quarta-feira, 10 de junho de 2026

É preciso ver além do pão e circo ...


É preciso ver além do pão e circo ...

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Apesar de ser um elemento conectivo entre os seres humanos, não raros os momentos, ao longo da história, em que os esportes foram utilizados para a reafirmação de poder e de instrumento de alienação social.  

Certos governantes sempre utilizaram grandes eventos e manifestações de aptidão física para unificar os cidadãos sob uma bandeira, e dessa forma distraírem a massa em relação aos problemas estruturais internos e legitimar ideologias de superioridade nacional ou racial.

Quem nunca ouviu a expressão "pão e circo", tradução do latim “panem et circenses”?! Durante a Roma Antiga, ela foi utilizada pela primeira vez, pelo imperador Otávio Augusto, como política que garantia a distribuição de trigo e espetáculos nas arenas romanas a fim de desviar o foco da população das crises políticas e da pobreza.

Depois, com a queda de Roma e o advento do sistema feudal, a dinâmica mudou. De modo que o controle social passou a ser exercido fortemente pela religião e pela monarquia absolutista, com festividades religiosas e execuções públicas servindo muitas vezes como válvulas de escape e espetáculos de massa para a população mais frágil e vulnerável.

Lembra do filme Coração de Cavaleiro 1 (A Knight's Tale), de 2002, dirigido por Brian Helgeland? Trata-se de um ótimo exemplo de como o esporte cativava as massas medievais, desviando o foco de questões sociais e funcionando especificamente como um palco para ascensão social e controle.

Então, a partir da contemporaneidade, a lógica do "pão e circo" evoluiu para a indústria cultural e a política de massas, em que governos democráticos e regimes autoritários, ao redor do mundo, passaram a utilizar grandes eventos esportivos, shows patrocinados e o controle da mídia, como formas de promover o ufanismo, elevar a popularidade de seus líderes e desviar a atenção pública de crises econômicas ou corrupção.

O caso mais emblemático ocorreu nas Olimpíadas de Berlim, em 1936, quando Adolf Hitler tentou transformar o evento em uma vitrine para promover a ideologia da suposta supremacia ariana. Fato muito bem retratado pelo filme Raça 2 (Race), de 2016, dirigido por Stephen Hopkins.

Inicialmente, houve um grande movimento nos EUA para boicotar o evento, por conta das políticas de segregação e discriminação do regime nazista. No entanto, o filme mostra como o Comitê Olímpico Internacional (COI), na figura de um de seus membros, saiu pela Alemanha, ignorando os sinais de perseguição e fazendo acordos para garantir que os Estados Unidos competissem, argumentando que a política e o esporte não deveriam se misturar.

Portanto, o que aconteceu na Alemanha nazista, em 1936, representou a abertura de um importante precedente para que as mais importantes instituições ligadas ao esporte mundial se permitissem influenciar por interesses políticos, deixando os ideais desportivos em último plano.

Em 1970, durante um dos momentos mais tenebrosos da repressão militar no Brasil, o governo se apropriou da conquista do tricampeonato mundial de futebol, a partir do ufanismo gerado em torno da seleção. Assim, a conquista foi usada para promover a alienação política, mascarar a censura e a tortura, e fomentar um falso sentimento de grandeza e unidade nacional.

Aliás, o mesmo ocorreu na Argentina, em 1978. Quando a conquista da Copa do Mundo serviu para tentar encobrir todos os atentados aos direitos humanos, ou seja, os desaparecimentos, os sequestros e os assassinatos, que ocorreram no país durante aquele período.

Portanto, esse é o grande ponto de reflexão para o momento atual da contemporaneidade. O uso do esporte para legitimar regimes antidemocráticos e/ou desviar a atenção internacional sobre questões fundamentais, tais como os direitos humanos, as guerras e as crises socioeconômicas, conhecido como sportwashing, não pode ser invisibilizado sob a fachada de exaltação nacional e de festividade global.

Afinal, é exatamente isso que está acontecendo às vésperas da Copa do Mundo de 2026, a ser realizada nos EUA, México e Canadá. A imprensa já dá conta de que tem ocorrido intensos protestos e alertas devido à ausência de transparência e riscos aos direitos humanos.

Diversas denúncias relatam desde ações de segurança hostis contra delegações e jornalistas até alertas gerais emitidos por organizações da sociedade civil; sobretudo, em território estadunidense.

Os principais casos falam do extremo controle migratório e perfilamento étnico nos EUA, apontando abusos nas fronteiras e fiscalização abusiva contra visitantes e participantes dos jogos. Também, casos de revistas vexatórias, com uso de detectores de metal na pista do aeroporto durante o desembarque de certas pessoas, vem repercutindo fortemente.

