MARIAs
...
Por
Alessandra Leles Rocha
Nossa Senhora Aparecida, assim
como todas as demais denominações atribuídas à mãe de Jesus, segundo relatos de
suas aparições aos fiéis ao longo dos séculos, é bem mais do que um símbolo do
sagrado na fé católica, ao contrário do que muitos pensam ou acreditam.
Independentemente da fé
individual de cada ser humano, quem olha para Maria vê a mãe. Portanto, enquanto
figura humana que foi, ela é a expressão do maternar que significa a prática
contínua de afeto, de presença e de responsabilidade com o desenvolvimento de
alguém.
Basta pensar que aquela menina
foi mãe muito jovem. Deu à luz em condições de extrema vulnerabilidade, dadas
as circunstâncias que a obrigaram proteger o seu filho. Cuidou daquela criança com
todo o afeto e a consciência de lhe transmitir valores e princípios. Como
milhares de mães, mundo afora, Maria maternou dentro das possibilidades e das
impossibilidades que a vida colocou no seu caminho.
E dentro dessa perspectiva se
torna realmente impossível admitir qualquer ofensa verbal, moral ou física à
Nossa Senhora. Simplesmente, porque esse gesto de profundo desrespeito e
incivilidade atenta contra milhões de mães sobre o planeta. Ofender Maria é,
portanto, ofender a presença do feminino na humanidade.
Sim, ao agredir a figura que
condensa a máxima dignidade atribuída à mulher em uma cultura, agride-se o
próprio conceito e o seu valor no contexto da coletividade. E salvaguardar Maria
é, na verdade, proteger a própria integridade moral das mulheres no mundo.
Talvez, esse seja o ponto de
reflexão. Afinal, a presença do feminino na historicidade humana é marcado pela
intolerância, pela violência, pela inacessibilidade de direitos, ... Enfim, por
todo um conjunto de desrespeitos. Se por
um lado, ela foi utilizada para justificar a submissão das mulheres; por outro,
serve como um símbolo de resistência, atitude e dignidade diante das injustiças.
Historicamente, as estruturas de
poder, frequentemente dominadas por homens, construíram uma interpretação de
Maria que servia para justificar a inacessibilidade de direitos e o desrespeito
às mulheres reais. Aquelas que não se encaixassem nesse molde de pureza
absoluta eram frequentemente marginalizadas, rotuladas como pecadoras, tal qual
à figura de Eva, e expostas à violência e à intolerância.
Desse modo, a virtude de Maria
mais celebrada pelo patriarcado foi o seu silêncio, a sua obediência passiva e
a sua capacidade de suportar a dor sem reclamar. Essa imagem foi usada por
séculos para educar mulheres a aceitarem casamentos abusivos, a violência
doméstica e a falta de direitos civis como se fossem vocações sagradas de
sacrifício.
Acontece que Maria não foi
passiva. Ela foi uma mulher pobre e marginalizada que, à sua maneira, proclamou
justiça social. Exatamente por viver em uma época de extrema violência de
Estado, com a ocupação romana, e de intolerância, a figura de Maria tornou-se o
principal refúgio simbólico para mulheres que sofrem. Na devoção popular, ela é
vista como a mãe que entende a dor da violência doméstica, da perda dos seus
filhos para a violência e da falta de amparo.
Assim, a figura de Maria tem em
si um caráter politizado que incomoda aos interesses do patriarcado e das alas mais
conservadoras da sociedade. Porque a existência de uma figura feminina, imersa
no simbolismo sagrado; mas, que é, ao mesmo tempo, autônoma, central na
história da salvação e portadora de um discurso de ruptura, desestabiliza
discursos opressores. A ideia dessa Maria politizada e forte é visto como uma
ameaça à ordem estabelecida.
Então, de repente, surge entre
certos grupos da sociedade pessoas que passam a atacar a figura de Nossa Senhora
da Aparecida ou de qualquer outra denominação, como uma expressão catártica do
seu desconforto diante da presença feminina que incomoda os pilares de poder e,
de certo modo, legitima a resistência e a busca por justiça social.
Para estruturas baseadas na
manutenção de hierarquias rígidas, uma figura feminina central que valida a voz
dos marginalizados torna-se inerentemente desconfortável. Por isso, destruir,
diminuir ou demonizar o símbolo de Nossa Senhora é uma tentativa de
deslegitimar a base moral daqueles que lutam por transformações. Na perspectiva
dessas pessoas, caso o símbolo que une e fortalece os oprimidos seja
neutralizado, enfraquece-se também a coesão do movimento que nele se apoia.
Acontece que apesar de os
opositores acreditarem que essa estratégia de neutralização vai funcionar, a
realidade se mostra oposta na medida em que o movimento não se apoia de forma
tão frágil a ponto de ser destruído pelo ataque a um símbolo. A devoção se constrói
a partir da consciência sobre uma Maria humana, cuja história foi escrita e
registrada, e sobre a qual se pode exercitar a reflexão, criando raízes muito
mais profundas na mente e no coração dos seguidores.
A presença ou não da imagem não
rompe com a força e o potencial do simbólico. É só pensar quando abrimos um baú
de memórias e cada fotografia, objeto, recordação, faz emergir sentimentos, emoções,
repletas de intensidade e materialidade. A pessoa em si não está ali. O tempo
não volta àquele exato momento. Mas, a conexão é real, plena.
De modo que qualquer ofensa
verbal, moral ou física à Nossa Senhora ou à qualquer mulher não muda o curso
da história que se estabelece há séculos. Como escreveram Milton Nascimento e
Fernando Brant, “Maria, Maria é um dom, uma certa magia / Uma força que nos
alerta / Uma mulher que merece viver e amar / Como outra qualquer do planeta
...” 1.
Afinal, Maria e tantas outras
Marias existem e transcendem os limites da fé, da religiosidade. Porque se
conectam ao que há de mais belo, mais puro, mais profundo. O que significa que
elas personificam a capacidade humana de gerar vida, de resistir à dor e de
manter a esperança viva, unindo-se diretamente com o sagrado que habita em cada
um de nós.

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