terça-feira, 25 de agosto de 2026

Escolha consciente, deliberação política e ética


Escolha consciente, deliberação política e ética

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Em 2019, eu escrevi o texto “Fomos à Lua, e daí?” 1, trazendo uma reflexão sobre o fato de que nem tudo o que nos encanta, nos absorve a atenção, nos inebria os sentidos, de fato, tem um impacto positivo e relevante sobre a transformação existencial humana.

Acontece que passados 7 anos, me parece ainda mais intenso o processo de controle e manipulação social promovido pela pós-verdade, no qual o cenário social em que os fatos objetivos e as provas reais passa a ter menos peso na formação da opinião pública do que os apelos à emoção e às crenças pessoais.

Um bom exemplo disso foram as discussões acaloradas que se estabeleceram em relação à Lei Rouanet oficialmente Lei Federal de Incentivo à Cultura nº 8.313/1991. Trata-se do principal mecanismo do governo brasileiro para estimular investimentos privados no setor cultural.

Com o projeto aprovado, o proponente busca empresas ou pessoas físicas para patrociná-lo, de modo que o patrocinador investe seu próprio dinheiro no projeto e depois desconta parte ou o todo desse valor do seu Imposto de Renda (IR) devido.

Portanto, os projetos submetidos à Lei Rouanet passam obrigatoriamente por uma rigorosa análise técnica, orçamentária e de conformidade legal realizada por analistas do Ministério da Cultura antes de receberem autorização para captar recursos.

Eis que, de repente, simultaneamente a todo esse burburinho escandaloso, emendas parlamentares, ou seja, recursos do orçamento público que deputados e senadores podem direcionar para obras, serviços e projetos em municípios e estados, passaram a ser empregadas para financiar shows de determinados artistas país afora.

O que significa um visível desvirtuamento orçamentário; visto que, deveria financiar obras, compras de equipamentos e projetos em áreas como saúde, educação e infraestrutura, atendendo às demandas de suas bases eleitorais.

Quem nunca ouviu falar da expressão "pão e circo", cunhada pelo poeta romano Juvenal?! Na Roma antiga, a fim de controlar a insatisfação popular e evitar rebeliões, os governantes davam trigo de graça e espetáculos grandiosos, como lutas no Coliseu.

Acontece que esse conceito permanece expressando exatamente a desassistência política, pois utiliza o entretenimento e/ou a distribuição de alimentos básicos para desviar a atenção do povo dos problemas sociais reais.

Nesse contexto, então, o pão e circo é, na figura do mau uso das emendas parlamentares, uma construção político-ideológica de alienação popular que não rompe com as correntes e amarras das desigualdades históricas que afligem determinadas sociedades. O fornecimento de alimentos básicos ou de entretenimento “gratuito” de massa, não soluciona os problemas que afetam o cotidiano de milhares de pessoas.

O que chama atenção, ou pelo menos deveria, é o fato de que muitos desses artistas não se constrangem em se tornar instrumentos dentro desse conceito do “pão e circo", recebendo de bom grado os cachês milionários pagos com recursos públicos.

Vale lembrar que, alguns deles, inclusive, adotam um discurso público de forte engajamento social, cobrando investimentos em saúde, educação e segurança, enquanto padecem de uma clara percepção de incoerência ética. Em muitos casos, o valor de um único show de poucas horas consome uma fatia enorme do orçamento anual de um município carente de saneamento básico, escolas, creches, enfim.

Além disso, quando se permitem financiar majoritariamente por meio de verbas públicas municipais e estaduais, o que significa sem depender de bilheteria ou incorrer no risco de mercado, esses artistas perdem a sua autonomia de pensamento e de ação. Contrariando a ideia de que historicamente o (a) artista deve manifestar a sua consciência crítica em relação aos (des)caminhos do poder, ele (a) passa a ser financiado diretamente por ele.

E não bastasse esse festival de absurdos, dentro da construção de um cenário desvirtuado e desalinhado da realidade factual, circula um discurso non sense de que a dívida do governo é a grande responsável pelo endividamento do cidadão. Será mesmo?!

O recorde histórico de endividamento das famílias brasileiras em 2026, segundo a Confederação Nacional do Comércio (CNC) é impulsionado principalmente pelo uso massivo do cartão de crédito, pelas elevadas taxas de juros, pela alta do custo de vida e pelo avanço das apostas online.

Em relação ao uso do cartão de crédito, há tempos que ele segue isolado como o grande vilão, devido ao peso do crédito rotativo e aos juros anuais extremos.

Bem, o Brasil costuma subir sua taxa básica de juros, a Selic, quando os juros sobem nos Estados Unidos, quando há guerras que encarecem o petróleo e os alimentos no mundo ou quando os investidores tiram dinheiro do país por medo.

Enquanto isso, há quem se abstenha de quaisquer análises sobre a dívida pública estadunidense que ultrapassou a marca histórica de US$ 40 trilhões em agosto de 2026, impulsionada por juros elevados, cortes de impostos recentes e despesas militares.

