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sexta-feira, 14 de agosto de 2026

LACRAÇÃO, LIKE e LUCRO. O caminho para a ruína da sociedade contemporânea.


LACRAÇÃO, LIKE e LUCRO. O caminho para a ruína da sociedade contemporânea.

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

O pó de pirlimpimpim contemporâneo parece ser LACRAÇÃO, LIKE e LUCRO. Só que não. Basta um mínimo de atenção aos veículos de informação para perceber que, além desse tripé ser totalmente incapaz de resolver os problemas do mundo, incluindo os seus, ele tem um potencial devastador de intensificá-los.

Infelizmente, a vida não é feita de soluções rápidas e superficiais. Atalhos nunca levam ninguém ao que se espera. Por isso, o cenário da monetização digital, que significa transformar conteúdo, tráfego, audiência ou presença na internet em receita financeira, não vai promover uma alteração substancial na realidade contemporânea.

Enquanto chuvas torrenciais assolam o território japonês, incêndios florestais arrasam com a Europa e os EUA, sem que nada de efetivo possa ser feito para mudar o cenário. Recentemente houve um terremoto na Venezuela, agora, outro aconteceu na Colômbia. Cientistas já afirmam que o super El Niño trará fome e escassez para grande parte do planeta nos próximos meses. Portanto, a dinâmica geoambiental do planeta se mostra alterada, colocando as incertezas no topo da lista. 

Gostemos ou não, tudo isso aponta para um processo de intensa desconstrução e reconstrução, sem fim. Por quê? Porque a contemporaneidade se esqueceu de que o ser humano é sempre o centro das ações e das preocupações.

Portanto, na medida em que a mercantilização e a monetização social assumiram o controle do cotidiano houve um inevitável apagamento e invisibilização dos indivíduos. Suas necessidades, carências, desafios, foram deixados de lado, à mercê da própria sorte.

Contudo, o ato de transformar direitos, relações ou bens sociais em produtos com preço de mercado ou de gerar ganho financeiro a partir de uma audiência, de uma rede de contatos ou do engajamento digital, não faz evaporar dos veículos de comunicação e de informação as estatísticas e os problemas socioeconômicos e ambientais que recortam a realidade contemporânea.  

O tripé dos três L citados acima é, portanto, somente uma cortina de fumaça para tentar esconder a ausência total de uma solução, de um plano para resolver as crises que afetam milhões de seres humanos todos os dias.  Sabe a velha história do cachorro correndo atrás do próprio rabo? É exatamente isso.

Apesar de triste e constrangedor é preciso admitir, as responsabilidades socioeconômicas e ambientais, sejam elas simples ou complexas, quase sempre, estão a cargo de pessoas despreparadas, carentes de competência, desprovidas de ética, que foram alocadas em posição de poder e se apropriaram dele, apesar de totalmente inaptas.

Aí, enquanto bilhões de pessoas se entretém nessa corrida frenética por LACRAÇÃO, LIKE e LUCRO, tentando desesperadamente capitalizar alguns vinténs e/ou ocupar um último lugar na fila do pertencimento social, o mundo continua girando, girando, girando ... Sem que as urgências e as emergências socioeconômicas e ambientais sejam resolvidas.

Sem que a pirâmide social deixe de exaltar uma base imensa e uma ínfima ponta, não deixando dúvidas de que as desigualdades permanecem cada vez mais inabaláveis. ...    

Além disso, não se pode esquecer que o tripé dos três L tem também promovido o apogeu do ódio, para amplificar ainda mais os rendimentos. Não entendeu? Esse ciclo gera engajamento extremo, aumenta a visualização de conteúdos polêmicos e converte reações raivosas e violentas em ganhos financeiros diretos para plataformas e criadores.

Por isso, com ou sem uma consciência formada a respeito, a sociedade contemporânea marcha rumo à banalização do mal, como já aconteceu em outros momentos da sua historicidade.

Considerando, então, que o mal não nasce necessariamente de um ódio profundo ou perversidade demoníaca, mas da incapacidade de pensar criticamente, esse é o grande perigo, porque qualquer indivíduo que abdique de sua consciência e julgamento moral pode perpetuar injustiças de forma mecânica e contínua.

Na verdade, pode estar contribuindo, nesse exato momento, para que as cortinas de fumaça facilitem a falência e o colapso da vida na Terra, dada a ausência de soluções para o recrudescimento dos problemas que já vigoram há séculos.

Lembremo-nos, então, das seguintes palavras do Chefe Seatle, líder dos povos Duwamish e Suquamish nos EUA, “O homem não tece a teia da vida; é antes um de seus fios. O que quer que faça a essa teia, faz a si próprio”.

Assim, a ação de um indivíduo reverbera no todo e retorna a ele próprio. Cada ato afeta o tecido social na sua totalidade, de modo que a ética deixa de ser apenas um dever entre humanos e passa a incluir o ambiente e o futuro do planeta.

sábado, 8 de agosto de 2026

A realidade contemporânea da coabitação multigeracional


A realidade contemporânea da coabitação multigeracional

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Apesar da raça humana ter iniciado a sua jornada sobre a Terra, vivendo coletivamente dentro de um mesmo espaço, sob um mesmo teto, a própria dinâmica social se impôs para promover um processo de desagregação dos grupos, para que os indivíduos pudessem desfrutar da sua autonomia e independência.

Então, no contexto do século XXI, quando muitos expressam o seu espanto ou indignação diante de gerações que estão compartilhando o seu cotidiano dentro de uma mesma casa, é preciso parar e refletir sobre as conjunturas que levaram a esse cenário social contemporâneo.

Queiramos ou não admitir, o desenvolvimento científico e tecnológico decorrente da Revolução Industrial, na segunda metade do século XVIII, teve sim um papel de arauto do progresso humano ao propagandear a sua possibilidade de existir e viver por conta própria. Acontece que na prática a teoria nem sempre se alinha dentro das perspectivas e expectativas.

Esse recorte histórico-temporal que viria mudar, para sempre, o curso da humanidade, gerou um sistema sociocultural e econômico tão engessado e limitante, quanto aquele que existia até a Revolução Francesa. O cenário que prometia a libertação humana pelo domínio da estrutura monárquica acabou criando novas formas de aprisionamento social.