Grupos de defesa da diversidade e torcedores de diversos países temem a insegurança para transitar e se manifestar nos EUA e no México, citando legislações estaduais restritivas e o histórico de violência contra pessoas transexuais.

No Canadá, ativistas falam sobre o deslocamento forçado e a remoção de pessoas em situação de rua de abrigos de inverno para dar lugar a espaços e comitivas requisitadas pela organização do evento.

E nessa história toda, onde ficou a beleza do esporte?! Grandes eventos esportivos deveriam se concentrar na promoção da coesão social, da inclusão de minorias e do sentimento de identidade coletiva global.

Afinal, a função principal do esporte é disseminar valores como respeito, cooperação e paz, além de contribuir para as transformações urbanas, o turismo e o desenvolvimento econômico; sobretudo, nas cidades-sede.

Infelizmente, esses têm sido tempos difíceis e tristes para a humanidade, dada a dificuldade de unir nações e comunidades em torno de um propósito comum, gerando orgulho cívico e quebrando barreiras culturais, religiosas e políticas. Parece cada vez mais impossível por conta das guerras, dos conflitos, da beligerância em suas mais diversas formas, alcançar esses objetivos.

O esporte não é apenas competição, mas uma ferramenta fundamental para unir seres humanos, promover a inclusão social e criar espaços seguros para o diálogo.

Contudo, a Copa do Mundo de 2026 está transitando na contramão desses valores e contribuindo para o recrudescimento das tensões e das violências. A tensão diplomática presente, antes mesmo do evento começar, já retira o brilho e o entusiasmo que esse tipo de competição sempre desfrutou.

Diferentemente das edições anteriores, onde se buscava uma estrita neutralidade, o Mundial de 2026 tem lidado com interferências diretas de Estados sobre o esporte.

Por isso, a partir desse recorte esportivo, se torna imprescindível tecer uma reflexão mais ampla e profunda do que está acontecendo no mundo, nesse exato momento, na perspectiva das seguintes palavras de Bertolt Brecht: “Primeiro levaram os negros. Mas não me importei com isso. Eu não era negro. Em seguida levaram alguns operários. Mas não me importei com isso. Eu também não era operário. Depois prenderam os miseráveis. ​​Mas não me importei com isso. Porque eu não sou miserável. Depois agarraram uns desempregados. Mas como tenho meu emprego, também, não me importei. Agora eu estou sendo levado. Mas já é tarde. Como eu não me importei com ninguém, ninguém se importa comigo”.

sábado, 6 de junho de 2026

Colonialismo Químico


Colonialismo Químico

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

O impacto de duas notícias me fazem escrever esse texto, “Produtores de soja são acusados de intoxicar indígenas com agrotóxicos em Rondônia” 1 e “Sem a União Europeia, Brasil pode deixar de exportar quase US$ 2 bilhões ao ano em carnes; entenda” 2. Pode não parecer mas os assuntos apresentam um ponto em comum, as práxis produtivas brasileiras.

Não é de hoje que faço considerações a respeito do ranço colonial que afeta a dinâmica do desenvolvimento e do progresso brasileiro. Historicamente, as práticas de produção agrícola e animal brasileiras não envolvem uma preocupação real em relação à natureza dos processos empregados e seus impactos sobre a saúde do consumidor ou às diretrizes que envolvem o comércio exterior.

Por décadas, o modelo se baseou na expansão de fronteiras e na alta produtividade a curto prazo, priorizando a ocupação territorial e o volume de exportações em detrimento da sustentabilidade e das exigências sanitárias.

Haja vista, por exemplo, que o Brasil é um dos maiores consumidores mundiais de agrotóxicos, impulsionado pela extensão e intensidade de sua produção agrícola.

E isso acontece em razão do chamado Colonialismo Químico. Sim, grandes empresas do setor químico, com sede principalmente na Europa e nos EUA, produzem e exportam toneladas de pesticidas que não utilizam em seus próprios territórios, porque dispõem de amplo mercado consumidor em países em desenvolvimento, cujas legislações ambientais e sanitárias são, em geral, menos restritivas e/ou apresentam processos de avaliação mais demorados.

Por essa razão é que certos agrotóxicos continuam sendo amplamente utilizados no Brasil. É o caso, por exemplo, do glifosato, do mancozebe e da atrazina.

Apesar de enfrentarem fortes restrições ou terem sido proibidos no exterior devido a evidências científicas que os associam a riscos de contaminação da água, danos aos ecossistemas como, por exemplo, a morte de abelhas, e graves impactos à saúde humana, incluindo distúrbios hormonais e doenças neurológicas, lamentavelmente, eles fazem parte da realidade agrícola brasileira.

