sábado, 27 de fevereiro de 2021

O importante é...


O importante é...

 

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

 

Diante das notícias dos veículos de informação não posso deixar de pensar nas seguintes palavras do filósofo Jean-Paul Sartre, “O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós”. E a razão para isso é simples. Há uma indigesta indignação, por parte de uma considerável parcela da população, decorrente do modo como o governo brasileiro tem se comportado nessa Pandemia; sobretudo, no que diz respeito ao exercício de uma liderança sensata e humana.

Havia uma expectativa idealizada, a partir da normalidade que rege a envergadura dos altos postos de poder, que foi sumariamente destruída. O verniz sobre aquela ideia de que tudo dito antes, durante e depois da eleição de 2018 eram apenas “manifestações equivocadas”, “pequenos tropeços”, “brincadeiras de mau gosto”, “fanfarronices”, se esfacelou dando visibilidade a uma verdade constrangedora.

Não só pelo fato de descobrir que o país não tinha uma liderança, na medida exata e plena do que isso significa; mas, que incorreria em se submeter a constantes episódios de vergonha e total ausência de responsabilidade diplomática e social, ou seja, absurdos dentro e fora de suas fronteiras geográficas.

Mas, quando olho para o Brasil e vejo as pessoas se lamuriando e despendendo uma energia enorme sobre os custos dessa “carência governamental”, só me faz ter certeza da dimensão do pensamento colonial que reside em cada um. Esse pensamento renova um ranço de infantilidade, de dependência moral e tutorial de um regente que aponte como se deve pensar, agir, falar, fazer... típico de crianças incapazes de esboçar autonomia e autoralidade em cada seara do seu cotidiano.

O que é, no mínimo, estranho se pensarmos que esta já é a segunda década do século XXI. Que a sociedade já venceu a Modernidade e participa de uma Pós-Modernidade em que a emancipação e adultização dos seres humanos acontece cada vez mais cedo. Traços de um desejo de seguir os instintos da própria vontade, o qual não tem muita vocação para se sujeitar as imposições diretivas do mundo.   

Mas, enfim, esse é o cenário. Há quase um ano o país está à espera de uma voz que guie a população, coletivamente, por esse “tsunami sanitário” que se abateu sobre o planeta. Mesmo que, no fundo da alma, já soubesse dessa impossibilidade. A questão que não quer calar é por que? Por que precisamos de modelos a serem seguidos? Por que precisamos de alguém específico que nos reafirme o que já sabemos ser bom, ser útil, ser importante, ser necessário? Por que não cremos nos principais organismos de Saúde Pública do mundo? Por que?

Ao contrário dos argumentos que estendem essa necessidade aos grupos menos privilegiados e informados da sociedade, há milhares de pessoas nadando de braçada nas regalias e privilégios da vida, seguindo exatamente a trilha da desinformação e da negação por vontade própria. Um “efeito manada” para não destoar do grupo, não ser diferente, não perder a oportunidade de pertencimento, ainda que seja para estar em uma posição absolutamente equivocada da história.

O que significa que em quaisquer estratos da sociedade haverá pessoas que não se importam com o que é feito delas pelos seus próprios pares, a partir de sua própria anuência. Aí está a gravidade da situação. É como se o indivíduo tivesse se lançado em um abismo de desesperança tão profundo que ele perde a capacidade de lutar pela sua existência, pela sua sobrevivência, pela sua dignidade e valores humanos, e fica à mercê de alguém que lhe parece exercer alguma autoridade sobre sua vida.

Como era nos tempos do Brasil Colônia, a Metrópole era o cérebro de um corpo. Quando ela saiu de cena ele não sabia como pensar e seguir em frente. Se perdeu trocando passos à deriva. Então, essa parcela da população encarcerada nesse pensamento legitima o modelo de governança vigente; na medida em que ela não se importa com o que está fazendo dela própria. Ela se sente o espelho onde vê refletida a identidade do próprio governo e isso, então, lhe basta. Trata-se de uma relação de reciprocidade identitária tóxica.

Talvez, agora, diante de tudo o que está acontecendo e ainda está por vir, a sociedade brasileira promova uma ruptura com esse senso identitário. Não há excesso ou alarmismo em dizer que os caminhos levam o país ao fundo do poço, dessa vez. Portanto, as pessoas não terão muitas condições de se esquivarem das suas responsabilidades humanas, coletivas, institucionais; bem como, de todas as abstenções durante décadas de existência. Um dia a vida cobra a conta de tudo o que foi ou não. Simples assim.

Apesar de sermos únicos, impares, a vida é a imposição do coletivo. Entre nós há um etéreo laço de corresponsabilidades que nos une à revelia. Sendo assim, jamais se esqueça de que “A filosofia de uma pessoa não é melhor expressa em palavras; ela é expressa pelas escolhas que a pessoa faz. A longo prazo, moldamos nossas vidas e moldamos a nós mesmos. O processo nunca termina até que morramos. E, as escolhas que fizemos são, no final das contas, nossa própria responsabilidade” (Eleanor Roosevelt – Primeira-dama dos EUA, de 1933 a 1945).


sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

Balaio de gatos... entre miados e reflexões


Balaio de gatos... entre miados e reflexões

 

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

 

Balaio de gatos. É assim que a percepção da vida contemporânea parece se guiar. Entre futilidades e questões de altíssima relevância, a interpretação do ser humano não parece mais se conduzir por um fio condizente com os fatos. Há sempre uma tendenciosidade aqui, outra ali, uma interpretação enviesada, um jeito de forçar as coisas a caber dentro do contexto ... De modo que, no frigir dos ovos, há bem mais do que dois pesos e duas medidas.

Isso significa a urgência de se colocar as mãos na consciência e perceber o nível de responsabilidade que cada sujeito tem nesse processo. Parar de creditar na conta do acaso e entender, de uma vez por todas, que na vida o que existe são consequências, desdobramentos de nossas escolhas, por mais simples que pareçam ser. Portanto, é uma falácia, a posição vitimista que se tenta empregar sempre que alguma coisa acontece fora das expectativas idealizadas.

Dizia Mahatma Gandhi que “Um homem não pode fazer o certo numa área da vida, enquanto está ocupado em fazer o errado em outra. A vida é um todo indivisível”. No entanto, contrariando essa ideia é que milhões de pessoas vivem o seu cotidiano. Ranqueando os acontecimentos de uma maneira que possam ser justificados dentro de um balizamento de maior ou menor importância, de maior ou menor impacto, de maior ou menor gravidade, ... Só que isso não é verdade.

Amiúde as pessoas se indignam com a corrupção, o desrespeito, a incivilidade, a incompetência etc.etc.etc. Estão cobertas de razão? Sim. De fato, não faltam motivos. E a razão de se sentirem assim, significa terem consciência a respeito desde os níveis mais elementares até os mais complexos do dia a dia. Elas têm a devida dimensão dos limites que perpassam o certo e o errado, o bem e o mal.

Mas, eis que de repente, por algum motivo de natureza pessoal lhes emerge uma aflição incontida em dar asas a flexibilização interpretativa e começam a se colocar contemporizando, amenizando, atenuando a questão a fim de torná-la menos indigesta e/ou constrangedora aos olhos do mundo.  Acontece que ao agir assim, as pessoas abrem precedentes, rompem padrões e critérios, o que inevitavelmente coloca em risco a sua credibilidade, o seu senso de justiça, os seus parâmetros éticos e morais.

