sexta-feira, 14 de agosto de 2026
sábado, 8 de agosto de 2026
A realidade contemporânea da coabitação multigeracional
A realidade
contemporânea da coabitação multigeracional
Por Alessandra
Leles Rocha
Apesar da raça humana ter
iniciado a sua jornada sobre a Terra, vivendo coletivamente dentro de um mesmo
espaço, sob um mesmo teto, a própria dinâmica social se impôs para promover um
processo de desagregação dos grupos, para que os indivíduos pudessem desfrutar
da sua autonomia e independência.
Então, no contexto do século XXI,
quando muitos expressam o seu espanto ou indignação diante de gerações que
estão compartilhando o seu cotidiano dentro de uma mesma casa, é preciso parar
e refletir sobre as conjunturas que levaram a esse cenário social contemporâneo.
Queiramos ou não admitir, o
desenvolvimento científico e tecnológico decorrente da Revolução Industrial, na
segunda metade do século XVIII, teve sim um papel de arauto do progresso humano
ao propagandear a sua possibilidade de existir e viver por conta própria. Acontece
que na prática a teoria nem sempre se alinha dentro das perspectivas e
expectativas.
Esse recorte histórico-temporal
que viria mudar, para sempre, o curso da humanidade, gerou um sistema sociocultural
e econômico tão engessado e limitante, quanto aquele que existia até a
Revolução Francesa. O cenário que prometia a libertação humana pelo domínio da estrutura
monárquica acabou criando novas formas de aprisionamento social.
Veja, a Revolução Industrial
vendeu a ideia de emancipação total do homem através da máquina e da ciência;
mas, na verdade, o ser humano deixou de ser refém das intempéries da natureza
para se tornar refém do relógio, da fábrica e do capital. Tanto que a arte, antes
dominante sobre todo o processo produtivo, transformou-se em mera extensão da
especialização industrial.
O direito de sangue da nobreza
feudal foi substituído pelo poder financeiro da burguesia. Nesse sentido, a
mobilidade social permaneceu severamente limitada a tal ponto que o trabalhador
urbano se viu preso a jornadas de 16 horas e condições miseráveis, sem vias de
fuga. Assim, o controle social mudou o soberano, ou seja, do Rei para o Mercado,
mas uma estrutura de domínio e de desigualdade extremamente centralizada
permaneceu.
E quanto mais o tempo passa mais
esse sistema recrudesce, deteriorando de maneira bastante contundente quaisquer
vestígios de autonomia e de independência dos indivíduos. Haja vista que, em
2026, a distribuição de renda e riqueza global continua em patamares de
concentração extremos, com os 10% mais ricos detendo cerca de 75% da riqueza
global e a metade mais pobre ficando com apenas 2%.
Isso significa que o mundo vem se
tornando materialmente muito mais rico, porém o abismo absoluto entre os mais
ricos e os mais pobres é concretamente maior do que no início da Revolução
Industrial, por volta da segunda metade do século XVIII. Apesar de a pobreza
extrema global ter decrescido dramaticamente em termos percentuais, a fatia da
renda capturada pelo topo da pirâmide se mostra hiperconcentrada e distante de
uma realidade ampliada.
Acontece que essa dinâmica do
capital é que rege as possibilidades do exercício existencial autônomo e
independente. Sem a suficiência de recursos não há eficiência para a construção
das bases da dignidade humana. Daí o retrato de gerações familiares sendo
obrigadas a viver sob um mesmo teto. Quem já leu sobre o dilema do porco-espinho,
criado pelo filósofo alemão Arthur Schopenhauer em 1851, entende bem. Apesar de
todos os desafios impostos pela diversidade e pluralidade humana essa coabitação
multigeracional forçada é a única forma de sobreviver.
Ela, na verdade, representa uma
válvula de escape econômico e uma rede de segurança privada diante dos altos
custos de vida, da escassez de recursos e da financeirização da moradia dentro
do capitalismo contemporâneo.