De modo que a utilização de substâncias banidas em outros países se mostra um verdadeiro desafio diplomático e comercial para o agronegócio brasileiro. Afinal, estamos falando de uma relação comercial completamente assimétrica.

Posto que o uso desses agrotóxicos no Sul Global, principal mercado consumidor desses produtos, resulta em alimentos produzidos com concentrações de compostos químicos superiores às permitidas para importação na Europa e nos EUA, por exemplo.

Assim, essas commodities agrícolas quando chegam ao mercado internacional, podem ser barradas por ultrapassarem os limites sanitários.

Fazendo com que o verdadeiro custo dessa assimetria recaia sobre os países produtores, na medida em que implica diretamente em riscos à saúde dos trabalhadores rurais, das comunidades locais próximas as áreas de produção, além da contaminação ambiental da água e do solo, enquanto os lucros da venda dos defensivos permanecem concentrados nas indústrias químicas estrangeiras.

Entretanto, apesar disso não se pode desconsiderar o fato de haver uma resistência por parte de muitos produtores agrícolas brasileiros quanto a promover mudanças radicais nas práticas de manejo, interrompendo o histórico ciclo do Colonialismo Químico.  

Isso se dá em razão dela derivar de fatores econômicos e estruturais. Ora, essas práticas têm um histórico de incentivos e subsídios no modelo agrícola nacional. E para superar essas barreiras, então, é necessário promover um novo alinhamento das políticas públicas com alternativas economicamente viáveis.

Veja, esse modelo amplamente dependente de agroquímicos é, muitas vezes, estruturalmente mais barato a curto prazo devido a isenções fiscais, tornando o processo de transição um desafio financeiro imediato para o produtor. Além disso, a falta de assistência técnica em larga escala para métodos regenerativos e agroecológicos tende a gerar insegurança no campo, por parte do produtor rural.  

Contudo, o principal obstáculo para uma transição ecológica, para o Manejo Integrado de Pragas (MIP) ou Controle Biológico, reside no enorme poder político e econômico das indústrias transnacionais de pesticidas e de sua base de apoio no Congresso Nacional.

A partir dessa conexão político-ideológica é que se garante a aprovação acelerada de defensivos químicos sintéticos, atrasando  as políticas de redução desse tipo de consumo, dificultando a expansão do manejo sustentável e ecológico.

Basta observar, por exemplo, como o modelo latifundiário exportador é altamente dependente desse tipo de produtos agroquímicos, facilitando a concentração de mercado para eles, e o modo como os legisladores vinculados à bancada ruralista atuam para enfraquecer o rigor de órgãos como Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) no processo de registro desses produtos.

Por isso, enquanto o Colonialismo Químico permanecer naturalizado e banalizado na cultura econômica brasileira, o país continuará não só em constante sobressalto, no campo do comércio exterior, como padecendo de um franco adoecimento socioambiental derivado da utilização de produtos agroquímicos nas sua produções de alimentos.

Portanto, continuar nessa histórica condição de servir como lixão e/ou vitrine para agrotóxicos e outros produtos químicos banidos no mercado internacional, reforça a desimportância que é dada à soberania nacional.

Primeiro, porque a dependência de insumos importados ou controlados por corporações estrangeiras drena recursos que poderiam ser investidos em tecnologia, pesquisa e desenvolvimento de alternativas nacionais, como os bioinsumos.

Segundo, porque há uma subalternização territorial, considerando que o país é tratado como depósito de lixo químico e área de sacrifícios, gerando contaminação dos recursos naturais e promovendo o adoecimento de populações rurais e urbanas.

Por fim, porque há um controle da produção na medida em que a dependência desses insumos enriquecedores das corporações estrangeiras subordina o modelo agrícola local às demandas externas, colocando em risco a autonomia alimentar e a saúde pública.

Como bem escreveu Eduardo Galeano, escritor e jornalista uruguaio, “Na alquimia colonial e neocolonial o ouro se transfigura em sucata, os alimentos em veneno”. Afinal de contas, essas palavras desnudam a realidade perversa e cruel, na qual o sistema de exploração, em curso na história da humanidade, faz da riqueza local um instrumento para gerar atraso e subdesenvolvimento ao invés de progresso e desenvolvimento real.

sexta-feira, 5 de junho de 2026

DIA MUNDIAL DO MEIO AMBIENTE


DIA MUNDIAL DO MEIO AMBIENTE

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Em 1972, quando a Organização das Nações Unidas (ONU) estabeleceu o dia 5 de junho como Dia Mundial do Meio Ambiente, o cenário conjuntural do planeta já trazia os primeiros grandes alertas de que os recursos naturais estavam se esgotando rapidamente, devido à poluição e à degradação ambiental.

