quarta-feira, 30 de setembro de 2026

O Sagrado e o Profano


O Sagrado e o Profano

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Infelizmente, temos diante dos sentidos a materialização da crise de ética pela mistura indigesta e despudorada entre o sagrado e o profano.

Assim, a fim de recapitular os termos, sagrado é aquilo que dá sentido, valor absoluto e fundamento à existência. Portanto, o sagrado está em templos e locais de culto, em cidades santas, em elementos da natureza, em livros, em objetos e ícones, em conceitos, pessoas e práticas.

Já o profano designa tudo o que pertence ao cotidiano, à rotina e ao mundo secular, situando-se fora do espaço sagrado ou religioso. Isso inclui as atividades rotineiras, os espaços públicos, o tempo cronológico e de trabalho, a música e a arte secular, a blasfêmia e as piadas religiosas, o vandalismo de símbolos sagrados, o uso inadequado de objetos litúrgicos e a quebra de tabus ou votos.

E se cada um deles, ao menos em tese, ocupa um espaço próprio, isso deveria indicar a existência de uma incompatibilidade em se devotar simultaneamente a ambos.  No entanto, quando saímos da teoria e observamos a história e o comportamento humano, essa incompatibilidade lógica se dissolve em uma complexa coexistência.

Primeiro, porque há uma permeabilidade das fronteiras, na qual eles não são estáticos; mas, delimitados pelo ser humano. Segundo, porque a raça humana está exposta ao sincretismo e a cultura popular.

Nesse sentido, a cultura popular utiliza o sincretismo para borrar as linhas entre o sagrado e o profano, provando que a fé e a festa, o rito e a vida cotidiana, fazem parte de uma mesma identidade cultural.

Haja vista, por exemplo, o Congado e o Moçambique que representam a devoção à Nossa Senhora do Rosário e a São Benedito, a partir da expressão cultural com forte herança de ritmos, tambores e cortejos reais africanos.

Acontece que a manifestação desses aspectos passa pela compartimentalização psíquica, ou seja, o ser humano possui a capacidade psicológica de transitar entre diferentes papéis sociais e sistemas de crenças sem experimentar uma crise de identidade permanente.

Nesse contexto, então, o indivíduo pode devotar-se ao sagrado em momentos de fragilidade, busca de sentido ou ritos comunitários, e guiar-se pela lógica profana no dia a dia, no trabalho e no consumo.

Inclusive, não se pode desconsiderar a existência de uma ambivalência do sagrado. Sim, por ser algo fora do comum, ele atrai o profano na medida em que o homem busca o sagrado justamente porque vive no profano. Desse modo, a simultaneidade não é necessariamente uma contradição, mas uma relação de necessidade mútua.

Contudo, o atual momento contemporâneo nacional expôs publicamente, a partir dos diversos veículos de mídia, notícias que materializam uma grave crise de ética pela mistura entre o sagrado e o profano, a partir de dois fenômenos importantes, a dessecularização e a instrumentalização da fé, os quais de certa forma explicam o retorno e o uso da religião no espaço público contemporâneo.

A dessecularização marca, então, o retorno da influência religiosa na sociedade, na cultura e na política, contrariando previsões históricas de que o mundo deveria ser totalmente ateu ou laico. Assim, ao contrário de desaparecer, as instituições e crenças religiosas ganharam um novo protagonismo na esfera pública e nas decisões políticas.

Quanto à instrumentalização da fé, ela ocorre quando líderes políticos, econômicos ou as próprias lideranças religiosas utilizam as crenças e os símbolos sagrados como uma ferramenta para alcançar objetivos mundanos, como poder, votos, dinheiro ou controle social.

Desse modo, a fé deixa de ser estritamente uma busca espiritual ou moral e passa a ser usada de forma estratégica para manipular as massas, validar os discursos ideológicos e/ou obter vantagens financeiras.

No entanto, esses dois fenômenos, que envolvem diretamente o sagrado e o profano, fazem emergir uma crise ética sem precedentes, porque rompem a fronteira entre as esferas pública e privada, esvaziando tanto a autonomia da moral laica quanto a integridade do próprio sentimento religioso.

Esse cenário possibilita a perda de um referencial moral absoluto; pois, a fé, que originalmente serve como um guia transcendental para a conduta humana, passa a ser moldada para justificar ações profanas como a corrupção, a exclusão social e a busca pelo poder, levando à destruição da autoridade moral da própria religião.

Fato que emerge em razão da relativização do bem e do mal. Ora, o que deveria ser universalmente ético torna-se utilitarista, de modo que o sagrado deixa de ser um fim em si mesmo e vira um meio de manipulação, permitindo que atitudes antiéticas passem a ser validadas e perdoadas sob o pretexto de estarem servindo a um propósito divino.

Diante disso, a fragmentação social e a polarização se consolidam a partir de uma instrumentalização que divide a sociedade entre santos e pecadores, inviabilizando o debate público baseado na razão e no bem comum. Perde-se, portanto, a ética da alteridade, do respeito ao outro, pelo fato de que essa é substituída pela demonização de quem pensa diferente.

Uma realidade que leva ao enfraquecimento das instituições laicas.  A justiça, a política e os direitos humanos deixam de se apoiar em leis universais e consensuais para depender de dogmas interpretados de forma conveniente por determinados grupos.

Por isso, a crise ética ao instrumentalizar a fé, possibilita ao ser humano retirar a transcendência do sagrado e a racionalidade do profano, deixando a sociedade sem nenhum norte moral seguro para guiar suas ações.

Sem a pureza ética da espiritualidade e sem a lucidez da razão crítica, a sociedade fica à mercê do relativismo de conveniência, onde as regras morais mudam conforme o interesse de quem está no poder. Para a democracia e a soberania nacional, os riscos são imensos.

O que significa que o adversário político deixa de ser um concorrente legítimo e passa a ser tratado como um inimigo a ser destruído. As leis e os direitos fundamentais passam a ser relativizados se não atenderem à narrativa do grupo que instrumentaliza a fé.

Por fim, as populações fragilizadas tornam-se alvos fáceis de manipulação, o que enfraquece a soberania popular, já que o voto e a opinião pública deixam de ser escolhas conscientes e passam a ser obrigações de rebanho.

Por essas e outras é preciso manter a fé protegida da manipulação política e a política guiada pela racionalidade laica, como as únicas formas de garantir que tanto a espiritualidade quanto a democracia possam coexistir de forma saudável.

Daí a necessidade de compreender que o Estado laico não é antirreligioso, mas sim neutro. Essa neutralidade garante que cidadãos de todas as crenças e os que não têm nenhuma sejam tratados com igualdade perante a lei, utilizando a razão e os direitos humanos como base comum para o diálogo.

