O boneco
ventríloquo
Por
Alessandra Leles Rocha
As novas gerações, talvez, não
conheçam o boneco ventríloquo. Embora suas origens remontem da Grécia e Roma
Antiga, foi nos séculos XIX e XX, que esses bonecos, dotados de mecanismos
complexos para movimentos com a cabeça, os olhos e a boca articulada, tornaram-se
populares em shows de variedades e, posteriormente, na televisão. De modo que através
da manipulação por um artista que fala sem mexer os lábios, tem-se a ilusão de
que o boneco inanimado tem vida própria e voz independente.
Mas, por que escrever sobre tais
bonecos? Simples. A construção da imagem auxilia na compreensão dos fatos
sociais ao transformar conceitos abstratos em evidências visuais, mediando
nossa percepção de realidade, história e relações de poder. Nesse sentido, as
imagens não apenas refletem o mundo, mas através da sua identidade o constroem,
moldando os estereótipos e as memórias coletivas.
Então, como estamos em ano
eleitoral, não pude deixar de traçar um paralelo entre os bonecos ventríloquos e
o movimento dos pretensos candidatos alinhados à Direita e seus matizes. Sim,
porque a fragmentação dentro desse espectro político-partidário transforma alguns
indivíduos em bonecos ventríloquos para auxiliar na construção de uma imagem,
até certo ponto moderada, daquele que se destaca para o pleito.
Afinal, os bonecos ventríloquos
são verborrágicos. Eles falam sem parar, atropelam a fala do outro e não têm
filtros. Acontece que essa compulsão pela fala possui uma função social profunda,
centrada para vencer o silêncio constrangedor das verdades reprimidas, ou seja,
ele fala muito porque tem a urgência de dizer o que o humano não pode dizer. Então,
ele despeja a realidade nua e crua.
Veja, o boneco pode ser racista,
misógino, cruel, politicamente incorreto, ... Mas, se um ser humano fizesse as
mesmas considerações ou críticas, ele seria sumariamente cancelado ou
hostilizado pela plateia. Isso significa que a sociedade tende a aceitar a
agressividade verbal e a torrente de palavras do boneco porque finge acreditar
na ilusão de que ele possui uma consciência própria independente.
Só que não. O que acontece, de
fato, é que o manipulador do boneco utiliza desse recurso para limpar sua
própria imagem perante as normas sociais. Ele coloca palavras na boca do boneco
para fazer valer os seus próprios argumentos. Essas são, na verdade, táticas de
guerrilha da comunicação que permitem suspender temporariamente as regras
sociais da etiqueta para dar vazão à verdade dos valores, crenças, princípios, que
norteiam a vida do manipulador.
Alguém que, nesse caso, é o pretenso
candidato alinhado à Direita e seus matizes com maior destaque para o pleito eleitoral,
segundo certas pesquisas de opinião. Portanto, ele e qualquer outro boneco ventríloquo,
que surja pelo caminho, pertencem ao mesmo espectro político-partidário, ou
seja, comungam da mesma ideologia, valores, crenças e princípios.
Mas, como ele teme por uma
rejeição, uma repulsa dos eleitores, ele utiliza desse artifício, ou seja, os porta-vozes
ou as figuras controladas, como são os bonecos ventríloquos, para despejar
discursos e moldar a opinião pública, sem necessariamente dar a cara a tapa.
Preste atenção, essas pessoas só
aceitam esse papel coadjuvante, porque almejam, com todas as forças, se manter no
poder. Afinal, a direita no Brasil, com
seus diferentes matizes, tradicionalistas, liberais, conservadores ou
libertários, reflete uma estrutura histórica, baseada na manutenção de posições
sociais e na resistência à participação popular.
Assim, esse pensamento incorpora
valores herdados do período colonial, como o imobilismo social, a dificuldade
de compatibilização entre a tradição e a modernidade, e a prevalência de
regalias e de privilégios. Daí esse espectro político-partidário, apesar de
tantas siglas, rostos e nomes, ser capaz de abranger desde a tradição
conservadora até o liberalismo econômico, evoluindo de uma visão corporativista
para coalizões que incluem o neoliberalismo e a direita ultranacionalista.
Viu só?! Essa é uma metáfora perfeita! No fundo, o boneco ventríloquo e o seu manipulador são exatamente a mesma coisa, divididos em dois corpos para criar uma ilusão. A fim de que o boneco sirva como um escudo social para as verdades ou sombras do próprio artista.