Desse modo o objetivo principal dessa data foi e continua sendo criar uma plataforma de reflexão global e ação coletiva para combater os desafios críticos que assolam a sociedade contemporânea, tais como o aquecimento global, a perda de biodiversidade e a poluição em suas mais diferentes formas.

Acontece que discutir as questões ambientais por si só não me parece suficiente, na medida em que elas são cortadas e atravessadas por seres humanos diversos e plurais. Não, não existe possibilidade de um debate ecológico sem discutir raça, classe e/ou desigualdade social.

O maior desafio para a construção da sustentabilidade e da justiça socioambiental está na desumanização em curso. Considerando que ela muitas vezes impulsionada pela hiperdigitalização, pelo individualismo, pelas desigualdades econômicas extremas e pela mercantilização das relações, cria um cenário onde o outro passa a ser visto como um recurso ou obstáculo, produz um estado no qual o ser humano é despido dos seus direitos fundamentais e da sua dignidade.

Por isso, não é possível se falar de meio ambiente invisibilizando o papel da figura humana. Cada indivíduo é parte indissociável desse ecossistema, atuando tanto como agente de transformação e degradação quanto como peça central para a conservação e regeneração.

Diante disso, a partir do ano 2000, foi estabelecida a teoria do Antropoceno, pelo químico Paul Crutzen e pelo biólogo Eugene Stoermer, a qual sugere que a Terra saiu do Holoceno, um período de estabilidade climática dos últimos 11.000 anos e entrou em uma nova fase, cujo impacto coletivo humano é tão profundo que fica registrado nas camadas de sedimentos do planeta por milhões de anos.

Em linhas gerais, isso significa que a humanidade se tornou a principal força motriz de alteração dos sistemas climáticos, biológicos e geológicos da Terra.

Portanto, quaisquer medidas de contenção e mitigação dos impactos ambientais negativos não podem ser alcançados e efetivados sem que haja uma transformação direta do pensamento social contemporâneo. Esse é o pilar estrutural para reverter a crise ambiental que vive a Terra.

Sem que haja uma evolução na capacidade crítico-reflexiva do ser humano, capaz de fazê-lo evoluir da exploração desenvolvida, e em curso, para uma ética de responsabilidade coletiva e intergeracional, a sobrevivência do planeta estará sob risco permanente.

O que significa que é essencial reconstruir uma cidadania planetária, promovendo a alteração de hábitos e comportamentos desde a base, substituindo o modelo de extrair, produzir e descartar pela economia circular, forçando o mercado a adotar práticas mais limpas de natureza preservacionista e de sustentabilidade.

Veja, o propósito da economia circular é estender o ciclo de vida dos produtos, transformando resíduos em novas matérias-primas e maximizando a proteção de recursos naturais.

Assim, há um redesenho dos produtos para que sejam mais resistentes, simples de serem reciclados e feitos de materiais recicláveis. Bem como, uma diminuição do consumo de matéria-prima e energia na fabricação, gerando menos resíduos desde a origem, e possibilitando dar novas funções a produtos e peças, mantendo-os em uso pelo maior tempo possível.

No entanto, a sociedade contemporânea está tão ensimesmada no seu casulo de indiferença, desrespeito, falta de empatia e distante do seu instinto de sobrevivência, que o negacionismo científico tornou-se uma zona de conforto favorável à sua inércia quanto ao exercício cidadão e humanitário.

Esse contexto, então, expõe como o egoísmo narcísico e a desinformação paralisam o indivíduo, afastando-o da sua responsabilidade coletiva e da preservação da própria vida.

Isolados em suas bolhas digitais e preocupações exclusivas, os indivíduos perdem o sentimento de pertencimento a uma coletividade, o que dificulta o exercício da alteridade, ou seja, a capacidade de se colocar no lugar do outro.

Assim, a racionalidade egoísta e imediatista sufoca o instinto de autopreservação da espécie, uma vez que os fatos exigem uma visão de longo prazo e um esforço cooperativo, no qual a lógica individualista não consegue abarcar.

Diante desse cenário impulsionado pelo excesso de informações, pela polarização e pelo individualismo, cujo objetivo é levar não só ao isolamento e à priorização dos interesses privados em detrimento do bem-estar comunitário, tem-se o surgimento de uma dificuldade extrema de compreensão de perspectivas divergentes, bloqueando o diálogo e a construção de uma sociedade empática, humanitária e fraterna.  

Por essas e outras é que o DIA MUNDIAL DO MEIO AMBIENTE precisa se tornar um ponto de partida para se refletir sobre o modo como tudo isso gera uma perigosa inércia institucional e moral, onde a indiferença diante da vulnerabilidade socioambiental facilmente se torna normalizada.

Daí se tornar tão fundamental exigir que o debate abandone o campo meramente simbólico para proteger, de fato, contra as falhas sistêmicas que perpetuam a crise climática e social no planeta. 

