segunda-feira, 27 de abril de 2026

Cadê o futebol brasileiro?


Cadê o futebol brasileiro?

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Todo esporte tem alma, tem identidade. E com o futebol não é diferente. É essa essência que estabelece a forma de executar a prática desportiva e as regras que o organizam. De modo que é nessa composição entre subjetividade e objetividade que reside a magia capaz de capturar o torcedor, preenchendo um espaço na dinâmica da sua própria construção existencial.

Por aqui, na terra Brasilis, o futebol como uma construção cultural e simbólica que transcende a mera prática física ou o resultado técnico, fincou suas raízes em 1894, trazido por Charles Miller, um brasileiro filho de ingleses que retornou da Inglaterra com bolas, uniformes e o livro de regras. Passados quase dois séculos em que o lúdico do desporto abriu as portas para que a criatividade e a emoção se fundissem e fizessem desabrochar a necessidade de pertencimento e expressão na alma do torcedor, tudo parece estar perdendo o seu encanto.

Diante dessa breve introdução, posso imaginar que o (a) leitor (a) deve estar considerando surreal essa minha reflexão, tendo em vista que faltam aproximadamente 45 dias para a abertura da Copa do Mundo FIFA 2026 e o Brasil é o único país participante pentacampeão dessa competição. Acontece que a pergunta título desse texto tem feito cada vez mais sentido, quando se olha, com bastante atenção, para  os (des) caminhos que se mostram no futebol brasileiro ainda em campeonatos nacionais.  

Nesses quase dois séculos de presença nos gramados, é impossível fechar os olhos ao fenômeno que vem transformando o futebol brasileiro pela ação da monetização e da mercantilização, impulsionada pelo capitalismo esportivo, que o alçou à condição de um produto mercadológico, integrado à lógica de acumulação de capital, da produção de lucros e da espetacularização. O que esgarçou a sua gênese sociocultural de resistência e ludicidade, popularmente conhecida como futebol-arte, e devolveu a todos um futebol-negócio, uma indústria de entretenimento globalizada. 

O jogo, antes valorizado pela imprevisibilidade, pela arte da habilidade técnica, da genialidade nata do atleta, e pela expressão cultural, passou a ser gerido como um ativo financeiro, um produto comercial. A partir do mercado de transferências, dentro e fora do país, os jogadores tornaram-se mercadorias e os torcedores foram convertidos em consumidores de ingressos, de camisas e outros símbolos de fidelização ao clube do coração, de planos de streaming para acompanhar os jogos, enfim...

De repente, a lógica do capitalismo desportivo impôs padrões globais que transformaram e subordinaram o futebol às práticas e aos interesses econômicos transnacionais. O que significou a homogeneização cultural, a mercantilização da cultura corporal e o uso do esporte como aparelho ideológico para consumo e controle social, ou seja, o futebol só tem valor enquanto mercadoria. A velha paixão popular foi substituída por um nicho de mercado e consumo, onde o fetichismo da marca substituiu o jogo em si.

E todo esse processo tende a apagar as identidades locais em troca de padrões europeus ou elitizados. Como ele foi reconfigurado para ser exibido na televisão e nas redes sociais, esse modelo abre espaços usados para disseminar e legitimar situações alheias à sua verdadeira alma, tais como propagandas políticas, desvio da atenção aos escândalos e problemas estruturais no desporto, e a promoção de uma ideologia burguesa de meritocracia. Algo que traduziu em uma flagrante perda da diversidade lúdica e da essência do futebol.

Mas, não bastasse isso, houve uma mudança estrutural de clubes de natureza associativa para empresas, conhecidas como Sociedade Anônima do Futebol (SAF), as quais visam o lucro e a eficiência financeira, muitas vezes priorizando o equilíbrio de caixa em detrimento da identidade do clube e da participação popular nas decisões. Levando o futebol a ser remoldado para atender aos interesses da mídia e dos grandes patrocinadores, influenciando os horários de jogos, as regras e o comportamento nos estádios, que adquiriram um certo status de arenas elitizadas.

