segunda-feira, 12 de abril de 2021

O “dono da bola” e a “síndrome do Imperador”


O “dono da bola” e a “síndrome do Imperador”

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Então, é assim?! A República Federativa do Brasil reduzida a pátio de escola ou campinho de futebol, onde alguns se comportam pelo uso da intimidação e da força. Pelo menos, é essa a impressão passada pelo vazamento de um telefonema entre duas autoridades do poder federal. Uma sucessão de infantilidades que chega a ser constrangedora.

Primeiro, porque a proposta da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre a COVID, tema principal do tal telefonema, ao ser cogitada uma ampliação para tratar, também, de Governadores e Prefeitos, mais parece aquela situação em que um aluno está para ser repreendido por algo de errado que tenha feito e passa a apontar outros colegas, tentando mitigar a própria culpa.  

Segundo, porque ao expressar o desejo de um movimento de impeachment contra Ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), fica muito fácil para qualquer pessoa materializar na memória a cena do garoto dono da bola. Aquele que cria as suas próprias regras para o jogo de futebol, interfere do jeito que bem entende e, quando contrariado, coloca a bola debaixo do braço e diz que o jogo acabou.

De fato, é uma pena que alguns indivíduos pertencentes as esferas do poder nacional tenham perdido, por completo, a consciência sobre a liturgia dos seus cargos. Porque, do alto de onde se encontram, eles representam a imagem do país mundo afora. Visivelmente, uma imagem que anda desfocada e confusa sobre si mesma.

Nada tem acontecido no país por acaso. Nem o caos. Nem o destempero. Nem as mudanças abruptas. Nem as trocas de comando. O “dono da bola” é uma simbologia do ser humano que não admite nenhuma contrariedade. Reside nele a “síndrome do Imperador”, o tirano que desde a mais precoce infância não admite limites, desdenha quaisquer autoridades, não exibe inteligência emocional, não demonstra afeto ou compaixão e, ainda por cima, cultiva hábitos violentos.

No entanto, quando não rompida essa manifestação comportamental absurda, o ser humano cresce e a exacerba de uma maneira, praticamente, incontrolável. O que passa a criar problemas no seu trânsito e convivência social, onde quer que ele vá. Afinal de contas, ninguém pode tudo!

Qualquer indivíduo adulto aprende que o mundo é regido por regras, códigos, doutrinas, leis, a fim de se estabelecer um equilíbrio entre os direitos e os deveres de todos que residem em um determinado espaço geográfico.

Se assim não fosse, com cada um disputando o direito de sobrepor as suas vontades e quereres, o mundo viveria sob um regime de guerra ad aeternum. Aliás, nesse sentido, de certo modo é exatamente isso o que estamos vendo diante da Pandemia no país. Pessoas confrontando diretamente o consenso científico em nome da satisfação de seus pensamentos próprios e infundados.

E cada vez que agem na contramão da vida, as estatísticas dos prejuízos materiais e humanos revela a dimensão gigantesca das perdas. A maioria delas poderiam ser evitadas; mas, tornaram-se irreparáveis. Porque os “donos da bola” chegaram para obstaculizar e impor as suas pseudoverdades, mudando as regras à revelia, ...

Hoje, lendo uma matéria exibida em grande jornal de circulação no país, a qual a Organização Mundial da Saúde (OMS) falava sobre o aumento exponencial da Pandemia e da impossibilidade de as vacinas serem o único modo de freá-la, não pude deixar de pensar em tudo o que representa essa investida da infantilização nos centros do poder nacional. Sim, porque precisamos de alguém adulto, o suficiente, para tomar as rédeas dessa situação excepcional em que vive o país.

Não é sem razão que “se peca por atos e omissões”, porque é a mais pura verdade. As omissões são as representações de todas as tentativas de se eximir, a qualquer preço, das responsabilidades. Os atos são as consequências da opção voluntária pela inação ou pelo excesso de equívocos e erros.

E são nessas duas vertentes que o país navega sem rumo, deixando-se levar por pequenos poderes, pela mesquinhez dos interesses escusos e das intrigas, e, sobretudo, pela Síndrome do Imperador. Como disse Abraham Lincoln, “Quase todos os homens são capazes de superar a adversidade, mas, se se quiser pôr a prova o caráter de um homem, dê-lhe poder”.

O telefonema vazado foi só mais um elemento nessa conjuntura bizarra e mortal. Porque ele trouxe a luz um outro fardo de mortes. Um fardo subjetivo, no qual, diante de nós, falece a dignidade humana, a civilidade, a responsabilidade, a autoridade; o que, em suma, traduz a morte lenta e gradual do país.

Portanto, não estamos exaustos somente por conta das centenas de milhares de vítimas do Sars-COV-2, ou das violências múltiplas que assolam o país; mas, pelo esfacelamento ético e moral da nossa cidadania, o que, por consequência, desconstrói os alicerces do nosso espírito democrático.


domingo, 11 de abril de 2021

Socialistas e Capitalistas foram ao espaço...


Socialistas e Capitalistas foram ao espaço...

 

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

 

Que triste! Em meio ao caos, alguns brasileiros resolveram abusar da verborragia e reafirmar a sua ignorância. Ainda que não tenham frequentado adequadamente a escola e construído um lastro razoável de conhecimento, alguma coisa esses indivíduos aprenderam. Por isso, a opção por se enveredarem pela estupidez absurda, me parece estar mais relacionada a algum interesse particular de sobrevivência grupal.

Vejamos, então, recapitulando as aulas de história, o que é necessário saber para estancar e desconstruir as bobagens. A tal doutrina econômica e política que preconiza uma organização socioeconômica baseada na propriedade coletiva dos meios de produção, denominada Comunismo, nunca foi de fato empregada por nenhuma nação no mundo; exceto, dentro da dinâmica cotidiana de tribos indígenas, as quais não se debruçaram sobre esses conhecimentos para se organizarem. Lá, nessas tribos, o modo de convivência e coexistência nesses moldes era algo genuíno e instintivo de sua própria cultura.  

Mas, eis que dessa doutrina emergiu uma outra, o Socialismo, a qual preconizava, além da coletivização dos meios de produção e distribuição, a supressão da propriedade privada e das classes sociais.  Cujos expoentes de sua formulação foram os teóricos Karl Marx, nascido na Prússia, e Friedrich Engels, nascido na Alemanha. Juntos, eles formularam o chamado Socialismo Científico ou Marxismo, que se difundiu por vários países do mundo.

Acontece que, ao final da Segunda Guerra Mundial, ainda sob os escombros morais e humanos que aguardavam pelo processo de reconstrução e reorganização do planeta, no campo geopolítico de duas nações iniciou-se um movimento de neocolonialismo, a chamada Guerra Fria. De modo que essa conjuntura configurou uma bipolaridade no mundo, ou seja, Socialistas e Capitalistas, liderados respectivamente pela União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e os Estados Unidos da América (EUA).