Veja, a Revolução Industrial vendeu a ideia de emancipação total do homem através da máquina e da ciência; mas, na verdade, o ser humano deixou de ser refém das intempéries da natureza para se tornar refém do relógio, da fábrica e do capital. Tanto que a arte, antes dominante sobre todo o processo produtivo, transformou-se em mera extensão da especialização industrial.

O direito de sangue da nobreza feudal foi substituído pelo poder financeiro da burguesia. Nesse sentido, a mobilidade social permaneceu severamente limitada a tal ponto que o trabalhador urbano se viu preso a jornadas de 16 horas e condições miseráveis, sem vias de fuga. Assim, o controle social mudou o soberano, ou seja, do Rei para o Mercado, mas uma estrutura de domínio e de desigualdade extremamente centralizada permaneceu.

E quanto mais o tempo passa mais esse sistema recrudesce, deteriorando de maneira bastante contundente quaisquer vestígios de autonomia e de independência dos indivíduos. Haja vista que, em 2026, a distribuição de renda e riqueza global continua em patamares de concentração extremos, com os 10% mais ricos detendo cerca de 75% da riqueza global e a metade mais pobre ficando com apenas 2%.

Isso significa que o mundo vem se tornando materialmente muito mais rico, porém o abismo absoluto entre os mais ricos e os mais pobres é concretamente maior do que no início da Revolução Industrial, por volta da segunda metade do século XVIII. Apesar de a pobreza extrema global ter decrescido dramaticamente em termos percentuais, a fatia da renda capturada pelo topo da pirâmide se mostra hiperconcentrada e distante de uma realidade ampliada.

Acontece que essa dinâmica do capital é que rege as possibilidades do exercício existencial autônomo e independente. Sem a suficiência de recursos não há eficiência para a construção das bases da dignidade humana. Daí o retrato de gerações familiares sendo obrigadas a viver sob um mesmo teto. Quem já leu sobre o dilema do porco-espinho, criado pelo filósofo alemão Arthur Schopenhauer em 1851, entende bem. Apesar de todos os desafios impostos pela diversidade e pluralidade humana essa coabitação multigeracional forçada é a única forma de sobreviver.

Ela, na verdade, representa uma válvula de escape econômico e uma rede de segurança privada diante dos altos custos de vida, da escassez de recursos e da financeirização da moradia dentro do capitalismo contemporâneo.

Nesse sentido, ela transferiu para o espaço doméstico o suporte que o Estado deixou de cumprir em relação ao bem-estar social liberal, o qual havia teoricamente prometido. O pior é que o sistema capitalista se beneficia dessa estrutura ao abafar o descontentamento social e reduzir a pressão por políticas públicas de habitação e seguridade.

Portanto, embora pareça uma resistência comunitária, trata-se de uma imposição que limita a mobilidade social e a autonomia individual das novas gerações. Fato que desencadeia uma série de consequências nefastas, tais como o estresse psicológico devido à falta de privacidade e choque de valores geracionais, a sobrecarga feminina traduzida pelo acúmulo do trabalho doméstico e de cuidado com as diversas gerações, e a manifestação de uma solidariedade compulsória, na qual o afeto e os laços familiares são instrumentalizados e desgastados pela pressão econômica externa.

Mas, talvez, a raça humana já esteja diante de uma fronteira social ainda pior. Ao redor do planeta existem milhares de famílias que já perderam o próprio teto em razão dessa dinâmica. Essa coabitação multigeracional está sendo forçada a viver nas ruas dos centros urbanos; sobretudo, as grandes e médias cidades.

O aumento do preço dos aluguéis e a escassez de moradia acessível forçam milhares de pessoas a viverem ao ar livre. Por consequência, os espaços urbanos sofrem com a falta de infraestrutura e políticas públicas para acolher essas populações vulneráveis. A perda do teto rompe, então, a rede de apoio familiar e gera graves riscos à saúde e à segurança humana, exigindo ações integradas de assistência social, saúde pública e planejamento urbano.

Segundo o Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos (ONU-Habitat), cerca de 318 milhões de pessoas enfrentam a falta absoluta de moradia no mundo, enquanto quase 3 bilhões sofrem com habitação inadequada, morando em favelas ou assentamentos informais. Esse cenário reflete as crises sistêmicas de desigualdade urbana, exigindo políticas públicas integradas de saneamento, saúde e planejamento territorial.

Afinal, a ausência de políticas integradas agrava múltiplos fatores de risco nos centros urbanos. A começar pelo fato de que a falta de teto isola o indivíduo e desestrutura os laços familiares e comunitários.

O que traz consequências significativas, tais como o agravamento do desequilíbrio em relação à saúde pública, dada a exposição contínua às intempéries, à poluição urbana e à falta de saneamento que dispara os índices de adoecimento físico e mental entre a população.

Fato que culmina na consolidação de ciclos de exclusão; pois, as respostas institucionais baseadas apenas na repressão ou em ações emergenciais de curto prazo falham em estancar o problema estrutural da pobreza e da indignidade humana.

Daí a necessidade de olhar para a vida como ela é. De se permitir a reflexão a respeito da submissão que constrói a alienação humana diante desse sistema socioeconômico estabelecido há pouco mais de 3 séculos, o qual só faz recrudescer as diversas barbáries sociais historicamente conhecidas. Porque a consciência é o primeiro passo para resistir à coisificação humana e se reposicionar como sujeito da própria história, se apropriando da condição de ser autônomo e independente.

quinta-feira, 30 de julho de 2026

A desumanização nossa de cada dia


A desumanização nossa de cada dia

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Não, não é preciso grandes acontecimentos para se deparar com a desumanização na contemporaneidade. Aqui, ali ou acolá, eles surgem para tirar ou negar a humanidade de uma pessoa ou de um grupo, fazendo com que a empatia desapareça, permitindo a indiferença, a violência e a falta de cuidado com as fragilidades e as vulnerabilidades do outro.

O que pouca gente se dá conta é de que a desumanização tem efeito coletivo, na medida em que qualquer um que esteja com os pés fincados no planeta pode ser a bola da vez. Afinal, esse processo se prolifera e se espalha diariamente, por todos os lugares. Cada um carrega consigo uma coletânea de desumanizações sofridas cotidianamente.

