domingo, 11 de outubro de 2026

A instrumentalização do ódio


A instrumentalização do ódio

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Diante da disseminação em massa do ódio, em todo o planeta, tenho exercitado profundamente a reflexão a respeito. E uma das hipóteses que me veio é de que o ódio é uma maneira de se agigantar frente ao outro, como se houvesse uma apropriação de elementos que configurassem um grau de importância e de significância sobre os demais.

Veja, somos aproximadamente 8,3 bilhões de seres humanos. Por mais visibilidade, publicidade e exibição façamos, a nossa existência em si passa despercebida pela imensa maioria. Somos, simplesmente, mais um na fila do pão. Essa é a verdade! Acontece que esse contexto se mostra bastante eloquente, quando as pessoas se dão conta de que não são tão importantes para pertencer, quanto gostariam.

Antes de pensar do pertencimento à luz da consumo, temos que compreender que ela é uma das motivações psicológicas mais básicas e poderosas que se tem, sendo fundamental para o bem-estar, a sobrevivência e o desenvolvimento. Por isso, a raça humana foi evolutivamente programada para buscar a aceitação do grupo e garantir a sua sobrevivência. Sentir-se pertencente promove felicidade e resiliência emocional, gerando um senso de propósito e significado, na medida em que se sabe onde estão as nossas conexões com o mundo, o que valida a nossa existência e eleva a nossa autoestima.

E por saber de tudo isso, a engenharia do consumo vem criando mecanismos cada vez mais potentes e poderosos para ampliar a necessidade de pertencimento, ainda que por vieses eticamente questionáveis, como é o ódio. Afinal, ela se deslocou da venda de produtos para a venda de identidades, engajamento e, fundamentalmente, emoções. Nesse sentido, para ampliar o sentimento de pertencimento, o mercado descobriu que o ódio e a polarização são os combustíveis mais eficientes para gerar engajamento contínuo.

De repente, a forma mais rápida de fazer alguém sentir que pertence a um grupo é apontar um inimigo comum. Para isso, os algoritmos de redes sociais e estratégias de marketing de nicho detectam que certo conteúdo gera indignação, se espalhando mais rápido e retendo a atenção por mais tempo. Ao consumi-lo, então, o indivíduo sinaliza não apenas quem ele é, mas, principalmente, a quem ele se opõe.

Assim, criam-se ecossistemas onde o passaporte de entrada é o compartilhamento de uma mesma aversão. Daí o ódio estético, político ou cultural se torna amplamente monetizado, graças ao surgimento de bolhas de consumo que validam a raiva do indivíduo, fazendo-o se sentir acolhido e protegido dentro daquele grupo.

Vale ressaltar também que os chamados movimentos de boicote e cancelamento foram absorvidos pela engenharia do consumo. Porque ela compreendeu que o ato de deixar de consumir algo, ou de atacar publicamente uma marca ou personalidade, virou uma performance pública de moralidade. Então, estimular o indivíduo a consumir a própria sensação de justiça para se sentir pertencente ao lado supostamente certo da história, é rentável.

A grande verdade é que a engenharia do consumo não defende a liberdade de escolha ou de decisão em relação ao ódio que alguém nutre por isso ou aquilo. O que as pessoas não percebem é que elas estão sendo usadas como instrumentos de monetização para as Big Techs. Cada indivíduo não passa de mera peça do capitalismo de vigilância e da economia da atenção.

Veja, enquanto a economia da atenção descreve o recurso escasso disputado pelas empresas, o capitalismo de vigilância descreve o método de monetização e controle baseado na extração de dados gerados por essa atenção. O seu ódio, consciente ou não, está gerando uma riqueza inominável para uma ínfima parcela de pessoas no planeta. O ódio que você semeia está regando as raízes cada vez amis profundas da desigualdade mundial.  

Portanto, é nesse cenário que ocorre a amplificação do ódio capaz de fragmentar o tecido social e aprofundar todas as formas de desigualdades, enquanto o custo real é pago pela sociedade em forma de polarização e erosão democrática. No fim das contas, todo o ódio que você despeja, muitas vezes sem saber exatamente o motivo, pois há muita manipulação e distorção para que isso aconteça, não resulta nada para você e tampouco para a sociedade.

Afinal de contas, esse tipo de manifestação distrai o coletivo social dos problemas estruturais reais e foca a energia em conflitos ideológicos ou culturais muitas vezes artificiais. Isso ocorre porque algoritmos de redes sociais e agentes políticos de desinformação lucram com o engajamento por indignação cientes de que os conteúdos que geram raiva ou medo se espalham mais rápido, criam bolhas onde a realidade é distorcida para manter as pessoas em constante estado de alerta e hostilidade.

O resultado prático desse processo é, então, a erosão democrática que representa o enfraquecimento gradual e contínuo das instituições, regras e valores de um regime democrático. O que poucos se dão conta é de que ela tende a estabelecer um ciclo vicioso de ódio e de esgarçamento da própria sociedade, considerando que ela retroalimenta o que há de pior no ser humano, como o medo, o preconceito e o desejo de pertencimento tribal, sentimentos que são frequentemente instrumentalizados por lideranças populistas para acumular mais poder.

Como escreveu Angie Thomas em "O Ódio Que Você Semeia" (The Hate U Give), de 2017, o ódio, seja ele de que natureza for, sempre se desdobra em um ciclo social destrutivo. Portanto, ele não surge no vácuo; mas, em razão do que a própria sociedade plantou na base.

Daí a necessidade de olhar para a própria história, para os interesses que fiaram e moldaram as estruturas de poder, para as dinâmicas de segregação, enfim. É fundamental separar o joio do trigo, para perceber se o que você não gosta é fruto de uma decisão sua ou de pura influência e manipulação de terceiros.  

sábado, 10 de outubro de 2026

A tirania e a unanimidade


A tirania e a unanimidade

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Ninguém é unanimidade. Mas, o tirano vive da ilusão de que pode alcançar esse feito. Como? Valendo-se de todas as estratégias que possam, de alguma forma, silenciar, amedrontar, intimidar, quem se coloca em oposição. Mas, sobre essa perspectiva, penso que não há novidade. Então, resolvi trazer um outro viés de análise que realmente é surpreendente.

Por trás de alguém que deseja ser unanimidade está uma total incapacidade de perceber a existência do outro. Como se o mundo fosse somente ele e nada mais. Isso significa que todas as suas ações e intenções são centradas nele. Nas suas vontades, nos seus quereres, nos seus interesses, nos seus poderes. O resto do mundo não existe, não é importante.

Ora, para que o outro exista de verdade, ele precisa ter o direito de discordar, de ter uma perspectiva própria e de não gostar de outras pessoas. A unanimidade, então, implica no cerceamento da liberdade. Quando um grupo, governo ou instituição exige que todos concordem, a unanimidade torna-se sinônimo de opressão. E aí, a única forma de fazer com que um grande grupo pense exatamente igual é suprimindo a dissidência. O que é alcançado por meio do medo, da censura, da violência, da coerção e/ou da doutrinação.

Portanto, se o preço para fazer parte de um grupo é a obrigação de concordar com tudo, a liberdade individual foi sacrificada. O que significa uma ameaça direta aos seus direitos, à sua individualidade, às suas necessidades, à sua própria existência. Nesse sentido, algumas pautas da plataforma de governo do candidato da ultradireita que circulam pela imprensa nacional, já apontam para o fato que a população foi totalmente apagada, invisibilizada e menosprezada na sua construção.