O que significou uma defesa fragorosa dos possíveis benefícios de se aliarem a um lado em contrapartida aos imensos prejuízos de se aliarem ao outro. E nenhuma das grandes potências fez por menos a sua campanha de expansão imperialista. Apostaram as fichas na corrida espacial, no desenvolvimento científico e tecnológico, nas ameaças atômicas, enfim... e dentro dessa perspectiva foram arrebanhando seu contingente de apoio rumo à supremacia do mundo.

E por aqui, na Terra Brasilis, não preciso nem dizer de que lado o país ficou. O medo de que “comunistas comessem nossas criancinhas”, o mais célebre e absurdo mito antissocialista, fez com que a população rapidamente se rendesse aos apelos do “American way of life” exibido nas telas dos cinemas, criações de Hollywood. Todos queriam TV, geladeira, máquina de lavar, comida solúvel, aspirador de pó, e tantas outras novidades apresentadas nos filmes e nas revistas vindas dos EUA, como a Life Magazine; mas, rejeitavam completamente a ideia de ter sua propriedade privada confiscada pelo governo, racionamento de alimentos, uso de vestimentas iguais para todos, como acontecia na URSS e na China.

Ok. Embora não tenha sido uma escolha espontânea; mas, muito bem induzida e formulada pelos norte-americanos, desde os anos 50, o Brasil manteve seu inconsciente coletivo administrado pelas sombras da chamada Guerra Fria. No entanto, o tempo passou! Muita água correu debaixo dessa ponte. Mas, nós permanecemos olhando pelo retrovisor da história, padecendo de um saudosismo incurável.

Em 1986, pelos esforços do, então, presidente da URSS, Mikhail Gorbachev, deu-se início à Perestroika, uma política de reconstrução e abertura econômica, e à Glasnost, uma política de democratização e liberdade nos meios de informação. O que influenciou diretamente na fragmentação da URSS, em vários países autônomos e soberanos, que apesar de conflitos graves de ordem religiosa na região, não impediram o fluxo de aproximação dos socialistas com o restante do mundo.

Algo que também foi possível perceber na China, com a abertura econômica introduzida pelo partido Comunista Chinês, que está no poder há 70 anos, junto ao capital estrangeiro. Com uma ampla visão de futuro, os chineses entenderam a necessidade de serem competitivos e aproveitaram as oportunidades oriundas do supercrescimento dos “Tigres Asiáticos” (Hong Kong. Singapura, Coreia do Sul e Taiwan), seus vizinhos geográficos, para implementarem inúmeras privatizações e seu plano de desenvolvimento econômico a partir da fundação das Zonas Econômicas Especiais (ZEE’s) – Agricultura, Indústrias de Base, Industrias Bélicas, Tecnologia e Ciências - na faixa litorânea do leste.

De modo que a Guerra Fria esfriou como tinha que ser. Afinal, lideranças com tanta sede de poder não poderiam mesmo, se dar ao luxo de ficarem presas a saudosismos tacanhos. Sem contar que o mundo, tanto na perspectiva capitalista quanto socialista, descobriu-se igual. Seres humanos padecendo das mesmas mazelas, das mesmas desigualdades, dos mesmos infortúnios. As divisões sociais nunca deixaram de existir. O topo da cadeia social continua crendo com toda a força de que tem direitos suficientes para permitir a exploração da base.

Socialistas e Capitalistas foram ao espaço. Viram a Lua. Descobriram que a Terra era azul. Mas, não como fazê-la um lugar melhor para todos. De perto continuaram a apoiar violências, desumanidades, guerras. Jogando segundo seus interesses mais imediatos. Mas, felizmente, folgamos em saber, que criancinhas jamais foram servidas na ceia de ninguém, nem de nenhum “socialista”.

Brincadeiras à parte, falando bem sério, muito cuidado com esse comportamento “manada”, que segue inadvertida e irrefletidamente aos outros. Na vida devemos sempre ser o pior entre os melhores; mas, jamais o melhor entre os piores. A primeira impressão pode não ser decisiva; mas, pode exercer uma influência imensa na continuidade das relações humanas. E o que falamos tem sim, um peso gigantesco na nossa inserção social. Já dizia José Saramago, “a palavra deixou de ter conteúdo e de ter qualquer coisa dentro, é pronunciada com uma leviandade total”.

Se tudo isso acontece é porque um mal maior que a verborragia tomou de assalto as almas humanas; a inconsciência. Sem constrangimento. Sem amor próprio. Sem dignidade. Sem vergonha. É sinal de que o intelecto e a cognição se esfacelaram pela falta de uso. De tanto abdicarem do pensamento, da reflexão, da argumentação, as pessoas se confortaram na outorga do seu maior privilégio a terceiros, ou seja, o raciocínio. E por consequência abdicaram, também, das emoções, dos sentimentos. De modo que isso, talvez, explique como a desumanidade, a crueldade, a perversidade e a ignorância venham circulando tão altivas entre nós.

Não é procurando “bodes expiatórios” nos baús da ignorância histórica que vamos resolver alguma coisa. O mundo com seus erros e acertos é fruto de sua gente. Entendo que seja difícil admitir o abismo que nos distancia da perfeição; mas, não admitir só amplia a distância. “O maior pecado contra a mente humana é acreditar em coisas sem evidências. A ciência é somente o suprassumo do bom senso – isto é, rigidamente precisa em sua observação e inimiga da lógica falaciosa” (Aldous Huxley). Assim, não se esqueça, “podemos tirar o nariz de palhaço e construir algo real com nossas escolhas” (Lya Luft).  


sábado, 10 de abril de 2021

A violência das Violências


A violência das Violências

 

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

 

Queria entender o que leva uns e outros a acreditar que a exacerbação da violência resolve alguma coisa. Violência é expressão máxima da ignorância e da estupidez. O silêncio que tenta impingir é uma falácia, porque o som da violência não só é eloquente, como reverbera em ondas pelo infinito.  Talvez, o que ela consiga implementar é a desestruturação dialógica; na medida em que o direito de fala não se estabelece igualmente entre as partes.

Olhando para o Brasil e para o mundo vejo a raça humana em franca ebulição. Muitos podem pensar que essa minha afirmação é forte ou desesperançosa demais; mas, não é. Acontece que a violência não tem uma única forma, uma única expressão. Não é preciso estar de arma em punho para que a violência possa ser, assim, chamada. A violência se traduz por cada mínimo gesto que degrada, que humilha, que destrói a dignidade humana. Por isso, nesse exato momento, em cada componente da organização social no planeta, são inúmeras as violências se manifestando, em patamares distintos.

Uma breve passada de olhos nas manchetes midiáticas para encontrar as violências se repetindo, na mutilação dos Direitos Humanos. Fome. Miséria. Desemprego. Desassistência. Desigualdade. Analfabetismo. São exemplos de como a violência abraça o ser humano, sem que ele tenha oportunidade de se defender, e o expõe a condições de indigência absurdas. Porém, na medida em que as parcelas privilegiadas da sociedade não se dispõem a compreender bem a extensão do significado da violência, a tendência natural é de ela se cronificar, se naturalizar, mantendo-se cada vez mais presente e ativa.

