quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Dia Mundial de Combate ao Câncer (04/02)


Dia Mundial de Combate ao Câncer (04/02)

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

O objetivo da data é aumentar a conscientização e a educação mundial sobre a doença, além de influenciar governos e indivíduos para que se mobilizem pelo controle do câncer.

Pois se trata de um conjunto de mais de 100 doenças que têm em comum o crescimento desordenado de células, que invadem tecidos e órgãos. Dividindo-se rapidamente, estas células tendem a ser muito agressivas e incontroláveis, determinando a formação de tumores, que podem espalhar-se para outras regiões do corpo” 1.

Segundo dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA), o “Brasil deve registrar 781 mil novos casos da doença por ano até 2028. Quando excluídos os tumores de pele não melanoma (de alta incidência, mas baixa letalidade), a projeção é de aproximadamente 518 mil casos anuais. As previsões confirmam que o câncer vem se consolidando como uma das principais causas de adoecimento e morte no Brasil, aproximando-se das doenças cardiovasculares.” 2.

E para compreender a dinâmica desse avanço do câncer, seja a nível brasileiro quanto global, é preciso ter em mente que os principais fatores de sua incidência na população contemporânea incluem o tabagismo, o consumo de álcool, a obesidade, a dieta excessiva, o sedentarismo e a exposição à poluição, incluindo os agrotóxicos.

Em relação ao tabagismo, ele atua na promoção do câncer a partir da inalação de mais de 7 mil substâncias, sendo cerca de 70 delas carcinogênicas. Portanto, elas causam danos físicos ao DNA, mutações genéticas e inflamação celular. Assim, tais alterações sobrecarregam o reparo celular e aceleram a divisão de células, favorecendo o surgimento de tumores malignos, especialmente na boca e no esôfago.

Quanto ao consumo de álcool, ele promove o desenvolvimento do câncer através da metabolização do etanol em acetaldeído, um composto tóxico que danifica o DNA das células e causa alterações, as quais produzem lesões. Além disso, ele aumenta os níveis de estrogênio, provocando uma inflamação crônica que gera estresse oxidativo e facilita a penetração de carcinógenos nos tecidos, elevando os riscos de tumores na boca, mama, fígado, esôfago e cólon.

A obesidade promove o desenvolvimento do câncer, principalmente, por induzir um estado de inflamação crônica, o qual aumenta os níveis de hormônios, tais como o estrogênio e a insulina. A produção excessiva de hormônios atua principalmente como um estimulante para a divisão celular acelerada, o que aumenta as chances de erros genéticos e o crescimento de tumores em tecidos sensíveis.

E nesse contexto, a dieta excessiva e a má nutrição são consideradas a segunda principal causa de câncer que pode ser prevenida. Por isso, recomenda-se priorizar alimentos de origem vegetal, como frutas e grãos integrais, e evitar o consumo de bebidas adoçadas e embutidos. Afinal, alimentos que promovem a inflamação crônica, tais como salsicha, bacon, presunto e linguiça, açúcar, farinha branca, gorduras saturadas e trans, e bebidas alcoólicas, criam um ambiente propício para o desenvolvimento e progressão de tumores.

O que somado ao sedentarismo vem promovendo a expansão do câncer na população contemporânea. Sim, porque a ausência de atividade física regular pode levar o indivíduo a obesidade, a inflamação crônica e a redução da eficiência imunológica, permitindo o surgimento de um ambiente celular favorável ao crescimento tumoral. Razão pela qual, o sedentarismo tem sido associado diretamente a certos tumores, tais como o de mama, de cólon, de endométrio e renal.

Por fim, a exposição aos agrotóxicos e poluentes no ambiente, seja no ar, na água e/ou nos alimentos, aumenta o risco de câncer dada a contaminação crônica. Trabalhadores rurais e residentes próximos a áreas de plantio intensivo estão mais expostos, com maior incidência de internações e óbitos por câncer.

