sábado, 6 de junho de 2026

Colonialismo Químico


Colonialismo Químico

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

O impacto de duas notícias me fazem escrever esse texto, “Produtores de soja são acusados de intoxicar indígenas com agrotóxicos em Rondônia” 1 e “Sem a União Europeia, Brasil pode deixar de exportar quase US$ 2 bilhões ao ano em carnes; entenda” 2. Pode não parecer mas os assuntos apresentam um ponto em comum, as práxis produtivas brasileiras.

Não é de hoje que faço considerações a respeito do ranço colonial que afeta a dinâmica do desenvolvimento e do progresso brasileiro. Historicamente, as práticas de produção agrícola e animal brasileiras não envolvem uma preocupação real em relação à natureza dos processos empregados e seus impactos sobre a saúde do consumidor ou às diretrizes que envolvem o comércio exterior.

Por décadas, o modelo se baseou na expansão de fronteiras e na alta produtividade a curto prazo, priorizando a ocupação territorial e o volume de exportações em detrimento da sustentabilidade e das exigências sanitárias.

Haja vista, por exemplo, que o Brasil é um dos maiores consumidores mundiais de agrotóxicos, impulsionado pela extensão e intensidade de sua produção agrícola.

E isso acontece em razão do chamado Colonialismo Químico. Sim, grandes empresas do setor químico, com sede principalmente na Europa e nos EUA, produzem e exportam toneladas de pesticidas que não utilizam em seus próprios territórios, porque dispõem de amplo mercado consumidor em países em desenvolvimento, cujas legislações ambientais e sanitárias são, em geral, menos restritivas e/ou apresentam processos de avaliação mais demorados.

Por essa razão é que certos agrotóxicos continuam sendo amplamente utilizados no Brasil. É o caso, por exemplo, do glifosato, do mancozebe e da atrazina.

Apesar de enfrentarem fortes restrições ou terem sido proibidos no exterior devido a evidências científicas que os associam a riscos de contaminação da água, danos aos ecossistemas como, por exemplo, a morte de abelhas, e graves impactos à saúde humana, incluindo distúrbios hormonais e doenças neurológicas, lamentavelmente, eles fazem parte da realidade agrícola brasileira.

De modo que a utilização de substâncias banidas em outros países se mostra um verdadeiro desafio diplomático e comercial para o agronegócio brasileiro. Afinal, estamos falando de uma relação comercial completamente assimétrica.

Posto que o uso desses agrotóxicos no Sul Global, principal mercado consumidor desses produtos, resulta em alimentos produzidos com concentrações de compostos químicos superiores às permitidas para importação na Europa e nos EUA, por exemplo.

Assim, essas commodities agrícolas quando chegam ao mercado internacional, podem ser barradas por ultrapassarem os limites sanitários.

Fazendo com que o verdadeiro custo dessa assimetria recaia sobre os países produtores, na medida em que implica diretamente em riscos à saúde dos trabalhadores rurais, das comunidades locais próximas as áreas de produção, além da contaminação ambiental da água e do solo, enquanto os lucros da venda dos defensivos permanecem concentrados nas indústrias químicas estrangeiras.

Entretanto, apesar disso não se pode desconsiderar o fato de haver uma resistência por parte de muitos produtores agrícolas brasileiros quanto a promover mudanças radicais nas práticas de manejo, interrompendo o histórico ciclo do Colonialismo Químico.  

Isso se dá em razão dela derivar de fatores econômicos e estruturais. Ora, essas práticas têm um histórico de incentivos e subsídios no modelo agrícola nacional. E para superar essas barreiras, então, é necessário promover um novo alinhamento das políticas públicas com alternativas economicamente viáveis.

Veja, esse modelo amplamente dependente de agroquímicos é, muitas vezes, estruturalmente mais barato a curto prazo devido a isenções fiscais, tornando o processo de transição um desafio financeiro imediato para o produtor. Além disso, a falta de assistência técnica em larga escala para métodos regenerativos e agroecológicos tende a gerar insegurança no campo, por parte do produtor rural.  