Afinal, essa elevação impacta diretamente o aumento dos juros no Brasil por meio de um mecanismo global de transmissão cambial, prêmio de risco e fuga de capitais. Por isso, para frear essa inflação importada e tentar manter o país atraindo minimamente o investidor estrangeiro, o Comitê de Política Monetária (Copom) é obrigado a manter ou elevar a taxa Selic.

Algo que tende a criar uma pressão sobre as despesas básicas do cidadão, como alimentação e moradia, obrigando muitas famílias a usar limites bancários, com altas taxas de juros, para suprir o consumo diário.

Contudo, agora, se vive sob o domínio e a tirania de um novo vilão perigosíssimo:  as apostas online. A negociação dos jogos virtuais passou a comprometer uma parcela sensível do orçamento doméstico de milhões de brasileiros.

O impacto mais severo acontece entre classes de menor renda, onde boa parte dos apostadores gasta proporções expressivas de ganhos modestos, como um a dois salários-mínimos, em jogos.

Desse modo, o vício (Ludopatia) e o gasto descontrolado com as apostas online agravaram profundamente a vulnerabilidade financeira do orçamento doméstico.

Como se pode ver, então, a busca incessante por novidades tecnológicas e materiais não garante, por si só, um avanço ético ou social para a humanidade. A construção de um mundo justo e solidário depende de escolhas humanas, políticas e sociais, e não do lançamento do próximo produto de mercado.

Por isso, celulares mais rápidos ou inteligências artificiais avançadas, por exemplo, não resolvem automaticamente a fome, o preconceito ou a solidão. O progresso técnico é diferente do progresso ético. Um mundo cheio de novidades pode ser visualmente interessante, mas esteticamente vazio e moralmente feio se ignorar a dignidade humana. Razão pela qual eu preciso insistir com a pergunta: Fomos à Lua, e daí?

domingo, 23 de agosto de 2026

SEGURANÇA. CRIMINALIDADE. VIOLÊNCIA. CIDADANIA. JUSTIÇA. ...


SEGURANÇA. CRIMINALIDADE. VIOLÊNCIA. CIDADANIA. JUSTIÇA. ...

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Não surpreende que um dos assuntos mais presentes nas rodas de conversa contemporâneas seja a segurança pública. Afinal de contas, a raça humana vive sob a ameaça de inúmeras manifestações de violência e de criminalidade, as quais perturbam e desestabilizam a convivência e a coexistência social. Mas, qual é a sua percepção e entendimento sobre segurança, hein?!

Na antiguidade, a primeira ideia de segurança coletiva foi física e territorial. As cidades construíram muralhas para se protegerem de ameaças externas, e não de ameaças internas.

Depois, surgiu a Justiça Retributiva, um modelo de resposta a crimes que foca na indenização proporcional ao infrator como forma de retribuir o mal causado e restaurar a ordem social. Assim, durante milênios, as leis focavam em punições físicas, financeiras ou no banimento. A expressão "olho por olho, dente por dente", que resume a Lei do Talião, registrada no Código de Hamurabi (Babilônia, c. 1750 aC), permitia as execuções públicas ou trabalhos forçados.

Até que na Antiguidade e na Idade Média, os calabouços e masmorras passaram a existir, mas não eram a pena em si. Eles serviram apenas para guardar o acusado até o momento de seu julgamento ou de sua execução.

De modo que a prisão como instituição de correção e cumprimento de pena só se consolidou entre os séculos XVIII e XIX. Com o Iluminismo, os pensadores começaram a criticar a crueldade dos castigos, propondo a privação da liberdade e a reeducação como alternativas. Essa transição deu origem, então, aos primeiros grandes modelos de penitenciárias no século XIX, focadas na vigilância e na rotina severa, transformando a prisão na base do sistema de justiça contemporâneo.

Acontece que essa ideia de vigiar e punir não trouxe segurança. Algo fácil de constatar, por aí! Um mundo cheio de prisões, de penitenciárias, e de violência disseminada por todo canto. Por isso, o ponto de partida dessa reflexão é determinar exatamente qual (is) o (s) parâmetro (s) de segurança se pretende discutir, tendo em vista de que ela não é uma questão homogênea. Não há uma única forma de resolver esse desafio social.

Durante muito tempo, pensou-se que a violência estrutural e econômica, apesar de profundamente destrutivas, em razão da organização desigual da sociedade e da negação sistemática de direitos básicos, poderia ser resolvida pelo encarceramento dos infratores. Não demorou muito para se descobrir o equivoco dessa ideia. Por quê?

A ilusão de que o encarceramento em massa resolveria a violência estrutural ruiu diante da superlotação carcerária, da reprodução das facções criminosas dentro das prisões e da reincidência, provando que o sistema penal pune os efeitos sem eliminar as causas da desigualdade e da negação de direitos.

