quarta-feira, 30 de setembro de 2026

O Sagrado e o Profano


O Sagrado e o Profano

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Infelizmente, temos diante dos sentidos a materialização da crise de ética pela mistura indigesta e despudorada entre o sagrado e o profano.

Assim, a fim de recapitular os termos, sagrado é aquilo que dá sentido, valor absoluto e fundamento à existência. Portanto, o sagrado está em templos e locais de culto, em cidades santas, em elementos da natureza, em livros, em objetos e ícones, em conceitos, pessoas e práticas.

Já o profano designa tudo o que pertence ao cotidiano, à rotina e ao mundo secular, situando-se fora do espaço sagrado ou religioso. Isso inclui as atividades rotineiras, os espaços públicos, o tempo cronológico e de trabalho, a música e a arte secular, a blasfêmia e as piadas religiosas, o vandalismo de símbolos sagrados, o uso inadequado de objetos litúrgicos e a quebra de tabus ou votos.

E se cada um deles, ao menos em tese, ocupa um espaço próprio, isso deveria indicar a existência de uma incompatibilidade em se devotar simultaneamente a ambos.  No entanto, quando saímos da teoria e observamos a história e o comportamento humano, essa incompatibilidade lógica se dissolve em uma complexa coexistência.

Primeiro, porque há uma permeabilidade das fronteiras, na qual eles não são estáticos; mas, delimitados pelo ser humano. Segundo, porque a raça humana está exposta ao sincretismo e a cultura popular.

Nesse sentido, a cultura popular utiliza o sincretismo para borrar as linhas entre o sagrado e o profano, provando que a fé e a festa, o rito e a vida cotidiana, fazem parte de uma mesma identidade cultural.

Haja vista, por exemplo, o Congado e o Moçambique que representam a devoção à Nossa Senhora do Rosário e a São Benedito, a partir da expressão cultural com forte herança de ritmos, tambores e cortejos reais africanos.

Acontece que a manifestação desses aspectos passa pela compartimentalização psíquica, ou seja, o ser humano possui a capacidade psicológica de transitar entre diferentes papéis sociais e sistemas de crenças sem experimentar uma crise de identidade permanente.

Nesse contexto, então, o indivíduo pode devotar-se ao sagrado em momentos de fragilidade, busca de sentido ou ritos comunitários, e guiar-se pela lógica profana no dia a dia, no trabalho e no consumo.

Inclusive, não se pode desconsiderar a existência de uma ambivalência do sagrado. Sim, por ser algo fora do comum, ele atrai o profano na medida em que o homem busca o sagrado justamente porque vive no profano. Desse modo, a simultaneidade não é necessariamente uma contradição, mas uma relação de necessidade mútua.

Contudo, o atual momento contemporâneo nacional expôs publicamente, a partir dos diversos veículos de mídia, notícias que materializam uma grave crise de ética pela mistura entre o sagrado e o profano, a partir de dois fenômenos importantes, a dessecularização e a instrumentalização da fé, os quais de certa forma explicam o retorno e o uso da religião no espaço público contemporâneo.

A dessecularização marca, então, o retorno da influência religiosa na sociedade, na cultura e na política, contrariando previsões históricas de que o mundo deveria ser totalmente ateu ou laico. Assim, ao contrário de desaparecer, as instituições e crenças religiosas ganharam um novo protagonismo na esfera pública e nas decisões políticas.

Quanto à instrumentalização da fé, ela ocorre quando líderes políticos, econômicos ou as próprias lideranças religiosas utilizam as crenças e os símbolos sagrados como uma ferramenta para alcançar objetivos mundanos, como poder, votos, dinheiro ou controle social.

Desse modo, a fé deixa de ser estritamente uma busca espiritual ou moral e passa a ser usada de forma estratégica para manipular as massas, validar os discursos ideológicos e/ou obter vantagens financeiras.

No entanto, esses dois fenômenos, que envolvem diretamente o sagrado e o profano, fazem emergir uma crise ética sem precedentes, porque rompem a fronteira entre as esferas pública e privada, esvaziando tanto a autonomia da moral laica quanto a integridade do próprio sentimento religioso.

Esse cenário possibilita a perda de um referencial moral absoluto; pois, a fé, que originalmente serve como um guia transcendental para a conduta humana, passa a ser moldada para justificar ações profanas como a corrupção, a exclusão social e a busca pelo poder, levando à destruição da autoridade moral da própria religião.

Fato que emerge em razão da relativização do bem e do mal. Ora, o que deveria ser universalmente ético torna-se utilitarista, de modo que o sagrado deixa de ser um fim em si mesmo e vira um meio de manipulação, permitindo que atitudes antiéticas passem a ser validadas e perdoadas sob o pretexto de estarem servindo a um propósito divino.

Diante disso, a fragmentação social e a polarização se consolidam a partir de uma instrumentalização que divide a sociedade entre santos e pecadores, inviabilizando o debate público baseado na razão e no bem comum. Perde-se, portanto, a ética da alteridade, do respeito ao outro, pelo fato de que essa é substituída pela demonização de quem pensa diferente.

Uma realidade que leva ao enfraquecimento das instituições laicas.  A justiça, a política e os direitos humanos deixam de se apoiar em leis universais e consensuais para depender de dogmas interpretados de forma conveniente por determinados grupos.

Por isso, a crise ética ao instrumentalizar a fé, possibilita ao ser humano retirar a transcendência do sagrado e a racionalidade do profano, deixando a sociedade sem nenhum norte moral seguro para guiar suas ações.

Sem a pureza ética da espiritualidade e sem a lucidez da razão crítica, a sociedade fica à mercê do relativismo de conveniência, onde as regras morais mudam conforme o interesse de quem está no poder. Para a democracia e a soberania nacional, os riscos são imensos.

O que significa que o adversário político deixa de ser um concorrente legítimo e passa a ser tratado como um inimigo a ser destruído. As leis e os direitos fundamentais passam a ser relativizados se não atenderem à narrativa do grupo que instrumentaliza a fé.

Por fim, as populações fragilizadas tornam-se alvos fáceis de manipulação, o que enfraquece a soberania popular, já que o voto e a opinião pública deixam de ser escolhas conscientes e passam a ser obrigações de rebanho.

Por essas e outras é preciso manter a fé protegida da manipulação política e a política guiada pela racionalidade laica, como as únicas formas de garantir que tanto a espiritualidade quanto a democracia possam coexistir de forma saudável.

Daí a necessidade de compreender que o Estado laico não é antirreligioso, mas sim neutro. Essa neutralidade garante que cidadãos de todas as crenças e os que não têm nenhuma sejam tratados com igualdade perante a lei, utilizando a razão e os direitos humanos como base comum para o diálogo.

É dessa forma que a laicidade protege a própria liberdade religiosa, assegurando que nenhuma fé majoritária use a máquina pública para suprimir ou discriminar minorias espirituais.