domingo, 18 de outubro de 2026

Historicidade. Consciência. Cidadania. Para uma perspectiva de futuro.


Historicidade. Consciência. Cidadania. Para uma perspectiva de futuro.

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

A história é feita de fatos. Embora, a análise e a propagação deles seja, muitas vezes, condicionada ao enviesamento de certos interesses, os fatos em si não mudam nem tampouco deixam de existir. É justamente aí que a verdade factual impera e se impõe, ainda que leve algum tempo.  

Nesses pouco mais de 500 anos, o Brasil tem experimentado esse processo. A sua historicidade vem sendo marcada pela visão elitista colonial que tenta impedir a presença de certas figuras e acontecimentos, os quais dariam a verdadeira diversidade e pluralidade sociocultural brasileira.

Então, eis que no ano da graça de 2026, a dominação sobre a verdade fugiu ao controle e os fatos se reapropriaram de sua voz. Não, o pleito eleitoral desse ano não diz respeito ao confronto polarizador que paira sobre o mundo. O que se tem bem diante do nariz é um confronto histórico de uma sociedade constituída a partir da dicotomia entre dominados e dominadores.

O resultado do pleito eleitoral para Presidente da República dirá como a compreensão dessa historicidade dicotômica se estabelecerá daqui em diante.  Essas eleições traduzem nas urnas as tensões entre classes sociais desfavorecidas e as elites econômicas e políticas tradicionais, perpetuando ou contestando estruturas de dominação que remontam ao período colonial.

O que significa em primeiro lugar, que esse ponto da história mostra claramente uma disputa entre as classes desfavorecidas, que buscam mudança e redistribuição de poder, e as elites econômicas, que buscam manter seus privilégios.

Daí a importância da análise em relação às instituições do Estado, incluindo o sistema eleitoral, tendo em vista uma tendência em reproduzir as estruturas de dominação existentes, a menos que haja uma contestação forte o suficiente para romper esse ciclo. Afinal, o sistema político-eleitoral brasileiro possui regras que, intencionalmente ou não, concentram o poder nas elites políticas e econômicas já estabelecidas.

O que significa que o momento eleitoral brasileiro é um reflexo de um cabo de guerra. Por um lado, as regras institucionais agem como um filtro conservador que perpetua as elites no poder; por outro, a urna é o canal legítimo onde a pressão popular e os novos movimentos tentam tensionar e fissurar essas estruturas de dominação.

Talvez, seja esse o ponto nevrálgico dessa reflexão. Por quê? Porque o voto é um mecanismo de escolha baseado na avaliação de políticas públicas, propostas de desenvolvimento econômico, segurança e governança, e não necessariamente um reflexo rígido de divisões de classe ou posições político-ideológicas arraigadas. Ainda que o comportamento do (a) eleitor (a) seja moldado por uma rede complexa de fatores que vão além da dicotomia econômica, incluindo pautas de valores, religião, impacto das redes sociais, desinformação e identificação identitária e regional, a sensação real de um eventual retrocesso socioeconômico e cultural impulsiona o pensamento crítico a uma análise diferente.

É, quem diria?! O (a) eleitor (a) brasileiro (a), de repente, não mais que de repente, compreendeu que não é um agente rígido preso apenas à sua classe social ou a um espectro político fixo.

A percepção ou o medo de uma piora real nas condições de vida, sob as mais diferentes formas e conteúdos, decidiu atuar como um forte catalisador para o pensamento crítico, quebrando alinhamentos automáticos e forçando as pessoas a reavaliarem suas escolhas políticas de forma mais decisiva.

O eleitorado brasileiro, enfim, se tornou mais fluido, pragmático e propenso a punir ou recompensar governantes com base na realidade percebida no dia a dia, naquilo que pode afetar profundamente os seus interesses e não os das elites que ainda se julgam donas do poder.

O eleitorado brasileiro decidiu pela primeira vez refletir sobre a pirâmide social de que faz parte e sobre todos os silenciamentos e cabrestos que ela tenta impor para a base que sustenta o pequeno cume, ao longos desses pouco mais de 500 anos.

Haja vista as multidões progressistas que têm ido às ruas nesse segundo turno eleitoral. Bradando em alto e bom som sua não aceitação em perder direitos, em perder sua liberdade, em perder a sua soberania, elas se apropriam de um espaço social que lhes pertence e havia, por séculos, sido negado pelo topo da pirâmide. Elas fazem ecoar a sua voz, que pareceu inexistente ou adormecida por força de tantas repressões e opressões históricas.

