segunda-feira, 6 de abril de 2026

Mais do mesmo... A fragmentação política por conveniência.


Mais do mesmo... A fragmentação política por conveniência.

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Sempre que preciso me referir ao espectro político de direita faço uma ressalva à existência de vieses mais ou menos radicais e extremistas dentro dele. Por quê? Para que fique bem claro que, apesar de eventuais diferenças entre os seus representantes, seguidores, simpatizantes e apoiadores, no fim das contas, existe uma linha discursiva comum que os agrega.

E acabo de comprovar que estava certa, na minha observação. A corrida eleitoral de 2026, no Brasil, nem começou efetivamente, e o referido espectro político já despontou com diferentes nomes para concorrer à Presidência da República. Alguns com mais e outros com menos possibilidade de êxito; mas, não deixa de chamar atenção.

No entanto, o que pretende esse movimento de múltiplos candidatos é tentar levar o pleito eleitoral para um segundo turno e depois promover uma agregação dos candidatos derrotados, desse espectro político, em torno daquele que se sagrou bem sucedido. O que deixa claro como os diferentes, nesse caso, são mais iguais do que se possa imaginar!

Caro (a) leitor (a), essa não é uma questão difícil de compreender! Veja, a direita brasileira, em todos os seus vieses, construiu-se historicamente sobre as raízes coloniais tradicionalistas e elitistas.

De modo que ela visa preservar a ordem social oligárquica e as disparidades socioeconômicas. E para tal ela criou uma cultura de hierarquia naturalizada, opondo-se a quaisquer projetos de transformação social.

Basta uma breve visita aos veículos de informação e comunicação para se deparar, então, com diversas notícias que retratam exatamente isso.

Ora, ao longo desses pouco mais de 500 anos de história, diferentes setores da elite oligárquica brasileira se organizam para limitar os direitos socioeconômicos e trabalhistas da grande massa da população.

Seja defendendo uma agenda de liberalismo econômico no plano nacional ou promovendo pautas de costumes tradicionais, suas ideias são sempre marcadas por um caráter autoritário, antidemocrático.

Por isso, quando se aproxima o período eleitoral, esses indivíduos correm para manter suas regalias e privilégios de poder. Afinal, formada no curso dos séculos, as classes historicamente dominantes não governam apenas pela força, mas pelo consenso hegemônico construído.  

Nesse sentido, é no período eleitoral que os diferentes vieses da direita buscam reafirmar as velhas práxis, as quais sempre impuseram seus valores como se fossem o interesse de toda a sociedade.

Viu só?! É nesse recorte temporal, então, que essas elites se organizam para garantir que, independentemente de quem vença o pleito eleitoral, o acesso aos recursos do Estado e aos mecanismos de decisão permaneçam em suas mãos.

As nuances e divisões internas da direita, portanto, se unem nesse momento para impedir a ascensão de grupos que representem uma ruptura real com o seu sistema de privilégios. Afinal de contas, o poder não é apenas dinheiro, mas também as redes de influência. Assim, a corrida para manter as regalias e os privilégios é, na verdade, um esforço para manter o controle sobre o aparelho estatal, o grande responsável por distribuir subsídios, definir isenções fiscais, ... enfim, ditar as regras do jogo político-econômico nacional.

Por isso, a união entre os diferentes vieses da direita, em épocas de eleição, funciona como um mecanismo de defesa do seu status quo fundamental.

Por mais que a direita se fragmente em rótulos como liberal, conservadora, libertária ou ultradireitista, a verdade é que só existe um único núcleo de valores que unifica o seu discurso. Especialmente em períodos eleitorais.

O que está posto, então, é uma narrativa que tende a institucionalizar ou manter estruturas sociais sem mudanças. Isso significa que ela é frequentemente ancorada na figura do inimigo interno ou de ameaças à estabilidade, transformando o Estado ou o pretenso líder como garantidores da ordem.

Além disso, a ideia de que uma sociedade é composta por indivíduos e famílias, e não por classes ou grupos identitários, esvazia as pautas coletivistas e foca a solução de problemas na responsabilidade individual e na liberdade de mercado.

