quinta-feira, 6 de maio de 2021

Não basta somente uma catarse verbalizada


Não basta somente uma catarse verbalizada

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Os dois últimos dias me fizeram debruçar sobre a janela da melancolia. O contínuo das perdas é mesmo asfixiante! A frieza dos números não é capaz de trivializar a importância de cada vida, anônima ou famosa; por isso, sentimos, sofremos, nos angustiamos. Até que, de repente, começamos a perceber que não reside no Sars-COV-2 a urgência de contenção e banimento; mas, em um velho hábito brasileiro que é, na verdade, o cerne de nossas mazelas. O universo paralelo.

É só olhar com um pouquinho de atenção para o país, tomando como exemplo a Pandemia da COVID-19, para nos darmos conta que estamos andando em círculos e chegando a lugar nenhum. A doença avança de um lado, seus desdobramentos para outros e nós bradamos ou silenciamos nossa indignação estupefata, como um mantra, ao longo dos dias. Mas nada, absolutamente nada, de concreto, altera o panorama em sua forma e/ou conteúdo.

Por que é assim? Há milhões de respostas plausíveis para dar conta de responder com lucidez a esse fenômeno. No entanto, começo a acreditar com mais convicção de que esteja na habilidade histórico secular brasileira, de driblar as regras do jogo, os caminhos para consolidar seus universos paralelos e garantir o trânsito da vida e de seus interesses, a partir dos seus quereres e vontades.

Ouvindo os primeiros depoimentos da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), essa semana, essa práxis ficou muita clara e, me fez até recordar, dos tempos em que se falava da existência de um 3º Poder ou Poder Paralelo, na cidade do Rio de Janeiro. Ele era manifesto pelas facções contraventoras e criminosas que direcionavam de maneira subliminar a governança da cidade, segundo seus interesses.

No caso da CPI, esse paralelismo emergiu para dar sustentabilidade as narrativas negocionistas do governo, no contexto da condução gestora da Pandemia. De modo que a sociedade ficou exposta não só a um mundo real e outro virtual; mas, também, a um mundo paralelo, cujo objetivo é manipular os fatos em favor de alguns e em detrimento de outros. Quando um governo decide se balizar por esse mecanismo, ele não está em busca de informações e referências, sobre determinado assunto, já consolidadas e aceitas no contexto coletivo.

Isso significa manter a qualquer custo quaisquer opiniões. O que nos leva a pensar nesse paralelismo como um mecanismo de “policy switch”, ou seja, um giro político. O que nesse contexto significou adotar uma plataforma ideológica que contraria, constantemente, a Constituição e demais arcabouços legais vigentes no país.

Assim, ele descumpre, acintosamente, o seu compromisso constitucional ao buscar um aparato que sustente a sua própria narrativa discursiva, mesmo que em risco de total perda de credibilidade e de eventuais consequências nefastas. É por isso que os dias se sucedem reafirmando a inércia.

Só que ela não é indolor e nem tampouco inativa; na medida em que o fazer e o não fazer são escolhas e trazem suas próprias consequências. A sociedade está sendo submetida a uma exibição constante da tragicidade social, enquanto se resigna a chorar as suas dores e tristezas em uma indignação profundamente contida.

Talvez, mais uma manifestação rançosamente histórica que é a passividade vitimista em esperar por alguém, que tome a dianteira e resolva miraculosamente a situação. Entretanto, enquanto se espera, a situação progride a passos largos nas suas insustentabilidades.

Cada vez mais, vejo muita gente se arvorar como defensor da vida; mas, na prática a convicção não é linear. Então, eu fico me perguntando qual seria essa vida?  Porque na psicologia, na medicina, na religião, na educação e em tantos outros campos do conhecimento, não há distinção, ela é simplesmente entendida como um bem muito valioso e inalienável. O que se subtende que todas as vidas importam.

Portanto, ela não deveria estar, jamais, sob ameaça de ninguém ou de nenhuma situação. Mas está. Rendida pelo medo, pela obviedade do imprevisível, a sociedade conta os giros do relógio como contas de um rosário de sobrevivência. Afinal, ela precisa se apegar em algo para não pagar com a vida o custo desse teatro de horror.   

Sabemos, muito bem, que nos proteger é necessário. Nos cuidar é necessário. Pensar as medidas de prevenção, no sentido coletivo, é necessário. Tomar a vacina corretamente é necessário. Mas, só isso não irá romper o cerco da morte que está se acirrando. Como não basta, somente, uma catarse verbalizada.

Enquanto fazemos tudo isso, as pessoas continuam adoecendo e morrendo. Por mais difícil que seja admitir, estamos diante de uma encruzilhada, à beira de um precipício. Assim, apesar de nos considerarmos aptos e competentes, a conjuntura nos obriga a rever os conceitos, alterar os planos, porque a ineficiência e a insuficiência foram comprovadas, da pior forma, no trato de toda essa situação. O mundo paralelo, na sua ficção delirante, como era de se esperar, fracassou.  

terça-feira, 4 de maio de 2021

Serão anjos ou demônios?!


Serão anjos ou demônios?!

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Não é de surpreender que as atuais conjunturas conduzam as pessoas a ficarem com os nervos à flor da pele. Além da Pandemia, a “cereja do bolo” no momento, há milhares de outras questões incomodando e perturbando a paz de muita gente. Mas, apesar disso, é fundamental recobrar o foco e a lucidez e não se deixar consumir pelas avaliações rasas e inoportunas.

E posso dizer, sem errar, que isso aconteceu amiúde no dia de hoje. O primeiro dia de depoimentos na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), instaurada pelo Senado Federal, para apurar os fatos sobre a Pandemia da COVID-19, no país, e, durante todo o dia, cidadãos acompanhavam o depoimento do 1º Ministro da Saúde, nesta gestão, enquanto outros se digladiavam nas arenas tecnológicas do mundo contemporâneo.

Dentro desse contexto, o que mais chamou a atenção foi perceber as distorções presentes nas manifestações virtuais. Os comentários, em geral, davam conta de um desconhecimento razoável sobre política, sobre as CPIs e sobre o país em que vivemos.

Ora, o propósito de uma CPI é investigar e, diante disso, buscam-se as pessoas que melhor possam trazer informações a respeito do objeto da investigação. Pessoas que conhecem o assunto ou que estiveram diretamente ligados a ele, como é o caso do Ministro.

Posso muito bem compreender o nível de indignação e inconformismo que arrebata milhões de brasileiros. Os motivos são muitos e robustos. O problema é que algumas pessoas estavam destilando sua ira, a partir da desqualificação do Ministro, pelo fato de ele ter aceito fazer parte do governo atual.

Então, muita calma nessa hora! Não é isso que está em discussão na CPI e ninguém melhor do que aqueles que estiveram no centro desse poder político para fornecer informações substanciosas e capazes de traduzir, detalhadamente, o que vem acontecendo, nesses mais de 12 meses, à população.

