Em tempos
de delivery, a impessoalidade é entregue na hora!
Por Alessandra
Leles Rocha
Apesar de a contemporaneidade ter
impulsionado os serviços de delivery ou entrega em domicílio, em razão da
conveniência, da transformação sociodigital e da mudança nos hábitos de consumo,
cada vez mais me convenço de que ela expôs a impessoalidade nas relações humanas.
É, de repente, esse modelo vem
substituindo o contato direto, por fluxos padronizados e automatizados,
transmitindo e aprofundando o isolamento, o individualismo, a frieza no
cotidiano. De modo que a relação comercial se tornou uma condição utilitarista,
muitas vezes resumida à entrega rápida de um pacote na portaria.
O que pouca gente se dá conta é
de que essa frieza nas interações diárias pode gerar alienação, diminuindo a
empatia e a construção de laços de confiança essenciais para uma sociedade
verdadeiramente coesa e humanizada.
Talvez, das memórias mais ternas
da minha infância estejam aquelas em que, na companhia dos meus avós maternos, íamos
ao mercado municipal próximo à residência deles, ou à feira livre, ou ao
supermercado, ou à quitandaria. Mas, por quê essas lembranças me marcaram?
Bem, em cada um desses lugares as
pessoas que vinham atender aos meus avós, fossem os proprietários ou seus
funcionários, estavam sempre com um largo sorriso no rosto, uma disposição genuína
em resolver as demandas, em tecer um agradável dedo de prosa, enfim...
E como foram anos e anos dessa convivência
contínua, laços de amizade, de respeito, de cordialidade, foram sendo tecidos
de uma maneira muito especial. A sensação era de que ao entrar nesses lugares
não estávamos só na posição de clientes, de consumidores; mas, de pessoas caras,
de verdadeiros amigos.
Nesse sentido, nunca foram
momentos rápidos, fugazes. Demorávamos, porque a conversa sempre ia longe. Mas,
tudo era tão prazeroso, tão significativo, que isso nem importava. O retorno
para casa era envolvido por uma sensação de bem-estar e plenitude, coisas que
só a pessoalidade nas relações humanas consegue alcançar.
Então, comecei a traçar essa
reflexão, porque justamente nessa semana senti na pele o dissabor da impessoalidade,
durante uma audiência no Procon, em razão de uma compra que havia sido entregue
de maneira incompleta e, tanto a plataforma de entrega quanto a empresa
fornecedora dos produtos, não quiseram fazer o reembolso do valor do produto
faltante.
Aliás, a plataforma de entrega
sequer encaminhou um representante para a audiência. E a empresa fornecedora
dos produtos manteve-se irredutível na sua posição de não responsabilidade pelo
ocorrido.
Bem, aos que desconhecem o
Direito do Consumidor, a legislação brasileira estabelece que a relação
comercial entre os aplicativos de delivery (ou plataformas digitais) e as
empresas parceiras representa uma cadeia de fornecimento, ou seja, gera
responsabilidade solidária.
O que significa que tais
aplicativos de delivery não são apenas intermediários; eles respondem
conjuntamente com a empresa parceira por falhas na entrega, na qualidade do
produto e nos pagamentos.
Entretanto, antes mesmo da realização
da audiência de conciliação, as respostas encaminhadas por eles já se mostravam
dificultando o processo de resolução da demanda, ao questionarem a sua parcela
de responsabilidade no caso, empurrando a culpa para terceiros.
Por isso, durante a audiência foram
estabelecidos 10 dias para que ambos revejam a sua posição intransigente e
cumpram o que estabelece a lei, sob pena de multa e outras sanções.
Não há como negar que tudo isso
me entristece, na medida em que demonstra uma flagrante perda da pessoalidade, da
empatia, do enfraquecimento dos laços comunitários.
A falta de contato humano direto
ou o anonimato digital é o que favorece a intransigência, a irresponsabilidade,
a hostilidade, que desumaniza gratuitamente o outro, dificultando a
solidariedade e a ação coletiva para melhorias sociais no campo da convivência e
da coexistência.
Daí a necessidade do resgate da
pessoalidade, da valorização da singularidade, da empatia e da presença
apreciada nas relações sociais. Na era
da hiperconexão e da tecnologia, a pessoalidade através da sua capacidade de
estabelecer vínculos genuínos e atuar como um indivíduo único e autêntico é um contrapeso
fundamental.
Haja vista que ela afeta a
dinâmica contemporânea ao promover a humanização das relações e melhorar a
colaboração social. Em um cenário onde muitas interações são mediadas por telas
e tendem a ser utilitárias ou efêmeras, a pessoalidade resgata a profundidade.
Afinal, os vínculos baseados no
conhecimento mútuo geram capital social e confiança, os quais são essenciais
tanto na vida pessoal quanto na profissional.
Assim, lembre-se de que reconhecer a pessoalidade do outro implica em aceitar a sua subjetividade e a sua bagagem cultural. Isso fomenta a escuta ativa e o respeito, facilitando a resolução de conflitos e a convivência em uma sociedade plural. Relações interpessoais nutridas de afeto e presença são um dos maiores preditores de felicidade, saúde e longevidade.