Além disso, uma grande variedade de delitos em um ambiente carcerário impede uma real recuperação de quem cometeu uma infração. Colocar indivíduos que cometeram crimes de baixo potencial ofensivo, como pequenos furtos, no mesmo ambiente em que criminosos altamente violentos ou organizados, inviabiliza a ressocialização. O sistema prisional acaba funcionando, muitas vezes, como uma escola do crime.

Relacionada diretamente a violência estrutural está a violência institucional e estatal. Ela ocorre quando os órgãos do Estado ou grandes organizações falham na proteção do cidadão ou exercem poder de forma abusiva e discriminatória. Haja vista a negligência de serviços públicos, com a falta de acesso adequado à saúde, à justiça e à segurança básica para as parcelas mais pobres da população. O uso desproporcional da força por agentes de segurança pública também acaba gerando desconfiança nas instituições democráticas.

De modo que ela transforma o que deveria ser direitos garantidos em privilégios acessíveis a um mínimo da população. O ciclo de criminalização da pobreza surge exatamente quando a ausência de políticas públicas sufoca o desenvolvimento socioeconômico, desencadeando um sistema de justiça e de segurança pública que tende a vigiar, punir e encarcerar majoritariamente indivíduos de baixa renda e minorias raciais. Fazendo com que essa população passe a enxergar as forças de segurança como uma ameaça, e não como proteção.

E esse processo de fragilização do pacto social se revela quando as instituições falham continuamente e a coesão social se desfaz, abrindo espaço para realidades de poder paralelo, tais como as milícias e as facções. Até que, de repente, comece a existir uma simbiose institucional, em que grupos criminosos se infiltram na política local para garantir impunidade e lavar dinheiro. Dentro cenário, acontece a divisão das cidades em fronteiras invisíveis controladas pelo crime, estabelecendo uma cidadania restrita, na qual os direitos fundamentais de ir e vir, votar e manifestar-se ficam condicionados ao aval dos criminosos.

Surge, então, a violência coletiva e urbana manifestada pelos grandes grupos organizados e pela desagregação do espaço público nas cidades. Ela estabelece a criminalidade organizada transnacional a partir das facções e redes de tráfico que controlam territórios urbanos e desafiam a soberania do Estado. É ela promove a divisão das cidades em muros e condomínios fechados que aumentam o medo social e a estigmatização de periferias. O medo social gerado pela violência aprofunda, portanto, o preconceito e a exclusão contra as populações que vivem nas bordas periféricas das cidades.

Nesse sentido é que a violência urbana e coletiva, juntamente com a crise na segurança pública, representam um dos maiores desafios estruturais das cidades contemporâneas, alimentados por uma complexa rede de fatores socioeconômicos, institucionais e espaciais. A resolução desse cenário exige uma transição de políticas puramente repressivas para estratégias de prevenção e inteligência integrada.

Daí a necessidade de que essas impliquem na integração de dados entre os sistemas de polícias civis, militares e órgãos federais para mapear o crime organizado, a investigação financeira para asfixiar as fontes de renda das facções criminosas com foco no rastreio de lavagem de dinheiro, e o uso de tecnologia para empregar análise de dados, monitoramento estratégico e geoprocessamento em áreas de risco.

Afinal de contas, a criminalidade organizada transnacional a partir das facções e redes de tráfico controlam os territórios urbanos e desafiam a soberania do Estado de dentro de presídios e penitenciárias. Sim, facções nascidas em unidades prisionais estruturaram redes de solidariedade e disciplina interna que transformaram presídios em centros de decisões logísticas.

De modo que, mesmo detidas, as lideranças mantêm conexões externas por meio de aparelhos tecnológicos ilícitos e corrupção sistêmica, ditando rebeliões, ataques e regras de conduta para o mundo exterior. Sem contar que o controle do espaço carcerário gera um monopólio de proteção e regulação de conflitos que legitima a autoridade do grupo perante novos detentos.

E todas essas violências ganharam uma parceria de peso: a violência digital e cibernética. As redes sociais e os ambientes virtuais exercem novos espaços para a violação de direitos e o controle social, afetando diretamente a integridade da população e a segurança pública. Seja pela perseguição e ataques coordenados na internet que destroem a reputação e o bem-estar psicológico das vítimas, pela exposição pública de informações íntimas ou pessoais para intimidar e ameaçar o indivíduo, ou pela disseminação em massa de conteúdos discriminatórios ou extremistas que estimulam a intolerância e a divisão social.

Esse cenário mostra que a segurança pública exige estratégias múltiplas e regionais, e não apenas uma única solução. De modo que o combate começa por exigir leis rigorosas, apoio psicológico às vítimas e educação digital. Aliás, um aspecto importante e que não pode ser esquecido é de que a violência digital e cibernética funciona como um acelerador e amplificador de preconceitos históricos.

