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sexta-feira, 9 de outubro de 2026

A pseudocoesão da ultradireita brasileira


A pseudocoesão da ultradireita brasileira

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

O autoritarismo político da ultradireita sempre se valeu das ameaças, da intimidação, da truculência, para implantar o terror, o medo e o silenciamento das populações. Mas, pensando profundamente a respeito, não consigo visualizar nada disso como elemento suficientemente capaz de garantir e consolidar o poder.

Ao contrário do que se pensa, a ultradireita não é uma massa homogênea e profundamente coesa. Por mais que existam pontos ideológicos de convergência entre os seus eleitores, simpatizantes e apoiadores, quando o assunto enviesa para o campo do poder econômico, aí a coesão se desconstrói pela disseminação das fraturas.

Sobretudo, quando o excesso de euforia histérica nas campanhas ultradireitistas começam a propagar verdades indigestas que não só angariam uma péssima receptividade entre a amplidão dos eleitores, como um desconforto terrível entre os seus próprios pares, os quais começam a perceber riscos e ameaças aos seus interesses particulares.

Não, não é verdade que aquele que pretende sentar-se na cadeira de Presidente da República fará da sua governança um espaço democrático suficientemente capaz de atender à diversidade e à pluralidade de expectativas criadas por seus eleitores, simpatizantes e apoiadores.

Primeiro, porque o poder tem em si mesmo o despertar de um sentimento individualista, egoísta e narcísico, que acaba por inebriar e entorpecer aqueles que lhe olham fixamente nos olhos. Saba aquela máxima de que “ninguém solta a mão de ninguém”? Bem, no caso da ultradireita isso não é verdade! Fato que acende, ou pelo menos deveria acender, o pisca-alerta de quem está ao redor.

Segundo, porque desde a Revolução Industrial, lá na segunda metade do século XVIII, o mundo se viu às voltas com uma proliferação de atividades econômicas e de interesses financeiros que afastam as respostas governamentais de um alinhamento perfeito e ajustado de maneira igualitária. Alguém sempre sai insatisfeito, aborrecido e/ou prejudicado, em maior ou em menor escala.

Especialmente, se esses indivíduos deixaram de considerar uma análise rigorosa do cenário econômico e de comércio exterior, antes de oferecer apoio e lealdade absoluta ao seu candidato. Apostas não significam necessariamente resultados positivos.

Basta uma consulta rápida para descobrir que, no contexto atual, o principal parceiro comercial do Brasil, contribuindo diretamente para o progresso e o desenvolvimento nacional, impulsionando a balança comercial e a geração de empregos na indústria, o extrativismo e agronegócio, é a China e não os EUA.

Desde 2009, a China ocupa o posto de maior parceiro comercial do país. Em 2026, a corrente de comércio bilateral somou mais de US$ 143,30 bilhões até setembro. A demanda insaciável chinesa por petróleo e grãos sustenta o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro e gera divisas internacionais primordiais para a estabilidade da taxa de câmbio nacional.

Essa dinâmica reflete uma profunda transição geopolítica e econômica global, consolidando o papel da China como o motor das exportações brasileiras e evidenciando o pragmatismo da política externa nacional, pautada no "não-alinhamento ativo", tendo em vista de que o Brasil busca manter canais de diálogo e comércio abertos com todos os blocos, defendendo seus próprios interesses econômicos e políticos de forma pragmática e multilateral.

Enquanto os EUA, em razão da imposição de barreiras tarifárias, o protecionismo e a volatilidade política de Washington acabaram afastando os EUA de investimentos estruturais de longo prazo no Brasil.

Além disso, o envolvimento estadunidense em disputas geopolíticas consome recursos fiscais significativos que geram inflação interna e pressões nas taxas de juros americanas, reduzindo a atratividade e a capacidade do país de atuar como o principal polo de transferência tecnológica para a América Latina.

Fato que deveria, então, estabelecer um grau de análise mais criteriosa daqueles que consideram a manutenção histórica dessa relação comercial como o melhor caminho para o Brasil.

Segundo relatórios como o Inter-American Dialogue e dados da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), leis como o Inflation Reduction Act priorizam subsidiar indústrias locais estadunidenses.

Além disso, o aperto monetário nos EUA atrai capital de volta para o Tesouro americano, de modo que os EUA competem menos em grandes obras públicas internacionais. Por fim, padrões ambientais e burocráticos complexos também desaceleram acordos.

Assim, enquanto os EUA reduzem o ritmo de aportes estruturais, o ecossistema econômico global oferece outras vias de desenvolvimento para o Brasil.

Haja vista o investimento estatal chinês com aportes maciços em energia, ferrovias e telecomunicações (5G), o financiamento via BRICS a partir do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD) que oferece crédito alternativo, e a transferência tecnológica real por meio de parcerias de manufatura avançada focadas na transição energética.

E, talvez, seja exatamente por esse panorama é que a ira do autoritarismo político da ultradireita esteja intensificando as ameaças, a intimidação, a truculência, para implantar o terror, o medo e o silenciamento das populações; sobretudo, em relação aos espaços do conhecimento como as Universidades Públicas e os Institutos Tecnológicos.

Bem, o país acabou de assistir ao um incêndio de grandes proporções que destruiu completamente o prédio da Diretoria de Inovação e Empreendedorismo, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), gerando um prejuízo estimado em mais de R$ 100 milhões e afetando cerca de 200 pesquisas científicas. Entretanto, novas ameaças vêm sendo feitas contra outras instituições de ensino país afora 1.

Sob essa ótica, esses locais são frequentemente vistos pela ultradireita como polos de difusão de ideias progressistas ou de esquerda.

Embora a ideia seja fazer transparecer um sentimento de descontentamento em relação às manifestações estudantis, por conta das pretensões do candidato ultradireitista, se eleito for, quanto aos direitos do cidadão consagrados pela Constituição Federal de 1988, o que inclui a Educação pública e gratuita.

Porém, nas entrelinhas dos acontecimentos não se pode descartar que o tensionamento contra essas instituições seria uma forma de disputar a hegemonia cultural e conter a influência de discursos alinhados a blocos geopolíticos que não os EUA.

Ao enfraquecer ou deslegitimar a credibilidade dessas instituições, abre-se espaço para narrativas mais alinhadas ao pensamento liberal e de mercado tradicional estadunidense.

Além disso, a própria pauta de promover o desinvestimento na ciência e na educação superior pública indica qualquer despreocupação em relação à perda de autonomia científica.

O que significa que sem tecnologia própria, o país volta a ser um exportador de commodities e um importador de soluções tecnológicas, softwares e patentes concentradas no Hemisfério Norte.