Um modo estranho de não destoar da massa, de pertencer ao coletivo, de encontrar respaldo para andar fora da linha? Talvez. Mas, o qual cobra um preço alto. Pode ser que por algum tempo o mundo não se dê conta. Porém, diante do espelho, no silêncio nosso de cada dia, cada um sabe o que fez nos verões passados. Sabe bem os riscos que se escondem ao se permitir repetir que “os fins justificam os meios”; afinal, a máxima serve para qualquer um, não tem exclusividade.

Então, pare por um instante e pense. Observe com atenção o que acontece nas esquinas do poder nacional e pergunte para si mesmo se tudo lhe parece normal e confortável. Seja íntegro e honesto na resposta; afinal, você está respondendo a si mesmo. Agora, repita o procedimento em relação ao seu contexto de entretenimento ou quaisquer outros parâmetros da sua existência social. A percepção é a mesma em ambos os casos? O modo de responder é o mesmo?

Infelizmente, o percentual de concordância costuma ser bem pequeno. Cada vez mais, a sociedade se perde em seus pesos e medidas. Como se houvesse um mundo de “deslizes” e outro de “DESLIZES”, que se aplica de maneira distinta para mim e para os demais. Cobra-se muito de seus pares, exigi-lhes uma correção absoluta, um comportamento exemplar; mas, para si ... o ser humano veste uma capa de humildade para criar uma imagem de humanidade, que pode falhar, errar porque ainda não está pronto.

Talvez, por tudo isso se expliquem as idas e vindas no seu discurso, a transitoriedade de suas narrativas. Às vezes, vaias, ais e uis. Em outras, esfuziantes aplausos e menções de apoio. Folhas de bananeira que pendem ao sabor dos ventos interesseiros. Estranha habilidade, capacidade de ver o mundo seletivamente.

Assim, sem limites, sem critérios, sem padrões a sociedade se perde e se compromete. Destrói lugares de fala enquanto ergue muros de conivência silenciosa. Aponta, diz, brada; mas, não age com efetividade porque no fundo reconhece o quão preso está ao vício de ceder as tentações e burlar os parâmetros. Não é à toa que Benjamin Franklin1 dizia, “Lembre-se não só de dizer a coisa certa no lugar certo, mas ainda muito mais difícil, de não dizer a coisa errada no momento de tentação”.



1 Político e fundador dos EUA (1706 – 1790). 

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Sobre catarses e expiações...


Sobre catarses e expiações...

 

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

 

Uma quarta-feira com cara de “Sábado de Aleluia”. Afinal, a “malhação do Judas” aconteceu na madrugada. A humanidade sendo a humanidade repete a sina de escolher seus “bodes expiatórios” para realizar a sua catarse. Uma pena que seja inútil essa tentativa, na medida em que os descaminhos teimam em se repetir e a tal “libertação” não alcança a profundidade e a complexidade verdadeiramente necessárias à transformação.

Tudo começa de o fato das pessoas insistirem em transferir seu ódio ou idolatria sem nenhuma reflexão. Elegem alguém ou alguma coisa e pronto. E ali começam a depositar uma avalanche de expectativas, muitas delas infundadas, que são incapazes de se alinhar ao que realmente sustenta e traduz o outro.

Ora, ninguém vive em um comercial de margarina! A existência humana é deveras desafiadora e complicada. Cada um carrega consigo uma bagagem pesada de acontecimentos e experiências que, quase sempre, implicam em marcas, em mágoas, em tristezas profundas, difíceis ao ponto de se converterem em algo melhor e mais produtivo.

Então, o que vem pesando cada vez mais nesse processo catártico é a imensa dificuldade dos seres humanos em lidarem com a realidade da vida. A escolha de um “Judas” é uma maneira de dissipar uma energia contida e que, na verdade, gostaria de ser atribuída a outras pessoas e coisas. Mas, como essas lhe parecem mais inatingíveis, mais difíceis, elas buscam uma via mais simples, um jeito mais cômodo para “exorcizar” esses seus fantasmas internos.

Sem contar, que isso lhes garante uma certa proteção, um certo distanciamento da sua própria responsabilidade naquilo que lhes trouxe tanto mal, tanto desconforto, tanta indignação ... Sim, esse “Judas” não deixa de ser um espelho que reflete o mais profundo de si mesmo, aquilo que se tenta esconder, encobrir, porque é sofrido confrontar. Como escreveu Caetano Veloso, “É que Narciso acha feio o que não é espelho”1.

E nesses que são tempos tão complexos, encarar à realidade não tem sido tarefa nada fácil. São muitas frentes de dor e de luta tanto do lado de fora quanto do lado de dentro da alma. Um momento ímpar de desconstrução e, ao mesmo tempo, de ressignificação da vida, das relações, das prioridades, das qualidades, dos defeitos; enfim... A vida está “fechada para balanço”, ainda que muitos resistam em admitir.

Essa é a hora de perceber a fragilidade e os riscos que se escondem nos “bodes expiatórios” cotidianos. Quem assistiu ao filme Rocky Balboa, de 2007, deve se lembrar dessa citação, “A vida não é sobre quão duro você é capaz de bater, mas sobre quão duro você é capaz de apanhar e continuar indo em frente. Ninguém baterá tão forte quanto a vida. Porém, não se trata de quão forte pode bater, se trata de quão forte pode ser atingido e continuar seguindo em frente”.

Transferir as suas insatisfações, as suas frustrações, a sua ira, o seu ódio, ou quaisquer outras emoções e sentimentos ruins, não vai mudar em absoluto o curso da história. Fazer algo assim é, simplesmente, “passar recibo” daquilo que você sente desconfortável em si mesmo e não tem a ousadia de enfrentar e mudar. Aí, você ao desqualificar, julgar, “malhar” o outro, você se esconde do mundo. Trata-se de uma tentativa simplista de autonegação, de autobanimento, sem exposição ou ranhura.

Além disso, há o fato de que se você faz do outro o alvo desse tipo de investida é líquido e certo que a reciprocidade exista. Não, não é só o outro que merece ser “punido” e “condenado”; você também. Na sociedade em que vivemos, as pessoas passam de algozes a vítimas em fração de segundos, porque todos são falíveis, todos erram, todos têm defeitos. Ninguém é mais ou menos na fila do pão.  

No fim, como escreveu Albert Camus 2, “O homem não é nada em si mesmo. Não passa de uma probabilidade infinita. Mas ele é o responsável infinito dessa probabilidade”. Portanto, desconsiderar esse aspecto nos faz retornar ao tempo das arenas romanas, em que o público se divertia, se comprazia com a violência contra os cristãos; como se estivessem em uma posição privilegiada, quando na verdade não estavam. As mazelas alheias, os defeitos alheios, não expiam os nossos. A catarse que se tem é meramente ilusão. A vida humana é algo pessoal e intransferível.  De modo que a sina que nos é imposta é a de buscarmos a melhoria e o aperfeiçoamento do que somos enquanto seres humanos. Uma proposta e tanto, diga-se de passagem! Que além de cobrar tempo, cobra foco, disciplina; mas, acima de tudo, consciência e reflexão humanitária.