A raça humana tem convivido com a desumanização tecnológica e algorítmica, que diz respeito não só à redução de pessoas a meros dados, números ou avatares em redes sociais, como também pelo atendimento automatizado obrigatório que substitui o contato humano real por robôs.

Assim, essa substituição de pessoas por chatbots em bancos, comércios e serviços públicos ou privados, vem dificultando a solução de problemas complexos, em razão de três limitações principais, ou seja, a rigidez dos roteiros e falhas na interpretação de contexto, a incapacidade de lidar com emoções e a falta de empatia, e a ausência de integração com sistemas internos para exceções.

Tudo isso faz com que o (a) consumidor (a) precise explicar o mesmo caso várias vezes ao reiniciar a conversa ou passar por etapas automatizadas. Especialmente, porque o sistema automatizado muitas vezes não acessa o histórico completo ou os dados profundos de outras áreas da empresa para resolver a raiz da falha.

Em suma, ao contrário de agilizar, o robô atua como uma barreira burocrática que impede o acesso rápido a um profissional capacitado e gera no (a) cidadão (ã) um nível de estresse e de ansiedade descomunal.

Outra forma de desumanização é a burocrática e institucional. Expressa por um atendimento frio e demorado em serviços públicos ou privados de saúde e assistência, no qual o cidadão é exposto a um protocolo de filas intermináveis e soluções inacessíveis.

Suas consequências mais comuns são a transformação de pessoas em números, a perda de tempo com exigências desnecessárias ou equivocadas e o adoecimento emocional do cidadão. Mais uma vez, a desumanização repercutindo diretamente no bem-estar do indivíduo, a partir de quadros profundos de ansiedade, depressão, sensação de insignificância e esgotamento emocional.

Portanto, essa forma de desumanização decorrente das instituições que priorizam suas próprias regras internas ao contrário das necessidades reais das pessoas, torna o sistema mais importante que o (a) cidadão(ã) e o atendimento perde totalmente a empatia; pois, a burocracia vira o objetivo final, deixando de ser apenas um meio.

Nesse cenário, também, se estabelece o desamparo social, a partir da sensação de isolamento e de que ninguém se importa com o seu problema, da invisibilidade que reafirma ao indivíduo a perda da sua história e, desse modo, o torna apto a ser tratado apenas como um prontuário. Até que se chega ao mais absoluto esgotamento, decorrente de um cansaço físico promovido por Via Crucis de longas filas acrescida pelo estresse mental de não conseguir soluções.

Há, também, a desumanização social manifesta pela perda de valores éticos, da empatia e do reconhecimento do outro como ser humano. De repente, os indivíduos ou grupos são destituídos de sua condição humana, deixando de ser vistos como seres sociais. Como consequência se tem a manipulação das relações humanas, o colapso da coesão comunitária e o aumento da violência estrutural.

A realidade torna-se preenchida por uma perda da compaixão, permitindo que o sofrimento alheio passe a ser ignorado e encarado com apatia geral. O que permite dizer que há a naturalização do descaso, ou seja, as situações extremas, tais como a fome ou a falta de assistência médica, tornam-se banais e desimportantes. Possibilitando uma análise que se traduz pelo individualismo exacerbado, no qual a busca pelo ganho privado anula o senso de responsabilidade coletiva.

Sem contar o fato de que a desumanização social e o capitalismo dos corpos estão profundamente conectados pela transformação da vida humana em pura mercadoria, onde o corpo do cidadão deixa de ser um sujeito dotado de dignidade para se converter em instrumento de produção, exaustão e descarte.

Tem-se, então, que o sistema produtivo passe a exigir que o corpo funcione com a precisão de uma máquina, ignorando limites físicos, dores e necessidades emocionais em favor da alta produtividade.

Lembrando que essa exploração, em geral, se apoia em recortes de raça, gênero e classe para definir quais corpos merecem proteção e quais podem ser violentados ou superexplorados sem culpa institucional.

Aí, quando o corpo perde o vigor físico, o rendimento esperado ou a utilidade imediata para o lucro, ele é tratado como excedente ou lixo social, sendo invisibilizado ou abandonado à margem da insegurança social profunda.

O que explica porque é cada vez mais comum encontrar um panorama em que as populações desumanizadas apresentam um adoecimento generalizado, fruto de uma pressão contínua que gera fadiga crônica, sofrimento psíquico e colapso da saúde mental e física, tratados pelo mercado apenas como queda de rendimento, impulsionando o descarte dessas pessoas.

Há, portanto, uma normalização da barbárie. tendo em vista de que a lógica do ganho financeiro acima da vida naturaliza situações extremas de descaso com a integridade física e mental nas relações sociodemográficas.

Dizia Hanna Arendt, filósofa política alemã de origem judaica, “Vivemos tempos sombrios, onde as piores pessoas perderam o medo e as melhores perderam a esperança”. De fato, quando olhamos para a desumanização em suas diferentes formas e conteúdos, entendemos que há sim, uma inversão ética onde a audácia da crueldade substitui a prudência, enquanto a resistência apenas sucumbe ao desânimo.

Os pequenos poderes representam um comportamento em que os indivíduos usam uma autoridade pequena ou passageira para agir com excesso de poder, grosseria e controle sobre os outros.

Acontece que desse ponto de partida, os tiranos e oportunistas agem à luz do dia, transformando a violência e a mentira em práticas comuns e aceitas. Portanto, permitindo que as leis e as normas éticas deixem de ser respeitadas, a fim de que aqueles que cometam abusos não temam mais a violência ou a reprovação social.

Simplesmente, o que se tem é uma legitimação da ideia de que todos os indivíduos comuns que venham a executar ações cruéis, desumanas, sejam amparados pela certeza da impunidade ou pela força do grupo. Diante disso, o desalento tende a retirar, lenta e gradualmente, a força motriz necessária para a resistência cívica e a defesa da liberdade e da dignidade humana.

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Sempre é tempo de lutar contra as tiranias


Sempre é tempo de lutar contra as tiranias

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

14 de julho de 1789, eis a maior das marcas históricas, a Tomada da Bastilha, evento que deflagrou a Revolução Francesa. A prova de que a tirania monárquica podia ser desafiada. Se enganam os que pensam que essa história só diz respeito aos franceses. Não. Ela é importante para todos os seres humanos, desde então.