Enquanto, do ponto de vista do avanço de modelos educacionais baseados em fundações privadas e corporações transnacionais de ensino, possibilita a importação do modelo corporativo estadunidense de educação, transformando o conhecimento em uma mercadoria alinhada à lógica de mercado deles.

Em linhas gerais, o que está posto sobre a mesa brasileira, nesse exato momento, é a escolha entre uma postura de autonomia e liderança regional ou de alinhamento com eixos tradicionais de poder. O reflexo dessa decisão poderá significar, portanto, o avanço ou o retrocesso para o povo brasileiro, incluindo as próprias elites herdeiras do velho colonialismo nacional.   

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Dizia Horácio, filósofo da Roma antiga, “Quando a casa do vizinho está pegando fogo, a minha casa está em perigo”.


Dizia Horácio, filósofo da Roma antiga, “Quando a casa do vizinho está pegando fogo, a minha casa está em perigo”.

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Por sorte, sem registro de feridos ou vítimas fatais, um incêndio de grandes proporções destruiu o antigo prédio da Diretoria de Inovação e Empreendedorismo (Dine) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), localizado na Cidade Universitária, na Zona Oeste do Recife, na noite de ontem. O fogo gerou um prejuízo estimado em R$ 100 milhões e causou a perda irreparável de cerca de 20 anos de pesquisas científicas acumuladas. Então, é preciso refletir...  

O domínio e o uso do fogo aconteceram durante a Idade da Pedra, há cerca de 2,5 a 3,3 milhões de anos, quando o Homo erectus aprendeu a criar chamas através do atrito de pedaços secos de madeira ou do choque entre pedras. Desde, então, o fogo tem sido um dos motores mais potentes da evolução, da cultura e do avanço tecnológico da humanidade, transformando profundamente a nossa relação com o meio ambiente e moldando o mundo contemporâneo.

Acontece que ele expressa a dualidade entre a criação e a destruição. Razão pela qual o mesmo elemento que iluminou a pré-história e permitiu o desenvolvimento cognitivo e social também atuou como um agente devastador de nossa própria memória. Ao longo dos séculos, grandes incêndios apagaram registros insubstituíveis, redesenhando o mapa do conhecimento e da cultura global.

Começando pela destruição da Biblioteca de Alexandria, no Egito. Talvez a perda cultural mais citada da história. Alexandria abrigava o maior centro de saber da Antiguidade, com centenas de milhares de rolos de papiro contendo obras de filosofia, matemática, astronomia e literatura.

Na verdade, sua destruição se deu por etapas, envolvendo o famoso incêndio acidental causado por Júlio César em 48 a.C. e ataques posteriores, até que o desaparecimento de seu acervo criou lacunas científicas e históricas que a humanidade levou séculos para tentar preencher.

Depois, o grande incêndio de Roma, em 64 d.C., durante o reinado do imperador Nero, quando o fogo consumiu 10 das 14 regiões da capital do Império Romano. Além da crise humanitária e política, as chamas destruíram templos antigos, palácios e incontáveis documentos oficiais, obras de arte gregas e registros históricos dos primeiros séculos de Roma, forçando uma reconstrução total da identidade urbana e arquitetônica da cidade.

Já no século XX, ocorreu a queima da Biblioteca de Lovaina, na Bélgica, em 1914 e 1940. Durante a Primeira Guerra Mundial, o exército alemão incendiou deliberadamente a biblioteca da Universidade de Lovaina, destruindo cerca de 300 mil livros e manuscritos medievais raros. Na Segunda Guerra Mundial, o local foi bombardeado e queimado novamente.

O episódio chocou o mundo e transformou-se no símbolo máximo do memoricídio moderno, ou seja, a destruição intencional do patrimônio cultural de um povo para apagar sua identidade.

Em 1992, o incêndio da Biblioteca Nacional de Sarajevo, durante a guerra da Bósnia. Nesse episódio, a biblioteca foi deliberadamente bombardeada por forças sérvias. Mais de 1,5 milhão de volumes, incluindo 155 mil obras raras e manuscritos islâmicos e cristãos medievais, viraram cinzas.

Cidadãos e bibliotecários arriscaram suas vidas sob fogo de atiradores de elite para tentar salvar os livros. A perda representou uma tentativa violenta de apagar a história da coexistência multiétnica da região.

Em 2018, no Brasil, o incêndio do Museu Nacional do Rio de Janeiro consumiu cerca de 90% de um acervo de 20 milhões de itens. Foram perdidos registros linguísticos e gravações de línguas indígenas já extintas, coleções egípcias e greco-romanas, além de fósseis únicos, como o crânio de Luzia, o mais antigo das Américas, posteriormente recuperado em partes.

Foi uma das maiores catástrofes arqueológicas e antropológicas contemporâneas. A fachada do palácio e o telhado foram totalmente recuperados e entregues como parte das celebrações do bicentenário da Independência do Brasil, em 2022.

Em dezembro de 2024, a instituição ganhou ainda mais relevância jurídica e cultural ao ser declarada Patrimônio Cultural Imaterial do estado do Rio de Janeiro. Mas, a reconstrução dos laboratórios de pesquisa e de toda a infraestrutura interna do prédio ainda continua acontecendo.

Contudo, as perdas em si trazidas pelo fogo não contam tudo, não estimulam por inteiro as reflexões que precisam se dar diante desses episódios terríveis. Os incêndios provocados por disputas geopolíticas e ideológicas moldaram a historicidade humana através do "bibliocídio", que significa a destruição deliberada ou colateral de acervos culturais para apagar a memória de povos conquistados e consolidar o poder de novos impérios.

Enquanto o fogo na base da civilização representou a criação e a sociabilidade, na guerra ele foi refinado como arma de aniquilação sociocultural. Mas, não é só isso. Incêndios em espaços de desenvolvimento científico e tecnológico, que sustentam pesquisas de elevado padrão intelectual, podem significar ameaças ao protagonismo de certas nações, de modo que precisam ser interrompidas, a partir de protocolos neoimperialistas.  

Afinal de contas, quando um país perde seus laboratórios de ponta, bancos de dados genéticos, acervos históricos ou protótipos tecnológicos por conta de sinistros, sejam eles acidentais ou fruto de sabotagem, o impacto vai muito além do prejuízo financeiro. Há uma interrupção abrupta do ritmo de inovação, o que pode atrasar uma nação em décadas e consolidar a dependência tecnológica em relação às potências globais.

Nesse sentido, a destruição de infraestruturas de pesquisa locais desestimula a permanência de cientistas de alto nível em seus países de origem, empurrando-os para centros de pesquisa estrangeiros mais seguros e financiados. O que potencializa a perda de soberania científica, impedindo que países em desenvolvimento criem soluções próprias para suas demandas, tais como vacinas, transição energética ou defesa, obrigando-os a importar pacotes tecnológicos fechados.