Então, na esteira dessa transformação emergiram as casa de aposta virtuais, as chamadas BETs, consolidando uma alteração profunda na relação entre esporte, economia e sociedade. De repente, o mundo contemporâneo se viu imerso em uma conversão do futebol, ou seja, de uma manifestação cultural popular para um esporte mercantilizado, onde a emoção é vendida e a aposta transforma o torcedor em consumidor de risco.

O papel das BETs se dá da seguinte maneira, as apostas patrocinam os clubes para elevar vendas e expandir capital, associando o esporte ao consumo e à imagem, onde a marca da aposta se torna mais importante que a tradição do clube. Assim, o jogo perde parte da sua autonomia, sendo condicionado pela necessidade da aposta para validar a emoção. Naturalizando o jogo como investimento racional e meritocrático, frequentemente associado a influenciadores digitais.

O pior é que esse marketing perverso das apostas é focado, muitas vezes, em populações vulneráveis, prometendo ascensão financeira rápida através da sorte. Se desdobrando, de maneira veloz, em endividamento e pauperismo social; pois, o vício em apostas online cresce vertiginosamente, afetando a saúde mental e a saúde financeira das famílias, gerando perdas econômicas, aumentando a desigualdade social e, em casos extremos, levando pessoas a autoexterminar-se.

Por essas e outras, o verdadeiro futebol brasileiro sumiu, desapareceu. O rolo compressor do capitalismo esportivo; sobretudo, potencializado pelas SAFs e BETs, desconfigurou a sua alma, a sua essência, a sua identidade. Sim, ele retira a dimensão humana e cultural do jogo, transformando-o em um veículo para a expropriação financeira, onde o lucro é privatizado, acumulado por corporações, muitas vezes à custa da população de menor renda.

Daí a necessidade urgente de repensar a realidade do futebol brasileiro. A fim de se evitar que ele venha a sucumbir completamente, tornando-se apenas uma fábrica de mercadorias e de cassinos virtuais, em detrimento de seu papel de construção de identidade cultural coletiva e de ludicidade. Afinal, a implementação das Sociedades Anônimas do Futebol (SAFs) e a onipresença das casas de apostas (BETs) está erodindo, lenta e gradativamente, os valores do futebol, destruindo o simbolismo geracional enquanto manifestação cultural de massa. 

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Educação humanizada. Indicador de desenvolvimento.


Educação humanizada. Indicador de desenvolvimento.

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Não, não há como negar que o desenvolvimento científico e tecnológico de um país é o principal motor de transformação de sua população, impactando diretamente na qualidade de vida, na estrutura demográfica e no comportamento social. Acontece que esse é, em geral, um processo que se dá de forma assimétrica na globalização.

Isso significa que em países em desenvolvimento, os quais frequentemente implementam tecnologias após os países desenvolvidos já o terem feito, a realidade demonstra que o resultado se expressa por diversos ônus sociais, econômicos e culturais sem, de fato, possibilitarem que usufruam totalmente dos bônus decorrentes desse processo.

Eu fui tomada por essa reflexão após me deparar com a informação de que na grade curricular de alunos entre 6 e 16 anos, na Dinamarca, foi estabelecido desde 1993, o ensino de empatia como disciplina obrigatória, conhecida como "Klassens tid" (hora da turma).

Durante uma hora por semana, alunos e professores se reúnem em círculo, geralmente tomando chá e comendo bolo, para discutir assuntos, compartilhar sentimentos e resolver problemas. Portanto, essa não é uma disciplina acadêmica e não será avaliada com nota; mas, permite aprender a ouvir, compreender diferentes perspectivas e resolver conflitos pacificamente.

Afinal, um dos efeitos mais nefastos que tem sido observados na contemporaneidade é exatamente a desumanização, decorrente da corrida pelo desenvolvimento científico e tecnológico.

Embora a Dinamarca seja reconhecida como uma das economias mais desenvolvidas do mundo, caracterizada por um alto padrão de vida, forte estado de bem-estar social e baixa desigualdade, seus cidadãos perceberam a importância de não negligenciar a humanização nas relações humanas, dentro dos seus propósitos de desenvolvimento.

Então, eles decidiram nutrir cada vez mais essa consciência de que as pessoas não devem serem vistas e compreendidas apenas como dados ou engrenagens produtivas, perdendo sua individualidade e subjetividade.

