sábado, 3 de janeiro de 2026

JANEIROS ...

JANEIROS ...

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

6 de janeiro de 2021. Ataque ao Capitólio, a sede do Legislativo, em Washington DC. 08 de janeiro de 2023. Invasão e depredação das sedes dos Três Poderes - Congresso Nacional, Palácio do Planalto e Supremo Tribunal Federal -, em Brasília, DF. 3 de janeiro de 2025. Agressão militar dos EUA, com ataques e explosões em Caracas, resultando na captura do presidente venezuelano.  ... 

Coincidência? Talvez sim, talvez não. O que não é coincidência é o fato de serem ações capitaneadas pela ultradireita estadunidense, com o apoio dos demais vieses da Direita global.  

Ora, é de conhecimento público as pretensões da ultradireita na contemporaneidade, as quais se concentram na consolidação de um poder institucional estrutural, com mudanças profundas e capazes de redefinir a ordem internacional e as bases da democracia liberal. 

Desse modo, o que a ultradireita, seus eleitores, apoiadores e simpatizantes pretendem ver consolidado é o enfraquecimento do multilateralismo e das instituições globais como, por exemplo, a Organização das Nações Unidas (ONU) e suas agências, priorizando o protecionismo econômico e o nacionalismo. 

E para tal, a ultradireita não mede esforços em focar, em determinados países, na engenharia institucional. O que significa alterar a democracia por dentro desses, controlando órgãos institucionais, tais como o Senado e o Judiciário, para realizar mudanças estruturais lentas e permanentes, as quais satisfaçam os seus interesses e objetivos. 

Além disso, ela reforça a manutenção de uma agenda de restrições radicais de imigração, com reiterada manifestação de comportamentos xenofóbicos, de defesa de valores ultraconservadores contra pautas progressistas, de fortalecimento de uma rede diplomática ultraconservadora internacional. 

Mas, há um componente importantíssimo nesse processo que diz respeito ao uso intensivo de tecnologias digitais e desinformação para deslegitimar processos eleitorais e criar instabilidade política, apresentando-se como uma alternativa autoritária à política tradicional. 

Por isso, não causa estranheza observar um retrocesso deliberado em políticas climáticas globais e um foco urgente na segurança pública como forma de captar o apoio popular antes de ciclos eleitorais decisivos. Algo que anuncia uma grande expectativa em relação às eleições de 2026, em diversos países, consideradas como testes críticos para a resiliência das democracias frente a esse avanço. 

Daí a necessidade reflexiva sobre o movimento de concretização da beligerância estadunidense no início de 2026, no qual o poder militar e econômico é visto como a principal garantia da estabilidade, a fim de demonstrar que a força pode impedir que outros ataquem. Esse deslocamento de recursos militares, incluindo mais navios e ativos tecnológicos, não tem outra função a não ser conter a expansão global da China. 

Não restam dúvidas de que o temor da ultradireita, capitaneada pelos EUA, em relação à expansão chinesa está fundamentado em uma combinação de protecionismo econômico, defesa da soberania nacional e uma forte oposição ideológica ao modelo de governança de Pequim. Líderes e influenciadores desse espectro político frequentemente classificam a China como uma grande ameaça ideológica, com riscos à segurança cibernética e espionagem. 

Em suma, diante da previsão de que a China possa superar a economia dos EUA até 2030, a ultradireita utiliza esse cenário de beligerância multifacetada para promover políticas de tarifas e barreiras comerciais com o intuito de, eventualmente, vencer uma guerra comercial e reduzir os vazios geopolíticos que a China estaria pronta para preencher. 

Assim, olhemos para os janeiros com atenção. Olhemos para os janeiros dentro do seu simbolismo de transitoriedade, de renovação, de rito de passagem. A fim de que a capacidade humana de reflexão crítica sobre essa experiência possa oferecer uma estrutura temporal capaz de permitir o exercício da superação e da criação de novos valores. 

Entretanto, vale ressaltar que todo recomeçar implica em riscos que residem na tensão entre a liberdade humana e a imprevisibilidade do mundo. Como toda ação ocorre em um meio social interconectado, nunca podemos prever ou controlar totalmente as consequências de um novo começo. Recomeçar é, portanto, lançar-se ao incerto. Desse modo, o sucesso ou fracasso do novo caminho depende das escolhas pertinentes ao exercício cidadão, sem garantias externas.