O anonimato relativo, a velocidade de alcance das redes sociais e os algoritmos focados em engajamento criam um ambiente fértil para que os discursos de ódio deixem de ser marginais e passem a estruturar campanhas concentradas na hostilização contra minorias e grupos vulneráveis.

Isso inclui crimes de gênero, tais como a misoginia online, o assédio, a divulgação não consentida de imagens íntimas conhecida como pornografia de vingança, as deepfakes pornográficas e a violência política e de gênero; o racismo e xenofobia por meio de  ataques direcionados a pessoas negras, indígenas ou migrantes/nordestinos, utilizando memes, ofensas generalizadas e desumanização de grupos inteiros; e, a intolerância religiosa, a partir da disseminação de calúnias, profanação de símbolos e incitação à violência contra religiões de matriz africana ou minoritárias.

Além disso, é fundamental acrescentar que os feminicídios têm mostrado uma expansão do controle do agressor para além do espaço físico, escalando a gravidade das ameaças e aprofundando o isolamento social da vítima. Isso acontece porque o feminicídio não é um ato isolado; mas, o ápice de um ciclo contínuo.

As agressões verbais e o controle comportamental migraram para aplicativos de mensagens e redes sociais. Quando a vítima tenta romper o vínculo, o agressor utiliza os meios digitais para intensificar o terror psicológico. A impossibilidade de desconexão mantém a mulher em estado constante de alerta e vulnerabilidade extrema, como o prenúncio da violência física letal.

Assim, pensando nas seguintes palavras do filósofo, sociólogo e escritor francês do século XX, Michel Foucault, “Onde há poder, há resistência”, de fato, sempre que existe uma tentativa de controle ou dominação, surgem forças significativas que contestam, negociam ou subvertem essa autoridade.

Por isso, na segurança pública contemporânea, essa dinâmica deixa de ser apenas teoria e se manifesta como um dilema prático central entre o controle estatal e as respostas da sociedade.

Daí o fato de que essa segurança contemporânea falha quando vê a resistência apenas como um obstáculo criminoso a ser exterminado. A verdadeira estabilidade social não surge do aumento da força, mas sim do equilíbrio democrático entre a autoridade do Estado e os direitos da população.

Hoje, a resolução de conflitos baseada em estratégia e inteligência reflete o conceito de policiamento orientado pelo problema e de segurança pública preventiva. Essa abordagem representa uma evolução crucial na segurança pública, deixando de lado o modelo puramente reativo, que apenas responde ao crime após ele acontecer, para focar nas causas estruturais dos delitos. 

domingo, 16 de agosto de 2026

CIDADANIA. INCLUSÃO. ESPORTE. ...


CIDADANIA. INCLUSÃO. ESPORTE. ...

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Certas falas precisam ser mais bem definidas. Dizem, por aí, que o esporte é inclusão; mas, o que isso realmente quer dizer?! Afinal de contas, incluir significa integrar e acolher todas as pessoas de um coletivo social, seja ele qual for, sem nenhum tipo de preconceito ou discriminação.

E aí, prestando um bocadinho de atenção, aqui e ali, você começa a perceber que no contexto do esporte, o discurso não anda realmente alinhado com a prática. Daí a necessidade de dissecar o tema.

De saída, não é difícil perceber que a desigualdade de renda é o primeiro obstáculo para a consolidação do esporte inclusivo. Infelizmente, nem todos os componentes da pirâmide social contemporânea têm, de fato, acesso às práticas desportivas.

A falta de recursos financeiros não impede apenas a compra de equipamentos, o pagamento de mensalidades de clubes ou o custeio com transporte. Para milhares de pessoas, ela impede o acesso à moradia, à saúde, à educação, ao saneamento básico, ou seja, a tudo o que representa o senso de dignidade humana.

Depois, a carência de uma infraestrutura desportiva, em muitas cidades, para atender ao conceito de inclusão social. Uma questão que reflete a falta de planejamento urbano voltado para a acessibilidade universal desde a concepção dos espaços, o baixo investimento público na construção, reforma e manutenção de praças e centros esportivos nas cidades, e a incompatibilidade de equipamentos tradicionais com as necessidades de atletas paralímpicos ou pessoas com mobilidade reduzida.

Acontece que tudo isso reverbera no isolamento de certos grupos sociais, que não encontram locais seguros ou adaptados para a prática de atividades físicas, no aumento da desigualdade em relação ao acesso à saúde, ao bem-estar e ao desenvolvimento de talentos esportivos, e na perda de interação e conectividade coletiva, pois o esporte funciona como ferramenta de uma socialização contra à instrumentalização do preconceito.

Mas, certamente, um dos aspectos mais graves da ausência de inclusão no esporte, na contemporaneidade, seja em relação ao preconceito de gênero, o racismo e a xenofobia. A historicidade desportiva, infelizmente, é marcada por essas questões. Haja vista que o esporte nasceu elitista, masculino e eurocêntrico, de modo que essas marcas ainda ecoam nos estádios, nas quadras e nas instâncias de poder atuais.