E nada melhor do que a escola para exercer o papel multiplicador e transformador a esse respeito. Porque nesse espaço existem todas as condições para a reflexão sobre como a desumanização social impacta diretamente na expressão da ética, na medida em que o poder fazer acaba atropelando o deve fazer, por conta da velocidade do avanço científico e tecnológico.

Nesse sentido, é que países como o Brasil, considerados em desenvolvimento, precisam olhar com atenção os impactos do seu próprio comportamento desenvolvimentista, porque apesar de serem expressões globais, a sua intensidade e forma variam muito devido à dinâmica de absorção psicoemocional dos indivíduos.

Acontece que, quando um país se dedica, quase que exclusivamente, em favor do desenvolvimento científico e tecnológico, em nome da competitividade global, quase sempre essa dinâmica tende a inverter a lógica da humanização social, do contato físico, do exercício da subjetividade.

E esse tipo de imersão social, no fim das contas, gera perdas incalculáveis; sobretudo, afetando diretamente a construção identitária e de valores dos indivíduos. Algo que se identifica pelo individualismo, o consumismo e, por vezes, uma perda da conexão humana, afetiva, empática.

De modo que os efeitos e consequências disso não poderiam ser outros senão alcançar a exacerbação da beligerância, das violências e do ódio, na dinâmica das relações sociais. Porque esse cenário potencializa a disseminação de estigmas, de rótulos, de polarizações, e da transferência de conflitos do ambiente virtual para o mundo físico.

Daí a corrida pelo desenvolvimento científico e tecnológico estar sim, potencializando a inversão da lógica do contato físico, aproximando virtualmente e afastando fisicamente as pessoas. O que gera uma epidemia emocional, onde o uso excessivo de redes sociais, por exemplo, resulta em relações rasas, solidão e redução da capacidade de construção de vínculos.

Já há estudos demonstrando a relação entre a FOMO (Fear of Missing Out - medo de perder algo) e nomofobia (medo irracional e a ansiedade extrema de ficar sem o celular, bateria, sinal ou conexão com a internet) e os comportamentos antissociais, agressivos e violentos.

Alguns, inclusive, sugerem uma relação de longo prazo entre a dependência digital e os comportamentos agressivos ou disruptivos; pois, ela pode levar o indivíduo aos gatilhos extremos de abstinência, como quaisquer outras drogas.

Então, enquanto o Brasil corre atrás de uma educação tecnológica, concentrando seus esforços no acesso a dispositivos e internet, ele deixa de perceber que muitos dos países desenvolvidos já estão, há décadas, em um processo de revisão dos seus paradigmas a esse respeito.

Ora, o Brasil está distante de uma educação humanizada, focada em competências socioemocionais, valores humanos e pensamento crítico. Desse modo, ele se vê obrigado a conviver amiúde com o (ciber)bullying e outras violências, com a incapacidade de discutir assuntos, de compartilhar sentimentos, de resolver problemas, e, até mesmo, lidar com crimes de ódio motivados por preconceito e intolerância no ambiente escolar.

Já os países desenvolvidos estão, cada vez mais, se voltando para uma formação que não se perca do humanismo, da empatia, da coexistência e convivência harmônicas, com foco em competências socioemocionais e de pensamento ético e crítico.

Segundo eles, a tecnologia deve ser vista como ferramenta para personalizar o ensino, enquanto o contato humano tem que ser valorizado para o desenvolvimento de competências comportamentais e saúde mental.

Por essas e outras que a construção de políticas voltadas para a Democracia, a Cidadania e a Humanização nas escolas é considerada um indicador fundamental do nível de desenvolvimento de um país, na medida em que reflete a capacidade da nação de formar sujeitos críticos, éticos e ativos, e não apenas de transmitir conteúdo acadêmico.

A humanização no ambiente escolar valoriza a afetividade, a empatia e a ética, resultando em um ambiente mais saudável, um maior engajamento dos estudantes e uma formação integral, indo além da lógica de mercado.

Razão pela qual os países com melhores indicadores de educação cidadã e humana demonstram maior desenvolvimento social e econômico, com populações que zelam pelo cumprimento das leis e exercem sua participação na vida pública. 

