Segundo Immanuel
Kant, “A inumanidade que se causa a um outro destrói a humanidade em mim”.
Por Alessandra
Leles Rocha
De fato, ao longo da
historicidade humana há diversas figuras que se tornaram símbolo de
acontecimentos, de lutas, de eventos. Mas, você já parou para pensar que não é por
conta delas que as histórias são lembradas, discutidas ou enaltecidas, e sim em
razão da causa que moveram o seu desenrolar?!
Pois é. Causas são razões,
motivos, ideias, que despertam as pessoas a uma determinada ação. De modo que
basta olhar para os principais eventos da história humana para compreender que
eles foram motivados por uma combinação de disputas territoriais, crises
econômicas, choques ideológicos, divergências culturais e busca por recursos
básicos.
Vou refrescar a memória com
alguns exemplos importantes. A Queda do Império Romano 476 d.C., foi motivada
pela crise econômica interna, a corrupção política, a divisão do império, a ascensão
do cristianismo e as invasões de povos germânicos, os bárbaros.
A Expansão Marítima a partir das
Grandes Navegações, ocorrida entre os séculos XV e XVI, teve seu pontapé inicial
pela necessidade de encontrar novas rotas comerciais para o Oriente, evitando o
monopólio otomano no Mediterrâneo, e a busca por ouro, prata e novas terras.
Já a Revolução Francesa, em 1789,
foi motivada pela crise financeira do Estado, privilégios excessivos do clero e
da nobreza, miséria do povo e a difusão dos ideais iluministas.
Algo de proporções tão avassaladoras
que influenciou a Revolução Industrial, na segunda metade do século XVIII, graças
a acumulação de capital na Inglaterra, abundância de carvão e ferro, o cercamento
dos campos que gerou mão de obra barata nas cidades e o surgimento da máquina a
vapor.
Depois, a Primeira Guerra Mundial,
entre 1914 e 1918, teve como estopim o imperialismo europeu, o nacionalismo
extremo na região dos Bálcãs e a complexa rede de alianças militares secretas.
Fato que acabou repercutindo na Revolução
Russa, em 1917, motivada pelo colapso econômico e a fome causados pela
participação na Primeira Guerra, pela opressão do regime czarista e pela
organização dos trabalhadores sob a ideologia socialista.
A Segunda Guerra Mundial, entre 1939
e 1945, se deu por conta do expansionismo fascista/nazista, o descontentamento
da Alemanha com as punições do Tratado de Versalhes e o fracasso da Liga das
Nações em conter agressões.
E a Guerra Fria, entre 1947 e 1991,
ocorreu por uma disputa ideológica, econômica e militar pela hegemonia global
entre o bloco capitalista, liderado pelos EUA, e o bloco socialista, comandado pela
União das Repúblicas Socialistas soviéticas (URSS).
Portanto, o ser humano não age se
não for provocado, se não tiver razões, motivos, ideias, que o despertem a uma
determinada ação. Pode ser uma necessidade biológica, um evento externo ou uma
provocação social. Até mesmo a apatia ou a decisão de não fazer nada diante de
uma situação dependem de uma escolha cognitiva baseada em motivos.
É aí, então, que se torna possível
enxergar com clareza como uns e outros, por aí, se escondem atrás de algumas
emoções e sentimentos a respeito de certos expoentes públicos, para esconder o
seu próprio desconforto em relação às pautas as quais essas figuras são
associadas. De modo que o foco é desviado do debate racional de ideias para o
campo da personalização e do julgamento emocional.
Afinal, focar no ranço, na
antipatia ou no estilo de uma figura pública é muito mais fácil do que admitir
e articular a oposição à pauta real que ela participa e defende.
É como se ao sentir raiva ou
desprezo por alguém isso validasse o seu desconforto sem exigir um exame
crítico, analítico, dos próprios preconceitos ou da falta de argumentos contra
a ideia em si.
Inclusive, essa tem sido a lógica
que move boa parte das redes sociais, onde o cancelamento ou a idolatria de
indivíduos soterra qualquer discussão profunda sobre políticas, direitos ou
reformas.
Acontece que esse tipo de
atitude, de comportamento, só faz reafirmar a fuga do debate intelectual. É, focar
no estilo ou no carisma de uma figura pública poupa o esforço de analisar
dados, leis ou impactos socioeconômicos de uma pauta, na medida em que gera uma
realidade idealizada, que não tem um compromisso verdadeiro com os fatos em si.
Veja, enquanto sentir antipatia é
uma reação emocional instantânea, articular uma contraproposta a uma reforma de
natureza social ou política, por exemplo, exige estudo, dados e repertório
argumentativo.
Daí a personificação do debate
empobrecer a sociedade, transformando cidadãos em torcedores, onde o objetivo
não é encontrar a melhor solução para o coletivo, mas sim ver o adversário ser
derrotado ou ridicularizado.
Lembre-se sempre que o movimento
que tenta transformar a civilização em um grande espetáculo, que vive à margem
da consciência e da luta de causas importantes, afeta diretamente os pilares
democráticos.
Quando a política e as questões
sociais complexas são transformadas em performances midiáticas, onde a imagem,
o meme e o impacto emocional importam mais do que as propostas e os dados reais,
os cidadãos passam de agentes políticos ativos a meros espectadores passivos,
consumindo a realidade em vez de modificá-la.
É nesse cenário que os problemas
estruturais, como a desigualdade, a fome, as epidemias, as crises climáticas e os
direitos humanos, são banalizados ou reduzidos a slogans de engajamento rápido
nas redes sociais, sem debates profundos ou ações efetivas.
Como o espetáculo precisa de
drama, heróis e vilões, esse movimento favorece aos discursos populistas e
extremistas que simplificam a realidade para gerar audiência e cliques,
fragmentando o tecido democrático.
Segundo o provérbio moderno, “Os
lugares mais quentes do inferno estão reservados para aqueles que escolheram a
neutralidade em tempo de crise”. Essas palavras que não foram escritas
literalmente por Dante Alighieri, como alguns costumam afirmar, fazem um alerta
de suma importância à humanidade; sobretudo, aos viventes contemporâneos. Por
quê?
Porque olhando para a cultura, a política e a própria realidade vê-se que elas foram transformadas em entretenimento raso, onde a gravidade dos fatos foi diluída em espetáculo, de modo que recusar-se a tomar partido diante do sofrimento e das urgências do mundo não é isenção, mas uma forma de conivência silenciosa, cujo fluxo do tempo acaba por fazê-la encontrar a sua própria punição.


