Lembre-se:
“Pela maior parte da História, ‘anônimo’ foi uma mulher”. (Virginia
Woolf)
Por Alessandra
Leles Rocha
FORTE. GUERREIRA. DESTEMIDA. DETERMINADA.
RESILIENTE. INTELIGENTE. SÁBIA. LÍDER. VISIONÁRIA. ASSERTIVA. CRIATIVA.
INOVADORA. INSPIRADORA. DEDICADA. AMOROSA. TRABALHADORA. GENTIL. SOLIDÁRIA. CORAJOSA.
COMPREENSIVA. PODEROSA. INCRÍVEL.
MARAVILHOSA. ENCANTADORA. EXTRAORDINÁRIA. FASCINANTE. MANDONA. PASSIONAL.
FRÁGIL. INSEGURA. OUSADA. ...
Esses são apenas alguns adjetivos
comumente atribuídos às mulheres. Acontece que cada uma dessas palavras
representa, na verdade, um rótulo, um estereótipo, uma chancela, para a existência
feminina no mundo. Como se subliminarmente fosse estabelecido que uma mulher
para ser alguém, de fato e de direito, precisa desse tipo de legitimação
social.
Veja, legitimar socialmente uma
mulher significa o processo pelo qual determinados papéis, comportamentos ou
direitos femininos tornam-se aceitáveis, naturais ou corretos aos olhos de uma
comunidade. Daí o papel dos adjetivos. Eles atuam como um código de conduta que
define quais comportamentos são aceitáveis ou
valorizados em determinados espaços.
Por isso, a linguagem não serve apenas
para descrever a realidade. No fundo, o que ela faz é moldar o poder. A forma
como adjetivamos as mulheres, então, está diretamente relacionada à deslegitimação
feminina por meio da estereotipização.
Como se a linguagem instrumentalizasse
o uso de padrões comunicativos para invalidar a autoridade, o intelecto ou o
protagonismo das mulheres, reforçando as posições de poder que elas deveriam ocupar.
Haja vista, por exemplo, quando
uma fala feminina é rotulada como emocional, ou excessiva,
o que se tem é um processo de silenciamento estrutural que exclui as mulheres
de espaços de decisão, poder
e saber.
Essa estereotipização linguística
naturaliza a ideia de submissão e inferioridade, como um carimbo que ignora as
especificidades individuais para manter o grupo feminino em uma posição
subordinada.
Além disso, a desvalorização da
forma como as mulheres se expressam é uma forma de violência moral e
psicológica. Capaz de criar barreiras no mercado de trabalho e na liderança
social, pois a fala feminina é pré-julgada antes mesmo de seu conteúdo ser
avaliado.
Por isso, é tão necessário compreender
que os adjetivos usados historicamente
para
descrever as mulheres raramente são neutros.
A verdade é que eles funcionam como ferramentas de controle social e manutenção de posições de gênero.
Às vezes, servindo para manter o status
quo, onde o homem detém o monopólio da razão e da objetividade. Outras, reduzindo
a mulher à sua função biológica ou estética para o prazer alheio, facilitando a
desumanização e a violência a partir da sua objetificação e/ou sexualização.
Mas, o objetivo final é sempre o mesmo,
ou seja, definir quem pertence ao centro da sociedade e quem deve permanecer na
periferia, na marginalização.
E pensando sobre isso, não pude
deixar de resgatar o fato de que a literatura mundial, por exemplo, durante séculos
de hegemonia masculina, utilizou adjetivos não apenas para descrever as mulheres,
mas para delimitar seus papéis sociais e controlar sua subjetividade.
Que tal relembrar Anna Karenina de
Liev Tolstói, Capitu de Machado de Assis ou Madame Bovary de Gustave Flaubert? Elas
nos permitem visualizar o modo como a escrita masculina frequentemente oscilou
entre dois extremos para simplificar a complexidade feminina, ou seja, a
recatada ou a devassa.
Em outros clássicos, como Helena
de Troia na Ilíada de Homero, Penélope na Odisseia de Homero, Dulcinéia del
Toboso em Dom Quixote de Miguel de Cervantes, a mulher é tratada como um objeto
de troca ou um troféu de status para o homem.
A adjetivação, nesses casos, foca
no que ela provoca no observador masculino, e não no que ela sente ou pensa. Nesse
sentido, ao rotular a mulher como desprovida de lógica, a literatura masculina
legitima a manutenção feminina sob a tutela masculina.
De modo que foi graças à ascensão
da escrita literária feminina, com Virginia Woolf e Elaine Showalter, por
exemplo, é que esses adjetivos passaram a ser vistos como ferramentas de
construção de gênero, e não biológicos.
Esse salto crítico e reflexivo
permitiu que a literatura contemporânea, escrita por mulheres, não somente buscasse
re-adjetivar a experiência feminina, como deslocasse a mulher da posição de objeto,
como era descrita pelo olhar masculino, para a posição de sujeito da sua
própria história.
Assim, a escrita feminina rompe
isso ao apresentar mulheres complexas, contraditórias e reais. Ao assumirem o
protagonismo literário, essas mulheres trazem a experiência do corpo, do gênero
e da classe para moldar a narrativa.
Desse modo, temas antes
silenciados ou negligenciados pelos homens, tais como o trabalho doméstico, a
maternidade real, o prazer feminino e a violência de gênero, ganham status de
literatura séria, forçando uma revisão do que é considerado universal na arte.
Seja no Brasil ou no mundo, então,
o papel revolucionário das mulheres na literatura é que tem impulsionado todo o
processo de desconstrução dos impactos nefastos oriundos da linguagem, oferecendo
novas perspectivas essenciais à compreensão humana e da sociedade.
Elas têm utilizado a escrita,
cada vez mais, para combater preconceitos e subalternidades, criando espaços de
resistência. Diferentemente das fases anteriores, a literatura contemporânea tem
buscado focar na expressão da experiência genuína de ser mulher, sem se
preocupar com o crivo masculino.
A literatura de autoria feminina,
portanto, não apenas tem relatado, mas moldado a identidade da mulher no
cenário contemporâneo, a partir do desafio aos discursos antigos e da ampliação
dos horizontes socioculturais mundo afora.