 

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

A humanidade em estado de liquefação


A humanidade em estado de liquefação

 

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

 

Quando o sociólogo polonês Zygmunt Bauman teceu suas teorias e reflexões sobre uma Modernidade e seus amores “líquidos”, a vida pareceu bizarra demais. O pior é que ele estava certo; mas, talvez, um tanto quanto comedido para nos confrontar com algo mais assustador nesse processo. A liquefação das relações, a qual ele se referia, atingiu bem mais do que amores e paixões: atingiu o caráter, o bom senso, o respeito, a dignidade humana.

A máxima de que “os fins justificam os meios” nunca foi tão banalizada como agora. Seres humanos e sua humanidade não são computadas na lógica do cotidiano vigente. A mercantilização e sua precificação atingiram espectros inimaginados. Como se tudo e todos andassem com suas etiquetas e códigos de barras à mostra; mercadorias disponíveis nas vitrines da vida. Quem já leu o poema “Eu, etiqueta” 1, de Carlos Drummond de Andrade entende bem o que estou dizendo.

A dinâmica da existência humana está sendo regida pelos fins. Não há nenhum tipo de preocupação ou constrangimento se as decisões estão certas ou erradas, se são boas ou ruins, se irão resolver ou não ... Desde que atendam a interesses específicos de uns e outros, isso é o que importa. Não é sem razão que a vida perdeu seu valor. Olham-se uns para os outros em um nível de objetificação impressionante. Como se alguns valessem mais do que outros. Como “coisas” que podem ser facilmente substituídas. ...

De modo que nada parece conter esse processo; um certo automatismo tomou conta da humanidade em todos os seus vieses. A despreocupação com as consequências, com os desdobramentos de seus atos, é estarrecedora. Agem como se não houvesse amanhã, tomados por um imediatismo ensandecido e plenamente desumano. Passam por cima uns dos outros como verdadeiros rolos compressores.

O nível de volatilidade que se instalou no caráter, no bom senso, no respeito, na dignidade humana já ultrapassou qualquer padrão de tolerabilidade. As pessoas parecem desconhecer o significado desses valores e princípios, o que justifica pensar numa regressão aos primórdios da barbárie, quando tudo se restringia a Lei de Talião na rigorosa reciprocidade do crime e da pena, ou seja, “olho por olho, dente por dente”.

E, certamente, é isso que deveria nos chocar, nos impactar com o máximo de severidade. Perceber a que ponto a raça humana chegou pela sua hábil e competente capacidade de retrocesso. Apagando da memória um a um dos pontos que a levaram a ser diferente dos demais animais. Negando, sobretudo, as raízes da sua sensibilidade; o que significa ter se desconectado da sua compaixão, piedade, empatia, delicadeza, ternura ...

E isso, caro (a) leitor (a), não foi obra da Pandemia de Sars-Cov-2. Isso o vírus não pode levar como crédito da sua intempestiva ação destruidora. Já estava entre nós. Já fazia parte da nossa deterioração social. O que aconteceu foi, apenas, tornar-se mais visível, mais eloquente, quando os falsos pudores se esfacelaram diante das investidas do improvável.

A Pós-Pandemia será, portanto, o resultado de como esse processo irá reorganizar os escombros. Como a humanidade chegará ao final dessa hecatombe pandêmica tendo que enfrentar desafios de alto espectro dentro e fora de si mesma, por enquanto, não passa de especulação. Mas, uma coisa é fato, será essencial suturar todas as antigas feridas que se abriram nas suas relações sociais ao longo do tempo; bem como, digerir o que não foi digerido até aqui.

O que não significa se tratar de um movimento genuinamente natural, por conta de uma consciência real a respeito; mas, por demandas e conjunturas urgentes. A começar por um cansaço moral que paira sobre a humanidade e faz da coexistência um gigantesco emaranhado de fios desencapados prestes a entrar em curto. Em seguida, a impaciência com o “mais do mesmo” que se arrasta pesadamente sem fim. A necessidade de alento para regar as sementes de esperança que não se perderam pelo caminho. E por aí vai ...

Porque, no fim das contas, de um jeito ou de outro sempre nos perturbará a seguinte questão: “Se nos vendemos tão baratos, porque nos avaliamos tão caros? ” (Padre António Vieira – Filósofo).

sábado, 20 de fevereiro de 2021

De volta aos tempos do “Bang! Bang! ”


De volta aos tempos do “Bang! Bang! ”

 

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

 

Que ameaça é essa que precisa ser combatida com armas? Nem mesmo duas grandes guerras mundiais e tantos outros conflitos no mundo são capazes de trazer uma explicação plausível para essa intenção. Imagina, nesse momento, em plena Pandemia, o que armas poderiam fazer no combate ao Sars-Cov-2? Nada. Armas não resolvem ameaças à humanidade. De nenhuma ordem. De nenhuma razão.

No alto de mais de 5 décadas de existência não vi nenhuma manchete divulgar com ou sem entusiasmo que armas haviam acabado com a miséria no mundo, ou descoberto a cura do câncer ou da AIDS, ou findado o analfabetismo e revolucionado a qualidade e a acessibilidade à Educação, ou extirpado a presença da violência pela sua simples imposição, ou criado milhares de oportunidades de emprego e renda ... Não, eu nunca presenciei nenhuma notícia assim.

Ao contrário da minha vontade ou das minhas expectativas, as informações a respeito vieram sempre banhadas de dor, de sofrimento, de angústia, de perda. As armas vêm sendo ao longo da história o instrumento mais simplista e banalizado para substituir o diálogo. A solução rápida para uma manifestação plena e absoluta da irracionalidade. A expressão da incapacidade argumentativa do bom senso. A ruptura completa com a inteligência e a cognição para a instauração do silêncio que ocupa os cenários beligerantes do mundo.

Uma arma nas mãos não é só uma questão de estado de espírito, de comportamento, de consciência ou não. Pessoas atiram por diferentes razões que as levam a agir de uma maneira que não oportunize ao outro um direito de resposta. Atiram sob efeito de drogas lícitas ou ilícitas. Atiram no trânsito. Atiram para comemorar ou celebrar alguma coisa. Atiram por preconceito, intolerância, ódio ... Atiram para se suicidar. Enfim, atiram porque sabem que dispõem de uma arma para fazê-lo. Como se aquele ato finalizasse ali.

Mas, não é assim que acontece. Tenho aprendido diariamente, nesses tempos pandêmicos, o quanto a morte reverbera. Passei a ter uma dimensão cada vez mais clara do quanto o findar da vida retira, também, o ar de quem está em volta. Famílias, amores, amigos, conhecidos e desconhecidos. Uma fila de gente que fica por muito tempo sem saber como respirar para seguir em frente.

E olha que uma doença, geralmente, é um processo que permite uma compreensão maior dos acontecimentos. Mas, uma fatalidade por arma de fogo não. É literalmente um de repente; quase sempre, por conta da exceção do suicídio, causada por alguém conhecido ou desconhecido. Então, o fato adquire uma proporção ainda maior e mais pesada. Imagina pensar que, na contramão ética, moral e jurídica, um ser humano resolveu tirar a vida do outro. Não há como justificar o que tão obviamente é injustificável.

