terça-feira, 24 de março de 2026

Tudo começa pelo começo. Com a violência não é diferente.


Tudo começa pelo começo. Com a violência não é diferente.

 

Por Alessandra Leles Rocha  

 

De todos os lados nos chegam relatos de violência diariamente. Alguns falam em uma epidemia do ódio. Outros, de um retrocesso à incivilidade, à barbárie humana. Bem, adjetivos para tentar explicar tal fenômeno de nada adiantam. De modo que resolvi parar, pensar, a partir da construção de uma linha de acontecimentos, os quais me impactaram bastante.

A impressão que se tem é de que a vida humana perdeu seu valor. Mata-se qualquer um. Por qualquer motivo, sob qualquer justificativa, a qualquer hora do dia ou da noite, em qualquer lugar, enfim. Então, de repente, essa brutalidade descompensada, apesar de toda a sua crueldade e perversidade, merece ser olhada nos detalhes.

Considerando que qualquer um, independente do gênero, da raça, da religião, da escolaridade, do status socioeconômico, pode ser a bola da vez, a análise deve partir do início.  Não há como discordar que a infância perdeu a sua aura de inocência, de alegria, de blindagem frente aos males do mundo. Ser criança está cada vez mais difícil e complexo.

Em 2016, o documentário O COMEÇO DA VIDA, apoiado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e dirigido por Estela Renner, não só mostrava a importância fundamental dos primeiros anos de vida para o desenvolvimento infantil, como destacava que o afeto, as relações amorosas e os ambientes seguros moldam o cérebro e a personalidade da criança, sendo crucial para o seu futuro e o da sociedade.

Mas, o que parece, olhando a realidade contemporânea da infância, é que houve um desvirtuamento ético/moral, em relação a responsabilidade, ao comprometimento, a disponibilidade, que são os pilares a sustentar a maternidade e a paternidade, contrapondo-se totalmente ao que propõe o referido documentário.

Chegou-se ao ponto em que a violência contra a infância não exime nem os recém-nascidos! Sim, crianças, em diferentes faixas etárias, são expostas a uma realidade de negligências, de abandonos, de descuidos, que escalam rápida e vertiginosa para situações de humilhação, desvalorização da autoestima, ameaças, agressões, castigos físicos severos, queimaduras e violência sexual.

Acontece que a infância é o alicerce da vida humana. São as experiências nessa fase que determinam o que seremos como adultos. E na infância, a identidade não está pronta! Ela é refletida, então, pelo olhar dos “cuidadores”.

A criança começa a entender quem é a partir do afeto, da validação e das palavras de quem as cerca. Então, elas despertam a necessidade do pertencimento, em decorrência dos vínculos de apego construídos, muitas vezes, de maneira muito frágil.  

Nesse cenário, a formação psicoemocional aponta que se houver negligência, descuido, desatenção, a base pode ser de medo e instabilidade. Algo que se reflete através da capacidade de nomear e lidar com as emoções, seja frustração, raiva, tristeza.

Desse modo, o seu comportamento se torna, em grande parte, um reflexo de padrões aprendidos dentro do meio social em que estão inseridas e por mecanismos de defesa criados instintivamente. A criança, então, acaba por replicar dinâmicas de resolução de conflitos e hábitos sociais que experenciou.

Diante dessas considerações, o que é possível aferir é que as deformidades sociocomportamentais e psicoemocionais, as quais um indivíduo é exposto na sua infância, reverberam até consolidar um adulto repleto de insatisfações, traumas, bloqueios, neuroses e violências.

Em muitos casos, sem a oportunidade de assistência profissional, ainda na infância, o quadro só tende a se cronificar e se intensificar sem possibilidades de reabilitação.

Acontece que sem uma proposta de transformação para esses indivíduos, a sociedade, querendo ou não, terá que enfrentar os desajustes sociais carregados por eles.

Começando pela convivência com uma legião de pais e mães despidos de quaisquer competências, habilidades e talentos para a criação de um filho. Sim, porque tanto o maternar quanto o paternar vão muito além de condições materiais.

O essencial para o exercício desses atos reside no subjetivo, na capacidade de cuidar, de proteger e de educar; portanto, indo além do laço biológico para criar um vínculo afetivo.

E é aí que a situação complica, porque milhares de pessoas não trazem essa possibilidade de realização. Isso significa que a humanidade, que a sociedade brasileira, que todos nós, estamos diante de um desafio que demandará muito tempo para ser enfrentado.

Não, não é dá noite para o dia. Serão décadas e décadas debruçados sobre a necessidade urgente de reconstruir a realidade da infância.

Isso quer dizer tecer uma rede de proteção a elas contra as violências, os desastres, a pobreza e a exploração, porque investir na infância não é apenas uma questão social, mas também econômica, na medida em que traz retornos para a sociedade ao criar indivíduos mais saudáveis ​​e capacitados.

Mas, em paralelo a esse processo, é preciso resgatar a humanidade dentro de seres humanos que não conseguiram, até agora, saber quem são, como se sentem, porque agem dessa ou daquela forma.

As violências contemporâneas possuem sim, componentes profundos de insalubridade mental, ocorrendo tanto como causa quanto como consequência de transtornos psicológicos, muitas vezes, herdados em decorrência da própria infância.

Por isso, para falar, debater e resolver as violências contemporâneas não tem como fugir dessa linha sociotemporal, ou seja, da infância à fase adulta.