Além disso, é fundamental pensar que, no cenário contemporâneo, a segurança de um ecossistema científico não se limita a brigadas de incêndio tradicionais, mas exige blindagem contra ataques híbridos físicos e digitais que visam paralisar o avanço de concorrentes geopolíticos.

Dessa forma, a proteção física e digital de espaços de alta tecnologia não é apenas uma questão de infraestrutura ou de zeladoria patrimonial; é uma estratégia essencial de segurança nacional e de garantia da soberania intelectual frente às pressões externas.

Aliás, a Tragédia de Alcântara, o maior desastre do Programa Espacial Brasileiro, ocorrido em 2003 no Centro Espacial de Alcântara, no Maranhão, durante os preparativos finais da Operação São Luís que colocaria dois satélites brasileiros em órbita, eliminou, de uma só vez, cerca de um quinto de toda a equipe científica espacial do Brasil, paralisando o projeto do VLS por anos.

Se o programa brasileiro prosperasse, o país se tornaria um concorrente direto de grandes potências, especialmente do Centro Espacial de Kourou, na Guiana Francesa. Diante disso, teorias populares frequentemente apontam o envolvimento de agências estrangeiras, tais como a CIA estadunidense ou o serviço secreto francês, em uma suposta sabotagem por pulsos eletromagnéticos ou interferência eletrônica, apesar de o relatório oficial da Aeronáutica ter mantido o caso oficialmente encerrado como uma falha técnica trágica e acidental.

De qualquer forma, o fogo e os interesses geopolíticos desfrutam de uma relação importante, profunda, histórica e extremamente atual. O fogo deixou de ser apenas um fenômeno natural ou um desastre ambiental para se tornar uma ferramenta de poder, desestabilização econômica e disputa territorial no cenário global.

Haja vista as mudanças climáticas e a geopolítica do Ártico, em que o aumento das queimadas e dos incêndios florestais em regiões como a Sibéria (Rússia), Alasca (EUA) e norte do Canadá acelera o derretimento do solo congelado.

Assim, o recuo do gelo e o controle do fogo nessas regiões abrem novas rotas comerciais marítimas, como a Rota do Mar do Norte, e dão acesso a reservas gigantescas de petróleo, gás natural e minérios até então inacessíveis. Por isso, diferentes países disputam diretamente a hegemonia e a militarização dessa nova fronteira.

Do mesmo modo acontece na América do Sul, onde o fogo é historicamente utilizado como técnica de manejo da terra, mas frequentemente associado ao desmatamento ilegal para a expansão da agropecuária e da mineração.

Ou em conflitos recentes no Leste Europeu ou no Oriente Médio, em que o uso de incêndios provocados em campos de trigo e infraestruturas de energia visa desestabilizar a segurança alimentar e econômica de nações inteiras, forçando migrações em massa e alterando o equilíbrio de forças na região.

Portanto, o fogo não é só o fogo. Ele é o combustível da guerra, do conflito, da dominação, da exploração, da aculturação. Da pólvora às armas termobáricas, o domínio do fogo ditou quem venceria batalhas e quem seria subjugado, a partir da destruição das terras, vilas e plantações do inimigo, essa foi sempre foi uma tática cruel de submissão.

Fato que evoluiu para a ferramenta de dominação e exploração, em que o fogo industrial passou a alimentar as máquinas das potências coloniais. Pela queima do carvão e do petróleo, o fogo não apenas transformou a economia global, mas também estabeleceu uma hierarquia de poder baseada em quem controlava os recursos energéticos, muitas vezes à custa da exploração de povos e territórios vulneráveis.

E assim, o fogo alcança também o patamar da queima do imaterial. Ao longo da história, bibliotecas inteiras, templos, registros sagrados e línguas escritas de povos colonizados foram transformados em cinzas para apagar sua memória e impor uma nova cultura dominante. Portanto, quem controla o fogo, na maioria das vezes, tenta controlar a narrativa da história.

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

A cidadania brasileira e a Constituição de 1988


A cidadania brasileira e a Constituição de 1988

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Em tempos de uma ampla disseminação da Teologia da Prosperidade e da Teologia do Domínio, milhões de pessoas são levadas a acreditar e viver sob promessas que não se sustentam por si mesmas.

Surgida nos EUA, em meados do século XX, e ganhado força global nas décadas de 1970 e 1980, a Teologia da Prosperidade defende que Deus deseja ver seus fiéis ricos, saudáveis e felizes nesta vida, ou seja, ensina que doações financeiras, como dízimos e ofertas, funcionam como uma semente que garante o retorno material em dobro; sobretudo, quando se manifestados conjuntamente com palavras de decreto, visualização e exigência de bênçãos a Deus.

Também surgida nos EUA em meio a vertentes ultraconservadoras do protestantismo, entre as décadas de 1970 e 1980, a Teologia do Domínio defende que os cristãos devem ocupar e controlar as esferas de poder da sociedade, tais como a política, a economia, a cultura e a educação, para subordinar o Estado civil às leis e aos preceitos bíblicos. De modo que a sua presença vem se consolidando a partir de discursos de lideranças e agentes públicos que encaram mandatos políticos como missões espirituais para libertar a nação.

Então, decidi escrever a respeito, porque 05 de outubro marca a promulgação da Constituição de 1988, conhecida como “Constituição Cidadã”, a qual contou com a participação de 559 parlamentares titulares na Assembleia Nacional Constituinte, responsáveis por elaborar e aprovar o texto constitucional ao longo de 20 meses de trabalho, além de juristas e forte participação popular.

Foi a partir, então, dessa Carta Magna, que a população brasileira; sobretudo, as camadas mais frágeis e vulneráveis, teve garantidos seus direitos civis e sociais. Isso significa, por exemplo, o surgimento do Sistema Único de Saúde (SUS) que garantiu o acesso universal e gratuito à saúde como um direito de todos e dever do Estado.

Para quem não sabe, antes de 1988, apenas trabalhadores com carteira assinada tinham direito ao atendimento público de saúde através do antigo Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social (Inamps). Quem trabalhava na informalidade, desempregados ou sem carteira assinada não tinha direito ao atendimento pelo Inamps.

A Previdência Social Rural que permitiu a aposentadoria de trabalhadores rurais e agricultores familiares sem a necessidade de contribuição formal prévia, beneficiando diretamente milhões de idosos no interior do país e reduzindo a pobreza no campo.

O Benefício de Prestação Continuada (BPC) que garante um salário-mínimo mensal para pessoas com deficiência e idosos a partir de 65 anos que comprovem não possuir meios de prover a própria manutenção.

O amparo legal para a construção de políticas públicas de combate à pobreza e transferência de renda, quando em seu artigo 3º, inciso III, ela coloca expressamente que um dos objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil é erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais. Isso deu legitimidade jurídica irrefutável para que governos subsequentes criassem programas focados na redistribuição de renda.