Mas, não é só isso.  A mobilização popular disseminada tanto nas ruas quanto nas redes sociais é uma ferramenta legítima de contrapoder para pressionar as instituições e sinalizar a sua insatisfação.

Portanto, ela representa uma apropriação de poder, de cidadania, do próprio direito de voto que lhe é constitucionalmente estabelecido. Deixando claro, portanto, que a participação política não se esgota no ato de votar.

As manifestações servem como um canal contínuo para que a sociedade civil expresse demandas, fiscalize os governantes e pressione as instituições entre os períodos eleitorais, fortalecendo a soberania popular.

Além disso, esse tipo de ação é respaldado por direitos fundamentais garantidos pela Constituição Federal de 1988, como a liberdade de expressão, o direito de reunião e o direito de petição, que abrem também espaço para que o poder popular se manifeste formalmente por mecanismos de democracia direta e participativa, como os plebiscitos, os referendos e os projetos de lei de iniciativa popular.

O que a história contemporânea está revelando ao Brasil é, portanto, um tempo de mudanças paradigmáticas profundas. O velho baú nacional está sendo revisitado e questionado a fim de que uma desconstrução de antigas amarras coloniais e neocoloniais não se mantenham funcionais.  

Não é sem razão, por exemplo, que o questionamento de mitos fundacionais, como a ideia de uma democracia racial ou a romantização do período colonial e dos bandeirantes, abriu espaço para o protagonismo de populações historicamente marginalizadas, como indígenas e negros.

Inclusive, vale ressaltar a derrubada, alteração ou contestação de monumentos públicos que homenageavam figuras ligadas à escravidão ou ao genocídio indígena, refletindo o desejo de redefinir o que a nação escolhe celebrar em seu espaço público.

A implementação de políticas de cotas, a demarcação de terras e a alteração de diretrizes educacionais, como as leis que tornaram obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e indígena, tentam romper com estruturas que perpetuavam a desigualdade. Enfim...

Tudo isso significa que o cidadão brasileiro se redescobriu. E essa redescoberta afeta, também, o valor do seu voto, o significado das suas escolhas e decisões cidadãs.

O questionamento de questões importantes da sua historicidade, como o racismo estrutural, a concentração de renda e o patrimonialismo, contribuem diretamente para evitar que formas disfarçadas de subordinação continuem operando silenciosamente na sociedade.

Há, então, uma franca percepção de que a passividade histórica dá lugar a uma postura mais ativa, em que a população se reconhece como agente de mudança.

Por isso, o resgate do voto e da participação política deixa de ser uma obrigação institucional, tornando-se uma ferramenta de soberania e de transformação da realidade coletiva.

Razão pela qual o cidadão contemporâneo precisa se manter cada vez mais atento ao impacto de suas escolhas, entendendo que a democracia se constrói diariamente por meio do debate, da fiscalização e do voto consciente.

Pela defesa da cidadania, da democracia, da soberania nacional, não existe eu e você, existe apenas nós, o coletivo nacional. O que acontece no país tem repercussões e reverberações sobre seus cidadãos, independentemente, de gênero, raça, credo, escolaridade, status social ou afinidade político-partidária.

Fenômenos como a inflação, a segurança pública, a qualidade da educação e a estabilidade democrática não escolhem esse (a) ou aquele (a), eles moldam a realidade cotidiana de todo o corpo social. Assim, a cidadania, a democracia e a soberania não são construções individuais, mas sim pactos coletivos onde as decisões políticas, econômicas e sociais de um país afetam a vida de todos, sem distinção.

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Para você, qual é o peso da experiência na hora de suas escolhas?!


Para você, qual é o peso da experiência na hora de suas escolhas?!

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

A universalização do voto no Brasil foi um processo histórico longo e gradual, consolidado definitivamente apenas com a promulgação da Constituição Federal de 1988. Ao longo dos séculos, o direito de participar das escolhas políticas do país deixou de ser um privilégio restrito as elites econômicas e masculinas para se tornar um direito garantido a todos os cidadãos, independentemente de renda, gênero ou nível de instrução.