Daí tantos exemplos estampados nas mídias sobre atletas imigrantes ou refugiados que enfrentam vaias, são excluídos ou sofrem questionamentos sobre sua identidade e direito de representar um país, tornando-se os primeiros a serem hostilizados de forma xenófoba quando sua equipe perde.

Ou os casos de insultos racistas vindos das arquibancadas contra atletas negros de elite em ligas mundiais, os quais acabam sustentando a narrativa que atribui o sucesso do atleta negro à genética que lhe fornece força física e o do atleta branco que possui inteligência tática.

Como se vê, debater a diversidade e a inclusão é essencial para garantir igualdade no meio esportivo. Grupos minorizados - mulheres, negros (as), pessoas com deficiência (PCD) e população LGBTQIA+ - vêm sofrendo a falta de acesso a direitos, poder e espaço também no esporte. Algo explicitado pelo preconceito, a invisibilidade midiática, a mudança de critérios para as competições e a desigualdade de investimento financeiro.

O caso mais recente é o da Confederação Brasileira de Voleibol (CBV), ao aderir à política do Comitê Olímpico Internacional (COI) que bane mulheres trans. Segundo a CBV esse novo critério passa a valer a partir da próxima temporada da Superliga e em outras competições nacionais.

Bem, o fato revela como o debate contemporâneo sobre a inclusão de atletas transgêneros, por exemplo, muitas vezes descamba para a marginalização, sem critérios puramente científicos.

Por um lado, entidades esportivas e defensores das novas regras argumentam que o objetivo é proteger a integridade e a igualdade de condições na categoria feminina, apontando vantagens fisiológicas residuais associadas ao desenvolvimento anatômico prévio.

Por outro, ativistas, clubes e atletas afetadas apontam a medida como um retrocesso na inclusão e na garantia do direito ao trabalho de mulheres trans, defendendo que o esporte deve buscar formatos de integração baseados em controle hormonal individualizado em vez de exclusão baseada apenas na genotipagem.

Independentemente de escolher um dos lados, a questão que se impõe é de que a inclusão no esporte não existe. Se existem barreiras, obstáculos, condicionantes, sejam de quais naturezas forem, impedindo que todos os cidadãos sejam incluídos no esporte, essa ideia que sempre prosperou como artifício de marketing precisa ser mudada.

A desconstrução do mito da inclusão esportiva plena é, portanto, urgente e necessária. Ainda que ela represente a admissão pública de todo o retrocesso que sobrevive na carência histórica de planejamento de políticas públicas e reformas institucionais, as quais possibilitem transformar o esporte em um espaço genuinamente mais acessível.

Sem a ruptura com as amarras do racismo, do elitismo, da xenofobia, do capacitismo, da homofobia, o esporte permanecerá exalando uma visão romantizada e totalmente desconectada da realidade do mundo.

Essa ideia de que o esporte é neutro, só faz esconder e omitir os próprios preconceitos, enquanto afasta pessoas dos direitos básicos de inclusão e cidadania. Aliás, não é incomum que se ouça no meio desportivo a velha frase "vencer pelo próprio esforço".

Bem, sem inclusão fica difícil! Por trás dessas palavras esconde-se uma verdade bastante indigesta; visto que, o ponto de partida dos atletas é totalmente desigual devido às opressões sociais.

Portanto, o esporte só será verdadeiramente democrático quando a inclusão e a segurança de minorias estiver acima das prioridades institucionais, e não apenas em rasos discursos de marketing. 

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

LACRAÇÃO, LIKE e LUCRO. O caminho para a ruína da sociedade contemporânea.


LACRAÇÃO, LIKE e LUCRO. O caminho para a ruína da sociedade contemporânea.

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

O pó de pirlimpimpim contemporâneo parece ser LACRAÇÃO, LIKE e LUCRO. Só que não. Basta um mínimo de atenção aos veículos de informação para perceber que, além desse tripé ser totalmente incapaz de resolver os problemas do mundo, incluindo os seus, ele tem um potencial devastador de intensificá-los.

Infelizmente, a vida não é feita de soluções rápidas e superficiais. Atalhos nunca levam ninguém ao que se espera. Por isso, o cenário da monetização digital, que significa transformar conteúdo, tráfego, audiência ou presença na internet em receita financeira, não vai promover uma alteração substancial na realidade contemporânea.

Enquanto chuvas torrenciais assolam o território japonês, incêndios florestais arrasam com a Europa e os EUA, sem que nada de efetivo possa ser feito para mudar o cenário. Recentemente houve um terremoto na Venezuela, agora, outro aconteceu na Colômbia. Cientistas já afirmam que o super El Niño trará fome e escassez para grande parte do planeta nos próximos meses. Portanto, a dinâmica geoambiental do planeta se mostra alterada, colocando as incertezas no topo da lista. 

