segunda-feira, 19 de outubro de 2026
Debates que não debatem
Debates
que não debatem
Por Alessandra
Leles Rocha
Essa história de se querer
ajustar o significado das palavras aos interesses pessoais nunca dá certo.
Vejamos o caso do debate político. Bem, o ponto fundamental desse tipo de
debate é ser um encontro formal entre candidatos a um cargo público, como
presidente, governador ou prefeito, para apresentar propostas, confrontar
ideias, responder a perguntas e debater temas de interesse da sociedade.
Então, na década de 1970, eis que
surge no Brasil o primeiro debate político transmitido por uma emissora de TV. Considerado na ocasião um modelo
interessante para a sociedade, com o tempo ele passou a ser transmitido por
emissoras de TV, rádio ou internet, seguindo regras rígidas combinadas
previamente entre os partidos e os veículos de comunicação.
Acontece que nem tudo são flores nessa
proposta. Primeiro, porque os veículos de comunicação expressam seus próprios interesses
e tendências político-partidárias e isso não desaparece na pseudo-isenção que
tentam imprimir aos debates.
Segundo, porque na esteira dessa
realidade, os próprios mediadores, jornalistas escolhidos pelo veículo de
comunicação, são colocados de maneira submissa aos critérios preestabelecidos, não
podendo intervir de maneira mais incisiva quanto aos excessos e as inverdades
manifestas pelos candidatos, inclusive, em razão da falta de checagem das
informações em tempo real.
Por fim, os debates se
transformaram cada vez mais em produtos de mídia. O tempo de TV sempre foi uma commodity
cara, de modo que para patrocinar ou divulgar sua marca os anunciantes pagam
valores expressivos em troca de um retorno massivo do público. E aí, caro (a)
leitor (a), o design dos debates passou a se ajustar aos indicadores que despertam
maior adesão e audiência do público.
Foi nesse ponto, então, que ocorreu
um desvirtuamento do propósito dos debates, ou seja, apresentar propostas,
confrontar ideias, responder a perguntas e debater temas de interesse da
sociedade cedeu lugar à beligerância em diferentes formas.
Em busca de consolidar um amplo
engajamento do telespectador, os veículos de comunicação se permitiram criar verdadeiras
arenas de hostilidade, de insulto, de violência verbal, de desinformação, para
que no fim das contas houvesse um aumento do radicalismo e da polarização.
Assim, o candidato que disponha
de uma plataforma de ideias a ser apresentada, tem o seu objetivo frustrado
diante do caos e da enrolação estabelecida por esse modelo.
Por outro lado, aquele que não
quer, não tem ou não pode apresentar suas ideias, em razão da fragilidade ou da
impopularidade delas, surfa na onda ao longo de aproximadamente duas horas,
deixando o (a) eleitor (a) sem quaisquer esclarecimentos a respeito das suas
pretensões de governança.
Só resta dizer que tudo isso é
lastimável! Ao contrário do que deveria ser, esse tipo de estratégia eleitoral
acaba prestando um imenso desserviço à Democracia.
A natureza do debate
político-partidário é fundamentalmente construir um diálogo com o (a) eleitor
(a), no sentido de trazer-lhe clareza e resposta aos seus anseios e
expectativas, não fazer daquelas horas um circo patético, constrangedor e sem
graça, que não diz nada para coisa nenhuma.
De fato, durante muito tempo, a
política brasileira esteve às voltas com um padrão eleitoral de promessas vãs. Haja
vista o modelo de comícios em que os candidatos subiam aos palanques e
debulhavam seus discursos floreados de ideias anos luz de distância do que
realmente a população carecia.
Algo muito bem retratado, em
1973, pela novela O Bem Amado, escrita por Dias Gomes, em que através da
personagem Odorico Paraguaçu, prefeito da cidade fictícia de Sucupira, a novela
expunha as entranhas do populismo, do clientelismo e do coronelismo regional.
Tanto que a obra não apenas
retratou o Brasil de sua época, mas deixou um manual de sobrevivência cívica
que ensinou gerações de brasileiros (as) a cobrar por uma democracia mais
madura e menos sucupirana.
Em plena contemporaneidade, a
relação entre candidatos (as) e eleitores (as) torna essa questão ainda mais
pulsante. Afinal de contas, a realidade factual está exposta pelas telas ao
alcance das mãos de milhões de pessoas.
Os fatos, os acontecimentos
cotidianos, seja aqui, ali ou acolá são compartilhados em tempo real. O que
permite ao cidadão exercitar a sua autorreflexão, os seus questionamentos, as
suas intervenções.
O que significa que qualquer um
de nós está mais imerso na política do que possa imaginar, dada a realidade tecnológica
contemporânea. Apesar do individualismo, do egoísmo, do narcisismo, das bolhas
digitais, ainda assim, o mundo virtual desfez as fronteiras e aproximou as
ideias.