Como bem escreveu Liev Tolstói, no romance Ressurreição (1889), “Admiramo-nos de ver ladroes jactando-se da sua habilidade, prostitutas da sua corrupção e assassinos da sua insensibilidade. Se, porém, nos admiramos, é porque estas espécies de indivíduos são restritas, e porque se movem em círculos e atmosferas que não têm contato com os nossos. Já não nos surpreende, por exemplo, ver homens ricos orgulharem-se da sua riqueza; - isto é, de roubo ou de usurpação – ou ainda ver os poderosos orgulharem-se do seu poder, o que significa violência e crueldade. Não notamos a maneira como a concepção natural da vida é desvirtuada por esta gente, assim como o é a primitiva significação de bem e de mal, e não só o não notamos, como não nos admiramos. E isto unicamente porque o número daqueles que partilham essa perversa concepção é grande, e porque nos achamos compreendidos nesse número”.

A grande questão, portanto, é que apesar da violência em si não querer fazer qualquer distinção social, a verdade é que ela acaba tendo um impacto muito maior nas parcelas menos favorecidas. Afinal, essas pessoas já nascem marcadas pelas violências imputadas pelas negligências do Estado. São elas que vivem sob o cotidiano das linhas do fronte. Totalmente expostas e vulneráveis a todo tipo de imprevisibilidade que a vida lhes impuser.

Então, de repente, nos damos conta dos ruídos que permeiam os discursos e narrativas em torno da violência, dada a diversidade de perspectivas e pontos de vista abordados. São muitas violências dentro das violências. Entendidas e sentidas de maneiras muito singulares. Com desdobramentos e consequências, também, muito ímpares. Algumas violências custam a vida. Outras custam os bens materiais. Há aquelas que custam a paz. Enfim...

Fato é que as bolhas do individualismo dão as violências um caráter demasiadamente complexo, porque tentam de todas as formas abstrair a sua essência coletiva. Como se as mazelas de uns pudessem ser mais ou piores do que as de outros. Ou seja, ele busca retirar o senso de humanidade que reside nelas, para poder redistribuí-lo a partir do ranking que faz da própria sociedade entre seres importantes e seres desimportantes.

Nesse tipo de olhar que é lançado as violências, a empatia, portanto, é mais um elemento inexistente. Ninguém está disposto a se colocar na posição do outro para entender mais profundamente a violência que o atinge. Cada um se limita a olhar dentro do seu próprio espectro e digerir as mazelas dentro de uma pseudoautossuficiência. Uma desagregação que, no fundo, só faz fortalecer as violências. Sim, porque as pessoas começam a cultivar uma crença de que somente elas padecem daquele tipo de violência. Então, a busca por uma solução não ocorre; pois, a violência se agigantou.

Enfim, erros crassos que a própria humanidade tece ao redor de si mesma. Isso nos dá a dimensão de como as violências são hábeis na arte de enovelar a vida e tornar tudo mais pesado, mais difícil, mais sofrido. E, por isso, é tão necessário pensar que “você nunca precisará de um argumento contra o uso da violência, você precisará de um argumento para ela” (Noam Chomsky – linguista). Afinal, como disse John Lennon, “vivemos num mundo onde temos que nos esconder para fazer amor, enquanto a violência é praticada em plena luz do dia”.


quinta-feira, 8 de abril de 2021

Acabou-se a infância...


Acabou-se a infância...

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Acabou-se a infância. Ser criança nesse mundo é tão desafiador quanto para qualquer outra faixa etária. As violências parecem caçar os sorrisos doces e ingênuos com uma fúria assombrosa. A casa e a rua se equivalem em termos de maldade. Não há proteção. Não há cuidados. Não há segurança. Não há tranquilidade para ser e crescer. A vulnerabilidade infantil não escolhe mais um lado. Qualquer status social. Qualquer raça. Qualquer gênero. A vida das crianças está por um triz.    

O discurso, no qual o sofrimento infantil era só consequência da desassistência do Estado, tornou-se inconsistente. Sim, elas permanecem padecendo pela miséria, pela fome, pelas inacessibilidades socioculturais, pela violência que adultiza sem pedir licença, pelos abusos de poder.

Mas, de repente, vem à tona um outro lado dessa história. Crianças nascidas sob condições de regalias e privilégios incontestáveis estão sob as garras do fatídico, da morte. De modo que, se fez luz sobre as tramas dessa situação horrenda.

Vamos e convenhamos, que a sociedade adora dar pitaco na vida alheia e decidir sobre modos e comportamentos para se viver. Por trás das línguas ferinas, babando veneno, é que circulam há séculos protocolos e etiquetas, visando sustentar o sistema de controle e poder social. De modo que a repetição do velho mantra acabou incorporado e repassado de geração a geração, constituindo legiões de irrefletidos cumpridores.

No entanto, maternidade e paternidade é assunto, pra lá, de sério! Não diz respeito, somente, ao poder aquisitivo para sustentar um outro ser. Não. O buraco é bem mais embaixo! Antes de tudo, se precisa disponibilidade em assumir e conservar responsabilidades contínuas e de ordem afetiva, emocional, moral, ética. Um filho não é um produto que se adquire no supermercado ou na lojinha da esquina. Filho é para sempre.

De modo que, criar está longe de ser colocar no mundo, alimentar, fazer dormir, levar à escola... Criar está fundamentado em educar, em transmitir valores e princípios, corrigir os caminhos e as condutas, transformar em ser humano de fato e de direito. Certamente, que isso dá muito trabalho! Repetir exaustivamente, a fim de fazer o outro entender e absorver as palavras, requer habilidade, competência e profunda sensibilidade.

E pensando no contexto de vida contemporâneo, com tanta pressa, tantas obrigações, tanta coisa desviando a atenção, será que as pessoas estão, realmente, conscientes e dispostas a serem mães e pais? A se desdobrarem em multitarefas e papeis todos os dias? Porque, ainda que possam contar com uma rede de apoio – tias, madrinhas e padrinhos, avós, babás, empregadas domésticas etc. – chega um momento que é deles, mães e pais, entrarem em cena.

Se não existe manual para cuidar dos filhos, também não há para ingressar na maternidade e na paternidade. Esse é um aprendizado que se aprende na prática, todos os dias.

E crianças adoecem. Fazem travessura. Fazem pirraça. Pintam o sete, o oito ... Dão nó em pingo d’água. Pais e mães deveriam saber disso, muito bem, porque já foram assim, um dia. O fato é que se esqueceram, por alguma razão. Talvez, isso seja um bom indicativo de que não estejam muitos disponíveis para recordar.

Então, por que o fazem? Vaidade? Pressão social? Descuido? Irresponsabilidade? Seja qual for o motivo é uma pena. Certamente as consequências irão bater a sua porta. Haverá frustração. Haverá desencanto. Haverá impaciência. Haverá negligência. Haverá abandono. E..., de repente, violência. Emocional. Física. Moral. Cientes de que são os mais fortes na relação, eles não irão titubear em fazer prevalecer o seu poder e as suas vontades.