Em se tratando da política nacional, a história parece clara em afirmar que os interesses caminham sempre léguas adiante do compromisso representativo da República. E no caso de cargos por indicação, como os Ministérios, é óbvio que exista certa afinação ideológico-partidária com o governo vigente. Ninguém é chamado somente pela expertise nesse ou naquele assunto. Governos se sustentam por apoios e precisam de pessoas que trabalhem na defesa de seus interesses.

E por mais absurdo que possa parecer, em pleno século XXI, há muita gente que acredite, mesmo, que aceitar certos convites políticos pode significar um caminho para colocar em prática ações importantes, transformadoras para o país. Entretanto, quando descobrem a “surpresa dentro do ovo” sentem-se frustradas, ou enganadas, ou incapazes de seguir adiante na empreitada.

Foi exatamente isso o que aconteceu. Os dois primeiros ministros que ocuparam a cadeira da Saúde, nesta gestão federal, mostraram que essa tal “afinidade” foi insuficiente para fazê-los prosperar no ofício ministerial.

De repente, se depararam com uma situação que transcendeu essas raias para se tornar uma obediência cega e insensata que lhes custaria o preço da própria identidade e dignidade. Aí, o limite apareceu.

A verdade é que qualquer ser humano está sujeito a cair em uma esparrela dessas. Pode não ser no serviço público; mas, no setor privado, também, acontece. A questão crucial é que, a partir do momento em que a pessoa esteve naquela posição é dela as perspectivas que podem elucidar os fatos a respeito da dinâmica daquele setor.

E é exatamente isso o que a CPI espera obter, porque não se faz uma investigação parlamentar apenas baseada em notícias oriundas dos veículos de comunicação e informarão ou de conversas de corredor.

Portanto, ninguém que vai sentar naquelas cadeiras do Senado, nas próximas semanas, está sendo convidado para receber um par de asas e auréola; muito pelo contrário. Ninguém ali está barganhando; talvez, um pouco de publicidade e visibilidade. Porque, no fundo, todo mundo é um bocadinho vaidoso. Mas, nada comparado aos mecanismos fisiologistas que persistem na história política nacional.

Ali, na CPI da COVID-19, eles não só têm um compromisso jurídico com a verdade; mas, com a opinião pública. Que no caso, em particular, tem como elemento motivador a indigesta consciência de que mais de 400 mil pessoas morreram pela Pandemia e outras milhares podem ter o mesmo fim, se as práxis nefastas empregadas, até o momento, não forem contidas. Então, respira e não pira, tá?! 

segunda-feira, 3 de maio de 2021

De volta ao Brasil Colônia?!


De volta ao Brasil Colônia?!

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Pelo menos é o que parece traduzir a notícia, de que entidades de produtores rurais, em todo o país, organizam para o próximo dia 15 de maio atos de apoio ao governo federal e ao fim das medidas de isolamento social adotadas por governadores e prefeitos; bem como, contra o Supremo Tribunal Federal (STF). Cientes de seu papel importante e secular no equilíbrio da balança comercial brasileira, não é de se estranhar tal comportamento.  

A questão é que estamos no século XXI e o Brasil, assim como o resto do mundo, sobrevive a partir da satisfação de outras necessidades que ultrapassam os limites do agronegócio. Sendo assim, a impressão que se tem é de que estão demasiadamente absortos em si mesmos, ao ponto de não conseguirem perceber as implicações de seus posicionamentos político ideológicos para o desenvolvimento do país como um todo.

A certeza de navegar em mares de aparente calmaria levaram o Titanic a afundar. Então, como diz o provérbio, “ao ver a barba do vizinho pegando fogo deve-se colocar a sua de molho”. Ora, o país já convive com o êxodo das multinacionais, em face da instabilidade política, jurídica e do chamado “Custo Brasil”, o qual representa um conjunto de dificuldades estruturais, burocráticas, trabalhistas e econômicas que geram obstáculos concretos e negativos ao ambiente de negócios e comprometem a competitividade dos produtos no mercado global e os investimentos estrangeiros em seu território.  

Sem contar, o quanto o governo se mostrou negligente e despreparado para enfrentar as consequências da Pandemia e dar o suporte necessário, o qual seus importantes parceiros comerciais internacionais demandariam no momento. Então, só para citar algumas dessas multinacionais, o Brasil se despediu da Sony, depois de 48 anos na Zona Franca de Manaus. A Ford, a Audi e a Mercedes, no campo da indústria automobilística. E outras, de segmentos variados, como a Nike, Fnac, Walmart, Nikon, Brasil Kirin, Häagen-dasz, Glovo, RR Donnelley, Lush Cosméticos, Kiehl’s e Eli Lilly.

O que significa que essas perdas contribuíram para elevar o número do desemprego no país, que já era bastante expressivo. Os últimos dados divulgados em 30 de abril, dão conta de que entre desempregados e desalentados o país alcança a triste cifra de aproximadamente 20 milhões de seres humanos. E por consequência desse movimento há, também, o acirramento da condição de pobreza.

Segundo dados da Fundação Getúlio Vargas (FGV), o número de pobres que era de 9,5 milhões de pessoas em agosto de 2020, agora ultrapassa a fronteira dos 27 milhões em fevereiro de 2021. De modo que a chamada “classe média”, que em 2011 representava 54% da população, depois reduziu para 51% em 2020, agora é de 47% em 2021, o mesmo percentual da classe baixa.

E esses são números que impactam diretamente o agronegócio, porque nem só de exportação vivem eles. Quando os mercados se fecham lá fora, por excesso de oferta, melhores condições de comércio, sazonalidade climática etc., ou eles negociam aqui dentro ou perdem seus investimentos bilionários.

Acontece que, diante do quadro atual, a perda do poder aquisitivo pela população impõe uma nova dinâmica de prioridade de produtos. O orçamento das famílias inicia um movimento malabarista para garantir o essencial ou, pelo menos, a cesta básica. Afinal, não se pode esquecer que a elite brasileira só representa 6% da pirâmide social.  

De modo que, não me parece possível, o setor do agronegócio ser capaz de resolver sozinho essas questões; nem tampouco, encontrar motivos razoáveis para, diante delas, ainda, ser capaz de apoiar o governo e propor insurgir contra o STF e quaisquer medidas que possam salvar a vida de milhões de cidadãos brasileiros.

Isso me parece muita presunção ou apego exacerbado sobre um tempo em que o apogeu do país estava pautado no setor primário, ou seja, na extração de matérias-primas naturais e minerais. Entretanto, aquele Brasil da “Casa Grande e Senzala” original ficou nas páginas da história; muito embora, os desdobramentos e consequências sociais nefastas desse período reverberem por outras formas e conteúdos contextualizados a contemporaneidade.