Por quê? Porque a tirania se manifesta de várias formas ao longo da história. Tiranos em todo o mundo ascendem prometendo segurança e ordem durante períodos de guerra, instabilidade econômica ou colapso social.

Aí, monopolizam a verdade, a partir da supressão de opiniões divergentes e por meio do controle da propaganda buscam ditar como a população deve pensar e agir.

Até que essa estrutura alcance o seu limite na expressão da desigualdade e da exclusão, tendo em vista de que esses regimes opressivos frequentemente se aproveitam de vulnerabilidades socioeconômicas para manter o poder e o controle nas mãos de poucos.

Então, apesar da Revolução Francesa ter cumprido um papel vital para a humanidade, era também impossível que ela, sozinha, conseguisse exterminar a tirania da face da Terra. Pois se trata de uma manifestação de poder que aparece desde os primórdios da civilização humana.

Sim, quando o indivíduo percebeu que poderia exercer o seu poder de forma ilegítima ou abusiva, frequentemente, se valendo da força e da supressão das liberdades individuais.

Nesse sentido, então, se torna possível compreender que a luta contra a tirania exige vigilância contínua, pois ela não se limita a isso ou aquilo, na medida em que ela permeia as relações sociais, locais e institucionais.

Portanto, essa resistência diária envolve questionar os abusos de autoridade, defender os direitos humanos e promover a participação cidadã, em relação aos mais diversos assuntos, em todas as esferas de poder.

Aí, se pensarmos que, lá no século XVIII, a Revolução Francesa promove uma luta contra a tirania monárquica em favor da sobrevivência das camadas mais frágeis e vulneráveis da população, eis que o século XXI, nos confronta com a necessidade de uma outra luta antitirânica diante do risco de colapso da espécie humana no planeta, decorrente não só do negacionismo científico; mas, da mesma ganância que sempre moveu a humanidade.

Portanto, precisamos falar sobre o Antropoceno, um conceito científico, proposto em 2000 pelo químico Paul Crutzen e pelo biólogo Eugene Stoermer, que descreve uma nova época geológica não oficial na qual as atividades humanas passaram a ser a principal força de alteração do clima e dos ecossistemas terrestres.

De modo que nesse cenário, a centralização, o domínio sobre a natureza e a lógica de apropriação dos recursos, iniciada com a Revolução Francesa, evoluiu para o modelo de produção capitalista predatório, no qual a tirania do capital e o produtivismo extremo vem explorando o planeta de forma insustentável e ameaçando a sobrevivência da humanidade; sobretudo, das parcelas mais frágeis e vulneráveis.

Basta olhar para a Islândia, para ver como o derretimento das geleiras e o impacto econômico e cultural já sinalizam como deve se processar o colapso socioambiental no planeta. O país já abriga o primeiro memorial global de geleiras extintas, atuando como um alerta sobre o futuro do clima na Terra. Razão pela qual o país é considerado um laboratório vivo das mudanças climáticas.

Portanto, a luta contra a tirania socioambiental, no século XXI, marcada pela exploração predatória e pela imposição de projetos que ignoram os limites ecológicos e a justiça social exige uma combinação de desobediência civil não violenta, de insurgências decoloniais, de ações diretas e de resistência comunitária e territorial; posto que o propósito dessas rebeldias é subverter as lógicas de poder hegemônico.

Isso significa, então, se posicionar a partir de ações que confrontem deliberadamente as normas administrativas para forçar governos e corporações a responderem à emergência planetária.

A apoiar os movimentos liderados por povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais que desafiam o modelo econômico de produtivismo extremo, recusando a mercantilização da natureza e reafirmando a cosmovisão de que o ambiente é um sujeito vivo e base de existência, e não mero recurso.

E a usar o sistema judicial para subverter a tirania corporativa e governamental, exigindo responsabilização por desastres decorrentes do Antropoceno.

Mas, também, na perspectiva individual, ao construir alternativas cotidianas de produção, tais como a agroecologia e a autogestão de recursos hídricos e florestais, cujas ações se contrapõem à apropriação privada de bens comuns.

Porque essa desobediência intelectual e cultural, que questiona a narrativa oficial de desenvolvimento a qualquer custo, valoriza o conhecimento tradicional e promove uma educação ambiental crítica, tão fundamentais no combate ao esgotamento ecológico e a crise civilizatória contemporânea.

Como se vê, não há como negar que há uma intersecção entre a desigualdade, o racismo ambiental e a crise climática para que haja a formulação dessas resistências. Desse modo, a história nos diz que o denominador comum entre a Revolução Francesa e a luta socioambiental contemporânea é a emancipação humana contra as tiranias que monopolizam a vida.

Em ambos os casos o que se tem é o enfrentamento às estruturas de poder que concentram recursos vitais, exigindo a democratização do acesso aos meios de sobrevivência. A crítica social e ambiental reconhece que a liberdade sem igualdade e sem fraternidade leva à exclusão e ao extermínio da própria espécie. 

sábado, 6 de junho de 2026

Colonialismo Químico


Colonialismo Químico

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

O impacto de duas notícias me fazem escrever esse texto, “Produtores de soja são acusados de intoxicar indígenas com agrotóxicos em Rondônia” 1 e “Sem a União Europeia, Brasil pode deixar de exportar quase US$ 2 bilhões ao ano em carnes; entenda” 2. Pode não parecer mas os assuntos apresentam um ponto em comum, as práxis produtivas brasileiras.

Não é de hoje que faço considerações a respeito do ranço colonial que afeta a dinâmica do desenvolvimento e do progresso brasileiro. Historicamente, as práticas de produção agrícola e animal brasileiras não envolvem uma preocupação real em relação à natureza dos processos empregados e seus impactos sobre a saúde do consumidor ou às diretrizes que envolvem o comércio exterior.

Por décadas, o modelo se baseou na expansão de fronteiras e na alta produtividade a curto prazo, priorizando a ocupação territorial e o volume de exportações em detrimento da sustentabilidade e das exigências sanitárias.

Haja vista, por exemplo, que o Brasil é um dos maiores consumidores mundiais de agrotóxicos, impulsionado pela extensão e intensidade de sua produção agrícola.