E o que faz a sociedade brasileira em relação a tudo isso? Não vejo as pessoas se preocuparem com as estatísticas da mortalidade infantil no país, exceto quando algum caso de assassinato ganha repercussão nas mídias. Não vejo uma busca das pessoas sobre os números e as condições de vida das crianças abrigadas nos centros de acolhimento institucional, exceto por quem está na fila pela adoção de alguma delas. Não vejo uma cobrança das pessoas em relação à preservação dos direitos de todas as crianças brasileiras, sem exceção.

Parece que criança no Brasil, não tem status de cidadão. Que não é responsabilidade coletiva da sociedade a garantia do seu bem-estar. É como se a sociedade estivesse se abstendo de pensar no amanhã. Crianças crescem; pelo menos, as que sobreviverem as agonias de todo o absurdo de desassistências e omissões. E certamente, uma grande maioria delas, não vai reagir e se comportar com afeto e misericórdia em relação a esta sociedade que lhe virou as costas, lhe abandonou sorrateira e silenciosamente.

É fácil a sociedade estigmatizar os problemas sociais dentro dos círculos de poder aquisitivo, ou seja, pobres e ricos. Mas isso é balela! Eles só se tornam mais e mais visíveis, justamente, na intersecção que existe entre eles. Porque o ser humano é humano antes de ser rico, pobre, branco, negro, mestiço, gay, homem, mulher. Portanto, a forma que encontram para desconstruir os seus infortúnios existenciais e dar-lhes novos significados encontram-se em uma mesmo cardápio de opções. Vícios. Prostituição. Furtos. Roubos. Assassinatos. Etc.etc.etc.

Então, antes de querer impor crenças e valores extraídos da sua cabeça ou de alguém, a quem quer que seja, abra os olhos e veja a vida como ela é. Retire as vendas. Abra os ouvidos para escutar. Verifique se você, também, quer exercer a sua parcela de responsabilidade sobre o que der errado na vida dos outros. Porque a continuar limitado como está, suas atitudes não passam de bisbilhotice, intromissão, falta de ter mais o que fazer. Afinal, “você tem que ser o espelho da mudança que está propondo. Se eu quero mudar o mundo, tenho que começar por mim” (Mahatma Gandhi).


quarta-feira, 7 de abril de 2021

Uma verdadeira ode à anticidadania!


Uma verdadeira ode à anticidadania!

 

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

 

Se por um lado a Pandemia jogou luz sobre todas as mazelas nacionais, por outro o próprio governo mostrou a sua imensa disposição em acirrar, ainda mais, as fronteiras da desigualdade. Começando, talvez, por um sonoro “Viva a Ignorância! ”, tendo em vista sua total inoperância em relação à Educação e a Cultura nacionais.

Dois pilares básicos da sociedade que se mantêm como alvos frequentes de desmantelamento e precarização, quando deveriam estar atuando positivamente na atual conjuntura, em favor, sobretudo, da população mais carente. Aliás, é importante ressaltar o quanto os próprios profissionais dessas áreas foram negligenciados nesse momento tão importante.

Escolas e espaços artístico-culturais foram fechados e seus profissionais demitidos. Outros tiveram redução salarial drástica, pela impossibilidade da prestação autônoma de serviços ou, simplesmente, porque suas respectivas áreas de atuação passaram a demandar um contingente menor de mão-de-obra. Mas, não se viu nenhuma iniciativa no sentido de dar-lhes algum suporte social efetivo, nesse momento.

Uma total falta de clareza e percepção sobre as demandas de um povo durante situações extremas. Olhar para a Educação e a Cultura nacionais não se restringe ao cumprimento de uma obrigação constitucional; mas, se expande por toda uma rede de amparo psicoemocional que pode gerar um benefício incomensurável para a saúde física e mental da população, inclusive, desses profissionais.  

Mas, não. A ideia foi cortar, ceifar quaisquer iniciativas e recursos dessas áreas. Nem sequer se deram ao trabalho de propor um planejamento estratégico para elas, a fim de traçar um panorama do setor em curto, médio e longo prazo. Deixando no ar, uma nítida impressão de descaso em relação a grande massa cidadã que depende da existência de políticas públicas consistentes, para melhorar a sua formação humana e laboral.

Então, eis que fui surpreendida, com um novo burburinho a respeito da taxação tributária dos livros, no país 1. Depois do brasileiro perder a vida, a dignidade, o trabalho, o arroz com feijão, agora, querem bater o martelo para que ele não tenha acesso à cultura advinda dos livros. Ler, segundo a Receita Federal, é prática para quem pode pagar, quem ganha mais de 10 salários mínimos.

Não pude deixar de fazer uma ponte imediata entre o fato e o ensino da língua materna, o qual vem mostrando resultados pífios nas avaliações de desempenho. O aluno brasileiro do ensino fundamental e médio conta com 5 aulas semanais de Língua Portuguesa. Nelas são estudadas Fonologia, Morfologia, Sintaxe, Semântica e Estilística, a partir de atividades didático-pedagógicas, teóricas e práticas, propostas em materiais utilizados pelo professor.

Olhando assim, superficialmente, tudo parece adequado. Mas, então, por que o desempenho está sempre aquém das expectativas? Porque, para conduzir qualquer aluno da alfabetização para o letramento seria necessário que ele pudesse ler, muito além daquilo que é propiciado naqueles 50 minutos de aula, recheados de interrupções diversas.

Só que entre dever e poder há um abismo gigantesco. São muitos os obstáculos nesse processo. Primeiro, que nem todas as escolas do país são dotadas de bibliotecas ou espaços de leitura bem organizados e estruturados com acervos, frequentemente, atualizados.  

Segundo, a questão do cumprimento do planejamento curricular da disciplina de Língua Portuguesa. Ressalvadas raríssimas exceções, as escolas brasileiras ainda se prendem, com muita veemência, aos aspectos gramaticais da língua, ao contrário de abordagens que busquem a construção de um conhecimento holístico da mesma. De modo que a leitura se torna desprivilegiada na distribuição da carga horária.

E, por último, mas não menos importante, porque os alunos, na sua grande maioria, não têm condições financeiras para cultivar o hábito de ler. O custo dos livros no Brasil, ainda, é muito elevado para que todas as pessoas possam adquiri-los.

Infelizmente, o salário mínimo, conforme descrito na Constituição de 1988, vive a sina de uma insuficiência crônica. Ele mal consegue suprir direitos fundamentais básicos. Entre alimentar o corpo e alimentar a inteligência, a primeira opção sempre acaba vencendo. O que significa que a impossibilidade de ampliação da leitura é só a ponta do iceberg, porque, certamente, eles também não têm acesso aos cinemas, teatros, salas de concerto, shows e todo tipo de expressão artístico-cultural, que deveria compor, também, a sua formação educacional.

De modo que a pretensão do governo, em relação à Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), com alíquota de 12% em substituição aos impostos PIS e Cofins 2; bem como, a perda da isenção dos atuais benefícios fiscais concedidos ao mercado livreiro, tende a ser uma “pá de cal” na formação cidadã brasileira. Uma verdadeira ode à anticidadania!

