segunda-feira, 6 de julho de 2026

A bola fora


A bola fora

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Surpresa zero. Afinal, depois de ter perdido de 7x1 para a Alemanha, o que de fato aconteceu ao futebol brasileiro? Nada. Construímos uma carapaça de lamentações e choramingos; mas, não sacodimos a poeira e demos a volta por cima.

Não entendemos que aquele foi o cisma, a ruptura decisiva com o futebol romântico, e se quiséssemos manter as coisas no seu devido lugar seria necessária uma dose generosa de análise crítica e de reflexão.

O pior adversário é aquele que habita em você. Portanto, o pior adversário da seleção brasileira é ela mesma. Sobretudo, quando se ilude em viver de suas glórias antigas, como se o trabalho fosse feito apenas de lembranças e memórias.

Cada conquista carregou em si mesma os seus desafios, as suas conjunturas, as suas superações. Eram outros personagens, outros recortes de tempo, outros desejos e ambições. De modo que aquelas seleções cumpriram o seu próprio legado e ponto final.

Assim, quem chega tem o dever de construir o seu próprio caminho, a sua própria história, a partir do momento atual. A gestão de uma marca é um processo contínuo, o qual precisa ser reafirmado diariamente para não ser ultrapassado e superado por outras.

Talvez, por isso, carregar o peso da amarelinha seja o maior de todos. Porque se trata de uma marca que já conquistou 5 títulos mundiais, alguns deles sob o forte impacto do encantamento coletivo. E isso, inevitavelmente, gera não só uma cobrança histórica por vitórias, como uma expectativa de continuidade dessa mística.

Entendo e reafirmo que a vida não é uma receita de bolo; mas, alguns parâmetros e valores são fundamentais. A seleção brasileira para se tornar um nome de impacto entendeu desde o princípio que futebol era esporte coletivo, por mais talentos e estrelas que viessem a vestir a sua camisa.

Bastava olhar para os gramados brasileiros para entender que a escolha dos representantes canarinhos era uma tarefa difícil. Tanto que muita gente boa ficou de fora de Copas do Mundo pela simples impossibilidade numérica de convocação. Mas, as equipes nunca foram resumidas a esse ou aquele jogador.

A Seleção Brasileira na final da Copa do Mundo de 1958, por exemplo, contava com Gilmar, Djalma Santos, Bellini, Orlando, Nilton Santos, Zito, Didi, Garrincha, Vavá, Pelé e Zagallo.

Em 1962, foram Gilmar, Djalma Santos, Mauro, Zózimo, Nilton Santos, Zito, Didi, Garrincha, Amarildo, Vavá e Zagallo, na partida final. Valendo destacar que o Amarildo assumiu a titularidade após a lesão de Pelé ainda na fase de grupos. E vejam só, fomos bicampeões mundiais!

Em 1970, a lendária Seleção Brasileira tricampeã mundial teve no conjunto dos 22 convocados, a seguinte estrutura. Os goleiros eram Félix (titular), Ado e Leão. Na defesa, Carlos Alberto (capitão), Brito, Piazza e Everaldo, como titulares, e Baldochi, Fontana, Joel Camargo, Marco Antônio e Zé Maria, na reserva. Como meiocampistas, Clodoaldo e Gérson eram os titulares, e Paulo César Caju era o reserva. E no ataque, Jairzinho, Tostão, Pelé e Rivellino eram os titulares, e Dadá Maravilha, Edu e Roberto Miranda eram os reservas.

Na final da Copa do Mundo de 1994, a escalação era Taffarel, Jorginho/Cafu, Aldair, Márcio Santos, Branco, Mauro Silva, Dunga, Mazinho, Zinho, Bebeto e Romário. E no último título mundial, em 2002, o time que entrou em campo na final foi Marcos, Lúcio, Roque Júnior, Edmílson, Cafu (capitão), Roberto Carlos, Gilberto Silva, Kléberson, Ronaldinho Gaúcho, Rivaldo e Ronaldo Fenômeno.

Veja, essas escalações servem para provar que todos eram estrelas de primeira grandeza, que faziam diferença para se alcançar o objetivo final. Nenhum deles era mais ou menos importante. O time não funcionava por causa desse ou daquele jogador. Todos tinham que estar aptos, capazes de oferecer o seu melhor, para que fosse possível ostentar a identidade do seu país em campo.