É dessa forma que a laicidade protege a própria liberdade religiosa, assegurando que nenhuma fé majoritária use a máquina pública para suprimir ou discriminar minorias espirituais.

terça-feira, 29 de setembro de 2026

Afinal, o Brasil é ou não é para amadores?


Afinal, o Brasil é ou não é para amadores?

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Para se entender a história é preciso acompanhar a sequência de fatos que a encadeiam. Isso é básico! Todos já deveriam estar cientes disso! Portanto, não há como negar que os últimos anos da historicidade brasileira foram sim marcados por episódios que apontaram para uma escalada de retrocessos significativos. Algo bastante preocupante ou, pelo menos, deveria ser.

Entre 2019 e 2022, brasileiros e brasileiras puderam presenciar em termos ambientais, por exemplo, a mais profunda flexibilização das regras por meio de portarias e decretos.

Ocorreu o "Dia do Fogo" que representou uma ação coordenada de incêndios criminosos, entre os dias 10 e 11 de agosto de 2019, no estado do Pará.

Houve a paralisação do Fundo Amazônia que suspendeu mais de R$ 1 bilhão em doações da Noruega e da Alemanha destinados ao combate ao desmatamento.

Promoveram o esvaziamento do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) e da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (FUNAI), a partir do corte expressivo no orçamento de fiscalização, redução na aplicação de multas ambientais e militarização de cargos diretivos.

Em relação à Educação e à Ciência, houve um contingenciamento de verbas, em 2019, o qual também repercutiu no enfraquecimento das agências de fomento; visto que, as bolsas de pós-graduação e fomento à pesquisa da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) sofreram reduções severas.

Sem contar a instabilidade institucional desencadeada por quatro ministros diferentes em quatro anos, gerando crises de gestão e denúncias que afetaram a continuidade das metas do Plano Nacional de Educação.

No setor cultural, esse período assistiu a um processo de desestruturação institucional e estrangulamento financeiro. Começando pela extinção do Ministério da Cultura (MinC), no início de 2019, o transformando em uma Secretaria Especial, inicialmente vinculada ao Ministério da Cidadania e depois transferida para o Ministério do Turismo.

De modo que as sucessivas trocas de comando, com sete titulares diferentes em quatro anos, geraram descontinuidade administrativa e paralisia de programas estratégicos; mas, também, uma redução drástica de recursos federais diretos, com paralização de seus mecanismos, e ataques diretos e censura ao setor.  

Contudo, a mais terrível das experiências do desmantelamento institucional do país aconteceu na área da Saúde. Diante da Pandemia de Covid-19, uma das maiores e mais complexas crises sanitárias da história mundial recente, a sua condução pelo governo foi marcada pelo atraso na compra de vacinas, na promoção do chamado tratamento precoce com medicamentos sem eficácia comprovada e as frequentes trocas no comando do Ministério da Saúde.

Isso sem falar, no aperto orçamentário estrutural que excluiu os gastos emergenciais e provisórios da pandemia, fazendo com que o orçamento real da saúde pública regular encolhesse ao longo do período.

Mas, não se pode esquecer da reafirmação do negacionismo científico como uma marca central da gestão federal, nesse período, com impactos profundos nas políticas públicas, tais como o discurso antivacinas e a hesitação vacinal, que incluíram as campanhas contrárias ao cartão vacinal e ao uso de máscaras.

O que explica porque razão, entre 2020 e 2022, o Brasil registrou mais de 29 milhões de casos confirmados e cerca de 690 mil mortes oficiais contabilizadas por COVID-19, tornando-se um dos epicentros globais da doença. Porém, vale lembrar que os números reais foram significativamente maiores devido a barreiras estruturais de testagem e diagnóstico durante a pandemia.

Portanto, dentro da perspectiva de direitos humanos e políticas sociais, o Brasil viveu além da pandemia, a situação da extinção de conselhos de participação social, logo no início de 2019, a partir do Decreto nº 9.759 que afetou diretamente dezenas deles, impossibilitando a participação da sociedade civil nas decisões políticas.

Fato que levou ao não financiamento das políticas identitárias, permitindo que as secretarias e os programas do setor operassem com orçamentos mínimos ou sofressem mudanças de escopo que esvaziaram as suas funções originais. Fato que acabou retornando o país ao Mapa da Fome.

Sim. Entre 2019 e 2022, o Brasil retornou e permaneceu no Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas (FAO/ONU), impulsionado pelos impactos econômicos, desmonte de políticas públicas de segurança alimentar e pela pandemia de COVID-19.

Nesse recorte temporal a subalimentação atingiu 4,1% da população brasileira, ou seja, cerca de 8,6 milhões de pessoas em estado de desnutrição. Já se esqueceu dos episódios extremos como a chamada Fila do Osso? Pois é, cidadãos formavam filas em açougues e frigoríficos para receber ou comprar restos de ossos bovinos, carcaças de frango e restos de peixe para tentar aplacar a fome.

Portanto, esse período foi marcado por uma severa crise socioeconômica, caracterizada pelo enfraquecimento de estruturas estatais, o impacto global da pandemia de Covid-19, inflação persistente e um expressivo aumento da vulnerabilidade social brasileira.  

De modo que a gestão posterior, diante desse cenário de “terra arrasada”, teve que implementar uma reconstrução. Fato que impede qualquer um de nutrir idealizações ou projeções miraculosas, tendo em vista de que reconstruir é bem mais complexo e árduo do que dar continuidade ao que já estava em curso.

Inclusive, não se pode esquecer de que nesse processo de reconstrução, o país ainda teve que enfrentar uma tentativa de golpe de Estado. Me refiro aos atos de 8 de janeiro de 2023, expressos por ataques às sedes dos Três Poderes em Brasília/DF e enquadrados como crimes de golpe de Estado, abolição violenta do Estado Democrático de Direito, associação criminosa armada, dano qualificado e deterioração de patrimônio tombado, pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

Diante desse breve exposto, me causa espanto e estranheza que amostras populacionais ainda se permitam expressar, com certa aspereza, algum descontentamento ao governo em curso. É como se negassem ou desconsiderassem o cenário demasiadamente desafiador que foi enfrentado.  

Apesar de todos os pesares, muito foi feito nessa empreitada de reconstrução. Houve a aprovação da reforma tributária, o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) e do emprego, a retomada e ampliação de obras, o combate à fome, o recorde de cirurgias eletivas, a queda do desmatamento e a retomada da projeção internacional.