O pior é que atitudes assim, apesar de repulsivas e indigestas, não surpreendem diante das recorrentes posturas do governo. O problema é perceber a inação da sociedade diante de algo estarrecedor. Seu silêncio reafirma a sua conivência com a manutenção das desigualdades. Como se não houvesse constrangimento algum em saber que os direitos fundamentais nesse país só podem e devem ser desfrutados pelo topo da pirâmide social.

Aquilo que lhe fizeram no passado colonial, hoje, o país refaz com sua própria gente. Explora. Humilha. Dilapida. Mas, apesar de tudo isso, ele não conseguiu mover um centímetro que seja a simpatia do mundo. Cada vez menos desenvolvido. Cada vez menos produtivo. Enquanto se firma cada vez mais pária. Cada vez mais à margem do hoje e do amanhã.



2 O PIS (Programa de Integração Social) e a COFINS (Contribuição para Financiamento da Seguridade Social) são siglas de dois tributos pertencentes à Constituição Federal, de 1988. 

Quanto dói a desolação?


Quanto dói a desolação?

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Quanto dói a desolação? Não sei se é possível mensurar tamanha abstração. Sentimentos são sentidos e cada um os percebe sob intensidades distintas. Talvez, tudo dependa da consistência humana que sustente o indivíduo. Porque humanidade não é qualidade que molde a todos de maneira única.

O fato é que, uma grande parcela de nós brasileiros, está sim, desolada. Inebriada pela perplexidade mórbida que varre o país como um furacão, computada por números que parecem cortar a alma em uma frieza aterrorizante. De repente, a dor consumiu a individualidade para se tornar propriedade coletiva, que chora por quem se conhece do mesmo modo que por aqueles a quem nunca se viu.

Fomos unidos pelo infortúnio. Ricos e pobres provando na mesma cuia o gosto amargo do fel. Porque ninguém poderia supor que as diferenças e as desigualdades possibilitariam, algum dia, juntar os extremos sob uma única bandeira. Mas, como ninguém controla o imprevisível... o mundo girou fora do compasso.

Enquanto isso, tempos de sombra e escuridão marcam a alma com as lágrimas derramadas sobre as cicatrizes de uma ferida incurável, a qual insiste em abrir e sangrar diariamente. Afinal, forças ocultas trabalham no desequilíbrio entre a vida e a morte; a tal ponto que anjos e querubins sentem-se exauridos no empenho de seus esforços e desfalecem com as mãos postadas em oração.

A desolação vai se desenhando ... Assim acontece nos campos de batalha. Mas, não bastasse a doença em si, outros caos vieram somar e superestimar a pequenez humana. Fomos abandonados à deriva. Sem plano de fuga. Sem estratégia de enfrentamento. Sem suprimentos. Sem esperanças. Sem nada. Com a roupa do corpo e um fiapo de fé, que pudesse estar no bolso, para aguardar a misericórdia da Providência Divina e, então, descobrir a grandeza da nossa própria sorte.

Por isso estamos esgotados. Não estamos vivendo. Estamos sobrevivendo. Contando dias e mortos. Absortos pela aura de energia pesada que emana das informações sobre a conjuntura da Pandemia no país. Como se nos coubesse transportar sobre os ombros o fardo pesado dessa mutilação social.

É, precisamos entender que todas as histórias humanas foram interrompidas, de um jeito ou de outro. Algumas temporariamente. Outras para sempre. Pedaços de uma vida que se conhecia se perderam pelos caminhos de uma desolação que parece não ter fim. A verdade é que faltam explicações, informações, palavras, atitudes, afeto, empatia, para tentar nos reenquadrar dentro de uma perspectiva mais equilibrada dos acontecimentos.

No momento, a imagem que melhor nos define seria de corpos flutuando no espaço ou em mar aberto. Vulneráveis pela inexistência de um porto seguro, de um ponto de apoio. Dentro de uma solidão que nos abraça asfixiando os sentidos e nos roubando o apreço pela felicidade. Corpos tão inertes e frios quanto aqueles que foram levados pelos arautos da morte.

Como gostaríamos que tudo isso não passasse de um pesadelo, de um transe! Porque a armadura de uma criatura inabalável e forte é pesada demais e só faz sobrecarregar a desolação. Quando se olha para o somatório dos dias e acontecimentos se vê, com clareza, como estamos nos afundando em camadas flagelantes sobrepostas. Tudo em nós parece desabar. Estamos em frangalhos; mas, a desolação continua testando os nossos limites.

Até quando? Mais uma pergunta a se somar a outras milhares sem resposta. Vai depender de muita coisa, de muita gente. Vai depender do visível e do invisível. Vai depender de vontade e disposição. Enquanto isso, estamos sendo forjados pela desolação. Transformados no âmago de nossa essência humana. Expostos a experimentação da maior de todas as desventuras. Promovidos a aprendizes das essencialidades da vida. 

terça-feira, 6 de abril de 2021

Viva a diferença!!!


Viva a diferença!!!

 

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

 

Enquanto o Sars-Cov-2 age de forma democrática e sem preconceitos, o Brasil vai na contramão e permanece exibindo o seu leque de tiranias e antipatias amiúde. Um verdadeiro festival de desrespeito e anticidadania, sob o apego de crenças e valores nocivos à dignidade humana. Ora, se não deu para perceber, temos questões de vida e morte urgindo entre nós e, por isso, não precisamos fomentar conflitos e deselegâncias. Aliás, nessas alturas do campeonato, quem é mesmo o Brasil na fila do pão? Ameaça global.

Tendo em vista que “recordar é viver”, nossos mais de 500 anos de história não podem ser lançados para debaixo do tapete. Somos ex-colônia de uma Metrópole europeia.  Fomos explorados até a última pepita de ouro. O último corte de Pau-brasil. A última saca de açúcar mascavo. Tratados como gente de segunda linha. Tidos como ignorantes. Puxa-sacos ávidos por um agrado da Corte. Mas, parece que não aprendemos nada com essa experiência. Porque criamos uma pseudodignidade que se fez de armadura para “pagar na mesma moeda” contra quem julgássemos inferiores; embora, nada tivessem atentado contra nós.

Nos tornamos indecentemente cruéis e perversos nas relações humanas com os negros, os mestiços, os indígenas e quaisquer outros que não ostentassem o pedigree dos “bem-nascidos” no “primeiro mundo”. De modo que qualquer detalhe na imagem ou no comportamento se transformou em pretexto de humilhação, de ridicularização, de ofensa, de violências diversas. Já que a regra de balizamento para ser “gente de respeito” era o padrão caucasiano europeu. O resto era resto.

Talvez esteja aí uma importante semente dos nossos males sociais, as aparências. Digo isso, porque o país nunca foi muito afeito a se preocupar com a índole, a disposição, o comportamento e os princípios de sua gente. Haja vista, a personagem clássica de Mário de Andrade, o Macunaíma, o anti-herói sem caráter. Por aqui, na base do “vale quanto pesa” as pessoas vão sendo conduzidas aos estratos da sociedade. Daí a existência de tantos “lobos em peles de cordeiro”.