Mas, o passado é o passado. Já foi. Já era. O Brasil, um dia potência futebolística do século XX e início do século XXI, não é mais o mesmo. Por isso, não dá para se ancorar nele e esperar acontecimentos surpreendentes agora.

A partir de 2006, a seleção brasileira entrou em um declínio visível, como se a sua identidade nacional tivesse sofrido uma fratura existencial. O time não demonstrava mais a sua genialidade, a sua potencialidade vitoriosa, a sua alma guerreira e combativa.

Apesar das estrelas presentes, o fracasso desse tempo deu início a um longo período de dúvidas. O ponto nevrálgico dessa deterioração parecia ser a dificuldade de adaptação tática ao futebol europeu moderno, que acabava por criar uma sensação de distanciamento entre a Seleção, o Brasil e o torcedor.

A partir dessa perspectiva, a trajetória da Seleção nas Copas do Mundo seguintes foi marcada por eliminações em fases decisivas e debates profundos sobre a perda da essência do futebol brasileiro, da desconexão com a sua identidade nacional; sobretudo, em consequência da formação de atletas focada em exportações prematuras, as quais alteraram a forma como o Brasil desempenha o seu jogo em campo.

Portanto, 2026 foi apenas mais uma bola fora. Um constrangimento desnecessário; posto que, as devidas análises e reflexões sobre os (des)caminhos da seleção nunca estiveram em pauta, para que ocorresse alguma efetiva transformação.

Dizia Nelson Rodrigues, dramaturgo, escritor e jornalista brasileiro, “O escrete é a pátria em calções e chuteiras. Ele representa os nossos defeitos e as nossas virtudes”. Pura verdade! O futebol não ocorre em um vácuo, ela absorve as características do solo onde é gestado; por isso, se às vezes ele traduz genialidade, ginga, criatividade e resiliência, da mesma forma pode, em outros momentos, refletir   a indisciplina, o individualismo, a irregularidade emocional e a propensão ao tanto fez como tanto faz.

Por essas e outras é que uma vitória ou uma derrota da equipe brasileira tende a mimetizar o sucesso ou o fracasso, na medida em que o campo se torna o teatro onde o povo vivencia suas maiores alegrias e suas mais profundas angústias.

Assim, “O futebol é a coisa mais importante entre as coisas menos importantes”, porque “Para nós [brasileiros], o futebol não se traduz em termos técnicos e táticos, mas puramente emocionais" (Nelson Rodrigues).

Daí a necessidade de refletirmos sobre essa sociedade que busca nos heróis do esporte uma compensação psicológica para suas mazelas sociais e políticas, deixando de enxergar e nomear o que significa a própria realidade do futebol e além dele.

terça-feira, 30 de junho de 2026

A humanidade e sua comoção seletiva


A humanidade e sua comoção seletiva

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Infelizmente, observando o fluxo da historicidade humana, cada vez mais me convenço de que o instinto nato de sobrevivência da espécie não dispõe, na verdade, de uma relação direta com o sentimento de comoção.

Apesar de a empatia e a solidariedade terem sido mecanismos fundamentais para a manutenção do Homo sapiens na Terra, a história, de fato, demonstra que essas emoções costumam operar de forma limitada e enviesada.

De modo que, diante de tragédias naturais ou antrópicas, o que se percebe é que a comoção se mostra totalmente assimétrica. Isso significa que a indignação pública, a empatia e a solidariedade são despertadas de forma desigual, ou seja, dependendo de quem são as vítimas, onde o evento ocorreu ou de como a mídia ou o contexto tratam o assunto.

Esse comportamento, então, revela vieses inconscientes e escolhas, muitas vezes, calculadas. Começando pelo fato de que as pessoas tendem a se comover mais com as tragédias que afetam indivíduos mais próximos de sua raça, classe social, nacionalidade ou estilo de vida.

Inclusive, em locais onde a violência ou a pobreza são crônicas, a sociedade acaba por desenvolver uma cegueira ou apatia, enquanto eventos inesperados em áreas privilegiadas geram comoção global, ás vezes, por meses.

Portanto, as vidas marginalizadas tendem a não receber o mesmo luto público que as vidas pertencentes a grupos dominantes, gerando uma reflexão crítica sobre quais vidas são consideradas importantes e quais não são.