E isso acontece em razão do chamado Colonialismo Químico. Sim, grandes empresas do setor químico, com sede principalmente na Europa e nos EUA, produzem e exportam toneladas de pesticidas que não utilizam em seus próprios territórios, porque dispõem de amplo mercado consumidor em países em desenvolvimento, cujas legislações ambientais e sanitárias são, em geral, menos restritivas e/ou apresentam processos de avaliação mais demorados.

Por essa razão é que certos agrotóxicos continuam sendo amplamente utilizados no Brasil. É o caso, por exemplo, do glifosato, do mancozebe e da atrazina.

Apesar de enfrentarem fortes restrições ou terem sido proibidos no exterior devido a evidências científicas que os associam a riscos de contaminação da água, danos aos ecossistemas como, por exemplo, a morte de abelhas, e graves impactos à saúde humana, incluindo distúrbios hormonais e doenças neurológicas, lamentavelmente, eles fazem parte da realidade agrícola brasileira.

De modo que a utilização de substâncias banidas em outros países se mostra um verdadeiro desafio diplomático e comercial para o agronegócio brasileiro. Afinal, estamos falando de uma relação comercial completamente assimétrica.

Posto que o uso desses agrotóxicos no Sul Global, principal mercado consumidor desses produtos, resulta em alimentos produzidos com concentrações de compostos químicos superiores às permitidas para importação na Europa e nos EUA, por exemplo.

Assim, essas commodities agrícolas quando chegam ao mercado internacional, podem ser barradas por ultrapassarem os limites sanitários.

Fazendo com que o verdadeiro custo dessa assimetria recaia sobre os países produtores, na medida em que implica diretamente em riscos à saúde dos trabalhadores rurais, das comunidades locais próximas as áreas de produção, além da contaminação ambiental da água e do solo, enquanto os lucros da venda dos defensivos permanecem concentrados nas indústrias químicas estrangeiras.

Entretanto, apesar disso não se pode desconsiderar o fato de haver uma resistência por parte de muitos produtores agrícolas brasileiros quanto a promover mudanças radicais nas práticas de manejo, interrompendo o histórico ciclo do Colonialismo Químico.  

Isso se dá em razão dela derivar de fatores econômicos e estruturais. Ora, essas práticas têm um histórico de incentivos e subsídios no modelo agrícola nacional. E para superar essas barreiras, então, é necessário promover um novo alinhamento das políticas públicas com alternativas economicamente viáveis.

Veja, esse modelo amplamente dependente de agroquímicos é, muitas vezes, estruturalmente mais barato a curto prazo devido a isenções fiscais, tornando o processo de transição um desafio financeiro imediato para o produtor. Além disso, a falta de assistência técnica em larga escala para métodos regenerativos e agroecológicos tende a gerar insegurança no campo, por parte do produtor rural.  

Contudo, o principal obstáculo para uma transição ecológica, para o Manejo Integrado de Pragas (MIP) ou Controle Biológico, reside no enorme poder político e econômico das indústrias transnacionais de pesticidas e de sua base de apoio no Congresso Nacional.

A partir dessa conexão político-ideológica é que se garante a aprovação acelerada de defensivos químicos sintéticos, atrasando  as políticas de redução desse tipo de consumo, dificultando a expansão do manejo sustentável e ecológico.

Basta observar, por exemplo, como o modelo latifundiário exportador é altamente dependente desse tipo de produtos agroquímicos, facilitando a concentração de mercado para eles, e o modo como os legisladores vinculados à bancada ruralista atuam para enfraquecer o rigor de órgãos como Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) no processo de registro desses produtos.

Por isso, enquanto o Colonialismo Químico permanecer naturalizado e banalizado na cultura econômica brasileira, o país continuará não só em constante sobressalto, no campo do comércio exterior, como padecendo de um franco adoecimento socioambiental derivado da utilização de produtos agroquímicos nas sua produções de alimentos.

Portanto, continuar nessa histórica condição de servir como lixão e/ou vitrine para agrotóxicos e outros produtos químicos banidos no mercado internacional, reforça a desimportância que é dada à soberania nacional.

Primeiro, porque a dependência de insumos importados ou controlados por corporações estrangeiras drena recursos que poderiam ser investidos em tecnologia, pesquisa e desenvolvimento de alternativas nacionais, como os bioinsumos.

Segundo, porque há uma subalternização territorial, considerando que o país é tratado como depósito de lixo químico e área de sacrifícios, gerando contaminação dos recursos naturais e promovendo o adoecimento de populações rurais e urbanas.

Por fim, porque há um controle da produção na medida em que a dependência desses insumos enriquecedores das corporações estrangeiras subordina o modelo agrícola local às demandas externas, colocando em risco a autonomia alimentar e a saúde pública.

Como bem escreveu Eduardo Galeano, escritor e jornalista uruguaio, “Na alquimia colonial e neocolonial o ouro se transfigura em sucata, os alimentos em veneno”. Afinal de contas, essas palavras desnudam a realidade perversa e cruel, na qual o sistema de exploração, em curso na história da humanidade, faz da riqueza local um instrumento para gerar atraso e subdesenvolvimento ao invés de progresso e desenvolvimento real.

sexta-feira, 5 de junho de 2026

DIA MUNDIAL DO MEIO AMBIENTE


DIA MUNDIAL DO MEIO AMBIENTE

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Em 1972, quando a Organização das Nações Unidas (ONU) estabeleceu o dia 5 de junho como Dia Mundial do Meio Ambiente, o cenário conjuntural do planeta já trazia os primeiros grandes alertas de que os recursos naturais estavam se esgotando rapidamente, devido à poluição e à degradação ambiental.

Desse modo o objetivo principal dessa data foi e continua sendo criar uma plataforma de reflexão global e ação coletiva para combater os desafios críticos que assolam a sociedade contemporânea, tais como o aquecimento global, a perda de biodiversidade e a poluição em suas mais diferentes formas.

Acontece que discutir as questões ambientais por si só não me parece suficiente, na medida em que elas são cortadas e atravessadas por seres humanos diversos e plurais. Não, não existe possibilidade de um debate ecológico sem discutir raça, classe e/ou desigualdade social.

O maior desafio para a construção da sustentabilidade e da justiça socioambiental está na desumanização em curso. Considerando que ela muitas vezes impulsionada pela hiperdigitalização, pelo individualismo, pelas desigualdades econômicas extremas e pela mercantilização das relações, cria um cenário onde o outro passa a ser visto como um recurso ou obstáculo, produz um estado no qual o ser humano é despido dos seus direitos fundamentais e da sua dignidade.