A tal agenda ultraliberal que pretende acabar com direitos sociais, alterando de maneira profunda a Constituição Federal vigente, deixa explícita a ideia de favorecimento dos interesses de elites financeiras em detrimento do investimento público em bem-estar social. Aliás, sob essa ótica, cortes em orçamentos públicos de saúde, educação e previdência, como os discutidos ou implementados na Argentina e nos Estados Unidos, fragilizaram a rede de proteção social e prejudicaram as parcelas mais vulneráveis da população.

O que mais surpreende, nesse caso, é pensar que tais estratégias não trouxeram melhorias significativas para a economia desses países, incluindo elevada taxa de inflação, juros altos e empobrecimento massivo da população. No caso da Argentina, por exemplo, embora o país tenha saído da hiperinflação de três dígitos, a população enfrenta os efeitos colaterais de um choque fiscal rigoroso. O Produto Interno Bruto (PIB) contraiu e o cenário de recessão já está desenhado. As previsões de crescimento foram cortadas por economistas privados e o próprio Banco Central argentino.

Assim, 31 mil empresas paralisaram setores essenciais como a indústria manufatureira e a construção civil. O número de cidadãos inadimplentes atingiu a marca histórica de 6 milhões de pessoas, ou seja, cerca de 13,6% da população.

Sem acesso a crédito bancário sustentável, as famílias estão recorrendo a empréstimos informais de curto prazo para arcar com despesas básicas, como a alimentação diária. O corte de subsídios do governo disparou as tarifas de serviços públicos, tais como luz, gás e transporte, em mais de 960% desde o final de 2023, pulverizando a renda da população.

Nos EUA, a realidade econômica atual é marcada por uma economia fortemente dividida, onde dados de crescimento robustos mascaram o estresse financeiro e a perda de poder de compra de grande parte da população. Há um franco sentimento de asfixia financeira vivido pelas classes média e baixa.

Os maiores vilões continuam sendo itens essenciais e não negociáveis, como a gasolina, a eletricidade, a moradia e a alimentação. O ganho real das famílias na base da pirâmide foi corroído pela alta acumulada de preços nos supermercados.

Para tentar conter essa espiral inflacionária, o Banco Central americano adotou uma postura rígida, na qual após um período de pausa, voltou a subir a taxa básica de juros, que atualmente se encontra na faixa de 3,75% a 4%.

Algo que para a realidade econômica estadunidense é classificado como restritivo e pesado para o bolso do cidadão comum e para o mercado financeiro. Afinal, a economia dos EUA foi moldada durante mais de uma década por juros próximos de zero.

Essa elevação encareceu brutalmente as dívidas de curto prazo, como as taxas de cartão de crédito e empréstimos estudantis. Os juros futuros desencadearam uma crise imobiliária em que financiar uma casa própria tornou-se proibitivo para a maioria dos jovens americanos.

O estresse financeiro está no maior nível em mais de uma década, o que significa que a parcela de lares estadunidenses que comprometem mais de 40% de sua renda apenas para pagar dívidas subiu para 8,6%. De modo que o cidadão comum sente que está empobrecendo e isso gera uma forte onda de pessimismo e descontentamento social no país.

Portanto, a ideia de unanimidade que exclui o restante da população está intimamente atrelada às agendas ultraliberais defendidas pela ultradireita ao redor do mundo. Elas buscam criar a ilusão de que existe uma vontade única e homogênea da nação e quem não se alinha a essa visão não é considerado apenas um adversário político, mas um inimigo da pátria ou um não cidadão, legitimando sua exclusão do debate e dos direitos.

Isso sem contar que a política e a deliberação democrática são vistas pela ultradireita como ineficientes; por isso, a tomada de decisões é transferida para as forças de mercado ou para tecnocratas, que utilizam da justificativa de que aqueles que discordam das políticas de austeridade, de privatização ou de desregulamentação devem ser marginalizados, tratados como um entrave ao progresso econômico.

Por essas e outras é sempre bom lembrar as palavras de Nelson Rodrigues, “Toda unanimidade é burra. Quem pensa com a unanimidade não precisa pensar”. Bem, diante do cenário atual, ao mobilizar as bases por meio de narrativas identitárias rígidas, moralismos e/ou dogmas de mercado, a ultradireita frequentemente exige de seus seguidores essa lealdade acrítica.

Pois o dissenso interno é rotulado como traição, e a coesão do grupo passa a depender de uma adesão quase dogmática a lideranças ou suas ideologias de poder.

No entanto, justamente quando a ultradireita tenta minimizar e transformar problemas estruturais profundos, como a desigualdade, a precarização do trabalho, as crises climáticas, em meros bodes expiatórios ou a slogans fáceis, é que ela se trai reafirmando e enaltecendo o seu mais absoluto desprezo pela própria população que a fez ascender ao poder. Do mesmo modo que faziam os reis absolutistas, entre os séculos XVI e XVIII, e certos mafiosos retratados pelo cinema.  

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

A pseudocoesão da ultradireita brasileira


A pseudocoesão da ultradireita brasileira

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

O autoritarismo político da ultradireita sempre se valeu das ameaças, da intimidação, da truculência, para implantar o terror, o medo e o silenciamento das populações. Mas, pensando profundamente a respeito, não consigo visualizar nada disso como elemento suficientemente capaz de garantir e consolidar o poder.

Ao contrário do que se pensa, a ultradireita não é uma massa homogênea e profundamente coesa. Por mais que existam pontos ideológicos de convergência entre os seus eleitores, simpatizantes e apoiadores, quando o assunto enviesa para o campo do poder econômico, aí a coesão se desconstrói pela disseminação das fraturas.

Sobretudo, quando o excesso de euforia histérica nas campanhas ultradireitistas começam a propagar verdades indigestas que não só angariam uma péssima receptividade entre a amplidão dos eleitores, como um desconforto terrível entre os seus próprios pares, os quais começam a perceber riscos e ameaças aos seus interesses particulares.

Não, não é verdade que aquele que pretende sentar-se na cadeira de Presidente da República fará da sua governança um espaço democrático suficientemente capaz de atender à diversidade e à pluralidade de expectativas criadas por seus eleitores, simpatizantes e apoiadores.

Primeiro, porque o poder tem em si mesmo o despertar de um sentimento individualista, egoísta e narcísico, que acaba por inebriar e entorpecer aqueles que lhe olham fixamente nos olhos. Saba aquela máxima de que “ninguém solta a mão de ninguém”? Bem, no caso da ultradireita isso não é verdade! Fato que acende, ou pelo menos deveria acender, o pisca-alerta de quem está ao redor.

Segundo, porque desde a Revolução Industrial, lá na segunda metade do século XVIII, o mundo se viu às voltas com uma proliferação de atividades econômicas e de interesses financeiros que afastam as respostas governamentais de um alinhamento perfeito e ajustado de maneira igualitária. Alguém sempre sai insatisfeito, aborrecido e/ou prejudicado, em maior ou em menor escala.

Especialmente, se esses indivíduos deixaram de considerar uma análise rigorosa do cenário econômico e de comércio exterior, antes de oferecer apoio e lealdade absoluta ao seu candidato. Apostas não significam necessariamente resultados positivos.

Basta uma consulta rápida para descobrir que, no contexto atual, o principal parceiro comercial do Brasil, contribuindo diretamente para o progresso e o desenvolvimento nacional, impulsionando a balança comercial e a geração de empregos na indústria, o extrativismo e agronegócio, é a China e não os EUA.

Desde 2009, a China ocupa o posto de maior parceiro comercial do país. Em 2026, a corrente de comércio bilateral somou mais de US$ 143,30 bilhões até setembro. A demanda insaciável chinesa por petróleo e grãos sustenta o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro e gera divisas internacionais primordiais para a estabilidade da taxa de câmbio nacional.