Gostemos ou não, tudo isso aponta para um processo de intensa desconstrução e reconstrução, sem fim. Por quê? Porque a contemporaneidade se esqueceu de que o ser humano é sempre o centro das ações e das preocupações.

Portanto, na medida em que a mercantilização e a monetização social assumiram o controle do cotidiano houve um inevitável apagamento e invisibilização dos indivíduos. Suas necessidades, carências, desafios, foram deixados de lado, à mercê da própria sorte.

Contudo, o ato de transformar direitos, relações ou bens sociais em produtos com preço de mercado ou de gerar ganho financeiro a partir de uma audiência, de uma rede de contatos ou do engajamento digital, não faz evaporar dos veículos de comunicação e de informação as estatísticas e os problemas socioeconômicos e ambientais que recortam a realidade contemporânea.  

O tripé dos três L citados acima é, portanto, somente uma cortina de fumaça para tentar esconder a ausência total de uma solução, de um plano para resolver as crises que afetam milhões de seres humanos todos os dias.  Sabe a velha história do cachorro correndo atrás do próprio rabo? É exatamente isso.

Apesar de triste e constrangedor é preciso admitir, as responsabilidades socioeconômicas e ambientais, sejam elas simples ou complexas, quase sempre, estão a cargo de pessoas despreparadas, carentes de competência, desprovidas de ética, que foram alocadas em posição de poder e se apropriaram dele, apesar de totalmente inaptas.

Aí, enquanto bilhões de pessoas se entretém nessa corrida frenética por LACRAÇÃO, LIKE e LUCRO, tentando desesperadamente capitalizar alguns vinténs e/ou ocupar um último lugar na fila do pertencimento social, o mundo continua girando, girando, girando ... Sem que as urgências e as emergências socioeconômicas e ambientais sejam resolvidas.

Sem que a pirâmide social deixe de exaltar uma base imensa e uma ínfima ponta, não deixando dúvidas de que as desigualdades permanecem cada vez mais inabaláveis. ...    

Além disso, não se pode esquecer que o tripé dos três L tem também promovido o apogeu do ódio, para amplificar ainda mais os rendimentos. Não entendeu? Esse ciclo gera engajamento extremo, aumenta a visualização de conteúdos polêmicos e converte reações raivosas e violentas em ganhos financeiros diretos para plataformas e criadores.

Por isso, com ou sem uma consciência formada a respeito, a sociedade contemporânea marcha rumo à banalização do mal, como já aconteceu em outros momentos da sua historicidade.

Considerando, então, que o mal não nasce necessariamente de um ódio profundo ou perversidade demoníaca, mas da incapacidade de pensar criticamente, esse é o grande perigo, porque qualquer indivíduo que abdique de sua consciência e julgamento moral pode perpetuar injustiças de forma mecânica e contínua.

Na verdade, pode estar contribuindo, nesse exato momento, para que as cortinas de fumaça facilitem a falência e o colapso da vida na Terra, dada a ausência de soluções para o recrudescimento dos problemas que já vigoram há séculos.

Lembremo-nos, então, das seguintes palavras do Chefe Seatle, líder dos povos Duwamish e Suquamish nos EUA, “O homem não tece a teia da vida; é antes um de seus fios. O que quer que faça a essa teia, faz a si próprio”.

Assim, a ação de um indivíduo reverbera no todo e retorna a ele próprio. Cada ato afeta o tecido social na sua totalidade, de modo que a ética deixa de ser apenas um dever entre humanos e passa a incluir o ambiente e o futuro do planeta.

4º Simpósio sobre Feminicídios - UFU/Uberlândia



sábado, 8 de agosto de 2026

A realidade contemporânea da coabitação multigeracional


A realidade contemporânea da coabitação multigeracional

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Apesar da raça humana ter iniciado a sua jornada sobre a Terra, vivendo coletivamente dentro de um mesmo espaço, sob um mesmo teto, a própria dinâmica social se impôs para promover um processo de desagregação dos grupos, para que os indivíduos pudessem desfrutar da sua autonomia e independência.

Então, no contexto do século XXI, quando muitos expressam o seu espanto ou indignação diante de gerações que estão compartilhando o seu cotidiano dentro de uma mesma casa, é preciso parar e refletir sobre as conjunturas que levaram a esse cenário social contemporâneo.

Queiramos ou não admitir, o desenvolvimento científico e tecnológico decorrente da Revolução Industrial, na segunda metade do século XVIII, teve sim um papel de arauto do progresso humano ao propagandear a sua possibilidade de existir e viver por conta própria. Acontece que na prática a teoria nem sempre se alinha dentro das perspectivas e expectativas.

Esse recorte histórico-temporal que viria mudar, para sempre, o curso da humanidade, gerou um sistema sociocultural e econômico tão engessado e limitante, quanto aquele que existia até a Revolução Francesa. O cenário que prometia a libertação humana pelo domínio da estrutura monárquica acabou criando novas formas de aprisionamento social.