Infelizmente, a sociedade transita muito pelo comportamento de copiar as ações uns dos outros. Pessoas dispõem de armas porque sabem que na sociedade outras, também, dispõem. Aí, então, argumentam que isso é para sua segurança, para uma eventualidade. Mas, não é. Mesmo exímios atiradores de elite sabem que um tiro de arma de fogo pode matar; que dirá, portanto, quem não é tão competente assim. No fundo, ter uma arma é sim uma sinalização, ainda que subliminar, da intenção de matar. E quantos não deixam suas armas mal acondicionadas, em lugares inapropriados, vulneráveis para que outros tenham acesso a elas...

Ter uma arma implica necessariamente em assumir esse risco. Só que o risco de matar traz o risco de morrer, o risco de se tornar ou fazer com que alguém fique deficiente, o risco de ser processado e ir parar em uma prisão, o risco de ver sua história seguir por caminhos impensados e plenamente dolorosos. Não é só uma questão de escolha, de poder adquirir uma arma ou não, de fazer curso de tiro ou não, de ter dinheiro ou não para arcar com as consequências. É muito mais. É muito mais profunda e complexa a questão.

De volta as minhas observações do agora, em que hospitais e profissionais de saúde estão dando a própria vida para salvar outras, que há insuficiência de leitos e UTIs, é profundamente desalentador pensar que alguém lute e defenda a aquisição e o porte de verdadeiros arsenais no país. Enquanto silenciam-se em relação a todas as demandas emergenciais que a sociedade brasileira, em sua quase totalidade, aspira.

Nunca estivemos tão próximos e íntimos da morte como agora, para nos abstermos de pensar em tudo o que possa de algum modo favorecê-la. Só com o Sars-Cov-2 já são quase 2 milhões e meio de mortos ao redor do planeta. O que pensar, então, sobre as outras faces da perda, hein? Quanto da raça humana está sendo dilapidada? Qual o perfil de sobreviventes restará para reconstruir a vida após esse processo todo? ...

Essas são apenas algumas, dentre inúmeras, questões que se precisa refletir. Especialmente, aqueles que se permitem absorver quase por completo pelas questões de ordem econômica. Não é possível compartimentalizar a existência humana em assuntos e pensar que se pode lidar com cada um deles em separado.

Como disse Mahatma Gandhi, “a vida é um todo invisível” e, por isso, ele tinha tanta convicção em afirmar que “A não violência e a covardia não combinam. Posso imaginar um homem armado até os dentes que no fundo é um covarde. A posse de armas insinua um elemento de medo, se não mesmo de covardia. Mas a verdadeira não violência é uma impossibilidade sem a posse de um destemor inflexível”.

Portanto, sejamos seres humanos destemidos. É tempo de resgatar o instinto de sobrevivência de nossa espécie. De reaprender a dialogar. De reconectar a empatia. De ressignificar as diferenças. De construir mais e destruir menos. De simplesmente ter coragem para ser, uma vez na vida que seja, humanos. 

O rato e a ratoeira - Fábula de Esopo





quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

Identificação, por favor!


Identificação, por favor!

 

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

 

Não, eu não quero ir para Marte! O que adianta ir para qualquer lugar do Universo, onde os mesmos pensamentos equivocados e distorcidos continuem existindo? Corrida espacial nessas alturas do campeonato, só pode ser piada, e de mal gosto, diga-se de passagem! Para quem, ainda, não percebeu o “planetinha” aqui está “pegando fogo”, problemas para dar e vender! COVID-19, nevasca, furacão, terremoto, enchente, erupção vulcânica, ... só escolher! Mas, mesmo assim, eu não quero ir para Marte!

Desculpem-me a ironia; mas, é que a paciência está chegando no fim. Ela está longe de ser diretamente proporcional aos absurdos que nos deparamos todos os dias. Porque não bastassem os problemas há muita coisa acontecendo e sendo categorizada como tal; mas, que não passa de atitudes impensadas, bizarrices de quem não está nem aí para a vida nem para ninguém.

O ser humano não é mais o mesmo, há tempos. Não se comove com a dor do outro. Não se impacta pelas estatísticas. Não pensa no hoje e nem no amanhã. Não cumpre suas obrigações. Não defende seus direitos. ... Em suma, é um conjunto de individualismos e narcisismos que passam os dias competindo entre si. Talvez, na esperança, de descobrir em quem entre eles ainda resta uma gota de lucidez e de sanidade. O que é muito pouco provável, diante do que vem apresentando.

Parece terem decidido que não compensa mais fazer nada em favor desse mundo. Deram a Terra por causa perdida e querem conquistar outros espaços para não se obrigarem a resolver problemas. Só se esqueceram de que estes são produto genuinamente humano. Plantas não têm problemas. Animais não têm. Pedras não têm. Só pessoas têm problemas, porque dispõem de inteligência e de capacidade cognitiva que lhes permite interagir suas emoções e sentimentos com o mundo.

Para qualquer lugar que você vá, então, os problemas são o seu casco de tartaruga para carregar nas costas; pelo menos, até que consiga resolvê-los. E para isso é preciso vontade de fazer. Vontade de transformar. Vontade de colocar a casa em ordem. O que parte de um movimento individualmente intimista para uma construção coletiva de afinidades, de objetivos comuns, de metas e ações compartilhadas empaticamente.

Mas, sem o primeiro passo, nada feito. Nunca o planeta demandou tanta necessidade de proatividade como agora. O estado caótico impõe arregaçar as mangas e agir. Não dá para ficar na janela vendo “a banda passar”, enquanto centenas de milhares de pessoas caminham sobre estradas de escombros, de mortos e de feridos. Tudo acontecendo simultaneamente, sem tréguas, sem descanso.

Aí, chegam uns e outros com essa ideia de ser astronauta, viajar para Marte. Bela visão do espaço; mas, que garantias de que lá a realidade seria realmente outra, hein?! Nenhuma. “Conversas para boi dormir”, como dizem os mineiros. Apenas idealizações para anestesiar os incômodos e as aflições do agora. Nada mais.

Na verdade, a raça humana se tornaria refugiada. Refugiada de suas guerras materiais e imateriais. Refugiada das epidemias que sua afronta à Ciência permitiu se alastrar. Refugiada de sua ganância que permitiu espalhar fronteiras funestas de desigualdade. Refugiada em razão do seu alto grau de desumanidade. ... Portanto, refugiada para fugir dos compromissos que a sua existência humana cobra com juros e correções diária e ininterruptamente.   

O céu que fascina e atrai tem dessas coisas. Cria esperanças. Tece divagações. Cintila sonhos. Constrói labirintos para fugir da realidade. Baliza a vida por parâmetros ilusórios e pouco resistentes e, assim, se pode acreditar que o jardim do vizinho é sempre mais verde e bonito. Olha para o alto para não ter que enxergar as misérias humanas que produz continuamente aqui embaixo.  

Mas, será mesmo, que em meio as incertezas que a tal viagem transpira, corremos algum risco quanto a acolhida? Sim, porque é muita prepotência e arrogância pensar que só na Terra exista vida. Portanto, não sabemos como seriam os donos de lá. Será que algum homenzinho verde, um extraterrestre, será capaz de nos tratar na mesma reciprocidade com que agimos em relação aos nossos pares por aqui? Seremos humilhados? Maltratados? Escravizados? Espoliados? Coisas que só mentes tão inteligentes e astutas são capazes e que não sabemos se eles estão nesse patamar, ou acima dele.

