sexta-feira, 24 de julho de 2026

A liturgia profissional em crise


A liturgia profissional em crise

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

As relações de trabalho sempre mereceram espaço de análise e reflexão pela sociedade. São muitos os vieses que apontam para desafios que precisam encontrar com urgência uma solução equilibrada e satisfatória. Contudo, um ponto parece passar à margem dessas discussões, embora, seja de suma importância na medida em que afeta diretamente o próprio desempenho laboral do indivíduo; mas, também, a sociedade em si.

Estou me referindo à liturgia profissional ou do cargo. Ela é a expressão máxima de um conjunto de regras de comportamento, respeito, vestimenta e linguagem exigida de uma pessoa que ocupa uma posição de autoridade ou serviço, tanto público quanto privado. No entanto, basta uma olhada daqui e dali, para se descobrir que essa liturgia está em crise.

Essa crise é gerada pela hiperconexão digital, pela busca excessiva pela informalidade e pelo esgotamento das formas tradicionais de autoridade, presentes na realidade contemporânea.  A exigência de parecer autêntico e comum nas redes sociais desvaloriza a sobriedade, a distância respeitosa e os ritos formais inerentes às funções profissionais.

Algo que associado ao ritmo veloz da comunicação digital prioriza o apelo midiático imediato e o discurso performático em detrimento do peso institucional e do silêncio reflexivo da cargo ocupado. Sem contar a existência de uma recusa contemporânea às classificações e símbolos formais, a qual vêm corroendo a percepção de que certas funções são excluídas de um recato comportamental ético e estrito perante a sociedade.

Por isso, nos mais diferentes espaços profissionais é possível encontrar indivíduos exercendo suas atividades na contramão de uma expectativa já consolidada ao longo do tempo. Adotam posturas, vestimentas e linguagens em momentos profissionais que pertencem à intimidade ou ao lazer. Há um exacerbado personalismo, no qual o cargo passa a servir ao ego ou à ideologia da pessoa, em vez de a pessoa servir ao seu propósito profissional.

O pior é que essa crise também reflete a perda de profundidade técnica e intelectual nas funções exercidas. O que claramente debilita o valor do saber especializado, esvazia o sentido dos papéis sociais e reduz a prática a uma mera reprodução burocrática, muitas vezes, sem a menor qualidade.

Afinal de contas, o esvaziamento do conhecimento produz uma substituição do domínio conceitual sólido por fórmulas prontas e superficiais, que gera queda de competência, evidenciando a falta de preparo crítico para lidar com critérios complexos e mudanças nos diferentes campos do conhecimento, reafirmando uma total precariedade intelectual.

Desse modo, o foco muda do saber real para a simulação do saber; pois, a atual liturgia ignora a necessidade de atualização constante frente a um mercado dinâmico. Assim, as diferentes profissões e cargos perdem o respeito legítimo quando ocupados por profissionais sem o repertório intelectual necessário, permitindo que diplomas e posições virem adornos estéticos em vez de atestados de capacidade técnica prática.

Há um ponto importante nisso que é o fato de a tecnologização contemporânea possibilitar a intensificação dessa perda de profundidade técnica, fazendo com que a crise da liturgia profissional amplifique e intensifique a automatização das rotinas, a padronização dos saberes e o esvaziamento do sentido ritual do trabalho.

Acontece que diante do discurso de que a tecnologia substitui o tempo gasto e o espaço de aprendizagem prático, os quais davam sentido e identidade às corporações de ofício, a busca por resultados imediatos prioriza a velocidade em detrimento do rigor intelectual e da reflexão crítica, fato capaz de se comprovar pela substituição de processos mentais complexos por algoritmos que reduzem a exigência de repertório técnico profundo.

Razão pela qual a dependência de ferramentas tecnológicas padronizadas diminuiu a autonomia e a criatividade na tomada de decisões, fazendo com que o exercício profissional perdesse o seu valor de ofício respeitado e passasse a ser visto como mera execução de tarefas, por profissionais que operam sistemas sem compreender a lógica ou a origem dos problemas que resolvem.

E quem perde com esse movimento? Todos. A sociedade perde o acesso a serviços essenciais bem-feitos, enfrenta lentidão, burocracia sem sentido e falta de segurança nos serviços prestados. O que poucos profissionais se dão conta, apesar de que deveriam, é que estão perdendo o seu valor de mercado, o respeito e orgulho do próprio trabalho, pois a falta de preparo reduz a confiança em sua capacidade.

Quando o emoji de rede social substitui o argumento técnico e o comportamento de botequim substitui a postura profissional, a liturgia aqui discutida entrou em colapso. Quando os locais de exercício profissional deixam de ser vistos como instâncias neutras e respeitáveis, a falta de decoro e de técnica abre margem para narrativas autoritárias que questionam a própria utilidade desses espaços.

Por essas e outras, então, o profissional bem preparado e atualizado acaba sendo escanteado porque suas ponderações técnicas atrapalham narrativas simplistas ou populistas, reforçando erraticamente a ideia de que o esforço de anos em universidades e especializações pode perder o valor frente ao carisma digital e à espetacularização midiática.

Mas, como toda essa realidade é feita de ilusão, no fim das contas, os poucos profissionais que detêm o conhecimento técnico e cumprem com dignidade à liturgia dos cargos ou funções que ocupam acabam trabalhando o dobro para corrigir os erros absurdos e os incidentes causados por todos aqueles visivelmente despreparados para ocupar e desempenhar uma função laboral.

No entanto, há de se refletir que “Não corrigir nossas falhas é o mesmo que cometer novos erros” (Confúcio – filósofo chinês). Afinal, ignorar um problema nos leva a repetir o ciclo da falha e é justamente isso que tem fomentado a crise da liturgia profissional e da perda de profundidade técnica e intelectual nas funções exercidas.