Pesquisas
políticas ... bússola ou oráculo para a
sociedade contemporânea?
Por
Alessandra Leles Rocha
Não há como negar, o tempo todo a
sociedade contemporânea é bombardeada por pesquisas e dados. São tempos da racionalização,
ou seja, da necessidade de medir, calcular e prever o comportamento humano para
que nos sintamos seguros ou informados.
Assim, além da tradicional pesquisa
de opinião, a contemporaneidade é marcada pela valorização da pesquisa baseada
em comportamento, dados reais e experiências. Como se a pesquisa tivesse se
transformado em bússola ou oráculo para a sociedade contemporânea.
Mas, quando a pesquisa se dedica à
análise do campo político atual, ela assume um caráter predominantemente empírico-analítico
e pós-estruturalista.
Isso significa que a pesquisa
empírico-analítica foca em dados que podem ser observados, medidos e testados,
buscando a objetividade e a neutralidade.
Enquanto a pesquisa
pós-estruturalista questiona a ideia de verdade absoluta ou da objetividade
total, concentrando-se em como a linguagem, o poder e a cultura moldam o que
chamamos de realidade.
Por essas e outras é que nenhum
estudo é puramente neutro ou perfeito. O resultado de uma pesquisa é moldado
por fatores que acontecem tanto dentro quanto fora do controle do pesquisador.
Veja, por exemplo, as escolhas
feitas no desenho do estudo. Se a
amostra for pequena, se as perguntas do questionário forem indutivas ou se
houver falhas na análise dos dados, o resultado será afetado.
Também, as pressões do mundo
real, quem financia, os prazos apertados, os interesses políticos e/ou as mudanças
súbitas no cenário socioeconômico enquanto a pesquisa ocorre, podem enviesar
tendenciosamente o resultado.
Sem contar que a escolha do próprio
pesquisador aponta para o fato de que ele traz consigo crenças e vivências que
podem sim, adicionar influências à interpretação dos fatos, mesmo que ele tente
ser imparcial.
Feitas essas breves considerações
e pensando objetivamente nas pesquisas políticas, não é difícil entender,
então, a dimensão do peso relativo ao momento ou ao recorte temporal em que uma
pesquisa é realizada.
Ora, ele representa o fator
crítico que determina se uma pesquisa eleitoral pode ser considerada um raio-X
preciso da opinião pública ou apenas um registro obsoleto de uma percepção
volátil.
Por isso, pesquisas políticas não
preveem o futuro, elas apenas mapeiam tendências em um tempo e espaço
específicos. Como uma fotografia estática de uma realidade política fluida, dinâmica;
posto que, o momento da coleta define o quanto essa foto poderá, de algum modo,
se assemelhar ao resultado esperado.
E as razões disso são óbvias. A começar
pelo fato de que a vida é instável e uma série de acontecimentos (im)previsíveis
podem mudar o curso da história diariamente.
Desse modo, no caso da política, eventos
de grande impacto, tais como um debate, uma denúncia, um escândalo, uma decisão
judicial, podem mudar drasticamente a opinião do cidadão sobre alguma questão ou
a sua intenção de voto. Uma pesquisa feita 10 dias antes da eleição, por
exemplo, pode não captar uma mudança de tendência de última hora.
A realidade do resultado,
expressa pela opinião do entrevistado, é afetada pela vida útil e o tipo de informação
que foi absorvida pela memória do eleitor. Daí os entrevistados serem voláteis,
estarem sujeitos as mudanças. O que explica, também, a razão da existência de alto
índice de indecisos ou votos em branco ou nulo.
Mas, não se pode negligenciar a existência
de eventos extremos globais, tais como crises climáticas, pandemias, desequilíbrios
econômicos e/ou guerras, que são capazes de gerar o chamado efeito de
transbordamento, afetando a percepção do cidadão.
Quando ocorre um desastre global,
por exemplo, o cidadão tende a projetar o medo do macro no micro. Então, em
pesquisas políticas, isso se traduz em uma busca por figuras de autoridade ou lideranças
que transpirem uma credibilidade capaz de garantir proteção e ordem, mesmo que
o problema local seja diferente do global.
Não é à toa que tais eventos podem
servir tanto como cortina de fumaça quanto bode expiatório, no âmbito das
pesquisas. Afinal, enquanto alguns podem ser mais tolerantes com as falhas do
governo local ao acreditarem que o mundo todo está em crise, outros podem punir
o político local por problemas globais, ignorando a falta de controle dos
gestores externos sobre o evento.
Por isso, um evento extremo pode
sim, mudar o que o cidadão considera importante. Se há uma crise global de
saúde, pautas locais, tais como reforma urbana e inclusão escolar ou cultural,
perdem peso na avaliação política. O cidadão passa a julgar o candidato
exclusivamente pela sua capacidade de gestão de crise.
Desse modo, a percepção do indivíduo
deixa de ser fruto apenas da sua vivência imediata e passa a ser mediada por
eventos distantes, tornando a opinião pública local muito mais volátil e
imprevisível.
Inclusive, ele pode responder a
uma pesquisa baseada em polarizações globais em vez de focar em problemas
específicos do seu bairro, da sua cidade ou do seu estado.
Assim, lembre-se: as pesquisas não
são, e nunca serão, uma bola de cristal, uma ferramenta de futurologia, para
serem utilizadas para monitorar uma sociedade cada vez mais complexa,
fragmentada e volátil.
Uma pesquisa reflete o que o
eleitor pensou ontem, mas não garante o comportamento de amanhã, especialmente
com a rapidez das redes sociais e o visível aumento da polarização e das
mudanças nos hábitos de comunicação que dificultam a criação de amostras sociais
que sejam efetivamente perfeitas.
Além disso, fenômenos como o voto
envergonhado ou a recusa em participar de pesquisas tendem a ampliar a distorção
dos dados, impedindo que eles reflitam a totalidade e a sinceridade do
pensamento das partes interessadas.