O que ocorre devido ao contato e/ou a ingestão contínua, ainda que em baixas doses, via alimentos, ar e água contaminada, que leva ao acúmulo de tóxicos no organismo ao longo do tempo. Inclusive, estudos relacionados aos agrotóxicos e aos poluentes ambientais apontam para uma maior incidência de câncer no cérebro, na próstata, no rim, no fígado, no pulmão, além de leucemia e linfoma.

Daí a importância em destacar que esses contaminantes têm a capacidade de iniciar, promover e acelerar mutações, sendo muitos deles classificados como genotóxicos, ou seja, aptos a danificar o DNA, resultando no desenvolvimento de tumores. Bem como, interferem no sistema hormonal, provocando doenças, mesmo em níveis muito baixos de exposição.

Como se vê, então, enfrentar o avanço do câncer na sociedade contemporânea exige uma abordagem multifatorial, pois se trata de uma doença que não é apenas de natureza biológica, mas também um reflexo de nossos hábitos, ambiente e estruturas socioeconômicas.

Por isso, um dos maiores obstáculos no combate ao câncer está na desigualdade socioeconômica. As populações mais vulneráveis ​​enfrentam maiores riscos de exposição a certos fatores, tais como alimentação precária, tabagismo, alcoolismo e poluição ambiental, e sofrimentos com diagnósticos tardios, elevando a mortalidade.

Nesse sentido, é preciso entender que a desigualdade, nesse cenário, é uma questão estrutural. A falta de políticas públicas eficientes e o investimento insuficiente na prevenção aumentam a carga da doença entre os menos favorecidos, impactando diretamente o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano).  

Ocorre que apesar de os países de alto IDH terem maior número absoluto de casos, a incidência e a mortalidade aumentam proporcionalmente e mais rapidamente em países de baixo e médio IDH.

O que tende a explicar, por exemplo, porque em contextos de baixa renda, com menor IDH, o câncer é mais letal; pois, o combate se dá de maneira desigual. Esses países sofrem com a falta de infraestrutura e investimento para diagnóstico precoce e tratamento, condenando milhares de pessoas à morte prematura, fato que torna o câncer uma doença diretamente ligada à desigualdade social e ao nível de desenvolvimento.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Educação no Brasil: O que escondem certas novidades?


Educação no Brasil: O que escondem certas novidades?

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Vira daqui, mexe dali, e a Educação no Brasil é motivo de reflexão. A oferta de ensino público no país é descentralizada e compartilhada, com municípios focados na educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental, os estados nos anos finais do ensino fundamental e médio, e a União com o ensino técnico e superior.

Sendo que o financiamento do ensino básico é realizado majoritariamente pelo Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb), a partir da redistribuição dos recursos mediante o número de matrículas efetivadas.

E essa informação é de suma importância. Começando pelo fato de que o ensino básico no Brasil - ensino infantil, fundamental e médio -, que corresponde a 18 anos de formação do aluno, encontra-se sob gestão dos municípios e dos estados. Assim, eles   dividem as tarefas logísticas e operacionais, ou seja, transporte escolar, infraestrutura e manutenção de prédios e equipamentos, merenda e insumos físicos, e gestão do calendário e vagas, para garantir o funcionamento das redes de ensino público. Estas obrigações são fundamentais para o acesso físico e estrutural dos alunos às escolas.

Aspectos que têm povoado os veículos de comunicação e informação, com notícias que apontam para uma realidade, frequentemente, destoante dessas e de outras obrigações previstas na Lei de Diretrizes e Bases da Educação (Lei nº 9.394/1996) e na Constituição Federal de 1988 (arts. 205 a 214). Sendo que um dos aspectos que se sobressai, nesse contexto, se refere à infraestrutura e à manutenção de prédios e equipamentos.

Sim, a infraestrutura escolar no Brasil contemporâneo reflete profundas desigualdades socioespaciais, onde a precariedade de prédios e equipamentos, principalmente, em áreas periféricas e rurais limita o aprendizado e perpetua a exclusão social. A falta de equipamentos adequados limita as metodologias educacionais e a inclusão de novos contingentes sociais, impactando a formação global do aluno.