Essa dinâmica reflete uma profunda transição geopolítica e econômica global, consolidando o papel da China como o motor das exportações brasileiras e evidenciando o pragmatismo da política externa nacional, pautada no "não-alinhamento ativo", tendo em vista de que o Brasil busca manter canais de diálogo e comércio abertos com todos os blocos, defendendo seus próprios interesses econômicos e políticos de forma pragmática e multilateral.

Enquanto os EUA, em razão da imposição de barreiras tarifárias, o protecionismo e a volatilidade política de Washington acabaram afastando os EUA de investimentos estruturais de longo prazo no Brasil.

Além disso, o envolvimento estadunidense em disputas geopolíticas consome recursos fiscais significativos que geram inflação interna e pressões nas taxas de juros americanas, reduzindo a atratividade e a capacidade do país de atuar como o principal polo de transferência tecnológica para a América Latina.

Fato que deveria, então, estabelecer um grau de análise mais criteriosa daqueles que consideram a manutenção histórica dessa relação comercial como o melhor caminho para o Brasil.

Segundo relatórios como o Inter-American Dialogue e dados da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), leis como o Inflation Reduction Act priorizam subsidiar indústrias locais estadunidenses.

Além disso, o aperto monetário nos EUA atrai capital de volta para o Tesouro americano, de modo que os EUA competem menos em grandes obras públicas internacionais. Por fim, padrões ambientais e burocráticos complexos também desaceleram acordos.

Assim, enquanto os EUA reduzem o ritmo de aportes estruturais, o ecossistema econômico global oferece outras vias de desenvolvimento para o Brasil.

Haja vista o investimento estatal chinês com aportes maciços em energia, ferrovias e telecomunicações (5G), o financiamento via BRICS a partir do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD) que oferece crédito alternativo, e a transferência tecnológica real por meio de parcerias de manufatura avançada focadas na transição energética.

E, talvez, seja exatamente por esse panorama é que a ira do autoritarismo político da ultradireita esteja intensificando as ameaças, a intimidação, a truculência, para implantar o terror, o medo e o silenciamento das populações; sobretudo, em relação aos espaços do conhecimento como as Universidades Públicas e os Institutos Tecnológicos.

Bem, o país acabou de assistir ao um incêndio de grandes proporções que destruiu completamente o prédio da Diretoria de Inovação e Empreendedorismo, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), gerando um prejuízo estimado em mais de R$ 100 milhões e afetando cerca de 200 pesquisas científicas. Entretanto, novas ameaças vêm sendo feitas contra outras instituições de ensino país afora 1.

Sob essa ótica, esses locais são frequentemente vistos pela ultradireita como polos de difusão de ideias progressistas ou de esquerda.

Embora a ideia seja fazer transparecer um sentimento de descontentamento em relação às manifestações estudantis, por conta das pretensões do candidato ultradireitista, se eleito for, quanto aos direitos do cidadão consagrados pela Constituição Federal de 1988, o que inclui a Educação pública e gratuita.

Porém, nas entrelinhas dos acontecimentos não se pode descartar que o tensionamento contra essas instituições seria uma forma de disputar a hegemonia cultural e conter a influência de discursos alinhados a blocos geopolíticos que não os EUA.

Ao enfraquecer ou deslegitimar a credibilidade dessas instituições, abre-se espaço para narrativas mais alinhadas ao pensamento liberal e de mercado tradicional estadunidense.

Além disso, a própria pauta de promover o desinvestimento na ciência e na educação superior pública indica qualquer despreocupação em relação à perda de autonomia científica.

O que significa que sem tecnologia própria, o país volta a ser um exportador de commodities e um importador de soluções tecnológicas, softwares e patentes concentradas no Hemisfério Norte.

Enquanto, do ponto de vista do avanço de modelos educacionais baseados em fundações privadas e corporações transnacionais de ensino, possibilita a importação do modelo corporativo estadunidense de educação, transformando o conhecimento em uma mercadoria alinhada à lógica de mercado deles.

Em linhas gerais, o que está posto sobre a mesa brasileira, nesse exato momento, é a escolha entre uma postura de autonomia e liderança regional ou de alinhamento com eixos tradicionais de poder. O reflexo dessa decisão poderá significar, portanto, o avanço ou o retrocesso para o povo brasileiro, incluindo as próprias elites herdeiras do velho colonialismo nacional.   

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Dizia Horácio, filósofo da Roma antiga, “Quando a casa do vizinho está pegando fogo, a minha casa está em perigo”.


Dizia Horácio, filósofo da Roma antiga, “Quando a casa do vizinho está pegando fogo, a minha casa está em perigo”.

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Por sorte, sem registro de feridos ou vítimas fatais, um incêndio de grandes proporções destruiu o antigo prédio da Diretoria de Inovação e Empreendedorismo (Dine) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), localizado na Cidade Universitária, na Zona Oeste do Recife, na noite de ontem. O fogo gerou um prejuízo estimado em R$ 100 milhões e causou a perda irreparável de cerca de 20 anos de pesquisas científicas acumuladas. Então, é preciso refletir...  

O domínio e o uso do fogo aconteceram durante a Idade da Pedra, há cerca de 2,5 a 3,3 milhões de anos, quando o Homo erectus aprendeu a criar chamas através do atrito de pedaços secos de madeira ou do choque entre pedras. Desde, então, o fogo tem sido um dos motores mais potentes da evolução, da cultura e do avanço tecnológico da humanidade, transformando profundamente a nossa relação com o meio ambiente e moldando o mundo contemporâneo.

Acontece que ele expressa a dualidade entre a criação e a destruição. Razão pela qual o mesmo elemento que iluminou a pré-história e permitiu o desenvolvimento cognitivo e social também atuou como um agente devastador de nossa própria memória. Ao longo dos séculos, grandes incêndios apagaram registros insubstituíveis, redesenhando o mapa do conhecimento e da cultura global.

Começando pela destruição da Biblioteca de Alexandria, no Egito. Talvez a perda cultural mais citada da história. Alexandria abrigava o maior centro de saber da Antiguidade, com centenas de milhares de rolos de papiro contendo obras de filosofia, matemática, astronomia e literatura.

Na verdade, sua destruição se deu por etapas, envolvendo o famoso incêndio acidental causado por Júlio César em 48 a.C. e ataques posteriores, até que o desaparecimento de seu acervo criou lacunas científicas e históricas que a humanidade levou séculos para tentar preencher.

Depois, o grande incêndio de Roma, em 64 d.C., durante o reinado do imperador Nero, quando o fogo consumiu 10 das 14 regiões da capital do Império Romano. Além da crise humanitária e política, as chamas destruíram templos antigos, palácios e incontáveis documentos oficiais, obras de arte gregas e registros históricos dos primeiros séculos de Roma, forçando uma reconstrução total da identidade urbana e arquitetônica da cidade.

Já no século XX, ocorreu a queima da Biblioteca de Lovaina, na Bélgica, em 1914 e 1940. Durante a Primeira Guerra Mundial, o exército alemão incendiou deliberadamente a biblioteca da Universidade de Lovaina, destruindo cerca de 300 mil livros e manuscritos medievais raros. Na Segunda Guerra Mundial, o local foi bombardeado e queimado novamente.

O episódio chocou o mundo e transformou-se no símbolo máximo do memoricídio moderno, ou seja, a destruição intencional do patrimônio cultural de um povo para apagar sua identidade.

Em 1992, o incêndio da Biblioteca Nacional de Sarajevo, durante a guerra da Bósnia. Nesse episódio, a biblioteca foi deliberadamente bombardeada por forças sérvias. Mais de 1,5 milhão de volumes, incluindo 155 mil obras raras e manuscritos islâmicos e cristãos medievais, viraram cinzas.