Lembre-se das palavras da escritora estadunidense, Veronica Shoffstall, “Aprende que há mais dos seus pais em você do que você supunha. Aprende que nunca se deve dizer a uma criança que sonhos são bobagens, poucas coisas são tão humilhantes e seria uma tragédia se ela acreditasse nisso. Aprende que quando está com raiva tem o direito de estar com raiva, mas isso não te dá o direito de ser cruel”.

Porque elas, de alguma forma, podem resgatar em você a consciência de que toda criança tem direitos, segundo consta da Declaração dos Direitos da Criança, proclamada pela Organização das nações Unidas (ONU), em 20 de novembro de 1959.

Talvez, assim, as crianças que vierem a nascer, de agora em diante, nascerão em um mundo mais belo, mais justo, mais humano. Aconchegadas pelo afeto, o carinho, os cuidados. Sem barulhos de explosões, de tiros, de bombas, de gritos. Protegidas em lares dignos. Distantes da insegurança alimentar, da pobreza e da insalubridade. Próximas do lazer, do esporte e da cultura.

Afinal, a grande verdade dessa vida é que “Não é o sofrimento das crianças que se torna revoltante em si mesmo, mas sim que nada justifica tal sofrimento” (Albert Camus - Prêmio Nobre de Literatura em 1957).

A vitimização como recurso


A vitimização como recurso

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

O assunto da vez é: haverá ou não prisão domiciliar, em caráter humanitário, ao ex-Presidente da República brasileiro? Não sei, mas há muitas camadas a serem dissecadas e refletidas sobre essa questão.

Vejam que ele, até bem pouco tempo, era alguém que ostentava força física, porte atlético, quase um exemplo de imortalidade, de invencibilidade, e agora, tem sua banca de advogados defendendo a tese de prisão domiciliar, em caráter humanitário, dada a sua condição clínica.

Até agora, todas as patologias identificadas pelos médicos em razão das ocorrências que o levaram à hospitalização, em si não representam um fundamento consistente para a prisão domiciliar. São doenças de natureza crônica, que vez por outra se desequilibram e merecem atenção mais intensiva.

Algo que ele tem recebido sem restrições, contrapondo-se ao fato de que os cerca de 700 mil custodiados, que ocupam unidades físicas prisionais em regime fechado ou semiaberto, não desfrutam das mesmas regalias e privilégios; sobretudo, em relação à saúde.  

Vejam, ele não foi condenado a 27 anos e três meses de prisão em regime fechado à toa. Seus crimes, apontados na acusação que o levou à prisão em regime fechado, foram vastamente comprovados.

E se outras acusações fossem levadas a outros julgamentos é bem provável que novas penas de reclusão lhe seriam imputadas, dada a gravidade dos delitos cometidos durante o seu governo.

Haja vista os mais de 700 mil mortos de COVID-19, durante a Pandemia, em que pesquisas apontam que 400 mil poderiam ter sido evitadas pelo governo na época.

De modo que todo esse imbróglio, nos faz, ou pelo menos deveria fazer, pensar até que ponto pode ser considerada ética a influência política nas decisões do judiciário brasileiro.

Sim, porque esse é um caso em que não restam dúvidas da existência de um cálculo político pairando e contaminando os caminhos jurídicos, criando uma flagrante assimetria da isonomia no sistema penal brasileiro.  

Fato que reflete uma falha na aplicação igualitária da lei, onde fatores socioeconômicos e status social resultam em tratamentos diferenciados.

Sim, porque sua presença em recinto penitenciário não passa despercebida das observações do mundo. Há, inclusive, quem diga que a sua cela se transformou em escritório paralelo de discussão política, considerando o número de visitas solicitadas por correligionários, nos dias determinados pelo estabelecimento penal.

Elas vão muito além da já privilegiada assistência médico-hospitalar e familiar. De modo que em prisão domiciliar o ambiente seria mesmo de um espaço de campanha, em razão da candidatura do filho dele à Presidência da República.

Por isso, causa sim profundo estranhamento diante do pedido de prisão domiciliar, em caráter humanitário. Alguém em condições de saúde tão fragilizada e com algum risco de complicação, como dão conta os veículos de imprensa, precisa de acompanhamento médico constante, alimentação apropriada e descanso.

Nada de estresse, de burburinhos e agitações político-partidárias. Tudo isso deveria estar fora de cogitação para lhe garantir um restabelecimento adequado de suas condições clínicas, seja em que ambiente for. 

E como, nessa vida, não há acaso, os reiterados pedidos para prisão domiciliar, em caráter humanitário, parecem configurar um cenário de vitimização, semelhante ao que foi visto em outro momento da recente história brasileira.

Uma tecitura que se abstém de se concentrar nos fatos para se desviar entre teias milimetricamente calculadas pela política, contribuindo para consolidar uma persona, ou seja, uma variante muito diferente da verdadeira personalidade do indivíduo.

A grande questão é: se a vitimização se tornar instrumento de justificativa para pedidos de prisão domiciliar, em caráter humanitário, como se portará o Judiciário brasileiro para garantir constitucionalmente a isonomia no sistema penal?

Bem, a pergunta é pertinente, levando-se em conta o fato de que o sistema penal, nas condições em que se encontra no Brasil, acaba operando como uma máquina de produção de vítimas do próprio Estado, perpetuando ciclos de violência e desigualdade nas camadas mais frágeis e vulneráveis da população, por conta da seletividade de suas análises.

Não é sem motivo, então, que exista no campo político-partidário, quem ainda acredite que o crime compensa, considerando que a capacidade financeira permanece influenciando diretamente a qualidade da defesa técnica e fazendo gerar uma disparidade de armas no processo penal, como amiúde se revela nos veículos de comunicação e de informação nacionais e estrangeiros.