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quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Simbolismos, realidades, ilusões e contradições no mundo de Thémis


Simbolismos, realidades, ilusões e contradições no mundo de Thémis

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Desde ontem, estou pensando sobre a depredação ocorrida no prédio do Supremo Tribunal Federal (STF), em Brasília, durante o 8 de janeiro de 2023. Afinal, a selvageria, a barbárie, a destruição brutal, são apenas a parte visível de algo que se esconde e se enraíza nas profundezas do inconsciente coletivo nacional.

O ódio à Justiça é sim, um sintoma muito concreto da ideia de liberdade propagada, aos quatro cantos, pela sociedade contemporânea. Diante de quaisquer sinais que possam estabelecer limites, regras e leis, a raça humana se deixa tomar de assalto por uma fúria raivosa sem maiores explicações.  

Nesse sentido, estamos sim, frente a frente, com uma tensão entre a liberdade individual absoluta, que na verdade não existe, e a necessidade institucional de regulação. De modo que houve uma ruptura com a consciência da importância das leis, dos códigos, das doutrinas, para manter a sociedade minimamente equilibrada e capaz de uma convivência que lhe permita desfrutar de todas as potencialidades do mundo.

Como se as palavras de John Locke, filósofo inglês do final do século XVII e início do século XVIII, “A finalidade da lei não é abolir ou conter, mas preservar e ampliar a liberdade. Em todas as situações de seres criados aptos à lei, onde não há lei, não há liberdade”, tivessem evaporado no tempo. Ainda que exista alguém que discorde disso, a verdade é que a lei funciona como um escudo protetor, o que significa que ao delimitar o espaço de ação de cada um, ela garante ao cidadão o exercício da sua autonomia sem o temor constante da opressão.

Portanto, quando os indivíduos deixam de reconhecer a legitimidade das normas, o tecido social se esgarça, substituindo o diálogo pelo conflito. Então, sem o respeito aos parâmetros jurídicos, o futuro se torna imprevisível, o que afasta investimentos e paralisa o desenvolvimento econômico e científico.

Processos que irão, muito rapidamente, culminar no fato em que as instituições que dependem desse pacto coletivo de concordância com às regras do jogo, passam a ceder espaço ao autoritarismo ou a anarquia, como respostas à sua dificuldade de compreender que sem o freio das leis e das instituições, a busca por uma liberdade irrestrita costuma colapsar no arbítrio e na lei do mais forte.

E esse é o ponto de reflexão. Relembrando as palavras de Platão, filósofo grego da Antiguidade, “O juiz não é nomeado para fazer favores com a justiça, mas para julgar segundo as leis”. Entretanto, historicamente, a construção de uma crise de legitimidade institucional do sistema judiciário tem atendido aos interesses de muitos governos com francas pretensões de construir um campo de fundamentação para suas ideias, no qual não existam forças de oposição ou contraponto.

Sinto muito em dizer; mas, o enfraquecimento deliberado da legitimidade do Poder Judiciário é uma estratégia clássica de regimes ou governantes com tendências autocráticas. Assim, essa crise é construída por meio de etapas estratégicas.

Primeiro, a retórica populista, na qual os líderes políticos enquadram os juízes como membros de uma elite corrompida ou como inimigos do povo que barram a vontade popular. Segundo, promovendo a politização do discurso, de modo que as decisões técnicas e jurídicas são puramente traduzidas para a opinião pública como atos essencialmente políticos ou partidários. Terceiro, permitindo ataques à imparcialidade da Justiça, capazes de promover, então, uma narrativa de que o tribunal atua com visão ideológica para proteger oponentes ou sabotar o governo.

E por fim, se tem a asfixia institucional. Após erodir o apoio público ao Judiciário, o governo ganha espaço para propor reformas estruturais, como alteração na idade de aposentadoria de magistrados ou aumento do número de cadeiras, prática conhecida como Court-Packing.

Ocorre que, no caso brasileiro, por exemplo, essa crise de legitimidade institucional do Poder Judiciário possui uma correlação direta com o histórico colonialista nacional e seu jogo de forças, poderes e influências, os quais sempre dominaram o país. Portanto, à luz da historicidade nacional, o sistema de Justiça foi moldado por e para as elites. Nesse cenário, os concursos públicos e a exigência de anos de estudo limitaram ao longo do tempo o topo da carreira jurídica aos membros das classes média alta e alta. Tanto que a cultura colonial sedimentou o patrimonialismo, onde os cargos e as decisões judiciais muitas vezes serviram para proteger interesses privados de classes dominantes, e não o interesse público.

O que explica a presença de uma seletividade penal histórica, ou seja, o sistema de justiça criminal, embora formalmente neutro e igualitário, sempre operou como um instrumento de controle social direcionado a grupos específicos. Haja vista que, desde o período colonial, o poder punitivo do Estado tem se concentrado na criminalização da pobreza, da população negra e de corpos periféricos, perpetuando desigualdades estruturais. Daí os crimes de colarinho branco, corrupção e sonegação fiscal, por exemplo, sempre terem encontrado maior lentidão e leniência no seu trato.

Razão pela qual essa assimetria histórica se reflete, até os dias atuais, em uma percepção pública de que a lei não se aplica de forma igualitária, minando a confiança da sociedade nas instituições. Algo que se acentua e recrudesce, quando essa dinâmica transforma o tribunal em uma arena onde o jogo de forças e influências prevalece sobre a igualdade democrática. Ao contrário de pacificar os conflitos, muitos deles de natureza histórica, o sistema é visto por grande parte da sociedade como um instrumento de manutenção do status quo, o que esvazia sua legitimidade institucional.

E é justamente nesse ponto que o mundo real e o virtual se convergem para permitir uma insurgência social diante daquilo que parece incomodar. Ao falhar na pacificação de conflitos e agir como defensor do status quo na manutenção dos privilégios das elites, o Poder Judiciário perde sua credibilidade perante a sociedade. Insuflados por interesses diversos e, tantas vezes, alheios aos próprios cidadãos, cria-se uma pseudopermissão para que as notícias, os boatos, as distorções, as tendenciosidades, se tornem fagulhas explosivas e beligerantes para que as pessoas realizem uma catarse desprovida de consciência plena.

Chega-se, então, à dinâmica da justiça pelas próprias mãos na era digital contemporânea.  A velocidade da internet substituiu o devido processo legal por um julgamento sumário e emocional, onde o linchamento público, a destruição de reputações, Fake News, servem como um processo catártico, quase sempre baseado em desinformação alimentada pela pós-verdade.

Assim, a proteção digital foca na vingança imediata, ignorando o direito de defesa. O que desejam as plataformas digitais é lucrar com a indignação popular, impulsionando conteúdos violentos e polarizados. De modo que pelo efeito manada, o linchamento virtual gera um sentimento de pertencimento a um grupo que se considera moralmente superior. O que pode gerar danos irreversíveis às pessoas, às instituições e à própria Democracia.

Daí a necessidade de reflexão. A depredação ao Supremo Tribunal Federal (STF), no 08 de janeiro de 2023, foi só a ponta do iceberg. Um prédio destruído, violado, desrespeitado, é só um prédio. Pode ser reconstruído, restaurado, recuperado. Contudo, olhar para suas estruturas em ruínas deve nos levar a pensar sobre aquilo que não se vê, ou seja, a institucionalidade que reside naquele espaço, como uma alma que habita um corpo.

