A
desumanização nossa de cada dia
Por Alessandra
Leles Rocha
Não, não é preciso grandes
acontecimentos para se deparar com a desumanização na contemporaneidade. Aqui,
ali ou acolá, eles surgem para tirar ou negar a humanidade de uma pessoa ou de
um grupo, fazendo com que a empatia desapareça, permitindo a indiferença, a
violência e a falta de cuidado com as fragilidades e as vulnerabilidades do
outro.
O que pouca gente se dá conta é
de que a desumanização tem efeito coletivo, na medida em que qualquer um que
esteja com os pés fincados no planeta pode ser a bola da vez. Afinal, esse
processo se prolifera e se espalha diariamente, por todos os lugares. Cada um carrega
consigo uma coletânea de desumanizações sofridas cotidianamente.
A raça humana tem convivido com a
desumanização tecnológica e algorítmica, que diz respeito não só à redução de
pessoas a meros dados, números ou avatares em redes sociais, como também pelo atendimento
automatizado obrigatório que substitui o contato humano real por robôs.
Assim, essa substituição de
pessoas por chatbots em bancos, comércios e serviços públicos ou
privados, vem dificultando a solução de problemas complexos, em razão de três
limitações principais, ou seja, a rigidez dos roteiros e falhas na
interpretação de contexto, a incapacidade de lidar com emoções e a falta de
empatia, e a ausência de integração com sistemas internos para exceções.
Tudo isso faz com que o (a)
consumidor (a) precise explicar o mesmo caso várias vezes ao reiniciar a
conversa ou passar por etapas automatizadas. Especialmente, porque o sistema
automatizado muitas vezes não acessa o histórico completo ou os dados profundos
de outras áreas da empresa para resolver a raiz da falha.
Em suma, ao contrário de agilizar,
o robô atua como uma barreira burocrática que impede o acesso rápido a um
profissional capacitado e gera no (a) cidadão (ã) um nível de estresse e de
ansiedade descomunal.
Outra forma de desumanização é a burocrática
e institucional. Expressa por um atendimento frio e demorado em serviços
públicos ou privados de saúde e assistência, no qual o cidadão é exposto a um
protocolo de filas intermináveis e soluções inacessíveis.
Suas consequências mais comuns
são a transformação de pessoas em números, a perda de tempo com exigências desnecessárias
ou equivocadas e o adoecimento emocional do cidadão. Mais uma vez, a
desumanização repercutindo diretamente no bem-estar do indivíduo, a partir de quadros
profundos de ansiedade, depressão, sensação de insignificância e esgotamento
emocional.
Portanto, essa forma de
desumanização decorrente das instituições que priorizam suas próprias regras
internas ao contrário das necessidades reais das pessoas, torna o sistema mais
importante que o (a) cidadão(ã) e o atendimento perde totalmente a empatia;
pois, a burocracia vira o objetivo final, deixando de ser apenas um meio.
Nesse cenário, também, se estabelece
o desamparo social, a partir da sensação de isolamento e de que ninguém se
importa com o seu problema, da invisibilidade que reafirma ao indivíduo a perda
da sua história e, desse modo, o torna apto a ser tratado apenas como um
prontuário. Até que se chega ao mais absoluto esgotamento, decorrente de um cansaço
físico promovido por Via Crucis de longas filas acrescida pelo estresse mental
de não conseguir soluções.
Há, também, a desumanização
social manifesta pela perda de valores éticos, da empatia e do reconhecimento
do outro como ser humano. De repente, os indivíduos ou grupos são destituídos
de sua condição humana, deixando de ser vistos como seres sociais. Como consequência
se tem a manipulação das relações humanas, o colapso da coesão comunitária e o
aumento da violência estrutural.
A realidade torna-se preenchida
por uma perda da compaixão, permitindo que o sofrimento alheio passe a ser
ignorado e encarado com apatia geral. O que permite dizer que há a naturalização
do descaso, ou seja, as situações extremas, tais como a fome ou a falta de
assistência médica, tornam-se banais e desimportantes. Possibilitando uma
análise que se traduz pelo individualismo exacerbado, no qual a busca pelo
ganho privado anula o senso de responsabilidade coletiva.
Sem contar o fato de que a
desumanização social e o capitalismo dos corpos estão profundamente conectados
pela transformação da vida humana em pura mercadoria, onde o corpo do cidadão deixa
de ser um sujeito dotado de dignidade para se converter em instrumento de
produção, exaustão e descarte.
Tem-se, então, que o sistema
produtivo passe a exigir que o corpo funcione com a precisão de uma máquina,
ignorando limites físicos, dores e necessidades emocionais em favor da alta
produtividade.
Lembrando que essa exploração, em
geral, se apoia em recortes de raça, gênero e classe para definir quais corpos
merecem proteção e quais podem ser violentados ou superexplorados sem culpa
institucional.
Aí, quando o corpo perde o vigor
físico, o rendimento esperado ou a utilidade imediata para o lucro, ele é
tratado como excedente ou lixo social, sendo invisibilizado ou abandonado à
margem da insegurança social profunda.
O que explica porque é cada vez
mais comum encontrar um panorama em que as populações desumanizadas apresentam um
adoecimento generalizado, fruto de uma pressão contínua que gera fadiga
crônica, sofrimento psíquico e colapso da saúde mental e física, tratados pelo
mercado apenas como queda de rendimento, impulsionando o descarte dessas
pessoas.
Há, portanto, uma normalização da
barbárie. tendo em vista de que a lógica do ganho financeiro acima da vida
naturaliza situações extremas de descaso com a integridade física e mental nas
relações sociodemográficas.
Dizia Hanna Arendt, filósofa
política alemã de origem judaica, “Vivemos tempos sombrios, onde as piores
pessoas perderam o medo e as melhores perderam a esperança”. De fato,
quando olhamos para a desumanização em suas diferentes formas e conteúdos, entendemos
que há sim, uma inversão ética onde a audácia da crueldade substitui a
prudência, enquanto a resistência apenas sucumbe ao desânimo.
Os pequenos poderes representam
um comportamento em que os indivíduos usam uma autoridade pequena ou passageira
para agir com excesso de poder, grosseria e controle sobre os outros.
Acontece que desse ponto de
partida, os tiranos e oportunistas agem à luz do dia, transformando a violência
e a mentira em práticas comuns e aceitas. Portanto, permitindo que as leis e as
normas éticas deixem de ser respeitadas, a fim de que aqueles que cometam
abusos não temam mais a violência ou a reprovação social.
Simplesmente, o que se tem é uma legitimação da ideia de que todos os indivíduos comuns que venham a executar ações cruéis, desumanas, sejam amparados pela certeza da impunidade ou pela força do grupo. Diante disso, o desalento tende a retirar, lenta e gradualmente, a força motriz necessária para a resistência cívica e a defesa da liberdade e da dignidade humana.