O destaque para a educação e as ações afirmativas, na medida em que ela rompeu com o modelo anterior ao tratar a educação não apenas como um serviço, mas como um direito social fundamental de todos e um dever do Estado.

Assim, o artigo 205 definiu a educação como direito de todos e dever do Estado e da família, de modo que o não oferecimento do ensino obrigatório pelo poder público importa responsabilidade da autoridade competente.

Fato que garantiu o ensino fundamental gratuito e, com reformas posteriores baseadas em seus princípios, estendeu a obrigatoriedade da faixa dos 4 aos 17 anos.

Sem contar que o artigo 212 blindou os recursos da educação, obrigando a União a aplicar nunca menos de 18%, e Estados e Municípios no mínimo 25% da receita de impostos na manutenção e desenvolvimento do ensino.

Permitindo, então, organizar os sistemas de ensino de forma que os Municípios atuam prioritariamente no ensino fundamental e infantil, os Estados no ensino fundamental e médio, e a União coordena o sistema nacional e redistribui recursos para diminuir desigualdades regionais.

O que significou a base para a criação do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério (Fundef) e, posteriormente, do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb).

A promoção dos Direitos Civis e proteção de grupos vulneráveis. Haja vista o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA - 1990), que passou a enxergar crianças e adolescentes como sujeitos de direitos e prioridade absoluta do Estado, proibindo o trabalho infantil e criando os Conselhos Tutelares.

A Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006) e Lei do Feminicídio (Lei nº 13.104/2015), que foi tornado crime autônomo pela Lei nº 14.994/2024. Criando-se, então, mecanismos rigorosos para coibir e prevenir a violência doméstica e familiar contra a mulher, tipificando o assassinato de mulheres por razões de gênero; bem como, tipificando as diferentes formas de violência doméstica e familiar contra a mulher – física, psicológica, sexual, patrimonial e moral.

O Estatuto do Idoso (Lei nº 10.741/2003) e Estatuto da Pessoa com Deficiência (Lei nº 13.146/2015), que são legislações que asseguram direitos específicos de atendimento prioritário, acessibilidade, habitação e proteção contra o abandono e a violência.

A PEC das Domésticas (Emenda Constitucional nº 72, de 2013), que garantiu aos trabalhadores (as) domésticos (as), uma categoria historicamente vulnerável e majoritariamente feminina e negra, os mesmos direitos trabalhistas dos demais trabalhadores urbanos e rurais, como FGTS, hora extra e seguro-desemprego.

Os Direitos LGBTQIA+ materializadas por conquistas obtidas principalmente via Poder Judiciário, Supremo Tribunal Federal (STF), como o reconhecimento da união estável homoafetiva (2011), o direito à alteração de nome e gênero no registro civil para pessoas trans (2018) e a criminalização da homofobia e da transfobia (2019).

A Constituição de 1988 tornou o racismo um crime inafiançável e imprescritível. Então, a fim de formular políticas públicas para corrigir as desigualdades históricas que afetam a população negra, a Lei do Racismo (Lei nº 7.716/1989), o Estatuto da Igualdade Racial (Lei Federal nº 12.288, de 2010) e a Lei da Injúria Racial (Lei nº 14.532/2023) vem auxiliar nesse processo e contribuir para a criminalização do racismo, no Brasil.

No entanto, de repente, a partir da disseminação da Teologia da Prosperidade e do Domínio, dentro do país, vem se estabelecendo um debate contestatório aos avanços sociais promovidos pela Constituição Federal de 1988. A introdução de uma nova gramática moral e econômica no debate público tem desencadeado, portanto, um choque direto com o pacto social de 1988.

Sob essa ótica, políticas de redistribuição de renda ou assistência estatal têm sido vistas como incentivos à acomodação ou interferências indevidas na liberdade individual, esvaziando o conceito de solidariedade social garantido pela Constituição. Inclusive, havendo uma contestação aos avanços de direitos voltados a minorias políticas, igualdade de gênero e diversidade sexual.

Trata-se de uma concepção baseada, muitas vezes, no argumento de que os direitos sociais da Constituição de 1988 geraram um Estado inchado e ineficiente, unindo o conservadorismo moral ao ultraliberalismo econômico, necessitando desidratar certas garantias constitucionais por meio de reformas estruturais, sob a justificativa de que a austeridade e a moralização do Estado são o único caminho para a prosperidade da nação.

Em linhas gerais, a disseminação dessas ideologias propõe passar de um modelo de responsabilidade coletiva e direitos sociais garantidos pelo Estado para um modelo de mérito individual, moralismo religioso e mercado livre, colocando a Constituição de 1988 no centro de uma disputa civilizatória.

Porém, essa percepção se abstém, por completo, de considerar os pouco mais de 500 anos de história nacional, que estão sedimentados por todo tipo de desigualdades socioeconômicas. Nesse sentido, vale perguntar se a mudança de paradigma social poderia, de fato, ser resolvida pela lógica do mérito individual, do moralismo religioso e do livre mercado?  

Considerando que esses pouco mais de 500 anos de história brasileira, marcados por séculos de escravidão, colonialismo e exclusão marginal, geraram desigualdades estruturais tão profundas que impedem um ponto de partida igualitário, tal mudança não encontra respaldo.  

Ora, sem condições iniciais minimamente equilibradas, a meritocracia é vista como um conceito ilusório que apenas perpetua privilégios herdados. Daí a necessidade do Estado como um regulador indispensável para mitigar as falhas de mercado e proteger os mais vulneráveis.

Sem essa intervenção estatal, bens essenciais e serviços públicos básicos poderiam se tornar inacessíveis para grandes parcelas da população de baixa renda. Por isso não há como desconsiderar o passivo histórico de desigualdade, no Brasil.

Por essas e outras, quando a linha de chegada é a mesma, mas os pontos de partida são abissalmente diferentes, o sucesso dos que largaram no topo é legitimado como mérito próprio, enquanto o fracasso dos que largaram na base é tratado como falha pessoal. Fato que produz a chamada soberba meritocrática entre os vencedores e a humilhação social entre os que foram deixados para trás, perpetuando privilégios dinásticos disfarçados de competência.

É nesse contexto, então, que ignorar o peso da história ao avaliar o sucesso individual de um cidadão no Brasil é ignorar as barreiras invisíveis, apesar de perfeitamente mensuráveis, que moldam a trajetória de cada indivíduo.

Entende agora a importância da Constituição Federal de 1988? Políticas públicas compensatórias, tais como cotas, programas de transferência de renda e investimentos estruturais em periferias, não são distorções do mercado, mas sim tentativas de calibrar a balança para que a competição possa, algum dia, ser minimamente justa.