Talvez, no fim das contas, o que deseja a humanidade é aplacar a sede de seu eterno fastio. Colonizar é uma expressão que lhe desperta os sentidos, lhe aguça as vontades; mas, é só. Depois, é como no fim da festa, as expectativas se esvaem enquanto a realidade retoma o seu curso. O tempo do novo é fugaz e frustrante, evapora tão rápido que nem se chega a perceber o verdadeiro odor. Alice acorda. Cinderela volta a ser a gata borralheira. O encanto se desfaz... De modo que viver em Marte, ou Júpiter, ou qualquer outro canto do nosso sistema solar, não vale a pena, não faz sentido algum, porque seremos sempre os mesmos. É o que diz a nossa identidade mais profunda.


quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

O Circo dos Horrores


O Circo dos Horrores

 

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

 

As afrontas recentes à Democracia brasileira são o espelho de toda a displicência negligente desempenhada pela própria sociedade. Foi aceitando “as carteiradas”, “os pequenos poderes”, as usurpações de direitos, os preconceitos, as hipocrisias, ... que os indivíduos foram acreditando que poderiam ser sem limites, fazer e acontecer sem objeções; porque na sua abstenção silenciosa, a sociedade referenda de algum modo essas práticas.

A deturpada consciência que a população brasileira manifesta em relação a sua identidade cidadã é o ponto nevrálgico para essa reflexão. Justamente porque a cidadania nivela os indivíduos a um mesmo nível de direitos e obrigações, e no Brasil, há uma tendência de caráter histórico a uns quererem ser mais do que outros. Coisas de um ranço colonial que não se desprega nem à custa de todos os giros possíveis do tempo.

A polarização que vem se exacerbando há algum tempo no país, não é, necessariamente, política; mas, de valores e pensamentos. Conservadores e progressistas estão disputando um espaço de fala, o qual na verdade não deveria estar em discussão. Segundo li, certa vez, “Diz-se que, mesmo antes de um rio cair no oceano ele treme de medo. Olha para trás, para toda a jornada, os cumes, as montanhas, o longo caminho sinuoso através das florestas, através dos povoados, e vê à sua frente um oceano tão vasto que entrar nele nada mais é do que desaparecer para sempre. Mas não há outra maneira. O rio não pode voltar. Ninguém pode voltar. Voltar é impossível na existência. Você pode apenas ir em frente. O rio precisa se arriscar e entrar no oceano. E somente quando ele entra no oceano é que o medo desaparece. Porque apenas, então, o rio saberá que não se trata de desaparecer no oceano, mas tornar-se oceano. Por um lado, é desaparecimento e por outro lado é renascimento. Assim somos nós. Só podemos ir em frente e arriscar” (Osho – guru indiano líder do movimento Rajneesh). Esse impasse, essa resistência, além de nocivo e destruidor é, portanto, inútil.

Independente da mentalidade de uns e outros, o mundo segue seu curso regido pela influência das conjunturas e toda a sua imprevisibilidade. Tudo vai se redesenhando e se reconfigurando a partir de demandas que a própria sociedade passa a manifestar. São os sonhos, os desejos, as aspirações, os conhecimentos, que vão impulsionando o pensamento humano a desbravar cada vez mais os terrenos da sua própria história.

E o que se evidencia em primeiro plano nessa jornada é a inexistência de certo ou errado. A vida humana depende das experimentações a que se permite. De modo que nem tudo serão flores ou espinhos. O que importa é a resultante de aprendizados, de lições valiosas, que se alcança. Os tropeços, os equívocos, as distorções servem para nos interromper e pensar. As vitórias, as conquistas, as descobertas servem para nos impulsionar adiante.

A queda de braços que está se institucionalizando no país já ultrapassa o sentido de simples retrocesso, porque está transitando pelo viés da destruição social. Seres humanos, centenas de milhares deles, estão mortos e outros estão sob o mesmo risco. O Sars-Cov-2 é, no momento, um agente importante desse processo, dada a falta de habilidade e competência das autoridades para lidarem com a situação.

Entretanto, há outras razões para o morticínio. As políticas voltadas para armar a população civil, sem quaisquer embasamentos científicos a respeito; nem tampouco, quaisquer justificativas plausíveis para o desencadeamento de algo nesse sentido. A aporofobia1 que se une a tantas outras formas de radicalismo do ódio social, tais como a Xenofobia, Racismo, Homofobia, Antissemitismo, Sexismo. A miséria que se alastra para a construção de uma indigência qualificada no ciclo vicioso da marginalização social. Enfim...

A pergunta que não quer calar, então, é o que esperar do Brasil, tanto do ponto de vista interno quanto no campo das relações internacionais? Porque esse panorama atual não mostra além de um imobilismo. O país não acena uma imagem contextualizada a realidade mundial do século XXI. Suas teorias e práticas estão ancoradas em fases distintas do passado e não demonstram viabilidade de transição para o presente, quiçá para um futuro próximo. Enquanto a polarização instituída se digladia discutindo o sexo dos anjos, o país está literalmente parado no tempo e no espaço.

E vejam como é curioso, o Brasil que gosta de marginalizar, banir pessoas, “falar grosso” e “arrotar poder”, padece o mesmo, enquanto país, diante do resto do mundo. Tornou-se pária em várias questões. Excluído das mesas de negociações, dos tratados, do diálogo, por optar em permanecer na contramão da evolução, da Ciência, do Meio Ambiente, ... da vida.

Entretanto, sem as pessoas de cá e as de lá, o que é o Brasil? Uma porção de terra na geografia do mundo. Sem ver as pessoas, perceber sua importância, valorar e respeitar a sua identidade e o seu pensamento, nenhum país se torna NAÇÃO. E só NAÇÕES podem discutir Democracia, Direitos Humanos, Sustentabilidade Ambiental, Soberania, etc.etc.etc. Então, basta do circo dos horrores, do teatro dos vampiros! Talvez, seja hora de parar de estancar o fluxo do rio e deixá-lo correr para o mar, antes que a água contida acabe totalmente putrefata.



1 Repúdio, aversão ou desprezo pelos pobres ou desfavorecidos; hostilidade para com pessoas em situação de pobreza ou miséria. [Do grego á-poros, ‘pobre, desamparado, sem recursos’ + fobia]. Fonte: https://www.academia.org.br/nossa-lingua/nova-palavra/aporofobia#:~:text=Rep%C3%BAdio%2C%20avers%C3%A3o%20ou%20desprezo%20pelos,recursos'%20%2B%20%2Dfobia.%5D&text=%E2%80%9CTexto%20criminaliza%20especificamente%20a%20aporofobia,por%20sua%20condi%C3%A7%C3%A3o%20de%20pobreza.%E2%80%9D 

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

A gente colhe o que planta...


A gente colhe o que planta...

 

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

 

O que seria enfrentar a Pandemia de um vírus desconhecido, realmente ninguém sabia. Mas, uma coisa importantíssima, que a Ciência deixou bem claro desde o início, era que a capacidade humana de responder adequadamente as medidas sanitárias exigidas tornaria o processo de recuperação econômica muito mais rápido. E o que fizemos? Seguir exatamente na direção contrária dessa orientação.

