segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Parece ... Mas não é.

Parece ... Mas não é.

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

De maneira franca, clara e objetiva, a identidade é algo pessoal e intransferível, o que significa que ela pertence a apenas um indivíduo e não pode ser dada ou emprestada a outra pessoa. Dito isso, por mais que um (a) filho (a) se pareça de algum modo com seus genitores, cada indivíduo tem a sua própria história.

O que move essa reflexão advém do que está presente nas mídias sociais. As figuras de dois pais e dois filhos são o objeto de uma análise bastante importante e interessante.

No primeiro caso, o pai já foi Presidente da República. Portanto, já submeteu o seu trabalho e a sua história política ao escrutínio popular. O filho, primogênito, dada a impossibilidade jurídica do pai concorrer a um novo pleito, se colocou na disputa. Seus anos na política trouxeram uma experiência limitada ao Legislativo. Razão pela qual, ele se apega de todas as maneiras ao nome do pai como se o papel de sucessor político, de maneira automática e instantânea, fosse reproduzir também uma apropriação identitária.

No segundo caso, o pai é Presidente da República. Inclusive, está em seu terceiro mandato. O que significa que o seu trabalho e a sua história política se permitiram colocar em escrutínio popular mais de uma vez. O filho, primogênito, nunca manifestou pretensões políticas. No entanto, dado o viés político-partidário do pai, ele sempre esteve no alvo dos opositores sob alegações de alguma conduta ilícita, sem que nada fosse, de fato, comprovado.

Por quê? Porque a historicidade brasileira, marcada por um modelo colonial, consolidou uma herança política em que os poderes costumam seguir, quase sempre, o fluxo da hereditariedade familiar. Então, torná-lo objeto de contestação pública, apesar de ele não ter escolhido ocupar um lugar na vida política, se torna um modo de tentar afetar ou arranhar a imagem do pai.

Acontece que na escolha democrática, o candidato é um individuo dotado de identidade própria. O registro e a votação são baseados puramente na figura do indivíduo, não existindo candidaturas coletivas ou de listas fechadas independentes de nomes.

Cada candidato concorre sob um número e nome de urna específicos; bem como, ele responde individualmente pelo que diz, pelo que promete, por suas contas e atos de campanha. E é sobre essa figura que o eleitor deve dedicar a sua análise crítica.  

O exercício do voto consciente, na democracia, implica necessariamente em avaliar de maneira profunda e objetiva os pretensos candidatos. Verificar mandatos anteriores, projetos aprovados e coerência partidária. Investigar a existência de processos judiciais ou condenações por corrupção. Ler as propostas oficiais ou planos de governo registrados na Justiça Eleitoral. Analisar se os projetos possuem orçamento e base legal realizáveis. Identificar quem são os principais doadores e grupos de interesse do candidato.

Informações que podem ser obtidas na Plataforma do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e nos portais de transparência, os quais incluem os sites da Câmara, do Senado ou das assembleias legislativas.

A escolha representativa político-partidária deve, então, basear-se em propostas concretas e de competência administrativa, e não em distorções de identidade ou expectativas ilusórias. Quando o voto é guiado por visões de projeções identitárias irreais, o debate público perde profundidade técnica e passa a ter foco em narrativas superficiais e equivocadas.

De modo que para superar esses vieses há de se construir uma análise de histórico, avaliando o passado político, as votações anteriores e os processos do candidato. Um profundo estudo de propostas, verificando a viabilidade econômica e técnica dos planos apresentados. Exercendo uma cobrança partidária a partir do monitoramento do partido político quanto aos apoios em projetos alinhados ao interesse coletivo.

Mas, para isso, só consumindo notícias de diferentes veículos de imprensa para evitar bolhas de informação. Afinal, elas são tentáculos que capturam a sua liberdade de escolha e te fazem refém das decisões de outras pessoas que você sequer conhece ou já ouviu falar. O que geralmente acontece por meio de algoritmos, personalização de feeds e viés de confirmação.