Contudo, o principal obstáculo para uma transição ecológica, para o Manejo Integrado de Pragas (MIP) ou Controle Biológico, reside no enorme poder político e econômico das indústrias transnacionais de pesticidas e de sua base de apoio no Congresso Nacional.

A partir dessa conexão político-ideológica é que se garante a aprovação acelerada de defensivos químicos sintéticos, atrasando  as políticas de redução desse tipo de consumo, dificultando a expansão do manejo sustentável e ecológico.

Basta observar, por exemplo, como o modelo latifundiário exportador é altamente dependente desse tipo de produtos agroquímicos, facilitando a concentração de mercado para eles, e o modo como os legisladores vinculados à bancada ruralista atuam para enfraquecer o rigor de órgãos como Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) no processo de registro desses produtos.

Por isso, enquanto o Colonialismo Químico permanecer naturalizado e banalizado na cultura econômica brasileira, o país continuará não só em constante sobressalto, no campo do comércio exterior, como padecendo de um franco adoecimento socioambiental derivado da utilização de produtos agroquímicos nas sua produções de alimentos.

Portanto, continuar nessa histórica condição de servir como lixão e/ou vitrine para agrotóxicos e outros produtos químicos banidos no mercado internacional, reforça a desimportância que é dada à soberania nacional.

Primeiro, porque a dependência de insumos importados ou controlados por corporações estrangeiras drena recursos que poderiam ser investidos em tecnologia, pesquisa e desenvolvimento de alternativas nacionais, como os bioinsumos.

Segundo, porque há uma subalternização territorial, considerando que o país é tratado como depósito de lixo químico e área de sacrifícios, gerando contaminação dos recursos naturais e promovendo o adoecimento de populações rurais e urbanas.

Por fim, porque há um controle da produção na medida em que a dependência desses insumos enriquecedores das corporações estrangeiras subordina o modelo agrícola local às demandas externas, colocando em risco a autonomia alimentar e a saúde pública.

Como bem escreveu Eduardo Galeano, escritor e jornalista uruguaio, “Na alquimia colonial e neocolonial o ouro se transfigura em sucata, os alimentos em veneno”. Afinal de contas, essas palavras desnudam a realidade perversa e cruel, na qual o sistema de exploração, em curso na história da humanidade, faz da riqueza local um instrumento para gerar atraso e subdesenvolvimento ao invés de progresso e desenvolvimento real.

sexta-feira, 5 de junho de 2026

DIA MUNDIAL DO MEIO AMBIENTE


DIA MUNDIAL DO MEIO AMBIENTE

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Em 1972, quando a Organização das Nações Unidas (ONU) estabeleceu o dia 5 de junho como Dia Mundial do Meio Ambiente, o cenário conjuntural do planeta já trazia os primeiros grandes alertas de que os recursos naturais estavam se esgotando rapidamente, devido à poluição e à degradação ambiental.

Desse modo o objetivo principal dessa data foi e continua sendo criar uma plataforma de reflexão global e ação coletiva para combater os desafios críticos que assolam a sociedade contemporânea, tais como o aquecimento global, a perda de biodiversidade e a poluição em suas mais diferentes formas.

Acontece que discutir as questões ambientais por si só não me parece suficiente, na medida em que elas são cortadas e atravessadas por seres humanos diversos e plurais. Não, não existe possibilidade de um debate ecológico sem discutir raça, classe e/ou desigualdade social.

O maior desafio para a construção da sustentabilidade e da justiça socioambiental está na desumanização em curso. Considerando que ela muitas vezes impulsionada pela hiperdigitalização, pelo individualismo, pelas desigualdades econômicas extremas e pela mercantilização das relações, cria um cenário onde o outro passa a ser visto como um recurso ou obstáculo, produz um estado no qual o ser humano é despido dos seus direitos fundamentais e da sua dignidade.

