terça-feira, 16 de junho de 2026

Humanização. Saúde. Comunicação. Historicidade.


Humanização. Saúde. Comunicação. Historicidade.

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Recentemente, recebi nos meus e-mails uma chamada para envio de artigo científico, de uma revista na área médica. Apesar da surpresa, considerando o fato de não estar diretamente ligada ao referido campo de conhecimento, verifiquei quais eram os formatos de artigo aceitos pela revista e decidi encaminhar uma comunicação curta.

Há algum tempo, instigada por algumas experiências médicas, percebi a relevância, enquanto paciente, de trazer à tona dois aspectos importantes para a reflexão dos profissionais de saúde; visto que, muito tem sido falado a respeito de uma medicina mais humanizada, ou seja, integrando o conhecimento técnico à escuta ativa, à empatia e ao respeito pela história, contexto social e necessidades emocionais do indivíduo.

Contudo, segundo o corpo de pareceristas da revista, após todos os ajustes solicitados, os artigos foram desconsiderados para a publicação.

Diante da recusa e entendendo a importância do que esses artigos traziam, resolvi “desacademizá-los” e transformá-los em um diálogo direto com outros tantos milhares de pacientes, por aí, por meio desse texto.

O objeto da primeira reflexão foi “A importância da humanização da assistência para o sucesso da comunicação médico-paciente”. Considerando o cenário da contemporaneidade, de altíssima complexidade, fluidez e interconectividade, esse foco que deveria existir em relação ao respeito às singularidades, ao comprometimento na escuta, à disposição dialógica plena, à geração de ambientes de confiança e acolhimento que valorizam o ser humano, parece um caminho difícil de ser transposto.

Por quê?  Porque a formação médica ainda se mostra resistente à integração da humanização e da valorização da subjetividade do paciente, devido ao predomínio de um modelo baseado na tecnociência para tratar e curar, desconsiderando os aspectos psicossociais e culturais do indivíduo acometido por uma dada patologia.

E isso é muito ruim, na medida em que a comunicação se torna atravessada por diversos ruídos, os quais não priorizam o acolhimento, a escuta gerenciada, a linguagem acessível, o respeito à subjetividade e à autonomia do sujeito, tornando o cuidado humanizado, na perspectiva da informação em saúde, um processo falho em seus propósitos fundamentais.

Daí a necessidade de o profissional estar disposto e apto a realizar uma escuta comprometida com a construção de vínculos, garantindo o direito à informação de forma digna, clara e objetiva, ao paciente. É preciso desconstruir a ideia de que a linguagem do médico é absoluta, sem margem para discussão ou questionamento, tendo em vista de que ele é o detentor do saber.

Aliás, não é incomum o fato de que inúmeros profissionais utilizam termos complexos, os quais dificultam o entendimento, a compreensão por parte dos seus pacientes, distanciando-os das decisões e da operacionalização de seus próprios tratamentos e cuidados médicos. Esse modelo ignora a biografia, o contexto social e a subjetividade do paciente, ou seja, não coloca em prática a humanização da informação.

Então, comecei a observar uma palavra que vem aparecendo amiúde no mundo contemporâneo das consultas médicas, saudável. Acontece que a tendência de generalização da expressão saudável, no campo da alimentação, pode significar riscos concretos. Por mais que as ciências médicas e os órgãos de saúde pública entendam que uma alimentação saudável possa ser definida como um padrão de consumo capaz de fornecer ao organismo todos os nutrientes necessários para seu funcionamento ideal, promovendo bem-estar e prevenindo doenças crônicas, nem tudo o que, em tese, é saudável pode realmente ser consumido por todos os pacientes.

Inclusive, porque há uma inacessibilidade aos produtos “saudáveis”, ou seja, ela se mostra como uma estratificação social, onde o consumo de alimentos nutritivos torna-se um marcador de classe, um privilégio e/ou uma distinção social.

Daí a importância de que os profissionais de saúde analisem caso a caso, o histórico clínico do paciente, na medida em que cada paciente acometido por uma dada patologia demanda uma avaliação particularizada em relação ao conceito de alimentação saudável. Aquilo que é benéfico para um pode causar reações adversas ou ser ineficiente para outro, dependendo de inúmeros fatores tais como metabólicos, genéticos, alérgicos, enfim.