Mas, ainda que as coisas transitem dessa maneira, há seres humanos cuja desqualificação parece mesmo marcada a ferro. Nada parece demover ou desconstruir a aversão que uns e outros dispensam em relação a eles. Ao ponto de, vez por outra, exacerbarem pelas narrativas e discursos uma verborragia abjeta, uma tecitura de considerações disformes e desumanas.

Então, me pergunto se alguma vez já se olharam no espelho? Pois é, nenhum ser humano saiu de uma linha de produção em série.

O mundo é um lugar plural. Diferenças estão por todos os lados, para marcar a necessidade que reside na diversidade. Por isso ninguém pode se considerar melhor do que o outro. Em entrevista ao jornal espanhol El Mundo, em 1998, José Saramago disse que “o problema não está em sermos diferentes. Está em que, quando falamos de diferença, de diferentes, estamos involuntariamente a introduzir um outro conceito, o conceito de superior e de inferior. É aí que as coisas se complicam”.

Isso me faz lembrar, também, a seguinte citação do filme Coração de Cavaleiro (A Knight’s Tale) 1, de 2001, “Você foi pesado, medido e considerado insuficiente”. Essa é uma maneira interessante de reflexão sobre essas questões. Aqui e ali, os seres humanos sempre colocam senões para obstaculizar, invisibilizar, depreciar, ofender, ... seus pares, quando lhes interessa por alguma razão. Portanto, o mesmo que aponta será apontado. É a lei básica do retorno. Porque ninguém está a salvo dessa prática odiosa.

É uma pena que as pessoas sejam imediatistas e se esqueçam de que o amanhã sempre vem. Você pode precisar de uma transfusão de sangue, de um transplante, de um auxílio qualquer, e o responsável em lhe servir esteja dentro daquele estereótipo que você sempre desprezou. E aí, o que vai fazer? Determinadas ideologias e convicções podem lhe surpreender cobrando um preço bastante alto. Afinal, a vida dá voltas dentro de uma imprevisibilidade total. Não há como se ter controle sobre tudo.

Já passou da hora de olharmos para as pessoas, simplesmente, como seres humanos. É preciso abolir os rótulos, as convenções, porque eles só fazem estimular e dissipar o ódio, a desagregação e a violência. O grande professor e Geógrafo Milton Santos já dizia, “a força da alienação vem dessa fragilidade dos indivíduos, quando apenas conseguem identificar o que os separa e não o que os une”. Porque essas questões elevam o peso das tensões sobre o mundo e fazem a sociedade dispensar um tempo e uma energia que poderiam estar sendo empregadas para fins mais produtivos e urgentes.

Façamos, portanto, como os franceses, “Viva a diferença! ” (Vive la différence!). Precisamos pensar sobre isso. Falar sobre isso. Até que seja possível construir um consenso com base na compreensão de que “o que fez a espécie humana sobreviver não foi apenas a inteligência, mas a nossa capacidade de produzir diversidade. Essa diversidade está sendo negada nos dias de hoje por um sistema que escolhe apenas por razões de lucro e facilidade de sucesso” (Mia Couto – E se Obama fosse Africano? E outras interinvenções).

Em suma, isso quer dizer que precisamos reaprender a arte do respeito. Por si. Pelo outro. Pelo mundo. Pela vida. Para que não seja mais preciso repetir o óbvio, ou seja, “não me mostrem o que esperam de mim, porque vou seguir meu coração. Não me façam ser quem não sou. Não me convidem a ser igual, porque sinceramente sou diferente. [...] Sou sempre eu mesma, mas com certeza não serei a mesma para sempre [...]” (Clarice Lispector).

segunda-feira, 5 de abril de 2021

Teatro de marionetes


Teatro de marionetes

 

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

 

Não faz muito tempo, as pessoas pensavam com a própria cabeça e, quando percebiam alguma necessidade de ampliar seus parâmetros de análise, contavam com a larga experiência de grandes especialistas e formadores de opinião. Uma pena que tudo tenha se transformado tão abruptamente e as pessoas se permitido conduzir pelas influências rasas de uns e outros e pelo próprio desânimo em fazer bom uso de sua capacidade cognitiva e intelectual.

Acho graça toda vez que alguém bate no peito e diz que manda na própria vida e nas escolhas que realiza. Quisera fosse mesmo assim! Só que não é. Cada vez mais vejo uma humanidade preguiçosa e insolente, destoando quilômetros da imagem altiva e arrogante, a qual tenta se investir para sobreviver nas arenas do mundo contemporâneo. Pura fachada! Na verdade, as pessoas estão mais e mais subservientes aos comandos e diretrizes alheias. Suas escolhas não são genuínas, mas um reflexo automatizado dos sistemas de controle sociais.

Se há algo que a Pós-Modernidade executou com maestria foi a elaboração de mecanismos bastante eficientes para toda essa alienação social, a começar pelas estratégias de consumo. A identidade humana foi totalmente atrelada ao TER. As pessoas não mais se entendem como seres de carne e osso; mas, como detentoras de bens, produtos e serviços. Enquanto, se digladiam por isso ou aquilo, elas pensam e refletem muito pouco, inclusive, sobre as reais necessidades do seu próprio cotidiano. Por isso, fatalmente, caem nas armadilhas dos labirintos de manipulação de desejos e expectativas sociais.

O que tem um caráter extremamente profundo porque atravessa não só a sua imagem corporal, mas, também, atinge o seu pensamento. Isso quer dizer que elas são levadas a abdicarem voluntariamente do seu protagonismo social para serem massificadas dentro de padrões de consumo, de imagem e de comportamento preestabelecidos por outros. E quem seriam eles? Certamente alguém com passe livre no universo midiático. Alguém que já se transformou em um produto vendável e rentável para o sistema social.

De modo que as escolhas, as vontades, a autonomia dos indivíduos desaparece, como em um passe de mágica, diante da sensação inebriante que essa influência alheia é capaz de exercer sobre a grande massa. Portanto, a humanidade está nas mãos dessas pessoas seja para o Bem ou para o Mal. Elas passaram a ser a referência existencial para milhões de seres humanos; sobretudo, adolescentes e jovens adultos.

De bens de consumo duráveis a não duráveis, ideias e opiniões, essas pessoas utilizam as Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs), por meio das redes sociais, para girar as rodas do mundo entre os diferentes estratos sociais. O que acirra a competitividade; mas, também, a exclusão em um mundo já tão fragmentado pelas desigualdades. O pior é que, ao olhar para os lados, pessoas estão se tornando cada vez mais iguais na forma e no conteúdo.

Porque ao se absterem do comprometimento natural com as obrigações e os desafios de sua própria vida, elas estão se permitindo projetar na ilusão bem-sucedida de vidas alheias. Um recanto de aparências extraordinárias que não condizem necessariamente com a realidade. Temos que concordar que ninguém tem uma vida de script, sem altos e baixos. No entanto, essa nuvem de aparências se torna mensageira de sonhos, de promessas, de pensamentos, de um mundo idealizado. Algo que os faz sentir plenos de uma pseudoautonomia e autoralidade em relação a si mesmos. Assim, se exibem descolados, espertos, integrados ao movimento fluido de uma sociedade que, no fundo, se esfacela.