Nesse sentido, ela transferiu
para o espaço doméstico o suporte que o Estado deixou de cumprir em relação ao bem-estar
social liberal, o qual havia teoricamente prometido. O pior é que o sistema
capitalista se beneficia dessa estrutura ao abafar o descontentamento social e
reduzir a pressão por políticas públicas de habitação e seguridade.
Portanto, embora pareça uma
resistência comunitária, trata-se de uma imposição que limita a mobilidade
social e a autonomia individual das novas gerações. Fato que desencadeia uma
série de consequências nefastas, tais como o estresse psicológico devido à
falta de privacidade e choque de valores geracionais, a sobrecarga feminina
traduzida pelo acúmulo do trabalho doméstico e de cuidado com as diversas
gerações, e a manifestação de uma solidariedade compulsória, na qual o afeto e
os laços familiares são instrumentalizados e desgastados pela pressão econômica
externa.
Mas, talvez, a raça humana já
esteja diante de uma fronteira social ainda pior. Ao redor do planeta existem
milhares de famílias que já perderam o próprio teto em razão dessa dinâmica. Essa
coabitação multigeracional está sendo forçada a viver nas ruas dos centros
urbanos; sobretudo, as grandes e médias cidades.
O aumento do preço dos aluguéis e
a escassez de moradia acessível forçam milhares de pessoas a viverem ao ar livre.
Por consequência, os espaços urbanos sofrem com a falta de infraestrutura e
políticas públicas para acolher essas populações vulneráveis. A perda do teto
rompe, então, a rede de apoio familiar e gera graves riscos à saúde e à
segurança humana, exigindo ações integradas de assistência social, saúde
pública e planejamento urbano.
Segundo o Programa das Nações
Unidas para os Assentamentos Humanos (ONU-Habitat), cerca de 318 milhões de
pessoas enfrentam a falta absoluta de moradia no mundo, enquanto quase 3
bilhões sofrem com habitação inadequada, morando em favelas ou assentamentos
informais. Esse cenário reflete as crises sistêmicas de desigualdade urbana,
exigindo políticas públicas integradas de saneamento, saúde e planejamento
territorial.
Afinal, a ausência de
políticas integradas agrava múltiplos fatores de risco nos centros urbanos.
A começar pelo fato de que a falta de teto isola o indivíduo e desestrutura os
laços familiares e comunitários.
O que traz consequências significativas,
tais como o agravamento do desequilíbrio em relação à saúde pública, dada a
exposição contínua às intempéries, à poluição urbana e à falta de saneamento
que dispara os índices de adoecimento físico e mental entre a população.
Fato que culmina na consolidação
de ciclos de exclusão; pois, as respostas institucionais baseadas apenas na
repressão ou em ações emergenciais de curto prazo falham em estancar o problema
estrutural da pobreza e da indignidade humana.
Daí a necessidade de olhar para a vida como ela é. De se permitir a reflexão a respeito da submissão que constrói a alienação humana diante desse sistema socioeconômico estabelecido há pouco mais de 3 séculos, o qual só faz recrudescer as diversas barbáries sociais historicamente conhecidas. Porque a consciência é o primeiro passo para resistir à coisificação humana e se reposicionar como sujeito da própria história, se apropriando da condição de ser autônomo e independente.
segunda-feira, 3 de agosto de 2026
Parece ... Mas não é.
Parece ...
Mas não é.
Por Alessandra
Leles Rocha
De maneira franca, clara e
objetiva, a identidade é algo pessoal e intransferível, o que significa que ela
pertence a apenas um indivíduo e não pode ser dada ou emprestada a outra
pessoa. Dito isso, por mais que um (a) filho (a) se pareça de algum modo com
seus genitores, cada indivíduo tem a sua própria história.
O que move essa reflexão advém do
que está presente nas mídias sociais. As figuras de dois pais e dois filhos são
o objeto de uma análise bastante importante e interessante.