Por isso, não é possível se falar de meio ambiente invisibilizando o papel da figura humana. Cada indivíduo é parte indissociável desse ecossistema, atuando tanto como agente de transformação e degradação quanto como peça central para a conservação e regeneração.

Diante disso, a partir do ano 2000, foi estabelecida a teoria do Antropoceno, pelo químico Paul Crutzen e pelo biólogo Eugene Stoermer, a qual sugere que a Terra saiu do Holoceno, um período de estabilidade climática dos últimos 11.000 anos e entrou em uma nova fase, cujo impacto coletivo humano é tão profundo que fica registrado nas camadas de sedimentos do planeta por milhões de anos.

Em linhas gerais, isso significa que a humanidade se tornou a principal força motriz de alteração dos sistemas climáticos, biológicos e geológicos da Terra.

Portanto, quaisquer medidas de contenção e mitigação dos impactos ambientais negativos não podem ser alcançados e efetivados sem que haja uma transformação direta do pensamento social contemporâneo. Esse é o pilar estrutural para reverter a crise ambiental que vive a Terra.

Sem que haja uma evolução na capacidade crítico-reflexiva do ser humano, capaz de fazê-lo evoluir da exploração desenvolvida, e em curso, para uma ética de responsabilidade coletiva e intergeracional, a sobrevivência do planeta estará sob risco permanente.

O que significa que é essencial reconstruir uma cidadania planetária, promovendo a alteração de hábitos e comportamentos desde a base, substituindo o modelo de extrair, produzir e descartar pela economia circular, forçando o mercado a adotar práticas mais limpas de natureza preservacionista e de sustentabilidade.

Veja, o propósito da economia circular é estender o ciclo de vida dos produtos, transformando resíduos em novas matérias-primas e maximizando a proteção de recursos naturais.

Assim, há um redesenho dos produtos para que sejam mais resistentes, simples de serem reciclados e feitos de materiais recicláveis. Bem como, uma diminuição do consumo de matéria-prima e energia na fabricação, gerando menos resíduos desde a origem, e possibilitando dar novas funções a produtos e peças, mantendo-os em uso pelo maior tempo possível.

No entanto, a sociedade contemporânea está tão ensimesmada no seu casulo de indiferença, desrespeito, falta de empatia e distante do seu instinto de sobrevivência, que o negacionismo científico tornou-se uma zona de conforto favorável à sua inércia quanto ao exercício cidadão e humanitário.

Esse contexto, então, expõe como o egoísmo narcísico e a desinformação paralisam o indivíduo, afastando-o da sua responsabilidade coletiva e da preservação da própria vida.

Isolados em suas bolhas digitais e preocupações exclusivas, os indivíduos perdem o sentimento de pertencimento a uma coletividade, o que dificulta o exercício da alteridade, ou seja, a capacidade de se colocar no lugar do outro.

Assim, a racionalidade egoísta e imediatista sufoca o instinto de autopreservação da espécie, uma vez que os fatos exigem uma visão de longo prazo e um esforço cooperativo, no qual a lógica individualista não consegue abarcar.

Diante desse cenário impulsionado pelo excesso de informações, pela polarização e pelo individualismo, cujo objetivo é levar não só ao isolamento e à priorização dos interesses privados em detrimento do bem-estar comunitário, tem-se o surgimento de uma dificuldade extrema de compreensão de perspectivas divergentes, bloqueando o diálogo e a construção de uma sociedade empática, humanitária e fraterna.  

Por essas e outras é que o DIA MUNDIAL DO MEIO AMBIENTE precisa se tornar um ponto de partida para se refletir sobre o modo como tudo isso gera uma perigosa inércia institucional e moral, onde a indiferença diante da vulnerabilidade socioambiental facilmente se torna normalizada.

Daí se tornar tão fundamental exigir que o debate abandone o campo meramente simbólico para proteger, de fato, contra as falhas sistêmicas que perpetuam a crise climática e social no planeta. 

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Consequências e desdobramentos da falta de fiscalização


Consequências e desdobramentos da falta de fiscalização

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Se eu tivesse que eleger uma palavra para sintetizar o imbróglio social brasileiro, configurado pelas promíscuas relações entre a corrupção, a lavagem de dinheiro e o crime organizado, seria FISCALIZAÇÃO.

Querendo ou não, o ato de fiscalizar traz para a realidade um alinhamento aos limites éticos, institucionais, sociais, preestabelecidos por normas, regras, protocolos, portarias e legislações.

Portanto, ele não se dá por pó de pirlimpimpim! Para que haja fiscalização é preciso indivíduos imbuídos dessa tarefa, preparados e competentes, o bastante, para cumpri-lo corretamente.

Acontece que a fiscalização, no Brasil, traz marcas históricas de patrimonialismo e interferência política, com raízes desde o Brasil Império.

Sim, historicamente, não há como negar que a estruturação de órgãos de controle sempre padeceu de dificuldades fundamentais e de pressão, resultando em episódios recorrentes de corrupção sistêmica, corporativismo e fragilidade institucional até a consolidação da democracia contemporânea.

De modo que diante da contemporaneidade em si, com todo o seu discurso sobre uma liberdade plena e irrestrita, eis que a fiscalização se tornou ainda mais esgarçada e desprezada no país. O que significa que essa desconexão recrudesceu a impunidade, a precarização dos direitos e a desinformação.

Infelizmente, essa falácia prejudica a regulação em múltiplos setores, onde o poder do Estado ora se torna excessivamente burocrático e oneroso para quem atua na legalidade, ora se mostra omisso diante de abusos, dificultando a coibição de crimes econômicos, ambientais e digitais.

Daí o fato de que muitos, quando ela é aplicada, acabam sendo convencidos de que a fiscalização é sinônimo de arbitrariedade, quando na verdade não é. Ela é somente um ato técnico, preventivo e corretivo, pautado na legalidade.

Diante da avalanche de escândalos que vive o Brasil, nesse momento, não deveríamos, então, nos surpreender com a dimensão dos fatos apresentados bem diante do nosso nariz.