É, o Brasil retornou ao centro de debates multilaterais, exercendo o seu protagonismo na defesa da democracia e da soberania nacional, ainda que sob fortes ameaças neoimperialistas, que lhe impuseram elevadas tarifas comerciais.

Há de se admitir que são mais de 500 anos de história, os quais acumulam problemas e desafios, a serem enfrentados por cada governo que se estabelece como liderança.

Infelizmente, ainda somos um dos países mais desiguais do mundo, com grande concentração de renda e disparidades regionais marcantes, especialmente entre as regiões Centro-Sul e Norte-Nordeste.

Ainda enfrentamos custos logísticos elevados, gargalos nos transportes e a necessidade de modernização tecnológica das indústrias.

Ainda somos confrontados por uma complexidade fiscal, que significa equilibrar o orçamento público, gerenciar a dívida interna e garantir a eficiência dos gastos públicos sem comprometer os investimentos essenciais.

Ainda precisamos superar os abismos de aprendizado entre a rede pública e a privada, além de alinhar o ensino técnico e superior às demandas do mercado de trabalho do século XXI.

Ainda se faz necessário expandir a infraestrutura básica de esgoto e água tratada para as periferias e áreas rurais, e fortalecer a gestão do Sistema Único de Saúde (SUS).

Ainda persiste a luta para combater o crime organizado, o tráfico de influência e a corrupção, o narcotráfico, as milícias, a fim de reduzir os índices de violência urbana e promover uma reforma satisfatória no sistema prisional.

Ainda resiste o impasse de conciliar a força do agronegócio com a preservação ambiental, especialmente na Amazônia e no Cerrado.

Ainda somos desafiados a aproveitar o enorme potencial de energia limpa para reindustrializar o país de forma sustentável. Enfim...

Assim, por mais indigesta que pareça a pergunta, temos que fazê-la: O Brasil é ou não é para amadores? Segundo as palavras de Contardo Calligaris, escritor, psicanalista e dramaturgo italiano radicado no Brasil:

“Veja a frase ‘O Brasil não é para principiantes’. Isso supõe que a nossa malandragem nos torna especiais e só interpretáveis por especialistas. Pelo contrário: o Brasil é para amadores e principiantes. Porque pagar e corromper é muito fácil. O difícil é construir uma coletividade em que haja leis, institucionalidade. O difícil é ser moral. Ser imoral é que é para principiantes. A malandragem é uma conduta moral de uma criança de nove anos. O difícil é crescer. Governar pagando o cara para votar comigo é que é amador. O profissional é construir um discurso que convença, é falar com o outro” 1.

Portanto, penso que se conseguirmos realizar esse questionamento, de certa forma, se tornará possível abandonar a autocomplacência e a romantização do jeitinho brasileiro, compreendendo que a verdadeira maturidade nacional exige abandonar práticas infantis em favor da responsabilidade ética, moral e institucional. Afinal, para satisfazer quaisquer expectativas de desenvolvimento e de progresso é fundamental essa reflexão.

domingo, 27 de setembro de 2026

Jogando com a vida ... Jogando com o próprio envelhecimento.


Jogando com a vida ... Jogando com o próprio envelhecimento.

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Por favor, não confunda alhos com bugalhos! As loterias federais e as apostas esportivas, conhecidas como bets, possuem naturezas jurídicas e estruturas completamente diferentes no Brasil.

E foi colocando na balança os prós e os contra a respeito, de que o ganho com impostos diretos dessas plataformas online era superado pelos prejuízos indiretos na economia e na saúde pública, que o governo federal tomou a decisão de editar uma Medida Provisória determinando a proibição das bets no país.

Para início de conversa, enquanto as loterias federais representam jogos de azar baseados em sorteio de números, onde todos os participantes têm exatamente a mesma chance matemática, as bets são variáveis, as chances dependem de análise estatística de eventos reais como o desempenho de um time, clima, lesões.

Nas loterias, o prêmio total acumulado é dividido igualmente entre as combinações que acertarem os números sorteados. Nas bets, o prêmio é por cota fixa, ou seja, é multiplicado pelo valor fixado pela casa no momento da aposta.

Sobre a margem de lucro matemática e estatística, no caso das loterias, ela é retida diretamente do valor total arrecadado antes de compor o prêmio final. Enquanto nas bets, ela está embutida matematicamente nas cotas fixas, reduzindo o pagamento real em relação à probabilidade pura do evento acontecer.

Quanto à destinação dos recursos, as loterias destinam quase metade, cerca de 48%, de toda a sua arrecadação para investimentos em benefícios sociais e políticas públicas, de modo que o Repasse Social é considerado a atividade-fim das Loterias CAIXA.

O que significa transformar o valor das apostas em recursos diretos para o desenvolvimento do país em áreas como segurança pública, com repasses para o Fundo Nacional de Segurança Pública (FNSP) para combater a criminalidade; educação,  a partir do Fundo de Financiamento Estudantil (FIES); o esporte, com recursos para o Comitê Olímpico e Paralímpico Brasileiro, além de clubes de futebol; a seguridade social e saúde, com o apoio à previdência e à saúde pública; e, a cultura, com verbas destinadas ao Fundo Nacional da Cultura (FNC).

Além disso, as mais de 13 mil casas lotéricas espalhadas pelo país funcionam como pequenos negócios que ativam a economia local. Seja pela arrecadação de tarifas, tendo em vista de que elas atuam como correspondentes bancários, permitindo o pagamento de contas, saques e recebimento de benefícios sociais, como o Bolsa Família, o que atrai fluxo de pessoas para o comércio do entorno. Seja pela comissão recebida pelos lotéricos, que significa uma porcentagem de cada aposta que fica com o empresário lotérico, movimentando o setor de serviços.

E o setor lotérico é um forte empregador direto e indireto. Haja vista a quantidade de atendentes de caixa, gerentes e pessoal de segurança nas agências lotéricas, as empresas de tecnologia que prestam suporte técnico, de transporte de valores, de segurança privada, de marketing e de impressão de bilhetes.

Quando um prêmio é pago, por exemplo, os novos milionários e ganhadores de faixas menores reinjetam esse dinheiro no mercado fomentando um efeito multiplicador na economia por meio da compra de imóveis e automóveis, de investimentos em novos negócios, de aplicações financeiras que geram liquidez para os bancos, e de consumo geral de bens e serviços, movimentando a cadeia de comércio.

Sem contar que os prêmios das loterias federais sofrem retenção de Imposto de Renda (IR) direto na fonte, uma alíquota de 30%, e esse valor vai direto para o caixa da União, ajudando a compor o orçamento do Estado para investimentos públicos.

