Uma escolha
pessoal e intransferível
Por Alessandra
Leles Rocha
Idealizações, expectativas,
intenções, ... tudo isso é muito importante para nos motivar a transformar sonhos
em realidade. Acontece que se não colocar a mão na massa, não mexer o doce na
panela, não colocar o bloco na rua, não agir, a vida não sai do lugar.
Quando penso em todas as
manifestações reais e virtuais que vêm acontecendo nas últimas semanas, sinto
uma alegria e uma energia incomensurável. Afinal, a atitude que se apresenta nesses
cenários, além de dar cada vez mais forma à materialização de um propósito, ela
traduz uma apropriação fundamental da consciência cidadã.
Aos que ainda não tem esse
conceito muito claro, a cidadania fala bem mais do que sobre um conjunto de
leis escritas, mas sobre uma identidade social e política que define o grau de
pertencimento, de dignidade e de participação de um indivíduo em uma
coletividade ou Estado-nação.
Dada a nossa historicidade
colonial, a cidadania sempre se mostrou enviesada e descaracterizada da sua gênese.
Isso significa que no Brasil ela não se consolidou de forma universal e plena
como na sua origem teórica, sendo historicamente marcada pela exclusão social,
pelo privilégio de elites e pela concessão de direitos de cima para baixo.
Contudo, o tempo, o Senhor das
Horas, ao longo desses pouco mais de 500 anos, esteve silenciosamente
trabalhando na desconstrução dessa distorção. Afinal, certas crenças foram parar
no inconsciente coletivo como verdades incontestáveis e precisavam ser
abolidas. Quer um exemplo?
Historicamente, o acesso a
garantias civis, políticas e sociais era restrito aos detentores de poder
econômico e político. Em muitos períodos da história brasileira, os direitos
foram condicionados à inserção formal no mercado de trabalho ou à posição
social, excluindo grandes parcelas da população marginalizada.
É bom que se diga que, enquanto o
conceito ideal de cidadania nasce da luta do povo por direitos que limitam o
poder do Estado, a historicidade brasileira frequentemente mostra o Estado
outorgando ou limitando direitos para controlar a sociedade. De modo que primeiro
vieram os direitos sociais concedidos pelo Estado, depois os políticos e, por
fim, os civis.
Isso explica porque motivo muitas
pessoas sentem como se os direitos existissem formalmente na lei, mas não são
vivenciados na prática pela maioria da população, pois faltou a base da luta
social para consolidá-los como inegociáveis. Veja, se o povo não lutou por
aquilo, ele não reconhece o direito como uma propriedade sua. Para muitos, é como
se os direitos fossem uma concessão do governo, e o que o governo dá, ele pode
tirar sem forte resistência.
Além disso, a lei por si só é
apenas tinta no papel. O que faz ela funcionar é a pressão constante das ruas,
dos sindicatos, dos movimentos e da opinião pública. Sem essa base ativa, as
instituições enfraquecem a fiscalização. Por isso, em sociedades sem histórico
de forte mobilização, as pessoas tendem a naturalizar as injustiças, achando
que as coisas sempre foram daquele jeito ao contrário de exigir o cumprimento
da legalidade.
Então, diante de uma eleição que transcendeu
a ideia de uma disputa político-partidária ou da simpatia por esse ou aquele
candidato, para ser um momento de escolha entre a Democracia e a Antidemocracia,
a Soberania e a Anti-Soberania, a Cidadania e a Anticidadania, a apropriação da
consciência cidadã aconteceu. Por quê?
Porque a campanha eleitoral se tornou
um embate sobre valores estruturais; sobretudo, a partir dos discursos
circulantes que apontaram para o risco às próprias regras do jogo democrático e
às garantias institucionais, e não apenas a alternância de poder.
Quando o 1º turno eleitoral não
conseguiu apontar um vencedor ao cargo de Presidente da República e os dois
candidatos alçados para o 2º turno mostraram uma diferença de apenas 1,87%, ou
seja, 2.227.651 votos, veio à tona o fato de que diferentemente das pautas
conjunturais, que mudam conforme o governo da época, era preciso uma reflexão
em torno de valores que estruturam a própria identidade e o funcionamento do
sistema político nacional.
E para iniciar essa transformação
de ideias era preciso incluir o cenário de abstenção, votos brancos/nulos, que
somaram 24,63% do eleitorado apto. Afinal, os valores estruturais na política afetam
a coletividade e não apenas esse ou aquele grupo, porque eles servem de base
para a criação de leis, políticas públicas e instituições que moldam a vida de
todos os cidadãos.
Na medida em que essas pessoas
começaram a se apropriar da sua consciência cidadã, a descobrir o antagonismo
propositivo das campanhas, que disputam o 2º turno houve, um deslocamento da
apatia, da inação, da indiferença, para um movimento de atitude democrática e
civilizatória, que vem surpreendendo não só o Brasil; mas, o mundo.
Sim, está em curso um processo de
despertar político e de engajamento democrático, em que a conscientização leva
os indivíduos a abandonarem a passividade e a agirem na esfera pública, cujo
ponto alto e fundamental será com o voto na urna, participando da chamada Festa
da Democracia.
É ali, naquele espaço da cabine
eleitoral, que irá se materializar a soberania popular, permitindo que a
conscientização política saia do campo das ideias e se transforme em poder real
de decisão sobre o destino do país. É desse movimento, dessa atitude pessoal e intransferível,
que se reafirma a conscientização sobre os problemas sociais e o modo como as
decisões políticas impactam diretamente a vida cotidiana de cada cidadão.
Que se abandona, de vez, a passividade,
fazendo a transição do papel de mero espectador para o de agente ativo, que
discute, cobra e acompanha a gestão pública. Porque o voto não é apenas uma
obrigação legal, mas o instrumento mais legítimo de prestação de contas e
renovação política. O que significa que essa renovação vai muito além da
simples troca de nomes ou partidos no poder. Ela exige o compromisso com
reformas estruturais éticas e sustentáveis.
Porque mudar por mudar pode gerar
instabilidade. Geralmente motivada por pressões políticas de momento, vaidade
de novos gestores ou pressões de mercado sem diagnóstico, a mudança aleatória e
inadvertida gera retrabalho, insegurança jurídica, ansiedade nas equipes e
desperdício de recursos.
Já a transformação responsável
foca em equilibrar o crescimento econômico com a justiça social e a eficiência
administrativa. Afinal, ela entende que a eficiência e o crescimento são
combustíveis necessários, mas que eles perdem o sentido se não resultarem em
justiça social, ou seja, na redução de desigualdades, na inclusão e no bem-estar
coletivo.
Há 38 anos o voto se tornou universal no Brasil, a partir da Constituição Federal de 1988. O que significa o direito pleno de participação política garantido a todos os cidadãos adultos, sem restrições ou discriminações baseadas em classe social, renda, escolaridade, gênero, etnia ou profissão. O voto de cada indivíduo tem exatamente o mesmo peso e valor na apuração, independentemente de sua posição social ou econômica. Portanto, faça valer o seu direito, vote segundo a sua consciência, a sua escolha.