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Consequências e desdobramentos da falta de fiscalização


Consequências e desdobramentos da falta de fiscalização

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Se eu tivesse que eleger uma palavra para sintetizar o imbróglio social brasileiro, configurado pelas promíscuas relações entre a corrupção, a lavagem de dinheiro e o crime organizado, seria FISCALIZAÇÃO.

Querendo ou não, o ato de fiscalizar traz para a realidade um alinhamento aos limites éticos, institucionais, sociais, preestabelecidos por normas, regras, protocolos, portarias e legislações.

Portanto, ele não se dá por pó de pirlimpimpim! Para que haja fiscalização é preciso indivíduos imbuídos dessa tarefa, preparados e competentes, o bastante, para cumpri-lo corretamente.

Acontece que a fiscalização, no Brasil, traz marcas históricas de patrimonialismo e interferência política, com raízes desde o Brasil Império.

Sim, historicamente, não há como negar que a estruturação de órgãos de controle sempre padeceu de dificuldades fundamentais e de pressão, resultando em episódios recorrentes de corrupção sistêmica, corporativismo e fragilidade institucional até a consolidação da democracia contemporânea.

De modo que diante da contemporaneidade em si, com todo o seu discurso sobre uma liberdade plena e irrestrita, eis que a fiscalização se tornou ainda mais esgarçada e desprezada no país. O que significa que essa desconexão recrudesceu a impunidade, a precarização dos direitos e a desinformação.

Infelizmente, essa falácia prejudica a regulação em múltiplos setores, onde o poder do Estado ora se torna excessivamente burocrático e oneroso para quem atua na legalidade, ora se mostra omisso diante de abusos, dificultando a coibição de crimes econômicos, ambientais e digitais.

Daí o fato de que muitos, quando ela é aplicada, acabam sendo convencidos de que a fiscalização é sinônimo de arbitrariedade, quando na verdade não é. Ela é somente um ato técnico, preventivo e corretivo, pautado na legalidade.

Diante da avalanche de escândalos que vive o Brasil, nesse momento, não deveríamos, então, nos surpreender com a dimensão dos fatos apresentados bem diante do nosso nariz.

Se por um lado a fiscalização permitiu descobrir o que estava acontecendo, por outro, o grande problema foi que essa descoberta chegou com tamanho atraso que a situação em si já estava fora de controle. Portanto, em algum ponto, em razão de alguém ou de alguéns, por esse ou aquele motivo, a fiscalização falhou.

Aí, então, bate uma sensação horrível de fracasso social. Porque a falta de fiscalização, infelizmente, reflete sim um ciclo vicioso que perpetua a impunidade e o descaso, como na velha história do cachorro correndo atrás do rabo, que não chega a lugar nenhum; mas, traz profundos prejuízos e uma reafirmação da histórica crise antiética nacional.

Começando pela exposição clara e contundente de que a ausência de controle abre portas para a corrupção, a sonegação fiscal e o desvio de verbas públicas. O dinheiro que deveria ser investido em serviços essenciais acaba perdido, gerando desigualdade e travando o desenvolvimento do país.

Como? Sem uma fiscalização rigorosa, as análises de serviços e gestores não são cobradas por padrões de excelência, resultando em infraestruturas precárias e serviços ineficientes.

Algo que torna a sociedade refém de tragédias evitáveis ​​e de riscos à vida, na medida em que a fiscalização frouxa permite, por exemplo, desastres ambientais, abusos trabalhistas e insegurança nas cidades.

É, não precisa ser nenhum gênio para entender que, quando as leis e as regulamentações são ignoradas, negligenciadas em suas consequências, cria-se o sentimento de que o crime compensa, e isso inevitavelmente enfraquece as instituições, corrompe a ética cidadã e desmotiva aqueles que agem corretamente.

Assim, lembremo-nos do que dizia Jean-Jacques Rousseau, filósofo, escritor e compositor genebrino, "Em política, tal como na moral, é um grande mal não fazer bem, e todo o cidadão inútil deve ser considerado um homem pernicioso".

Afinal, a omissão é tão prejudicial quanto à ação destrutiva. Aquele que se aliena da vida pública, que consome recursos sem gerar valor cívico, torna-se tóxico e nocivo porque a sua omissão enfraquece o respeito, a ética e a civilidade, permitindo que a corrupção e a desigualdade se fortaleçam e se perpetuem. 

domingo, 31 de maio de 2026

Ídolos de papel ...


Ídolos de papel ...

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

O Brasil vive uma rara oportunidade de ultrapassar a fronteira da sua histórica crise ética e moral para dar vazão à construção de uma verdadeira identidade cidadã.  