Mas, o que seria a alma do Judiciário? Bem, pode-se dizer que ela é feita dos princípios democráticos, das garantias fundamentais e dos valores invisíveis que sustentam o Estado de Direito. Portanto, é ela quem garante que a Constituição e as leis guiem o país, acima de qualquer vontade individual ou de qualquer governante. É ela quem oferece canais civilizados e técnicos para resolver conflitos, substituindo a força física e a vingança privada pelo debate jurídico. Enfim, é nessa alma que se credita a garantia da estabilidade democrática e dos direitos.

Acontece que, quando um palácio de Justiça é depredado, o verdadeiro ataque não visa o mármore ou as vidraças, mas sim o simbolismo dessas barreiras invisíveis que impedem a barbárie e o autoritarismo.

Infelizmente, a alma do Judiciário, dado o seu próprio curso histórico, acabou vítima dos retrocessos democráticos. A erosão da Democracia contemporânea, portanto, só fez aflorar as fraturas e as trincas que já existiam no judiciário brasileiro e na sua relação com os demais poderes e com a sociedade.

Desse modo, ela agiu como uma lente de aumento. O que antes era visto como disfunções burocráticas ou tensões naturais da República revelou-se, sob pressão, como rachaduras profundas que ameaçam a estabilidade institucional do Brasil. Assim, a perda da ilusão de neutralidade, o déficit de representatividade e a polarização do sentimento público, estão levando o Judiciário a uma destruição da legitimidade social que esse poder precisa para pacificar conflitos e preservar o espírito da Democracia.   

terça-feira, 1 de setembro de 2026

A matemática da conveniência


A matemática da conveniência

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Para quem não acredita, a matemática interfere sim nas escolhas cotidianas e pode, em muitos casos, não apenas estabelecer falsas equivalências, como produzir argumentos enviesados e disformes, os quais não refletem a veracidade dos fatos.

E por que falar a esse respeito? Bem, como é comum em todo ano eleitoral, certos economistas, formuladores de políticas e setores da sociedade civil destilam a sua paranoia quanto ao controle rígido da dívida pública e da austeridade fiscal, como único caminho possível para a estabilidade econômica que levaria o país ao crescimento sustentável no longo prazo.

Assim, quase sempre, há uma culpabilização do governo vigente; sobretudo, aqueles de viés mais progressista, sobre essa questão. Impingindo a ele a pecha de gastador, perdulário, esbanjador, imprevidente.

O que essas pessoas se esquecem é de que, historicamente, nenhum governo brasileiro conseguiu zerar a dívida porque o país convive com déficits fiscais clássicos e uma das taxas de juros reais mais altas do mundo, gerando um efeito de bola de neve. Há anos o setor público brasileiro gasta mais do que arrecada com impostos antes de pagar os juros dessa dívida.

Desse modo, como o governo gasta mais do que arrecada, ele emite títulos públicos para pegar dinheiro emprestado no mercado. E para atrair compradores, o Banco Central mantém uma taxa de juros elevada, cujo custo desses juros consome quase 9% de tudo o que o Brasil produz.

Então, para estabilizar esse indicador sem sufocar o crescimento, o país precisaria obrigatoriamente de reformas estruturais profundas, controle de gastos obrigatórios e um ambiente que permitisse a queda estrutural dos juros. O que depende diretamente de uma disposição de trabalho entre o Executivo e o Legislativo, deixando de lado eventuais vaidades e as costumeiras diferenças político-ideológicas.

Assim, antes de emitir qualquer opinião sobre a dívida atual brasileira, é importante resgatar na memória alguns pontos importantes. O ano de 2022 encerrou com a Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG) em 73,5% do PIB (Produto Interno Bruto), além de deixar cerca de R$255,2 bilhões em despesas contratadas e não pagas, os chamados restos a pagar, para o ano seguinte.

Por isso, houve a necessidade de que fosse aprovada pelo Congresso Nacional a PEC da Transição, ou seja, a Emenda Constitucional 126, no fim de 2022, para garantir o funcionamento da máquina pública e a continuidade de programas sociais em 2023.

A PEC permitiu que R$ 145 bilhões ficassem fora do teto de gastos, garantindo recursos para bancar a continuidade de programas sociais e recompor orçamentos zerados de ministérios, tais como saúde e educação. A medida também autorizou até R$ 23 bilhões em investimentos fora do teto caso houvesse excesso de arrecadação.

Nesse sentido, foi aprovada a Lei Complementar 200/2023, conhecida como Novo Arcabouço Fiscal, em substituição ao antigo Teto de Gastos para controlar as contas públicas do governo federal.

Ela prevê que os gastos do governo podem subir até 70% do aumento real da arrecadação do ano anterior. Há uma faixa fixa de crescimento para as despesas, na qual o piso é de 0,6% e o teto é de 2,5% de alta real, acima da inflação, ao ano. Caso o governo não atinja a meta fiscal do ano, o limite de alta dos gastos cai de 70% para 50% do crescimento da receita no ano seguinte.

Essa regra define metas para o resultado primário, ou seja, a diferença entre receitas e despesas, sem contar os juros da dívida. No entanto, cabe ao governo buscar zerar o déficit, 0% do PIB, e avançar para resultados positivos nos anos seguintes. Lembrando que existe uma margem de tolerância que trata do limite de variação aceita para mais ou para menos em relação à meta traçada.

Além disso, certos investimentos estão garantidos; pois, o texto estabelece um valor mínimo para o governo aplicar em obras e investimentos públicos. E certas despesas importantes como o Fundeb, para a educação básica, e o Fundo Constitucional do Distrito Federal (FCDF) ficam de fora do limite geral de gastos.

Portanto, ao contrário do que muitos imaginam, o governo em curso não está agindo como um doidivanas imprudente e inconsequente. A dinâmica da dívida pública brasileira em 2026 prova que o endividamento é um reflexo estrutural acumulado, moldado por decisões fiscais pretéritas, pressões monetárias globais e uma crescente vulnerabilidade climática.

O perfil da dívida recente foi severamente impactado pela quitação e regularização de passivos judiciais acumulados, tais como a PEC dos Precatórios, mostrando uma atitude acertada para quitação dessas dívidas.

A economia global também afeta diretamente o custo fiscal do Brasil, a partir da manutenção de juros altos nas economias desenvolvidas e a valorização do dólar encarecendo insumos e pressionando a inflação doméstica.

Do ponto de vista ambiental, as mudanças climáticas deixaram de ser uma pauta puramente ecológica para se tornarem um fator de risco fiscal crítico.

Quebras de produção no agronegócio impactam o PIB setorial; pois, menos toneladas colhidas diminuem o valor real gerado pelo setor. Assim, a quebra reduz a demanda por transporte, armazenamento, insumos e máquinas impactando a cadeia produtiva.

Por fim, a menor disponibilidade de produtos eleva os preços internos e gera inflação de alimentos; bem como, o menor volume exportável reduz a entrada de dólares e afeta o saldo comercial do país.

Sem contar que os períodos severos de seca prejudicam o nível dos reservatórios hidrelétricos, obrigando o acionamento de usinas térmicas mais caras, gerando inflação de custos, exigindo políticas monetárias mais rígidas com juros altos que retroalimentam o custo da dívida. Bem como, os eventos extremos exigem gastos federais imediatos e fora do orçamento previsto para socorro a estados e municípios.

Mas, não bastasse tudo isso, há o impacto das emendas parlamentares sobre a dívida pública brasileira. Embora ocorra de forma indireta, ele é profundo, competindo como um dos principais fatores de dificuldade orçamentária, pressão sobre o déficit fiscal e aumento do custo de rolagem da própria dívida.