Assim, para que haja sucesso na terapêutica proposta pelo médico, a relação dialógica deve ser estabelecida com o máximo de clareza, de dissecação das palavras e termos empregados, a fim de que o paciente se considere plenamente confortável diante das informações e seja capaz de assumir o seu papel no processo terapêutico, de maneira satisfatória.

Mas, como concretizar esse aspecto? Foi, então, que surgiu o segundo o ponto de reflexão, “O papel da historicidade do paciente na construção de uma proposta mais humanizada para anamnese”. Considerando a pluralidade e a diversidade social que chega aos consultórios, nem sempre o histórico de saúde, contemplando situações, hábitos e antecedentes, constitui uma base fidedigna para a maioria dos diagnósticos.

Portanto, é preciso trazer aos interlocutores uma construção comunicativa embasada pela empatia, pela ética, pelo respeito, pela cooperação ativa, pela interação social e pelo acolhimento humano. Razão pela qual, olhando pela perspectiva de que a vida é um filme e não uma fotografia, não é difícil perceber que no cenário das relações médico-paciente, muitas vezes, a informação humanizada não se realiza em razão das fragilidades presentes na construção comunicativa em si.

Apesar de o paciente, quando procura um profissional de saúde ter, naquele dado recorte temporal, uma queixa, um desconforto, uma dor, que precisa ser tratada, não raras as vezes, o cerne daquele problema não está no agora, no presente. Trata-se de algo que vem se desenvolvendo há tempos, inclusive, formando uma rede de interconexões com outras patologias, as quais o próprio paciente, muitas vezes, não tem conhecimento.

Além disso, há uma tendência de muitos profissionais se aterem à tradução dos resultados dos exames, a partir dos limites de referência estabelecidos, desconsiderando assim, uma análise mais ampla e integrada da situação. Por isso, não são raras as vezes em que o paciente não obtém o sucesso esperado em seu tratamento, entrando em um labirinto de lacunas não respondidas, de situações que continuam a reverberar quadros patológicos limitantes ou não; mas, capazes de fragilizar e alterar o seu bem-estar.  Trazendo a terrível sensação de caminhar em círculos sem uma solução para o seu problema.

Eis, então, a necessidade de romper com a homogeneização da doença, como se todos os pacientes fossem iguais, ou com a resistência em analisar o quadro atual em detrimento de toda a historicidade do indivíduo, ou com o excesso do protagonismo médico decorrente da sua apropriação do saber técnico-científico. Mas, como? O ponto de partida está na compreensão de que as etapas do desenvolvimento humano não são livros concluídos, do ponto de vista da historicidade clínica do indivíduo.

Nem todas as patologias que o acometeram, nessa ou naquela fase da vida, foram realmente debeladas. Algumas sim. Outras não. O que significa que rastros e vestígios puderam, então, se tornar o ponto de partida para o surgimento de outras doenças, tecendo uma rede de aspectos que se misturam, ao ponto de ocultar e dificultar os caminhos terapêuticos, quando não devidamente esclarecidos.

Nesse sentido, a possibilidade de se construir um panorama clínico do paciente, segundo o seu histórico por fase de desenvolvimento – primeira infância, segunda infância, terceira infância, adolescência, idade adulta e velhice, ou segundo os sistemas que compõem o corpo humano – esquelético/muscular, endócrino, respiratório, digestório, nervoso, excretor, tegumentar, reprodutor e linfático/imunológico, não pode ser desconsiderada, como ocorre com certa frequência.

 A partir de memórias, de lembranças, o paciente pode trazer ao conhecimento do médico essas informações, contribuindo de maneira significativa para a realização desse registro. Mas, tal dinâmica só acontece a partir de uma comunicação humanizada, ou seja, um modelo de interação capaz de reconhecer a individualidade e o contexto social de cada indivíduo, ao contrário de apenas os procedimentos técnicos. Nesse cenário, o papel do médico deve ser de um facilitador empático, que permite ao paciente ser sujeito ativo de seu próprio tratamento.

Mediante as informações extraídas nessa prática dialógica, o médico vai completando, aí sim, de maneira técnico-científica, o quadro da historicidade clínica do paciente, permitindo-lhe uma visão holística do indivíduo.

