A instrumentalização
do ódio
Por Alessandra
Leles Rocha
Diante da disseminação em massa do
ódio, em todo o planeta, tenho exercitado profundamente a reflexão a respeito. E
uma das hipóteses que me veio é de que o ódio é uma maneira de se agigantar
frente ao outro, como se houvesse uma apropriação de elementos que
configurassem um grau de importância e de significância sobre os demais.
Veja, somos aproximadamente 8,3
bilhões de seres humanos. Por mais visibilidade, publicidade e exibição
façamos, a nossa existência em si passa despercebida pela imensa maioria. Somos,
simplesmente, mais um na fila do pão. Essa é a verdade! Acontece que esse
contexto se mostra bastante eloquente, quando as pessoas se dão conta de que
não são tão importantes para pertencer, quanto gostariam.
Antes de pensar do pertencimento
à luz da consumo, temos que compreender que ela é uma das motivações
psicológicas mais básicas e poderosas que se tem, sendo fundamental para o bem-estar,
a sobrevivência e o desenvolvimento. Por isso, a raça humana foi evolutivamente
programada para buscar a aceitação do grupo e garantir a sua sobrevivência. Sentir-se
pertencente promove felicidade e resiliência emocional, gerando um senso de propósito
e significado, na medida em que se sabe onde estão as nossas conexões com o
mundo, o que valida a nossa existência e eleva a nossa autoestima.
E por saber de tudo isso, a
engenharia do consumo vem criando mecanismos cada vez mais potentes e poderosos
para ampliar a necessidade de pertencimento, ainda que por vieses eticamente
questionáveis, como é o ódio. Afinal, ela se deslocou da venda de produtos para
a venda de identidades, engajamento e, fundamentalmente, emoções. Nesse
sentido, para ampliar o sentimento de pertencimento, o mercado descobriu que o
ódio e a polarização são os combustíveis mais eficientes para gerar engajamento
contínuo.
De repente, a forma mais rápida
de fazer alguém sentir que pertence a um grupo é apontar um inimigo comum. Para
isso, os algoritmos de redes sociais e estratégias de marketing de nicho detectam
que certo conteúdo gera indignação, se espalhando mais rápido e retendo a
atenção por mais tempo. Ao consumi-lo, então, o indivíduo sinaliza não apenas
quem ele é, mas, principalmente, a quem ele se opõe.
Assim, criam-se ecossistemas onde
o passaporte de entrada é o compartilhamento de uma mesma aversão. Daí o ódio estético,
político ou cultural se torna amplamente monetizado, graças ao surgimento de bolhas
de consumo que validam a raiva do indivíduo, fazendo-o se sentir acolhido e
protegido dentro daquele grupo.
Vale ressaltar também que os chamados
movimentos de boicote e cancelamento foram absorvidos pela engenharia do
consumo. Porque ela compreendeu que o ato de deixar de consumir algo, ou de
atacar publicamente uma marca ou personalidade, virou uma performance pública
de moralidade. Então, estimular o indivíduo a consumir a própria sensação de justiça
para se sentir pertencente ao lado supostamente certo da história, é rentável.
A grande verdade é que a
engenharia do consumo não defende a liberdade de escolha ou de decisão em
relação ao ódio que alguém nutre por isso ou aquilo. O que as pessoas não
percebem é que elas estão sendo usadas como instrumentos de monetização para as
Big Techs. Cada indivíduo não passa de mera peça do capitalismo de vigilância e
da economia da atenção.
Veja, enquanto a economia da
atenção descreve o recurso escasso disputado pelas empresas, o capitalismo de
vigilância descreve o método de monetização e controle baseado na extração de
dados gerados por essa atenção. O seu ódio, consciente ou não, está gerando uma
riqueza inominável para uma ínfima parcela de pessoas no planeta. O ódio que você
semeia está regando as raízes cada vez amis profundas da desigualdade mundial.
Portanto, é nesse cenário que
ocorre a amplificação do ódio capaz de fragmentar o tecido social e aprofundar
todas as formas de desigualdades, enquanto o custo real é pago pela sociedade
em forma de polarização e erosão democrática. No fim das contas, todo o ódio
que você despeja, muitas vezes sem saber exatamente o motivo, pois há muita manipulação
e distorção para que isso aconteça, não resulta nada para você e tampouco para
a sociedade.
Afinal de contas, esse tipo de
manifestação distrai o coletivo social dos problemas estruturais reais e foca a
energia em conflitos ideológicos ou culturais muitas vezes artificiais. Isso
ocorre porque algoritmos de redes sociais e agentes políticos de desinformação
lucram com o engajamento por indignação cientes de que os conteúdos que geram
raiva ou medo se espalham mais rápido, criam bolhas onde a realidade é
distorcida para manter as pessoas em constante estado de alerta e hostilidade.
O resultado prático desse
processo é, então, a erosão democrática que representa o enfraquecimento
gradual e contínuo das instituições, regras e valores de um regime democrático.
O que poucos se dão conta é de que ela tende a estabelecer um ciclo vicioso de ódio
e de esgarçamento da própria sociedade, considerando que ela retroalimenta o
que há de pior no ser humano, como o medo, o preconceito e o desejo de
pertencimento tribal, sentimentos que são frequentemente instrumentalizados por
lideranças populistas para acumular mais poder.
Como escreveu Angie Thomas em "O
Ódio Que Você Semeia" (The Hate U Give), de 2017, o ódio, seja ele de
que natureza for, sempre se desdobra em um ciclo social destrutivo. Portanto, ele
não surge no vácuo; mas, em razão do que a própria sociedade plantou na base.
Daí a necessidade de olhar para a própria história, para os interesses que fiaram e moldaram as estruturas de poder, para as dinâmicas de segregação, enfim. É fundamental separar o joio do trigo, para perceber se o que você não gosta é fruto de uma decisão sua ou de pura influência e manipulação de terceiros.