Nos últimos 11 anos, o volume de emendas saltou de R$ 11,3 bilhões, em 2014, para R$ 47,1 bilhões, em 2025/2026, representando um crescimento real de 315%.

O que significa que as emendas parlamentares impactaram diretamente a dívida pública brasileira ao elevar os gastos discricionários e tensionar as metas fiscais, ao mesmo tempo em que demonstraram a fragilidade social devido ao clientelismo e à falta de planejamento técnico que não prioriza as demandas reais da população.

Acontece que o Legislativo tem assumido, cada vez mais, um papel dominante na alocação de fatias bilionárias do orçamento nacional; porém, municípios distantes ou sem representantes fortes no Congresso ficam completamente desamparados, ampliando as assimetrias da desigualdade no que diz respeito ao acesso a serviços básicos.

Tendo em vista de que essas emendas são voláteis e mudam conforme o ano eleitoral, as prefeituras acabam assumindo despesas permanentes sem garantias de receitas futuras, agravando as crises fiscais nos municípios.

De modo que uma obra local criada para gerar ganho político imediato, caso o parlamentar que a destinou não seja reeleito, o projeto perde financiamento, gerando desperdício e esqueletos de concreto país afora.

Contudo, apesar de todos os pesares, analisando o recorte temporal entre 2023 e 2026 (até o momento), a economia brasileira apresentou crescimento contínuo do PIB, controle gradual da inflação; embora, as taxas de juros permaneçam em patamares ainda elevados.

O PIB em 2023, cresceu 2,9%, superando as previsões iniciais do mercado, e a inflação (IPCA) fechou o ano em 4,62%. Em 2024, o PIB avançou 3,4%, impulsionado pelos setores de serviços e indústria, e a inflação registrou alta acumulada em torno de 4,83%. Em 2025, o PIB cresceu 2,3%, totalizando cerca de R$ 12,7 trilhões. A inflação fechou o ano acumulada em 4,26%, índice que ficou abaixo do teto da meta de inflação estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), que era de 4,50% com centro em 3,00%.

Em 2026, a projeção geral para o fechamento do PIB de 2026 fica em torno de 1,9%; sobretudo, pelo aperto nos juros que cumpre o papel de desaquecer uma economia que vinha operando perto do limite, gerando um efeito colateral de crescimento mais suave, e o crescimento global moderado, marcado por incertezas geopolíticas e inflação persistente no exterior, que afetam o ritmo das exportações brasileiras em comparação aos anos anteriores. Quanto à inflação em 2026, projeção do mercado financeiro é de 5,01%.

E dentro desse panorama é possível destacar que entre 2023 e 2026, a economia brasileira registrou resultados positivos importantes, tais como a queda histórica do desemprego, o avanço em indicadores de redução da pobreza e segurança alimentar, o crescimento contínuo do Produto Interno Bruto (PIB) e o avanço no ranking global, o Brasil é a 10ª maior economia do mundo em 2026, refletindo o tamanho e a relevância da produção nacional de bens e serviços.

De modo que o país superou o Canadá no ranking global de Produto Interno Bruto (PIB) medido em dólares correntes. E se consideramos a projeção do Fundo Monetário Internacional (FMI) quanto ao PIB brasileiro, esse deve alcançar a marca estimada de US$ 2,63 trilhões até o fim do ano, impulsionado pela resiliência da atividade doméstica e pela trajetória favorável do câmbio.

Por isso, questionar um argumento apoiado em números exige cautela, atenção e disposição de cada cidadão. Infelizmente, essa matemática da conveniência transforma a estatística, que deveria ser uma ferramenta de diagnóstico e verdade, em um espelho que apenas reflete e justifica os preconceitos ou interesses de quem a manipula.

Não se esqueça de que a estatística realizada e aplicada sem ética serve apenas como uma máscara técnica para narrativas de conveniência. Muitas vezes, os números são tratados como verdades absolutas e neutras, mas a escolha de quais dados considerar, quais devem ser mostrados, como cruzá-los e quando divulgá-los é um exercício profundamente humano e ideológico.


segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Mediocrizados pela indiferença


Mediocrizados pela indiferença

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

"Se antes de cada ato nosso, nos puséssemos a prever todas as consequências dele, a pensar nelas a sério, primeiro as imediatas, depois as prováveis, depois as possíveis, depois as imagináveis, não chegaríamos sequer a mover-nos de onde o primeiro pensamento nos teria feito parar" (José Saramago 1).

Nada melhor do que essas palavras para iniciar uma reflexão tão importante. A última semana no Brasil revelou algo extremamente significante: há uma crise social de indiferença. O velho “tanto fez como tanto faz” se mostra nos mínimos detalhes, por diferentes indivíduos; embora, não pareça despertar suficientemente a atenção e a preocupação das pessoas.

Quando alguém se predispõe a ser ou a estar em determinado lugar social é preciso estar munido de uma consciência, que passa diretamente pelo senso de capacidade e de conhecimento para tal.

Apesar de a condição humana impor uma construção diária, a qual jamais será satisfeita plenamente, é nessa experienciação, tanto intelectual quanto prática, que o indivíduo acumula o seu lastro, a sua base existencial.

No entanto, como esses são tempos frenéticos, instáveis, fluidos, há quem pense que essas questões estão fora de moda, obsoletas ou que são totalmente dispensáveis. Só que não. A indiferença na contemporaneidade tem trazido uma avalanche de situações estarrecedoras que não se pode lançar sob o tapete.

São muitos os exemplos. Pessoas têm morrido de maneira inesperada por negligência e despreparo de profissionais de saúde tomados pela indiferença, que os desumaniza nos níveis mais inimaginados.

Pessoas correm atrás dos seus “15 minutos de fama” nas mídias sociais e nos veículos de informação e se colocam a falar sobre assuntos os quais não dispõem de quaisquer mínimas fundamentações. Falam. Despejam seus achismos e casuísmos, para tentar “lacrar” e conseguir milhões de “likes” monetizantes.

Pessoas fazem uso de bebidas alcoólicas e outras substâncias entorpecentes e saem dirigindo na contramão de seus direitos e deveres, segundo as normas de trânsito. A sua indiferença transforma seus carros em instrumentos de violência urbana, de desestruturação social.

Pessoas desprezam o papel da educação, dissociando o conhecimento da construção do desenvolvimento e do progresso da humanidade. Fazendo da sua indiferença um pilar de sustentação para o negacionismo técnico-científico. Aliás, essa é uma indiferença que beira as raias da cegueira, na medida em que ela confronta diretamente à realidade cotidiana quanto aquilo que compõe o dia a dia contemporâneo, do mais simples ao mais complexo.  

Acontece que muito dessa “groselha verborrágica”, que se ouve e se vê continuamente através dos veículos de mídia, compromete a segurança e o bem-estar das pessoas. Afinal, na vida tudo tem consequência! E esse, certamente, é o ponto de reflexão mais importante sobre a crise de indiferença social.

Por quê? Porque esse esquecimento em relação às consequências nos coloca no centro da discussão. Não, não se trata apenas da indiferença alheia, do outro; mas, da indiferença nossa de cada dia.

Essa crise contemporânea expôs a indisposição dos indivíduos em desejarem mostrar ao mundo o seu melhor em termos de talentos, habilidades e competências. O mundo, agora, foi mediocrizado pela indiferença.

Acontece que ela cria um ambiente onde o suficiente ou o médio torna-se uma norma aceitável, tolerável. Esse cenário gera, então, um ciclo vicioso, no qual a sociedade se torna indiferente, os indivíduos escondem seu melhor e o mundo se torna cultural e intelectualmente mais pobre.

