Educação
humanizada. Indicador de desenvolvimento.
Por
Alessandra Leles Rocha
Não, não há como negar que o
desenvolvimento científico e tecnológico de um país é o principal motor de
transformação de sua população, impactando diretamente na qualidade de vida, na
estrutura demográfica e no comportamento social. Acontece que esse é, em geral,
um processo que se dá de forma assimétrica na globalização.
Isso significa que em países em
desenvolvimento, os quais frequentemente implementam tecnologias após os países
desenvolvidos já o terem feito, a realidade demonstra que o resultado se
expressa por diversos ônus sociais, econômicos e culturais sem, de fato,
possibilitarem que usufruam totalmente dos bônus decorrentes desse processo.
Eu fui tomada por essa reflexão
após me deparar com a informação de que na grade curricular de alunos entre 6 e
16 anos, na Dinamarca, foi estabelecido desde 1993, o ensino de empatia como
disciplina obrigatória, conhecida como "Klassens tid" (hora da
turma).
Durante uma hora por semana, alunos
e professores se reúnem em círculo, geralmente tomando chá e comendo bolo, para
discutir assuntos, compartilhar sentimentos e resolver problemas. Portanto,
essa não é uma disciplina acadêmica e não será avaliada com nota; mas, permite aprender
a ouvir, compreender diferentes perspectivas e resolver conflitos
pacificamente.
Afinal, um dos efeitos mais
nefastos que tem sido observados na contemporaneidade é exatamente a
desumanização, decorrente da corrida pelo desenvolvimento científico e
tecnológico.
Embora a Dinamarca seja
reconhecida como uma das economias mais desenvolvidas do mundo, caracterizada
por um alto padrão de vida, forte estado de bem-estar social e baixa
desigualdade, seus cidadãos perceberam a importância de não negligenciar a
humanização nas relações humanas, dentro dos seus propósitos de desenvolvimento.
Então, eles decidiram nutrir cada
vez mais essa consciência de que as pessoas não devem serem vistas e
compreendidas apenas como dados ou engrenagens produtivas, perdendo sua
individualidade e subjetividade.
E nada melhor do que a escola
para exercer o papel multiplicador e transformador a esse respeito. Porque nesse
espaço existem todas as condições para a reflexão sobre como a desumanização
social impacta diretamente na expressão da ética, na medida em que o poder
fazer acaba atropelando o deve fazer, por conta da velocidade do avanço científico
e tecnológico.
Nesse sentido, é que países como
o Brasil, considerados em desenvolvimento, precisam olhar com atenção os
impactos do seu próprio comportamento desenvolvimentista, porque apesar de serem
expressões globais, a sua intensidade e forma variam muito devido à dinâmica de
absorção psicoemocional dos indivíduos.
Acontece que, quando um país se
dedica, quase que exclusivamente, em favor do desenvolvimento científico e tecnológico,
em nome da competitividade global, quase sempre essa dinâmica tende a inverter
a lógica da humanização social, do contato físico, do exercício da subjetividade.
E esse tipo de imersão social, no
fim das contas, gera perdas incalculáveis; sobretudo, afetando diretamente a
construção identitária e de valores dos indivíduos. Algo que se identifica pelo
individualismo, o consumismo e, por vezes, uma perda da conexão humana, afetiva,
empática.
De modo que os efeitos e consequências
disso não poderiam ser outros senão alcançar a exacerbação da beligerância, das
violências e do ódio, na dinâmica das relações sociais. Porque esse cenário potencializa
a disseminação de estigmas, de rótulos, de polarizações, e da transferência de
conflitos do ambiente virtual para o mundo físico.
Daí a corrida pelo
desenvolvimento científico e tecnológico estar sim, potencializando a inversão
da lógica do contato físico, aproximando virtualmente e afastando fisicamente
as pessoas. O que gera uma epidemia emocional, onde o uso excessivo de redes
sociais, por exemplo, resulta em relações rasas, solidão e redução da
capacidade de construção de vínculos.
Já há estudos demonstrando a
relação entre a FOMO (Fear of Missing Out - medo de perder algo) e nomofobia
(medo irracional e a ansiedade extrema de ficar sem o celular, bateria, sinal
ou conexão com a internet) e os comportamentos antissociais, agressivos e
violentos.
Alguns, inclusive, sugerem uma
relação de longo prazo entre a dependência digital e os comportamentos
agressivos ou disruptivos; pois, ela pode levar o indivíduo aos gatilhos extremos
de abstinência, como quaisquer outras drogas.
Então, enquanto o Brasil corre
atrás de uma educação tecnológica, concentrando seus esforços no acesso a
dispositivos e internet, ele deixa de perceber que muitos dos países
desenvolvidos já estão, há décadas, em um processo de revisão dos seus paradigmas
a esse respeito.
Ora, o Brasil está distante de
uma educação humanizada, focada em competências socioemocionais, valores
humanos e pensamento crítico. Desse modo, ele se vê obrigado a conviver amiúde com
o (ciber)bullying e outras violências, com a incapacidade de discutir assuntos,
de compartilhar sentimentos, de resolver problemas, e, até mesmo, lidar com
crimes de ódio motivados por preconceito e intolerância no ambiente escolar.
Já os países desenvolvidos estão,
cada vez mais, se voltando para uma formação que não se perca do humanismo, da
empatia, da coexistência e convivência harmônicas, com foco em competências
socioemocionais e de pensamento ético e crítico.
Segundo eles, a tecnologia deve
ser vista como ferramenta para personalizar o ensino, enquanto o contato humano
tem que ser valorizado para o desenvolvimento de competências comportamentais e
saúde mental.
Por essas e outras que a
construção de políticas voltadas para a Democracia, a Cidadania e a Humanização
nas escolas é considerada um indicador fundamental do nível de desenvolvimento
de um país, na medida em que reflete a capacidade da nação de formar sujeitos
críticos, éticos e ativos, e não apenas de transmitir conteúdo acadêmico.
A humanização no ambiente escolar
valoriza a afetividade, a empatia e a ética, resultando em um ambiente mais
saudável, um maior engajamento dos estudantes e uma formação integral, indo
além da lógica de mercado.
Razão pela qual os países com melhores indicadores de educação cidadã e humana demonstram maior desenvolvimento social e econômico, com populações que zelam pelo cumprimento das leis e exercem sua participação na vida pública.