Aí, para completar esse cenário, o destaque dado pelos veículos de imprensa e redes sociais para tais tragédias obedecer ao escrutínio dos interesses daqueles que detém os diferentes tipos de poder na sociedade. Tanto que, não é raro verificar, que em relação àquilo que gera indignação em massa seja tratado como mera estatística.

É dessa forma que a comoção seletiva constrói uma solidariedade assimétrica. Basta olhar para certos exemplos recentes. As inundações históricas na região sul do Brasil geraram uma mobilização nacional massiva, com arrecadações bilionárias, enquanto os desastres contínuos e severos causados ​​por secas prolongadas no semiárido ou enchentes nas periferias do Norte e Nordeste costumam ter menor cobertura midiática e comoção institucional.

Mas, extrapolando as fronteiras nacionais, o conflito no Leste Europeu, com a guerra entre a Ucrânia e a Rússia gerou uma onda global de solidariedade imediata, com abertura de fronteiras, campanhas de ações e forte cobertura da mídia.

Acontece que, paralelamente, crises humanitárias prolongadas, embargos e guerras civis com números devastadores de mortos e refugiados recebem uma fração ínfima da atenção global. Palestinos, sudaneses, iemenitas, congoleses, cubanos.

Milhões de vidas humanas já enfrentam deslocamentos forçados, fome severa, violência extrema, colapso dos sistemas de saúde nessas regiões, desabastecimento de recursos básicos, ausência de moradia, frequentemente exacerbados por cortes em orçamentos de assistência internacional. Mas, a gravidade alarmante dessa situação parece não existir para muitas pessoas, provando que a comoção é seletiva.

De repente, descobri que há uma relação direta entre a comoção seletiva e a necropolítica. Acontece que a comoção seletiva opera como o braço ideológico e midiático desse processo, na medida em que ela se manifesta quando a sociedade civil e os meios de comunicação reagem com indignação a algumas tragédias, ao mesmo tempo em que naturalizam ou ignoram a violência extrema e as mortes diárias que atingem populações marginalizadas; sobretudo as minorias sociais, que possuem menor acesso ao poder, recursos e representatividade, e são excluídos de maneira sistêmica  em razão das desigualdades de gênero, raça, orientação sexual, religião ou deficiência.

Desse modo, o que se tem é uma distinção tácita entre vidas que importam e vidas que não importam e sequer são passíveis de luto. Por isso, quando uma tragédia atinge setores hegemônicos, há comoção e solidariedade imediata; mas, quando os vulneráveis ​​são atingidos, a morte é banalizada como um dano colateral ou consequência natural de sua condição social.

Há uma franca desumanização desses indivíduos, como se eles pudessem ser tratados como indesejáveis ou indignos. Aí, a partir dessa estereotipização, há uma legitimação da violência. O silêncio ou a apatia diante da morte de minorias proporciona um aval social para que o Estado continue operando políticas de negligência e força bruta nesses territórios.

Nesse sentido a necropolítica, por meio da comoção seletiva, traça uma linha divisória na sociedade contemporânea demonstrando um alinhamento ideológico do ser humano em relação à desumanização.

Assim, é fácil identificar quem aceita que corpos humanos estejam sujeitos à eliminação e à violência diária, ou normalizem/invisibilizem o sofrimento diário das populações vulneráveis, ou reafirmem o processo de objetificação/coisificação, o qual facilita a manutenção das estruturas de opressão e exclusão social, porque o filtro ideológico dessas pessoas molda e traduz a narrativa para que a morte de certos grupos sociais seja vista como natural ou necessária.

Por isso, a comoção seletiva não tem nada a ver com emoção, sentimento ou lógica. Ela é fria, dura, insensível, estratégica.  Totalmente despojada de ética, de consciência, para a ser o mais cruel e perverso cálculo moral. E isso me faz concordar com Frantz Omar Fanon, psiquiatra e filósofo político franco-caribenho, “O que importa não é conhecer o mundo, mas mudá-lo”; pois, o conhecimento em si mesmo é só perfumaria. Para ser instrumento de transformação, ele precisa ser aplicado com consciência, com objetivo, com senso de humanidade. 

domingo, 21 de junho de 2026

Curaçao e seu futebol feito de valores éticos-cidadãos


Curaçao e seu futebol feito de valores éticos-cidadãos

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

É sempre muito bom, quando a vida nos surpreende! De fato, olhando para o futebol contemporâneo, a impressão que eu tinha era de que ele havia sido sequestrado pela ação da monetização e da mercantilização, impulsionada pelo capitalismo esportivo, e transformado em mero produto mercadológico.