Afinal, os recentes escândalos de corrupção que se misturam com os submundos da criminalidade, em suas mais diversas expressões, permitem a cada cidadão exercitar a sua escolha em relação ao lado da história que pretendem ficar.

Tarefa difícil?! Talvez. Porque, diante de pouco mais de 500 anos de história, para sacodir a poeira e dar a volta por cima, a fim de revelar um país que, para início de conversa, tenha respeito pela coisa pública, é preciso muita disposição.

Haja vista como apesar de tudo o que tem sido noticiado pelos veículos de comunicação e de informação, tradicionais e alternativos, ainda se mostrar insuficiente para conter a ausência de pudor, vergonha ou constrangimento por parte de uns e outros que continuam a praticar atos eticamente condenáveis.

O exemplo mais recente, envolve a figura de um Senador da República, pelo estado de São Paulo, indicado a receber o título de cidadão honorário de Belo Horizonte, na próxima terça-feira, 2 de junho de 2026, sob a justificativa de se tratar de um reconhecimento pela trajetória política dele e pela base de apoio ao partido do parlamentar construída na cidade.

Acontece que a outorga de títulos, como nesse caso, em que há a confecção de diplomas, medalhas, placas comemorativas e a organização de sessões solenes, incluindo locomoção, recepção e, por vezes, material de divulgação, geram despesas ao erário. Mas, não bastasse isso, é preciso que seja analisado tanto os critérios de mérito quanto de finalidade pública.

Isso significa que, em primeiro lugar, é fundamental que qualquer homenageado possua um histórico incontestável de contribuição para o município ou o estado que promove a homenagem; visto que, a falta de critérios transparentes abre margem para o uso da máquina pública em benefício próprio.

Segundo, porque a concessão deve servir ao interesse público.  Quando o título é banalizado ou concedido por motivações políticas eleitoreiras ou de favorecimento, tem-se o flagrante desvirtuamento da sua finalidade e o erário é onerado de forma injustificável.

Diante disso, traçando um breve retrospecto da trajetória pública desse Senador, as principais controvérsias que abrem questionamentos a respeito dessa honraria giram em torno de acusações de corrupção, lavagem de dinheiro, uso de funcionários fantasmas e aquisição de bens incompatíveis com a sua renda.

E o mais estarrecedor, é que ele participou ativamente de homenagens a policiais que mais tarde foram investigados e/ou condenados por envolvimento com grupos paramilitares, ou seja, milícias no Rio de Janeiro. Sem contar o fato de ex-assessores de seu gabinete terem laços familiares com milicianos da zona oeste da cidade.

Aliás, isso faz lembrar uma outra história recente, ocorrida em uma outra cidade mineira, em que uma Miss Universo foi agraciada com o Título de Cidadã Honorária; mas, teve a revogação da honraria após ter sido presa durante a Operação Luxo, da Polícia Federal, sob a acusação de integrar o núcleo financeiro de uma grande organização criminosa externa ao tráfico interestadual de drogas e lavagem de dinheiro.

Bem, já dizia o escritor italiano Umberto Eco, “A sabedoria não é destruir os ídolos, mas nunca criá-los”. Lamentavelmente, as desigualdades persistentes e as práticas clientelistas, enraizadas desde o Brasil Colônia, fomentam uma cultura de privilégios que muitas vezes se sobrepõe ao bem comum e à ética republicana.

E nessa confusão entre o público e o privado, a troca de favores persiste em reforçar a dependência de figuras salvadoras, quase míticas, em vez de instituições sólidas. Razão pela qual, o poder se concentra na figura do líder ou do ídolo, e não em projetos partidários ou coletivos.

O que permite que a histórica relação de favor enfraqueça a cobrança por responsabilidade cívica, transferindo para o indivíduo idolatrado a responsabilidade de resolver problemas que deveriam ser geridos por políticas públicas impessoais.

Relembrando Doc Comparato, escritor brasileiro, "Ídolos, super-heróis ou celebridades; todos os dias voltamos à mitologia grega sem pensar", como se os arquétipos que estruturaram o pensamento na Antiguidade continuassem vivos e moldando nossa sociedade, contudo, sem darem conta da responsabilidade ética e moral que exige a realidade dos fatos.

Por isso é tão urgente parar, pensar e refletir. Esse fenômeno político e social que descreve historicamente traços marcantes da cultura política brasileira e latino-americana precisa ser superado. A antiga autodesvalorização do brasileiro que produz ídolos de papel, impede que ele se aproprie da sua identidade nacional, do seu protagonismo cidadão. Refletindo, de fato, uma alienação cultural que o distancia de sua própria história e de seu potencial transformador.

