segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Mediocrizados pela indiferença


Mediocrizados pela indiferença

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

"Se antes de cada ato nosso, nos puséssemos a prever todas as consequências dele, a pensar nelas a sério, primeiro as imediatas, depois as prováveis, depois as possíveis, depois as imagináveis, não chegaríamos sequer a mover-nos de onde o primeiro pensamento nos teria feito parar" (José Saramago 1).

Nada melhor do que essas palavras para iniciar uma reflexão tão importante. A última semana no Brasil revelou algo extremamente significante: há uma crise social de indiferença. O velho “tanto fez como tanto faz” se mostra nos mínimos detalhes, por diferentes indivíduos; embora, não pareça despertar suficientemente a atenção e a preocupação das pessoas.

Quando alguém se predispõe a ser ou a estar em determinado lugar social é preciso estar munido de uma consciência, que passa diretamente pelo senso de capacidade e de conhecimento para tal.

Apesar de a condição humana impor uma construção diária, a qual jamais será satisfeita plenamente, é nessa experienciação, tanto intelectual quanto prática, que o indivíduo acumula o seu lastro, a sua base existencial.

No entanto, como esses são tempos frenéticos, instáveis, fluidos, há quem pense que essas questões estão fora de moda, obsoletas ou que são totalmente dispensáveis. Só que não. A indiferença na contemporaneidade tem trazido uma avalanche de situações estarrecedoras que não se pode lançar sob o tapete.

São muitos os exemplos. Pessoas têm morrido de maneira inesperada por negligência e despreparo de profissionais de saúde tomados pela indiferença, que os desumaniza nos níveis mais inimaginados.

Pessoas correm atrás dos seus “15 minutos de fama” nas mídias sociais e nos veículos de informação e se colocam a falar sobre assuntos os quais não dispõem de quaisquer mínimas fundamentações. Falam. Despejam seus achismos e casuísmos, para tentar “lacrar” e conseguir milhões de “likes” monetizantes.

Pessoas fazem uso de bebidas alcoólicas e outras substâncias entorpecentes e saem dirigindo na contramão de seus direitos e deveres, segundo as normas de trânsito. A sua indiferença transforma seus carros em instrumentos de violência urbana, de desestruturação social.

Pessoas desprezam o papel da educação, dissociando o conhecimento da construção do desenvolvimento e do progresso da humanidade. Fazendo da sua indiferença um pilar de sustentação para o negacionismo técnico-científico. Aliás, essa é uma indiferença que beira as raias da cegueira, na medida em que ela confronta diretamente à realidade cotidiana quanto aquilo que compõe o dia a dia contemporâneo, do mais simples ao mais complexo.  

Acontece que muito dessa “groselha verborrágica”, que se ouve e se vê continuamente através dos veículos de mídia, compromete a segurança e o bem-estar das pessoas. Afinal, na vida tudo tem consequência! E esse, certamente, é o ponto de reflexão mais importante sobre a crise de indiferença social.

Por quê? Porque esse esquecimento em relação às consequências nos coloca no centro da discussão. Não, não se trata apenas da indiferença alheia, do outro; mas, da indiferença nossa de cada dia.

Essa crise contemporânea expôs a indisposição dos indivíduos em desejarem mostrar ao mundo o seu melhor em termos de talentos, habilidades e competências. O mundo, agora, foi mediocrizado pela indiferença.

Acontece que ela cria um ambiente onde o suficiente ou o médio torna-se uma norma aceitável, tolerável. Esse cenário gera, então, um ciclo vicioso, no qual a sociedade se torna indiferente, os indivíduos escondem seu melhor e o mundo se torna cultural e intelectualmente mais pobre.

Assim, cada um dos milhões de seres humanos que andam por aí, quando se permite exercer a indiferença critica, reflexiva e prática, no cotidiano, fortalece a reafirmação dessa crise. De modo que tamanha indiferença abaixa o sarrafo da exigência e homogeneíza o descompromisso social sob os mais diversos vieses e aspectos.

Ao se dispor à indiferença no mundo, o indivíduo não deixa dúvidas quanto ao seu posicionamento a respeito dos problemas, dos acontecimentos, de tudo aquilo que corta e atravessa o cotidiano. Simplesmente, desnuda de maneira incontestável os seus valores, crenças e princípios.  Basta olhar para esse comportamento, então, para entender que essa apatia voluntária do indivíduo funciona como um anestésico social, criando a ilusão de que o problema não é urgente, não é importante.  

De modo que tal normalização, decorrente do silêncio que materializa a indiferença, faz com que os problemas graves; sobretudo, aqueles que se arrastam historicamente, pareçam triviais ou insolúveis. Aí está a pergunta que não quer calar: Se é assim, por que milhões de seres humanos desejam um salvador da pátria?

A verdade é que essa figura idealizada historicamente por muitos, não passa de mais um artifício da indiferença. Esse pseudossalvador que promete respostas e soluções rápidas, mágicas e centralizadas para situações extremamente complexas e difíceis, traduz não só a desconexão com a realidade e suas demandas, como o seu próprio apreço pela indiferença. Esse ser não se interessa por absolutamente nada. Ele é indiferente a si, aos seus núcleos sociais, ao mundo, enfim.

Por isso, a raça humana tem registrado o retrato do cachorro que corre atrás do próprio rabo. Ninguém sai do lugar, ficando preso em um ciclo repetitivo. Esse retrato é o espelho de uma humanidade que corre rápido, mas não sabe para onde vai. Nessa velocidade individualista, a indiferença social torna-se o subproduto de um mundo que esqueceu como olhar para o lado, para além do seu próprio umbigo.

De modo que a realidade contemporânea reflete a indiferença pelo ativismo de sofá, sintetizando o engajamento político ou social a partir da internet, de forma confortável e com esforço minimamente prático. Como se houvesse um alívio na consciência na medida em que é gerada uma sensação imediata de dever cumprido e pertencimento social; apesar de desencadear um baixo impacto real, ou seja, raramente se traduz em mudanças estruturais ou políticas públicas efetivas.

Portanto, não se deve esquecer as palavras de George Bernard Shaw, dramaturgo, crítico, polemista e ativista político irlandês, “O maior pecado para com os nossos semelhantes, não é odiá-los mas sim tratá-los com indiferença; é a essência da desumanidade”.

Afinal de contas, enquanto o ódio ainda confirma a existência do outro, mesmo que de forma bruta, violenta, a indiferença o apaga do tecido social. A indiferença é o sintoma de uma sociedade fraturada, onde a empatia foi conquistada pela funcionalidade e o individualismo extremo cegou a consciência coletiva.



1 SARAMAGO, José. Ensaio sobre a cegueira. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.