No primeiro caso, o pai já foi
Presidente da República. Portanto, já submeteu o seu trabalho e a sua história
política ao escrutínio popular. O filho, primogênito, dada a impossibilidade jurídica
do pai concorrer a um novo pleito, se colocou na disputa. Seus anos na política
trouxeram uma experiência limitada ao Legislativo. Razão pela qual, ele se
apega de todas as maneiras ao nome do pai como se o papel de sucessor político,
de maneira automática e instantânea, fosse reproduzir também uma apropriação
identitária.
No segundo caso, o pai é
Presidente da República. Inclusive, está em seu terceiro mandato. O que
significa que o seu trabalho e a sua história política se permitiram colocar em
escrutínio popular mais de uma vez. O filho, primogênito, nunca manifestou
pretensões políticas. No entanto, dado o viés político-partidário do pai, ele
sempre esteve no alvo dos opositores sob alegações de alguma conduta ilícita,
sem que nada fosse, de fato, comprovado.
Por quê? Porque a historicidade
brasileira, marcada por um modelo colonial, consolidou uma herança política em
que os poderes costumam seguir, quase sempre, o fluxo da hereditariedade
familiar. Então, torná-lo objeto de contestação pública, apesar de ele não ter escolhido
ocupar um lugar na vida política, se torna um modo de tentar afetar ou arranhar
a imagem do pai.
Acontece que na escolha democrática,
o candidato é um individuo dotado de identidade própria. O registro e a votação
são baseados puramente na figura do indivíduo, não existindo candidaturas
coletivas ou de listas fechadas independentes de nomes.
Cada candidato concorre sob um
número e nome de urna específicos; bem como, ele responde individualmente pelo
que diz, pelo que promete, por suas contas e atos de campanha. E é sobre essa
figura que o eleitor deve dedicar a sua análise crítica.
O exercício do voto consciente,
na democracia, implica necessariamente em avaliar de maneira profunda e
objetiva os pretensos candidatos. Verificar mandatos anteriores, projetos
aprovados e coerência partidária. Investigar a existência de processos
judiciais ou condenações por corrupção. Ler as propostas oficiais ou planos de
governo registrados na Justiça Eleitoral. Analisar se os projetos possuem
orçamento e base legal realizáveis. Identificar quem são os principais doadores
e grupos de interesse do candidato.
Informações que podem ser obtidas
na Plataforma do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e nos portais de transparência,
os quais incluem os sites da Câmara, do Senado ou das assembleias legislativas.
A escolha representativa
político-partidária deve, então, basear-se em propostas concretas e de
competência administrativa, e não em distorções de identidade ou expectativas
ilusórias. Quando o voto é guiado por visões de projeções identitárias irreais,
o debate público perde profundidade técnica e passa a ter foco em narrativas
superficiais e equivocadas.
De modo que para superar esses
vieses há de se construir uma análise de histórico, avaliando o passado
político, as votações anteriores e os processos do candidato. Um profundo estudo
de propostas, verificando a viabilidade econômica e técnica dos planos
apresentados. Exercendo uma cobrança partidária a partir do monitoramento do
partido político quanto aos apoios em projetos alinhados ao interesse coletivo.
Mas, para isso, só consumindo notícias
de diferentes veículos de imprensa para evitar bolhas de informação. Afinal,
elas são tentáculos que capturam a sua liberdade de escolha e te fazem refém
das decisões de outras pessoas que você sequer conhece ou já ouviu falar. O que
geralmente acontece por meio de algoritmos, personalização de feeds e viés de
confirmação.
Portanto, desconfie de conteúdos que parecem feitos sob medida para agradar ou irritar você. Limpe o seu histórico de navegação e redefina as preferências dos seus aplicativos. Busque a diversidade! Leia sites e perfis com pontos de vista contrários aos seus. E não se esqueça, “O mais corajoso dos atos ainda é pensar com a própria cabeça” (Coco Chanel - estilista e empresária francesa).