Lenta e gradualmente, estamos
conseguindo identificar o que nos une, o que nos afeta, o que nos incomoda,
passando a exercer um grau de cobrança das instituições, das representações
político-partidárias, mais direta. O que revela a dissociação existente entre o
modelo de debates vigente e as expectativas do cidadão.
Bem, se a tecnologia empoderou os
indivíduos para cobrar mudanças, deixando evidente que a política tradicional sob
muitos aspectos está desatualizada frente às novas demandas sociais, os debates
precisam ser espaços de resposta clara e contundente ao eleitorado.
Se é para fazer debates, então,
que se cumpra o seu objetivo fundamental. Performances caricatas e vazias não
atraem mais o público, que na atualidade já dispõe de milhares de outras opções
de “entretenimento” de melhor qualidade.
Enquanto as mudanças a respeito dos debates não chegam, se você almeja por um líder para o seu país, seu estado ou seu município, essa figura deve estar consciente de que “O desafio da liderança é ser forte, mas não rude; ser gentil, mas não fraco; ser ousado, mas não um valentão; ser atencioso, mas não preguiçoso; ser humilde, mas não tímido; ser orgulhoso, mas não arrogante; ter humor, mas sem loucura” (Jim Rohn - empreendedor, autor e palestrante motivacional estadunidense). Afinal, a “Liderança é sobre fazer os outros melhores como resultado da sua presença e garantir que esse impacto dure na sua ausência” (Sheryl Sandberg - executiva de tecnologia americana, filantropa e escritora estadunidense).
domingo, 18 de outubro de 2026
Historicidade. Consciência. Cidadania. Para uma perspectiva de futuro.
Historicidade.
Consciência. Cidadania. Para uma perspectiva de futuro.
Por Alessandra
Leles Rocha
A história é feita de fatos. Embora,
a análise e a propagação deles seja, muitas vezes, condicionada ao enviesamento
de certos interesses, os fatos em si não mudam nem tampouco deixam de existir. É
justamente aí que a verdade factual impera e se impõe, ainda que leve algum
tempo.
Nesses pouco mais de 500 anos, o
Brasil tem experimentado esse processo. A sua historicidade vem sendo marcada pela
visão elitista colonial que tenta impedir a presença de certas figuras e acontecimentos,
os quais dariam a verdadeira diversidade e pluralidade sociocultural brasileira.
Então, eis que no ano da graça de
2026, a dominação sobre a verdade fugiu ao controle e os fatos se reapropriaram
de sua voz. Não, o pleito eleitoral desse ano não diz respeito ao confronto
polarizador que paira sobre o mundo. O que se tem bem diante do nariz é um confronto
histórico de uma sociedade constituída a partir da dicotomia entre dominados e
dominadores.
O resultado do pleito eleitoral
para Presidente da República dirá como a compreensão dessa historicidade dicotômica
se estabelecerá daqui em diante. Essas eleições
traduzem nas urnas as tensões entre classes sociais desfavorecidas e as elites
econômicas e políticas tradicionais, perpetuando ou contestando estruturas de
dominação que remontam ao período colonial.
O que significa em primeiro lugar,
que esse ponto da história mostra claramente uma disputa entre as classes
desfavorecidas, que buscam mudança e redistribuição de poder, e as elites
econômicas, que buscam manter seus privilégios.
Daí a importância da análise em
relação às instituições do Estado, incluindo o sistema eleitoral, tendo em
vista uma tendência em reproduzir as estruturas de dominação existentes, a
menos que haja uma contestação forte o suficiente para romper esse ciclo. Afinal,
o sistema político-eleitoral brasileiro possui regras que, intencionalmente ou
não, concentram o poder nas elites políticas e econômicas já estabelecidas.
O que significa que o momento
eleitoral brasileiro é um reflexo de um cabo de guerra. Por um lado, as regras
institucionais agem como um filtro conservador que perpetua as elites no poder;
por outro, a urna é o canal legítimo onde a pressão popular e os novos
movimentos tentam tensionar e fissurar essas estruturas de dominação.
Talvez, seja esse o ponto nevrálgico
dessa reflexão. Por quê? Porque o voto é um mecanismo de escolha baseado na
avaliação de políticas públicas, propostas de desenvolvimento econômico,
segurança e governança, e não necessariamente um reflexo rígido de divisões de
classe ou posições político-ideológicas arraigadas. Ainda que o comportamento
do (a) eleitor (a) seja moldado por uma rede complexa de fatores que vão além
da dicotomia econômica, incluindo pautas de valores, religião, impacto das
redes sociais, desinformação e identificação identitária e regional, a sensação
real de um eventual retrocesso socioeconômico e cultural impulsiona o
pensamento crítico a uma análise diferente.
É, quem diria?! O (a) eleitor (a)
brasileiro (a), de repente, não mais que de repente, compreendeu que não é um
agente rígido preso apenas à sua classe social ou a um espectro político fixo.