Portanto, só posso dizer que é triste, muito triste, saber que em plena Pandemia e frente a tantos desafios socioeconômicos a serem enfrentados, o Brasil se permita fragmentar, polarizar, ideologizar, para, no fim das contas, negociar em mercado de escambo com vidas humanas. Vidas, cujas gerações seculares, permitiram que o país caminhasse sobre as vias urbanizadas e industrializadas sopradas pelos ventos da Modernidade e que fizeram com que ele usufruísse, ainda que a sombra dos grandes, as novidades do mundo.  

Mas isso, infelizmente, parece ser mesmo Brasil! Quando encontramos em sua história, em pleno século XIX, palavras como estas, do jornalista e escritor Euclides da Cunha, “Nostalgia e revolta: tu não imaginas como andam propícios os tempos a todas as mediocridades. Estamos no período hilariante dos grandes homens-pulhas, dos Pachecos empavesados e dos Acácios triunfantes. Nunca se berrou tão convictamente tanta asneira sob o sol! [...] É asfixiante! A atmosfera moral é magnifica para batráquios. Mas apaga o homem. [...]” 1. Porque elas nos dão a devida dimensão de como este é um país desvirtuado da lógica, do bom senso e do respeito pela ação malévola da cobiça e da vaidade.       


domingo, 2 de maio de 2021

Uma silenciosa narrativa estridente...


Uma silenciosa narrativa estridente...

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Mais de 400 mil mortos não é um número inexpressivo, para que alguém possa voluntariamente desconsiderá-lo ou menosprezá-lo. No entanto, é exatamente isso o que está acontecendo no Brasil. A Pandemia do Sars-COV-2 escancarou um fenômeno comportamental assustador, a indiferença. Em nome da satisfação pessoal de seus interesses e desejos, pessoas estão se posicionando contra a vida.

Ainda que o ser humano possa fazer escolhas, há questões que não cabem, do ponto de vista ético e moral, mais do que uma opção. E viver é uma delas, porque nada existe ou faz sentido, nos campos subjetivos e materiais, a não ser que a pessoa esteja viva. A crença de que bens e propriedades deveriam ser enterrados com seus donos mostrou-se ineficaz há tempos.

Entretanto, o que se observa entre alguns membros da população é uma contestação radical ao óbvio. Querem, a todo custo, fazer prevalecer os seus pontos de vista, sob argumentos inconsistentes e profundamente questionáveis. E para isso se valem de estratégias que visam polarizar e desagregar a coletividade, a fim de torná-la vulnerável as suas investidas de poder e controle.

A proposta das Fake News, por exemplo, é desacreditar a verdade dos fatos. Na medida em que fomentam trilhas de especulação e desconfiança entre a população, elas passam a transitar em círculos e deixam de pensar e refletir, mais profundamente, a respeito do que acontece ao seu redor. De modo que elas tendem a se deixar levar por um consenso majoritário de manifestações rasas que visa manipular as consciências e construir diques de obediência insana contra a verdade.

Da mesma maneira, os discursos de ódio e de medo buscam exercer influências capazes de fragilizar a robustez das opiniões individuais. São narrativas que colocam uns contra os outros a partir de ideias banais, somente para entretê-los e não os deixar recobrar a consciência sobre o que é realmente importante. Eles criam uma teia de alienação contínua tão bem tramada que culmina em uma imobilização paralisante.

E sem perceber, a sociedade está no meio de uma guerra pesada, cuja única arma é a linguagem. Palavras transformadas em ideias para constituir discursos e narrativas com propósitos fundamentalmente destrutivos. O objetivo desse processo é desconstruir as práxis já consolidadas para edificar outras, ou seja, aquelas capazes de atender aos interesses dos novos aspirantes ao poder.  

Quem assistiu ao filme “V de Vingança” (V for Vendetta), de 2006, deve se lembrar da frase, “Por baixo dessa máscara há mais do que carne. Atrás dessa máscara há uma ideia. E ideias são à prova de bala”. Um olhar mais atento sobre a história do mundo para entender que é realmente assim. Para o bem ou para o mal as linguagens é que ditam os rumos da sociedade. Criam ilusões. Criam desavenças. Criam desequilíbrios. Criam grilhões e obstáculos, gerações após gerações. Nas entrelinhas de todos os grandes conflitos, antes que qualquer bomba fosse lançada ou território invadido, lá estavam as linguagens configurando os sentidos humanos.

E o porquê de isso acontecer, num mundo em que a verborragia parece tão naturalizada e intensa, é o fato de que as pessoas falam muito; mas, se abdicam tanto de pensar, sobre o que estão dizendo, como de ouvir e decodificar, o que lhes chega aos ouvidos. Como explica o Dalai Lama, Monge Budista e líder espiritual tibetano, “A arte de escutar é como uma luz que dissipa a escuridão da ignorância. Se você é capaz de manter sua mente constantemente rica através da arte de escutar, não tem o que temer. Esse tipo de riqueza jamais lhe será tomado. Essa é a maior das riquezas”.

Sem contar a leitura, que também é outra carência visível na sociedade contemporânea. As pessoas têm tido cada vez mais preguiça de realizar uma leitura atenta e aprofundada do que lhes chega pelos veículos de comunicação e informação. Justificam tal comportamento pela força da vida acelerada, dos excessos de compromissos e tarefas; mas, no fundo, é só preguiça e negligência com o pensar. Um jeito mais fácil de abdicar das responsabilidades intrínsecas ao cotidiano. Afinal, o saber lhes impõe o fazer, o agir, a respeito.

Assim, “enquanto atos forem usados no lugar do diálogo, palavras sempre terão seu poder”; afinal de contas, tudo o que está acontecendo é porque você “pensa isso mesmo, ou é assim que eles querem que você pense? ” (V de Vingança). Será, que é realmente necessário haver sempre um distanciamento abissal a um denominador comum que possa equilibrar as demandas e os sonhos coletivos?

Talvez, não. Basta decidir entender que sob tais ditames, a vida que conhecemos é só uma vida ameaçada, de diversas formas, por diferentes instrumentos de afronta e violência. Hoje são mais de 400 mil perdidas apenas em decorrência da Pandemia, amanhã poderão ser 500, 600, ... 1 milhão, se o diálogo da lucidez e do respeito não se estabelecer. Porque para a vida só resta um lado, o da sobrevivência.


sábado, 1 de maio de 2021

Reflexões sobre aprender para ser


Reflexões sobre aprender para ser

 

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

 

Quem já leu o livro Extraordinário (Wonder), ou assistiu ao filme 1homônimo, se defronta com um assunto bastante comentado nos últimos anos, no Brasil, que é o “homeschooling”, ou seja, o ensino doméstico ou domiciliar.