Por isso, não é possível se falar de meio ambiente invisibilizando o papel da figura humana. Cada indivíduo é parte indissociável desse ecossistema, atuando tanto como agente de transformação e degradação quanto como peça central para a conservação e regeneração.

Diante disso, a partir do ano 2000, foi estabelecida a teoria do Antropoceno, pelo químico Paul Crutzen e pelo biólogo Eugene Stoermer, a qual sugere que a Terra saiu do Holoceno, um período de estabilidade climática dos últimos 11.000 anos e entrou em uma nova fase, cujo impacto coletivo humano é tão profundo que fica registrado nas camadas de sedimentos do planeta por milhões de anos.

Em linhas gerais, isso significa que a humanidade se tornou a principal força motriz de alteração dos sistemas climáticos, biológicos e geológicos da Terra.

Portanto, quaisquer medidas de contenção e mitigação dos impactos ambientais negativos não podem ser alcançados e efetivados sem que haja uma transformação direta do pensamento social contemporâneo. Esse é o pilar estrutural para reverter a crise ambiental que vive a Terra.

Sem que haja uma evolução na capacidade crítico-reflexiva do ser humano, capaz de fazê-lo evoluir da exploração desenvolvida, e em curso, para uma ética de responsabilidade coletiva e intergeracional, a sobrevivência do planeta estará sob risco permanente.

O que significa que é essencial reconstruir uma cidadania planetária, promovendo a alteração de hábitos e comportamentos desde a base, substituindo o modelo de extrair, produzir e descartar pela economia circular, forçando o mercado a adotar práticas mais limpas de natureza preservacionista e de sustentabilidade.

Veja, o propósito da economia circular é estender o ciclo de vida dos produtos, transformando resíduos em novas matérias-primas e maximizando a proteção de recursos naturais.

Assim, há um redesenho dos produtos para que sejam mais resistentes, simples de serem reciclados e feitos de materiais recicláveis. Bem como, uma diminuição do consumo de matéria-prima e energia na fabricação, gerando menos resíduos desde a origem, e possibilitando dar novas funções a produtos e peças, mantendo-os em uso pelo maior tempo possível.

No entanto, a sociedade contemporânea está tão ensimesmada no seu casulo de indiferença, desrespeito, falta de empatia e distante do seu instinto de sobrevivência, que o negacionismo científico tornou-se uma zona de conforto favorável à sua inércia quanto ao exercício cidadão e humanitário.

Esse contexto, então, expõe como o egoísmo narcísico e a desinformação paralisam o indivíduo, afastando-o da sua responsabilidade coletiva e da preservação da própria vida.

Isolados em suas bolhas digitais e preocupações exclusivas, os indivíduos perdem o sentimento de pertencimento a uma coletividade, o que dificulta o exercício da alteridade, ou seja, a capacidade de se colocar no lugar do outro.

Assim, a racionalidade egoísta e imediatista sufoca o instinto de autopreservação da espécie, uma vez que os fatos exigem uma visão de longo prazo e um esforço cooperativo, no qual a lógica individualista não consegue abarcar.

Diante desse cenário impulsionado pelo excesso de informações, pela polarização e pelo individualismo, cujo objetivo é levar não só ao isolamento e à priorização dos interesses privados em detrimento do bem-estar comunitário, tem-se o surgimento de uma dificuldade extrema de compreensão de perspectivas divergentes, bloqueando o diálogo e a construção de uma sociedade empática, humanitária e fraterna.  

Por essas e outras é que o DIA MUNDIAL DO MEIO AMBIENTE precisa se tornar um ponto de partida para se refletir sobre o modo como tudo isso gera uma perigosa inércia institucional e moral, onde a indiferença diante da vulnerabilidade socioambiental facilmente se torna normalizada.

Daí se tornar tão fundamental exigir que o debate abandone o campo meramente simbólico para proteger, de fato, contra as falhas sistêmicas que perpetuam a crise climática e social no planeta.