Assim, sempre que tiver dúvidas sobre o papel da Constituição de 1988, na sua vida e de todos os mais de 214 milhões de cidadãos brasileiros, sugiro ler e reler o poema OS ESTATUTOS DO HOMEM 1, de Thiago de Mello, escrito em 1964 em Santiago, no Chile, logo após o golpe militar no Brasil.

05 DE OUTUBRO - PROMULGAÇÃO DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL DE 1988


Segundo Bertolt Brecht, “Apenas quando somos instruídos pela realidade é que podemos mudá-la”. Acabo de descobrir que há controvérsias.


Segundo Bertolt Brecht, “Apenas quando somos instruídos pela realidade é que podemos mudá-la”. Acabo de descobrir que há controvérsias.

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Mais do que os enviesamentos e distorções que compuseram as análises das pesquisas eleitorais de 1º turno, no Brasil, esteve na incapacidade social em dissecar as camadas da realidade, o grande motivo da perplexidade diante dos resultados.

Ainda que 25,85% dos cidadãos brasileiros configurem o quadro de abstenções, votos nulos e brancos, isso é parte integrante daquilo que deve ser analisado por todo o coletivo social, em razão de que as ações individuais repercutem em desdobramentos amplos e plurais sobre todos.

De modo que foi impossível não pensar, logo de saída, na imagem do Domingo de Ramos na medida da ambivalência da condição humana e a subversão das estruturas de poder mundanas. Ao menos alguns daqueles que compuseram a multidão que aclamava o atual líder com palmas, dias depois, clamou por seu insucesso.

Expondo a fragilidade das convicções sociais e a facilidade com que o ser humano se rende à pressão do coletivo e ao medo. Demonstrando que a trajetória da verdade exige a travessia pelo sofrimento e pela rejeição.

E aí está o primeiro ponto importante, a alienação tecnológica. A despreocupação com os valores e princípios humanos, gerada pelo avanço tecnocientífico, se traduz pela deterioração e o esgarçamento da construção do pensamento ético humano. As telas têm tornado os indivíduos cada vez mais rasos e superficiais na medida em que a avalanche de informações por segundo impede qualquer reflexão e análise mais aprofundada.

É nesse movimento, então, que a política do medo surfa sem resistência. Em uma sociedade com o pensamento crítico enfraquecido e incapaz de aprofundar debates, o ambiente se torna o terreno ideal para a instalação do medo; pois, sem a resistência intelectual, discursos alarmistas, polarizadores e manipuladores proliferam facilmente, apelando diretamente ao emocional e ao instintivo, e não à razão.

Instalada a alienação, a farra das emendas parlamentares, conhecidas como Orçamento Secreto ou Emendas PIX, foi uma hábil construção para surfar, também, nessa onda. Inteligentemente, muitos dos representes no legislativo aproveitaram da dimensão continental do país para valerem-se das carências e necessidades do “Brasil profundo” e fortalecerem seus interesses pouco ou nada republicanos.

Considerando que inúmeros municípios pequenos e distantes dos grandes centros econômicos possuem baixa arrecadação própria e dependem quase inteiramente de repasses federais e estaduais para investimentos básicos, tais como ambulâncias, pavimentação ou reformas, ao direcionar esses recursos diretamente para prefeitos aliados nessas regiões, certos parlamentares consolidam seu capital político e garantem bases eleitorais fortes para as próximas eleições.

De modo que a distribuição nem sempre segue critérios técnicos de necessidade socioeconômica, mas sim critérios de conveniência política. O envio de emendas parlamentares de forma obscura tende a se tornar, então, uma nova versão do voto de cabresto no século XXI; posto que, prefeitos e lideranças regionais tornam-se excessivamente dependentes da liberação dessas emendas para realizar obras básicas, condicionando o apoio político e o direcionamento de votos daquela população nas eleições seguintes ao parlamentar padrinho da obra.

Acontece que essa práxis encontrou a resistência do Supremo Tribunal Federal (STF) que interveio em diferentes momentos, como no julgamento do fim do Orçamento Secreto, no final de 2022, e em decisões subsequentes exigindo maior transparência e rastreabilidade para as Emendas PIX, forçando o Congresso e o Executivo a renegociarem as regras de controle desses valores. Contudo, como se pode ver, o impacto foi consolidado. Haja vista, a composição do Legislativo que iniciará o mandato em 2027.  

Fato que abriu um conflito direto entre esses Poderes que foi amplificado e potencializado pelas narrativas da extrema-direita, que em todo o mundo, incluindo o Brasil, tem como propósito a desconstrução da Suprema Corte para implementar suas próprias leis.

Sob essa perspectiva, o questionamento sistemático das decisões judiciais e a tentativa de deslegitimar os tribunais buscam enfraquecer os mecanismos de freios e contrapesos, permitindo que maiorias políticas ou lideranças de vertente populista governem sem as amarras constitucionais.

Nesse sentido, a instrumentalização da alienação popular contribuiu significativamente para uma polarização profunda sobre os limites da autoridade de cada Poder da República na democracia moderna, onde a interpretação da Constituição e o escopo de atuação dos juízes se tornaram o centro de intensas disputas narrativas. Inclusive, descortinando os desvirtuamentos éticos da própria Suprema Corte.

Quando a população é alienada ou instrumentalizada por discursos simplistas, debates complexos sobre freios e contrapesos são reduzidos a uma lógica de nós contra eles, deixando de ser vista como uma atividade eminentemente jurídica e passando a ser tratada como um ato político.

Então, ao entrar no olho do furacão político, o comportamento dos magistrados passa por um escrutínio inédito, com críticas legítimas sobre a conduta ética de juízes, decisões monocráticas excessivas ou alinhamentos partidários, que se misturam aos ataques orquestrados que visam deslegitimar a própria instituição. Resultando no desgaste da autoridade moral que a Suprema Corte precisa para pacificar conflitos sociais.

E não bastasse todas essas questões, a geopolítica global contemporânea resgatou velhas ideologias para rivalizar e consolidar um novo padrão imperialista. O que fez do pleito eleitoral brasileiro um alvo de disputa importante.

A tal ponto que foi amplamente noticiada a intenção intervencionista estadunidense no processo, tanto pela mídia internacional e autoridades do cenário político dos EUA, quanto pesquisadores da área de relações internacionais.

Sim, todos eles relataram um posicionamento ativo de autoridades dos Estados Unidos em relação ao pleito brasileiro, focado principalmente em desestimular tentativas de ruptura institucional e garantir um resultado legitimo das urnas.