Veja, a Revolução Industrial vendeu a ideia de emancipação total do homem através da máquina e da ciência; mas, na verdade, o ser humano deixou de ser refém das intempéries da natureza para se tornar refém do relógio, da fábrica e do capital. Tanto que a arte, antes dominante sobre todo o processo produtivo, transformou-se em mera extensão da especialização industrial.

O direito de sangue da nobreza feudal foi substituído pelo poder financeiro da burguesia. Nesse sentido, a mobilidade social permaneceu severamente limitada a tal ponto que o trabalhador urbano se viu preso a jornadas de 16 horas e condições miseráveis, sem vias de fuga. Assim, o controle social mudou o soberano, ou seja, do Rei para o Mercado, mas uma estrutura de domínio e de desigualdade extremamente centralizada permaneceu.

E quanto mais o tempo passa mais esse sistema recrudesce, deteriorando de maneira bastante contundente quaisquer vestígios de autonomia e de independência dos indivíduos. Haja vista que, em 2026, a distribuição de renda e riqueza global continua em patamares de concentração extremos, com os 10% mais ricos detendo cerca de 75% da riqueza global e a metade mais pobre ficando com apenas 2%.

Isso significa que o mundo vem se tornando materialmente muito mais rico, porém o abismo absoluto entre os mais ricos e os mais pobres é concretamente maior do que no início da Revolução Industrial, por volta da segunda metade do século XVIII. Apesar de a pobreza extrema global ter decrescido dramaticamente em termos percentuais, a fatia da renda capturada pelo topo da pirâmide se mostra hiperconcentrada e distante de uma realidade ampliada.

Acontece que essa dinâmica do capital é que rege as possibilidades do exercício existencial autônomo e independente. Sem a suficiência de recursos não há eficiência para a construção das bases da dignidade humana. Daí o retrato de gerações familiares sendo obrigadas a viver sob um mesmo teto. Quem já leu sobre o dilema do porco-espinho, criado pelo filósofo alemão Arthur Schopenhauer em 1851, entende bem. Apesar de todos os desafios impostos pela diversidade e pluralidade humana essa coabitação multigeracional forçada é a única forma de sobreviver.

Ela, na verdade, representa uma válvula de escape econômico e uma rede de segurança privada diante dos altos custos de vida, da escassez de recursos e da financeirização da moradia dentro do capitalismo contemporâneo.

Nesse sentido, ela transferiu para o espaço doméstico o suporte que o Estado deixou de cumprir em relação ao bem-estar social liberal, o qual havia teoricamente prometido. O pior é que o sistema capitalista se beneficia dessa estrutura ao abafar o descontentamento social e reduzir a pressão por políticas públicas de habitação e seguridade.

Portanto, embora pareça uma resistência comunitária, trata-se de uma imposição que limita a mobilidade social e a autonomia individual das novas gerações. Fato que desencadeia uma série de consequências nefastas, tais como o estresse psicológico devido à falta de privacidade e choque de valores geracionais, a sobrecarga feminina traduzida pelo acúmulo do trabalho doméstico e de cuidado com as diversas gerações, e a manifestação de uma solidariedade compulsória, na qual o afeto e os laços familiares são instrumentalizados e desgastados pela pressão econômica externa.

Mas, talvez, a raça humana já esteja diante de uma fronteira social ainda pior. Ao redor do planeta existem milhares de famílias que já perderam o próprio teto em razão dessa dinâmica. Essa coabitação multigeracional está sendo forçada a viver nas ruas dos centros urbanos; sobretudo, as grandes e médias cidades.

O aumento do preço dos aluguéis e a escassez de moradia acessível forçam milhares de pessoas a viverem ao ar livre. Por consequência, os espaços urbanos sofrem com a falta de infraestrutura e políticas públicas para acolher essas populações vulneráveis. A perda do teto rompe, então, a rede de apoio familiar e gera graves riscos à saúde e à segurança humana, exigindo ações integradas de assistência social, saúde pública e planejamento urbano.

Segundo o Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos (ONU-Habitat), cerca de 318 milhões de pessoas enfrentam a falta absoluta de moradia no mundo, enquanto quase 3 bilhões sofrem com habitação inadequada, morando em favelas ou assentamentos informais. Esse cenário reflete as crises sistêmicas de desigualdade urbana, exigindo políticas públicas integradas de saneamento, saúde e planejamento territorial.

Afinal, a ausência de políticas integradas agrava múltiplos fatores de risco nos centros urbanos. A começar pelo fato de que a falta de teto isola o indivíduo e desestrutura os laços familiares e comunitários.

O que traz consequências significativas, tais como o agravamento do desequilíbrio em relação à saúde pública, dada a exposição contínua às intempéries, à poluição urbana e à falta de saneamento que dispara os índices de adoecimento físico e mental entre a população.

