sábado, 20 de fevereiro de 2021

De volta aos tempos do “Bang! Bang! ”


De volta aos tempos do “Bang! Bang! ”

 

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

 

Que ameaça é essa que precisa ser combatida com armas? Nem mesmo duas grandes guerras mundiais e tantos outros conflitos no mundo são capazes de trazer uma explicação plausível para essa intenção. Imagina, nesse momento, em plena Pandemia, o que armas poderiam fazer no combate ao Sars-Cov-2? Nada. Armas não resolvem ameaças à humanidade. De nenhuma ordem. De nenhuma razão.

No alto de mais de 5 décadas de existência não vi nenhuma manchete divulgar com ou sem entusiasmo que armas haviam acabado com a miséria no mundo, ou descoberto a cura do câncer ou da AIDS, ou findado o analfabetismo e revolucionado a qualidade e a acessibilidade à Educação, ou extirpado a presença da violência pela sua simples imposição, ou criado milhares de oportunidades de emprego e renda ... Não, eu nunca presenciei nenhuma notícia assim.

Ao contrário da minha vontade ou das minhas expectativas, as informações a respeito vieram sempre banhadas de dor, de sofrimento, de angústia, de perda. As armas vêm sendo ao longo da história o instrumento mais simplista e banalizado para substituir o diálogo. A solução rápida para uma manifestação plena e absoluta da irracionalidade. A expressão da incapacidade argumentativa do bom senso. A ruptura completa com a inteligência e a cognição para a instauração do silêncio que ocupa os cenários beligerantes do mundo.

Uma arma nas mãos não é só uma questão de estado de espírito, de comportamento, de consciência ou não. Pessoas atiram por diferentes razões que as levam a agir de uma maneira que não oportunize ao outro um direito de resposta. Atiram sob efeito de drogas lícitas ou ilícitas. Atiram no trânsito. Atiram para comemorar ou celebrar alguma coisa. Atiram por preconceito, intolerância, ódio ... Atiram para se suicidar. Enfim, atiram porque sabem que dispõem de uma arma para fazê-lo. Como se aquele ato finalizasse ali.

Mas, não é assim que acontece. Tenho aprendido diariamente, nesses tempos pandêmicos, o quanto a morte reverbera. Passei a ter uma dimensão cada vez mais clara do quanto o findar da vida retira, também, o ar de quem está em volta. Famílias, amores, amigos, conhecidos e desconhecidos. Uma fila de gente que fica por muito tempo sem saber como respirar para seguir em frente.

E olha que uma doença, geralmente, é um processo que permite uma compreensão maior dos acontecimentos. Mas, uma fatalidade por arma de fogo não. É literalmente um de repente; quase sempre, por conta da exceção do suicídio, causada por alguém conhecido ou desconhecido. Então, o fato adquire uma proporção ainda maior e mais pesada. Imagina pensar que, na contramão ética, moral e jurídica, um ser humano resolveu tirar a vida do outro. Não há como justificar o que tão obviamente é injustificável.

Infelizmente, a sociedade transita muito pelo comportamento de copiar as ações uns dos outros. Pessoas dispõem de armas porque sabem que na sociedade outras, também, dispõem. Aí, então, argumentam que isso é para sua segurança, para uma eventualidade. Mas, não é. Mesmo exímios atiradores de elite sabem que um tiro de arma de fogo pode matar; que dirá, portanto, quem não é tão competente assim. No fundo, ter uma arma é sim uma sinalização, ainda que subliminar, da intenção de matar. E quantos não deixam suas armas mal acondicionadas, em lugares inapropriados, vulneráveis para que outros tenham acesso a elas...

Ter uma arma implica necessariamente em assumir esse risco. Só que o risco de matar traz o risco de morrer, o risco de se tornar ou fazer com que alguém fique deficiente, o risco de ser processado e ir parar em uma prisão, o risco de ver sua história seguir por caminhos impensados e plenamente dolorosos. Não é só uma questão de escolha, de poder adquirir uma arma ou não, de fazer curso de tiro ou não, de ter dinheiro ou não para arcar com as consequências. É muito mais. É muito mais profunda e complexa a questão.

De volta as minhas observações do agora, em que hospitais e profissionais de saúde estão dando a própria vida para salvar outras, que há insuficiência de leitos e UTIs, é profundamente desalentador pensar que alguém lute e defenda a aquisição e o porte de verdadeiros arsenais no país. Enquanto silenciam-se em relação a todas as demandas emergenciais que a sociedade brasileira, em sua quase totalidade, aspira.

Nunca estivemos tão próximos e íntimos da morte como agora, para nos abstermos de pensar em tudo o que possa de algum modo favorecê-la. Só com o Sars-Cov-2 já são quase 2 milhões e meio de mortos ao redor do planeta. O que pensar, então, sobre as outras faces da perda, hein? Quanto da raça humana está sendo dilapidada? Qual o perfil de sobreviventes restará para reconstruir a vida após esse processo todo? ...

Essas são apenas algumas, dentre inúmeras, questões que se precisa refletir. Especialmente, aqueles que se permitem absorver quase por completo pelas questões de ordem econômica. Não é possível compartimentalizar a existência humana em assuntos e pensar que se pode lidar com cada um deles em separado.

Como disse Mahatma Gandhi, “a vida é um todo invisível” e, por isso, ele tinha tanta convicção em afirmar que “A não violência e a covardia não combinam. Posso imaginar um homem armado até os dentes que no fundo é um covarde. A posse de armas insinua um elemento de medo, se não mesmo de covardia. Mas a verdadeira não violência é uma impossibilidade sem a posse de um destemor inflexível”.

Portanto, sejamos seres humanos destemidos. É tempo de resgatar o instinto de sobrevivência de nossa espécie. De reaprender a dialogar. De reconectar a empatia. De ressignificar as diferenças. De construir mais e destruir menos. De simplesmente ter coragem para ser, uma vez na vida que seja, humanos. 

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