Mas, a pergunta que sempre me faço é se o exercício desse direito está, de fato, respaldado por um entendimento pleno a respeito da força de certos parâmetros para essa escolha. Porque a percepção da realidade se mostra exatamente contrária, dado um histórico de tutela e de controle por parte das elites que não permitiu um amadurecimento real sobre o impacto do voto em relação à completude da cidadania.

E um dos aspectos que me chama bastante atenção deriva do desconhecimento em torno do papel dos 3 Poderes da República – Executivo, Legislativo e Judiciário. O que leva a uma flagrante distorção decisória em relação ao Executivo e ao Legislativo, que são poderes constituídos a partir da escolha político-partidária representativa. Uma parcela significativa da sociedade brasileira não compreende a existência da necessidade dialógica entre esses poderes para a satisfação das demandas e anseios populares, por exemplo. Votam em um contexto político-partidário para o Legislativo e outro diametralmente oposto para o executivo.

Não compreendem que nenhum Presidente, Governador ou Prefeito consegue governar sozinho. Para aprovar leis e orçamentos, o Poder Executivo é constitucionalmente obrigado a dialogar e construir maiorias com o Poder Legislativo. Por isso, quando o eleitorado elege um Executivo de uma ideologia e um Legislativo de outra, o governante é forçado a ceder em suas promessas de campanha para conseguir o apoio do parlamento, o que muitas vezes é interpretado pela população como fisiologismo ou traição ideológica.

Infelizmente, no Brasil, o voto frequentemente se baseia na personalidade dos candidatos e não nos programas dos partidos, algo que faz com que o eleitor vote em um candidato à presidência pelo seu discurso e, ao mesmo tempo, escolha deputados de espectros opostos por motivos locais ou clientelistas. E essa desconexão entre o voto para o Poder Executivo (Presidente) e o Poder Legislativo (Deputados e Senadores) gera impactos profundos e, muitas vezes, negativos para a própria estabilidade democrática.

Mas, não bastasse isso, a existência de candidatos oriundos do Legislativo concorrendo a uma vaga no Executivo, também, faz pensar. Ora, muitos indivíduos costumam dedicar anos de sua vida pública ao Legislativo antes de se colocarem a concorrer ao Executivo, acontece que essa experiência não lhes talha exatamente para tal empreitada. Por quê? Bem, é fácil compreender. O Poder Legislativo e o Poder Executivo exigem habilidades, rotinas e mentalidades completamente diferentes.

Enquanto o Legislativo é o ambiente da negociação, do debate e da representação de nichos sociais, comumente conhecidas como “bancadas”, o Executivo é o espaço da gestão pragmática, da tomada de decisão solitária e da responsabilidade direta sobre os serviços públicos e o bem-estar da população.

Além disso, no Legislativo o poder é diluído. Um parlamentar, seja ele (a) Deputado (a) ou Senador (a) é um (a) entre dezenas ou centenas. O sucesso depende da capacidade de articular, ceder, criar consensos e aprovar textos coletivos, de modo que o foco está no processo e na palavra. Enquanto no Executivo o poder é centralizado e hierárquico. O governante, seja ele (a) Prefeito (a), Governador (a) ou Presidente (a), é o (a) único (a) responsável final. Nesse sentido, ele (a) precisa decidir de forma rápida, muitas vezes sem consenso, e arcar sozinho com o ônus político e jurídico da escolha. Portanto, o foco está no resultado prático.

No Legislativo, o trabalho é analítico, retórico e fiscalizador, ou seja, o parlamentar aponta problemas, propõe leis e critica o governo, mas raramente lida com a implementação real de políticas públicas. Já no caso do Executivo, o papel é administrar uma máquina burocrática gigantesca. Isso envolve gerenciar milhares de servidores, gerir orçamentos engessados, lidar com licitações complexas, responder a órgãos de controle, como os Tribunais de Contas, e garantir que hospitais, escolas e demais serviços essenciais funcionem diariamente.

Isso acontece em razão de que no Legislativo, um (a) deputado (a) ou senador (a) pode se destacar e fazer carreira defendendo uma única pauta como, por exemplo, o meio ambiente, a segurança, a educação ou o interesse de uma região específica. De modo que eles (as) respondem apenas às suas bases eleitorais. No Executivo, o governante não pode escolher pautas. Ele precisa governar para todos, equilibrando demandas conflitantes de direitos sociais, de infraestrutura e de economia ao mesmo tempo, mesmo aquelas com as quais não tem afinidade.