Mas, apesar de tudo isso, não raras as vezes, são contrariados nas suas convicções, por conta das tentações financeiras que lhes silenciam os posicionamentos pessoais. Dizer que só fazem o que querem e quando querem, não é a realidade em si. Eles acabam sendo embrulhados no pacote do sistema, que funciona assim, pelo princípio da impessoalidade, da fragilidade no senso humano. No fundo, todo esse processo relacional entre os seres humanos não passa de um verdadeiro teatro de marionetes, o qual não se constrange, em absoluto, por fazer pessoas suas peças de encenação.  

Seres sem vida própria, ao contrário do que tentam afirmar. Não escolhem nada; são escolhidos. E apegam-se aos seus fios de controle como uma tábua de salvação, pelo temor de que sem eles pudessem ser lançados aos infortúnios da invisibilidade e da desimportância social.  Sim, porque as carências subjetivas do mundo são tantas e tão pesadas que se tornam as maiores responsáveis por intermediar esses movimentos cruéis e perversos.

O pior de tudo, talvez, seja constatar que essa carência tem nos conduzido ao nível mais dramático da estupidez e da solidão materializados. O ser humano está perdido. Não sabe mais quem é. O que gosta. O que quer (ou se quer). Enfim ...

De modo que precisa existir uma reflexão responsável a respeito disso, porque as consequências destrutivas tendem a se acentuar, no Pós-Pandemia. O mundo, a ser reconstruído depois do tsunami viral que vem varrendo o planeta, estará sim, mais desigual, mais pobre, mais conflituado, com suas necessidades emergindo a partir de outras perspectivas e expectativas.

É imprescindível compreender que as pessoas necessitarão se reposicionar diante da vida. Não haverá manuais, protocolos, elaborados e prontos a serem seguidos. Cada um vai ter que usar o bom senso. Vai ter que pensar com a própria cabeça. Vai ter que influenciar o seu próprio caminho se quiser sobreviver as adversidades e seguir em frente. Para a alegria de uns e tristeza de outros, as marionetes, enfim, terão que se transformar em gente de carne e osso. 

domingo, 4 de abril de 2021

Páscoa


PÁSCOA

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

É preciso entender que a Páscoa não é só mais um feriado no calendário ou, simplesmente, um rito de fé com tempo estabelecido para acontecer. Não. Trata-se de um processo de consciência e amadurecimento sobre o nosso papel enquanto seres humanos e cidadãos que convivem e coexistem no mundo. De modo que ela exige uma disponibilidade e um desapego existencial que não cabe só em palavras ditas da boca para fora. Páscoa é exercício humano imaterial, subjetivo, constante.

Deveríamos nos perguntar diariamente, então, qual a extensão das nossas aspirações em relação as liberdades e as transformações, para sermos capazes de mensurar nosso engajamento pascal. Porque a quantidade de ovos de chocolate adquiridos e distribuídos em almoços entre amigos e familiares não sustentam algo tão profundo. Especialmente, em tempos tão adversos como o que estamos vivenciando agora.

Ora, estamos sob o jugo de um inimigo desconhecido e invisível. Oprimidos violentamente por uma torrente de incertezas e medos. Transitando o calvário das dores e dos sofrimentos humanos. Solícitos pela piedade maior que nos possa libertar e conduzir para caminhos menos angustiantes. São muitos os flagelos que arrastam para o infortúnio as vidas. Males de gente. Males do mundo. 

Há mais de um ano a raça humana tem tido a oportunidade de praticar a reflexão e criar condições para elaborar em si um sentido para a Páscoa. As adversidades costumam ser bons terrenos para florescer o entendimento mais profundo, porque revolvem as certezas, desconstroem as pseudoestabilidades, desnudam a essência do ser e cortam na carne as vaidades e as paixões mundanas. De modo que isso oportuniza um diálogo silencioso entre nós e nossas expectativas diante da vida.

Mas, em face da realidade que vínhamos desenvolvendo até então, um mundo repleto de apelos materialistas, individualistas, consumistas, sob uma intensidade absurdamente frenética, parece pouco provável que o contingente disposto a experimentar uma mudança de rumo seja expressiva. Contudo, apesar de essa não ser uma tarefa nada fácil de enfrentar, nunca ela foi tão necessária.

Afinal, a Páscoa que se propõe celebrar, diariamente, dentro de cada um, demanda pelo recolhimento e desaceleração, para tornar possível ver com mais clareza a si e ao mundo. Esse panorama é que permite perceber e construir as escalas de prioridade, a fim de que melhorias possam ser consolidadas dentro dos espaços pelos quais circulamos. E nesse momento, isso se aflora de uma maneira muito particular. Os seres humanos precisam se redescobrir, saberem quem realmente são, para poderem se posicionar e seguir adiante no Pós-Pandemia, quando nada será como antes. 

Então, que não somente hoje, a Páscoa possa iluminar nossos pensamentos e fortalecer o nosso entendimento de que “não existe nenhum passeio fácil para a liberdade em lado nenhum, e muitos de nós teremos que atravessar o vale da sombra da morte vezes sem conta até que consigamos atingir o cume da montanha dos nossos desejos” (Nelson Mandela). Mas, também, que nos proporcione admitir que “dá para renascer várias vezes nesta mesma vida. Basta desaprender o receio de mudar” (Martha Medeiros).


sábado, 3 de abril de 2021

A atemporalidade de Judas


A atemporalidade de Judas

 

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

 

Dizem que é dia de “malhar o Judas”. Então, eu percebo como mais de 2000 anos de história permanecem confusos e nebulosos por aí. Judas errou. Depois de trocar a vida do grande amigo por algumas moedas de prata, em razão da inveja que nutria por ele, sentiu o peso do remorso e se suicidou.

Mas, já parou para pensar que ao retirar a própria vida, ele fez como Pilatos e lavou as mãos? Sim, porque tal atitude foi uma forma prática que ele encontrou tanto para apagar quanto para se abster dos seus erros e não ter que conviver com a culpa. Delação. Inveja. Beijo traidor. Recebimento de vantagem financeira. Como justificaria algo tão injustificável?

Olhando, então, para esse século XXI que nos abraça, essa ideia da execração pública do “traidor”, tanto tempo depois, não é necessariamente a discordância ou o desconforto diante dos fatos ocorridos; mas, um modo peculiar que o ser humano contemporâneo encontrou para disfarçar (ou expiar) seus próprios erros, lançando luz sobre o alheio.

Até parece que o perfil de Judas seria uma exceção nos dias de hoje! Há pelo menos uma centena em cada esquina, tentando levar alguma vantagem na vida, da pior forma possível. O ser humano tem se vendido com uma facilidade extraordinária. Os séculos só fizeram contribuir com uma ascensão gritante do TER e, por essa razão, as pessoas entregam seus princípios e valores em um verdadeiro mercado de escambo.

E é nessa reflexão que deveríamos nos ater. Afinal, o que acontece de bom ou ruim no cotidiano é porque encontra respaldo. Quando olho para a figura de Judas, percebo com imensa clareza traços de uma humanidade distorcida que ainda reside dentro dos campos sombrios da alma. De perto, bem de perto, o ser humano parece não ter nenhuma vocação para ser o “mocinho” da história.