Portanto, desconfie de conteúdos que parecem feitos sob medida para agradar ou irritar você. Limpe o seu histórico de navegação e redefina as preferências dos seus aplicativos. Busque a diversidade! Leia sites e perfis com pontos de vista contrários aos seus. E não se esqueça, “O mais corajoso dos atos ainda é pensar com a própria cabeça” (Coco Chanel - estilista e empresária francesa).

sexta-feira, 31 de julho de 2026

A personalização da raiva


A personalização da raiva

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Quem assistiu ao filme COMER, REZAR, AMAR (2010), a protagonista Liz Gilbert faz uma comparação com a atriz Ingrid Bergman, dentro de uma reflexão sobre a pressão da perfeição, aceitando sua própria imperfeição e reconhecendo o sagrado em si mesma.

Ela diz: “A verdade da aventura aqui na Índia está em uma fala: Deus reside dentro de você, como você. Ele não quer ver uma performance de como alguém espiritualizado se veste e se comporta. A garota quieta que passeia com um sorriso etéreo e gentil. Quem é essa pessoa? É Ingrid Bergman, em ‘Os sinos de Santa Maria’. Essa não sou eu. Deus reside dentro de mim, como eu”.

E por que me lembrei disso? Bem, o discurso contemporâneo sobre a liberdade esconde aspectos bastante importantes para ficarem obscuros ou serem negligenciados. A começar pelo fato de que incide sobre as emoções e os sentimentos uma questão de gênero, que ao longo de séculos e séculos têm causado efeitos extremamente nocivos ao equilíbrio social.

Sim. A divisão social que atribuiu racionalidade aos homens e emotividade às mulheres é uma construção histórica. E essa imposição de papéis limitou a expressão humana legítima e gerou um abismo de desigualdades. Razão pela qual é tão importante questionar e analisar essa questão para que se torne possível romper com esses estereótipos e humanizar o direito ao sentimento, como um passo fundamental para uma sociedade mais justa e saudável.

Quantas vezes você já não ouviu, por aí, alguém rotular uma mulher como “histérica”, “descompensada”, “briguenta”, “barraqueira”, ..., quando ela estava expressando a sua raiva?! Por trás desses e outros adjetivos pejorativos o que se esconde é a existência de uma imposição social que pune as mulheres, desde crianças, a não manifestarem suas emoções e sentimentos a fim de não ferir os padrões sociocomportamentais preestabelecidos para elas. E quais são eles? Bem, a partir dos adjetivos você descobre. Submissa. Dócil. Delicada. Abnegada. Recatada. Protetora. Prendada. Zelosa. Maternal. ...

Mas, se um homem fala mais alto, ou xinga, ou bate a mão na mesa, ou discute, ninguém diz absolutamente nada. Porque, segundo as históricas convenções do patriarcado, o sistema social em que o homem detém o poder principal, tal comportamento está alinhado à sua liberdade de expressão. Isso significa que ele foi historicamente legitimado pela sociedade, diga-se os seus próprios pares, para se comportar dessa forma.

Acontece que é parte da natureza humana a manifestação das emoções e sentimentos. Isso não tem nada a ver com gênero. Reprimir o que sentimos, o que pensamos, vai contra a nossa própria biologia. Emoções e sentimentos funcionam como bússolas internas que auxiliam no modo como o ser humano se coloca diante do mundo e reafirma o seu papel social como cidadão.

E pensando à luz da contemporaneidade, esses são tempos em que o volume cotidiano de tensões desnecessárias é tão grande, que por mais que se deseje manter uma aura zen budista, quando o indivíduo se dá conta ele (a) já explodiu. Aliás, eu trago um pouco desses estopins na crônica “A desumanização nossa de cada dia” 1, apontando como esse é um assunto muito sério.

Afinal, grande parte da raiva sentida nasce justamente do processo de desumanização. O que no caso das mulheres é acrescido pela arbitrariedade de uma repressão protocolar das emoções e dos sentimentos. Como se ela fosse obrigada a passar pelos episódios de desumanização e não tivesse o direito de expressar suas emoções e sentimentos, porque é mulher. Desse modo, em termos de dor, de sofrimento, de violência, as mulheres são obrigadas a aceitar a revitimização das desumanizações sofridas para não fugir aos protocolos e etiquetas sociais historicamente definidos para elas.

Mas, a pergunta que não quer calar é: até quando? Ora, as mulheres têm total direito de sentir e expressar suas emoções, seus sentimentos, incluindo a raiva. Estamos falando de algo que traduz uma resposta natural do corpo humano diante de injustiças ou limites violados. Portanto, a raiva não deve ser negada a ninguém por causa do gênero.

