terça-feira, 2 de junho de 2026
segunda-feira, 1 de junho de 2026
Consequências e desdobramentos da falta de fiscalização
Consequências
e desdobramentos da falta de fiscalização
Por Alessandra
Leles Rocha
Se eu tivesse que eleger uma
palavra para sintetizar o imbróglio social brasileiro, configurado pelas promíscuas
relações entre a corrupção, a lavagem de dinheiro e o crime organizado, seria FISCALIZAÇÃO.
Querendo ou não, o ato de
fiscalizar traz para a realidade um alinhamento aos limites éticos,
institucionais, sociais, preestabelecidos por normas, regras, protocolos, portarias
e legislações.
Portanto, ele não se dá por pó de
pirlimpimpim! Para que haja fiscalização é preciso indivíduos imbuídos dessa
tarefa, preparados e competentes, o bastante, para cumpri-lo corretamente.
Acontece que a fiscalização, no
Brasil, traz marcas históricas de patrimonialismo e interferência política, com
raízes desde o Brasil Império.
Sim, historicamente, não há como
negar que a estruturação de órgãos de controle sempre padeceu de dificuldades fundamentais
e de pressão, resultando em episódios recorrentes de corrupção sistêmica,
corporativismo e fragilidade institucional até a consolidação da democracia contemporânea.
De modo que diante da contemporaneidade
em si, com todo o seu discurso sobre uma liberdade plena e irrestrita, eis que a
fiscalização se tornou ainda mais esgarçada e desprezada no país. O que
significa que essa desconexão recrudesceu a impunidade, a precarização dos
direitos e a desinformação.
Infelizmente, essa falácia
prejudica a regulação em múltiplos setores, onde o poder do Estado ora se torna
excessivamente burocrático e oneroso para quem atua na legalidade, ora se
mostra omisso diante de abusos, dificultando a coibição de crimes econômicos,
ambientais e digitais.
Daí o fato de que muitos, quando
ela é aplicada, acabam sendo convencidos de que a fiscalização é sinônimo de
arbitrariedade, quando na verdade não é. Ela é somente um ato técnico,
preventivo e corretivo, pautado na legalidade.
Diante da avalanche de escândalos
que vive o Brasil, nesse momento, não deveríamos, então, nos surpreender com a dimensão
dos fatos apresentados bem diante do nosso nariz.
Se por um lado a fiscalização
permitiu descobrir o que estava acontecendo, por outro, o grande problema foi
que essa descoberta chegou com tamanho atraso que a situação em si já estava
fora de controle. Portanto, em algum ponto, em razão de alguém ou de alguéns,
por esse ou aquele motivo, a fiscalização falhou.
Aí, então, bate uma sensação
horrível de fracasso social. Porque a falta de fiscalização, infelizmente,
reflete sim um ciclo vicioso que perpetua a impunidade e o descaso, como na
velha história do cachorro correndo atrás do rabo, que não chega a lugar nenhum;
mas, traz profundos prejuízos e uma reafirmação da histórica crise antiética nacional.
Começando pela exposição clara e
contundente de que a ausência de controle abre portas para a corrupção, a sonegação
fiscal e o desvio de verbas públicas. O dinheiro que deveria ser investido em
serviços essenciais acaba perdido, gerando desigualdade e travando o
desenvolvimento do país.
Como? Sem uma fiscalização
rigorosa, as análises de serviços e gestores não são cobradas por padrões de
excelência, resultando em infraestruturas precárias e serviços ineficientes.
Algo que torna a sociedade refém
de tragédias evitáveis e de riscos à vida, na medida em que a
fiscalização frouxa permite, por exemplo, desastres ambientais, abusos
trabalhistas e insegurança nas cidades.
É, não precisa ser nenhum gênio
para entender que, quando as leis e as regulamentações são ignoradas,
negligenciadas em suas consequências, cria-se o sentimento de que o crime
compensa, e isso inevitavelmente enfraquece as instituições, corrompe a ética
cidadã e desmotiva aqueles que agem corretamente.
Assim, lembremo-nos do que dizia Jean-Jacques
Rousseau, filósofo, escritor e compositor genebrino, "Em política, tal
como na moral, é um grande mal não fazer bem, e todo o cidadão inútil deve ser
considerado um homem pernicioso".
Afinal, a omissão é tão prejudicial quanto à ação destrutiva. Aquele que se aliena da vida pública, que consome recursos sem gerar valor cívico, torna-se tóxico e nocivo porque a sua omissão enfraquece o respeito, a ética e a civilidade, permitindo que a corrupção e a desigualdade se fortaleçam e se perpetuem.
domingo, 31 de maio de 2026
Ídolos de papel ...
Ídolos de
papel ...
Por Alessandra
Leles Rocha
O Brasil vive uma rara oportunidade
de ultrapassar a fronteira da sua histórica crise ética e moral para dar vazão
à construção de uma verdadeira identidade cidadã.
Afinal, os recentes escândalos de
corrupção que se misturam com os submundos da criminalidade, em suas mais
diversas expressões, permitem a cada cidadão exercitar a sua escolha em relação
ao lado da história que pretendem ficar.