E em tempos de crises, enquanto o Legislativo, resolve as questões por meio de debates, comissões de inquérito (CPIs) ou discursos na tribuna, de maneira lenta e gradual, o Executivo é obrigado a lidar com os problemas práticos, imprevisíveis e de impacto imediato, tais como desastres naturais, greves de serviços essenciais, colapsos financeiros, de maneira objetiva e rápida. O governante precisa agir em horas, sob intensa pressão pública, e qualquer erro de execução gera consequências diretas na vida dos cidadãos.

Por isso, a ideia de transição do poder Legislativo para o Executivo falha quando o político tenta governar um Município, um Estado ou um país usando a mesma dinâmica de negociação e discurso que usava nos plenários. A teoria na pratica é bem diferente. Inclusive, se ele (a) tenta disputar contra oponentes que já têm experiência no Executivo isso fica evidente; pois, há uma carência flagrante quanto ao que mostrar de concreto em cada área, tendo em vista que ele (a) não dispõe dessa vivência. Deixando claro que a escolha do eleitor, nesse caso, poderia significar trocar o certo pelo duvidoso.

Ora, quando o assunto é sério e pode implicar em consequências desastrosas ou letais, a experiência fala mais alto. O peso da experiência em uma determinada função significa o impacto direto e o valor que o histórico prático de um (a) político (a) traz para a execução de tarefas e a resolução de problemas. A bagagem de aprendizados, erros superados e maturidade profissional acumulados ao longo desse tempo, representam um diferencial importante.

O (a) político (a) experiente já enfrentou cenários semelhantes antes; por isso, ele (a) consegue prever as consequências de uma escolha e decidir com mais segurança, economizando tempo e recursos. Quando surge um imprevisto, quem tem experiência não entra em pânico. Essa pessoa já desenvolveu uma biblioteca mental de soluções e sabe exatamente qual ferramenta ou estratégia usar para conter danos.

Além disso, a prática constante transforma processos burocráticos em uma espécie de intuição afiada, de modo que o indivíduo consegue antecipar tendências, gargalos ou riscos antes mesmo que eles se materializem em dados. Saber o caminho das pedras elimina o desperdício de energia, fazendo com que o trabalho seja feito com maior foco na qualidade e menor índice para refazer. O que representa a possibilidade de elevar o nível da equipe ao seu redor, pois essa pessoa sabe como orientar os mais jovens e transmitir conhecimento de forma prática.

Por essas e outras é que o peso da experiência não é apenas o tempo de casa ou os anos no currículo, mas sim a sabedoria acumulada para aplicar o conhecimento certo, na hora certa, do jeito mais eficiente. Na gestão de um país complexo como o Brasil, essa relação se manifesta na transição da política tradicional para uma governança de alto impacto, onde a sabedoria prática é o divisor de águas entre o desenvolvimento e a estagnação. para gerir o Brasil, os anos de vida pública só tem valor se transformado em pragmatismo.

Afinal, o sucesso da liderança é saber usar o conhecimento certo, na hora certa, do jeito mais eficiente para proteger o interesse nacional. No Brasil de hoje está claro que a soberania não se grita, se exerce. Contra a ingerência internacional, o melhor escudo não é o confronto direto e barulhento, mas a aplicação cirúrgica, firme e inteligente do peso político e das riquezas que o país possui.

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

O que extrapola as grades e os muros criados pelo pensamento humano


O que extrapola as grades e os muros criados pelo pensamento humano

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Sim, eu sei que esse é o tempo da pressa, do imediatismo. Que o volume de informações despejadas por segundo nas redes sociais impede um aprofundamento da análise dos fatos. Mas, eu persisto na minha sina de promover reflexão.

Uma das ideias disseminadas pela ultradireita, mundo afora, como proposta resolutiva para a segurança pública, é o encarceramento em massa. Como já acontece em alguns países. Acontece que a insegurança não só permanece como outros problemas, tão graves quanto, como se prolifera apesar das lentes cor-de-rosa de uns e outros, por aí.

Aliás, nesse texto eu não pretendo falar sobre os principais problemas apontados de tal modelo, como o fato de as prisões superlotadas funcionarem como escritórios e centros de recrutamento para o crime organizado, aumentando o poder dessas redes fora dos presídios; que a manutenção de grandes populações carcerárias consome fatias massivas do orçamento público, recursos que deixam de ser investidos em policiamento inteligível, tecnologia, educação e infraestrutura social; que sistemas focados puramente na punição, sem programas eficazes de reabilitação e reinserção social, tendem a devolver indivíduos ao convívio social mais propensos a cometer novos delitos; e, que o encarceramento em massa atinge majoritariamente populações jovens, periféricas e de baixa renda, desestruturando famílias e comunidades, o que realimenta o ciclo de vulnerabilidade e criminalidade.