Na história, a personagem Auggie Pullman é um garoto que nasce com a Síndrome de Treacher Collins, uma doença genética caracterizada por deformações craniofaciais e, por essa razão, a família o mantém estudando em casa até o Ensino Fundamental I (Elementary School), a fim de evitar situações de bullying que pudessem afetá-lo.

Então, quando a família decide matriculá-lo em uma escola regular todos os conflitos e dilemas desse processo são apresentados ao público, o que abre uma possibilidade interessantíssima de reflexão. De entender como o modelo de educação pode afetar a vida de diversas formas e gerar desdobramentos, inclusive, impensados.      

No caso da personagem existiam razões bastante consistentes para que os pais optassem temporariamente pelo homeschooling. A mãe se encarregou de ser a professora durante esse período. Criou-se, portanto, uma estrutura para o desenvolvimento das aulas que permitisse uma transposição para o ensino na escola sem maiores impactos acadêmicos.

No entanto, do ponto de vista relacional com o mundo, Auggie havia se mantido em sua própria “bolha” de convivência, com pessoas capazes de aceitá-lo exatamente como ele era, de modo que não estava preparado para enfrentar as hostilidades que residem na convivência social extrafamiliar.

A partir dessas considerações é possível dimensionar, então, as camadas de complexidade que residem na proposta do homeschooling. A primeira delas daria conta de uma impossibilidade de acesso a qualquer aluno. Nem todos os pais se sentem aptos e/ou disponíveis para lecionar aos filhos. Contratar alguém pode representar um custo elevado, que muitas vezes não pode ser contemplado pelo orçamento familiar. Tudo isso significa que o homeschooling tende a reafirmar uma desigualdade educacional.  

Segundo, porque são necessários investimentos para contemplar tanto a estrutura quanto os materiais necessários para o desenvolvimento das aulas. É preciso que o aluno tenha um espaço de ensino-aprendizagem descaracterizado do espaço residencial, para que ele possa construir um sentido de responsabilidade, sem distrações, para construir seus conhecimentos. O momento da aula tem que ser para a aula. O mobiliário tem que ser adequado para essa finalidade. Ele deve contar com os materiais pedagógicos apropriados para a realização das atividades. Enfim...    

Terceiro, porque essa é uma forma de individualização exacerbada de ensino. Todo o plano didático-pedagógico é centrado na figura de um aluno específico. De modo que todas as dúvidas, todos s seus questionamentos, são prontamente respondidos e resolvidos porque ele não precisa aguardar pela satisfação das demandas de outros alunos. A não ser, é claro, quando são gêmeos ou há irmãos de outras séries estudando conjuntamente em homeschooling.

Mesmo assim, neste caso, dada a intimidade familiar existente, há um prejuízo relacional no sentido de que o aluno não aprende a se posicionar frente a alguém totalmente estranho.

O que significa uma impossibilidade de aprender a lidar com conflitos, com interesses diversos, opiniões divergentes, a partir de pontos de vista que foram construídos com base em crenças, valores e princípios de famílias diferentes.

E ninguém passa o resto da vida dentro de sua própria “bolha”. Em algum momento as pessoas são catapultadas para o mundo e o não estar preparado, na medida da experienciação da dinâmica da vida, pode ser mais do que desafiador, pode ser letal.

A inexperiência pode impactar o indivíduo em níveis tão difíceis de mensurar que podem acabar constituindo gatilhos para diversas doenças mentais, como Depressão, Bulimia, Anorexia, Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC). Que se acentuadas podem sim, levar a quadros suicidas.

Por isso, creditar no homeschooling a solução para todos os problemas e desafios que possam existir na educação convencional vigente, parece um tanto quanto equivocado. Mais do que nunca, é preciso pensar em modelos de educação que permitam ao ser humano consolidar um de seus pilares de sustentação psicoemocional mais importante, que é a alteridade.

Isso significa desenvolver a capacidade de reconhecer a existência de alguém diferente de mim, possibilitando me colocar no lugar desse outro no contexto das infinitas configurações de relações sociais, sempre com consideração, identificação e diálogo. A alteridade ensina, portanto, que não é necessário concordar sempre; mas, é fundamental aceitar as diferenças.

Quando a sociedade começa a buscar subterfúgios para moldar a vida dentro de certas perspectivas que extrapolam a individualidade para se tornarem extremamente individualistas, um sinal de alerta precisa ser aceso. A educação é uma extensão do mundo; mas, não é por isso que se precisa transformá-la em uma arena de conflitos, de ameaças, de violências diversas, como acontece na exacerbação contínua das práticas de bullying escolar.

Por isso, “O saber que não vem da experiência não é realmente saber” (Lev Vygotsky – psicólogo). O modelo de Educação e a proposta de ensino-aprendizagem, sejam eles quais forem, devem estar fundamentados na busca por transcender as possibilidades humanas e sociais do aluno.

Como escreveu Rubem Alves, “Para isso existem escolas: não para ensinar as respostas, mas para ensinar as perguntas. As respostas nos permitem andar sobre a terra firme. Mas somente as perguntas nos permitem entrar pelo mar desconhecido”.

Porque, no fim das contas, “Pessoas que sabem soluções já dadas são mendigos permanentes. Pessoas que aprendem a inventar soluções novas são aquelas que abrem portas até então fechadas e descobrem novas trilhas. A questão não é saber uma solução já dada, mas ser capaz de aprender maneiras novas de sobreviver” (Rubem Alves – teólogo, pedagogo, poeta e filósofo brasileiro).

sexta-feira, 30 de abril de 2021

Trabalho e o século XXI


Trabalho e o século XXI

 

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

 

Apesar de 1º de maio ser referenciado como Dia do Trabalho, com status de feriado, em muitos países, isso não impõe necessariamente uma celebração. Ao contrário, as conjunturas contemporâneas; sobretudo, nesses tempos pandêmicos do século XXI, estabelecem uma necessidade cada vez maior de reflexão sobre o tema.

Na medida em que o topo da pirâmide social se torna cada vez menor e mais detentora de riquezas e poder, é sinal de que o restante está sob condições cada vez mais indignas e desprivilegiadas, incluindo o trabalho. O que significa dizer que o mundo vem demonstrando um acirramento na distribuição desigual de bens e riquezas.

A questão é que o problema não se restringe a distribuição. A riqueza retroalimenta outros ciclos de exclusão social, os quais nem sempre são percebidos de maneira adequada. A começar pelos investimentos científicos e tecnológicos que fazem mudar a todo instante as configurações do mercado de trabalho, porque possibilitam uma inserção cada vez maior da mecanização em detrimento da mão de obra convencional, ou seja, as máquinas substituindo profissões e/ou reduzindo as oportunidades de trabalho.

