A
liturgia profissional em crise
Por
Alessandra Leles Rocha
As relações de trabalho sempre
mereceram espaço de análise e reflexão pela sociedade. São muitos os vieses que
apontam para desafios que precisam encontrar com urgência uma solução equilibrada
e satisfatória. Contudo, um ponto parece passar à margem dessas discussões,
embora, seja de suma importância na medida em que afeta diretamente o próprio desempenho
laboral do indivíduo; mas, também, a sociedade em si.
Estou me referindo à liturgia
profissional ou do cargo. Ela é a expressão máxima de um conjunto de regras de
comportamento, respeito, vestimenta e linguagem exigida de uma pessoa que ocupa
uma posição de autoridade ou serviço, tanto público quanto privado. No entanto,
basta uma olhada daqui e dali, para se descobrir que essa liturgia está em
crise.
Essa crise é gerada pela
hiperconexão digital, pela busca excessiva pela informalidade e pelo
esgotamento das formas tradicionais de autoridade, presentes na realidade contemporânea.
A exigência de parecer autêntico e comum
nas redes sociais desvaloriza a sobriedade, a distância respeitosa e os ritos
formais inerentes às funções profissionais.
Algo que associado ao ritmo veloz
da comunicação digital prioriza o apelo midiático imediato e o discurso
performático em detrimento do peso institucional e do silêncio reflexivo da
cargo ocupado. Sem contar a existência de uma recusa contemporânea às
classificações e símbolos formais, a qual vêm corroendo a percepção de que
certas funções são excluídas de um recato comportamental ético e estrito perante
a sociedade.
Por isso, nos mais diferentes
espaços profissionais é possível encontrar indivíduos exercendo suas atividades
na contramão de uma expectativa já consolidada ao longo do tempo. Adotam
posturas, vestimentas e linguagens em momentos profissionais que pertencem à
intimidade ou ao lazer. Há um exacerbado personalismo, no qual o cargo passa a
servir ao ego ou à ideologia da pessoa, em vez de a pessoa servir ao seu propósito
profissional.
O pior é que essa crise também reflete
a perda de profundidade técnica e intelectual nas funções exercidas. O que
claramente debilita o valor do saber especializado, esvazia o sentido dos
papéis sociais e reduz a prática a uma mera reprodução burocrática, muitas
vezes, sem a menor qualidade.
Afinal de contas, o esvaziamento
do conhecimento produz uma substituição do domínio conceitual sólido por
fórmulas prontas e superficiais, que gera queda de competência, evidenciando a
falta de preparo crítico para lidar com critérios complexos e mudanças nos
diferentes campos do conhecimento, reafirmando uma total precariedade
intelectual.
Desse modo, o foco muda do saber
real para a simulação do saber; pois, a atual liturgia ignora a necessidade de
atualização constante frente a um mercado dinâmico. Assim, as diferentes
profissões e cargos perdem o respeito legítimo quando ocupados por
profissionais sem o repertório intelectual necessário, permitindo que diplomas
e posições virem adornos estéticos em vez de atestados de capacidade técnica prática.
Há um ponto importante nisso que
é o fato de a tecnologização contemporânea possibilitar a intensificação dessa
perda de profundidade técnica, fazendo com que a crise da liturgia profissional
amplifique e intensifique a automatização das rotinas, a padronização dos
saberes e o esvaziamento do sentido ritual do trabalho.
Acontece que diante do discurso
de que a tecnologia substitui o tempo gasto e o espaço de aprendizagem prático,
os quais davam sentido e identidade às corporações de ofício, a busca por
resultados imediatos prioriza a velocidade em detrimento do rigor intelectual e
da reflexão crítica, fato capaz de se comprovar pela substituição de processos
mentais complexos por algoritmos que reduzem a exigência de repertório técnico
profundo.
Razão pela qual a dependência de
ferramentas tecnológicas padronizadas diminuiu a autonomia e a criatividade na
tomada de decisões, fazendo com que o exercício profissional perdesse o seu
valor de ofício respeitado e passasse a ser visto como mera execução de tarefas,
por profissionais que operam sistemas sem compreender a lógica ou a origem dos
problemas que resolvem.
E quem perde com esse movimento? Todos.
A sociedade perde o acesso a serviços essenciais bem-feitos, enfrenta lentidão,
burocracia sem sentido e falta de segurança nos serviços prestados. O que poucos
profissionais se dão conta, apesar de que deveriam, é que estão perdendo o seu
valor de mercado, o respeito e orgulho do próprio trabalho, pois a falta de
preparo reduz a confiança em sua capacidade.
Quando o emoji de rede social
substitui o argumento técnico e o comportamento de botequim substitui a postura
profissional, a liturgia aqui discutida entrou em colapso. Quando os locais de exercício
profissional deixam de ser vistos como instâncias neutras e respeitáveis, a falta
de decoro e de técnica abre margem para narrativas autoritárias que questionam
a própria utilidade desses espaços.
Por essas e outras, então, o
profissional bem preparado e atualizado acaba sendo escanteado porque suas
ponderações técnicas atrapalham narrativas simplistas ou populistas, reforçando
erraticamente a ideia de que o esforço de anos em universidades e
especializações pode perder o valor frente ao carisma digital e à
espetacularização midiática.
Mas, como toda essa realidade é
feita de ilusão, no fim das contas, os poucos profissionais que detêm o
conhecimento técnico e cumprem com dignidade à liturgia dos cargos ou funções que
ocupam acabam trabalhando o dobro para corrigir os erros absurdos e os incidentes
causados por todos aqueles visivelmente despreparados para ocupar e desempenhar
uma função laboral.
No entanto, há de se refletir que “Não corrigir nossas falhas é o mesmo que cometer novos erros” (Confúcio – filósofo chinês). Afinal, ignorar um problema nos leva a repetir o ciclo da falha e é justamente isso que tem fomentado a crise da liturgia profissional e da perda de profundidade técnica e intelectual nas funções exercidas.