A ideia é falar dos impactos na saúde pública. Por quê? Desde que tive contato com o livro Estação Carandiru, escrito pelo médico oncologista Dr. Drauzio Varella e lançado em 1999, fui tomada por uma série de questionamentos e reflexões dentro dessa perspectiva social que passa tão à margem do cotidiano de milhões de cidadãos brasileiros; mas, nem por isso deixa de existir.

Segundo ele, a motivação para escrever a obra veio de sua experiência como médico voluntário na Casa de Detenção de São Paulo, o Carandiru, iniciada em 1989. Em plena epidemia de HIV/Aids que corria o planeta, aquele espaço carecia de assistência médica e o abandono de detentos em fases terminais da doença carecia de um pouco mais de humanidade.

E aí está o ponto nevrálgico do assunto. Presídios, casas de detenção, cadeias, são espaços quase sempre superlotados por uma diversidade e pluralidade humana que carregam consigo bem mais do que ódio, violência, desumanidade, ignorância. Esses indivíduos também carregam doenças. Metabólicas e Endócrinas. Genéticas e Congênitas. Autoimunes e do Sistema Imunológico. Cânceres. Crônicas Não Transmissíveis (DCNTs). Parasitárias. Mas, principalmente, Transtornos Mentais e Comportamentais, e doenças infectocontagiosas.

Todas elas potencialmente sujeitas ao agravamento em razão das condições carcerárias dessas pessoas. Primeiro, porque se trata de um ambiente inerentemente ansiogênico e violento, dada a perda da liberdade, o distanciamento familiar e a ociosidade que impactam profundamente o psiquismo. Segundo, porque no caso das doenças infectocontagiosas e parasitárias, o confinamento em espaços reduzidos facilita a transmissão aérea e por contato.

Assim, as taxas de incidência de tuberculose (TB) nas prisões chegam a ser dezenas de vezes maiores do que na população geral devido à má ventilação e aglomeração.

As Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs), o HIV e as Hepatites (B e C), fomentadas a partir do compartilhamento de objetos perfurocortantes, relações sexuais desprotegidas e inacessibilidade a insumos de prevenção, tem seu risco bastante elevado.

A Sarna (escabiose) e os piolhos (Pediculose) também se proliferam em razão de condições de higiene precárias e pela falta de lavagem adequada de roupas de cama, favorecendo surtos constantes.

Bem, não bastasse a população carcerária em si exposta a essa realidade insalubre, dentro desses espaços estão presentes também os funcionários do sistema de segurança pública – policiais penas, policiais militares, equipe de saúde, equipe jurídica e social, equipe educacional e de trabalho.

Esses indivíduos não correm apenas riscos psicossociais e estresse, decorrentes da alta tensão cotidiana, das ameaças e da possibilidade constante de violência que levam a quadros graves de esgotamento físico e mental, estresse crônico, síndrome de Burnout, depressão e distúrbios do sono. Inclusive, grande parte desses profissionais desenvolve transtornos mentais ou necessita de medicação controlada após ingressarem na carreira.

Mas, principalmente, eles (as) correm riscos biológicos em razão do contato direto ou indireto com doenças infectocontagiosas altamente disseminadas na população carcerária, como a tuberculose, cuja incidência é dezenas de vezes maior do que fora dos presídios, as hepatites, o HIV/Aids, as micoses, a escabiose, a pediculose e a leptospirose.

Bem, isso é um grande problema na medida da disseminação dessas doenças fora dos muros e grades dos presídios. O sistema prisional não é isolado do resto da sociedade, e o fluxo contínuo de pessoas faz com que a saúde das prisões afete diretamente a saúde coletiva.

Os patógenos que circulam nos presídios transpõem esses espaços por meio de servidores da segurança e equipes de saúde, os quais entram em contato direto ou indireto com os prisioneiros contaminados e retornam diariamente para suas famílias e comunidades.

Por visitantes, sejam eles familiares ou advogados que frequentam as unidades prisionais e podem contrair infecções ou atuar como vetores e disseminá-las em seus locais de origem.