Tarefa difícil?! Talvez. Porque,
diante de pouco mais de 500 anos de história, para sacodir a poeira e dar a
volta por cima, a fim de revelar um país que, para início de conversa, tenha
respeito pela coisa pública, é preciso muita disposição.
Haja vista como apesar de tudo o que
tem sido noticiado pelos veículos de comunicação e de informação, tradicionais e
alternativos, ainda se mostrar insuficiente para conter a ausência de pudor,
vergonha ou constrangimento por parte de uns e outros que continuam a praticar
atos eticamente condenáveis.
O exemplo mais recente, envolve a
figura de um Senador da República, pelo estado de São Paulo, indicado a receber
o título de cidadão honorário de Belo Horizonte, na próxima terça-feira, 2 de
junho de 2026, sob a justificativa de se tratar de um reconhecimento pela
trajetória política dele e pela base de apoio ao partido do parlamentar
construída na cidade.
Acontece que a outorga de títulos,
como nesse caso, em que há a confecção de diplomas, medalhas, placas
comemorativas e a organização de sessões solenes, incluindo locomoção, recepção
e, por vezes, material de divulgação, geram despesas ao erário. Mas, não
bastasse isso, é preciso que seja analisado tanto os critérios de mérito quanto
de finalidade pública.
Isso significa que, em primeiro lugar,
é fundamental que qualquer homenageado possua um histórico incontestável de
contribuição para o município ou o estado que promove a homenagem; visto que, a
falta de critérios transparentes abre margem para o uso da máquina pública em
benefício próprio.
Segundo, porque a concessão deve
servir ao interesse público. Quando o
título é banalizado ou concedido por motivações políticas eleitoreiras ou de
favorecimento, tem-se o flagrante desvirtuamento da sua finalidade e o erário é
onerado de forma injustificável.
Diante disso, traçando um breve
retrospecto da trajetória pública desse Senador, as principais controvérsias que
abrem questionamentos a respeito dessa honraria giram em torno de acusações de
corrupção, lavagem de dinheiro, uso de funcionários fantasmas e aquisição de
bens incompatíveis com a sua renda.
E o mais estarrecedor, é que ele participou
ativamente de homenagens a policiais que mais tarde foram investigados e/ou condenados
por envolvimento com grupos paramilitares, ou seja, milícias no Rio de Janeiro.
Sem contar o fato de ex-assessores de seu gabinete terem laços familiares com
milicianos da zona oeste da cidade.
Aliás, isso faz lembrar uma outra
história recente, ocorrida em uma outra cidade mineira, em que uma Miss
Universo foi agraciada com o Título de Cidadã Honorária; mas, teve a revogação
da honraria após ter sido presa durante a Operação Luxo, da Polícia Federal,
sob a acusação de integrar o núcleo financeiro de uma grande organização
criminosa externa ao tráfico interestadual de drogas e lavagem de dinheiro.
Bem, já dizia o escritor italiano
Umberto Eco, “A sabedoria não é destruir os ídolos, mas nunca criá-los”.
Lamentavelmente, as desigualdades persistentes e as práticas clientelistas,
enraizadas desde o Brasil Colônia, fomentam uma cultura de privilégios que
muitas vezes se sobrepõe ao bem comum e à ética republicana.
E nessa confusão entre o público
e o privado, a troca de favores persiste em reforçar a dependência de figuras
salvadoras, quase míticas, em vez de instituições sólidas. Razão pela qual, o
poder se concentra na figura do líder ou do ídolo, e não em projetos
partidários ou coletivos.
O que permite que a histórica
relação de favor enfraqueça a cobrança por responsabilidade cívica,
transferindo para o indivíduo idolatrado a responsabilidade de resolver
problemas que deveriam ser geridos por políticas públicas impessoais.
Relembrando Doc Comparato, escritor
brasileiro, "Ídolos, super-heróis ou celebridades; todos os dias
voltamos à mitologia grega sem pensar", como se os arquétipos que
estruturaram o pensamento na Antiguidade continuassem vivos e moldando nossa
sociedade, contudo, sem darem conta da responsabilidade ética e moral que exige
a realidade dos fatos.
Por isso é tão urgente parar,
pensar e refletir. Esse fenômeno político e social que descreve historicamente traços
marcantes da cultura política brasileira e latino-americana precisa ser
superado. A antiga autodesvalorização do brasileiro que produz ídolos de papel,
impede que ele se aproprie da sua identidade nacional, do seu protagonismo
cidadão. Refletindo, de fato, uma alienação cultural que o distancia de sua
própria história e de seu potencial transformador.
Ao projetar soluções e virtudes em figuras idealizadas, o indivíduo não apenas abdica da responsabilidade de cobrar direitos e intervir diretamente na vida pública e comunitária, como permite que a idolatria cega mascare as desigualdades estruturais, reforçando narrativas de que o sucesso depende exclusivamente de esforços individuais isolados, desmobilizando o potencial da organização coletiva.