Já as bets têm lucro privado. O que significa que o dinheiro vai para empresas particulares, chamadas de operadoras, restando ao Estado apenas a arrecadação de impostos regulatórios. Por quê?

Porque a maior parte das operadoras possui sede internacional, de modo que o fluxo financeiro segue um caminho que limita o impacto positivo na economia local. O dinheiro apostado que não retorna aos jogadores como prêmio é convertido em moeda estrangeira e transferido para suas matrizes no exterior.

Assim, muitas das grandes plataformas globais operam a partir de territórios com baixa tributação e sigilo fiscal como Malta, Gibraltar, Curaçao ou Ilhas Caimã, o que minimiza os impostos corporativos sobre o lucro líquido global delas.

Esse movimento reduz a circulação de riqueza dentro do país de origem, pois o lucro privado deixa de ser reinvestido no comércio, na indústria ou em infraestrutura local. Portanto, apesar do eventual ganho fiscal direto nos cofres públicos, o mercado das bets acabou retirando muito mais dinheiro da economia do que o total devolvido em impostos.

Foram retirados da atividade econômica de R$ 120 bilhões a R$ 141 bilhões em 2025, equivalente a até 1,1% do PIB. O dreno financeiro provocado pelas plataformas operou sob a lógica de retirar dinheiro de setores com alto efeito multiplicador como comércio, serviços e varejo tradicional, e concentrá-lo em um setor de baixíssimo retorno econômico interno.

Quanto à perda no comércio tradicional houve uma redução de faturamento, afetando o consumo das famílias. O dinheiro gasto nas plataformas de apostas saiu diretamente do orçamento que elas utilizavam para compras do dia a dia, como alimentação, roupas e lazer tradicional.

Acontece que esse aumento do uso do orçamento doméstico e, por vezes, linhas de crédito para apostas, reduziu o poder de compra futuro, já que as famílias precisavam quitar dívidas antes de voltar a consumir.

Nesse contexto, as populações de menor poder aquisitivo tenderam a comprometer uma fatia proporcionalmente maior de sua renda com as apostas, gerando um efeito imediato no comércio de bairros e bens de primeira necessidade.

Vale ressaltar que as apostas de quota fixa foram legalizadas no final de 2018, pelo governo Michel Temer, mas as regras de taxação e concessão de outorgas só passaram a valer efetivamente a partir de janeiro de 2025.

Assim, estima-se que nesse período o Brasil deixou de arrecadar entre R$ 30 bilhões e R$ 40 bilhões em impostos durante os quatro anos em que as apostas online operaram no país sem nenhuma regulamentação ou tributação efetiva.

Porém, mesmo após a regulamentação, o país deixou de arrecadar bilhões. O que em termos de prejuízos sociais gerais, o custo estimado de R$ 39 bilhões com endividamento familiar, gerou uma imensa perda de produtividade e gastos de saúde.

De modo que os impactos diretos na saúde corresponderam à custos associados ao aumento de mortes por suicídio, que chegou a ser 15 vezes maior em pessoas com ludopatia/transtorno do jogo; e a perda de qualidade de vida severa decorrente da depressão e outros transtornos psicoemocionais, cujos tratamentos e atendimentos médicos diretos são realizados em sua imensa maioria pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Caro (a) leitor (a), só esses pontos já mereceriam a nossa atenção. Porém, há muito mais questões a serem pensadas e repensadas por todos nós. Começando pela relação entre o prejuízo causado pelas plataformas de apostas online e o envelhecimento da população brasileira que já representa uma crise econômica e de saúde pública sobreposta.

Sim, à medida em que a população acima de 60 anos cresce rapidamente no Brasil, passando de 15,2 milhões em 2000 para mais de 33 milhões, esse público torna-se um dos alvos mais financeira e psicologicamente fragilizados pela facilidade do Pix e pelo isolamento social.

Tanto que dados do Banco Central apontaram que cerca de dois milhões de idosos jogam mensalmente, registrando um gasto médio individual de R$ 3 mil por mês com apostas. Um valor muito superior à média das aposentadorias rurais e urbanas do país que variam entre R$ 1,4 mil e R$ 1,8 mil.

Acontece que esse cenário possibilita, então, o surgimento de uma verdadeira bola de neve na medida em que para sustentar as perdas e tentar recuperar o dinheiro, muitos idosos recorrem a empréstimos consignados, comprometendo o orçamento familiar a longo prazo e gerando superendividamento.

Inclusive, uma parcela significativa dos idosos afetados depende do Benefício de Prestação Continuada (BPC), convertendo os recursos destinados à sua subsistência básica em receita para as bancas de apostas. Assim, idosos com rendas fixas baixas são facilmente seduzidos por propagandas agressivas que vendem a ideia de renda extra fácil para fechar as contas do mês.

É fato que dissecando as histórias têm-se que muitas delas surgem pelos desafios do próprio envelhecimento populacional, o qual muitas vezes vem acompanhado de solidão, perdas familiares e falta de ocupação diária. É nesse contexto que os jogos de azar no celular acabam por oferecer estímulos rápidos de dopamina e uma falsa sensação de companhia ou entretenimento.

De repente, a sociedade brasileira se vê diante do vício em jogos, a ludopatia, entre a terceira idade. Fenômeno que elevou os índices de depressão, forte ansiedade e ideação suicida, fazendo com que os atendimentos no SUS por transtornos ligados a jogos e apostas saltassem cerca de 140% nos últimos anos.

O que quase ninguém vê, ou prefere não ver, é que o custo dos danos sociais e de saúde gerados pelo mercado de apostas no Brasil, dentro desse recorte relativo à uma população que envelhece, o dinheiro que deveria financiar cuidados geriátricos, remédios e planos de saúde acaba sendo drenado pelas plataformas.

Além disso, considerando que os idosos frequentemente atuam como provedores ou esteios financeiros de famílias inteiras no Brasil, o prejuízo causado pelas bets nessa faixa etária desestrutura a segurança econômica de múltiplas gerações dependentes daquela aposentadoria.

Portanto, é sobre tudo isso que precisamos refletir antes de sair falando bobagens aleatórias, por aí. À medida que o Brasil passa por uma transição demográfica acelerada com o aumento do número de idosos, a população precisa se debruçar sobre todos os temas que atuam diretamente sobre as vulnerabilidades financeiras, sociais e psicoemocionais dessa parcela da população. Não dá para ficar analisando a questão pela perspectiva do jogar ou não jogar. As camadas são muito mais profundas e desafiadoras do que isso.