Bem, ainda que existam investimentos, há um alto índice de insatisfação com instalações básicas, tais como banheiros, refeitórios, laboratórios, bibliotecas, quadras de esporte, evidenciando a necessidade de alocação eficiente de recursos para garantir, inclusive, as exigências de educação em tempo integral. Mas, se fosse para considerar apenas os prédios onde se localizam as salas de aula, a situação já seria extremamente crítica.

Sejam escolas urbanas ou rurais, não é difícil verificar como inúmeras delas se encontram em situação de extrema precariedade. Carecem de reformas estruturais, de ventilação adequada, de falta de água potável, de esgotamento sanitário, de energia elétrica, de mobiliário compatível às atividades escolares, ...

Além disso, prédios abandonados tornam-se vulneráveis ​​a furtos, vandalismo e invasões, transformando o que deveria ser um polo educativo em um problema de segurança pública para a vizinhança.

E diante desse cenário de abandono e precariedade enfrentado por diversas escolas públicas, sob gestão de municípios e de estados, é inevitável que, em algum momento, se chegue ao seu fechamento e encerramento das atividades educacionais.

Acontece que o processo não para no abandono e posterior fechamento dessas escolas públicas. Em algum momento, ele é seguido de novas construções em outros locais, tendo como justificativa uma eventual readequação da rede escolar. No entanto, a realidade dessas escolas fechadas por falta de manutenção e estrutura inconveniente, poderia ser facilmente solucionada através de reformas. E por que não é?

Ora, porque a construção de novas unidades atende a interesses políticos locais em realizar inaugurações, especialmente, em anos eleitorais, deslocando alunos para áreas periféricas ou reduzindo o número total de escolas funcionando simultaneamente. Desse modo, inaugurar uma nova escola pode mascarar o fechamento de outras, resultando em saldo nulo ou negativo na quantidade total de estabelecimentos, impactando a cobertura educacional, especialmente no ensino básico.

O fechamento de escolas municipais/estaduais seguido da inauguração de novas unidades cria, portanto, a falsa sensação de ampliação; pois, foca na construção, na novidade, ignorando a redução líquida do patrimônio escolar. Trata-se de uma manobra política para construir uma propaganda oficial que destaca apenas as novas unidades construídas.

Afinal, essas inaugurações geram visibilidade política e fotos de escolas modernas, enquanto o fechamento de unidades menores ou rurais, que atendem a esse modelo de reordenamento da rede, ocorre de forma silenciosa e dispersa. Não é à toa que, frequentemente, governos municipais e estaduais anunciam novas construções enquanto deixam milhares de obras escolares paradas, gerando um esquema onde o número de unidades educacionais efetivas em funcionamento não cresce, ou até diminui.

Diante desse modelo de reordenamento escolar, com o fechamento de unidades próximas às comunidades, especialmente na zona rural, tem-se um aumento da distância para os alunos, contribuindo para a evasão escolar. A precariedade física, portanto, não é apenas um problema técnico, mas uma barreira que impede que uma escola pública exerça sua função de mobilidade social, mantendo a estrutura da pirâmide social brasileira.

O que significa que a evasão escolar não é um evento acidental, mas uma característica estrutural muitas vezes utilizada para validar políticas de austeridade, que consistem no corte rigoroso de gastos públicos; sobretudo, quanto aos investimentos em infraestrutura, saúde e educação.

Por isso, quando as taxas de evasão sobem, o custo por aluno formado aumenta, fazendo com que se torne o argumento técnico para reduzir repasses, sob a lógica de que o sistema é ineficiente e precisa ser ajustado. Assim, menos alunos em sala resultam em menos recursos para a escola, perpetuando a precariedade. 

domingo, 1 de fevereiro de 2026

A desumanização e a inconsciência de que a vida é um todo indivisível


A desumanização e a inconsciência de que a vida é um todo indivisível

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Se engana quem pensa que a desumanização se limita a atos de crueldade física, mental e emocional contra seres humanos. Não, a desumanidade também afeta outros seres vivos.  Esse processo não é apenas uma falta de empatia, mas uma construção intelectual que justifica uma exploração.

Trata-se de uma falha ética que estabelece uma posição moral arbitrária, onde o sofrimento de um ser vivo, não humano, é considerado irrelevante apenas por ele não pertencer à espécie Homo sapiens.

