Escolha
consciente, deliberação política e ética
Por
Alessandra Leles Rocha
Em 2019, eu escrevi o texto “Fomos
à Lua, e daí?” 1,
trazendo uma reflexão sobre o fato de que nem tudo o que nos encanta, nos
absorve a atenção, nos inebria os sentidos, de fato, tem um impacto positivo e
relevante sobre a transformação existencial humana.
Acontece que passados 7 anos, me
parece ainda mais intenso o processo de controle e manipulação social promovido
pela pós-verdade, no qual o cenário social em que os fatos objetivos e as
provas reais passa a ter menos peso na formação da opinião pública do que os
apelos à emoção e às crenças pessoais.
Um bom exemplo disso foram as discussões
acaloradas que se estabeleceram em relação à Lei Rouanet oficialmente Lei
Federal de Incentivo à Cultura nº 8.313/1991. Trata-se do principal mecanismo
do governo brasileiro para estimular investimentos privados no setor
cultural.
Com o projeto aprovado, o
proponente busca empresas ou pessoas físicas para patrociná-lo, de modo que o
patrocinador investe seu próprio dinheiro no projeto e depois desconta parte ou
o todo desse valor do seu Imposto de Renda (IR) devido.
Portanto, os projetos submetidos
à Lei Rouanet passam obrigatoriamente por uma rigorosa análise técnica,
orçamentária e de conformidade legal realizada por analistas do Ministério da
Cultura antes de receberem autorização para captar recursos.
Eis que, de repente,
simultaneamente a todo esse burburinho escandaloso, emendas parlamentares,
ou seja, recursos do orçamento público que deputados e senadores podem
direcionar para obras, serviços e projetos em municípios e estados, passaram a
ser empregadas para financiar shows de determinados artistas país afora.
O que significa um visível desvirtuamento
orçamentário; visto que, deveria financiar obras, compras de equipamentos e projetos em
áreas como saúde, educação e infraestrutura, atendendo às demandas de suas
bases eleitorais.
Quem nunca ouviu falar da expressão
"pão e circo", cunhada pelo poeta romano Juvenal?! Na Roma antiga, a
fim de controlar a insatisfação popular e evitar rebeliões, os governantes
davam trigo de graça e espetáculos grandiosos, como lutas no Coliseu.
Acontece que esse conceito permanece
expressando exatamente a desassistência política, pois utiliza o entretenimento
e/ou a distribuição de alimentos básicos para desviar a atenção do povo dos
problemas sociais reais.
Nesse contexto, então, o pão e
circo é, na figura do mau uso das emendas parlamentares, uma construção
político-ideológica de alienação popular que não rompe com as correntes e
amarras das desigualdades históricas que afligem determinadas sociedades. O
fornecimento de alimentos básicos ou de entretenimento “gratuito” de massa, não
soluciona os problemas que afetam o cotidiano de milhares de pessoas.
O que chama atenção, ou pelo
menos deveria, é o fato de que muitos desses artistas não se constrangem em se
tornar instrumentos dentro desse conceito do “pão e circo", recebendo de
bom grado os cachês milionários pagos com recursos públicos.
Vale lembrar que, alguns deles,
inclusive, adotam um discurso público de forte engajamento social, cobrando
investimentos em saúde, educação e segurança, enquanto padecem de uma clara percepção
de incoerência ética. Em muitos casos, o valor de um único show de poucas horas
consome uma fatia enorme do orçamento anual de um município carente de
saneamento básico, escolas, creches, enfim.
Além disso, quando se permitem
financiar majoritariamente por meio de verbas públicas municipais e estaduais,
o que significa sem depender de bilheteria ou incorrer no risco de mercado, esses
artistas perdem a sua autonomia de pensamento e de ação. Contrariando a ideia
de que historicamente o (a) artista deve manifestar a sua consciência crítica
em relação aos (des)caminhos do poder, ele (a) passa a ser financiado
diretamente por ele.
E não bastasse esse festival de
absurdos, dentro da construção de um cenário desvirtuado e desalinhado da realidade
factual, circula um discurso non sense de que a dívida do governo é a
grande responsável pelo endividamento do cidadão. Será mesmo?!
O recorde histórico de
endividamento das famílias brasileiras em 2026, segundo a Confederação Nacional
do Comércio (CNC) é impulsionado principalmente pelo uso massivo do cartão de
crédito, pelas elevadas taxas de juros, pela alta do custo de vida e pelo
avanço das apostas online.
Em relação ao uso do cartão de
crédito, há tempos que ele segue isolado como o grande vilão, devido ao peso do
crédito rotativo e aos juros anuais extremos.
Bem, o Brasil costuma subir sua
taxa básica de juros, a Selic, quando os juros sobem nos Estados Unidos, quando
há guerras que encarecem o petróleo e os alimentos no mundo ou quando os
investidores tiram dinheiro do país por medo.
Enquanto isso, há quem se
abstenha de quaisquer análises sobre a dívida pública estadunidense que
ultrapassou a marca histórica de US$ 40 trilhões em agosto de 2026,
impulsionada por juros elevados, cortes de impostos recentes e despesas
militares.
Afinal, essa elevação impacta
diretamente o aumento dos juros no Brasil por meio de um mecanismo global de
transmissão cambial, prêmio de risco e fuga de capitais. Por isso, para frear
essa inflação importada e tentar manter o país atraindo minimamente o
investidor estrangeiro, o Comitê de Política Monetária (Copom) é obrigado a
manter ou elevar a taxa Selic.
Algo que tende a criar uma pressão
sobre as despesas básicas do cidadão, como alimentação e moradia, obrigando
muitas famílias a usar limites bancários, com altas taxas de juros, para suprir
o consumo diário.
Contudo, agora, se vive sob o domínio
e a tirania de um novo vilão perigosíssimo: as apostas online. A negociação dos jogos
virtuais passou a comprometer uma parcela sensível do orçamento doméstico de
milhões de brasileiros.
O impacto mais severo acontece entre
classes de menor renda, onde boa parte dos apostadores gasta proporções
expressivas de ganhos modestos, como um a dois salários-mínimos, em jogos.
Desse modo, o vício (Ludopatia) e
o gasto descontrolado com as apostas online agravaram profundamente a
vulnerabilidade financeira do orçamento doméstico.
Como se pode ver, então, a busca
incessante por novidades tecnológicas e materiais não garante, por si só, um
avanço ético ou social para a humanidade. A construção de um mundo justo e
solidário depende de escolhas humanas, políticas e sociais, e não do lançamento
do próximo produto de mercado.
Por isso, celulares mais rápidos
ou inteligências artificiais avançadas, por exemplo, não resolvem
automaticamente a fome, o preconceito ou a solidão. O progresso técnico é
diferente do progresso ético. Um mundo cheio de novidades pode ser visualmente interessante,
mas esteticamente vazio e moralmente feio se ignorar a dignidade humana. Razão
pela qual eu preciso insistir com a pergunta: Fomos à Lua, e daí?