Como escreveu Simone de Beauvoir, intelectual, filósofa existencialista, ativista política e teórica social francesa, "O envelhecimento é uma questão de cidadania, mas a sociedade muitas vezes prefere fechar os olhos para aqueles que construíram o presente”.

Uma verdade dura que, pensada à luz das apostas e jogos online, nos permite entender que o envelhecimento ativo exige cidadania e proteção social, enquanto a desregulação desses pseudoinstrumentos de entretenimento explora a vulnerabilidade cognitiva e financeira dos idosos, transformando uma fase de descanso em risco de exclusão e ruína.

sábado, 26 de setembro de 2026

A cidadania brasileira e a Fábula da Ratoeira ...


A cidadania brasileira e a Fábula da Ratoeira ...

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Há muitos anos, quando li A RATOEIRA, uma fábula apócrifa contemporânea, fui impactada pelo realismo daquelas palavras. De fato, quando alguém está diante de um problema e o outro acredita que o problema não lhe diz respeito, é imperioso lembrar que diante de uma ratoeira na casa, toda fazenda corre risco, porque o problema de um é problema de todos.

E se colocarmos reparo, como orientava José Saramago, à própria historicidade brasileira, isso fica ainda mais claro e compreensível. Veja o caso da Revolta da Vacina, em 1904. Diante do problema das áreas mais vulneráveis pela falta de saneamento, no Rio de Janeiro, a situação se transformou numa crise sanitária e econômica generalizada para o país, forçando o governo de Rodrigues Alves e o médico Oswaldo Cruz a adotarem medidas drásticas de saneamento e vacinação obrigatória.

Também o descaso do Estado em relação à miséria, à seca e à concentração de terras no Nordeste brasileiro durante a República Velha não ficou restrito à população sertaneja, de modo que a insegurança e o banditismo saíram do controle regional, desafiando as forças federais, interrompendo linhas de comércio e forçando grandes migrações em massa para o Sudeste, reconfigurando a demografia e a infraestrutura das grandes capitais brasileiras.

Depois, a Campanha das Diretas Já, entre 1983 e 1984, quando a crise econômica da década de 1980, com uma hiperinflação e elevadíssima dívida externa, somada à opressão política, unificou o país. Artistas, intelectuais, operários, empresários e políticos de diferentes espectros uniram-se no maior movimento de massa da história do país. Restando claro que a recuperação da cidadania e da dignidade econômica dependia da união de todas as classes.

Por isso, a ideia de que o problema de um é problema de todos precisa ser recapitulada. Diante de narrativas sobre potenciais interferências externas no pleito eleitoral de 2026, esse princípio se torna um eixo central de debate para todos os cidadãos brasileiros. A preservação da soberania nacional exige atenção a diferentes fatores, começando pela autodeterminação que é o direito absoluto de uma nação de escolher seus governantes sem pressões econômicas, diplomáticas ou digitais de potências estrangeiras.

Depois a integridade digital que significa a proteção dos sistemas de informação e o combate às campanhas coordenadas de desinformação que podem ter origem ou financiamento externo. E por fim, o fortalecimento institucional a partir da resposta unificada das instituições nacionais para garantir a transparência do processo e rechaçar qualquer tipo de tutela externa.

O debate contemporâneo aponta que a fragilização da democracia em um país gera frequentemente um efeito dominó que afeta a estabilidade geopolítica regional e global. Portanto, a vigilância sobre as regras do jogo democrático deixa de ser uma pauta puramente partidária e passa a ser uma questão de segurança para a própria independência do país. E nessa história ninguém sai ganhando.

Um exemplo clássico dessas consequências nefastas foi experenciado por Carlos Lacerda. O jornalista, escritor, empresário e político brasileiro é um dos exemplos históricos mais emblemáticos de como a quebra das regras democráticas pode se voltar contra seus próprios artífices. Como principal opositor civil dos governos de Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e João Goulart, Lacerda foi uma das figuras centrais na articulação do golpe militar de 1964 no Brasil.

No entanto, sua trajetória ilustra perfeitamente o propósito de que, no colapso da democracia, ninguém sai ganhando. Por quê? Ora, ele apoiou uma intervenção militar acreditando que as Forças Armadas realizariam uma breve transição e devolveriam o poder aos civis, abrindo caminho para sua candidatura à presidência na eleição prevista para 1965. Acontece que o regime militar se consolidou no poder, cancelou as eleições diretas, instituiu o bipartidarismo e prorrogou mandatos, anulando os seus planos políticos.

Assim, ao perceber o caráter permanente da ditadura, Lacerda tentou unir forças com antigos adversários históricos como o próprio Juscelino Kubitschek e João Goulart, criando uma Frente Ampla, um movimento que visava a redemocratização do país. Contudo, em dezembro de 1968, com a edição do Ato Institucional Número 5 (AI-5), Carlos Lacerda teve seus direitos políticos cassados ​​por dez anos, foi brevemente preso e submetido à vigilância, terminando sua vida pública ostracizado pela ditadura que defendeu.

Afinal, quando as regras do jogo democrático são sacrificadas em nome de interesses conjunturais, a segurança jurídica e a independência de todas as forças políticas são liquidadas, deixando o Estado à mercê do autoritarismo e da instabilidade, tornando a ideia de que o problema de um é problema de todos algo totalmente materializado.

Portanto, pare de defender a tese de que “comigo isso não acontece”, porque acontece. Há uma imprevisibilidade intrínseca aos riscos e perigos, a qual ninguém tem o controle. O que se passa na mente do outro, suas escolhas e decisões, quase sempre não são submetidas ao escrutínio público. Tanto que, de repente, somos impactados e surpreendidos por acontecimentos terríveis, em razão de que o ser humano traz em si o germe do egoísmo e do individualismo devotado a satisfazer os seus próprios desejos e interesses.

Por essas e outras é que aceitar essa realidade não significa viver em pânico ou paranoia constante, mas sim adotar uma postura de lucidez. Quando paramos de negar o risco, nós nos tornamos mais atentos, desenvolvemos mais empatia pelas vítimas de fatalidades, ao contrário de julgá-las, e passamos a valorizar mais o presente.

A vulnerabilidade é uma condição universal. Reconhecê-la é, portanto, o primeiro passo para uma maturidade real diante da vida. Lembre-se que o egoísmo e o individualismo extremo muitas vezes operam no silêncio. Quando alguém decide colocar os próprios desejos acima de qualquer limite ético ou do bem-estar alheio, todo o ambiente ao redor é pego de surpresa e corre perigo.