Ao projetar soluções e virtudes em figuras idealizadas, o indivíduo não apenas abdica da responsabilidade de cobrar direitos e intervir diretamente na vida pública e comunitária, como permite que a idolatria cega mascare as desigualdades estruturais, reforçando narrativas de que o sucesso depende exclusivamente de esforços individuais isolados, desmobilizando o potencial da organização coletiva. 

sábado, 30 de maio de 2026

Persona non grata

Persona non grata

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Há uma citação de José Saramago, em seu livro Ensaio sobre a Cegueira, de 1995, que deveria servir de mantra para a sociedade contemporânea: "...se antes de cada ato nosso, nos puséssemos a prever todas as consequências dele, a pensar nelas a sério, primeiro as imediatas, depois as prováveis, depois as possíveis, depois as imagináveis, não chegaríamos sequer a mover-nos de onde o primeiro pensamento nos teria feito parar".

O que diante do recente episódio em que o governo dos Estados Unidos classificou o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras (FTOs) e Terroristas Globais Especialmente Designados (SDGTs), como medida de suporte para avaliação e rastreamento financeiro contra o narcotráfico internacional, se mostra ainda mais genial.

Por quê? Bem, para início de conversa, há tempos que o trança-trança internacional das elites brasileiras, causa mal-estar; sobretudo, em razão de que as principais representações desse segmento social diz respeito aos membros dos Poderes da República.

Nesse sentido, então, não é surpresa para ninguém que apesar do uso de recursos públicos para custear viagens internacionais e eventos corporativos de fachada, frequentemente associado ao trança-trança dessas elites, tem havido um impulso nas investigações e nas mudanças legislativas a esse respeito.

Acontece que muitos congressistas brasileiros continuam a seguir essa práxis sem quaisquer constrangimentos, como foi o caso recente de um Deputado Federal que, no intuito de não receber uma intimação do Supremo Tribunal Federal para prestar depoimento sobre um repasse de emendas parlamentares, viajou ao Bahrein e aos EUA sem autorização formal da Câmara dos Deputados.

Ou do Senador da República que viajou aos EUA para se juntar a outros representantes da ultradireita brasileira a fim de se reunir com membros do governo estadunidense para pressionar a classificação de facções criminosas brasileiras como grupos terroristas.

Aliás, é justamente por esse fato que essa reflexão se torna tão fundamental. Afinal, é possível que políticos, empresários e membros da elite brasileira sofram sanções econômicas severas e percam o trânsito internacional livre, por eventual conexão com o crime organizado no Brasil, a partir dessa decisão dos EUA.

De repente, uns e outros, por aí, se tornarão Persona non grata, ou seja, pessoa não mais aceita ou tolerada dentro daquele país. Em linhas gerais, a inclusão nas listas do Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC) gera bloqueio automático de ativos sob jurisdição americana e restrições migratórias.

Assim, qualquer pessoa, seja ela um laranja do crime, empresário ou político, que seja identificada como facilitadora, financiadora ou colaboradora dessas facções, fica impedida de entrar nos EUA.

O que significa que a “casa caiu” para quaisquer cidadãos associados aos fluxos de lavagem de dinheiro dessas organizações, na medida em que eles (as) podem ter seus vistos cancelados e sua inclusão em alertas internacionais de imigração.

Pois é, o impacto devastador dessa lei estadunidense permitirá que haja o bloqueio de investimentos financeiros ligados a essas facções, atingindo redes de empresas de fachada e operadores. Um movimento que, sem sombra de dúvidas, irá forçar as instituições a aumentarem o rigor, o que pode respingar em fluxos ilícitos ainda mais amplos e personagens, até então, acima de qualquer suspeita.

Assim, apesar dos riscos e desafios que podem sim impactar à soberania brasileira, por linhas tortas, a recente classificação de facções criminosas brasileiras como grupos terroristas pelos EUA, traz um movimento interessante, no sentido de revelar espaços obscuros dos ilícitos ocupados pelo colarinho-branco nacional. Na medida em que ela aumenta a pressão e a transparência sobre os esquemas de corrupção sistêmica que sustentam essas redes de interesse. 

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Afinal, quem usa quem?


Afinal, quem usa quem?

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Desde ontem, não se fala em outra coisa a não ser que os EUA, na figura do seu Secretário de Estado, declarou o PCC e CV como facções narcoterroristas 1. Acontece que esse discurso não reflete a realidade dos fatos. Não se trata de segurança. Não se trata de reduzir o tráfico de drogas nas Américas. Não se trata da segurança nacional estadunidense.

Nem tampouco, foi fruto da subserviência sabuja de certos brasileiros, que se prestam ao papel de render respeito à bandeira de outro país que não seja o seu próprio. A eles coube somente os chamados 15 minutos de fama. Daí a necessidade de perguntar: quem usa quem?