Como se pode perceber diante dessa breve reflexão, o que se buscou foi reafirmar a necessidade do equilíbrio na integração de métodos tradicionais e complementares da medicina, favorecendo o caminho da verdadeira humanização da assistência. Afinal, ela depende diretamente da humanização da comunicação.

Em linhas gerais, a forma como os profissionais de saúde dialogam, transmitem diagnósticos e acolhem os pacientes define a experiência do cuidado. Uma linguagem acessível, uma escuta ativa, o respeito à historicidade do paciente e uma dose generosa de empatia transformam o ambiente clínico e reduzem eventuais ruídos comunicativos que possam surgir. 

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Livres?!


Livres?!

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Esse é um assunto que exige reflexão. Liberdade ...

De ser. Bem, esse é o direito fundamental que fala sobre a capacidade de viver de acordo com a sua própria essência, valores e identidade, sem precisar se moldar às expectativas, rótulos ou pressão da sociedade. Portanto, ser quem se é onde quer que você esteja, sem precisar de máscaras sociais ou de viver em função da aprovação alheia.

De estar. Essa é a dimensão ligada à presença, ao pertencimento e à autonomia espacial. Ora, todos têm o direito fundamental de ir e vir em um ambiente, transitando com segurança, sem se sentir ameaçado ou excluído.

De viver. Ah, esse é um aspecto muito importante. Trata-se da capacidade de fazer escolhas autênticas sobre o próprio caminho, homologadas aos próprios valores e princípios.

No entanto, isso está longe de significar a ausência de regras ou a permissão para agir por impulso. Afinal, toda escolha traz consequências, de modo que a verdadeira liberdade envolve assumir a responsabilidade pelos seus atos, decisões e pelo rumo da própria vida, da própria história.

De ficar. Nada melhor do que desfrutar da autonomia emocional e da individualidade nos relacionamentos. Assim, a liberdade de ficar representa o poder de escolha consciente para estar com alguém por afeto real, e não por dependência, mantendo a liberdade de se retirar quando o vínculo não for mais saudável ou compatível.

Mas, ela também traz a possibilidade de se sentir inteiro sozinho, sem a necessidade de preencher vazios emocionais através da aprovação constante do outro.

De permanecer. Pelo menos em tese, todos deveriam desfrutar do direito fundamental de não ser obrigado a deixar um local, país ou relação. No entanto, quando se olha pelas janelas do mundo contemporâneo, essa liberdade está, cada vez mais, sendo confrontada pela globalização, pelas crises migratórias, pelas guerras e conflitos, e pela segurança digital.

Sim, uma onda crescente de refugiados climáticos e políticos testa a capacidade das nações de acolher e integrar novos indivíduos, resultando muitas vezes em políticas de imigração mais restritivas.

Por outro lado, a permanência na internet ou em redes corporativas vem exigindo a abdicação de privacidade na troca de serviços, ao mesmo tempo em que existe uma coleta desenfreada de dados ameaçando a autonomia do indivíduo.

Por fim, especialmente nos grandes centros urbanos, a liberdade de moradia é limitada pela especulação imobiliária, dificultando o direito à cidade pela população mais vulnerável e de baixa renda.

De continuar. Será que alguém se sente realmente livre para poder seguir em frente, recomeçar ou manter um caminho escolhido, sem ser impedido por amarras do passado, especificações físicas ou pressões externas?

A impressão que se tem é de que ao contrário de uma ausência absoluta de limites ou de um estado permanente, essa liberdade na prática se apresenta pela escolha de como reagir aos condicionamentos biológicos, históricos e sociais que se apresentam diariamente.

De tornar-se. Nesse contexto, ela se mostra como um espaço para a autorrealização e o desenvolvimento contínuo, colocando o ser humano como protagonista das suas escolhas ao longo da vida. Cada decisão, ação ou até omissão, molda a pessoa que cada um se torna, fazendo com que a vida seja uma criação autêntica e não um roteiro pronto. Assim, essa liberdade é o potencial que o indivíduo tem para evoluir, ultrapassar traumas e alcançar a sua melhor versão.

De parecer. Talvez, uma das expressões de liberdade mais comuns na contemporaneidade! Pois, ela se refere ao direito fundamental de construir e exibir sua própria identidade visual, corporal e estilística, livre de coerções estatais, sociais ou de discriminações no trabalho e na sociedade. Na contemporaneidade, o corpo, as roupas e quaisquer modificações identitárias são ferramentas de autodeterminação e autoexpressão do indivíduo.