Assim, cada um dos milhões de seres humanos que andam por aí, quando se permite exercer a indiferença critica, reflexiva e prática, no cotidiano, fortalece a reafirmação dessa crise. De modo que tamanha indiferença abaixa o sarrafo da exigência e homogeneíza o descompromisso social sob os mais diversos vieses e aspectos.

Ao se dispor à indiferença no mundo, o indivíduo não deixa dúvidas quanto ao seu posicionamento a respeito dos problemas, dos acontecimentos, de tudo aquilo que corta e atravessa o cotidiano. Simplesmente, desnuda de maneira incontestável os seus valores, crenças e princípios.  Basta olhar para esse comportamento, então, para entender que essa apatia voluntária do indivíduo funciona como um anestésico social, criando a ilusão de que o problema não é urgente, não é importante.  

De modo que tal normalização, decorrente do silêncio que materializa a indiferença, faz com que os problemas graves; sobretudo, aqueles que se arrastam historicamente, pareçam triviais ou insolúveis. Aí está a pergunta que não quer calar: Se é assim, por que milhões de seres humanos desejam um salvador da pátria?

A verdade é que essa figura idealizada historicamente por muitos, não passa de mais um artifício da indiferença. Esse pseudossalvador que promete respostas e soluções rápidas, mágicas e centralizadas para situações extremamente complexas e difíceis, traduz não só a desconexão com a realidade e suas demandas, como o seu próprio apreço pela indiferença. Esse ser não se interessa por absolutamente nada. Ele é indiferente a si, aos seus núcleos sociais, ao mundo, enfim.

Por isso, a raça humana tem registrado o retrato do cachorro que corre atrás do próprio rabo. Ninguém sai do lugar, ficando preso em um ciclo repetitivo. Esse retrato é o espelho de uma humanidade que corre rápido, mas não sabe para onde vai. Nessa velocidade individualista, a indiferença social torna-se o subproduto de um mundo que esqueceu como olhar para o lado, para além do seu próprio umbigo.

De modo que a realidade contemporânea reflete a indiferença pelo ativismo de sofá, sintetizando o engajamento político ou social a partir da internet, de forma confortável e com esforço minimamente prático. Como se houvesse um alívio na consciência na medida em que é gerada uma sensação imediata de dever cumprido e pertencimento social; apesar de desencadear um baixo impacto real, ou seja, raramente se traduz em mudanças estruturais ou políticas públicas efetivas.

Portanto, não se deve esquecer as palavras de George Bernard Shaw, dramaturgo, crítico, polemista e ativista político irlandês, “O maior pecado para com os nossos semelhantes, não é odiá-los mas sim tratá-los com indiferença; é a essência da desumanidade”.

Afinal de contas, enquanto o ódio ainda confirma a existência do outro, mesmo que de forma bruta, violenta, a indiferença o apaga do tecido social. A indiferença é o sintoma de uma sociedade fraturada, onde a empatia foi conquistada pela funcionalidade e o individualismo extremo cegou a consciência coletiva.



1 SARAMAGO, José. Ensaio sobre a cegueira. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Escolha consciente, deliberação política e ética


Escolha consciente, deliberação política e ética

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Em 2019, eu escrevi o texto “Fomos à Lua, e daí?” 1, trazendo uma reflexão sobre o fato de que nem tudo o que nos encanta, nos absorve a atenção, nos inebria os sentidos, de fato, tem um impacto positivo e relevante sobre a transformação existencial humana.

Acontece que passados 7 anos, me parece ainda mais intenso o processo de controle e manipulação social promovido pela pós-verdade, no qual o cenário social em que os fatos objetivos e as provas reais passa a ter menos peso na formação da opinião pública do que os apelos à emoção e às crenças pessoais.

Um bom exemplo disso foram as discussões acaloradas que se estabeleceram em relação à Lei Rouanet oficialmente Lei Federal de Incentivo à Cultura nº 8.313/1991. Trata-se do principal mecanismo do governo brasileiro para estimular investimentos privados no setor cultural.

Com o projeto aprovado, o proponente busca empresas ou pessoas físicas para patrociná-lo, de modo que o patrocinador investe seu próprio dinheiro no projeto e depois desconta parte ou o todo desse valor do seu Imposto de Renda (IR) devido.

Portanto, os projetos submetidos à Lei Rouanet passam obrigatoriamente por uma rigorosa análise técnica, orçamentária e de conformidade legal realizada por analistas do Ministério da Cultura antes de receberem autorização para captar recursos.

Eis que, de repente, simultaneamente a todo esse burburinho escandaloso, emendas parlamentares, ou seja, recursos do orçamento público que deputados e senadores podem direcionar para obras, serviços e projetos em municípios e estados, passaram a ser empregadas para financiar shows de determinados artistas país afora.

O que significa um visível desvirtuamento orçamentário; visto que, deveria financiar obras, compras de equipamentos e projetos em áreas como saúde, educação e infraestrutura, atendendo às demandas de suas bases eleitorais.

Quem nunca ouviu falar da expressão "pão e circo", cunhada pelo poeta romano Juvenal?! Na Roma antiga, a fim de controlar a insatisfação popular e evitar rebeliões, os governantes davam trigo de graça e espetáculos grandiosos, como lutas no Coliseu.

Acontece que esse conceito permanece expressando exatamente a desassistência política, pois utiliza o entretenimento e/ou a distribuição de alimentos básicos para desviar a atenção do povo dos problemas sociais reais.

Nesse contexto, então, o pão e circo é, na figura do mau uso das emendas parlamentares, uma construção político-ideológica de alienação popular que não rompe com as correntes e amarras das desigualdades históricas que afligem determinadas sociedades. O fornecimento de alimentos básicos ou de entretenimento “gratuito” de massa, não soluciona os problemas que afetam o cotidiano de milhares de pessoas.

O que chama atenção, ou pelo menos deveria, é o fato de que muitos desses artistas não se constrangem em se tornar instrumentos dentro desse conceito do “pão e circo", recebendo de bom grado os cachês milionários pagos com recursos públicos.

Vale lembrar que, alguns deles, inclusive, adotam um discurso público de forte engajamento social, cobrando investimentos em saúde, educação e segurança, enquanto padecem de uma clara percepção de incoerência ética. Em muitos casos, o valor de um único show de poucas horas consome uma fatia enorme do orçamento anual de um município carente de saneamento básico, escolas, creches, enfim.

Além disso, quando se permitem financiar majoritariamente por meio de verbas públicas municipais e estaduais, o que significa sem depender de bilheteria ou incorrer no risco de mercado, esses artistas perdem a sua autonomia de pensamento e de ação. Contrariando a ideia de que historicamente o (a) artista deve manifestar a sua consciência crítica em relação aos (des)caminhos do poder, ele (a) passa a ser financiado diretamente por ele.

E não bastasse esse festival de absurdos, dentro da construção de um cenário desvirtuado e desalinhado da realidade factual, circula um discurso non sense de que a dívida do governo é a grande responsável pelo endividamento do cidadão. Será mesmo?!

O recorde histórico de endividamento das famílias brasileiras em 2026, segundo a Confederação Nacional do Comércio (CNC) é impulsionado principalmente pelo uso massivo do cartão de crédito, pelas elevadas taxas de juros, pela alta do custo de vida e pelo avanço das apostas online.

Em relação ao uso do cartão de crédito, há tempos que ele segue isolado como o grande vilão, devido ao peso do crédito rotativo e aos juros anuais extremos.

