A realidade
contemporânea da coabitação multigeracional
Por Alessandra
Leles Rocha
Apesar da raça humana ter
iniciado a sua jornada sobre a Terra, vivendo coletivamente dentro de um mesmo
espaço, sob um mesmo teto, a própria dinâmica social se impôs para promover um
processo de desagregação dos grupos, para que os indivíduos pudessem desfrutar
da sua autonomia e independência.
Então, no contexto do século XXI,
quando muitos expressam o seu espanto ou indignação diante de gerações que
estão compartilhando o seu cotidiano dentro de uma mesma casa, é preciso parar
e refletir sobre as conjunturas que levaram a esse cenário social contemporâneo.
Queiramos ou não admitir, o
desenvolvimento científico e tecnológico decorrente da Revolução Industrial, na
segunda metade do século XVIII, teve sim um papel de arauto do progresso humano
ao propagandear a sua possibilidade de existir e viver por conta própria. Acontece
que na prática a teoria nem sempre se alinha dentro das perspectivas e
expectativas.
Esse recorte histórico-temporal
que viria mudar, para sempre, o curso da humanidade, gerou um sistema sociocultural
e econômico tão engessado e limitante, quanto aquele que existia até a
Revolução Francesa. O cenário que prometia a libertação humana pelo domínio da estrutura
monárquica acabou criando novas formas de aprisionamento social.
Veja, a Revolução Industrial
vendeu a ideia de emancipação total do homem através da máquina e da ciência;
mas, na verdade, o ser humano deixou de ser refém das intempéries da natureza
para se tornar refém do relógio, da fábrica e do capital. Tanto que a arte, antes
dominante sobre todo o processo produtivo, transformou-se em mera extensão da
especialização industrial.
O direito de sangue da nobreza
feudal foi substituído pelo poder financeiro da burguesia. Nesse sentido, a
mobilidade social permaneceu severamente limitada a tal ponto que o trabalhador
urbano se viu preso a jornadas de 16 horas e condições miseráveis, sem vias de
fuga. Assim, o controle social mudou o soberano, ou seja, do Rei para o Mercado,
mas uma estrutura de domínio e de desigualdade extremamente centralizada
permaneceu.
E quanto mais o tempo passa mais
esse sistema recrudesce, deteriorando de maneira bastante contundente quaisquer
vestígios de autonomia e de independência dos indivíduos. Haja vista que, em
2026, a distribuição de renda e riqueza global continua em patamares de
concentração extremos, com os 10% mais ricos detendo cerca de 75% da riqueza
global e a metade mais pobre ficando com apenas 2%.
Isso significa que o mundo vem se
tornando materialmente muito mais rico, porém o abismo absoluto entre os mais
ricos e os mais pobres é concretamente maior do que no início da Revolução
Industrial, por volta da segunda metade do século XVIII. Apesar de a pobreza
extrema global ter decrescido dramaticamente em termos percentuais, a fatia da
renda capturada pelo topo da pirâmide se mostra hiperconcentrada e distante de
uma realidade ampliada.
Acontece que essa dinâmica do
capital é que rege as possibilidades do exercício existencial autônomo e
independente. Sem a suficiência de recursos não há eficiência para a construção
das bases da dignidade humana. Daí o retrato de gerações familiares sendo
obrigadas a viver sob um mesmo teto. Quem já leu sobre o dilema do porco-espinho,
criado pelo filósofo alemão Arthur Schopenhauer em 1851, entende bem. Apesar de
todos os desafios impostos pela diversidade e pluralidade humana essa coabitação
multigeracional forçada é a única forma de sobreviver.
Ela, na verdade, representa uma
válvula de escape econômico e uma rede de segurança privada diante dos altos
custos de vida, da escassez de recursos e da financeirização da moradia dentro
do capitalismo contemporâneo.
Nesse sentido, ela transferiu
para o espaço doméstico o suporte que o Estado deixou de cumprir em relação ao bem-estar
social liberal, o qual havia teoricamente prometido. O pior é que o sistema
capitalista se beneficia dessa estrutura ao abafar o descontentamento social e
reduzir a pressão por políticas públicas de habitação e seguridade.
Portanto, embora pareça uma
resistência comunitária, trata-se de uma imposição que limita a mobilidade
social e a autonomia individual das novas gerações. Fato que desencadeia uma
série de consequências nefastas, tais como o estresse psicológico devido à
falta de privacidade e choque de valores geracionais, a sobrecarga feminina
traduzida pelo acúmulo do trabalho doméstico e de cuidado com as diversas
gerações, e a manifestação de uma solidariedade compulsória, na qual o afeto e
os laços familiares são instrumentalizados e desgastados pela pressão econômica
externa.
Mas, talvez, a raça humana já
esteja diante de uma fronteira social ainda pior. Ao redor do planeta existem
milhares de famílias que já perderam o próprio teto em razão dessa dinâmica. Essa
coabitação multigeracional está sendo forçada a viver nas ruas dos centros
urbanos; sobretudo, as grandes e médias cidades.
O aumento do preço dos aluguéis e
a escassez de moradia acessível forçam milhares de pessoas a viverem ao ar livre.
Por consequência, os espaços urbanos sofrem com a falta de infraestrutura e
políticas públicas para acolher essas populações vulneráveis. A perda do teto
rompe, então, a rede de apoio familiar e gera graves riscos à saúde e à
segurança humana, exigindo ações integradas de assistência social, saúde
pública e planejamento urbano.
Segundo o Programa das Nações
Unidas para os Assentamentos Humanos (ONU-Habitat), cerca de 318 milhões de
pessoas enfrentam a falta absoluta de moradia no mundo, enquanto quase 3
bilhões sofrem com habitação inadequada, morando em favelas ou assentamentos
informais. Esse cenário reflete as crises sistêmicas de desigualdade urbana,
exigindo políticas públicas integradas de saneamento, saúde e planejamento
territorial.
Afinal, a ausência de
políticas integradas agrava múltiplos fatores de risco nos centros urbanos.
A começar pelo fato de que a falta de teto isola o indivíduo e desestrutura os
laços familiares e comunitários.
O que traz consequências significativas,
tais como o agravamento do desequilíbrio em relação à saúde pública, dada a
exposição contínua às intempéries, à poluição urbana e à falta de saneamento
que dispara os índices de adoecimento físico e mental entre a população.
Fato que culmina na consolidação
de ciclos de exclusão; pois, as respostas institucionais baseadas apenas na
repressão ou em ações emergenciais de curto prazo falham em estancar o problema
estrutural da pobreza e da indignidade humana.
Daí a necessidade de olhar para a vida como ela é. De se permitir a reflexão a respeito da submissão que constrói a alienação humana diante desse sistema socioeconômico estabelecido há pouco mais de 3 séculos, o qual só faz recrudescer as diversas barbáries sociais historicamente conhecidas. Porque a consciência é o primeiro passo para resistir à coisificação humana e se reposicionar como sujeito da própria história, se apropriando da condição de ser autônomo e independente.
