O
petróleo ... Sempre o petróleo
Por
Alessandra Leles Rocha
Segundo o dito popular, “Recordar
é viver”! Então, mãos à obra.
A relação entre a humanidade e o
petróleo se inicia entre a segunda metade do século XIX e o início do século
XX, com a Segunda Revolução Industrial. A princípio o papel dele era produzir
querosene em substituição ao óleo de baleia e o carvão para iluminação. Somente
a partir da invenção do motor a combustão interna e o desenvolvimento da
indústria automobilística é que o petróleo passou a ser refinado para obter
gasolina e diesel, tornando-se a principal fonte de energia para transportes.
Então, a partir do século XX,
especialmente após a Segunda Guerra Mundial, o petróleo se tornou a principal
fonte de energia e matéria-prima do mundo. O que significa que a economia
mundial passa a ser refém do preço do barril de petróleo. Por consequência, a
cada alta dos preços dos barris há um arrepio global pelo risco do descontrole
da inflação; posto que, aumentam o custo de produção e transporte de quase
tudo. Além disso, a disputa pelo controle das reservas de petróleo molda os
humores da geopolítica do planeta.
Aí, na década de 1970, o mundo
assiste estarrecido à grande crise do petróleo. Na verdade, dois grandes eventos,
um em 1973 e outro em 1979, colocaram fim à era de crescimento acelerado do
pós-guerra no Ocidente.
Em outubro de 1973, Egito e Síria
atacaram Israel, fato que levou os países árabes membros da OPEP (Organização
dos Países Exportadores de Petróleo) a impor um embargo de petróleo aos EUA,
Holanda e outros aliados de Israel. Tal atitude da OPEP afetou drástica e
intencionalmente a produção, resultando em escassez global e quadruplicando o
preço do barril, naquela ocasião.
Depois, em 1979, com a derrubada
do Xá Reza Pahlevi e a ascensão do aiatolá Khomeini, no Irã, um dos maiores
produtores globais de petróleo, houve pânico no mercado e uma nova paralisação
na produção. Mas, não bastasse isso, em 1980, a guerra entre o Irã e o Iraque manteve
a oferta baixa e os preços altos durante o início daquela década.
De modo que foi dessa maneira que
o planeta descobriu a face difícil do petróleo. A combinação inédita de alta
inflação, devido ao aumento de preços, e a estagnação econômica com recessão e
desemprego, atingiu os países. Tudo muito bem acompanhado por longas filas em
postos de combustível, devido ao racionamento e ao aumento vertiginoso do preço
da gasolina.
Era o ponto de mutação para a indústria
automobilística, com o fim da era dos carros grandes e gastadores, produzidos
pelos americanos. A indústria passou a fabricar carros menores, mais leves e
econômicos, popularizando os motores de 4 cilindros.
Mas, certamente, o grande impacto
decorrente dessa grande crise foi a busca por alternativas energéticas. Sim, diante
da fragilidade exposta pela dependência de uma única fonte, houve um grande
incentivo ao uso de energia nuclear, hidrelétrica e pesquisas em fontes
renováveis como a solar e a eólica.
Fato que, no Brasil, resultou no
surgimento do Programa Nacional do Álcool (Proálcool), em 1975, incentivando
carros movidos a etanol para reduzir a dependência da gasolina. Sobretudo,
porque os países em desenvolvimento, no qual se enquadra o Brasil, viram sua
dívida externa disparar. Afinal, eles pagaram mais caro pelo petróleo e o
capital ficou mais caro internacionalmente, gerando uma década perdida, marcada
pela estagnação econômica, a hiperinflação e a crise da dívida externa.
Contudo, o mundo parece não ter
aprendido com a história. A recente escalada militar entre EUA e Israel contra
o Irã, com bombardeios e ameaças de bloqueio no Estreito de Ormuz pelos
iranianos, considerando que esse é o local por onde passa 20% do petróleo
mundial, está gerando uma nova crise energética severa. A disparada nos preços
dos barris já está em curso. A alta no petróleo ameaça frear a economia
mundial, com forte pressão inflacionária nos EUA e outros países, incluindo o
Brasil.
O choque no preço da energia
encarece os combustíveis, o transporte e os produtos fabricados. Isso pressiona,
então, os bancos centrais a manterem as taxas de juros elevadas por mais tempo
para fortalecer a inflação, prejudicando o crescimento econômico e aumentando o
risco de estagflação, ou seja, estagnação econômica, com baixo ou nulo
crescimento do PIB e alto desemprego, com inflação elevada.
Sem contar que a instabilidade
geopolítica gera uma fuga de recursos de mercados emergentes para ativos
seguros. Então, no Brasil, ocorre a valorização do dólar, encarecendo
importações e repassando o aumento do petróleo para o preço final dos
combustíveis na bomba. Além disso, apesar de o Brasil ser exportador líquido de
petróleo, o impacto negativo é sentido nos custos da cadeia produtiva a partir
do frete, dos insumos, dos fertilizantes.
Portanto, qualquer crise relativa
ao petróleo é uma crise global. O mundo sofre as consequências. O que significa
que vivemos em uma sociedade de risco. A economia mundial é um sistema
integrado e, diante do fato de que o petróleo é a base da matriz energética e
do transporte, uma crise na sua oferta não é um evento isolado, mas um efeito
dominó que afeta desde o preço da comida até a estabilidade política de nações
distantes.
Sim, vivemos em uma era onde os
riscos econômicos, ambientais e energéticos não respeitam fronteiras. Uma
decisão ou conflito em um ponto do globo gera consequências inevitáveis e
incontroláveis para
todos, evidenciando a dimensão dos impactos sobre as instituições nacionais frente aos fluxos globais.
Por isso, é preciso equilíbrio e
discernimento para transpor qualquer crise relativa ao petróleo. Em momentos de
instabilidade no setor petrolífero, o equilíbrio emocional e técnico é o que
separa uma gestão de danos eficiente de um desequilíbrio generalizado. É dessa
forma que o discernimento entra para filtrar o que é oscilação real de mercado do
que é meramente especulação financeira ou alarmismo midiático. Veja, sem essa
clareza, o pânico se torna um combustível muito mais perigoso do que a própria
falta de óleo, gerando corridas aos postos, inflação preventiva e paralisia
econômica.
Daí a importância fundamental da comunicação transparente e proativa pelas autoridades para conter especulações e o pânico socioeconômico durante crises no setor de petróleo. A transparência não significa esconder ou minimizar a realidade, mas sim mostrar que as autoridades estão agindo com fatos, competência e planejamento para proteger o consumidor final. Não se pode esquecer de que a confiança do cidadão é o ativo mais importante em qualquer crise.

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