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Desserviço


Desserviço

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

A nova ordem que se estabeleceu na mídia hegemônica brasileira é a do desserviço. Sob o viés do mau serviço, elas realizam o jornalismo de forma errada, inútil e nociva, sem o menor constrangimento ou senso de responsabilidade ética e social. O que causa não só prejuízos à democracia e à soberania, como mostram a dimensão da sua deslealdade traidora ao país.

Não, não restam dúvidas de que esse conjunto de grandes veículos de comunicação, os quais concentram o poder de influenciar a opinião pública e definir quais narrativas são aceitas como normais ou dominantes, está trabalhando contra a reeleição do atual Presidente da República.

Bem, não precisa ser nenhum expert para saber que o compromisso fundamental do jornalismo ético é com a verdade factual e o interesse público. Isso implica, portanto, em investigar e checar os fatos de forma exaustiva antes de publicar qualquer informação.

Mas, também, em reconhecer que a notícia impacta vidas e comunidades, respeitando a dignidade humana e a privacidade. Em manter autonomia diante de pressões políticas, econômicas ou de interesses particulares. Em ouvir os diferentes lados relevantes de um fato de maneira justa, sem favorecimentos prévios. Em explicar os métodos de apuração e revelar as fontes sempre que possível para gerar confiança. E em corrigir erros publicamente e de forma ágil.

Acontece que não é isso o que está acontecendo. Há um franco e vergonhoso favorecimento a um dos candidatos que despontam na corrida eleitoral, no sentido de encobrir o seu envolvimento com ilícitos graves, cujas provas vêm se multiplicando a partir de inúmeras investigações policiais e jornalísticas.

A ideia é lançar os malfeitos sobre os ombros de outras figuras públicas, mesmo que isso custe um malabarismo exótico na formulação das ideias e uma confusão mental entre os eleitores mais indecisos.

Contudo, contra fatos não há argumentos. Quaisquer relativizações e condescendências não mudam o acervo comprobatório dos apontamentos sobre os quais as investigações já lançaram luz.

O lobo em pele de cordeiro não deixa de ser quem é. E a estratégia do silêncio providencial também não dissolve os questionamentos, as desconfianças, a teia de absurdos em que ele está chafurdado até a raiz do cabelo.

Por isso é triste ver como a mídia hegemônica brasileira tem se permitido descer tão baixo, ao compactuar com a inverdade, com a distorção da realidade, com a reafirmação da ilicitude alheia, para favorecer a um candidato que sequer possui um projeto de governo para o país.

Sim, porque se ele tivesse um, já deveria ter apresentado aos cidadãos brasileiros. Acontece que ele não tem porque sempre esteve preocupado em defender interesses próprios, particulares. Além disso, já deixou bem claro a qual cidadania seus valores reverenciam, a qual bandeira seu patriotismo respeita.

Sob esse aspecto, aliás, ele está perfeitamente alinhado à essa mídia. Ambos só conseguem enxergar o próprio umbigo, os próprios interesses mesquinhos e mercantis. Como se a ideia do “Money, Money, Money” fosse a tábua de salvação para quaisquer problemas que surjam pelo caminho.

A experiência durante o regime ditatorial no Brasil, entre 1964 e1985, é um bom exemplo para ser levado em conta. O embarque inicial em um projeto autoritário custou caro para as expectativas de longo prazo desses veículos.

Primeiro, porque à medida em que os abusos do governo militar, a tortura e a crise econômica do final dos anos 70 se tornaram evidentes, o público leitor e a sociedade civil passaram a cobrar a conivência histórica da imprensa.

Segundo, porque décadas mais tarde, esses grandes conglomerados de mídia trouxeram a reconhecimento público textualmente o erro de ter apoiado o golpe de 1964, classificando a atitude como um equívoco histórico.

Portanto, o imediatismo de tentar manter as bases seculares da dominação elitista brasileira não acaba em bom termo no campo jornalístico. Especialmente, considerando o fato de que a realidade contemporânea do século XXI é diametralmente oposta ao que já se registra nas páginas amareladas da história nacional.

O jornalismo contemporâneo vive o paradoxo de ser mais necessário do que nunca para a sobrevivência da democracia e da coesão social, ao mesmo tempo em que enfrenta suas maiores crises de financiamento, prestígio e alcance de público.

No entanto, isso não pode servir de justificativa para se descompromissar com a ética e a verdade factual. A tentativa de manter estruturas seculares de dominação oligárquica e elitista colide frontalmente com a pluralidade, a velocidade e a democratização do acesso à informação no século XXI. Desse modo, o jornalismo que insiste em falar apenas para ou pelas elites perde a conexão com a realidade do país.

E ainda que o setor esteja fragilizado economicamente pela migração das verbas publicitárias para as grandes plataformas de tecnologia e institucionalmente pelo ataque sistemático à sua credibilidade, isso não justifica o abandono do método jornalístico.

Ao contrário, a apuração rigorosa, a checagem de fatos e o compromisso com a verdade factual são, em última análise, os únicos diferenciais competitivos que restam ao jornalismo profissional frente ao oceano de conteúdos amadores ou mal-intencionados da internet.

Por essas e outras é que não se pode esquecer que atrás dessa cortina de grandes desastres e infortúnios ocorridos na história brasileira, estão os tentáculos influenciadores da imprensa hegemônica nacional, atuando muitas vezes como atores políticos com interesses próprios, e não apenas como observadores neutros.

Haja vista as campanhas midiáticas massivas e agressivas, lideradas por jornais da época, como a Tribuna da Imprensa de Carlos Lacerda, realizando um clima de forte pressão política que culminou no suicídio do Presidente da República, Getúlio Vargas.

O golpe militar de 1964, quando os principais jornais e redes de rádio e televisão da época apoiaram abertamente a deposição do Presidente da República João Goulart, e celebraram a intervenção militar.

O Impeachment do Presidente da República Fernando Collor, em 1992, e de Dilma Rousseff, em 2016, quando a cobertura jornalística intensa e a espetacularização das crises econômicas e de corrupção moldaram a opinião pública e aceleraram as quedas desses governos.

Portanto, que as mídias hegemônicas nacionais reflitam sobre os caminhos de influência sobre a opinião pública que estão traçando para o país nesse exato momento.  A democracia e a soberania são valores estruturais inegociáveis, porque só a partir deles se consegue êxito no que diz respeito ao progresso e ao desenvolvimento de um país.

Diferentes setores da sociedade, incluindo juristas, jornalistas e cientistas políticos, argumentam que o pluralismo de ideias e a transparência na linha editorial são fundamentais para que os meios de comunicação atuem como pilares do sucesso socioeconômico, e não como controladores e manipuladores do discurso público.

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Acorda, brasileiro (a)!


Acorda, brasileiro (a)!