Assim, embora existam rachas políticos, o núcleo ideológico da direita sempre permanecerá focado no conservadorismo e no neoliberalismo, mostrando que a demanda por essa agenda é maior do que quaisquer lideranças individuais. A fragmentação é somente uma estratégia de adaptação e de expansão da direita. Pura conveniência de quem almeja mais do mesmo. 

terça-feira, 31 de março de 2026

O boneco ventríloquo


O boneco ventríloquo

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

As novas gerações, talvez, não conheçam o boneco ventríloquo. Embora suas origens remontem da Grécia e Roma Antiga, foi nos séculos XIX e XX, que esses bonecos, dotados de mecanismos complexos para movimentos com a cabeça, os olhos e a boca articulada, tornaram-se populares em shows de variedades e, posteriormente, na televisão. De modo que através da manipulação por um artista que fala sem mexer os lábios, tem-se a ilusão de que o boneco inanimado tem vida própria e voz independente.

Mas, por que escrever sobre tais bonecos? Simples. A construção da imagem auxilia na compreensão dos fatos sociais ao transformar conceitos abstratos em evidências visuais, mediando nossa percepção de realidade, história e relações de poder. Nesse sentido, as imagens não apenas refletem o mundo, mas através da sua identidade o constroem, moldando os estereótipos e as memórias coletivas.

Então, como estamos em ano eleitoral, não pude deixar de traçar um paralelo entre os bonecos ventríloquos e o movimento dos pretensos candidatos alinhados à Direita e seus matizes. Sim, porque a fragmentação dentro desse espectro político-partidário transforma alguns indivíduos em bonecos ventríloquos para auxiliar na construção de uma imagem, até certo ponto moderada, daquele que se destaca para o pleito.

Afinal, os bonecos ventríloquos são verborrágicos. Eles falam sem parar, atropelam a fala do outro e não têm filtros. Acontece que essa compulsão pela fala possui uma função social profunda, centrada para vencer o silêncio constrangedor das verdades reprimidas, ou seja, ele fala muito porque tem a urgência de dizer o que o humano não pode dizer. Então, ele despeja a realidade nua e crua.

Veja, o boneco pode ser racista, misógino, cruel, politicamente incorreto, ... Mas, se um ser humano fizesse as mesmas considerações ou críticas, ele seria sumariamente cancelado ou hostilizado pela plateia. Isso significa que a sociedade tende a aceitar a agressividade verbal e a torrente de palavras do boneco porque finge acreditar na ilusão de que ele possui uma consciência própria independente.

Só que não. O que acontece, de fato, é que o manipulador do boneco utiliza desse recurso para limpar sua própria imagem perante as normas sociais. Ele coloca palavras na boca do boneco para fazer valer os seus próprios argumentos. Essas são, na verdade, táticas de guerrilha da comunicação que permitem suspender temporariamente as regras sociais da etiqueta para dar vazão à verdade dos valores, crenças, princípios, que norteiam a vida do manipulador.

Alguém que, nesse caso, é o pretenso candidato alinhado à Direita e seus matizes com maior destaque para o pleito eleitoral, segundo certas pesquisas de opinião. Portanto, ele e qualquer outro boneco ventríloquo, que surja pelo caminho, pertencem ao mesmo espectro político-partidário, ou seja, comungam da mesma ideologia, valores, crenças e princípios.

Mas, como ele teme por uma rejeição, uma repulsa dos eleitores, ele utiliza desse artifício, ou seja, os porta-vozes ou as figuras controladas, como são os bonecos ventríloquos, para despejar discursos e moldar a opinião pública, sem necessariamente dar a cara a tapa.

Preste atenção, essas pessoas só aceitam esse papel coadjuvante, porque almejam, com todas as forças, se manter no poder.  Afinal, a direita no Brasil, com seus diferentes matizes, tradicionalistas, liberais, conservadores ou libertários, reflete uma estrutura histórica, baseada na manutenção de posições sociais e na resistência à participação popular.

Assim, esse pensamento incorpora valores herdados do período colonial, como o imobilismo social, a dificuldade de compatibilização entre a tradição e a modernidade, e a prevalência de regalias e de privilégios. Daí esse espectro político-partidário, apesar de tantas siglas, rostos e nomes, ser capaz de abranger desde a tradição conservadora até o liberalismo econômico, evoluindo de uma visão corporativista para coalizões que incluem o neoliberalismo e a direita ultranacionalista.

Viu só?! Essa é uma metáfora perfeita! No fundo, o boneco ventríloquo e o seu manipulador são exatamente a mesma coisa, divididos em dois corpos para criar uma ilusão. A fim de que o boneco sirva como um escudo social para as verdades ou sombras do próprio artista.