Depois, essas mudanças não só exigem uma qualificação profissional cada vez mais atualizada e específica, como, também, criam outros nichos profissionais. Acontece que a grande massa de trabalhadores se encontra anos luz de distância desse perfil. Trata-se de uma miscelânea de gerações que não apresentam o mesmo nível de letramento digital. Aliás, muitos deles nem contam com a possibilidade da acessibilidade digital.

A quantidade de riqueza e a velocidade no patamar de investimentos, no mundo do trabalho, foi tão intensa que criou um abismo e dividiu os trabalhadores em dois mundos distintos, o convencional (analógico) e o futurista (digital). Entretanto, não possibilitou estabelecer um processo de adaptação e formação laboral continuada para realocar os contingentes de trabalhadores impactados pelas ondas advindas desse movimento.

Por isso as estatísticas do desemprego e do desalento no mundo são terríveis. Porque elas não dão conta de um recorte trimestral qualquer, dentro de um momento conjuntural; elas dão conta de uma linha histórica que começou a ser delineada desde a 1ª Revolução Industrial. Portanto, a cada nova revolução que emerge, esse processo vai adquirindo contornos cada vez mais dramáticos.

Como ficou ainda mais claro, durante essa pandemia, o universo laboral existe mediante demandas de consumo e possibilidades em satisfazê-las. Não é à toa que as pesquisas mostraram desempenhos bastante distintos entre e intra setores econômicos, o que aponta para uma heterogeneidade mediante o contexto do recorte temporal analisado. O que leva a movimentos demissionários mais exponenciais para algumas categorias do que para outras.

De modo que, no frigir dos ovos, a relevância dos acontecimentos concentra-se em buscar soluções que possam mitigar e dar sustentação aos constantes rearranjos que precisam ser promovidos no mercado de trabalho do século XXI. Porque se as estruturas de produção se transformam e as demandas de consumo aspiram por outras prioridades, o trabalhador precisa estar apto para acompanhar a dinâmica dessas metamorfoses.  Não serão com ideias simplistas que os desafios serão superados.

O número de pessoas à margem dos trabalhos formais é muito grande para se acreditar que, apenas, orientando-as a transpor a fronteira da informalidade para a condição de Microempreendedor Individual (MEI), por exemplo, tudo estará resolvido.

Primeiro, porque no desemprego a desigualdade social, também, opera. Segundo, porque transformar todos os milhões de desempregados e desalentados em MEI, ou em Microempresa (ME), ou Empresa de Pequeno Porte (EPP), não resolve as necessidades econômicas do país, porque eles se concentram basicamente no setor terciário (serviços).

A grande verdade é que sem investir em um modelo de educação cidadã, que possibilite aos indivíduos a construção adequada de conhecimento no campo técnico-científico-informacional, para atuar em serviços cada vez mais inovadores e sofisticados, os quais demandam especialização e eficiência, o país só tende a mergulhar no atraso.

Observe que, até mesmo, os setores primário e secundário vêm exigindo uma mão de obra melhor preparada. No caso do setor primário, a agricultura, a pecuária e o extrativismo vegetal, animal e mineral, para conquistarem espaço na exportação internacional, tem precisado imprimir práxis ambientalmente sustentáveis, que repercutem diretamente na exigência de qualificação dos seus profissionais.  

O mesmo acontece, no setor secundário, o qual representa a indústria e toda a cadeia de produção de bens duráveis e não duráveis, por conta de toda a tecnologização em paralelo as diretrizes ambientais sustentáveis propostas para o setor.  

De modo que se a sociedade não começar a refletir sobre todos esses aspectos, em muito pouco tempo haverá um colapso no mundo do trabalho. Haverá mais carência de mão de obra, baixa produtividade, redução na oferta de bens e serviços, limitação nos lucros, postos de trabalho sendo fechados, enfim... A grande engrenagem, então, vai parar e toda a pirâmide social sofrerá as consequências; sejam elas diretas ou indiretas, sejam eles os donos dos meios de produção, banqueiros, magnatas ou, simplesmente, os proletários, os operários invisíveis.


quinta-feira, 29 de abril de 2021

Coisas de quem sabe o que diz...


Coisas de quem sabe o que diz...

 

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

 

Em pleno dia Mundial da Educação, ontem, 28 de abril, foi uma demonstração de visão de futuro a fala do Presidente dos EUA, Joe Biden, na primeira sessão conjunta do Congresso Norte-Americano depois de sua posse em janeiro. Para ele, passa pela Educação o retorno empoderado da democracia do seu país ao cenário da contemporaneidade.

Por isso, ele irá apresentar uma proposta na área de Educação, que busca constituir um serviço pré-escolar universal, dois anos de frequência gratuita nas faculdades públicas, 225 bilhões de dólares em cuidados infantis e pagamentos mensais em torno de 250 dólares para os encarregados do setor, com vistas a tornar o cidadão norte-americano mais competitivo no século XXI. 

A importância de discursos, assim, está justamente na reafirmação de qual é o verdadeiro papel da Educação dentro de um país. Pensar sobre ela é, portanto, traçar um panorama do que se aspira como coletividade, como projeto cidadão para o desenvolvimento pleno de uma sociedade. Portanto, ao contrário de muitas pessoas que olham para o sistema de educação como um elemento distante e desconectado de suas vidas; na verdade, ele não é.

O grande desafio está, justamente, no fato de o mundo ser um lugar tão desigual e arrastar essa desigualdade para todas as suas estruturas fundamentais, incluindo a Educação. O que ocorre é que a desigualdade educacional transita, há tempos, por uma espiral de infinitas desigualdades que se sobrepõem e promovem uma manutenção de seres humanos distantes de direitos e benefícios fundamentais.

Porque não há proposta de Educação que se sustente fora da inclusão social. O indivíduo precisa ter seus direitos fundamentais assegurados para que possa desfrutar do processo de ensino-aprendizagem, em condições de extravasar o seu potencial intelectual e cognitivo. Há muitos equívocos nesse sentido, quando os problemas da Educação são lançados prioritariamente sobre os ombros da instituição de ensino, desconsiderando que, na maioria das vezes, eles já acontecem muito antes.

É o aluno que vive em condições precárias e insalubres. É a miséria e a subnutrição que interrompem a capacidade de aprendizado. É a desassistência de saúde que leva muitos alunos com problemas oftalmológicos, auditivos, psicológicos, neurológicos, para os bancos da escola sem que tenham as devidas condições de acompanhar as aulas. É a impossibilidade de adquirir os materiais escolares e os uniformes do período letivo. Enfim...

A heterogeneidade social é uma marca da Educação. Não se trata só da singularidade do indivíduo. As diferenças se medem muito além, no campo dos estratos sociais, das possibilidades de ensino – público ou privado, da posição geográfica das unidades de ensino, das propostas didático-pedagógicas, da consolidação ou não de políticas inclusivas, ...