Cidadãos e bibliotecários arriscaram suas vidas sob fogo de atiradores de elite para tentar salvar os livros. A perda representou uma tentativa violenta de apagar a história da coexistência multiétnica da região.

Em 2018, no Brasil, o incêndio do Museu Nacional do Rio de Janeiro consumiu cerca de 90% de um acervo de 20 milhões de itens. Foram perdidos registros linguísticos e gravações de línguas indígenas já extintas, coleções egípcias e greco-romanas, além de fósseis únicos, como o crânio de Luzia, o mais antigo das Américas, posteriormente recuperado em partes.

Foi uma das maiores catástrofes arqueológicas e antropológicas contemporâneas. A fachada do palácio e o telhado foram totalmente recuperados e entregues como parte das celebrações do bicentenário da Independência do Brasil, em 2022.

Em dezembro de 2024, a instituição ganhou ainda mais relevância jurídica e cultural ao ser declarada Patrimônio Cultural Imaterial do estado do Rio de Janeiro. Mas, a reconstrução dos laboratórios de pesquisa e de toda a infraestrutura interna do prédio ainda continua acontecendo.

Contudo, as perdas em si trazidas pelo fogo não contam tudo, não estimulam por inteiro as reflexões que precisam se dar diante desses episódios terríveis. Os incêndios provocados por disputas geopolíticas e ideológicas moldaram a historicidade humana através do "bibliocídio", que significa a destruição deliberada ou colateral de acervos culturais para apagar a memória de povos conquistados e consolidar o poder de novos impérios.

Enquanto o fogo na base da civilização representou a criação e a sociabilidade, na guerra ele foi refinado como arma de aniquilação sociocultural. Mas, não é só isso. Incêndios em espaços de desenvolvimento científico e tecnológico, que sustentam pesquisas de elevado padrão intelectual, podem significar ameaças ao protagonismo de certas nações, de modo que precisam ser interrompidas, a partir de protocolos neoimperialistas.  

Afinal de contas, quando um país perde seus laboratórios de ponta, bancos de dados genéticos, acervos históricos ou protótipos tecnológicos por conta de sinistros, sejam eles acidentais ou fruto de sabotagem, o impacto vai muito além do prejuízo financeiro. Há uma interrupção abrupta do ritmo de inovação, o que pode atrasar uma nação em décadas e consolidar a dependência tecnológica em relação às potências globais.

Nesse sentido, a destruição de infraestruturas de pesquisa locais desestimula a permanência de cientistas de alto nível em seus países de origem, empurrando-os para centros de pesquisa estrangeiros mais seguros e financiados. O que potencializa a perda de soberania científica, impedindo que países em desenvolvimento criem soluções próprias para suas demandas, tais como vacinas, transição energética ou defesa, obrigando-os a importar pacotes tecnológicos fechados.

Além disso, é fundamental pensar que, no cenário contemporâneo, a segurança de um ecossistema científico não se limita a brigadas de incêndio tradicionais, mas exige blindagem contra ataques híbridos físicos e digitais que visam paralisar o avanço de concorrentes geopolíticos.

Dessa forma, a proteção física e digital de espaços de alta tecnologia não é apenas uma questão de infraestrutura ou de zeladoria patrimonial; é uma estratégia essencial de segurança nacional e de garantia da soberania intelectual frente às pressões externas.

Aliás, a Tragédia de Alcântara, o maior desastre do Programa Espacial Brasileiro, ocorrido em 2003 no Centro Espacial de Alcântara, no Maranhão, durante os preparativos finais da Operação São Luís que colocaria dois satélites brasileiros em órbita, eliminou, de uma só vez, cerca de um quinto de toda a equipe científica espacial do Brasil, paralisando o projeto do VLS por anos.

Se o programa brasileiro prosperasse, o país se tornaria um concorrente direto de grandes potências, especialmente do Centro Espacial de Kourou, na Guiana Francesa. Diante disso, teorias populares frequentemente apontam o envolvimento de agências estrangeiras, tais como a CIA estadunidense ou o serviço secreto francês, em uma suposta sabotagem por pulsos eletromagnéticos ou interferência eletrônica, apesar de o relatório oficial da Aeronáutica ter mantido o caso oficialmente encerrado como uma falha técnica trágica e acidental.

De qualquer forma, o fogo e os interesses geopolíticos desfrutam de uma relação importante, profunda, histórica e extremamente atual. O fogo deixou de ser apenas um fenômeno natural ou um desastre ambiental para se tornar uma ferramenta de poder, desestabilização econômica e disputa territorial no cenário global.

Haja vista as mudanças climáticas e a geopolítica do Ártico, em que o aumento das queimadas e dos incêndios florestais em regiões como a Sibéria (Rússia), Alasca (EUA) e norte do Canadá acelera o derretimento do solo congelado.

Assim, o recuo do gelo e o controle do fogo nessas regiões abrem novas rotas comerciais marítimas, como a Rota do Mar do Norte, e dão acesso a reservas gigantescas de petróleo, gás natural e minérios até então inacessíveis. Por isso, diferentes países disputam diretamente a hegemonia e a militarização dessa nova fronteira.

Do mesmo modo acontece na América do Sul, onde o fogo é historicamente utilizado como técnica de manejo da terra, mas frequentemente associado ao desmatamento ilegal para a expansão da agropecuária e da mineração.

Ou em conflitos recentes no Leste Europeu ou no Oriente Médio, em que o uso de incêndios provocados em campos de trigo e infraestruturas de energia visa desestabilizar a segurança alimentar e econômica de nações inteiras, forçando migrações em massa e alterando o equilíbrio de forças na região.

Portanto, o fogo não é só o fogo. Ele é o combustível da guerra, do conflito, da dominação, da exploração, da aculturação. Da pólvora às armas termobáricas, o domínio do fogo ditou quem venceria batalhas e quem seria subjugado, a partir da destruição das terras, vilas e plantações do inimigo, essa foi sempre foi uma tática cruel de submissão.

Fato que evoluiu para a ferramenta de dominação e exploração, em que o fogo industrial passou a alimentar as máquinas das potências coloniais. Pela queima do carvão e do petróleo, o fogo não apenas transformou a economia global, mas também estabeleceu uma hierarquia de poder baseada em quem controlava os recursos energéticos, muitas vezes à custa da exploração de povos e territórios vulneráveis.

E assim, o fogo alcança também o patamar da queima do imaterial. Ao longo da história, bibliotecas inteiras, templos, registros sagrados e línguas escritas de povos colonizados foram transformados em cinzas para apagar sua memória e impor uma nova cultura dominante. Portanto, quem controla o fogo, na maioria das vezes, tenta controlar a narrativa da história.

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

O excesso de CERTEZA ...


O excesso de CERTEZA ...

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Sabe o que é mais interessante em certas pessoas, por aí? O excesso de CERTEZA. Pensam, falam, agem, se comportam, como se o imprevisível, o incerto, o inesperado, o imponderável, não pudesse cortar ou atravessar os seus caminhos. Acontece que a teoria na prática é bem diferente!

Sim, porque o excesso de certeza, inevitavelmente, conflita com a dinâmica de que toda e qualquer ação corresponde a uma reação. Na vida, quando alguém age com excesso de certeza, demonstrando uma profunda arrogância e inflexibilidade, costuma aplicar uma força desproporcional sobre a realidade ou sobre os outros. Daí a reação do ambiente costuma vir na mesma proporção, ou seja, com resistência, conflito ou frustração extrema quando as coisas não saem como planejado.