Por isso agora, quase um ano depois da deflagração da Pandemia, estamos caminhando em círculos sem sair do lugar. Assistindo estupefatos a morte de centenas de milhares de pessoas, ao mesmo tempo em que outras tantas insistem em exercer a sua anticidadania de maneira explícita. Sem contar, a espiral do fracasso econômico a divulgar seus números aterrorizantes que não vislumbram tão cedo uma recuperação que dê folego de sobrevivência aos cidadãos.

Quando vejo pequenos grupos se manifestando ardorosamente em favor de seus interesses particulares e em desfavor da realidade científica que precisa vigorar, me pergunto se suas pautas não estariam, no mínimo, equivocadas. Deveriam eles estar cobrando das correntes maléficas e deturpantes, que vieram movendo as ondas da sociedade na contramão da Ciência, toda a responsabilidade sobre a inação do país durante essa Pandemia.

Cada ser que se dedicou a trabalhar em desfavor da vida humana nesse momento é responsável sim, por cavar um buraco bem mais profundo do que as próprias valas que vêm sendo abertas para sepultar os mortos decorrentes da COVID-19. O que significa o aprofundamento do abismo das desigualdades nacionais numa perspectiva de velocidade e intensidade jamais vistas. Será que temos mesmo algum motivo para comemorar, quando as vísceras de nossas mazelas estão expostas para quem quiser olhar?

Não, o humor deprimido que nos preenche a alma nesse momento não é culpa do Sars-Cov-2. Ele foi apenas um catalisador de uma reação devastadora que já vínhamos formulando silenciosamente. Tudo já estava esgarçado, carcomido, em fiapos. Economia. Desemprego. Pobreza. Miséria. Saúde. Educação. Segurança. ... tudo vinha de mal a pior há séculos, sob névoas de delírios e negligências. Oportunas fugas da realidade pulsante.

No entanto, agora, ou se toma atitude em nome da sobrevivência em meio ao que nos resta ou nos rendemos a “vender a massa falida” ao preço de banana a quem possa interessar. Porque uma eventual recuperação em bases mais consistentes demandaria, segundo economistas, mais de uma década se fosse implementada imediatamente. E não é o que parece acontecer. Como cachorros de rua, continuamos correndo atrás do próprio rabo sem objetivo algum.

Está aí a consequência do nosso exercício negligente da cidadania. Na base do riso e da piada, pagando para ver a torto e a direita, de repente o país estava desmantelado. De desconstrução em desconstrução foram desorganizando e sucateando as diversas áreas da administração pública, em nome de destruir supostos resquícios de interferência ideológica. Até que elas foram tão minadas que começaram a paralisar suas atividades e não conseguiram mais responder as suas próprias funções.

Vimos na prática esse resultado durante as queimadas nos principais biomas do país. Na substituição de corpos técnico-científicos de primeira linha por contratados através de acordos políticos. Na perda abrupta da excelência do nosso programa de imunização nacional.  ... De modo que perdemos qualquer vestígio de qualidade na resolução dos problemas mais triviais, por pura incompetência.

Como escreveu o poeta do samba, o mestre Cartola, “Ouça-me bem, amor / Preste atenção, o mundo é um moinho / Vai triturar teus sonhos, tão mesquinho / Vai reduzir as ilusões a pó...” 1. A Pandemia atingiu o mundo; mas, não da mesma forma. As diferenças sociais, culturais, políticas e, particularmente, econômicas nos obrigam a não estabelecer comparações a partir da mesma régua. E justamente por isso, os ventos de calmaria não tendem a chegar por aqui tão cedo. Razão pela qual se torna tão infeliz e absurdas as atitudes que tentam transparecer otimismo em meio a um caos instalado.

Quem ousa responder como será o amanhã, só pode estar de brincadeira! O eixo de uma dinâmica que se devolvia foi totalmente alterado. Só para se ter uma ideia, a prioridade do planeta hoje é imunizar uma população de aproximadamente 8 bilhões de seres humanos e, para tal, esforços econômicos têm se concentrado tanto para produzir quanto para comercializar vacinas. Mas, a tarefa é longa e árdua; na medida em que os cientistas estimam que o processo deve perdurar por vários anos.

Portanto, tudo o que está acontecendo conosco é só mais um preço a se pagar pela nossa anticidadania. O que significa que vamos sim, arrastar correntes além da conta se permanecermos alheios, inertes, alienados. Não ter Carnaval, não ter mesa de boteco, não ter muvuca aqui e ali, ... vai ficar “fichinha” perto de todas as privações que as consequências terríveis do não planejamento, da inação e do descompromisso voluntário vão nos proporcionar. Porque não há “lentes cor de rosa” suficientemente capazes de acenar com uma expectativa melhor ou diferente. A gente colhe o que planta. Nem adianta querer que melancia dê em árvore.  

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

Por trás da folia


Por trás da folia

 

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

 

Admito que nasci desprovida de um espírito genuinamente folião. Talvez, em razão do hábito da própria família, menos afeito ao entusiasmo carnavalesco. Talvez, por mim mesma, em uma condição mais observadora do que participante. O que importa é que o Carnaval, apesar dessas considerações, nunca me incomodou com sua alegria esfuziante e incontida. Às vezes, o que me franzia a testa era pensar que, justamente nessa época do ano, a falta de decoro e respeito ao cidadão acontecia nas politicagens, na calada da noite. De modo que a quarta-feira sempre chegava mais adornada de cinzas do que deveria.

Depois da desimportância dada ao COVID-19 durante os festejos do ano passado, agora tudo está em suspenso. Foi logo depois do Carnaval, no último choro da cuíca, que a Pandemia explodiu e a vida virou de cabeça para baixo. O cotidiano foi abruptamente interrompido e sem sinais concretos de quando uma retomada do seu curso aconteceria. O que se chamava normalidade se esfacelou e cedeu espaço para uma avalanche de incertezas diversas. O novo vírus rasgou as fantasias e adereços, bateu seu surdo fora do compasso, atravessou o samba... E cá estamos, praticamente um ano depois, em meio à nova realidade que se instalou.

Na linha de frente da Pandemia, a vida sofreu com todos os sobressaltos no campo da saúde pública; mas, também padeceu os infortúnios da economia. Desemprego, redução de jornadas e salários, enfim... trabalhadores de todas as fronteiras laborais viram seu mundo desabar. O equilíbrio financeiro das famílias foi parar na UTI, também. Principalmente, daqueles que sobrevivem na informalidade, entre trabalhos eventuais e/ou temporários. E aí, entra o imenso contingente do Carnaval distribuído em cada canto desse país.

Sendo eles uma parcela tão importante e significativa do universo cultural brasileiro, essa crise expôs a fragilidade a que é submetida a sobrevivência desse setor no país, antes mesmo do impacto devastador da Pandemia. Trabalhar em Cultura no Brasil é um desafio para os bravos. Não só pelo desestímulo e carência de reconhecimento do ofício cultural empreendido; mas, pela limitação de apoio e incentivo para o exercício dessas atividades.

Como em quaisquer áreas profissionais, o setor cultural abriga atividades variadas com remunerações, geralmente, atreladas as propostas de projetos; portanto, instáveis no sentido de uma paga fixa mês a mês. O que significa que muitos desses trabalhadores recebem por trabalho realizado e, com a necessidade da aplicação urgente das medidas sanitárias restritivas, decorrentes do COVID-19, eles ficaram à mercê dos acontecimentos.