Portanto, não há como fazer da Educação uma receita de bolo aplicável homogeneamente, porque não vai funcionar. Porque a Educação não é só o recurso financeiro. Não é só a construção de escolas. Não é só remunerar bem o professor. Não é só construir laboratórios e bibliotecas. Não é só oferecer a merenda. Não é só exigir um Plano Político Pedagógico anual para cada instituição. É tudo isso e muito mais, porque a Educação forma pessoas. Como dizia o poeta Mário Quintana, “Os livros não mudam o mundo, quem muda o mundo são as pessoas. Os livros só mudam as pessoas”.

Isso significa que ao permitir a existência de tantas discrepâncias traduzidas pelos pluralismos das desigualdades sociais, o governo só faz reafirmar um descaso gigantesco em relação à população. Entretanto, ao esquecer da importância que reside em constituir cidadãos, ele opta por um modelo de governança na contramão das demandas do mundo, ou seja, atrasado, ineficiente e obsoleto. Algo que, há tempos, já vem sendo revelado por pesquisas nacionais e internacionais na área de Educação.

Seu desalinhamento educacional é tão representativo, que o Brasil arrasta correntes na alfabetização, nos multiletramentos, nas Tecnologias da Informação e da Comunicação (TICs). Porque, o fato de que a contemporaneidade coloca as pessoas a coexistirem entre dois mundos, o virtual e o real, não significa necessariamente que desfrutem de acessibilidade e letramento suficientes para viver essa experiência.

O que ocorre é que há uma carência natural na estrutura educacional que lhes impede de ter um lastro consolidado para a construção do conhecimento. De modo que as defasagens educacionais se acumulam ano a ano, mantendo os alunos, de certa forma, aprisionados por barreiras que não tendem a ser desconstruídas. É sempre mais do mesmo. Não há inovação. Não há transformação.

Assim, o governo brasileiro não só estabelece uma ruptura com a ideia básica de que “A primeira meta da educação é criar homens que sejam capazes de fazer coisas novas; homens que sejam criadores, inventores, descobridores” (Jean Piaget), ou seja, de que é possível “formar gente capaz de se situar corretamente no mundo e de influir para que se aperfeiçoe a sociedade humana como um todo” (Milton Santos); como subscreve a impossibilidade de compreender verdadeiramente que “A educação feita mercadoria reproduz e amplia as desigualdades, sem extirpar as mazelas da ignorância. Educação apenas para a produção setorial, educação apenas profissional, educação apenas consumista, cria, afinal, gente deseducada para a vida” (Milton Santos).


quarta-feira, 28 de abril de 2021

Protagonismo coadjuvante ...


Protagonismo coadjuvante ...

 

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

 

A política do caos foi a estratégia utilizada pelo governo brasileiro para justificar a sua inação nas mais diversas áreas. Há um processo de desconstrução e de desmantelamento que vem se operacionalizando, desde 2019, que cria focos de instabilidade, os quais, não raras as vezes, dificultam a vigilância e o acompanhamento por parte dos serviços de comunicação e informação; mas, também da própria sociedade. Pois, tudo tende a acontecer simultaneamente.

Uma passada de olhos breve, pela mídia nacional, para se ter a dimensão exata disso. A Pandemia, seus desdobramentos e investigações na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dividem espaço com problemas oriundos do Ministério do Meio Ambiente, dúvidas quanto à realização do Censo Demográfico, incertezas sobre o orçamento aprovado, idas e vindas de uma suposta reforma tributária, expansão da pobreza no país, turbulências nas relações diplomáticas por atitudes inapropriadas, ...

No entanto, se engana quem pensa que essa miscelânea da tragicidade só irá prejudicar a população. Não. Se é ruim para alguns, a verdade é que ruim para todos, incluindo o próprio governo. Porque apurar e administrar tantos conflitos, ao mesmo tempo, pode sair fora do controle.

O excesso de centralização de poder que se tenta impor, por parte do governo, acaba resultando em um tremendo descontrole; especialmente, quando, no agravamento das situações, as pautas são levadas à judicialização, a fim de uma resolução fundamentada nos princípios do ordenamento jurídico nacional, com destaque para a Constituição Federal de 1988.

De modo que a escolha por esse caminho centralizador, controlador, manipulador, no fim das contas, esvai o protagonismo do próprio governo. Na ânsia de governar sob as vozes da própria cabeça, se esquecem de que nenhum governo pode tudo e que há regras a serem respeitadas e cumpridas, até mesmo por quem está no poder.

Ao bater de frente com as instâncias jurídicas superiores, nas constantes tentativas de fazer prevalecer as suas vontades, o governo vai esgarçando a sua credibilidade e a sua governabilidade. A cada decisão mal tomada. A cada manobra imprevidente. A cada erro de cálculo. A política do caos cobra seu preço.

Não se pode esquecer de que a governança não se define pelos limites territoriais internos; mas, ela tem braços externos. Sobretudo, considerando a realidade globalizada e globalizante do mundo. Tudo é acompanhado de perto, quase que em tempo real; portanto, um passo em falso não causa instabilidade somente para si. Haja vista a frenética movimentação do Mercado Financeiro.

O limite do improviso, da tomada de decisões próprias, é muito restrito. De certa forma, a governança tem scripts pré-definidos, maleáveis o bastante para se ajustar as eventuais variações conjunturais; mas, é só. Por isso é preciso estar atento, o tempo todo, ao que acontece em cada canto.

É um erro crasso pensar que há assuntos menos importantes e mais importantes, quando a vida é uma teia de complexidades, onde todos os elos permanecem em constante agregação e desagregação. É só olhar para a contemporaneidade. Essa jornada de incertezas, de retrocessos, não consegue responder a si mesma a que veio. A dinâmica imposta ao cotidiano adquiriu um caráter tão amadorístico que constrange.

Não se vê lampejos de consciência, de percepção bem constituída, conduzindo as decisões ou as mudanças que precisam ser implementadas. Daí a necessidade constante de uma figura capaz de tutorar institucionalmente; como já dito anteriormente, na referência à judicialização.

O curioso é que muitos eleitores, ainda, não se deram conta disso. Seu voto elegeu indivíduos que, sem lhes dar satisfação alguma, tem optado por abdicar do protagonismo para serem coadjuvantes. Por isso, eles se sentem tão confortáveis em tecer narrativas em que tentam se dissociar de suas responsabilidades e obrigações, lançando-as amiúde sobre a quem possa interessar. Sendo assim, quem está segurando, de fato, o leme dessa embarcação, hein?

Diante dessa política do caos que vem continuamente se reafirmando pela lógica da necropolítica de Achille Mbembe e do “fazer viver e deixar morrer” da Biopolítica foucaultiana, com quase 400 mil mortos só pelo Sars-COV-2, sem contar tantas outras causas, a verdade é que o governo não tem como se abster ou incinerar o compromisso que assumiu nas urnas.