Bem, o Brasil costuma subir sua taxa básica de juros, a Selic, quando os juros sobem nos Estados Unidos, quando há guerras que encarecem o petróleo e os alimentos no mundo ou quando os investidores tiram dinheiro do país por medo.

Enquanto isso, há quem se abstenha de quaisquer análises sobre a dívida pública estadunidense que ultrapassou a marca histórica de US$ 40 trilhões em agosto de 2026, impulsionada por juros elevados, cortes de impostos recentes e despesas militares.

Afinal, essa elevação impacta diretamente o aumento dos juros no Brasil por meio de um mecanismo global de transmissão cambial, prêmio de risco e fuga de capitais. Por isso, para frear essa inflação importada e tentar manter o país atraindo minimamente o investidor estrangeiro, o Comitê de Política Monetária (Copom) é obrigado a manter ou elevar a taxa Selic.

Algo que tende a criar uma pressão sobre as despesas básicas do cidadão, como alimentação e moradia, obrigando muitas famílias a usar limites bancários, com altas taxas de juros, para suprir o consumo diário.

Contudo, agora, se vive sob o domínio e a tirania de um novo vilão perigosíssimo:  as apostas online. A negociação dos jogos virtuais passou a comprometer uma parcela sensível do orçamento doméstico de milhões de brasileiros.

O impacto mais severo acontece entre classes de menor renda, onde boa parte dos apostadores gasta proporções expressivas de ganhos modestos, como um a dois salários-mínimos, em jogos.

Desse modo, o vício (Ludopatia) e o gasto descontrolado com as apostas online agravaram profundamente a vulnerabilidade financeira do orçamento doméstico.

Como se pode ver, então, a busca incessante por novidades tecnológicas e materiais não garante, por si só, um avanço ético ou social para a humanidade. A construção de um mundo justo e solidário depende de escolhas humanas, políticas e sociais, e não do lançamento do próximo produto de mercado.

Por isso, celulares mais rápidos ou inteligências artificiais avançadas, por exemplo, não resolvem automaticamente a fome, o preconceito ou a solidão. O progresso técnico é diferente do progresso ético. Um mundo cheio de novidades pode ser visualmente interessante, mas esteticamente vazio e moralmente feio se ignorar a dignidade humana. Razão pela qual eu preciso insistir com a pergunta: Fomos à Lua, e daí?

domingo, 23 de agosto de 2026

SEGURANÇA. CRIMINALIDADE. VIOLÊNCIA. CIDADANIA. JUSTIÇA. ...


SEGURANÇA. CRIMINALIDADE. VIOLÊNCIA. CIDADANIA. JUSTIÇA. ...

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Não surpreende que um dos assuntos mais presentes nas rodas de conversa contemporâneas seja a segurança pública. Afinal de contas, a raça humana vive sob a ameaça de inúmeras manifestações de violência e de criminalidade, as quais perturbam e desestabilizam a convivência e a coexistência social. Mas, qual é a sua percepção e entendimento sobre segurança, hein?!

Na antiguidade, a primeira ideia de segurança coletiva foi física e territorial. As cidades construíram muralhas para se protegerem de ameaças externas, e não de ameaças internas.

Depois, surgiu a Justiça Retributiva, um modelo de resposta a crimes que foca na indenização proporcional ao infrator como forma de retribuir o mal causado e restaurar a ordem social. Assim, durante milênios, as leis focavam em punições físicas, financeiras ou no banimento. A expressão "olho por olho, dente por dente", que resume a Lei do Talião, registrada no Código de Hamurabi (Babilônia, c. 1750 aC), permitia as execuções públicas ou trabalhos forçados.

Até que na Antiguidade e na Idade Média, os calabouços e masmorras passaram a existir, mas não eram a pena em si. Eles serviram apenas para guardar o acusado até o momento de seu julgamento ou de sua execução.

De modo que a prisão como instituição de correção e cumprimento de pena só se consolidou entre os séculos XVIII e XIX. Com o Iluminismo, os pensadores começaram a criticar a crueldade dos castigos, propondo a privação da liberdade e a reeducação como alternativas. Essa transição deu origem, então, aos primeiros grandes modelos de penitenciárias no século XIX, focadas na vigilância e na rotina severa, transformando a prisão na base do sistema de justiça contemporâneo.

Acontece que essa ideia de vigiar e punir não trouxe segurança. Algo fácil de constatar, por aí! Um mundo cheio de prisões, de penitenciárias, e de violência disseminada por todo canto. Por isso, o ponto de partida dessa reflexão é determinar exatamente qual (is) o (s) parâmetro (s) de segurança se pretende discutir, tendo em vista de que ela não é uma questão homogênea. Não há uma única forma de resolver esse desafio social.

Durante muito tempo, pensou-se que a violência estrutural e econômica, apesar de profundamente destrutivas, em razão da organização desigual da sociedade e da negação sistemática de direitos básicos, poderia ser resolvida pelo encarceramento dos infratores. Não demorou muito para se descobrir o equivoco dessa ideia. Por quê?

A ilusão de que o encarceramento em massa resolveria a violência estrutural ruiu diante da superlotação carcerária, da reprodução das facções criminosas dentro das prisões e da reincidência, provando que o sistema penal pune os efeitos sem eliminar as causas da desigualdade e da negação de direitos.

Além disso, uma grande variedade de delitos em um ambiente carcerário impede uma real recuperação de quem cometeu uma infração. Colocar indivíduos que cometeram crimes de baixo potencial ofensivo, como pequenos furtos, no mesmo ambiente em que criminosos altamente violentos ou organizados, inviabiliza a ressocialização. O sistema prisional acaba funcionando, muitas vezes, como uma escola do crime.

Relacionada diretamente a violência estrutural está a violência institucional e estatal. Ela ocorre quando os órgãos do Estado ou grandes organizações falham na proteção do cidadão ou exercem poder de forma abusiva e discriminatória. Haja vista a negligência de serviços públicos, com a falta de acesso adequado à saúde, à justiça e à segurança básica para as parcelas mais pobres da população. O uso desproporcional da força por agentes de segurança pública também acaba gerando desconfiança nas instituições democráticas.

De modo que ela transforma o que deveria ser direitos garantidos em privilégios acessíveis a um mínimo da população. O ciclo de criminalização da pobreza surge exatamente quando a ausência de políticas públicas sufoca o desenvolvimento socioeconômico, desencadeando um sistema de justiça e de segurança pública que tende a vigiar, punir e encarcerar majoritariamente indivíduos de baixa renda e minorias raciais. Fazendo com que essa população passe a enxergar as forças de segurança como uma ameaça, e não como proteção.

E esse processo de fragilização do pacto social se revela quando as instituições falham continuamente e a coesão social se desfaz, abrindo espaço para realidades de poder paralelo, tais como as milícias e as facções. Até que, de repente, comece a existir uma simbiose institucional, em que grupos criminosos se infiltram na política local para garantir impunidade e lavar dinheiro. Dentro cenário, acontece a divisão das cidades em fronteiras invisíveis controladas pelo crime, estabelecendo uma cidadania restrita, na qual os direitos fundamentais de ir e vir, votar e manifestar-se ficam condicionados ao aval dos criminosos.

Surge, então, a violência coletiva e urbana manifestada pelos grandes grupos organizados e pela desagregação do espaço público nas cidades. Ela estabelece a criminalidade organizada transnacional a partir das facções e redes de tráfico que controlam territórios urbanos e desafiam a soberania do Estado. É ela promove a divisão das cidades em muros e condomínios fechados que aumentam o medo social e a estigmatização de periferias. O medo social gerado pela violência aprofunda, portanto, o preconceito e a exclusão contra as populações que vivem nas bordas periféricas das cidades.