Delivery: De praticidade à dor de cabeça contemporânea

Delivery: De praticidade à dor de cabeça contemporânea

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Nada mais comum na sociedade contemporânea do que os serviços de delivery ou entrega em domicílio. O fenômeno, de fato, se intensificou a partir da pandemia de COVID-19, mas a sua boa aceitação e popularização foi impulsionada em razão da conveniência, da transformação sociodigital e da mudança nos hábitos de consumo.

Refletindo-se não somente como um direito à praticidade social contemporânea, como uma mudança profunda nas relações de consumo, trabalho e no ritmo da vida urbana.

Desse modo, no que diz respeito às relações de consumo contemporâneo, o delivery se configura como um pilar central da sociedade da plataforma, ou capitalismo de plataforma, cujo processo dinâmico em diferentes setores socioeconômicos foi reorganizado em torno de plataformas digitais.

Daí o consumidor assumir um papel ativo na avaliação de serviços, tais como a agilidade da entrega, o resultado dos pedidos, ... representando a transferência da gestão de qualidade do estabelecimento para o cliente final, transformando-o em um fiscal ou agente de controle de qualidade e conduta do prestador.

Mas, para que o consumidor satisfaça as suas demandas através dessa nova realidade comercial, a relação entre os aplicativos de delivery ou plataformas digitais e as empresas parceiras é estruturada como uma intermediação de serviços baseada em tecnologia.

Fato que, segundo o Código de Proteção e Defesa do Consumidor (Lei nº 8.078 de 11 de setembro de 1990), estabelece essa relação comercial como uma cadeia de fornecimento, gerando responsabilidade solidária.

Sim, as plataformas não são apenas intermediárias; elas respondem conjuntamente com a empresa parceira por falhas na entrega, na qualidade do produto e nos pagamentos. Em caso de problemas, tais como atraso, produto errado, pedido incompleto, ... o consumidor pode reclamar tanto à empresa quanto ao aplicativo.

Além disso, em relação ao aplicativo, ele responde por danos ao consumidor independente de culpa, pois faz parte da cadeia de produção e distribuição, como estabelece o art. 14, CDC. Afinal, sendo o aplicativo uma vitrine virtual capaz de fornecer sistema de pagamento e logística, ele se torna, então, um fornecedor de serviços.

Contudo, apesar da legislação brasileira, o desrespeito aos direitos do consumidor por parte das empresas parceiras e dos aplicativos de entrega tem sido comum devido a uma combinação de crescimento exponencial do setor, de inúmeras falhas na responsabilização das plataformas, no atendimento automatizado deficiente e na imposição de complexidades na resolução de problemas.

O que era para transcorrer de maneira clara, objetiva e fácil, se transformou em um verdadeiro cavalo de batalha. Primeiro, porque as plataformas de entrega frequentemente alegam ser apenas uma ponte entre as empresas parceiras e os consumidores, dificultando a responsabilização do aplicativo em problemas como pedidos errados, danificados ou atrasos, empurrando a culpa para terceiros, incluindo o próprio entregador.

Depois, pela dificuldade de contato direto com humanos e a burocracia para conseguir reembolso, troca ou cancelamento de produtos, gerando frustração e desejo de denúncia.

Na verdade, o que está por trás dessa realidade é que os problemas como atrasos, produtos errados e pedidos danificados refletem a falta de estrutura adequada em muitos desses estabelecimentos que compõem a cadeia de fornecimento.

Contudo, caso o pedido esteja errado ou danificado, o cliente tem direito à troca ou estorno de valor. Se houver atraso, ele pode recusar a entrega e solicitar o reembolso total.

A manifestação dos direitos pelo consumidor é fundamental para combater as práticas abusivas nas relações de consumo, porque transforma as normas abstratas em ações concretas, equilibrando a relação de consumo, forçando os fornecedores a cumprirem a legislação.

Não se esqueça, a reclamação e a denúncia é que tornam possível a aplicação do Código de Defesa do Consumidor (CDC). O consumidor é reconhecido jurídica e economicamente como a parte vulnerável; por isso, manifestar seus direitos é a forma de reequilibrar essa relação. Além disso, exercer o direito de reclamar não é apenas um ato individual de reparação, mas uma ferramenta de cidadania que fortalece o mercado e protege a coletividade.