Shows cancelados. Teatros fechados. Recitais desmarcados. Academias de dança com aulas online. ... Toda a cadeia cultural foi paralisada ou teve que se adequar ao novo cenário tecnológico para tentar remediar a situação. Entretanto, muita gente fundamental ficou de fora. Gente que sobrevive nas coxias, nos bastidores, no sacrifício do trabalho anônimo. O que inclui essa gente maravilhosa do Carnaval.

Acostumados a pensar na preparação da folia seguinte, quando o bloco ou a escola ainda passam na avenida, dessa vez foi diferente. A realidade suspendeu o riso, o sorriso, a euforia, o trabalho. O tempo era de reaprender, de descobrir um jeito de superar a Pandemia e sobreviver. Mas a renda dessa gente virou fumaça. Nada das feijoadas de fim de semana nas quadras das escolas, nada de ensaios para arrecadar fundos, nada da venda de ingressos, fantasias e abadás, nada... Cada um teve que cuidar de si do jeito que conseguiu.

De repente a interrupção da folia esse ano ficou pequena em si mesma, quando se olha para o silencioso abandono da Cultura nacional. Cada artista e profissional das artes brasileiras permaneceu invisível, irreconhecível, à margem de sua própria cidadania e dignidade, graças a inação de uma sociedade que teima em aceitar tudo isso como se fosse perfeitamente normal.

Que entende a Cultura apenas como mecanismo de satisfação do seu tédio, algo que existe para lhe servir ao contrário de interagir e agregar.  Por isso, eles veem com tanto desdém as figuras por trás de cada manifestação artística, como se desmaterializadas de sua existência, meros produtos de outros produtos.

Em meio ao agora, quando uma nova ordem de modos e comportamentos se estabelece, ainda que momentaneamente, talvez seja tempo de refletir sobre a Cultura nacional. Porque ela se estende além do Carnaval, além das Artes, além de nós, da vida, do tempo e do espaço. Ela é uma tradução da nossa identidade individual e coletiva.

Como manifestou a poetisa portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen, “A cultura é uma coisa que, ou está na mentalidade e na vida, ou não está em parte nenhuma. Não é um objeto de museu, é qualquer coisa de estrutural na vida humana”.

Somente a partir dessa consciência é que a sociedade brasileira, enquanto povo, vai conseguir olhar para o Carnaval ou qualquer outra manifestação artística cultural com o apreço e o respeito devido. Vai descobrir toda a cultura que existe por trás da Cultura e lutar para que ela seja vista e reconhecida na pessoa de cada cidadão artista desse país. Afinal de contas, “Mas de que adianta sair para festa e voltar para casa sempre com o coração vazio? ” (Caio Fernando Abreu – escritor brasileiro).


quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

A força das conjunturas


A força das conjunturas

 

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

 

Inexorável é a força das conjunturas. É dela que vem a materialização das transformações no mundo. Foi nesse “de repente” que a caixa das verdades se abriu, nas últimas semanas. Talvez, nem tenham sido tão surpreendentes as revelações; mas, o importante é o fato de terem exposto a sociedade as suas indigestas e dissimuladas opiniões.

Verdade seja dita, a verborragia que o mundo assiste diariamente não expõe nem um décimo daquilo o que realmente reside na alma humana. Pode-se dizer que há um certo pudor contido, em muitos discursos, decorrente da plena consciência de que certas ideias não cabem mais, não fazem sentido algum, não tem espaço para prosperar. São simplesmente mantidas por insistência tosca e infantil.

O que significa que tentam, sem muito sucesso, então, obscurecê-las sob vieses tão insustentáveis quanto. Mas, é só ler as entrelinhas. Prestar atenção as linguagens corporais. Identificar os participantes no ambiente discursivo para entender de vez que “pingo é letra” e tem significado.

Há tempos venho pensando a respeito das narrativas que permeiam a questão da corrupção nacional, observando as falas inflamadas e indignadas de determinadas pessoas, as linhas dos acontecimentos que parecem nunca ter fim e se retroalimentam em um padrão de comportamentos e de ações, e tudo parece compor sempre uma estrutura já legitimada, institucionalizada historicamente.

E se não se chega a um fim, a um desfecho para tudo isso, é sinal que a corrupção ingressou para o rol dos assuntos que servem de bom pretexto para destilar os tais pensamentos “inconfessáveis” que persistem na sociedade brasileira contemporânea. Um imenso guarda-chuva para abrigar outras ideias de modo subliminar.

Em razão de ser desvio grave que promove a degradação das relações sociais, sobretudo político-partidárias, hastear a bandeira de combate à corrupção, nada mais é, do que buscar reconsolidar fundamentos éticos e morais conservadores. O que está diretamente relacionado ao conjunto ideológico que sustentou a história colonial do país em todas as suas práticas, relações e comportamentos sociais.

Portanto, o que mais incomoda a sociedade brasileira não é a corrupção em si. Afinal de contas, mais de 500 anos de história já seriam suficientes para termos debelado ou, no mínimo, mitigado satisfatoriamente essa mazela. Se ela existe e resiste é porque encontrou meios de conviver “entre tapas e beijos” no seio social. O que incomoda e, talvez, sempre irá incomodar são as rupturas naturais ao processo de evolução social que desconstroem hierarquias, regalias, privilégios, convenções, ...

O pior é que esse incômodo não está restrito a sociedade brasileira. Mundo afora, o conservadorismo luta para resgatar o espaço dos idos tempos Mercantilistas. Aliás, o desconforto causado pela Revolução Francesa, no século XVIII, foi o estopim para que a conservadora burguesia europeia emergente se mobilizasse para conter os arroubos das classes desprivilegiadas.

Antes que a energia do movimento reverberasse por outros cenários monárquicos, eis que a Revolução Industrial, na Inglaterra, impôs uma divisão de classes bem definidas e controlou as tensões sociais com um regime trabalhista intenso e desprovido de direitos. A ascensão das classes menos favorecidas se tornara inviabilizada; de modo que, não ameaçaria os proprietários dos meios de produção, os habitantes do topo da pirâmide social.

O que querem os conservadores aqui, ali ou acolá, é o mesmo. Que seu “pequeno mundinho” não seja ameaçado por uma divisão mais justa dos lucros e dividendos produzidos no país. Que não tenham que pagar mais impostos e tributos. Que não tenham que dividir os mesmos espaços sociais com aqueles considerados “malnascidos”, “subnutridos”, “indigentes”; enfim... Seus esforços trabalham incessantemente na contramão da inclusão.

Por isso eles precisam, tanto, ocupar os centros de poder. É assim que eles garantem todas as políticas segregantes, as quais traduzimos pelos números que colocam o país abaixo das expectativas de competitividade mundo afora. No entanto, ao impedirem o fluxo natural do desenvolvimento e do progresso ao longo do tempo, para limitar o acesso aos direitos fundamentais pela base maior da sua pirâmide social, o país não avança. De modo que a própria realidade idealizada dos conservadores, também, se descontrói por tais limitações. É o chamado “tiro no pé”.