Porque todo esse movimento retroalimenta as demandas que chegam à judicialização; de modo que, o governo vai sendo colocado em uma posição fora da sua “pseudo zona de conforto”. Até que um dia, se perceba que a política do caos não conduziu nada a lugar nenhum.

Enfim, a permissividade da inação expandiu de tal forma as suas fronteiras áridas e improdutivas, que o país passou a servir apenas para sepultar ... Gente. Sonhos. Esperanças. Trabalho. Progresso. Desenvolvimento. Constituiu-se, então, o panorama indefinido do absoluto ostracismo; pois, como escreveu João Guimarães Rosa, “O trágico não vem a conta-gotas”.


terça-feira, 27 de abril de 2021

A identidade do poder ou o poder da identidade?

A identidade do poder ou o poder da identidade?

 

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

 

De repente, comecei a compreender melhor os meandros que levam tantas pessoas a se ocuparem das disputas de poder, no Brasil.  A questão é que, por ser um país de características tão peculiares, o poder assume a sua significância não pelo significado e manifestação, mas pela investidura de determinados cargos e posições dentro do estrato social. De modo que muitos se perdem na função, por total desconhecimento em relação ao que lhes impõem aquele determinado poder.

Chega a ser engraçado, como alguns se transformam pelo simples sentar em uma determinada cadeira representativa. Chegam a transparecer a ideia absolutista, na qual o poder monárquico advinha da vontade de Deus; portanto, algo que não poderia ser questionado. Mas, o poder é sempre o poder e requer muito mais do que se possa imaginar.

E a Pandemia tem feito isso de bom, tem mostrado e dissecado o poder de uma maneira nunca antes imaginada. A começar pelo seu tripé de sustentação, ou seja, conhecimentos, competências e habilidades. Aquela velha máxima de que “qualquer um faz” foi sumariamente desconstruída. Cada ato do cotidiano exige um preparo específico que não é desfrutado por todos homogeneamente. Tanto que, se faz necessária a análise de currículo para o preenchimento de vagas de emprego.

Em um país tão plural e tão desigual, como é o Brasil, conhecimentos, competências e habilidades não são apenas o tripé de sustentação do poder; mas, uma maneira adicional de traçar um perfil da própria sociedade. Porque há uma fragilidade tão demarcada na constituição desses elementos, que poucos têm, de fato, a oportunidade de apresentá-los, quando necessário.

O que significa que o descaso em relação à Educação, no país, se reflete em momentos assim. Afinal, em termos de conhecimentos, apesar do século XXI refletir a exuberância das Tecnologias da Informação e da Comunicação (TICs), estes têm sido construídos com base em um aprender e um apreender das informações, demasiadamente, superficial e inconsistente dentro das diversas áreas; conforme, demonstram mecanismos avaliativos nacionais e internacionais.

Sobretudo, no campo do letramento, o qual ultrapassa as fronteiras da alfabetização, a grande maioria da população ainda não consegue se apropriar efetivamente da leitura e da escrita como prática social. Isso significa que para as classes C, D e E, principalmente, os sujeitos sociais não dispõem de uma linguagem fundamentada na criticidade e com o propósito de auxiliá-los na interação e na ação dentro dos diversos contextos sociais.

O que explica como a escola brasileira está distante do seu papel de formadora do indivíduo cidadão, o qual se desenvolve para constituir as engrenagens do progresso do país a partir da sua força de trabalho; o que não deixa de ser uma expressão de poder.

E se as pessoas não constituem os seus conhecimentos torna-se, portanto, mais difícil de determinar o rol das suas habilidades, as quais exibem a dimensão de suas aptidões para a realização de uma atribuição específica exitosa; mas, também, de suas competências, que demonstram como elas realizam as suas tarefas a fim de serem bem-sucedidas ao final.

Talvez, o mais importante dessas considerações seja trazer à tona a importância que reside em cada papel social desempenhado. Infelizmente, teima em resistir no inconsciente coletivo brasileiro a ideia de que a relevância do trabalho está atrelada a remuneração; de modo que, a importância social passa a ser atribuída em relação ao que recebe financeiramente o indivíduo.

Esse pensamento fomenta, então, uma idealização perversa ao mesmo tempo em que reafirma a invisibilização de centenas de milhares de pessoas. Ora, deixa-se de reconhecer o poder constituído pelos conhecimentos, habilidades e competências do ser humano, para considerar um eventual poder advindo do dinheiro e, por consequência, da posição social que ele venha a ocupar.

Nesse sentido, o país abre mão voluntariamente de oportunizar a visibilidade de inúmeros talentos humanos, os quais têm potencial suficiente para tornarem-se protagonistas em diversas áreas, para permanecer reafirmando os caminhos midiáticos e políticos como única forma de ascensão. E essa é uma razão pela qual o poder desaparece tão rapidamente.

Porque as pessoas são levadas a acreditar que são alguma coisa, quando, na verdade, apenas estão. O estar é temporário. O poder é fugaz. Chega-se a um determinado ponto em que ele não representa nada demais, ele cai na trivialidade do comum. Então, o destaque, a importância, a bajulação, ... tudo se torna opaco e, com o passar do tempo, obsoleto e sem utilidade.

No entanto, apesar dessa efemeridade, ele permanece embaçando a própria identidade das pessoas, porque faz com que a carcaça, a imagem representada, seja vista como mais importante do que o conteúdo. Embora, elas saibam, muito bem, que estão nos conhecimentos, habilidades e competências, o essencial para sustentá-las de pé em todas as situações.

Mas, a questão é que, em plena contemporaneidade, quando tudo se evapora rápido ... quando tudo são aparências ... quando tudo é possível ... quando tudo é poder ... Viver de personagens se tornou o caminho mais fácil em nome da sobrevivência; afinal, “Depois que eu acabar de falar, você me desconhecerá ainda mais: é sempre assim que acontece quando a gente se revela, os outros começam a nos desconhecer” (Clarice Lispector - A maçã no escuro – 1961).    


sábado, 24 de abril de 2021

Não adianta fechar os olhos


Não adianta fechar os olhos

 

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

 

Desde que mundo é mundo, a humanidade já foi surpreendida por grandes epidemias. De repente, quando menos se espera, um agente infectocontagioso aparece descompensado na sua capacidade reprodutiva e na dificuldade de resposta imediata do ser humano e aí, o caos está feito. A grande questão é que, se somos tão vulneráveis, assim, ao imprevisível, já não deveríamos ter aprendido algo diferente com as experiências relatadas nas páginas da história? 

De certa forma, sim. Mas, entre um episódio pandêmico e outro há, geralmente, uma lacuna temporal. O que significa que para as gerações que sucedem aquele determinado evento, os acontecimentos parecem ficção, coisa de outro mundo, muito distantes da sua percepção racional.