Aí, o 999º jogo das Copas do Mundo aconteceu e descontruiu essa percepção, de maneira incrível.  Por quê? A seleção caribenha de Curaçao faz sua primeira participação nas Copas do Mundo e não somente conquistou o seu primeiro ponto, como se tornou o menor país a disputar partidas e pontuar no torneio. Depois de marcar um gol na partida contra a Alemanha, em seu primeiro jogo em Copas do Mundo, a equipe empatou em 0 a 0 contra o Equador, na noite de ontem, alcançando o seu primeiro ponto.

Mas, tudo isso pode ser considerado como a cereja do bolo. Afinal, o que causou tamanha surpresa foi algo bem mais subjetivo. A equipe de Curaçao vem demonstrando em campo o poder do simbolismo do futebol na reafirmação da sua identidade sociocultural. Cientes da sua incipiente qualidade futebolística, o desejo de se entregar de corpo e alma para a Copa do Mundo FIFA 2026, enfrentando adversários mais bem ranqueados no esporte, consagrou a força imbatível da sua identidade nacional.

A sua torcida, seja ocupando os estádios da Copa ou espalhada por diversos outros lugares do mundo, cria a Blue Wave (Onda Azul) que representa o mar azul do Caribe e os rituais ancestrais de proteção com pó azul na pele. Destacadas em seu uniforme, o azul, o amarelo e as estrelas da bandeira nacional, tem o poder de refletir a diversidade das origens do seu povo, marcado por uma rica mistura de influências indígenas e da colonização espanhola e holandesa, além de um forte elo histórico com o Brasil.

Em 2010, após a dissolução das Antilhas Holandesas, Curaçao tornou-se um país independente no Reino dos Países Baixos, o que significa que ele é totalmente autônomo para gerenciar seus próprios assuntos internos; mas, a Holanda ainda é responsável por áreas como a defesa e as relações exteriores.

Talvez, por isso, a importância de enaltecer, de destacar, a sua identidade nacional por meio da oportunidade conquistada de participar de uma Copa do Mundo. Esse momento ímpar da sua história reafirma a soberania e a cultura local, elevando o orgulho pátrio e a união social muito acima da mercantilização, dos patrocínios milionários e da exploração financeira que caracterizam o capitalismo esportivo contemporâneo.

De fato, a ascensão esportiva de Curaçao sinaliza um contraponto à realidade do recorte temporal atual. Porque ao contrário de seguir o fluxo das ligas milionárias, a coesão social e a identidade cultural formam a base de suas equipes, cuja estrutura é essencialmente amadora ou semiprofissional, priorizando o orgulho local sobre a exploração financeira. Além disso, o sucesso da equipe nacional apoia-se na convocação de jogadores com raízes locais, valorizando o sentimento de pertencimento pátrio em vez de contratações de mercado.

O que prova que a essência do futebol ainda existe e resiste. A participação de Curaçao na Copa nos lembra que o sucesso nesse esporte nem sempre está atrelado ao resultado. A comemoração efusiva da equipe pelo seu primeiro gol em Mundiais e a posterior oração coletiva no gramado com os adversários resgataram o lado mais humano, fraterno e apaixonado do esporte.

A grandeza da seleção de Curaçao está na sua capacidade extraordinária de refletir a resiliência e o orgulho de um povo ao ver a sua identidade cultural e a sua soberania reconhecidas no principal palco do esporte mundial. Eles destacaram que a união, a gratidão e a fé são os seus pilares fundamentais, demonstrando que o esporte atua como um canal para uma moral coletiva e a dignidade de sua nação.

Desse modo, com cerca de 158 mil habitantes, a participação inédita e a emoção com o primeiro gol e o primeiro ponto somado na competição não apenas mobilizaram a ilha, como encantaram o mundo. Milhões de pessoas, agora, sabem que “Curaçao é um povo pequeno, com um coração grande”, segundo o lema e o cântico da torcida "Nos ta un pueblo chikí, ku un kurason grandi".  O suficiente para pulsar de orgulho em pertencer a uma ilha no sul do Mar do Caribe.