quarta-feira, 10 de junho de 2026

É preciso ver além do pão e circo ...


É preciso ver além do pão e circo ...

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Apesar de ser um elemento conectivo entre os seres humanos, não raros os momentos, ao longo da história, em que os esportes foram utilizados para a reafirmação de poder e de instrumento de alienação social.  

Certos governantes sempre utilizaram grandes eventos e manifestações de aptidão física para unificar os cidadãos sob uma bandeira, e dessa forma distraírem a massa em relação aos problemas estruturais internos e legitimar ideologias de superioridade nacional ou racial.

Quem nunca ouviu a expressão "pão e circo", tradução do latim “panem et circenses”?! Durante a Roma Antiga, ela foi utilizada pela primeira vez, pelo imperador Otávio Augusto, como política que garantia a distribuição de trigo e espetáculos nas arenas romanas a fim de desviar o foco da população das crises políticas e da pobreza.

Depois, com a queda de Roma e o advento do sistema feudal, a dinâmica mudou. De modo que o controle social passou a ser exercido fortemente pela religião e pela monarquia absolutista, com festividades religiosas e execuções públicas servindo muitas vezes como válvulas de escape e espetáculos de massa para a população mais frágil e vulnerável.

Lembra do filme Coração de Cavaleiro 1 (A Knight's Tale), de 2002, dirigido por Brian Helgeland? Trata-se de um ótimo exemplo de como o esporte cativava as massas medievais, desviando o foco de questões sociais e funcionando especificamente como um palco para ascensão social e controle.

Então, a partir da contemporaneidade, a lógica do "pão e circo" evoluiu para a indústria cultural e a política de massas, em que governos democráticos e regimes autoritários, ao redor do mundo, passaram a utilizar grandes eventos esportivos, shows patrocinados e o controle da mídia, como formas de promover o ufanismo, elevar a popularidade de seus líderes e desviar a atenção pública de crises econômicas ou corrupção.

O caso mais emblemático ocorreu nas Olimpíadas de Berlim, em 1936, quando Adolf Hitler tentou transformar o evento em uma vitrine para promover a ideologia da suposta supremacia ariana. Fato muito bem retratado pelo filme Raça 2 (Race), de 2016, dirigido por Stephen Hopkins.

Inicialmente, houve um grande movimento nos EUA para boicotar o evento, por conta das políticas de segregação e discriminação do regime nazista. No entanto, o filme mostra como o Comitê Olímpico Internacional (COI), na figura de um de seus membros, saiu pela Alemanha, ignorando os sinais de perseguição e fazendo acordos para garantir que os Estados Unidos competissem, argumentando que a política e o esporte não deveriam se misturar.

Portanto, o que aconteceu na Alemanha nazista, em 1936, representou a abertura de um importante precedente para que as mais importantes instituições ligadas ao esporte mundial se permitissem influenciar por interesses políticos, deixando os ideais desportivos em último plano.

Em 1970, durante um dos momentos mais tenebrosos da repressão militar no Brasil, o governo se apropriou da conquista do tricampeonato mundial de futebol, a partir do ufanismo gerado em torno da seleção. Assim, a conquista foi usada para promover a alienação política, mascarar a censura e a tortura, e fomentar um falso sentimento de grandeza e unidade nacional.

Aliás, o mesmo ocorreu na Argentina, em 1978. Quando a conquista da Copa do Mundo serviu para tentar encobrir todos os atentados aos direitos humanos, ou seja, os desaparecimentos, os sequestros e os assassinatos, que ocorreram no país durante aquele período.

Portanto, esse é o grande ponto de reflexão para o momento atual da contemporaneidade. O uso do esporte para legitimar regimes antidemocráticos e/ou desviar a atenção internacional sobre questões fundamentais, tais como os direitos humanos, as guerras e as crises socioeconômicas, conhecido como sportwashing, não pode ser invisibilizado sob a fachada de exaltação nacional e de festividade global.

Afinal, é exatamente isso que está acontecendo às vésperas da Copa do Mundo de 2026, a ser realizada nos EUA, México e Canadá. A imprensa já dá conta de que tem ocorrido intensos protestos e alertas devido à ausência de transparência e riscos aos direitos humanos.

Diversas denúncias relatam desde ações de segurança hostis contra delegações e jornalistas até alertas gerais emitidos por organizações da sociedade civil; sobretudo, em território estadunidense.

Os principais casos falam do extremo controle migratório e perfilamento étnico nos EUA, apontando abusos nas fronteiras e fiscalização abusiva contra visitantes e participantes dos jogos. Também, casos de revistas vexatórias, com uso de detectores de metal na pista do aeroporto durante o desembarque de certas pessoas, vem repercutindo fortemente.

Grupos de defesa da diversidade e torcedores de diversos países temem a insegurança para transitar e se manifestar nos EUA e no México, citando legislações estaduais restritivas e o histórico de violência contra pessoas transexuais.

No Canadá, ativistas falam sobre o deslocamento forçado e a remoção de pessoas em situação de rua de abrigos de inverno para dar lugar a espaços e comitivas requisitadas pela organização do evento.

E nessa história toda, onde ficou a beleza do esporte?! Grandes eventos esportivos deveriam se concentrar na promoção da coesão social, da inclusão de minorias e do sentimento de identidade coletiva global.

Afinal, a função principal do esporte é disseminar valores como respeito, cooperação e paz, além de contribuir para as transformações urbanas, o turismo e o desenvolvimento econômico; sobretudo, nas cidades-sede.

Infelizmente, esses têm sido tempos difíceis e tristes para a humanidade, dada a dificuldade de unir nações e comunidades em torno de um propósito comum, gerando orgulho cívico e quebrando barreiras culturais, religiosas e políticas. Parece cada vez mais impossível por conta das guerras, dos conflitos, da beligerância em suas mais diversas formas, alcançar esses objetivos.

O esporte não é apenas competição, mas uma ferramenta fundamental para unir seres humanos, promover a inclusão social e criar espaços seguros para o diálogo.

Contudo, a Copa do Mundo de 2026 está transitando na contramão desses valores e contribuindo para o recrudescimento das tensões e das violências. A tensão diplomática presente, antes mesmo do evento começar, já retira o brilho e o entusiasmo que esse tipo de competição sempre desfrutou.

Diferentemente das edições anteriores, onde se buscava uma estrita neutralidade, o Mundial de 2026 tem lidado com interferências diretas de Estados sobre o esporte.

Por isso, a partir desse recorte esportivo, se torna imprescindível tecer uma reflexão mais ampla e profunda do que está acontecendo no mundo, nesse exato momento, na perspectiva das seguintes palavras de Bertolt Brecht: “Primeiro levaram os negros. Mas não me importei com isso. Eu não era negro. Em seguida levaram alguns operários. Mas não me importei com isso. Eu também não era operário. Depois prenderam os miseráveis. ​​Mas não me importei com isso. Porque eu não sou miserável. Depois agarraram uns desempregados. Mas como tenho meu emprego, também, não me importei. Agora eu estou sendo levado. Mas já é tarde. Como eu não me importei com ninguém, ninguém se importa comigo”.