Também, duas cartas foram enviadas recentemente ao Secretário de Estado dos EUA, por parlamentares estadunidenses do Partido Democrata e independentes, alertando sobre o risco de interferência do governo dos EUA nas eleições presidenciais do Brasil. Fato que reflete como a estabilidade democrática do Brasil e o seu alinhamento externo são estratégicos para o cenário internacional.

Mas, apesar de todos esses apontamentos, o que resta claro e límpido com o resultado do 1º turno eleitoral é o que rege a essência da identidade cidadã brasileira. A subserviência colonial é muito mais profunda do que se acreditava.

Estender bandeiras estrangeiras em atos cívicos nacionais, compactuar publicamente com o entreguismo nacional, defender a opressão e a tirania de entes internacionais, reafirma que os 526 anos de história construíram esse tipo de identidade entre muitos dos que se dizem brasileiros (as).

Não restam dúvidas de que, sob essa ótica, parte da população e das elites priorizaria agendas externas em detrimento do desenvolvimento autônomo e da valorização da própria cultura e soberania.

Infelizmente, o passado colonial ainda molda as escolhas e decisões políticas do presente. Como se essas pessoas abdicassem voluntariamente da própria responsabilidade e julgamento moral para seguir regras institucionais e ordens de uma autoridade estrangeira.

Assim, o que parece uma submissão voluntária é, na verdade, a fusão de uma estrutura psicológica de obediência à autoridade com as sequelas culturais de um passado colonial, que condiciona o indivíduo a achar mais seguro seguir regras prontas do que assumir o risco da soberania e da autonomia.

Acontece que esse movimento implica em custos e riscos inimagináveis, inclusive, capazes de levar a um retrocesso secular. A busca por essa pseudossegurança de um tutor ou de um sistema autoritário cobra um preço altíssimo.

Quando uma sociedade renuncia coletivamente à sua autonomia, à sua soberania, em troca de uma pseudoestabilidade ou ordens rígidas, ela pavimenta o caminho para o autoritarismo. De modo que as instituições democráticas e o pensamento crítico levam gerações a serem construídos a partir de uma percepção na qual se prefere a servidão confortável ao risco da liberdade.

Bem, já dizia Demócrito, filósofo grego, “Na realidade, não conhecemos nada, pois a verdade está no íntimo”. Por isso, os 125.275.835 eleitores que compareceram às urnas no primeiro turno das eleições de 2026, a partir das suas escolhas representativas, descontruíram por completo seus discursos inflamados contra à corrupção, o tráfico de influências, o suborno, o peculato, o nepotismo, a fraude em licitações, às vantagens ilícitas ou favores pessoais, à violência, às facções criminosas.

É, questões tão amplamente publicizadas nos últimos tempos no país, de repente, se mostraram invisíveis e inertes a qualquer desconforto ou incômodo social, por parte de uma parcela significativa de eleitores (as) que foram às urnas.

O fato de escolherem candidatos sob escrutínio público refletiu um cenário onde a avaliação de fatos estarrecedores e eticamente deploráveis, pesou menos do que os parâmetros morais que devem guiar uma sociedade que almeja progresso e desenvolvimento.

Foi sim um voto cada vez mais baseado na rejeição a um determinado grupo político, a partir de voto útil ou defensivo; bem como, da abstenção eleitoral, fazendo com que o cidadão minimizasse questões éticas de seu candidato escolhido para evitar a vitória de um adversário que, na verdade, foi construído a partir de preconceitos que servem para manter ativa uma polarização política no país.  

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Como dizem, por aí, "algo de errado não está certo"!


Como dizem, por aí, "algo de errado não está certo"!

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Como já é de conhecimento público, EUA e a Austrália anunciaram, hoje, o fechamento de seus consulados no Brasil por questão de segurança.

Cheguei, inclusive, a pensar se os países que formam a tal coalizão internacional de segurança, militar e coordenação política liderada pelos EUA, denominada Escudo das Américas, iriam participar também.

Mas, as horas se passaram e nenhum outro país se manifestou a respeito. Diante do estranhamento me debrucei a pensar e alguns fatos são interessantes para a reflexão.

Há uma cidadã australiana, considerada a pessoa mais rica da Austrália, que é uma ferrenha defensora da agenda política do atual governo estadunidense, pertencendo a um grupo de mulheres influentes que apoiam o líder dos Republicanos.

Presença constante em eventos e celebrações na residência do presidente dos EUA em Mar-a-Lago, ela tornou-se uma das principais acionistas da mineradora australiana Brazilian Rare Earths (BRE), que coordena o Projeto Monte Alto, focado na exploração de uma gigantesca reserva de terras raras e urânio no Vale do Jiquiriçá, na Bahia.  

Inclusive, esse projeto tem gerado forte mobilização local e controvérsia devido ao impacto ambiental em áreas de preservação e à pressão sobre comunidades rurais para a venda de terrenos.

Mas, o ponto principal dessa história envolve a Rockbridge Network, uma organização conservadora americana cofundada pelo vice-presidente eleito dos EUA, cujas informações veiculadas pela mídia apontaram que essa rede e aliados do entorno do atual presidente dos EUA passaram a se articular politicamente no Brasil.

Candidatos e opositores no cenário eleitoral brasileiro chegaram a denunciar que esses movimentos e redes americanas buscam influenciar o cenário político do país para facilitar a concessão e a garantia de contratos bilionários de exploração de minerais estratégicos, como as terras raras da Bahia.

Por isso, dissipa a ideia de estranhamento, considerando que só EUA e Australia tenham, sem maiores esclarecimentos e robustas fundamentações, decidido suspender os seus atendimentos presenciais e serviços consulares no Brasil, nesta sexta-feira. Inclusive, porque o fechamento ocorre às vésperas do primeiro turno das eleições brasileiras.

Na realidade frenética e enovelada da contemporaneidade, não é possível analisar as informações de maneira rasa e superficial. Mais do que as linhas, é nas entrelinhas que as ideias emergem e descortinam as verdadeiras intenções. O que está na superfície costuma ser apenas a fachada. O sentido real opera nos bastidores do texto, da fala e da imagem.

É preciso entender que todo discurso nasce em uma época, lugar e cultura específicos. Desse modo, se debruçar a compreender o cenário ao redor da mensagem ajuda a perceber o que se encontra invisibilizado, oculto, omitido.

Não se pode esquecer de que o silêncio também comunica. Muitas vezes, o que é deliberadamente deixado de fora de uma narrativa é justamente o ponto mais crucial. Frente a um cenário saturado de dados, exercitar esse olhar investigativo deixa de ser apenas uma habilidade intelectual e passa a ser uma ferramenta de emancipação, de autonomia, de cidadania.

Como dizia Eduardo Galeano, escritor e jornalista uruguaio, “Somos o que fazemos, mas somos, principalmente, o que fazemos para mudar o que somos”. Quando transposta para a geopolítica e a história da América Latina, especialmente diante do neoimperialismo contemporâneo, essa citação se conecta diretamente com a tensão entre a dominação externa e a busca por soberania.

