A marcha
rumo à escassez hídrica global
Por
Alessandra Leles Rocha
Com uma população mundial estimada
em aproximadamente 8,3 bilhões de pessoas, vivendo sob a dinâmica e as consequências
do desenvolvimento urbanoindustrial, certas questões precisam ser pensadas e analisadas
com bastante critério.
Então, diante da proximidade com
o Dia Mundial da Água, a ser celebrado em 22 de março, decidi tomar essa
questão como o ponto de partida para essa reflexão.
O desenvolvimento urbano e
industrial tem levado ao esgotamento e à contaminação das reservas de água
limpa por meio da superexploração de aquíferos, da impermeabilização do solo
que impede a recarga natural, e do descarte de efluentes sem tratamento.
Esse cenário gera escassez
hídrica ao inviabilizar o uso da água, afetando mais de 4 bilhões de pessoas ao
redor do mundo.
Veja, a falta de água potável
segura já afeta mais de 1,2 bilhão de pessoas, principalmente no Sul Asiático e
na África Subsaariana.
Países como o Afeganistão, o Paquistão,
o Irã, a Síria, o Iêmen, a Etiópia e a Somália, além de áreas na Índia, China e
outras partes do Oriente Médio, enfrentam dificuldades extremas, diante das crises
hídricas e/ou pela contaminação de diversas fontes, limitando o acesso a água
limpa para seu público.
A contaminação da água no mundo,
portanto, impacta a sobrevivência humana de forma crítica, direta e desigual,
sendo um dos maiores desafios do século XXI.
O que significa que ela não é
apenas um problema ambiental ou biológico, mas um reflexo da desigualdade
social, da negligência institucional e da injustiça ambiental, onde as
populações vulneráveis pagam o preço mais alto.
Não é sem razão que milhões de
pessoas morrem anualmente devido a doenças veiculadas pela água tais como a cólera,
as diarreias, a hepatite A e a febre tifóide.
A contaminação por agrotóxicos e
metais pesados causa doenças crônicas
como câncer, disfunções
hormonais e problemas neurológicos.
Isso acontece devido ao fato de
que os processos convencionais das Estações de Tratamento de Água (ETA) e
Esgoto (ETE) foram projetados majoritariamente para remover matéria orgânica,
sólidos suspensos e coliformes fecais (bactérias), não sendo eficazes para
toxinas complexas ou contaminantes emergentes.
Desse modo, alguns patógenos são
resistentes aos processos biológicos e à cloração convencional, podendo sobreviver
ao tratamento e serem lançadas em corpos hídricos.
Em relação aos agrotóxicos, pesticidas
e/ou herbicidas, dada a sua composição complexa, eles passam direto pelos
tratamentos biológicos e físicos de decantação e filtração convencionais.
Mas, talvez, o pior seja em
relação aos metais pesados, tais como Chumbo, Cádmio, Mercúrio, que não são
biodegradáveis.
Eles se acumulam no lodo da ETE
ou passam pela ETA. A remoção exige processos físico-químicos específicos como
a precipitação e a troca iônica, que nem todas as estações possuem.
Além disso, não se pode esquecer que
além dos itens já apontados, os processos se mostram falhos em relação aos resíduos
de medicamentos, ou seja, antibióticos, antidepressivos, anticoncepcionais,
lançados inadvertidamente na rede pluvial e de esgoto, e os produtos de higiene
pessoal como microplásticos e os filtros solares.
Portanto, apenas o tratamento
primário, que é físico, e o secundário, que é biológico, não basta. É
necessário investir em filtração por membranas, ou seja, ultrafiltração, osmose
reversa, ozonização e/ou Processos Oxidativos Avançados (POAs) para degradar
agrotóxicos e eliminar os vírus.
Mas não bastasse esse cenário, a
oferta de água limpa no planeta está ameaçada também pela captação intensiva de
água subterrânea para abastecer indústrias e populações urbanas, causando o
rebaixamento do lençol freático e fazendo com que os poços sequem e os reservatórios
naturais demorem séculos para se recuperar.
Ao se considerar que a
industrialização na perspectiva do avanço tecnológico e da inteligência
artificial (IA) afeta radicalmente a já precarizada oferta de água limpa no
mundo contemporâneo, tem-se um catalisador imediato para a consolidação da
crise de escassez hídrica ainda no século XXI.
Talvez, muitos não saibam, mas a
IA facilita a transformação da água em um ativo financeiro ultra precioso.
Softwares de monitoramento
permitem que empresas privatizem a gestão hídrica com precisão matemática,
transformando o que deveria ser um direito humano em uma mercadoria
algorítmica.
Isso retira o controle da gestão
da água da esfera pública e entrega a algoritmos focados em lucro.
E a razão disso está no fato de
que a IA exige uma infraestrutura física massiva, com grandes Data Centers, os
quais consomem milhões de litros de água potável diariamente para resfriar os servidores.
Estima-se que os grandes centros
podem consumir até 5 milhões de galões, cerca de 19 milhões de litros/dia, o
equivalente ao uso de uma cidade de 10.000 a 50.000 pessoas, porque a água é
essencial para o resfriamento evaporativo, sendo o método mais barato do que o
uso de eletricidade para dissipar o calor gerado pelos servidores.
Isso cria um conflito
distributivo, a água que abastece as comunidades locais é desviada para manter
a nuvem cibernética.
De modo que tudo isso representa,
então, a priorização do capital digital sobre as necessidades biológicas
básicas, ou seja, um fator de transformação nas relações de poder e cidadania.
A instalação de data centers em
regiões de escassez hídrica gera uma competição direta com o abastecimento
público e a agricultura.
Assim, o esgotamento de fontes
locais aumenta o risco de doenças em comunidades com acesso já precário à água.
Dizia o médico e escritor João Guimarães
Rosa, “A água de boa qualidade é como a saúde ou a liberdade: só tem valor
quando acaba”.
Então, se quiser ter uma dimensão
do que pode acontecer à humanidade por conta desse movimento de escassez
hídrica em curso, basta disposição para parar, pensar e refletir.
Se precisar de auxílio, assista aos seguintes filmes: Mad Max: Estrada da Fúria (2015), que mostra um futuro pós-apocalíptico onde a água é controlada por tiranos, Wall-E (2008), uma animação que retrata uma terra coberta de lixo e sem recursos naturais, incluindo água, 007 - Quantum of Solace (2008), que aborda a privatização e o controle da água como tema central de um golpe político, e Waterworld - O Segredo das Águas (1995), que retrata a escassez de água doce potável, A Lei da Água (2015), documentário que foca no Código Florestal Brasileiro e sua relação direta com a crise hídrica no Brasil, O Futuro das Águas: Desafio do Século (2022), documentário que trata da competição global pela água potável e os riscos de conflitos.


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