Reconhecer e expressar a raiva evita o adoecimento emocional decorrente do acúmulo de emoções e sentimentos reprimidos. Por isso, ela impede o esgotamento emocional e ajuda a impor limites necessários. Sim, ela avisa quando um limite pessoal foi violado ou quando alguém sofre uma injustiça, fornecendo a energia necessária para mudar situações abusivas ou desconfortáveis.

Não se esqueça de que a raiva guardada se transforma em tensão muscular, dores de cabeça, problemas digestivos e baixa imunidade. O que em longo prazo faz emergir o adoecimento mental, que significa um acúmulo contínuo de raiva e outros sentimentos negativos capazes de gerar quadros de ansiedade, de ressentimento periódico e de depressão.

Razão pela qual reprimir a raiva funciona como uma panela de pressão, ou seja, o resultado final costuma ser uma explosão desproporcional.

Assim, a chave para a saúde mental não é evitar a raiva, mas buscar alternativas e caminhos para lidar com ela. Começando pela validação dos próprios sentimentos e emoções, como algo legítimo e humano. Ainda que estejamos falando de raiva.

Depois, canalizando a expressão, a partir de uma forma mais assertiva ou descarregando toda a fúria energética de forma segura através de exercícios físicos ou de escrita terapêutica, por exemplo.

O fundamental é não esquecer de que essas sugestões não são um manual infalível. Às vezes vai dar certo. Outras não. Afinal, a vida é assim, na sua dinâmica de altos e baixos, de idas e vindas, porque todo ser humano é um ser em franca construção.


quinta-feira, 30 de julho de 2026

A desumanização nossa de cada dia


A desumanização nossa de cada dia

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Não, não é preciso grandes acontecimentos para se deparar com a desumanização na contemporaneidade. Aqui, ali ou acolá, eles surgem para tirar ou negar a humanidade de uma pessoa ou de um grupo, fazendo com que a empatia desapareça, permitindo a indiferença, a violência e a falta de cuidado com as fragilidades e as vulnerabilidades do outro.

O que pouca gente se dá conta é de que a desumanização tem efeito coletivo, na medida em que qualquer um que esteja com os pés fincados no planeta pode ser a bola da vez. Afinal, esse processo se prolifera e se espalha diariamente, por todos os lugares. Cada um carrega consigo uma coletânea de desumanizações sofridas cotidianamente.

A raça humana tem convivido com a desumanização tecnológica e algorítmica, que diz respeito não só à redução de pessoas a meros dados, números ou avatares em redes sociais, como também pelo atendimento automatizado obrigatório que substitui o contato humano real por robôs.

Assim, essa substituição de pessoas por chatbots em bancos, comércios e serviços públicos ou privados, vem dificultando a solução de problemas complexos, em razão de três limitações principais, ou seja, a rigidez dos roteiros e falhas na interpretação de contexto, a incapacidade de lidar com emoções e a falta de empatia, e a ausência de integração com sistemas internos para exceções.

Tudo isso faz com que o (a) consumidor (a) precise explicar o mesmo caso várias vezes ao reiniciar a conversa ou passar por etapas automatizadas. Especialmente, porque o sistema automatizado muitas vezes não acessa o histórico completo ou os dados profundos de outras áreas da empresa para resolver a raiz da falha.

Em suma, ao contrário de agilizar, o robô atua como uma barreira burocrática que impede o acesso rápido a um profissional capacitado e gera no (a) cidadão (ã) um nível de estresse e de ansiedade descomunal.

Outra forma de desumanização é a burocrática e institucional. Expressa por um atendimento frio e demorado em serviços públicos ou privados de saúde e assistência, no qual o cidadão é exposto a um protocolo de filas intermináveis e soluções inacessíveis.

Suas consequências mais comuns são a transformação de pessoas em números, a perda de tempo com exigências desnecessárias ou equivocadas e o adoecimento emocional do cidadão. Mais uma vez, a desumanização repercutindo diretamente no bem-estar do indivíduo, a partir de quadros profundos de ansiedade, depressão, sensação de insignificância e esgotamento emocional.