Enquanto o neoimperialismo contemporâneo opera fortemente no campo político-econômico, tentando fazer com que os povos colonizados aceitem a liderança das potências globais de forma passiva, a verdadeira essência latino-americana reside na sua capacidade de resistir, reinventar suas estruturas e lutar de forma autônoma para transformar sua própria realidade.

Os impérios de mídia e comunicação


Os impérios de mídia e comunicação

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

À revelia da vontade de uns e outros, por aí, o tempo não para na sua saga de metamorfose. Pensamentos, hábitos, costumes, quereres, vontades, ... são recortados e atravessados pela dinâmica contínua da vida. O que explica a necessidade de prestar atenção e se permitir abraçar as mudanças de cenário trazidas pela força das conjunturas.

Quando esses processos são acompanhados no seu fluxo, a ideia da surpresa se dissipa, tornando-se naturalizada. Mas, não é isso que temos visto em relação aos impérios de mídia e comunicação. Ais e uis surgem a todo instante, como se a perplexidade tivesse mesmo um lugar a ocupar.

De repente, pairou no ar a sensação de que esses impérios estão, cada vez mais, incapazes de esconder ou ofuscar a sua decadência, o seu declínio. A força conjuntural contemporânea se impõe de tal forma que esse movimento ocorre devido a um fenômeno histórico conhecido como a destruição criativa da tecnologia e a fragmentação do público. Quando a tecnologia muda se inicia o ciclo de declínio das lideranças tradicionais.

Bem, por décadas, o modelo de negócios dessas corporações baseou-se no monopólio da informação, permitindo-lhes moldar os rumos políticos e econômicos de nações inteiras.

Tradicionalmente, as grandes redes de TV, rádio e jornais impressos decidiam o que era debatido publicamente, filtrando a realidade, de modo a marginalizar as pautas da cidadania popular para proteger interesses de elites econômicas.

Assim, a perda do monopólio dessa agenda deu o pontapé inicial para o processo que está em curso. Não há como negar que durante décadas, a capacidade de induzir crises políticas, inflar ou destruir candidaturas e chancelar regimes autoritários, por exemplo, gerou um passivo de desconfiança que desaguou na atual crise de credibilidade.

Afinal, eis que o surgimento e a ampla disseminação da internet e das redes sociais permitiram que a cidadania popular produzisse e distribuísse seu próprio conteúdo. A comunicação, antes unidirecional, de repente, tornou-se multidirecional.

De modo que os movimentos sociais e a população em geral passaram a identificar os vieses corporativos da velha e tradicional mídia, buscando fontes alternativas ou independentes de informação.

Além disso, a migração da publicidade para as plataformas de tecnologia asfixiou financeiramente os impérios de mídia e comunicação, forçando demissões em massa e o fechamento de muitos desses veículos.

Ao menos em tese, o declínio dos impérios de mídia e comunicação redesenhou a disputa pelo poder, transferindo o eixo do controle editorial das redações tradicionais para a arquitetura invisível dos algoritmos das plataformas digitais.

Digo isso, porque muitos deles ainda insistem em velhas práxis desalinhadas às demandas e à realidade atual. Haja vista, o modelo de debates eleitorais entre os pretensos candidatos aos cargos representativos nacionais.  

Não, não há como negar que o modelo atual de debate na TV se mostra engessado, com tempos rigidamente cronometrados, favorecendo respostas ensaiadas, frases de efeito e ataques pessoais em detrimento de uma discussão profunda de propostas, assemelhando-se a um fóssil analógico que tenta sobreviver na era do imediatismo digital.

Também há de se falar sobre a parcialidade ou o tom das perguntas feitas por jornalistas, de diferentes veículos de mídia e comunicação. É fácil perceber insinuações acusatórias ou escolha de temas tendenciosos, além de uma condução das regras que favorece ou prejudica determinados candidatos.

Tudo isso, à luz da contemporaneidade, evidencia com bastante propriedade que esse formato engaja menos o público jovem, acostumado à dinâmica das redes sociais.

Sem contar que muitas vezes, essa estratégia tende a privilegiar a criação de recortes para a internet, com frases de efeito em detrimento de um debate profundo de propostas.

Algo que torna esse padrão ineficaz para o seu propósito original, que seria debater ideias e propostas para o desenvolvimento e o progresso do país e sua população.

De modo que a espetacularização do debate eleitoral em detrimento do conteúdo programático, no fim das contas, revela em cores fortes o declínio dos impérios de mídia e comunicação, a partir de uma crise de hegemonia no ecossistema de comunicação, com impactos profundos, inclusive no Brasil.

Agora, a comunicação está pulverizada por plataformas digitais e redes sociais. Nesses novos espaços de comunicação e dialogia, o algoritmo privilegia o conflito, a indignação e o espetáculo, em forma de recorte rápido, de lacração, de meme.

Afinal, essas reações geram mais tempo de tela, de interações e de monetização.  Portanto, o conteúdo programático que exige nuance, tempo e dados, acaba naturalmente desfavorecido por essa estrutura técnica.

Desse modo, enquanto os conglomerados tradicionais de comunicação enfrentam dificuldades financeiras e perda de audiência, as Big Techs tornam-se os novos impérios de mídia, moldando o debate eleitoral sem as amarras regulatórias ou o compromisso editorial que, teoricamente, balizavam a imprensa tradicional.

Sim, estamos diante também do declínio da qualidade deliberativa da democracia, impulsionado por um modelo de negócios tecnológico que lucra com o espetáculo e a polarização. Reconhecer esse processo é, portanto, fundamental.

Tentar criar bodes expiatórios para justificar o que não se quer admitir só piora a situação. Por mais que a pós-verdade esteja circulando por aí, a verdade sempre prevalece e se impõe; sobretudo, em momentos cruciais, decisivos.

Essa busca por culpados simplistas serve apenas como uma cortina de fumaça para evitar a autocrítica e o reconhecimento de falhas estruturais na sua própria capacidade de conduzir a realidade.

Assim, a decadência institucional e a profunda crise ética, moral e profissional vêm destruindo sistematicamente a audiência, a credibilidade e a confiança do público nos grandes impérios de mídia e comunicação.

Quando o compromisso com a verdade é substituído por interesses políticos ou econômicos, o jornalismo perde sua função social essencial e se transforma em mera propaganda, afastando o cidadão comum.

O que significa que essa ruptura de confiança só faz gerar uma fragmentação do debate público, onde a audiência busca alternativas fora dos canais tradicionais para tentar encontrar isenção.

