a) leitor (a), essa não é
uma questão difícil de compreender! Veja, a direita brasileira, em todos os
seus vieses, construiu-se historicamente sobre as raízes coloniais
tradicionalistas e elitistas.
De modo que ela visa preservar a
ordem social oligárquica e as disparidades socioeconômicas. E para tal ela
criou uma cultura de hierarquia naturalizada, opondo-se a quaisquer projetos de
transformação social.
Basta uma breve visita aos veículos
de informação e comunicação para se deparar, então, com diversas notícias que
retratam exatamente isso.
Ora, ao longo desses pouco mais
de 500 anos de história, diferentes setores da elite oligárquica brasileira se
organizam para limitar os direitos socioeconômicos e trabalhistas da grande
massa da população.
Seja defendendo uma agenda de
liberalismo econômico no plano nacional ou promovendo pautas de costumes
tradicionais, suas ideias são sempre marcadas por um caráter autoritário,
antidemocrático.
Por isso, quando se aproxima o período
eleitoral, esses indivíduos correm para manter suas regalias e privilégios de
poder. Afinal, formada no curso dos séculos, as classes historicamente
dominantes não governam apenas pela força, mas pelo consenso hegemônico construído.
Nesse sentido, é no período
eleitoral que os diferentes vieses da direita buscam reafirmar as velhas práxis,
as quais sempre impuseram seus valores como se fossem o interesse de toda a
sociedade.
Viu só?! É nesse recorte temporal,
então, que essas elites se organizam para garantir que, independentemente de
quem vença o pleito eleitoral, o acesso aos recursos do Estado e aos mecanismos
de decisão permaneçam em suas mãos.
As nuances e divisões internas da
direita, portanto, se unem nesse momento para impedir a ascensão de grupos que
representem uma ruptura real com o seu sistema de privilégios. Afinal de
contas, o poder não é apenas dinheiro, mas também as redes de influência. Assim,
a corrida para manter as regalias e os privilégios é, na verdade, um esforço
para manter o controle sobre o aparelho estatal, o grande responsável por
distribuir subsídios, definir isenções fiscais, ... enfim, ditar as regras do
jogo político-econômico nacional.
Por isso, a união entre os
diferentes vieses da direita, em épocas de eleição, funciona como um mecanismo
de defesa do seu status quo fundamental.
Por mais que a direita se
fragmente em rótulos como liberal, conservadora, libertária ou ultradireitista,
a verdade é que só existe um único núcleo de valores que unifica o seu discurso.
Especialmente em períodos eleitorais.
O que está posto, então, é uma narrativa
que tende a institucionalizar ou manter estruturas sociais sem mudanças. Isso
significa que ela é frequentemente ancorada na figura do inimigo interno ou de
ameaças à estabilidade, transformando o Estado ou o pretenso líder como
garantidores da ordem.
Além disso, a ideia de que uma
sociedade é composta por indivíduos e famílias, e não por classes ou grupos
identitários, esvazia as pautas coletivistas e foca a solução de problemas na
responsabilidade individual e na liberdade de mercado.
Assim, embora existam rachas políticos, o núcleo ideológico da direita sempre permanecerá focado no conservadorismo e no neoliberalismo, mostrando que a demanda por essa agenda é maior do que quaisquer lideranças individuais. A fragmentação é somente uma estratégia de adaptação e de expansão da direita. Pura conveniência de quem almeja mais do mesmo.