Recém-saído do primeiro turno eleitoral, vestido pela soberba de uma relativa vitória, o candidato da ultradireita brasileira já brada aos quatro cantos uma série de medidas que cabem dentro do discurso e da teoria; mas, que carecem de uma análise séria, dados os resultados nefastos que irão incomodar muitos dos seus apoiadores de campanha e simpatizantes.

Afinal, a relação da ultradireita com as elites e os poderosos é baseada na manutenção de regalias e privilégios entre eles. Nesse sentido, a consolidação do caos a partir do desmonte institucional, da inversão de valores, da ruptura constitucional, do arrocho econômico, do negacionismo cientifico e ambiental, do desinvestimento em saúde e educação, não só irá afetar as camadas mais frágeis e vulneráveis; mas, também, às classes dominantes.

Embora a base piramidal sofra os impactos imediatos e mais severos do desmonte público, a consolidação do caos social e institucional gera consequências que retroalimentam e prejudicam o ambiente de negócios e a segurança das próprias elites. A começar pelo fato de que os mercados e investidores nacionais e internacionais dependem de regras claras e previsíveis, de modo que a erosão das instituições e a ameaça de rupturas constitucionais afugentam o capital estrangeiro, desvalorizam a moeda e aumentam o risco-país.

Mas não é só isso. O desrespeito aos tratados climáticos e o avanço da degradação ambiental fecham mercados externos de exportação. Grandes fundos globais de investimento hoje exigem critérios de sustentabilidade (ESG), boicotando países que promovem o desmonte ambiental.

No que diz respeito à falta de recursos em educação drena-se a formação de mão de obra qualificada, essa estratégia reduz a produtividade e a capacidade de inovação das empresas locais, enquanto o colapso na saúde pode gerar crises sanitárias que paralisam o comércio e o consumo.

Bem, quando esses dois pilares básicos falham, o mercado de trabalho e o setor produtivo sofrem um efeito cascata que limita o crescimento do país. A escassez de recursos na formação escolar e técnica impede que trabalhadores desenvolvam habilidades complexas. Sem profissionais qualificados, as empresas locais perdem competitividade e enfrentam dificuldades para inovar.

Do mesmo modo, as comunidades com assistência médica precária ficam vulneráveis a surtos e crises sanitárias. E como já visto historicamente, problemas graves de saúde pública afastam os consumidores e interrompem as cadeias de suprimentos.

Assim, a soma de baixa produtividade com crises frequentes reduz a renda média e joga mais pessoas na informalidade ou no desemprego. Isso sobrecarrega os cofres públicos com programas de assistência, em vez de consolidar uma População Economicamente Ativa (PEA) autossuficiente.

Por isso, o arrocho econômico extremo reduz o poder de compra da população. Sem uma classe média ativa e com o empobrecimento da base, o mercado interno encolhe, afetando o lucro das próprias indústrias e do varejo. Além disso, o aumento da miséria costuma vir acompanhado da escalada da violência urbana, impactando a qualidade de vida e a segurança de todos.

A ultradireita faz questão de não enxergar a sua dependência umbilical com as bases que sustentam a pirâmide social. Sem essas camadas o topo simplesmente desabaria. Por isso, o colapso ou a precarização excessiva da base compromete a estabilidade de toda a estrutura socioeconômica. Bastaria, então, olhar para o texto constitucional vigente para alcançar esse entendimento.

Na Constituição Federal de 1988 essa interdependência e a centralidade das bases sociais ficam evidentes em vários pontos fundamentais. Já no art. 1º, está estabelecido que a República tem como fundamentos a dignidade da pessoa humana e os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa, o que significa que o trabalho e a dignidade humana se encontram no mesmo nível de importância do desenvolvimento econômico.

Em seguida, no art. 3º, impõe-se ao Estado o dever de erradicar a pobreza e a marginalização, além de reduzir as desigualdades sociais e regionais. O que demonstra que o pacto social brasileiro pressupõe o fortalecimento da base para garantir a solidez da nação.

No art. 6º, garante-se o acesso universal à educação, saúde, trabalho, moradia, transporte e segurança, considerando que esses direitos funcionam como uma rede de proteção e sustentação para que as camadas mais baixas possam viver e produzir com dignidade.

E no art. 170, determina-se que a ordem econômica deve ser fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, tendo por fim assegurar a todos uma existência digna, conforme os ditames da justiça social.

Mas, não são só esses artigos, ao longo de todo o texto constitucional de 1988 fica claro porque essa Constituição Federal é conhecida como Cidadã. Ela rompeu com o regime ditatorial anterior e colocou a dignidade da pessoa humana e os direitos sociais no centro do ordenamento jurídico brasileiro. Diferente de outras constituições, ela traz os direitos individuais e coletivos logo no Artigo 5º, antes mesmo de organizar o Estado. Isso mostra que o cidadão vem primeiro.

Inclusive, é fundamental destacar que foi ela quem deu origem ao SUS (Sistema Único de Saúde), garantindo que a saúde passasse a ser um direito de todos e dever do Estado, além de universalizar o acesso à educação pública. Também, houve a criminalização do racismo, como crime inafiançável e imprescritível, e o reconhecimento explícito dos direitos territoriais e culturais dos povos indígenas e quilombolas.

E de maneira extraordinária, ela não permitiu apenas o voto, mas também criou ferramentas para o cidadão propor leis de iniciativa popular e participar de decisões importantes por meio de plebiscitos e referendos; bem como, consolidou conquistas históricas como o seguro-desemprego, o FGTS, o décimo terceiro, a licença-maternidade de 120 dias e a licença-paternidade.

Por isso, ela é Cidadã. Porque deixou de ser apenas um manual de organização do governo para se tornar um verdadeiro pacto de proteção ao cidadão, buscando reduzir as desigualdades e garantir que todos tenham uma vida digna. Quaisquer tentativas de desconstruir essas conquistas irá trazer consequências imediatas, portanto, aos apoiadores de campanha e simpatizantes da ultradireita e demais vieses da direita brasileira.

Trata-se de lógica pura. A realidade dos fatos não se submete às vontades e quereres autoritários, de quem quer que seja. No mundo real a idealização vira fumaça. As consequências indigestas e inoportunas sempre batem à porta. Por isso, “Se teu cão passa fome, qualquer pessoa que oferecer um pedaço de comida consegue afastá-lo de ti” (Provérbio Árabe).

terça-feira, 6 de outubro de 2026

A democracia verga, mas não quebra!


A democracia verga, mas não quebra!

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Quer saber?! Que me importa se deu segundo turno! Não, não estou diminuindo os fatos ou exercitando um otimismo ingênuo. Acontece que, pouca gente já se deu conta, diante desse resultado o Brasil foi parar no centro do palco. Pois é.

É preciso entender que a expansão e a disseminação da ultradireita desconforta o planeta, com todas as lembranças e memórias nefastas que recortam a Segunda Guerra Mundial. Todos os seus discursos e plataformas indigestos e desumanos. Toda a sua barbárie que tenta sufocar os pilares democráticos.

Caro (a) leitor (a), o mundo entre 1914 e 1945, ou seja, no período que abarca a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais, tem a dimensão exata do que foi experienciar o cotidiano desses acontecimentos. Tanto que, principalmente na Europa, a historicidade desse tempo é contada e recontada ao longo das gerações para não se deixar esquecer.

Então, retornando ao século XXI, com todas as suas investidas fascistas e neoimperialistas, a ultradireita desperta uma legião contraria às suas aspirações em tomar de assalto o planeta. Como dizia Michel Foucault, filósofo e historiador francês, “Onde há poder há resistência”. Simples, assim. De modo que, no século XXI, essa premissa se manifesta fortemente nas tensões globais envolvendo o antifascismo e o anti-imperialismo.

