sexta-feira, 9 de outubro de 2026

A pseudocoesão da ultradireita brasileira


A pseudocoesão da ultradireita brasileira

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

O autoritarismo político da ultradireita sempre se valeu das ameaças, da intimidação, da truculência, para implantar o terror, o medo e o silenciamento das populações. Mas, pensando profundamente a respeito, não consigo visualizar nada disso como elemento suficientemente capaz de garantir e consolidar o poder.

Ao contrário do que se pensa, a ultradireita não é uma massa homogênea e profundamente coesa. Por mais que existam pontos ideológicos de convergência entre os seus eleitores, simpatizantes e apoiadores, quando o assunto enviesa para o campo do poder econômico, aí a coesão se desconstrói pela disseminação das fraturas.

Sobretudo, quando o excesso de euforia histérica nas campanhas ultradireitistas começam a propagar verdades indigestas que não só angariam uma péssima receptividade entre a amplidão dos eleitores, como um desconforto terrível entre os seus próprios pares, os quais começam a perceber riscos e ameaças aos seus interesses particulares.

Não, não é verdade que aquele que pretende sentar-se na cadeira de Presidente da República fará da sua governança um espaço democrático suficientemente capaz de atender à diversidade e à pluralidade de expectativas criadas por seus eleitores, simpatizantes e apoiadores.

Primeiro, porque o poder tem em si mesmo o despertar de um sentimento individualista, egoísta e narcísico, que acaba por inebriar e entorpecer aqueles que lhe olham fixamente nos olhos. Saba aquela máxima de que “ninguém solta a mão de ninguém”? Bem, no caso da ultradireita isso não é verdade! Fato que acende, ou pelo menos deveria acender, o pisca-alerta de quem está ao redor.

Segundo, porque desde a Revolução Industrial, lá na segunda metade do século XVIII, o mundo se viu às voltas com uma proliferação de atividades econômicas e de interesses financeiros que afastam as respostas governamentais de um alinhamento perfeito e ajustado de maneira igualitária. Alguém sempre sai insatisfeito, aborrecido e/ou prejudicado, em maior ou em menor escala.

Especialmente, se esses indivíduos deixaram de considerar uma análise rigorosa do cenário econômico e de comércio exterior, antes de oferecer apoio e lealdade absoluta ao seu candidato. Apostas não significam necessariamente resultados positivos.

Basta uma consulta rápida para descobrir que, no contexto atual, o principal parceiro comercial do Brasil, contribuindo diretamente para o progresso e o desenvolvimento nacional, impulsionando a balança comercial e a geração de empregos na indústria, o extrativismo e agronegócio, é a China e não os EUA.

Desde 2009, a China ocupa o posto de maior parceiro comercial do país. Em 2026, a corrente de comércio bilateral somou mais de US$ 143,30 bilhões até setembro. A demanda insaciável chinesa por petróleo e grãos sustenta o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro e gera divisas internacionais primordiais para a estabilidade da taxa de câmbio nacional.

Essa dinâmica reflete uma profunda transição geopolítica e econômica global, consolidando o papel da China como o motor das exportações brasileiras e evidenciando o pragmatismo da política externa nacional, pautada no "não-alinhamento ativo", tendo em vista de que o Brasil busca manter canais de diálogo e comércio abertos com todos os blocos, defendendo seus próprios interesses econômicos e políticos de forma pragmática e multilateral.

Enquanto os EUA, em razão da imposição de barreiras tarifárias, o protecionismo e a volatilidade política de Washington acabaram afastando os EUA de investimentos estruturais de longo prazo no Brasil.

Além disso, o envolvimento estadunidense em disputas geopolíticas consome recursos fiscais significativos que geram inflação interna e pressões nas taxas de juros americanas, reduzindo a atratividade e a capacidade do país de atuar como o principal polo de transferência tecnológica para a América Latina.

Fato que deveria, então, estabelecer um grau de análise mais criteriosa daqueles que consideram a manutenção histórica dessa relação comercial como o melhor caminho para o Brasil.

Segundo relatórios como o Inter-American Dialogue e dados da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), leis como o Inflation Reduction Act priorizam subsidiar indústrias locais estadunidenses.

Além disso, o aperto monetário nos EUA atrai capital de volta para o Tesouro americano, de modo que os EUA competem menos em grandes obras públicas internacionais. Por fim, padrões ambientais e burocráticos complexos também desaceleram acordos.

Assim, enquanto os EUA reduzem o ritmo de aportes estruturais, o ecossistema econômico global oferece outras vias de desenvolvimento para o Brasil.

Haja vista o investimento estatal chinês com aportes maciços em energia, ferrovias e telecomunicações (5G), o financiamento via BRICS a partir do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD) que oferece crédito alternativo, e a transferência tecnológica real por meio de parcerias de manufatura avançada focadas na transição energética.

E, talvez, seja exatamente por esse panorama é que a ira do autoritarismo político da ultradireita esteja intensificando as ameaças, a intimidação, a truculência, para implantar o terror, o medo e o silenciamento das populações; sobretudo, em relação aos espaços do conhecimento como as Universidades Públicas e os Institutos Tecnológicos.

Bem, o país acabou de assistir ao um incêndio de grandes proporções que destruiu completamente o prédio da Diretoria de Inovação e Empreendedorismo, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), gerando um prejuízo estimado em mais de R$ 100 milhões e afetando cerca de 200 pesquisas científicas. Entretanto, novas ameaças vêm sendo feitas contra outras instituição de ensino país afora 1.

Sob essa ótica, esses locais são frequentemente vistos pela ultradireita como polos de difusão de ideias progressistas ou de esquerda.

Embora a ideia seja fazer transparecer um sentimento de descontentamento em relação às manifestações estudantis, por conta das pretensões do candidato ultradireitista, se eleito for, quanto aos direitos do cidadão consagrados pela Constituição Federal de 1988, o que inclui a Educação pública e gratuita.

Porém, nas entrelinhas dos acontecimentos não se pode descartar que o tensionamento contra essas instituições seria uma forma de disputar a hegemonia cultural e conter a influência de discursos alinhados a blocos geopolíticos que não os EUA.

Ao enfraquecer ou deslegitimar a credibilidade dessas instituições, abre-se espaço para narrativas mais alinhadas ao pensamento liberal e de mercado tradicional estadunidense.

Além disso, a própria pauta de promover o desinvestimento na ciência e na educação superior pública indica qualquer despreocupação em relação à perda de autonomia científica.

O que significa que sem tecnologia própria, o país volta a ser um exportador de commodities e um importador de soluções tecnológicas, softwares e patentes concentradas no Hemisfério Norte.

Enquanto, do ponto de vista do avanço de modelos educacionais baseados em fundações privadas e corporações transnacionais de ensino, possibilita a importação do modelo corporativo estadunidense de educação, transformando o conhecimento em uma mercadoria alinhada à lógica de mercado deles.

Em linhas gerais, o que está posto sobre a mesa brasileira, nesse exato momento, é a escolha entre uma postura de autonomia e liderança regional ou de alinhamento com eixos tradicionais de poder. O reflexo dessa decisão poderá significar, portanto, o avanço ou o retrocesso para o povo brasileiro, incluindo as próprias elites herdeiras do velho colonialismo nacional.