É daí que surge o grande desafio da conscientização popular a respeito da gravidade da situação e da necessidade de participação cooperativa no controle e na mitigação da doença, porque as pessoas não se sentem efetivamente ameaçadas pelos acontecimentos, até que sejam atingidas diretamente por eles.

Na verdade, o que as experiências pregressas fornecem de imensa valia as atuais gerações é apontar para a realidade do imponderável. Se não temos como nos precaver de tudo o que acontece no mundo, ao menos, podemos ter as nossas cartas na manga a respeito. Certos cuidados simples e básicos com a saúde, com o cotidiano, com tudo o que possa de algum modo fomentar e desencadear uma situação médico-sanitária fora de controle.

Vírus, bactérias, fungos e protozoários ainda desconhecidos pela Ciência devem existir aos milhares, mundo afora. Especialmente, em razão da própria mutabilidade natural, ou de efeitos ambientais, que podem sofrer ao longo de suas vidas. Portanto, eles estão por aí.

Em contrapartida, os vetores e hospedeiros para organismos desse tipo são bastante conhecidos e desfrutam de um consistente arcabouço de informações técnico-científicas a seu respeito. Dentre os mais conhecidos estão diversos insetos, mamíferos e aves; sobretudo, aqueles de natureza silvestre.

Isso quer dizer, que a relação entre o Meio Ambiente e os seres humanos perpassa diretamente pelas questões de saúde. O descaso que se atribui tantas vezes às discussões ambientais, de certo modo, colabora significativamente para muitas das mazelas enfrentadas pela própria humanidade.

O desmatamento é, por exemplo, um elemento carreador de inúmeras doenças para os centros urbanos, porque aproxima vetores e hospedeiros contaminados da população. Ao perderem seu habitat natural eles são forçados a buscar um outro espaço geográfico para sobreviver, o que geralmente culmina em áreas urbanizadas ou periurbanizadas, que correspondem a locais onde as atividades rurais e urbanas se misturam, dificultando uma determinação precisa dos limites físicos e sociais do espaço urbano e do rural.

Os recursos hídricos contaminados por diferentes efluentes químicos tóxicos são outra fonte importante de desenvolvimento de doenças, muitas delas graves e de alto risco de letalidade; razão pela qual, demandam atendimento especializado de saúde, nem sempre disponível e acessível a todos.

As queimadas, que promovem a formação de particulados nocivos no ar, também, despertam preocupação. Porque ao tornarem o ar denso e difícil de respirar, as partículas presentes podem não só se acumular no sistema respiratório humano, desencadeando inflamações agudas e crônicas; mas, auxiliar no transporte de partículas virais promotoras de patologias, ainda mais, severas aos seres humanos.  

Então, olhando com atenção a dinâmica dessa Pandemia, que parece longe de um fim, antes da preocupação em retomar o cotidiano a partir de um novo contexto, é preciso entender que o risco biológico paira sobre a humanidade, como uma espada pontiaguda.

Seja pelo fato de que o Sars-COV-2 tende a permanecer circulante entre a população por um período indeterminado, apesar da diversidade de imunobiológicos já desenvolvidos, e outros em desenvolvimento, para uma imunização de caráter preventivo à gravidade da sua manifestação patológica.

Seja pelas próprias variantes que devem surgir para garantir a preservação do próprio vírus. O que significa um mecanismo viral para burlar constantemente a vigilância do sistema imune do ser humano e colocá-lo à mercê de uma resposta imunológica menos efetiva as novidades.

Ou, simplesmente, pelo surgimento de um outro vírus qualquer, de alto poder infectocontagioso. Isso implicaria em recomeçar um novo ciclo de esforços de combate, tanto pela Ciência quanto pela própria sociedade. Seriam novas perdas humanas. Novos lockdowns. Novas medidas de distanciamento social. Um novo acirramento das práticas de higiene corporal e ambiental. Novas corridas por imunobiológicos e fármacos eficientes contra a nova doença. Enfim...

De modo que o fato de, ainda, existirem pessoas alheias e negligentes a tudo isso, não muda a verdade de que os agentes biológicos são muito mais rápidos do que as respostas humanas as suas investidas. Nem tampouco, de que uma mudança de perspectiva interior, a respeito da experiência pandêmica, precisa acontecer o mais rápido possível em cada indivíduo.

Afinal, até aqui, a humanidade depositou uma confiança cega e absoluta na capacidade científica e tecnológica que alcançou para resolver tudo à revelia da sua participação ou de seu protagonismo direto.

Ela quis acreditar que quaisquer problemas, surpresas, incidentes, seriam rapidamente solucionados como em um passe de mágica, enquanto ela permaneceria tocando a vida como sempre fez. Mas, entre a conjectura e a realidade há uma diferença inquestionável.

Há mais de um ano a Ciência está debruçada diuturnamente para responder aos questionamentos sobre o Sars-COV-2 e, de maneira precisa e consistente, ela não conseguiu suprir todas essas demandas. As próprias informações sobre o reservatório animal do vírus, antes dele alcançar os seres humanos, ainda são controvertidas. Portanto, há um caminho longo nos estudos que cercam o Sars-COV-2; mas, também, quaisquer outros agentes biológicos.

Além disso, a Pandemia expôs a comunidade científica a realidade de um outro fenômeno denominado de Sindemia da COVID-19; o que significa dizer que outros problemas de saúde, tais como obesidade e doenças cardiovasculares, ao se interagirem de maneira sinérgica com o vírus, contribuíram para uma sobrecarga nos pacientes e ampliaram seu risco de longos períodos de internação e de mortalidade.

Segundo Merrill Singer, antropólogo e médico da Universidade de Connecticut, nos EUA, a Sindemia é uma situação que potencializa danos maiores do que a mera soma das doenças, porque estão envolvidas no contexto as interações biológicas, sociais e econômicas, tornando a população mais vulnerável ao seu impacto.  

O que pode ser apurado por um breve perfil socioeconômico das populações nessa Pandemia.  As comorbidades maltratadas ou mal acompanhadas pelos serviços de saúde somadas à impossibilidade de aquisição de tratamentos específicos e farmacológicos para elas, em virtude da baixa condição econômica dos pacientes, os colocou na dianteira das estatísticas de mortalidade pelo Sars-COV-2.

Portanto, ter essa consciência, talvez, seja a questão mais importante para a humanidade a partir de agora. Não há nada que possa ser estabelecido como definitivo, ou resolvido, ou superado. O modo como os seres humanos se comportam e se interagem, entre si e com o meio ambiente, é e será sempre um fator determinante para acelerar ou retardar novos episódios epidêmicos e pandêmicos no mundo. Não adianta fechar os olhos.