Quem diria, não é mesmo?! O Brasil não está só. Depois do seu retorno triunfal ao cenário diplomático mundial, se apropriando do seu protagonismo genuíno, consolidado pela participação consistente nos BRICS, ele se mostra como um bastião de resistência fundamental. Por isso, todos os olhos do mundo se voltam para ele e estendem seu apoio.   

Agora, não apenas os fã-clubes e comunidades digitais (fandoms) de artistas nacionais, como Anitta e Luísa Sonza, se engajam na campanha do segundo turno em favor da democracia e contra o estado de barbárie que deseja implementar a ultradireita.

Também os administradores dos fã-clubes dedicados a Beyoncé, Taylor Swift, entre outros, abriram seus canais de comunicação para divulgar materiais da campanha de Lula, informar eleitores indecisos e incentivar o comparecimento às urnas no dia 25 de outubro.

O manifesto esclarece que a mobilização é organizada de forma autônoma pelos administradores das comunidades de fãs em defesa da democracia, não significando necessariamente que todos os artistas citados tenham declarado apoio individual à candidatura.

Entretanto, a iniciativa não deixa de lançar um canhão de luz gigantesco sobre os riscos que a democracia está correndo, não só no Brasil, impondo a necessidade de união pela democracia.

Sim, porque a ultradireita se apropria de todos os demais vieses direitistas para se tornar hegemônica e suficientemente capaz de estabelecer o seu populismo e polarização, fazendo com que suas lideranças usem a divisão social para enfraquecer o contraditório, façam do adversário político um inimigo existencial, desacreditem na alternância de poder para se perpetuarem de forma recorrente.

Tendo em vista de que esses são tempos altamente tecnológicos, a ultradireita utiliza, então, como estratégia de desinformação as redes sociais. Seja pelos algoritmos potencializam mentiras e teorias conspiratórias. Seja pelo sistemático questionamento em relação à integridade dos processos eleitorais. Seja pelo implacável desgaste contra a confiança pública na imprensa livre.

Porém, enquanto está ensimesmada na sua vaidade narcísica, ela acaba deixando de perceber como o antifascismo e o anti-imperialismo do século XXI atuam como as contraforças diretas ao seu pseudopoder. Eles se organizam tanto em movimentos de rua quanto em redes digitais, coletivos de checagem de fatos, defesa dos direitos humanos e frentes amplas democráticas.

De modo que emergem assuntos extremamente desconfortáveis para o fascismo ultradireitista como a defesa de povos indígenas contra o avanço de mineradoras estrangeiras, os movimentos por soberania, a segurança alimentar, a busca por moedas alternativas para fugir do domínio do dólar, e o fortalecimento de blocos regionais que buscam um mundo multipolar.

Portanto, caro (a) leitor (a), o Brasil não está só, como já esteve em algum momento do seu passado. O Brasil aprendeu o que é ter vez e voz no mundo. Aprendeu a se fazer respeitar.

Sendo assim, no cenário internacional do século XXI, o protagonismo brasileiro se fortalece não somente por uma onda de manifestações contundentes contra o avanço do fascismo e do neoimperialismo, representado por pressões hegemônicas e sanções unilaterais de elementos da ultradireita; mas, pela força do espírito democrático global que crê na autodeterminação dos povos como o caminho para potencializar o multilateralismo.  

#PELADEMOCRACIA



segunda-feira, 5 de outubro de 2026

A cidadania brasileira e a Constituição de 1988


A cidadania brasileira e a Constituição de 1988

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Em tempos de uma ampla disseminação da Teologia da Prosperidade e da Teologia do Domínio, milhões de pessoas são levadas a acreditar e viver sob promessas que não se sustentam por si mesmas.

Surgida nos EUA, em meados do século XX, e ganhado força global nas décadas de 1970 e 1980, a Teologia da Prosperidade defende que Deus deseja ver seus fiéis ricos, saudáveis e felizes nesta vida, ou seja, ensina que doações financeiras, como dízimos e ofertas, funcionam como uma semente que garante o retorno material em dobro; sobretudo, quando se manifestados conjuntamente com palavras de decreto, visualização e exigência de bênçãos a Deus.

Também surgida nos EUA em meio a vertentes ultraconservadoras do protestantismo, entre as décadas de 1970 e 1980, a Teologia do Domínio defende que os cristãos devem ocupar e controlar as esferas de poder da sociedade, tais como a política, a economia, a cultura e a educação, para subordinar o Estado civil às leis e aos preceitos bíblicos. De modo que a sua presença vem se consolidando a partir de discursos de lideranças e agentes públicos que encaram mandatos políticos como missões espirituais para libertar a nação.

Então, decidi escrever a respeito, porque 05 de outubro marca a promulgação da Constituição de 1988, conhecida como “Constituição Cidadã”, a qual contou com a participação de 559 parlamentares titulares na Assembleia Nacional Constituinte, responsáveis por elaborar e aprovar o texto constitucional ao longo de 20 meses de trabalho, além de juristas e forte participação popular.

Foi a partir, então, dessa Carta Magna, que a população brasileira; sobretudo, as camadas mais frágeis e vulneráveis, teve garantidos seus direitos civis e sociais. Isso significa, por exemplo, o surgimento do Sistema Único de Saúde (SUS) que garantiu o acesso universal e gratuito à saúde como um direito de todos e dever do Estado.

Para quem não sabe, antes de 1988, apenas trabalhadores com carteira assinada tinham direito ao atendimento público de saúde através do antigo Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social (Inamps). Quem trabalhava na informalidade, desempregados ou sem carteira assinada não tinha direito ao atendimento pelo Inamps.

A Previdência Social Rural que permitiu a aposentadoria de trabalhadores rurais e agricultores familiares sem a necessidade de contribuição formal prévia, beneficiando diretamente milhões de idosos no interior do país e reduzindo a pobreza no campo.

O Benefício de Prestação Continuada (BPC) que garante um salário-mínimo mensal para pessoas com deficiência e idosos a partir de 65 anos que comprovem não possuir meios de prover a própria manutenção.

O amparo legal para a construção de políticas públicas de combate à pobreza e transferência de renda, quando em seu artigo 3º, inciso III, ela coloca expressamente que um dos objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil é erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais. Isso deu legitimidade jurídica irrefutável para que governos subsequentes criassem programas focados na redistribuição de renda.

O destaque para a educação e as ações afirmativas, na medida em que ela rompeu com o modelo anterior ao tratar a educação não apenas como um serviço, mas como um direito social fundamental de todos e um dever do Estado.

Assim, o artigo 205 definiu a educação como direito de todos e dever do Estado e da família, de modo que o não oferecimento do ensino obrigatório pelo poder público importa responsabilidade da autoridade competente.

Fato que garantiu o ensino fundamental gratuito e, com reformas posteriores baseadas em seus princípios, estendeu a obrigatoriedade da faixa dos 4 aos 17 anos.

Sem contar que o artigo 212 blindou os recursos da educação, obrigando a União a aplicar nunca menos de 18%, e Estados e Municípios no mínimo 25% da receita de impostos na manutenção e desenvolvimento do ensino.

Permitindo, então, organizar os sistemas de ensino de forma que os Municípios atuam prioritariamente no ensino fundamental e infantil, os Estados no ensino fundamental e médio, e a União coordena o sistema nacional e redistribui recursos para diminuir desigualdades regionais.

O que significou a base para a criação do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério (Fundef) e, posteriormente, do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb).

A promoção dos Direitos Civis e proteção de grupos vulneráveis. Haja vista o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA - 1990), que passou a enxergar crianças e adolescentes como sujeitos de direitos e prioridade absoluta do Estado, proibindo o trabalho infantil e criando os Conselhos Tutelares.

A Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006) e Lei do Feminicídio (Lei nº 13.104/2015), que foi tornado crime autônomo pela Lei nº 14.994/2024. Criando-se, então, mecanismos rigorosos para coibir e prevenir a violência doméstica e familiar contra a mulher, tipificando o assassinato de mulheres por razões de gênero; bem como, tipificando as diferentes formas de violência doméstica e familiar contra a mulher – física, psicológica, sexual, patrimonial e moral.

O Estatuto do Idoso (Lei nº 10.741/2003) e Estatuto da Pessoa com Deficiência (Lei nº 13.146/2015), que são legislações que asseguram direitos específicos de atendimento prioritário, acessibilidade, habitação e proteção contra o abandono e a violência.

A PEC das Domésticas (Emenda Constitucional nº 72, de 2013), que garantiu aos trabalhadores (as) domésticos (as), uma categoria historicamente vulnerável e majoritariamente feminina e negra, os mesmos direitos trabalhistas dos demais trabalhadores urbanos e rurais, como FGTS, hora extra e seguro-desemprego.

Os Direitos LGBTQIA+ materializadas por conquistas obtidas principalmente via Poder Judiciário, Supremo Tribunal Federal (STF), como o reconhecimento da união estável homoafetiva (2011), o direito à alteração de nome e gênero no registro civil para pessoas trans (2018) e a criminalização da homofobia e da transfobia (2019).

A Constituição de 1988 tornou o racismo um crime inafiançável e imprescritível. Então, a fim de formular políticas públicas para corrigir as desigualdades históricas que afetam a população negra, a Lei do Racismo (Lei nº 7.716/1989), o Estatuto da Igualdade Racial (Lei Federal nº 12.288, de 2010) e a Lei da Injúria Racial (Lei nº 14.532/2023) vem auxiliar nesse processo e contribuir para a criminalização do racismo, no Brasil.

No entanto, de repente, a partir da disseminação da Teologia da Prosperidade e do Domínio, dentro do país, vem se estabelecendo um debate contestatório aos avanços sociais promovidos pela Constituição Federal de 1988. A introdução de uma nova gramática moral e econômica no debate público tem desencadeado, portanto, um choque direto com o pacto social de 1988.

Sob essa ótica, políticas de redistribuição de renda ou assistência estatal têm sido vistas como incentivos à acomodação ou interferências indevidas na liberdade individual, esvaziando o conceito de solidariedade social garantido pela Constituição. Inclusive, havendo uma contestação aos avanços de direitos voltados a minorias políticas, igualdade de gênero e diversidade sexual.

Trata-se de uma concepção baseada, muitas vezes, no argumento de que os direitos sociais da Constituição de 1988 geraram um Estado inchado e ineficiente, unindo o conservadorismo moral ao ultraliberalismo econômico, necessitando desidratar certas garantias constitucionais por meio de reformas estruturais, sob a justificativa de que a austeridade e a moralização do Estado são o único caminho para a prosperidade da nação.

Em linhas gerais, a disseminação dessas ideologias propõe passar de um modelo de responsabilidade coletiva e direitos sociais garantidos pelo Estado para um modelo de mérito individual, moralismo religioso e mercado livre, colocando a Constituição de 1988 no centro de uma disputa civilizatória.

Porém, essa percepção se abstém, por completo, de considerar os pouco mais de 500 anos de história nacional, que estão sedimentados por todo tipo de desigualdades socioeconômicas. Nesse sentido, vale perguntar se a mudança de paradigma social poderia, de fato, ser resolvida pela lógica do mérito individual, do moralismo religioso e do livre mercado?  

Considerando que esses pouco mais de 500 anos de história brasileira, marcados por séculos de escravidão, colonialismo e exclusão marginal, geraram desigualdades estruturais tão profundas que impedem um ponto de partida igualitário, tal mudança não encontra respaldo.  

Ora, sem condições iniciais minimamente equilibradas, a meritocracia é vista como um conceito ilusório que apenas perpetua privilégios herdados. Daí a necessidade do Estado como um regulador indispensável para mitigar as falhas de mercado e proteger os mais vulneráveis.

Sem essa intervenção estatal, bens essenciais e serviços públicos básicos poderiam se tornar inacessíveis para grandes parcelas da população de baixa renda. Por isso não há como desconsiderar o passivo histórico de desigualdade, no Brasil.

Por essas e outras, quando a linha de chegada é a mesma, mas os pontos de partida são abissalmente diferentes, o sucesso dos que largaram no topo é legitimado como mérito próprio, enquanto o fracasso dos que largaram na base é tratado como falha pessoal. Fato que produz a chamada soberba meritocrática entre os vencedores e a humilhação social entre os que foram deixados para trás, perpetuando privilégios dinásticos disfarçados de competência.

É nesse contexto, então, que ignorar o peso da história ao avaliar o sucesso individual de um cidadão no Brasil é ignorar as barreiras invisíveis, apesar de perfeitamente mensuráveis, que moldam a trajetória de cada indivíduo.

Entende agora a importância da Constituição Federal de 1988? Políticas públicas compensatórias, tais como cotas, programas de transferência de renda e investimentos estruturais em periferias, não são distorções do mercado, mas sim tentativas de calibrar a balança para que a competição possa, algum dia, ser minimamente justa.

Assim, sempre que tiver dúvidas sobre o papel da Constituição de 1988, na sua vida e de todos os mais de 214 milhões de cidadãos brasileiros, sugiro ler e reler o poema OS ESTATUTOS DO HOMEM 1, de Thiago de Mello, escrito em 1964 em Santiago, no Chile, logo após o golpe militar no Brasil.

05 DE OUTUBRO - PROMULGAÇÃO DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL DE 1988


Segundo Bertolt Brecht, “Apenas quando somos instruídos pela realidade é que podemos mudá-la”. Acabo de descobrir que há controvérsias.


Segundo Bertolt Brecht, “Apenas quando somos instruídos pela realidade é que podemos mudá-la”. Acabo de descobrir que há controvérsias.

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Mais do que os enviesamentos e distorções que compuseram as análises das pesquisas eleitorais de 1º turno, no Brasil, esteve na incapacidade social em dissecar as camadas da realidade, o grande motivo da perplexidade diante dos resultados.

Ainda que 25,85% dos cidadãos brasileiros configurem o quadro de abstenções, votos nulos e brancos, isso é parte integrante daquilo que deve ser analisado por todo o coletivo social, em razão de que as ações individuais repercutem em desdobramentos amplos e plurais sobre todos.

De modo que foi impossível não pensar, logo de saída, na imagem do Domingo de Ramos na medida da ambivalência da condição humana e a subversão das estruturas de poder mundanas. Ao menos alguns daqueles que compuseram a multidão que aclamava o atual líder com palmas, dias depois, clamou por seu insucesso.

Expondo a fragilidade das convicções sociais e a facilidade com que o ser humano se rende à pressão do coletivo e ao medo. Demonstrando que a trajetória da verdade exige a travessia pelo sofrimento e pela rejeição.

E aí está o primeiro ponto importante, a alienação tecnológica. A despreocupação com os valores e princípios humanos, gerada pelo avanço tecnocientífico, se traduz pela deterioração e o esgarçamento da construção do pensamento ético humano. As telas têm tornado os indivíduos cada vez mais rasos e superficiais na medida em que a avalanche de informações por segundo impede qualquer reflexão e análise mais aprofundada.