Fato que culmina na consolidação de ciclos de exclusão; pois, as respostas institucionais baseadas apenas na repressão ou em ações emergenciais de curto prazo falham em estancar o problema estrutural da pobreza e da indignidade humana.

Daí a necessidade de olhar para a vida como ela é. De se permitir a reflexão a respeito da submissão que constrói a alienação humana diante desse sistema socioeconômico estabelecido há pouco mais de 3 séculos, o qual só faz recrudescer as diversas barbáries sociais historicamente conhecidas. Porque a consciência é o primeiro passo para resistir à coisificação humana e se reposicionar como sujeito da própria história, se apropriando da condição de ser autônomo e independente.

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Parece ... Mas não é.

Parece ... Mas não é.

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

De maneira franca, clara e objetiva, a identidade é algo pessoal e intransferível, o que significa que ela pertence a apenas um indivíduo e não pode ser dada ou emprestada a outra pessoa. Dito isso, por mais que um (a) filho (a) se pareça de algum modo com seus genitores, cada indivíduo tem a sua própria história.

O que move essa reflexão advém do que está presente nas mídias sociais. As figuras de dois pais e dois filhos são o objeto de uma análise bastante importante e interessante.

No primeiro caso, o pai já foi Presidente da República. Portanto, já submeteu o seu trabalho e a sua história política ao escrutínio popular. O filho, primogênito, dada a impossibilidade jurídica do pai concorrer a um novo pleito, se colocou na disputa. Seus anos na política trouxeram uma experiência limitada ao Legislativo. Razão pela qual, ele se apega de todas as maneiras ao nome do pai como se o papel de sucessor político, de maneira automática e instantânea, fosse reproduzir também uma apropriação identitária.

No segundo caso, o pai é Presidente da República. Inclusive, está em seu terceiro mandato. O que significa que o seu trabalho e a sua história política se permitiram colocar em escrutínio popular mais de uma vez. O filho, primogênito, nunca manifestou pretensões políticas. No entanto, dado o viés político-partidário do pai, ele sempre esteve no alvo dos opositores sob alegações de alguma conduta ilícita, sem que nada fosse, de fato, comprovado.

Por quê? Porque a historicidade brasileira, marcada por um modelo colonial, consolidou uma herança política em que os poderes costumam seguir, quase sempre, o fluxo da hereditariedade familiar. Então, torná-lo objeto de contestação pública, apesar de ele não ter escolhido ocupar um lugar na vida política, se torna um modo de tentar afetar ou arranhar a imagem do pai.

Acontece que na escolha democrática, o candidato é um individuo dotado de identidade própria. O registro e a votação são baseados puramente na figura do indivíduo, não existindo candidaturas coletivas ou de listas fechadas independentes de nomes.

Cada candidato concorre sob um número e nome de urna específicos; bem como, ele responde individualmente pelo que diz, pelo que promete, por suas contas e atos de campanha. E é sobre essa figura que o eleitor deve dedicar a sua análise crítica.  

O exercício do voto consciente, na democracia, implica necessariamente em avaliar de maneira profunda e objetiva os pretensos candidatos. Verificar mandatos anteriores, projetos aprovados e coerência partidária. Investigar a existência de processos judiciais ou condenações por corrupção. Ler as propostas oficiais ou planos de governo registrados na Justiça Eleitoral. Analisar se os projetos possuem orçamento e base legal realizáveis. Identificar quem são os principais doadores e grupos de interesse do candidato.

Informações que podem ser obtidas na Plataforma do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e nos portais de transparência, os quais incluem os sites da Câmara, do Senado ou das assembleias legislativas.

A escolha representativa político-partidária deve, então, basear-se em propostas concretas e de competência administrativa, e não em distorções de identidade ou expectativas ilusórias. Quando o voto é guiado por visões de projeções identitárias irreais, o debate público perde profundidade técnica e passa a ter foco em narrativas superficiais e equivocadas.

De modo que para superar esses vieses há de se construir uma análise de histórico, avaliando o passado político, as votações anteriores e os processos do candidato. Um profundo estudo de propostas, verificando a viabilidade econômica e técnica dos planos apresentados. Exercendo uma cobrança partidária a partir do monitoramento do partido político quanto aos apoios em projetos alinhados ao interesse coletivo.

Mas, para isso, só consumindo notícias de diferentes veículos de imprensa para evitar bolhas de informação. Afinal, elas são tentáculos que capturam a sua liberdade de escolha e te fazem refém das decisões de outras pessoas que você sequer conhece ou já ouviu falar. O que geralmente acontece por meio de algoritmos, personalização de feeds e viés de confirmação.

Portanto, desconfie de conteúdos que parecem feitos sob medida para agradar ou irritar você. Limpe o seu histórico de navegação e redefina as preferências dos seus aplicativos. Busque a diversidade! Leia sites e perfis com pontos de vista contrários aos seus. E não se esqueça, “O mais corajoso dos atos ainda é pensar com a própria cabeça” (Coco Chanel - estilista e empresária francesa).