Se por um lado a fiscalização permitiu descobrir o que estava acontecendo, por outro, o grande problema foi que essa descoberta chegou com tamanho atraso que a situação em si já estava fora de controle. Portanto, em algum ponto, em razão de alguém ou de alguéns, por esse ou aquele motivo, a fiscalização falhou.

Aí, então, bate uma sensação horrível de fracasso social. Porque a falta de fiscalização, infelizmente, reflete sim um ciclo vicioso que perpetua a impunidade e o descaso, como na velha história do cachorro correndo atrás do rabo, que não chega a lugar nenhum; mas, traz profundos prejuízos e uma reafirmação da histórica crise antiética nacional.

Começando pela exposição clara e contundente de que a ausência de controle abre portas para a corrupção, a sonegação fiscal e o desvio de verbas públicas. O dinheiro que deveria ser investido em serviços essenciais acaba perdido, gerando desigualdade e travando o desenvolvimento do país.

Como? Sem uma fiscalização rigorosa, as análises de serviços e gestores não são cobradas por padrões de excelência, resultando em infraestruturas precárias e serviços ineficientes.

Algo que torna a sociedade refém de tragédias evitáveis ​​e de riscos à vida, na medida em que a fiscalização frouxa permite, por exemplo, desastres ambientais, abusos trabalhistas e insegurança nas cidades.

É, não precisa ser nenhum gênio para entender que, quando as leis e as regulamentações são ignoradas, negligenciadas em suas consequências, cria-se o sentimento de que o crime compensa, e isso inevitavelmente enfraquece as instituições, corrompe a ética cidadã e desmotiva aqueles que agem corretamente.

Assim, lembremo-nos do que dizia Jean-Jacques Rousseau, filósofo, escritor e compositor genebrino, "Em política, tal como na moral, é um grande mal não fazer bem, e todo o cidadão inútil deve ser considerado um homem pernicioso".

Afinal, a omissão é tão prejudicial quanto à ação destrutiva. Aquele que se aliena da vida pública, que consome recursos sem gerar valor cívico, torna-se tóxico e nocivo porque a sua omissão enfraquece o respeito, a ética e a civilidade, permitindo que a corrupção e a desigualdade se fortaleçam e se perpetuem. 

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Desenvolvimento humano ...

Desenvolvimento humano ...

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

A notícia de que o Brasil atingiu em 2024 sua melhor marca histórica no Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM), chegando a 0,805 e ingressando pela primeira vez na faixa de muito alto desenvolvimento humano, apesar de importante, me trouxe um outro viés de reflexão. Quando a linguagem falha, a percepção humana precisa se apoiar na observação atenta e na intuição para captar a verdadeira essência das coisas, além da superfície dos discursos.

Nesse caso, por exemplo, desenvolvimento humano muito alto, segundo os especialistas quer dizer que a população de um país ou região desfruta de excelente qualidade de vida, ou seja, longa expectativa de vida ao nascer, elevados níveis de escolaridade e anos de estudo e boa distribuição de riqueza e alto Produto Interno Bruto (PIB) per capita.

Acontece que o desenvolvimento humano não é um mero conceito; mas, uma construção social que depende sobremaneira dos valores e princípios de cada um dos milhões de habitantes do planeta. Por isso, ele vai muito além das métricas econômicas, demandando uma compreensão a respeito de ser uma construção social viva, moldada diariamente pelas escolhas, valores e pela ética de cada indivíduo. De modo que cada ação, por menor que pareça, compõe a cultura e a direção da sociedade, influenciando a educação, a empatia e a justiça social.

Então, eu tenho feito continuamente a mesma pergunta, será que a humanidade tem realmente conseguido mostrar o seu desenvolvimento humano enquanto ser social? O avanço material nem sempre caminha lado a lado com a evolução empática, solidária e gregária. A ascensão de bolhas digitais, a intensa polarização política e a perpetuação das desigualdades demonstram que ainda se prioriza o bem-estar de grupos isolados em detrimento da comunidade global. Sem contar que diversos documentos institucionais e relatórios globais apontam que a distância entre países ricos e pobres aumentou nas últimas décadas.

A tal ponto que tem havido um esforço grandioso para transcender a mera sobrevivência biológica e abraçar uma responsabilidade social complexa; visto que, e ser humano necessita viver em grupo para se desenvolver sob todos os aspectos, mas o desafio atual é expandir essa noção de grupo para toda a humanidade e o meio ambiente.

Infelizmente, a priorização de grupos isolados entra em choque com o aspecto subjetivo do desenvolvimento humano, ou seja, a percepção de liberdade, realização pessoal, pertencimento e dignidade, que transcende o acúmulo material e exige equidade, interdependência e valores universais. Tanto que a própria Organização Mundial da Saúde (OMS) já reconheceu o impacto da falta de conexões globais e da solidão como ameaças à saúde pública, comprometendo a qualidade de vida geral.

Por isso, políticas focadas apenas na blindagem de minorias ricas ou grupos específicos, permitindo que grandes contingentes populacionais fiquem à margem dos benefícios sociais, vem recrudescendo os impeditivos para a consolidação de uma cidadania universal. Haja vista, como o aumento da xenofobia e das crises migratórias recrudesce os discursos nacionalistas e protecionistas levando ao fechamento de fronteiras, criminalização da migração e políticas de asilo restritivas, o que se torna um forte limitador do acesso aos direitos básicos.

Sem contar que tais discursos fortalecem a ascensão do extremismo e do autoritarismo, com o enfraquecimento das instituições democráticas em diversas nações, somado à ascensão de governos populistas, os quais promovem a violação sistêmica dos direitos fundamentais e o retrocesso de garantias civis e políticas. Inclusive, permitindo a relativização cultural dos direitos humanos, a partir de argumentos de soberania nacional ou particularismos culturais frequentemente instrumentalizados para justificar a supressão de direitos de minorias, mulheres e grupos LGBTQIA+, minando o conceito de que os direitos devem valer universalmente para todos.

Nesse contexto, então, ao pensar a respeito do desenvolvimento humano, na contemporaneidade, tem-se que o ser humano é confrontado com uma realidade perversa e cruel, na qual além da extrema concentração de renda e a precarização das relações de trabalho globais, impedindo que bilhões de pessoas acessem direitos elementares, como saúde, moradia e educação, existem guerras prolongadas e internacionais, em curso, gerando deslocamentos em massa e instalações onde o Estado de Direito deixa de existir, tornando a ideia de cidadania uma abstração distante para as populações atingidas.