É nesse movimento, então, que a política do medo surfa sem resistência. Em uma sociedade com o pensamento crítico enfraquecido e incapaz de aprofundar debates, o ambiente se torna o terreno ideal para a instalação do medo; pois, sem a resistência intelectual, discursos alarmistas, polarizadores e manipuladores proliferam facilmente, apelando diretamente ao emocional e ao instintivo, e não à razão.

Instalada a alienação, a farra das emendas parlamentares, conhecidas como Orçamento Secreto ou Emendas PIX, foi uma hábil construção para surfar, também, nessa onda. Inteligentemente, muitos dos representes no legislativo aproveitaram da dimensão continental do país para valerem-se das carências e necessidades do “Brasil profundo” e fortalecerem seus interesses pouco ou nada republicanos.

Considerando que inúmeros municípios pequenos e distantes dos grandes centros econômicos possuem baixa arrecadação própria e dependem quase inteiramente de repasses federais e estaduais para investimentos básicos, tais como ambulâncias, pavimentação ou reformas, ao direcionar esses recursos diretamente para prefeitos aliados nessas regiões, certos parlamentares consolidam seu capital político e garantem bases eleitorais fortes para as próximas eleições.

De modo que a distribuição nem sempre segue critérios técnicos de necessidade socioeconômica, mas sim critérios de conveniência política. O envio de emendas parlamentares de forma obscura tende a se tornar, então, uma nova versão do voto de cabresto no século XXI; posto que, prefeitos e lideranças regionais tornam-se excessivamente dependentes da liberação dessas emendas para realizar obras básicas, condicionando o apoio político e o direcionamento de votos daquela população nas eleições seguintes ao parlamentar padrinho da obra.

Acontece que essa práxis encontrou a resistência do Supremo Tribunal Federal (STF) que interveio em diferentes momentos, como no julgamento do fim do Orçamento Secreto, no final de 2022, e em decisões subsequentes exigindo maior transparência e rastreabilidade para as Emendas PIX, forçando o Congresso e o Executivo a renegociarem as regras de controle desses valores. Contudo, como se pode ver, o impacto foi consolidado. Haja vista, a composição do Legislativo que iniciará o mandato em 2027.  

Fato que abriu um conflito direto entre esses Poderes que foi amplificado e potencializado pelas narrativas da extrema-direita, que em todo o mundo, incluindo o Brasil, tem como propósito a desconstrução da Suprema Corte para implementar suas próprias leis.

Sob essa perspectiva, o questionamento sistemático das decisões judiciais e a tentativa de deslegitimar os tribunais buscam enfraquecer os mecanismos de freios e contrapesos, permitindo que maiorias políticas ou lideranças de vertente populista governem sem as amarras constitucionais.

Nesse sentido, a instrumentalização da alienação popular contribuiu significativamente para uma polarização profunda sobre os limites da autoridade de cada Poder da República na democracia moderna, onde a interpretação da Constituição e o escopo de atuação dos juízes se tornaram o centro de intensas disputas narrativas. Inclusive, descortinando os desvirtuamentos éticos da própria Suprema Corte.

Quando a população é alienada ou instrumentalizada por discursos simplistas, debates complexos sobre freios e contrapesos são reduzidos a uma lógica de nós contra eles, deixando de ser vista como uma atividade eminentemente jurídica e passando a ser tratada como um ato político.

Então, ao entrar no olho do furacão político, o comportamento dos magistrados passa por um escrutínio inédito, com críticas legítimas sobre a conduta ética de juízes, decisões monocráticas excessivas ou alinhamentos partidários, que se misturam aos ataques orquestrados que visam deslegitimar a própria instituição. Resultando no desgaste da autoridade moral que a Suprema Corte precisa para pacificar conflitos sociais.

E não bastasse todas essas questões, a geopolítica global contemporânea resgatou velhas ideologias para rivalizar e consolidar um novo padrão imperialista. O que fez do pleito eleitoral brasileiro um alvo de disputa importante.

A tal ponto que foi amplamente noticiada a intenção intervencionista estadunidense no processo, tanto pela mídia internacional e autoridades do cenário político dos EUA, quanto pesquisadores da área de relações internacionais.

Sim, todos eles relataram um posicionamento ativo de autoridades dos Estados Unidos em relação ao pleito brasileiro, focado principalmente em desestimular tentativas de ruptura institucional e garantir um resultado legitimo das urnas.

Também, duas cartas foram enviadas recentemente ao Secretário de Estado dos EUA, por parlamentares estadunidenses do Partido Democrata e independentes, alertando sobre o risco de interferência do governo dos EUA nas eleições presidenciais do Brasil. Fato que reflete como a estabilidade democrática do Brasil e o seu alinhamento externo são estratégicos para o cenário internacional.

Mas, apesar de todos esses apontamentos, o que resta claro e límpido com o resultado do 1º turno eleitoral é o que rege a essência da identidade cidadã brasileira. A subserviência colonial é muito mais profunda do que se acreditava.

Estender bandeiras estrangeiras em atos cívicos nacionais, compactuar publicamente com o entreguismo nacional, defender a opressão e a tirania de entes internacionais, reafirma que os 526 anos de história construíram esse tipo de identidade entre muitos dos que se dizem brasileiros (as).

Não restam dúvidas de que, sob essa ótica, parte da população e das elites priorizaria agendas externas em detrimento do desenvolvimento autônomo e da valorização da própria cultura e soberania.

Infelizmente, o passado colonial ainda molda as escolhas e decisões políticas do presente. Como se essas pessoas abdicassem voluntariamente da própria responsabilidade e julgamento moral para seguir regras institucionais e ordens de uma autoridade estrangeira.

Assim, o que parece uma submissão voluntária é, na verdade, a fusão de uma estrutura psicológica de obediência à autoridade com as sequelas culturais de um passado colonial, que condiciona o indivíduo a achar mais seguro seguir regras prontas do que assumir o risco da soberania e da autonomia.

Acontece que esse movimento implica em custos e riscos inimagináveis, inclusive, capazes de levar a um retrocesso secular. A busca por essa pseudossegurança de um tutor ou de um sistema autoritário cobra um preço altíssimo.

Quando uma sociedade renuncia coletivamente à sua autonomia, à sua soberania, em troca de uma pseudoestabilidade ou ordens rígidas, ela pavimenta o caminho para o autoritarismo. De modo que as instituições democráticas e o pensamento crítico levam gerações a serem construídos a partir de uma percepção na qual se prefere a servidão confortável ao risco da liberdade.

Bem, já dizia Demócrito, filósofo grego, “Na realidade, não conhecemos nada, pois a verdade está no íntimo”. Por isso, os 125.275.835 eleitores que compareceram às urnas no primeiro turno das eleições de 2026, a partir das suas escolhas representativas, descontruíram por completo seus discursos inflamados contra à corrupção, o tráfico de influências, o suborno, o peculato, o nepotismo, a fraude em licitações, às vantagens ilícitas ou favores pessoais, à violência, às facções criminosas.

É, questões tão amplamente publicizadas nos últimos tempos no país, de repente, se mostraram invisíveis e inertes a qualquer desconforto ou incômodo social, por parte de uma parcela significativa de eleitores (as) que foram às urnas.

O fato de escolherem candidatos sob escrutínio público refletiu um cenário onde a avaliação de fatos estarrecedores e eticamente deploráveis, pesou menos do que os parâmetros morais que devem guiar uma sociedade que almeja progresso e desenvolvimento.

Foi sim um voto cada vez mais baseado na rejeição a um determinado grupo político, a partir de voto útil ou defensivo; bem como, da abstenção eleitoral, fazendo com que o cidadão minimizasse questões éticas de seu candidato escolhido para evitar a vitória de um adversário que, na verdade, foi construído a partir de preconceitos que servem para manter ativa uma polarização política no país.