Mediocrizados
pela indiferença
Por Alessandra
Leles Rocha
"Se antes de cada ato nosso,
nos puséssemos a prever todas as consequências dele, a pensar nelas a sério,
primeiro as imediatas, depois as prováveis, depois as possíveis, depois as
imagináveis, não chegaríamos sequer a mover-nos de onde o primeiro pensamento
nos teria feito parar" (José Saramago 1).
Nada melhor do que essas palavras
para iniciar uma reflexão tão importante. A última semana no Brasil revelou
algo extremamente significante: há uma crise social de indiferença. O velho “tanto
fez como tanto faz” se mostra nos mínimos detalhes, por diferentes indivíduos;
embora, não pareça despertar suficientemente a atenção e a preocupação das
pessoas.
Quando alguém se predispõe a ser
ou a estar em determinado lugar social é preciso estar munido de uma consciência,
que passa diretamente pelo senso de capacidade e de conhecimento para tal.
Apesar de a condição humana impor
uma construção diária, a qual jamais será satisfeita plenamente, é nessa
experienciação, tanto intelectual quanto prática, que o indivíduo acumula o seu
lastro, a sua base existencial.
No entanto, como esses são tempos
frenéticos, instáveis, fluidos, há quem pense que essas questões estão fora de
moda, obsoletas ou que são totalmente dispensáveis. Só que não. A indiferença na
contemporaneidade tem trazido uma avalanche de situações estarrecedoras que não
se pode lançar sob o tapete.
São muitos os exemplos. Pessoas têm
morrido de maneira inesperada por negligência e despreparo de profissionais de
saúde tomados pela indiferença, que os desumaniza nos níveis mais inimaginados.
Pessoas correm atrás dos seus “15
minutos de fama” nas mídias sociais e nos veículos de informação e se
colocam a falar sobre assuntos os quais não dispõem de quaisquer mínimas fundamentações.
Falam. Despejam seus achismos e casuísmos, para tentar “lacrar” e conseguir
milhões de “likes” monetizantes.
Pessoas fazem uso de bebidas alcoólicas
e outras substâncias entorpecentes e saem dirigindo na contramão de seus
direitos e deveres, segundo as normas de trânsito. A sua indiferença transforma
seus carros em instrumentos de violência urbana, de desestruturação social.
Pessoas desprezam o papel da
educação, dissociando o conhecimento da construção do desenvolvimento e do progresso
da humanidade. Fazendo da sua indiferença um pilar de sustentação para o negacionismo
técnico-científico. Aliás, essa é uma indiferença que beira as raias da
cegueira, na medida em que ela confronta diretamente à realidade cotidiana quanto
aquilo que compõe o dia a dia contemporâneo, do mais simples ao mais complexo.
Acontece que muito dessa “groselha
verborrágica”, que se ouve e se vê continuamente através dos veículos de mídia,
compromete a segurança e o bem-estar das pessoas. Afinal, na vida tudo tem consequência!
E esse, certamente, é o ponto de reflexão mais importante sobre a crise de
indiferença social.
Por quê? Porque esse esquecimento
em relação às consequências nos coloca no centro da discussão. Não, não se
trata apenas da indiferença alheia, do outro; mas, da indiferença nossa de cada
dia.
Essa crise contemporânea expôs a
indisposição dos indivíduos em desejarem mostrar ao mundo o seu melhor em
termos de talentos, habilidades e competências. O mundo, agora, foi
mediocrizado pela indiferença.
Acontece que ela cria um ambiente
onde o suficiente ou o médio torna-se uma norma aceitável, tolerável. Esse
cenário gera, então, um ciclo vicioso, no qual a sociedade se torna
indiferente, os indivíduos escondem seu melhor e o mundo se torna cultural e
intelectualmente mais pobre.
Assim, cada um dos milhões de
seres humanos que andam por aí, quando se permite exercer a indiferença critica,
reflexiva e prática, no cotidiano, fortalece a reafirmação dessa crise. De modo
que tamanha indiferença abaixa o sarrafo da exigência e homogeneíza o
descompromisso social sob os mais diversos vieses e aspectos.
Ao se dispor à indiferença no mundo,
o indivíduo não deixa dúvidas quanto ao seu posicionamento a respeito dos
problemas, dos acontecimentos, de tudo aquilo que corta e atravessa o cotidiano.
Simplesmente, desnuda de maneira incontestável os seus valores, crenças e princípios.
Basta olhar para esse comportamento, então,
para entender que essa apatia voluntária do indivíduo funciona como um
anestésico social, criando a ilusão de que o problema não é urgente, não é importante.
De modo que tal normalização,
decorrente do silêncio que materializa a indiferença, faz com que os problemas
graves; sobretudo, aqueles que se arrastam historicamente, pareçam triviais ou
insolúveis. Aí está a pergunta que não quer calar: Se é assim, por que milhões
de seres humanos desejam um salvador da pátria?
A verdade é que essa figura
idealizada historicamente por muitos, não passa de mais um artifício da
indiferença. Esse pseudossalvador que promete respostas e soluções rápidas,
mágicas e centralizadas para situações extremamente complexas e difíceis, traduz
não só a desconexão com a realidade e suas demandas, como o seu próprio apreço
pela indiferença. Esse ser não se interessa por absolutamente nada. Ele é
indiferente a si, aos seus núcleos sociais, ao mundo, enfim.
Por isso, a raça humana tem
registrado o retrato do cachorro que corre atrás do próprio rabo. Ninguém sai
do lugar, ficando preso em um ciclo repetitivo. Esse retrato é o espelho de uma
humanidade que corre rápido, mas não sabe para onde vai. Nessa velocidade
individualista, a indiferença social torna-se o subproduto de um mundo que
esqueceu como olhar para o lado, para além do seu próprio umbigo.
De modo que a realidade contemporânea
reflete a indiferença pelo ativismo de sofá, sintetizando o engajamento
político ou social a partir da internet, de forma confortável e com esforço minimamente
prático. Como se houvesse um alívio na consciência na medida em que é gerada uma
sensação imediata de dever cumprido e pertencimento social; apesar de
desencadear um baixo impacto real, ou seja, raramente se traduz em mudanças
estruturais ou políticas públicas efetivas.
Portanto, não se deve esquecer as
palavras de George Bernard Shaw, dramaturgo, crítico, polemista e ativista
político irlandês, “O maior pecado para com os nossos semelhantes, não é
odiá-los mas sim tratá-los com indiferença; é a essência da desumanidade”.
Afinal de contas, enquanto o ódio
ainda confirma a existência do outro, mesmo que de forma bruta, violenta, a
indiferença o apaga do tecido social. A indiferença é o sintoma de uma
sociedade fraturada, onde a empatia foi conquistada pela funcionalidade e o
individualismo extremo cegou a consciência coletiva.