Assim, ao transformar a natureza em mercadoria, em objeto, em algo desimportante e sem valor, o ser humano se desumaniza porque perde a conexão com o meio que sustenta a sua própria existência.

De modo que a desumanização contra um ser vivo não humano aponta para o fato de que ao negar a eles o status de sujeitos morais, a sociedade contemporânea rompe o imperativo ético de cuidado e de responsabilidade.

A moralidade torna-se seletiva; na medida em que a preservação dos seres vivos passa a depender diretamente das vontades e dos interesses do ser humano.

Nesse sentido, o enfraquecimento desses valores sinaliza uma dessensibilização social, na qual a desumanização se sobrepõem à compaixão e ao respeito pela vida.

Haja vista, por exemplo, a realidade contemporânea do abandono e da violência contra animais domésticos e/ou de estimação. Ela configura um problema de saúde pública, de negligência social e de um reflexo da banalização da violência, muitas vezes, atrelada à falta de responsabilidade dos tutores, seja por dificuldades financeiras ou por deformidades culturais.

Algo que sinaliza a realidade de uma sociedade que prioriza a humanidade sobre a alteridade, onde a vida, seja ela humana ou não, só tem valor enquanto serve a um propósito egoísta.

Como se fosse possível constituir uma banalização da morte e uma transformação de seres que têm a capacidade de sentir sensações físicas e emoções, em meros recursos para fins humanos.

E diante das reiteradas manifestações de desumanização contra os animais, a criminalização dos maus-tratos foi instituída no Brasil.

O animal deixou de ser visto como coisa para ser reconhecido como um ser senciente, ou seja, capaz de sentir sensações físicas e emoções.

Portanto, maltratar animais é crime no Brasil, conforme a Lei nº 9.605/1998. Se forem cães e gatos, a Lei nº 14.064/2020 aumenta a pena para reclusão de dois a cinco anos.

Além disso, o artigo 225, § 1º, inciso VII, da Constituição Federal de 1988, estabelece que o Poder Público tem o dever de proteger a fauna e a flora, vedando práticas que coloquem em risco suas funções ecológicas, provoquem a extinção de espécies ou submetam os animais à crueldade.

E o Decreto 11.349/2023 trouxe uma mudança significativa para a proteção dos direitos animais no Brasil, quando criou a Secretaria Nacional de Biodiversidade, Florestas e Direitos Animais, bem como o Departamento de Proteção, Defesa e Direitos Animais dentro do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima.

Segundo a Resolução do Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV) nº 1236/2018, a qual define crueldade, abuso e maus-tratos aos animais, é fundamental destacar a responsabilidade de veterinários e zootecnistas em identificar e denunciar esses atos. Por isso, ela inclui orientações sobre práticas como eutanásia e transporte de animais, sempre visando minimizar o sofrimento.

Vale ressaltar que nas entrelinhas de toda essa construção jurídica está a Teoria do Elo. De acordo com os estudos da sociologia e da criminologia, a violência contra animais é frequentemente um preditor de violência contra humanos, especialmente, minorias sociais - negros, indígenas, população LGBTQIA+, Pessoas com Deficiência (PCDs), mulheres, idosos, refugiados, e pessoas em situação de vulnerabilidade, como é o caso dos moradores de rua.

Daí a punição à crueldade animal ser, também, uma forma de prevenir a manipulação desumanizadora do tecido social como um todo. Afinal, ao tornar a crueldade um crime, o Estado estabelece um novo padrão ético, sinalizando que a empatia e a compaixão são valores fundamentais para a convivência em uma sociedade civilizada.

A importância de não compactuar com a desumanização, estendendo esse cuidado aos animais e à natureza, reside na construção de uma ética da alteridade que confirma o valor intrínseco de toda forma de vida.

Afinal de contas, consiste nessa consciência o que diferencia o processo de humanização genuíno da simples dominação técnica; pois, somente através da utilização da empatia e da autorreflexão, características distintivas do ser humano, é que se torna possível proteger a vida em todas as suas manifestações.