Nesse sentido é que a violência urbana e coletiva, juntamente com a crise na segurança pública, representam um dos maiores desafios estruturais das cidades contemporâneas, alimentados por uma complexa rede de fatores socioeconômicos, institucionais e espaciais. A resolução desse cenário exige uma transição de políticas puramente repressivas para estratégias de prevenção e inteligência integrada.

Daí a necessidade de que essas impliquem na integração de dados entre os sistemas de polícias civis, militares e órgãos federais para mapear o crime organizado, a investigação financeira para asfixiar as fontes de renda das facções criminosas com foco no rastreio de lavagem de dinheiro, e o uso de tecnologia para empregar análise de dados, monitoramento estratégico e geoprocessamento em áreas de risco.

Afinal de contas, a criminalidade organizada transnacional a partir das facções e redes de tráfico controlam os territórios urbanos e desafiam a soberania do Estado de dentro de presídios e penitenciárias. Sim, facções nascidas em unidades prisionais estruturaram redes de solidariedade e disciplina interna que transformaram presídios em centros de decisões logísticas.

De modo que, mesmo detidas, as lideranças mantêm conexões externas por meio de aparelhos tecnológicos ilícitos e corrupção sistêmica, ditando rebeliões, ataques e regras de conduta para o mundo exterior. Sem contar que o controle do espaço carcerário gera um monopólio de proteção e regulação de conflitos que legitima a autoridade do grupo perante novos detentos.

E todas essas violências ganharam uma parceria de peso: a violência digital e cibernética. As redes sociais e os ambientes virtuais exercem novos espaços para a violação de direitos e o controle social, afetando diretamente a integridade da população e a segurança pública. Seja pela perseguição e ataques coordenados na internet que destroem a reputação e o bem-estar psicológico das vítimas, pela exposição pública de informações íntimas ou pessoais para intimidar e ameaçar o indivíduo, ou pela disseminação em massa de conteúdos discriminatórios ou extremistas que estimulam a intolerância e a divisão social.

Esse cenário mostra que a segurança pública exige estratégias múltiplas e regionais, e não apenas uma única solução. De modo que o combate começa por exigir leis rigorosas, apoio psicológico às vítimas e educação digital. Aliás, um aspecto importante e que não pode ser esquecido é de que a violência digital e cibernética funciona como um acelerador e amplificador de preconceitos históricos.

O anonimato relativo, a velocidade de alcance das redes sociais e os algoritmos focados em engajamento criam um ambiente fértil para que os discursos de ódio deixem de ser marginais e passem a estruturar campanhas concentradas na hostilização contra minorias e grupos vulneráveis.

Isso inclui crimes de gênero, tais como a misoginia online, o assédio, a divulgação não consentida de imagens íntimas conhecida como pornografia de vingança, as deepfakes pornográficas e a violência política e de gênero; o racismo e xenofobia por meio de  ataques direcionados a pessoas negras, indígenas ou migrantes/nordestinos, utilizando memes, ofensas generalizadas e desumanização de grupos inteiros; e, a intolerância religiosa, a partir da disseminação de calúnias, profanação de símbolos e incitação à violência contra religiões de matriz africana ou minoritárias.

Além disso, é fundamental acrescentar que os feminicídios têm mostrado uma expansão do controle do agressor para além do espaço físico, escalando a gravidade das ameaças e aprofundando o isolamento social da vítima. Isso acontece porque o feminicídio não é um ato isolado; mas, o ápice de um ciclo contínuo.

As agressões verbais e o controle comportamental migraram para aplicativos de mensagens e redes sociais. Quando a vítima tenta romper o vínculo, o agressor utiliza os meios digitais para intensificar o terror psicológico. A impossibilidade de desconexão mantém a mulher em estado constante de alerta e vulnerabilidade extrema, como o prenúncio da violência física letal.

Assim, pensando nas seguintes palavras do filósofo, sociólogo e escritor francês do século XX, Michel Foucault, “Onde há poder, há resistência”, de fato, sempre que existe uma tentativa de controle ou dominação, surgem forças significativas que contestam, negociam ou subvertem essa autoridade.

Por isso, na segurança pública contemporânea, essa dinâmica deixa de ser apenas teoria e se manifesta como um dilema prático central entre o controle estatal e as respostas da sociedade.

Daí o fato de que essa segurança contemporânea falha quando vê a resistência apenas como um obstáculo criminoso a ser exterminado. A verdadeira estabilidade social não surge do aumento da força, mas sim do equilíbrio democrático entre a autoridade do Estado e os direitos da população.

Hoje, a resolução de conflitos baseada em estratégia e inteligência reflete o conceito de policiamento orientado pelo problema e de segurança pública preventiva. Essa abordagem representa uma evolução crucial na segurança pública, deixando de lado o modelo puramente reativo, que apenas responde ao crime após ele acontecer, para focar nas causas estruturais dos delitos. 

domingo, 16 de agosto de 2026

CIDADANIA. INCLUSÃO. ESPORTE. ...


CIDADANIA. INCLUSÃO. ESPORTE. ...

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Certas falas precisam ser mais bem definidas. Dizem, por aí, que o esporte é inclusão; mas, o que isso realmente quer dizer?! Afinal de contas, incluir significa integrar e acolher todas as pessoas de um coletivo social, seja ele qual for, sem nenhum tipo de preconceito ou discriminação.

E aí, prestando um bocadinho de atenção, aqui e ali, você começa a perceber que no contexto do esporte, o discurso não anda realmente alinhado com a prática. Daí a necessidade de dissecar o tema.

De saída, não é difícil perceber que a desigualdade de renda é o primeiro obstáculo para a consolidação do esporte inclusivo. Infelizmente, nem todos os componentes da pirâmide social contemporânea têm, de fato, acesso às práticas desportivas.

A falta de recursos financeiros não impede apenas a compra de equipamentos, o pagamento de mensalidades de clubes ou o custeio com transporte. Para milhares de pessoas, ela impede o acesso à moradia, à saúde, à educação, ao saneamento básico, ou seja, a tudo o que representa o senso de dignidade humana.

Depois, a carência de uma infraestrutura desportiva, em muitas cidades, para atender ao conceito de inclusão social. Uma questão que reflete a falta de planejamento urbano voltado para a acessibilidade universal desde a concepção dos espaços, o baixo investimento público na construção, reforma e manutenção de praças e centros esportivos nas cidades, e a incompatibilidade de equipamentos tradicionais com as necessidades de atletas paralímpicos ou pessoas com mobilidade reduzida.

Acontece que tudo isso reverbera no isolamento de certos grupos sociais, que não encontram locais seguros ou adaptados para a prática de atividades físicas, no aumento da desigualdade em relação ao acesso à saúde, ao bem-estar e ao desenvolvimento de talentos esportivos, e na perda de interação e conectividade coletiva, pois o esporte funciona como ferramenta de uma socialização contra à instrumentalização do preconceito.

Mas, certamente, um dos aspectos mais graves da ausência de inclusão no esporte, na contemporaneidade, seja em relação ao preconceito de gênero, o racismo e a xenofobia. A historicidade desportiva, infelizmente, é marcada por essas questões. Haja vista que o esporte nasceu elitista, masculino e eurocêntrico, de modo que essas marcas ainda ecoam nos estádios, nas quadras e nas instâncias de poder atuais.