Entretanto, não se pode negar que ao mesmo tempo em que a liberdade de parecer é ampla, a sociedade é fortemente pressionada por padrões de beleza virtuais e por algoritmos. Isso faz com que, muitas vezes, essa liberdade de parecer algo nas redes sociais se transforma em uma nova prisão, onde a encenação de uma vida perfeita tenta substituir a personalidade do indivíduo.

Por essas e outras é que, de repente, a liberdade foi imersa no caos da incompreensão. A sociedade contemporânea decidiu que não pode haver limites, condições ou restrições para o exercício da sua liberdade, como se isso fosse possível. Por conta disso, as relações sociais se transformaram num verdadeiro barril de pólvora.

Acontece que esse comportamento transformou a liberdade em uma força destrutiva, que vem desconsiderando o contrato social que garantia a segurança e o respeito mútuo na vida em sociedade. De modo que tudo começa por essa ruptura que retirou a base da civilidade, gerando um ambiente de instabilidade e conflitos, onde prevalece a lei do mais forte e a desconfiança generalizada.

A partir daí, quando a liberdade irrestrita de um indivíduo interfere diretamente no bem-estar e nos direitos do outro, ocorre a desestruturação da igualdade de oportunidades e do respeito mútuo no contexto social.

Algo que se reafirma a partir de discursos e atos que antes eram repreendidos pelo pacto de civilidade e que, agora, ganham espaço, podendo resultar em discursos de ódio, de intolerância e de crimes contra a honra, ameaçando a segurança e a integridade; sobretudo, de grupos vulneráveis.

Não se pode invisibilizar ou negar o fato de que as polarizações ideológicas, sejam elas de que natureza forem, dentro do recorte contemporâneo, têm se intensificado de uma maneira brutal, perversa e incontrolável. Absolutamente tudo se transforma em pretexto para romper coma civilidade e estabelecer um retorno aos primórdios da barbárie social.

A radicalização do debate público e a erosão da urbanidade têm sido transformadas e publicadas cotidianamente em verdadeiros campos de batalha ideológicas, que transitam tanto pelo ambiente virtual quanto real.  

Sim, porque essas ocorrências, muitas vezes potencializadas pelas bolhas nos ambientes digitais, dificultam a construção de consensos e o respeito à pluralidade de ideias.

Haja vista, o recente episódio, no qual um idoso foi vítima de espancamento e ameaça, nas proximidades de sua residência, em um bairro da zona sul carioca, cuja motivação da violência foi política e religiosa. As agressões só cessaram após a intervenção de um transeunte que passava pelo local e gritou para que parassem 1.

Tudo isso porque a liberdade não é absoluta e não se confunde com ausência de regras ou autorização para violar a lei! Todos deveriam se lembrar de que a liberdade encontra seu limite no momento em que fere o direito de outra pessoa ou viola um bem jurídico protegido.

Aproveitando esse assunto, hoje, 15 de junho, é o Dia Mundial de Conscientização da Violência contra a Pessoa Idosa, instituído pela Organização das Nações Unidas (ONU), em 2006, para combater abusos físicos, psicológicos, financeiros e o abandono, dando origem à campanha Junho Violeta, que promove a defesa e a dignidade da população idosa.

Aliás, o Brasil é vanguardista nesse assunto, pelo fato de que em 2003 foi promulgada a Lei n.º 10.741, que dispõe sobre o Estatuto da Pessoa Idosa e dá outras providências 2.

Depois dessas breves considerações, só me resta deixar as seguintes palavras de Nelson Mandela, ativista, advogado, primeiro presidente negro da África do Sul e Prêmio Nobel da Paz em 1993, para sua reflexão: “Ser pela liberdade não é apenas tirar as correntes de alguém, mas viver de forma que respeite e melhore a liberdade dos outros”.

Afinal, isso significa que a liberdade exige de cada ser humano a responsabilidade, a alteridade e a construção de um ambiente social que permita não só a emancipação individual quanto a coletiva.

JUNHO VIOLETA / Dia Mundial de Conscientização da Violência contra a Pessoa Idosa