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

A defesa da soberania e da democracia nacional não é uma questão subjetiva! São questões que afetam diretamente o desenvolvimento e o progresso do país e, por consequência, o seu, o meu, o dele (a). 

Sim. Quando as instituições democráticas são sólidas e garantem que as regras do jogo sejam claras, isso atrai investimentos internos e externos, gerando empregos e inovação.

Isso inclui a presença de investidores nacionais e estrangeiros, os quais têm a garantia de que os contratos assinados serão cumpridos, sem quebras unilaterais por parte do governo.

 

A certeza de que os bens, terras e empresas não serão confiscados arbitrariamente, estimulando o aporte de grandes volumes de capital.

A proteção sólida à propriedade intelectual oferece às empresas a confiança necessária para investir milhões em pesquisa e desenvolvimento, gerando amplo desenvolvimento científico e tecnológico.

Desse modo, com o menor risco associado ao país, os juros tendem a cair e o crédito fica mais barato, facilitando a construção de fábricas, infraestrutura e expansão de frentes de serviço.

O que permite às empresas globais optarem por instalar seus centros de operação em locais com estabilidade institucional, ou que geram empregos diretos e desenvolvem toda a cadeia de fornecedores locais.

Nesse contexto, então, a soberania permite que a nação formule políticas públicas, industriais e ambientais para seus próprios interesses estratégicos, sem a submissão cega derivada da pressão dos interesses estrangeiros.

Porque o Estado tem a palavra final sobre suas leis, recursos e investimentos, sem necessidade de autorização externa. Na prática, essa autonomia se manifesta por meio de mecanismos específicos em cada setor.

Seja pelo fato de que o Estado pode usar bancos públicos para financiar setores estratégicos com juros subsidiados.

Seja desenvolvendo tarifas alfandegárias ou incentivos fiscais para proteger a indústria nacional da concorrência desleal estrangeira.

Seja estabelecendo exigências legais para que grandes projetos utilizem uma porcentagem de insumos e mão de obra local.

Seja definindo as regras de como explorar e preservar suas florestas, águas e minerais, equilibrando o crescimento econômico com a sustentabilidade.

Seja criando leis ambientais e de zoneamento econômico que reflitam a realidade e as prioridades sociais do próprio país, e não metas impostas de fora.

Seja arrecadando impostos e decidindo se o orçamento vai priorizar áreas como saúde, educação ou segurança nacional.

Seja garantindo estoques reguladores de alimentos ou controlando os preços da energia para proteger a população de crises globais.

Assim, em termos da democracia, ela assegura canais de participação popular e fiscalização, permitindo que o orçamento e as riquezas nacionais sejam distribuídos de forma a financiar serviços essenciais, como saúde, educação e segurança.

De modo que a população e a sociedade civil organizada participam diretamente da elaboração das leis orçamentárias, a partir de debates abertos antes da aprovação de planos orçamentários, onde a manifestação popular pode exigir prioridades para seus bairros e regiões.

Em nível municipal, essa práxis permite que a comunidade vote diretamente em quais obras ou serviços a verba pública deve ser aplicada.

Vale ressaltar que a Constituição de 1988 estabelece pisos mínimos obrigatórios para que os governantes não possam zerar os investimentos em áreas críticas.

Por isso, a União, os Estados e os Municípios são obrigados por lei a destinar porcentagens fixas de suas receitas líquidas de impostos exclusivamente para financiar a Saúde e a Educação.

Daí a importância da democracia para garantir a transparência e o direito de fiscalizar onde o dinheiro público está sendo gasto. Como acontece, por exemplo, com os grupos formados por membros do governo e da sociedade civil como o Conselho Nacional de Saúde ou Conselhos de Educação que gerenciam, fiscalizam e aprovam a aplicação das verbas.

Bem como, com as ferramentas digitais que permitem a qualquer cidadão monitorar receitas, despesas, contratos e licitações do Estado. Portal da Transparência do Governo Federal. Tesouro Transparente e Siconfi.IA. Portais de Transparência Estaduais e Municipais. Alice (Analisadora de Licitações, Contratos e Editais), criada pela Controladoria-Geral da União (CGU). Gasto Brasil. De Olho em Você.

Além disso, o cenário democrático facilita a percepção e a compreensão de que o orçamento público não é definido de forma autoritária pelo governante, ou seja, as peças orçamentárias fundamentais, como o Plano Plurianual (PPA), a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) e a Lei Orçamentária Anual (LOA), precisam ser debatidas e votadas por deputados, senadores e vereadores. Como esses parlamentares dependem do voto popular para se reeleger, há um flagrante peso da opinião pública sobre os seus trabalhos.

Portanto, a defesa da soberania e da democracia precisa que todos os cidadãos assumam a responsabilidade cívica de defendê-las; pois, a sustentabilidade de uma nação democrática e soberana não depende de lideranças messiânicas, mas sim do engajamento coletivo e das instituições.

O que significa o exercício do voto consciente, do acompanhamento do trabalho dos representantes político-partidários eleitos, da fiscalização dos gastos públicos, do respeito às leis, à separação dos poderes e aos direitos humanos fundamentais, e, principalmente, do debate público baseado em fatos, na tolerância à pluralidade de ideias e no combate à desinformação. Algo que transcende, então, aos partidos, aos governantes ou quaisquer outras figuras públicas individuais.

Não nos esqueçamos das palavras de Marilena Chauí, escritora e filósofa brasileira, “A democracia é atividade criadora dos cidadãos e aparece em sua essência quando existe igualdade, liberdade e participação”, conectando-se diretamente à defesa da soberania nacional para garantir que o poder de decisão sobre o país pertença genuinamente ao seu povo.

Nesse sentido, então, a igualdade garante que todos os cidadãos tenham o mesmo peso e voz nas decisões políticas, impedindo que interesses externos ou elites econômicas monopolizem os rumos da nação.

Enquanto, a liberdade garante que a sociedade civil possa se manifestar, escolher seus representantes e definir os destinos do país de forma autônoma, livre de dominações estrangeiras ou tutelas autoritárias.

Por isso, quando a população participa ativamente da vida pública, ela constrói e protege o projeto de nação, fortalecendo o Estado para atuar contra o enfraquecimento de sua independência política e econômica, em decorrência das investidas neoimperialistas que rondam o mundo contemporâneo.

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Já dizia Albert Einstein, “Não busque ser um homem de sucesso, busque ser um homem de valor”.


Já dizia Albert Einstein, “Não busque ser um homem de sucesso, busque ser um homem de valor”.

