O Sagrado
e o Profano
Por Alessandra
Leles Rocha
Infelizmente, temos diante dos
sentidos a materialização da crise de ética pela mistura indigesta e
despudorada entre o sagrado e o profano.
Assim, a fim de recapitular os
termos, sagrado é aquilo que dá sentido, valor absoluto e fundamento à
existência. Portanto, o sagrado está em templos e locais de culto, em cidades
santas, em elementos da natureza, em livros, em objetos e ícones, em conceitos,
pessoas e práticas.
Já o profano designa tudo o que
pertence ao cotidiano, à rotina e ao mundo secular, situando-se fora do espaço
sagrado ou religioso. Isso inclui as atividades rotineiras, os espaços públicos,
o tempo cronológico e de trabalho, a música e a arte secular, a blasfêmia e as piadas
religiosas, o vandalismo de símbolos sagrados, o uso inadequado de objetos
litúrgicos e a quebra de tabus ou votos.
E se cada um deles, ao menos em
tese, ocupa um espaço próprio, isso deveria indicar a existência de uma incompatibilidade
em se devotar simultaneamente a ambos. No
entanto, quando saímos da teoria e observamos a história e o comportamento
humano, essa incompatibilidade lógica se dissolve em uma complexa coexistência.
Primeiro, porque há uma permeabilidade
das fronteiras, na qual eles não são estáticos; mas, delimitados pelo ser
humano. Segundo, porque a raça humana está exposta ao sincretismo e a cultura
popular.
Nesse sentido, a cultura popular
utiliza o sincretismo para borrar as linhas entre o sagrado e o profano,
provando que a fé e a festa, o rito e a vida cotidiana, fazem parte de uma
mesma identidade cultural.
Haja vista, por exemplo, o Congado
e o Moçambique que representam a devoção à Nossa Senhora do Rosário e a São
Benedito, a partir da expressão cultural com forte herança de ritmos, tambores
e cortejos reais africanos.
Acontece que a manifestação
desses aspectos passa pela compartimentalização psíquica, ou seja, o ser humano
possui a capacidade psicológica de transitar entre diferentes papéis sociais e
sistemas de crenças sem experimentar uma crise de identidade permanente.
Nesse contexto, então, o
indivíduo pode devotar-se ao sagrado em momentos de fragilidade, busca de
sentido ou ritos comunitários, e guiar-se pela lógica profana no dia a dia, no
trabalho e no consumo.
Inclusive, não se pode desconsiderar
a existência de uma ambivalência do sagrado. Sim, por ser algo fora do comum,
ele atrai o profano na medida em que o homem busca o sagrado justamente porque
vive no profano. Desse modo, a simultaneidade não é necessariamente uma
contradição, mas uma relação de necessidade mútua.
Contudo, o atual momento contemporâneo
nacional expôs publicamente, a partir dos diversos veículos de mídia, notícias que
materializam uma grave crise de ética pela mistura entre o sagrado e o profano,
a partir de dois fenômenos importantes, a dessecularização e a
instrumentalização da fé, os quais de certa forma explicam o retorno e o uso da
religião no espaço público contemporâneo.
A dessecularização marca, então,
o retorno da influência religiosa na sociedade, na cultura e na política,
contrariando previsões históricas de que o mundo deveria ser totalmente ateu ou
laico. Assim, ao contrário de desaparecer, as instituições e crenças religiosas
ganharam um novo protagonismo na esfera pública e nas decisões políticas.
Quanto à instrumentalização da fé,
ela ocorre quando líderes políticos, econômicos ou as próprias lideranças
religiosas utilizam as crenças e os símbolos sagrados como uma ferramenta para
alcançar objetivos mundanos, como poder, votos, dinheiro ou controle social.
Desse modo, a fé deixa de ser
estritamente uma busca espiritual ou moral e passa a ser usada de forma
estratégica para manipular as massas, validar os discursos ideológicos e/ou
obter vantagens financeiras.
No entanto, esses dois fenômenos,
que envolvem diretamente o sagrado e o profano, fazem emergir uma crise ética
sem precedentes, porque rompem a fronteira entre as esferas pública e privada,
esvaziando tanto a autonomia da moral laica quanto a integridade do próprio
sentimento religioso.
Esse cenário possibilita a perda
de um referencial moral absoluto; pois, a fé, que originalmente serve como um
guia transcendental para a conduta humana, passa a ser moldada para justificar
ações profanas como a corrupção, a exclusão social e a busca pelo poder,
levando à destruição da autoridade moral da própria religião.
Fato que emerge em razão da relativização
do bem e do mal. Ora, o que deveria ser universalmente ético torna-se
utilitarista, de modo que o sagrado deixa de ser um fim em si mesmo e vira um
meio de manipulação, permitindo que atitudes antiéticas passem a ser validadas
e perdoadas sob o pretexto de estarem servindo a um propósito divino.
Diante disso, a fragmentação
social e a polarização se consolidam a partir de uma instrumentalização que divide
a sociedade entre santos e pecadores, inviabilizando o debate público baseado
na razão e no bem comum. Perde-se, portanto, a ética da alteridade, do respeito
ao outro, pelo fato de que essa é substituída pela demonização de quem pensa
diferente.
Uma realidade que leva ao enfraquecimento
das instituições laicas. A justiça, a
política e os direitos humanos deixam de se apoiar em leis universais e
consensuais para depender de dogmas interpretados de forma conveniente por
determinados grupos.
Por isso, a crise ética ao
instrumentalizar a fé, possibilita ao ser humano retirar a transcendência do
sagrado e a racionalidade do profano, deixando a sociedade sem nenhum norte
moral seguro para guiar suas ações.
Sem a pureza ética da
espiritualidade e sem a lucidez da razão crítica, a sociedade fica à mercê do
relativismo de conveniência, onde as regras morais mudam conforme o interesse
de quem está no poder. Para a democracia e a soberania nacional, os riscos são
imensos.
O que significa que o adversário
político deixa de ser um concorrente legítimo e passa a ser tratado como um inimigo
a ser destruído. As leis e os direitos fundamentais passam a ser relativizados
se não atenderem à narrativa do grupo que instrumentaliza a fé.
Por fim, as populações
fragilizadas tornam-se alvos fáceis de manipulação, o que enfraquece a
soberania popular, já que o voto e a opinião pública deixam de ser escolhas
conscientes e passam a ser obrigações de rebanho.
Por essas e outras é preciso manter
a fé protegida da manipulação política e a política guiada pela racionalidade
laica, como as únicas formas de garantir que tanto a espiritualidade quanto a
democracia possam coexistir de forma saudável.
Daí a necessidade de compreender
que o Estado laico não é antirreligioso, mas sim neutro. Essa neutralidade
garante que cidadãos de todas as crenças e os que não têm nenhuma sejam
tratados com igualdade perante a lei, utilizando a razão e os direitos humanos
como base comum para o diálogo.
É dessa forma que a laicidade protege a própria liberdade religiosa, assegurando que nenhuma fé majoritária use a máquina pública para suprimir ou discriminar minorias espirituais.