Daí tantos exemplos estampados nas mídias sobre atletas imigrantes ou refugiados que enfrentam vaias, são excluídos ou sofrem questionamentos sobre sua identidade e direito de representar um país, tornando-se os primeiros a serem hostilizados de forma xenófoba quando sua equipe perde.

Ou os casos de insultos racistas vindos das arquibancadas contra atletas negros de elite em ligas mundiais, os quais acabam sustentando a narrativa que atribui o sucesso do atleta negro à genética que lhe fornece força física e o do atleta branco que possui inteligência tática.

Como se vê, debater a diversidade e a inclusão é essencial para garantir igualdade no meio esportivo. Grupos minorizados - mulheres, negros (as), pessoas com deficiência (PCD) e população LGBTQIA+ - vêm sofrendo a falta de acesso a direitos, poder e espaço também no esporte. Algo explicitado pelo preconceito, a invisibilidade midiática, a mudança de critérios para as competições e a desigualdade de investimento financeiro.

O caso mais recente é o da Confederação Brasileira de Voleibol (CBV), ao aderir à política do Comitê Olímpico Internacional (COI) que bane mulheres trans. Segundo a CBV esse novo critério passa a valer a partir da próxima temporada da Superliga e em outras competições nacionais.

Bem, o fato revela como o debate contemporâneo sobre a inclusão de atletas transgêneros, por exemplo, muitas vezes descamba para a marginalização, sem critérios puramente científicos.

Por um lado, entidades esportivas e defensores das novas regras argumentam que o objetivo é proteger a integridade e a igualdade de condições na categoria feminina, apontando vantagens fisiológicas residuais associadas ao desenvolvimento anatômico prévio.

Por outro, ativistas, clubes e atletas afetadas apontam a medida como um retrocesso na inclusão e na garantia do direito ao trabalho de mulheres trans, defendendo que o esporte deve buscar formatos de integração baseados em controle hormonal individualizado em vez de exclusão baseada apenas na genotipagem.

Independentemente de escolher um dos lados, a questão que se impõe é de que a inclusão no esporte não existe. Se existem barreiras, obstáculos, condicionantes, sejam de quais naturezas forem, impedindo que todos os cidadãos sejam incluídos no esporte, essa ideia que sempre prosperou como artifício de marketing precisa ser mudada.

A desconstrução do mito da inclusão esportiva plena é, portanto, urgente e necessária. Ainda que ela represente a admissão pública de todo o retrocesso que sobrevive na carência histórica de planejamento de políticas públicas e reformas institucionais, as quais possibilitem transformar o esporte em um espaço genuinamente mais acessível.

Sem a ruptura com as amarras do racismo, do elitismo, da xenofobia, do capacitismo, da homofobia, o esporte permanecerá exalando uma visão romantizada e totalmente desconectada da realidade do mundo.

Essa ideia de que o esporte é neutro, só faz esconder e omitir os próprios preconceitos, enquanto afasta pessoas dos direitos básicos de inclusão e cidadania. Aliás, não é incomum que se ouça no meio desportivo a velha frase "vencer pelo próprio esforço".

Bem, sem inclusão fica difícil! Por trás dessas palavras esconde-se uma verdade bastante indigesta; visto que, o ponto de partida dos atletas é totalmente desigual devido às opressões sociais.

Portanto, o esporte só será verdadeiramente democrático quando a inclusão e a segurança de minorias estiver acima das prioridades institucionais, e não apenas em rasos discursos de marketing. 

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

LACRAÇÃO, LIKE e LUCRO. O caminho para a ruína da sociedade contemporânea.


LACRAÇÃO, LIKE e LUCRO. O caminho para a ruína da sociedade contemporânea.

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

O pó de pirlimpimpim contemporâneo parece ser LACRAÇÃO, LIKE e LUCRO. Só que não. Basta um mínimo de atenção aos veículos de informação para perceber que, além desse tripé ser totalmente incapaz de resolver os problemas do mundo, incluindo os seus, ele tem um potencial devastador de intensificá-los.

Infelizmente, a vida não é feita de soluções rápidas e superficiais. Atalhos nunca levam ninguém ao que se espera. Por isso, o cenário da monetização digital, que significa transformar conteúdo, tráfego, audiência ou presença na internet em receita financeira, não vai promover uma alteração substancial na realidade contemporânea.

Enquanto chuvas torrenciais assolam o território japonês, incêndios florestais arrasam com a Europa e os EUA, sem que nada de efetivo possa ser feito para mudar o cenário. Recentemente houve um terremoto na Venezuela, agora, outro aconteceu na Colômbia. Cientistas já afirmam que o super El Niño trará fome e escassez para grande parte do planeta nos próximos meses. Portanto, a dinâmica geoambiental do planeta se mostra alterada, colocando as incertezas no topo da lista. 

Gostemos ou não, tudo isso aponta para um processo de intensa desconstrução e reconstrução, sem fim. Por quê? Porque a contemporaneidade se esqueceu de que o ser humano é sempre o centro das ações e das preocupações.

Portanto, na medida em que a mercantilização e a monetização social assumiram o controle do cotidiano houve um inevitável apagamento e invisibilização dos indivíduos. Suas necessidades, carências, desafios, foram deixados de lado, à mercê da própria sorte.

Contudo, o ato de transformar direitos, relações ou bens sociais em produtos com preço de mercado ou de gerar ganho financeiro a partir de uma audiência, de uma rede de contatos ou do engajamento digital, não faz evaporar dos veículos de comunicação e de informação as estatísticas e os problemas socioeconômicos e ambientais que recortam a realidade contemporânea.  

O tripé dos três L citados acima é, portanto, somente uma cortina de fumaça para tentar esconder a ausência total de uma solução, de um plano para resolver as crises que afetam milhões de seres humanos todos os dias.  Sabe a velha história do cachorro correndo atrás do próprio rabo? É exatamente isso.

Apesar de triste e constrangedor é preciso admitir, as responsabilidades socioeconômicas e ambientais, sejam elas simples ou complexas, quase sempre, estão a cargo de pessoas despreparadas, carentes de competência, desprovidas de ética, que foram alocadas em posição de poder e se apropriaram dele, apesar de totalmente inaptas.

Aí, enquanto bilhões de pessoas se entretém nessa corrida frenética por LACRAÇÃO, LIKE e LUCRO, tentando desesperadamente capitalizar alguns vinténs e/ou ocupar um último lugar na fila do pertencimento social, o mundo continua girando, girando, girando ... Sem que as urgências e as emergências socioeconômicas e ambientais sejam resolvidas.

Sem que a pirâmide social deixe de exaltar uma base imensa e uma ínfima ponta, não deixando dúvidas de que as desigualdades permanecem cada vez mais inabaláveis. ...    

Além disso, não se pode esquecer que o tripé dos três L tem também promovido o apogeu do ódio, para amplificar ainda mais os rendimentos. Não entendeu? Esse ciclo gera engajamento extremo, aumenta a visualização de conteúdos polêmicos e converte reações raivosas e violentas em ganhos financeiros diretos para plataformas e criadores.

Por isso, com ou sem uma consciência formada a respeito, a sociedade contemporânea marcha rumo à banalização do mal, como já aconteceu em outros momentos da sua historicidade.

Considerando, então, que o mal não nasce necessariamente de um ódio profundo ou perversidade demoníaca, mas da incapacidade de pensar criticamente, esse é o grande perigo, porque qualquer indivíduo que abdique de sua consciência e julgamento moral pode perpetuar injustiças de forma mecânica e contínua.