O que significa que a raça humana está, portanto, ainda distante de consolidar de maneira plena o seu ideal de desenvolvimento humano, porque lhe falta humanidade, empatia, alteridade e solidariedade. Afinal de contas, ele não se mede apenas pelo avanço econômico, tecnológico ou material, mas pela capacidade da sociedade de garantir justiça social, acolhimento e liberdade. Ações práticas que conectam as pessoas, promovendo a cooperação e o cuidado mútuo para além de si mesmo, a partir do reconhecimento do outro como um ser legítimo, único e diferente de qualquer um. 


domingo, 29 de março de 2026

Nos vagões da história ...


Nos vagões da história ...

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Diante da dimensão que ganha o conflito entre os EUA/Israel e o Irã, de repente, não pude deixar de pensar nos tempos em que a vida transitava pelo fluxo das ferrovias.

Particularmente, eu não tive o privilégio de viajar de trem; mas, minha alma foi preenchida pelas histórias contadas pelos meus avós e minha mãe.

Lembranças que parecem embaladas pelo som do Trenzinho Caipira 1, o quarto movimento das Bachianas Brasileiras nº 2, de Heitor Villa-Lobos, que depois ganhou letra pelas mãos do poeta Ferreira Gullar, em 1978.

Contudo, escrever sobre os trens ajuda, de alguma forma, a desanuviar as preocupações atuais em relação ao petróleo. Afinal de contas, ao longo da história, as ferrovias experenciaram momentos distintos.

Começaram sua jornada com a utilização da lenha e do carvão mineral, nas máquinas a vapor, na Primeira Revolução Industrial. Depois veio o óleo diesel, que dominou a tração diesel-elétrica.

Atualmente, é na eletricidade que se concentra a principal fonte de energia para os trens de alta velocidade. Valendo destacar que as pesquisas em combustíveis renováveis para o setor já existem.

Em terras brasileiras, as ferrovias tiveram início com a Estrada de Ferro Mauá, em 1854, conectando o porto à serra de Petrópolis. A expansão foi impulsionada pela economia cafeeira, conectando áreas produtoras, especialmente São Paulo, aos portos. Transportavam-se viajantes e as cargas agrícolas.

No início do século XX, durante a República Velha, houve uma expansão acelerada, com a rede ferroviária superando 30.000 km, graças ao financiamento majoritário promovido por investimentos ingleses voltados para exportação.

Entretanto, por volta da segunda metade do século XX, o foco mudou para as rodovias, especialmente no governo do Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira, levando ao abandono e à estatização de muitas linhas ferroviárias.

Por quê? Simples. O imperialismo dos EUA. Isso significa que eles influenciaram, de maneira decisiva, a substituição do transporte ferroviário pelo rodoviário no Brasil, impulsionando o modelo das rodovias a partir de meados do século XX.

Uma mudança alinhada à política de progresso e desenvolvimento industrial, cujo objetivo principal era promover a dependência do petróleo e dos combustíveis fósseis; bem como, fortalecer a indústria automobilística e petroleira norte-americana na América Latina.

Nessa geopolítica do petróleo, então, o tipo de desenvolvimento atrelado ao consumo de combustíveis fósseis, tornou a infraestrutura brasileira vulnerável aos interesses externos e às variações nos preços internacionais do barril.

Sem contar que essa estratégia limitou o desenvolvimento de alternativas mais eficientes de transporte, como as ferrovias e as hidrovias, no Brasil, focando na circulação de riquezas baseadas no diesel e na gasolina.

Foi assim, então, que a priorização das rodovias levou à negligência sistemática da malha ferroviária brasileira. Elas que integravam o país desde o século XIX foram deixadas de lado por não apresentarem o mesmo apelo de progresso rápido ou visibilidade política imediata que as estradas de asfalto.

Nesse cenário, a escolha pelo caminhão como principal meio de transporte de cargas tornou o abastecimento nacional refém das flutuações do preço do petróleo e de crises externas.

Além disso, a má conservação das pistas não só aumenta o gasto com combustível e manutenção, elevando o preço final dos produtos para o consumidor, como contribui para a alta emissão de CO2 e substâncias atmosféricas, causando problemas de proteção e acelerando as mudanças climáticas, por conta do uso massivo dos motores a diesel.

E nessa toada, a concentração do transporte em rodovias resulta em altos índices de acidentes, roubos de carga e desgaste físico exaustivo para os motoristas brasileiros. Uma história que contraria o modelo desenvolvido dentro dos EUA.

Pois é, por lá se manteve uma malha ferroviária extensa e padronizada para cargas e viajantes. Assim, o cidadão tem opção de escolha de transporte para os seus deslocamentos; enquanto, produtores e comerciantes conseguem reduzir significativamente o custo de transporte das cargas por tonelada.

Por isso, diante do cenário contemporâneo; sobretudo, no pós-pandemia, o Brasil passou a intensificar as discussões e os projetos para a retomada do transporte ferroviário de cargas.

A ideia atual baseia-se em parcerias com o setor privado, incluindo a compra de novas locomotivas e renovações antecipadas de contratos de concessão.

Esse movimento busca conectar novas áreas de produção ao porto de Santos, otimizando o transporte de cargas de alto volume. Por isso, ela é tão estratégica para o Brasil, considerando que um dos maiores gargalos do país é o custo logístico.

Um país de dimensões continentais, a dependência quase exclusiva do modelo rodoviário mostra a sua ineficiência e ônus. Assim, um único trem pode substituir centenas de caminhões e facilitar a chegada de soja, milho e minério de ferro aos portos, tornando o produto brasileiro mais competitivo no mercado internacional.

Na perspectiva das rodovias, tal iniciativa permite reduzir a sobrecarga de tráfego, evitando gastos públicos com reparos asfálticos e acidentes, por exemplo, a emissão muito menor de CO2 por tonelada transportada, e o menor consumo de combustível por tonelada útil.  

Portanto, a retomada da malha ferroviária no Brasil surge como uma reparação histórica, no sentido de corrigir um desequilíbrio gerado pelo foco exclusivo no rodoviarismo, permitindo aumentar a competitividade econômica, a partir da redução de custos de transporte e a otimização do escoamento de cargas.