A percepção ou o medo de uma
piora real nas condições de vida, sob as mais diferentes formas e conteúdos,
decidiu atuar como um forte catalisador para o pensamento crítico, quebrando
alinhamentos automáticos e forçando as pessoas a reavaliarem suas escolhas
políticas de forma mais decisiva.
O eleitorado brasileiro, enfim, se
tornou mais fluido, pragmático e propenso a punir ou recompensar governantes
com base na realidade percebida no dia a dia, naquilo que pode afetar
profundamente os seus interesses e não os das elites que ainda se julgam donas
do poder.
O eleitorado brasileiro decidiu
pela primeira vez refletir sobre a pirâmide social de que faz parte e sobre todos
os silenciamentos e cabrestos que ela tenta impor para a base que sustenta o
pequeno cume, ao longos desses pouco mais de 500 anos.
Haja vista as multidões progressistas
que têm ido às ruas nesse segundo turno eleitoral. Bradando em alto e bom som
sua não aceitação em perder direitos, em perder sua liberdade, em perder a sua
soberania, elas se apropriam de um espaço social que lhes pertence e havia, por
séculos, sido negado pelo topo da pirâmide. Elas fazem ecoar a sua voz, que
pareceu inexistente ou adormecida por força de tantas repressões e opressões
históricas.
Mas, não é só isso. A mobilização popular disseminada tanto nas
ruas quanto nas redes sociais é uma ferramenta legítima de contrapoder para
pressionar as instituições e sinalizar a sua insatisfação.
Portanto, ela representa uma
apropriação de poder, de cidadania, do próprio direito de voto que lhe é
constitucionalmente estabelecido. Deixando claro, portanto, que a participação
política não se esgota no ato de votar.
As manifestações servem como um
canal contínuo para que a sociedade civil expresse demandas, fiscalize os
governantes e pressione as instituições entre os períodos eleitorais,
fortalecendo a soberania popular.
Além disso, esse tipo de ação é
respaldado por direitos fundamentais garantidos pela Constituição Federal de
1988, como a liberdade de expressão, o direito de reunião e o direito de
petição, que abrem também espaço para que o poder popular se manifeste
formalmente por mecanismos de democracia direta e participativa, como os plebiscitos,
os referendos e os projetos de lei de iniciativa popular.
O que a história contemporânea está
revelando ao Brasil é, portanto, um tempo de mudanças paradigmáticas profundas.
O velho baú nacional está sendo revisitado e questionado a fim de que uma desconstrução
de antigas amarras coloniais e neocoloniais não se mantenham funcionais.
Não é sem razão, por exemplo, que
o questionamento de mitos fundacionais, como a ideia de uma democracia racial
ou a romantização do período colonial e dos bandeirantes, abriu espaço para o
protagonismo de populações historicamente marginalizadas, como indígenas e
negros.
Inclusive, vale ressaltar a
derrubada, alteração ou contestação de monumentos públicos que homenageavam
figuras ligadas à escravidão ou ao genocídio indígena, refletindo o desejo de
redefinir o que a nação escolhe celebrar em seu espaço público.
A implementação de políticas de
cotas, a demarcação de terras e a alteração de diretrizes educacionais, como as
leis que tornaram obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e
indígena, tentam romper com estruturas que perpetuavam a desigualdade. Enfim...
Tudo isso significa que o cidadão
brasileiro se redescobriu. E essa redescoberta afeta, também, o valor do seu
voto, o significado das suas escolhas e decisões cidadãs.
O questionamento de questões importantes
da sua historicidade, como o racismo estrutural, a concentração de renda e o
patrimonialismo, contribuem diretamente para evitar que formas disfarçadas de
subordinação continuem operando silenciosamente na sociedade.
Há, então, uma franca percepção
de que a passividade histórica dá lugar a uma postura mais ativa, em que a
população se reconhece como agente de mudança.
Por isso, o resgate do voto e da
participação política deixa de ser uma obrigação institucional, tornando-se uma
ferramenta de soberania e de transformação da realidade coletiva.
Razão pela qual o cidadão
contemporâneo precisa se manter cada vez mais atento ao impacto de suas
escolhas, entendendo que a democracia se constrói diariamente por meio do
debate, da fiscalização e do voto consciente.
Pela defesa da cidadania, da
democracia, da soberania nacional, não existe eu e você, existe apenas nós, o
coletivo nacional. O que acontece no país tem repercussões e reverberações sobre
seus cidadãos, independentemente, de gênero, raça, credo, escolaridade, status
social ou afinidade político-partidária.
Fenômenos como a inflação, a segurança pública, a qualidade da educação e a estabilidade democrática não escolhem esse (a) ou aquele (a), eles moldam a realidade cotidiana de todo o corpo social. Assim, a cidadania, a democracia e a soberania não são construções individuais, mas sim pactos coletivos onde as decisões políticas, econômicas e sociais de um país afetam a vida de todos, sem distinção.