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

O que desnuda o ser humano são os seus valores. Sim, são eles que revelam a verdadeira essência do indivíduo na medida em que orientam suas escolhas, atitudes e o modo como lida com o mundo.

Portanto, eles não apenas guiam decisões e dão rumo à vida, como mostram-se na prática diária, e não apenas em discursos. Na verdade, eles definem o caráter e a postura diante de crises ou tentações mundanas.

De modo que resolvi partir desse ponto de entendimento para escrever sobre a corrupção, esse assunto tão historicamente presente na sociedade brasileira e no mundo.

Para início de conversa, é preciso deixar claro o que significa corrupção. Trata-se do abuso de poder confiável ou de uma posição de autoridade para obter benefícios ilícitos ou ganhos pessoais.

Assim, há corrupção no suborno/propina, ou seja, quando há o oferecimento ou coleta de dinheiro, presentes ou favores para influenciar a decisão de alguém em cargo de poder.

Há corrupção no peculato, que acontece quando há o desvio de dinheiro ou de bens públicos por parte de um funcionário que tem acesso a eles em razão de seu cargo.

Há corrupção no nepotismo, que é o favorecimento de parentes ou amigos vindo em nomeações ou promoções para cargos públicas, sem considerar a qualificação técnica.

Há corrupção no tráfego de influência, que representa a situação em que uma pessoa usa sua proximidade ou prestígio com autoridades para obter favores ou decisões vantajosas de forma ilegal.

Há corrupção na fraude em licitações, quando ocorre a manipulação de processos de concorrência pública para direcionar contratos a empresas específicas, geralmente gerando superfaturamento.

Dentro de cenário, então, ela pode ser ativa, quando um particular oferece a vantagem indevida a um agente público, ou passiva, quando o funcionário público solicita ou aceita tal vantagem.

Não importando se tais práxis ocorrem na esfera pública ou privada, porque a grande questão está no fato de que a corrupção descreve a manipulação de valores éticos e de costumes, abrangendo diversas formas de desonestidade diárias que prejudicam a coletividade.

No Brasil, infelizmente, a corrupção é um mal histórico. Começou nos tempos coloniais e se arrasta ao longo de mais de 500 anos de história, dada a sua banalização e trivialização social; sobretudo, entre as camadas mais abastadas e influentes da sociedade.

Nesse sentido, o patrimonialismo estruturado nos tempos coloniais é a principal raiz histórica da corrupção endêmica no Brasil, pois estabeleceu uma cultura em que os governantes confundem o patrimônio público com os seus bens privados.

O que significa que a persistência de práticas corruptas diante da forte concentração de renda e poder possibilita compreender como os grupos economicamente dominantes exercem, historicamente, uma grande influência sobre as decisões do Estado, o que por vezes é resolvido na manutenção de suas funções e na perpetuação da impunidade.

Desse modo, se reflete uma tolerância cultural generalizada na medida em que o velho conhecido “jeitinho brasileiro”, ao contrário de ser entendido como o produto de falhas institucionais e burocráticas específicas, é meramente visto como um traço cultural imutável.

Pode parecer absurdo; mas, a corrupção brasileira é sim a materialização dos valores presentes em uma parcela significativa da população.

Fato que fica evidenciado quando episódios, recentes ou não, são noticiados e não causam entre essas pessoas nenhum sentimento de repulsa, indignação, vergonha ou constrangimento.

Pelo contrário, a maioria delas tem a ousadia de permanecer arraigada na defesa dos corruptos como se fosse incapaz de ver os fatos como eles realmente são. Como se não compreendessem que a corrupção também as prejudica, afetando a sua cidadania e o seu bem-estar cotidiano.

Dentro dessa perspectiva, se por um lado a tolerância ou a defesa cega de figuras públicas corrompidas são, na verdade, extensões de uma moralidade flexível ou de um clientelismo enraizado, onde o benefício pessoal ou do seu grupo se sobrepõe ao bem comum; por outro, a população muitas vezes demonstra apatia ou defende certas políticas não por falta de moral, mas por desilusão com o sistema político, polarização ideológica extrema ou porque associam certas figuras a melhorias diretas em suas vidas, ignorando os desvios em prol de um pragmatismo econômico.

Seja qual for o motivo, ocorre que o debate público quando deixa de ser sobre propostas e fiscalização e passa a ser sobre idolatria e torcida, o maior prejudicado é o próprio cidadão, independentemente da camada social a qual pertença.

Porque ele se permite assumir uma postura de subordinação, defendendo erros evidentes em vez de cobrar melhorias que lhes são importantes ou fundamentais. Permitindo que os desvios de conduta passem a ser tolerados ou justificados o que acaba por quebrar o diálogo cidadão saudável.

Veja, a verdadeira cidadania exige distanciamento crítico; pois, os governantes e parlamentares são funcionários públicos temporários, e os pagamentos com os impostos da população são para administrar o bem comum e não custear as regalias e os privilégios de certos líderes que se consideram intocáveis.

Por essas e outras é que antes de se posicionar contra a corrupção é necessário olhar profundamente para dentro de si e verificar se não existe nenhum vestígio de microcorrupções, caracterizadas por desvios éticos cotidianos, muitas vezes considerados atos inofensivos e desimportantes.

Pode ser o uso indevido de vagas exclusivas. A falsificação de atestado médico. A fraude acadêmica. O roubo de tempo do horário de trabalho. O furar filas. O suborno informal. O uso de transporte público sem pagar. A sonegação velada. A pirataria digital. O abuso de reembolso laboral. O consumo sem pagar no comércio. O gato de serviços essenciais. As mentiras de conveniência. ...

Afinal, as microcorrupções funcionam como um espelho da moral individual, revelando o que uma pessoa realmente valoriza quando acredita que ninguém está olhando ou que o ato é pequeno demais para ter consequências.

Porém, a grande corrupção frequentemente se alimenta dessa cultura que tolera e normaliza essas pequenas infrações diárias. De modo que a mudança social começa no monitoramento das nossas próprias escolhas.

Segundo Ellen Gould White, autora americana, “A maior necessidade do mundo é a de homens - homens que não se compram nem se vendam; homens que no íntimo da alma sejam verdadeiros e honestos; homens que não temam chamar o erro pelo seu nome; homens, cuja consciência seja tão fiel ao dever como a bússola o é ao polo; homens que permaneçam firmes pelo que é reto, ainda que aconteça tudo errado”.

Portanto, antes de pensar na corrupção como um problema institucional, tenha sempre em mente que ela é um reflexo da crise de valores individuais. Daí a solução para esse problema exigir a restauração da integridade individual a partir dos valores que se têm guardados no íntimo da alma.