E por egressos do Sistema Prisional. Sim, milhares de pessoas recebem liberdade, progressão de regime ou saídas temporárias constantemente. Sem o devido tratamento ou acompanhamento de saúde na transição para a liberdade, elas continuam a cadeia de transmissão na sociedade.

Depois da grande epidemia de COVID-19 que assolou o mundo contemporâneo, em tese, as pessoas deveriam ter despertado suas consciências para os riscos epidemiológicos que nos espreitam a todo tempo.

Só que não. Essa tal consciência ainda adormece, enquanto consequências significativas para a Saúde Pública acontecem em razão de riscos processados dentro dos espaços superlotados do modelo penal brasileiro.

Não, não é alarmismo!  O sistema prisional brasileiro funciona hoje como um verdadeiro incubador de epidemias, onde a falta de espaço e de saneamento básico transforma o cumprimento de penas em um risco biológico iminente para toda a sociedade. A ilusão de que os muros das prisões isolam as doenças ignora o fluxo contínuo de pessoas, como já citado acima, que entram e saem diariamente desses estabelecimentos.

De modo que a grande verdade nesse cenário reside no fato de que ao negligenciar a saúde da população privada de liberdade, o Estado brasileiro não apenas viola direitos humanos fundamentais, mas também sabota a segurança sanitária coletiva, uma vez que os vírus e bactérias que circulam no ambiente carcerário inevitavelmente cruzam as grades e ganham as ruas, em diferentes cidades do país.

Veja, por exemplo, segundo os dados oficiais publicados no Boletim Epidemiológico de Tuberculose, em março de 2026, 7,9% do total de novos casos de tuberculose registrados pertencem a pessoas privadas de liberdade (PPL) no sistema prisional. O país registrou 84.368 novos casos de tuberculose, ou seja, uma taxa de incidência de 39,5 por 100 mil habitantes.

Acontece que, dentro do total de infectados, a população carcerária representa a segunda maior parcela entre os grupos considerados historicamente vulneráveis (7,9%), ficando atrás apenas das pessoas que vivem com coinfecção HIV-tuberculose (14,0%). É bom lembrar de que a tuberculose continua sendo uma doença letal no século XXI e figura entre as principais causas de morte por agentes infecciosos em todo o mundo.

Por isso o Sistema Único de Saúde (SUS) é tão importante. Ele é o pilar essencial para conter os impactos da precariedade do sistema prisional na saúde pública geral.

Como as prisões não são isoladas e os fluxos de entrada e saída de pessoas, sejam elas detentos (as), familiares, trabalhadores (as), são constantes, ele atua por meio de ações estruturadas como a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde das Pessoas Privadas de Liberdade no Sistema Prisional, que garante a chegada do atendimento médico até as unidades prisionais, transformando-as em pontos de atenção da rede de saúde.

O monitoramento e controle de doenças de fácil contágio que encontram em ambientes superlotados o cenário perfeito para se propagar, tais como a tuberculose, o HIV/Aids, as hepatites virais e as infecções sexualmente transmissíveis (ISTs).

Bem como, as campanhas de vacinação, testagem em massa e a garantia de continuidade de tratamentos complexos, como o coquetel anti-HIV ou o esquema de antibióticos para tuberculose, impedindo que o indivíduo retorne à comunidade com cepas de doenças agravadas ou resistentes a medicamentos.

Além de programas voltados para a saúde mental e atenção psicossocial, fundamentais tanto para a população carcerária quanto para o suporte pós-encarceramento. O que significa que sem a barreira sanitária e assistencial do SUS, o sistema prisional se tornaria um amplificador, maior e incontrolável de epidemias, sobrecarregando ainda mais os hospitais e a rede pública externa.

Por essas e outras que é fundamental analisar a proposta de encarceramento em massa, de privatização do SUS, de desinvestimento em saúde e educação, de cortes em salários e aposentadorias.

Como diz o provérbio popular, “Tudo o que o homem semear, isso também colherá". Pois a semeadura não é individual, mas o resultado de escolhas macropolíticas e econômicas, cujos frutos são colhidos coletivamente sob a forma de maior fratura social. A austeridade e a privatização geram, então, a exclusão que o encarceramento em massa se encarrega de conter e esconder, por algum tempo. Afinal de contas, ele funciona como um caldeirão perene de outros problemas e dilemas sociais, estando sempre prestes a explodir.