Parece que não aprendemos nada da própria história. Fomos colônia, minha gente. Explorados, espoliados, até a última pepita de ouro ... árvore de Pau-Brasil ... bagaço de cana. Tratados como gente de última categoria. Humilhados de todas as formas. E o que temos feito, depois de tudo isso, é repetir indefinidamente entre si os mesmos absurdos e desvarios? Como assim? Conservar uma tradição deturpada?

Lamento informar que as notícias não são lá alvissareiras. Corre pelo mundo que a Pandemia deixou cada canto de terra mais pobre. A recuperação será lenta, segundo os esforços e capacidades individuais de cada nação. Tudo resumido, então, em 3Ps, ou seja, PLANEJAMENTO, PARCIMÔNIA e PREVIDÊNCIA. Menos gastança. Menos excessos e futilidades. Aos que ainda não entenderam, o menos agora é mais.

Contrariando vontades e quereres dos conservadores de plantão, mais uma vez, nada será como antes. Porque o mundo é assim. De repente ele chega e puxa o tapete, sem pedir licença. Dessa vez, um vírus trouxe o aprendizado dos tempos de guerra. Que cabe para todos, para cada um. Para a base da pirâmide que já vive essa sina há tempos, as dificuldades tendem a ser superadas, de algum modo, com mais sabedoria e perseverança. Mas, para o topo... o sofrimento será atroz.  E não é que a roda da vida virou mesmo!

Portanto, antes de querer conservar alguma ideia, algum hábito ou comportamento, não se esqueça das sábias palavras de Franklin D. Roosevelt 1, “Um conservador é um homem com duas pernas perfeitamente boas que nunca aprendeu a caminhar”. Não são os rodopios evolutivos do mundo que, no fundo, incomodam as pessoas; mas, a sua dificuldade de se desapegar do passado e suas ilusórias zonas de conforto. Pense nisso!



1 32º Presidente dos Estados Unidos da América, entre os anos de 1933 a 1945. 

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

À deriva...


À deriva...

 

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

 

 

Cada dia que passa fica mais evidente como o Brasil de hoje pensa como o Brasil Colônia. Não só por hábitos e costumes ultrapassados e constrangedores; mas, porque não se permitiu acompanhar o curso da história e se preparar para assumir as responsabilidades de sua própria identidade. Basta uma passada de olhos pelas manchetes midiáticas do país para confirmar essas percepções. “Perdidaço” seria a expressão mais adequada para o país nesse momento. Ele não resolve nem o simples e nem o complexo do seu cotidiano. Tropeça no cadarço o tempo todo. Tonteia de tanto caminhar em círculos e não sai do lugar.

E nada poderia ser mais oportuno do que uma Pandemia para iluminar as obscuridades nacionais. Agora, o país perdeu o direito de dizer que não sabe, não conhece ou que nunca viu seus próprios problemas, porque estão todos sob um gigantesco holofote, passando recibo de tudo o que deveria ter sido feito e não foi. Os tapetes foram insuficientes para conservarem quietinhas tantas poeiras que foram lançadas para baixo de suas tramas.

Vejam que os aumentos de preços anunciados hoje, para combustíveis e gás de cozinha, por exemplo, acompanham o mercado internacional. Acontece que lá fora, os países além de bem-sucedidos na história têm buscado fazer direitinho as suas lições de casa na Pandemia; enquanto nós... pobres de nós, escolhemos diretrizes equivocadas, por assim dizer, e agora só nos resta, mais uma vez, pagar caro, bem caro, por isso.

A própria Pandemia se transformou em um gigantesco imbróglio nacional. Negligências em cima de negligências.  Erros em cima de erros. O que funcionava bem foi brutalmente desorganizado, desestruturado. Nenhum consenso. Nenhum respeito. Nenhuma diretriz... E o país tem mais de 230 mil vidas perdidas. E uma vacinação em curso lenta e temerária pela insuficiência em todos os sentidos.

Quase um ano depois, o país não salvou a saúde da sua gente e nem, tampouco, a economia. Os avisos globais de que essa catástrofe promovida pelo SARS-COV-2 iria trazer consequências severas para a humanidade foram dados desde o início; mas, o Brasil se apropriou de uma arrogância que jamais poderia. Se o mundo já está mais pobre, o que resta para nós?

Segundo dados da Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 12,8% da população brasileira passou a viver com menos de R$246,00/mês, ou seja, R$8,20/dia. Isso é só a ponta de um iceberg. Há 14,6% da população em situação de desemprego; sem contar, os 6 milhões de desalentados que tornam esse cenário ainda mais perverso e cruel. O que traz a dimensão de um contingente em franco crescimento e dependência do estado para sua sobrevivência, para a manutenção de seus direitos fundamentais básicos.

Como no Titanic, todo esse cenário brasileiro, portanto, possibilita vislumbrar o fato de que, certamente, não haverá “botes salva-vidas” para todos e muitos irão morrer, quando o navio afundar. Na verdade, já estão. O morticínio sob faces distintas da barbárie humana já está em curso bem debaixo do nosso nariz. Não é o fato de que a morte possa encenar o seu rito lentamente o que faz mudar o final macabro da história. Nem mesmo qual figurino a morte vestirá faz diferença nessa análise. Está na vulnerabilidade das condições humanas a que foram submetidas mais de 212 milhões de cidadãos o ponto em questão.

De modo que as perspectivas de desenvolvimento e progresso para o país não são nada promissoras. Porque se esse contexto afeta diretamente aos que vivem aqui, por outros vieses da conjuntura global eles passaram, também, a gerar desconforto e comprometer as relações diplomáticas e comerciais com outros países. Afinal de contas, a decisão pessoal do Brasil em não caminhar para frente não impediu que os outros assim o fizessem e construíssem novas visões e paradigmas de mundo. E quanto mais o tempo passa, mais essa situação se desgasta e apresenta arestas.

O sonho do Brasil colonial que podia desfrutar nababescamente dos agrados e quireras da Metrópole e sua corte dirigente, como contrapartida do sistema de exploração implantado; que não precisava se preocupar com seus excluídos, dado o contexto da época; que podia viver as sombras, sem maiores preocupações identitárias, feliz na condição subalterna, mas confortável, de colônia... de fato, foi mesmo só um sonho. Por isso vive preso a dois mundos. Insiste em viver de delírios. Entretanto, essa teimosia em não dar o braço a torcer só piora a situação.

Há mais de 500 anos, o país navega em rota de colisão. Saiu tão despreparado para a liberdade Republicana, que vaga perdido até hoje. Meio vira-lata, sem identidade nacional definida, vive em busca de entender de onde veio e para onde vai. Não é à toa a facilidade com que “mete os pés pelas mãos” e cria posições desfavoráveis, as quais só fazem estimular a manifestação de objeções, cada vez mais contundentes, no cenário internacional.

Reconhecer ou não os fatos, nessas alturas, pouco importa porque não tardam o colapso e seus desdobramentos. Mais próximos de ir a pique estamos. As trincheiras da arrogância, da prepotência, das regalias, dos privilégios, ... estão por um triz. A grande dúvida é só se o país estará pronto para lidar com essa transformação, se não vai se encolher e recolher mais uma vez a sua insignificância. Talvez, essa seja uma das raras oportunidades de passar a história a limpo, de se construir uma identidade própria e sustentável. Caso contrário, ele permanecerá à deriva, sendo “um país que foi sem nunca ter sido”.