Na verdade, pode estar contribuindo, nesse exato momento, para que as cortinas de fumaça facilitem a falência e o colapso da vida na Terra, dada a ausência de soluções para o recrudescimento dos problemas que já vigoram há séculos.

Lembremo-nos, então, das seguintes palavras do Chefe Seatle, líder dos povos Duwamish e Suquamish nos EUA, “O homem não tece a teia da vida; é antes um de seus fios. O que quer que faça a essa teia, faz a si próprio”.

Assim, a ação de um indivíduo reverbera no todo e retorna a ele próprio. Cada ato afeta o tecido social na sua totalidade, de modo que a ética deixa de ser apenas um dever entre humanos e passa a incluir o ambiente e o futuro do planeta.

4º Simpósio sobre Feminicídios - UFU/Uberlândia



sábado, 8 de agosto de 2026

A realidade contemporânea da coabitação multigeracional


A realidade contemporânea da coabitação multigeracional

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Apesar da raça humana ter iniciado a sua jornada sobre a Terra, vivendo coletivamente dentro de um mesmo espaço, sob um mesmo teto, a própria dinâmica social se impôs para promover um processo de desagregação dos grupos, para que os indivíduos pudessem desfrutar da sua autonomia e independência.

Então, no contexto do século XXI, quando muitos expressam o seu espanto ou indignação diante de gerações que estão compartilhando o seu cotidiano dentro de uma mesma casa, é preciso parar e refletir sobre as conjunturas que levaram a esse cenário social contemporâneo.

Queiramos ou não admitir, o desenvolvimento científico e tecnológico decorrente da Revolução Industrial, na segunda metade do século XVIII, teve sim um papel de arauto do progresso humano ao propagandear a sua possibilidade de existir e viver por conta própria. Acontece que na prática a teoria nem sempre se alinha dentro das perspectivas e expectativas.

Esse recorte histórico-temporal que viria mudar, para sempre, o curso da humanidade, gerou um sistema sociocultural e econômico tão engessado e limitante, quanto aquele que existia até a Revolução Francesa. O cenário que prometia a libertação humana pelo domínio da estrutura monárquica acabou criando novas formas de aprisionamento social.

Veja, a Revolução Industrial vendeu a ideia de emancipação total do homem através da máquina e da ciência; mas, na verdade, o ser humano deixou de ser refém das intempéries da natureza para se tornar refém do relógio, da fábrica e do capital. Tanto que a arte, antes dominante sobre todo o processo produtivo, transformou-se em mera extensão da especialização industrial.

O direito de sangue da nobreza feudal foi substituído pelo poder financeiro da burguesia. Nesse sentido, a mobilidade social permaneceu severamente limitada a tal ponto que o trabalhador urbano se viu preso a jornadas de 16 horas e condições miseráveis, sem vias de fuga. Assim, o controle social mudou o soberano, ou seja, do Rei para o Mercado, mas uma estrutura de domínio e de desigualdade extremamente centralizada permaneceu.

E quanto mais o tempo passa mais esse sistema recrudesce, deteriorando de maneira bastante contundente quaisquer vestígios de autonomia e de independência dos indivíduos. Haja vista que, em 2026, a distribuição de renda e riqueza global continua em patamares de concentração extremos, com os 10% mais ricos detendo cerca de 75% da riqueza global e a metade mais pobre ficando com apenas 2%.

Isso significa que o mundo vem se tornando materialmente muito mais rico, porém o abismo absoluto entre os mais ricos e os mais pobres é concretamente maior do que no início da Revolução Industrial, por volta da segunda metade do século XVIII. Apesar de a pobreza extrema global ter decrescido dramaticamente em termos percentuais, a fatia da renda capturada pelo topo da pirâmide se mostra hiperconcentrada e distante de uma realidade ampliada.

Acontece que essa dinâmica do capital é que rege as possibilidades do exercício existencial autônomo e independente. Sem a suficiência de recursos não há eficiência para a construção das bases da dignidade humana. Daí o retrato de gerações familiares sendo obrigadas a viver sob um mesmo teto. Quem já leu sobre o dilema do porco-espinho, criado pelo filósofo alemão Arthur Schopenhauer em 1851, entende bem. Apesar de todos os desafios impostos pela diversidade e pluralidade humana essa coabitação multigeracional forçada é a única forma de sobreviver.

Ela, na verdade, representa uma válvula de escape econômico e uma rede de segurança privada diante dos altos custos de vida, da escassez de recursos e da financeirização da moradia dentro do capitalismo contemporâneo.

Nesse sentido, ela transferiu para o espaço doméstico o suporte que o Estado deixou de cumprir em relação ao bem-estar social liberal, o qual havia teoricamente prometido. O pior é que o sistema capitalista se beneficia dessa estrutura ao abafar o descontentamento social e reduzir a pressão por políticas públicas de habitação e seguridade.

Portanto, embora pareça uma resistência comunitária, trata-se de uma imposição que limita a mobilidade social e a autonomia individual das novas gerações. Fato que desencadeia uma série de consequências nefastas, tais como o estresse psicológico devido à falta de privacidade e choque de valores geracionais, a sobrecarga feminina traduzida pelo acúmulo do trabalho doméstico e de cuidado com as diversas gerações, e a manifestação de uma solidariedade compulsória, na qual o afeto e os laços familiares são instrumentalizados e desgastados pela pressão econômica externa.

Mas, talvez, a raça humana já esteja diante de uma fronteira social ainda pior. Ao redor do planeta existem milhares de famílias que já perderam o próprio teto em razão dessa dinâmica. Essa coabitação multigeracional está sendo forçada a viver nas ruas dos centros urbanos; sobretudo, as grandes e médias cidades.

O aumento do preço dos aluguéis e a escassez de moradia acessível forçam milhares de pessoas a viverem ao ar livre. Por consequência, os espaços urbanos sofrem com a falta de infraestrutura e políticas públicas para acolher essas populações vulneráveis. A perda do teto rompe, então, a rede de apoio familiar e gera graves riscos à saúde e à segurança humana, exigindo ações integradas de assistência social, saúde pública e planejamento urbano.

Segundo o Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos (ONU-Habitat), cerca de 318 milhões de pessoas enfrentam a falta absoluta de moradia no mundo, enquanto quase 3 bilhões sofrem com habitação inadequada, morando em favelas ou assentamentos informais. Esse cenário reflete as crises sistêmicas de desigualdade urbana, exigindo políticas públicas integradas de saneamento, saúde e planejamento territorial.

Afinal, a ausência de políticas integradas agrava múltiplos fatores de risco nos centros urbanos. A começar pelo fato de que a falta de teto isola o indivíduo e desestrutura os laços familiares e comunitários.

O que traz consequências significativas, tais como o agravamento do desequilíbrio em relação à saúde pública, dada a exposição contínua às intempéries, à poluição urbana e à falta de saneamento que dispara os índices de adoecimento físico e mental entre a população.

Fato que culmina na consolidação de ciclos de exclusão; pois, as respostas institucionais baseadas apenas na repressão ou em ações emergenciais de curto prazo falham em estancar o problema estrutural da pobreza e da indignidade humana.

Daí a necessidade de olhar para a vida como ela é. De se permitir a reflexão a respeito da submissão que constrói a alienação humana diante desse sistema socioeconômico estabelecido há pouco mais de 3 séculos, o qual só faz recrudescer as diversas barbáries sociais historicamente conhecidas. Porque a consciência é o primeiro passo para resistir à coisificação humana e se reposicionar como sujeito da própria história, se apropriando da condição de ser autônomo e independente.