Portanto, essa forma de desumanização decorrente das instituições que priorizam suas próprias regras internas ao contrário das necessidades reais das pessoas, torna o sistema mais importante que o (a) cidadão(ã) e o atendimento perde totalmente a empatia; pois, a burocracia vira o objetivo final, deixando de ser apenas um meio.

Nesse cenário, também, se estabelece o desamparo social, a partir da sensação de isolamento e de que ninguém se importa com o seu problema, da invisibilidade que reafirma ao indivíduo a perda da sua história e, desse modo, o torna apto a ser tratado apenas como um prontuário. Até que se chega ao mais absoluto esgotamento, decorrente de um cansaço físico promovido por Via Crucis de longas filas acrescida pelo estresse mental de não conseguir soluções.

Há, também, a desumanização social manifesta pela perda de valores éticos, da empatia e do reconhecimento do outro como ser humano. De repente, os indivíduos ou grupos são destituídos de sua condição humana, deixando de ser vistos como seres sociais. Como consequência se tem a manipulação das relações humanas, o colapso da coesão comunitária e o aumento da violência estrutural.

A realidade torna-se preenchida por uma perda da compaixão, permitindo que o sofrimento alheio passe a ser ignorado e encarado com apatia geral. O que permite dizer que há a naturalização do descaso, ou seja, as situações extremas, tais como a fome ou a falta de assistência médica, tornam-se banais e desimportantes. Possibilitando uma análise que se traduz pelo individualismo exacerbado, no qual a busca pelo ganho privado anula o senso de responsabilidade coletiva.

Sem contar o fato de que a desumanização social e o capitalismo dos corpos estão profundamente conectados pela transformação da vida humana em pura mercadoria, onde o corpo do cidadão deixa de ser um sujeito dotado de dignidade para se converter em instrumento de produção, exaustão e descarte.

Tem-se, então, que o sistema produtivo passe a exigir que o corpo funcione com a precisão de uma máquina, ignorando limites físicos, dores e necessidades emocionais em favor da alta produtividade.

Lembrando que essa exploração, em geral, se apoia em recortes de raça, gênero e classe para definir quais corpos merecem proteção e quais podem ser violentados ou superexplorados sem culpa institucional.

Aí, quando o corpo perde o vigor físico, o rendimento esperado ou a utilidade imediata para o lucro, ele é tratado como excedente ou lixo social, sendo invisibilizado ou abandonado à margem da insegurança social profunda.

O que explica porque é cada vez mais comum encontrar um panorama em que as populações desumanizadas apresentam um adoecimento generalizado, fruto de uma pressão contínua que gera fadiga crônica, sofrimento psíquico e colapso da saúde mental e física, tratados pelo mercado apenas como queda de rendimento, impulsionando o descarte dessas pessoas.

Há, portanto, uma normalização da barbárie. tendo em vista de que a lógica do ganho financeiro acima da vida naturaliza situações extremas de descaso com a integridade física e mental nas relações sociodemográficas.

Dizia Hanna Arendt, filósofa política alemã de origem judaica, “Vivemos tempos sombrios, onde as piores pessoas perderam o medo e as melhores perderam a esperança”. De fato, quando olhamos para a desumanização em suas diferentes formas e conteúdos, entendemos que há sim, uma inversão ética onde a audácia da crueldade substitui a prudência, enquanto a resistência apenas sucumbe ao desânimo.

Os pequenos poderes representam um comportamento em que os indivíduos usam uma autoridade pequena ou passageira para agir com excesso de poder, grosseria e controle sobre os outros.

Acontece que desse ponto de partida, os tiranos e oportunistas agem à luz do dia, transformando a violência e a mentira em práticas comuns e aceitas. Portanto, permitindo que as leis e as normas éticas deixem de ser respeitadas, a fim de que aqueles que cometam abusos não temam mais a violência ou a reprovação social.

Simplesmente, o que se tem é uma legitimação da ideia de que todos os indivíduos comuns que venham a executar ações cruéis, desumanas, sejam amparados pela certeza da impunidade ou pela força do grupo. Diante disso, o desalento tende a retirar, lenta e gradualmente, a força motriz necessária para a resistência cívica e a defesa da liberdade e da dignidade humana.