De um jeito ou de outro, ele acaba tendendo a escapar do fascínio da perfeição. Tornando-se um rebelde, com ou sem causa, que se agita pela adrenalina da transgressão. Ultrapassar limites. Testar a paciência dos outros. Abusar das regras sociais. Enfim... mesmo sabendo, que pode se dar muito mal. Que vai se arrepender. Que vai ter que se explicar. Que vai ter que pagar pelos erros.

Ah; são tantos os exemplos por aí! Já deu uma passada de olhos nos noticiários do dia? Leia com atenção. Nas linhas e entrelinhas sobre anônimos e famosos. Porque os Judas contemporâneos, nem sempre se mostram escancarados; há uma certa sutileza, às vezes, no seu modus operandi. Mas, no fim das contas, Judas são sempre Judas e a “tentação” acaba lhes vencendo.

Especialmente em um país tão pródigo como este. Lembrando só, que pecado é pecado; embora, há quem insista em fazer-lhe gradação para minimizar a própria culpa. Então, vez por outra, nos deparamos com enxurradas de arrependimentos tardios, os quais são totalmente inócuos, como o próprio Judas nos mostrou.

Judas é, portanto, a personificação da má escolha. Totalmente ciente do certo e do errado, do bem e do mal, ele se permitiu cruzar a fronteira. Dizer que ele foi “tentado” é só uma tentativa de atenuar o seu instinto, a sua vontade, a fim de eximir e diluir o peso das responsabilidades. E isso acontece com certa frequência, porque, cada vez mais, as pessoas abdicam das suas convicções, da sua consciência, para agradar e pertencer ao grupo, ao coletivo social, ou a algum interesse particular.

No entanto, o resultado final é sempre a solidão. Os Judas acabam sempre banidos, alijados da sociedade. Consumidos por suas péssimas decisões. Pode ser que não aconteça de primeira, mais vai acontecer, mais dia menos dia vai. Porque a humanidade não dispõe de muita paciência para conviver com espelhos que possam revelar alguma imperfeição que ela não deseja mostrar.

Assim, tendo em vista tudo o que permeia a personalidade tão discutível dessa figura chamada Judas, que tal um mergulho na seguinte reflexão do escritor Mia Couto, “As pálpebras limpam os olhos de poeiras. Que pálpebras limpam as poeiras do coração? ” (Na Berma de Nenhuma Estrada e Outros Contos). Porque a humanidade, mais do que nunca, precisa dar uma solução para tantas sujidades armazenadas nas almas; a fim de que, o mundo possa ver, não pela perspectiva de Judas, mas de sua própria, os caminhos pelos quais deve seguir.


quinta-feira, 1 de abril de 2021

E não é que as mentiras cresceram!


E não é que as mentiras cresceram!

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

É; a que ponto chegamos! 1º de abril perdeu seu status lúdico e divertido. A sociedade não precisa mais de um dia no calendário para diversão coletiva, quando desfruta de 365 para esbanjar nas Fake News. Sim, as mentiras se aprimoraram e ocuparam espaços no cotidiano. Perderam a ingenuidade inofensiva para tornarem-se mecanismos de destruição social. O que a Pós-Modernidade fez!

Sob a batuta das Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) a disseminação das inverdades ou verdades distorcidas ganhou um terreno fértil para prosperar. Um toque na tela dos celulares, i-pads, i-pods e afins e o fluxo de notícias confunde a realidade. A tal ponto que foi necessário criar veículos de checagem de informação para evitar consequências desastrosas. Os limites se esgarçaram tão completamente, que é desafiador descobrir onde começa a verdade e onde termina a mentira.

No entanto, tudo isso está longe de ser engraçado. Porque as Fake News desconhecem limites e preceitos éticos e morais. Elas são regidas por interesses escusos e nada bem-intencionados. Estão sempre em busca de extrair algum lucro das suas ações. Mesmo que isso custe o bem-estar coletivo, a saúde pública, a consciência humanitária e cidadã.

O que é extremamente grave, pois subentende-se que a mentira caiu no gosto popular. Num piscar de olhos ela saiu da condição que figurava, ou seja, uma conduta pouco apreciável e aceita socialmente, que merecia algum tipo de repreensão. Haja vista a quantidade de pessoas incumbidas e pagas para construir e promover a divulgação de Fake News diariamente, ao redor do mundo. Quem iria pensar que a mentira pudesse se transformar em profissão!

Se aconteceu é porque encontrou uma plateia cativa para lhe dar respaldo. Pessoas que estão cada vez dispensando menos tempo para uma leitura com qualidade sobre o que acontece no mundo. Porque apesar das pesquisas na área das TICs apontarem para o fato de que os indivíduos permanecem cada vez mais tempo conectados ao mundo virtual, isso não significa, necessariamente, uma proporcionalidade em relação ao aprimoramento intelectual dessa conexão.

O volume de informações que circulam é tão absurdamente incompatível a sua assimilação que o nível de atenção dispensado pelas pessoas se torna superficial. Por isso é tão fácil para as Fake News tornarem-se parte integrante e integrada desse campo minado das comunicações digitais. Elas acabam por se mimetizar ao ambiente em que estão inseridas e, quando menos se espera, são inadvertidamente incorporadas como verdade no senso comum de determinados grupos.

Ainda que o provérbio continue válido, ou seja, “mentira tem perna curta”, no que diz respeito às Fake News há uma demanda maior de apuração investigativa até poder se bater o martelo a respeito. Portanto, até que sejam efetivamente desmascaradas elas tomam um tempo precioso dos especialistas; mas, por outro lado, ganham muitas oportunidades para agir e causar estragos sobre a grande massa da população.

De certa forma, as mentiras contemporâneas têm trazido à tona uma reflexão importante sobre o universo do individualismo, tão presente no mundo. Seus criadores e disseminadores estão alheios a qualquer sentimento empático. Dentro de suas “bolhas” individuais eles não se sentem ameaçados ou perturbados em relação aos prováveis prejuízos, de diferentes naturezas e formas, causados a milhares de terceiros.

É possível pensar até, que de algum modo peculiar, alguns sintam prazer diante do poder que têm nas mãos. Ou se vangloriem pela adrenalina de uma eventual impunidade. Afinal, as Fake News são sim, um tipo de máscara que esconde rostos e intenções humanas. De seu lugar, no enigmático mundo das telas, eles controlam e manipulam a credulidade, a escolha, os caminhos que os outros devem seguir. Assim, o prazer da mentira pode se traduzir no fato de que “a felicidade é a ânsia de repetição” (Milan Kundera – escritor Checo).

Não é sem razão, portanto, que “as mentiras têm uma grande vantagem sobre os raciocínios: a de serem admitidas sem provas por uma multitude de leitores” (Alessandro Manzoni – escritor e poeta italiano). De modo que a sociedade se absolve da imprevidência pela dinâmica da vida e só entende o preço pago por isso, quando nem sempre é possível reverter o caos e os prejuízos. Talvez seja hora de nos darmos conta, então, de que as mentiras cresceram.