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

O Sagrado e o Profano


O Sagrado e o Profano

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Infelizmente, temos diante dos sentidos a materialização da crise de ética pela mistura indigesta e despudorada entre o sagrado e o profano.

Assim, a fim de recapitular os termos, sagrado é aquilo que dá sentido, valor absoluto e fundamento à existência. Portanto, o sagrado está em templos e locais de culto, em cidades santas, em elementos da natureza, em livros, em objetos e ícones, em conceitos, pessoas e práticas.

Já o profano designa tudo o que pertence ao cotidiano, à rotina e ao mundo secular, situando-se fora do espaço sagrado ou religioso. Isso inclui as atividades rotineiras, os espaços públicos, o tempo cronológico e de trabalho, a música e a arte secular, a blasfêmia e as piadas religiosas, o vandalismo de símbolos sagrados, o uso inadequado de objetos litúrgicos e a quebra de tabus ou votos.

E se cada um deles, ao menos em tese, ocupa um espaço próprio, isso deveria indicar a existência de uma incompatibilidade em se devotar simultaneamente a ambos.  No entanto, quando saímos da teoria e observamos a história e o comportamento humano, essa incompatibilidade lógica se dissolve em uma complexa coexistência.

Primeiro, porque há uma permeabilidade das fronteiras, na qual eles não são estáticos; mas, delimitados pelo ser humano. Segundo, porque a raça humana está exposta ao sincretismo e a cultura popular.

Nesse sentido, a cultura popular utiliza o sincretismo para borrar as linhas entre o sagrado e o profano, provando que a fé e a festa, o rito e a vida cotidiana, fazem parte de uma mesma identidade cultural.

Haja vista, por exemplo, o Congado e o Moçambique que representam a devoção à Nossa Senhora do Rosário e a São Benedito, a partir da expressão cultural com forte herança de ritmos, tambores e cortejos reais africanos.

Acontece que a manifestação desses aspectos passa pela compartimentalização psíquica, ou seja, o ser humano possui a capacidade psicológica de transitar entre diferentes papéis sociais e sistemas de crenças sem experimentar uma crise de identidade permanente.

Nesse contexto, então, o indivíduo pode devotar-se ao sagrado em momentos de fragilidade, busca de sentido ou ritos comunitários, e guiar-se pela lógica profana no dia a dia, no trabalho e no consumo.

Inclusive, não se pode desconsiderar a existência de uma ambivalência do sagrado. Sim, por ser algo fora do comum, ele atrai o profano na medida em que o homem busca o sagrado justamente porque vive no profano. Desse modo, a simultaneidade não é necessariamente uma contradição, mas uma relação de necessidade mútua.

Contudo, o atual momento contemporâneo nacional expôs publicamente, a partir dos diversos veículos de mídia, notícias que materializam uma grave crise de ética pela mistura entre o sagrado e o profano, a partir de dois fenômenos importantes, a dessecularização e a instrumentalização da fé, os quais de certa forma explicam o retorno e o uso da religião no espaço público contemporâneo.

A dessecularização marca, então, o retorno da influência religiosa na sociedade, na cultura e na política, contrariando previsões históricas de que o mundo deveria ser totalmente ateu ou laico. Assim, ao contrário de desaparecer, as instituições e crenças religiosas ganharam um novo protagonismo na esfera pública e nas decisões políticas.

Quanto à instrumentalização da fé, ela ocorre quando líderes políticos, econômicos ou as próprias lideranças religiosas utilizam as crenças e os símbolos sagrados como uma ferramenta para alcançar objetivos mundanos, como poder, votos, dinheiro ou controle social.

Desse modo, a fé deixa de ser estritamente uma busca espiritual ou moral e passa a ser usada de forma estratégica para manipular as massas, validar os discursos ideológicos e/ou obter vantagens financeiras.

No entanto, esses dois fenômenos, que envolvem diretamente o sagrado e o profano, fazem emergir uma crise ética sem precedentes, porque rompem a fronteira entre as esferas pública e privada, esvaziando tanto a autonomia da moral laica quanto a integridade do próprio sentimento religioso.

Esse cenário possibilita a perda de um referencial moral absoluto; pois, a fé, que originalmente serve como um guia transcendental para a conduta humana, passa a ser moldada para justificar ações profanas como a corrupção, a exclusão social e a busca pelo poder, levando à destruição da autoridade moral da própria religião.

Fato que emerge em razão da relativização do bem e do mal. Ora, o que deveria ser universalmente ético torna-se utilitarista, de modo que o sagrado deixa de ser um fim em si mesmo e vira um meio de manipulação, permitindo que atitudes antiéticas passem a ser validadas e perdoadas sob o pretexto de estarem servindo a um propósito divino.

Diante disso, a fragmentação social e a polarização se consolidam a partir de uma instrumentalização que divide a sociedade entre santos e pecadores, inviabilizando o debate público baseado na razão e no bem comum. Perde-se, portanto, a ética da alteridade, do respeito ao outro, pelo fato de que essa é substituída pela demonização de quem pensa diferente.

Uma realidade que leva ao enfraquecimento das instituições laicas.  A justiça, a política e os direitos humanos deixam de se apoiar em leis universais e consensuais para depender de dogmas interpretados de forma conveniente por determinados grupos.

Por isso, a crise ética ao instrumentalizar a fé, possibilita ao ser humano retirar a transcendência do sagrado e a racionalidade do profano, deixando a sociedade sem nenhum norte moral seguro para guiar suas ações.

Sem a pureza ética da espiritualidade e sem a lucidez da razão crítica, a sociedade fica à mercê do relativismo de conveniência, onde as regras morais mudam conforme o interesse de quem está no poder. Para a democracia e a soberania nacional, os riscos são imensos.

O que significa que o adversário político deixa de ser um concorrente legítimo e passa a ser tratado como um inimigo a ser destruído. As leis e os direitos fundamentais passam a ser relativizados se não atenderem à narrativa do grupo que instrumentaliza a fé.

Por fim, as populações fragilizadas tornam-se alvos fáceis de manipulação, o que enfraquece a soberania popular, já que o voto e a opinião pública deixam de ser escolhas conscientes e passam a ser obrigações de rebanho.

Por essas e outras é preciso manter a fé protegida da manipulação política e a política guiada pela racionalidade laica, como as únicas formas de garantir que tanto a espiritualidade quanto a democracia possam coexistir de forma saudável.

Daí a necessidade de compreender que o Estado laico não é antirreligioso, mas sim neutro. Essa neutralidade garante que cidadãos de todas as crenças e os que não têm nenhuma sejam tratados com igualdade perante a lei, utilizando a razão e os direitos humanos como base comum para o diálogo.

É dessa forma que a laicidade protege a própria liberdade religiosa, assegurando que nenhuma fé majoritária use a máquina pública para suprimir ou discriminar minorias espirituais.