A verdade nua e crua, caro (a) leitor, é que eles foram somente o pretexto de algo que já estava no plano neoimperialista contemporâneo dos EUA; mas, principalmente, do seu Secretário de Estado, que tem pretensões eleitorais à Casa Branca a partir de um projeto de retomada dos países latino-americanos, como o velho quintal estadunidense. Só isso.

Os grandes analistas da geopolítica contemporânea mostram em suas análises cirúrgicas que esses são tempos de uma guerra híbrida. Isso significa uma estratégia de conflito que combina táticas militares tradicionais com métodos não convencionais, tais como a desinformação, os ataques cibernéticos, as avaliações econômicas e a interferência política, com o intuito de causar algum tipo de desestabilização ao adversário e atingir objetivos estratégicos sem a necessidade de um confronto bélico direto e aberto.

Mas, pensando à luz da realidade atual, o que está em jogo sobre o tabuleiro é a disputa de poder entre os EUA e a China. O que significa que o Brasil é um player de extremo interesse para ambos. Afinal, o Brasil desempenha um papel de protagonismo e equilíbrio nos BRICS, atuando como uma ponte geopolítica entre o Ocidente e o Sul Global, a fim de promover a defesa do multilateralismo, a busca por reformas nos organismos internacionais e a ampliação de oportunidades estratégicas para a economia e o comércio exterior.

Nesse sentido, a ideia que atravessa a recente declaração do Secretário de Estado estadunidense pode ser traduzida em dois aspectos importantes. Primeiro, os ataques cibernéticos. A partir de invasões a sistemas governamentais, infraestruturas críticas e, principalmente, bancos de dados civis e militares/institucionais, tornam o ciberespaço um campo de batalha invisível. Isso significa que agentes espiões utilizam tecnologias para sequestro de dados, com capacidade de comprometer, por exemplo, redes de energia, sistemas financeiros e operações governamentais.

Segundo, a apropriação ilegal de dados. Há, portanto, um roubo de informações pessoais, industriais, institucionais e militares, que passa a ser usada como instrumento de espionagem e disputa geopolítica. De modo que ao contrário de focar no código do sistema, as técnicas utilizadas manipulam o fator humano através de emoções como medo, coerção, urgência, curiosidade ou corrupção.

É dessa maneira que esses agentes de espionagem e grupos de ameaça persistentes avançados (APTs) utilizam malwares sofisticados, como ransomware e limpadores, para sequestrar ou destruir dados em infraestruturas críticas. No sistema financeiro, por exemplo, o foco costuma ser a interrupção de transações e o roubo de dados sensíveis para desestabilizar a confiança econômica ou financiar operações estatais.

Além disso, é preciso compreender que em uma guerra híbrida as condições táticas favorecem a apropriação de recursos econômicos pelas potências imperialistas ao desestabilizar a soberania financeira de um país através de meios não convencionais que instrumentalizam o sistema baseado no dólar.

Isso quer dizer que o uso do dólar como arma permite que potências apliquem avaliações econômicas e políticas financeiras que levam ao colapso de moedas locais, com inevitável fuga de capitais para moedas fortes, como é o caso do dólar, drenando as reservas do país alvo. Tudo isso, então, facilita a entrega de ativos nacionais a conglomerados estrangeiros.

Já no caso das operações governamentais, o sequestro de dados é usado tanto para chantagem política quanto para paralisar serviços públicos essenciais, impedindo a resposta a crises e a comunicação oficial. Esse tipo de ação gera paralisia de serviços essenciais, coloca os sistemas de emergência e comunicação fora do ar, impõe a desinformação em massa, e, por fim, atua na chantagem política e na extorsão. Sim, o roubo de dados governamentais sensíveis é usado para chantagear líderes ou expor informações sigilosas, gerando caos interno.

Portanto, o que se pode extrair do quadro atual é que para confrontar a China, os EUA resolveram abrir uma guerra híbrida contra o Brasil. Tendo em vista que a América Latina se tornou uma região estratégica para os chineses garantirem commodities adequadas, expandirem infraestrutura e buscarem novos mercados.

Por essa razão, os EUA entendem que essa aproximação prejudica diretamente os seus interesses hegemônicos e imperialistas, gerando uma pressão diplomática e comercial para que os países do Sul Global se alinhem aos seus interesses.

O que está em jogo para o Brasil, nesse momento, em relação à declaração dos EUA de que o PCC e o CV são facções narcoterroristas, é a soberania brasileira em seus mais importantes aspectos.

Primeiro, em relação ao seu poder de criar leis, manter a ordem, cobrar impostos e fazer cumprir as decisões judiciais dentro de suas próprias fronteiras; bem como, o monopólio do uso legítimo da força para garantir o equilíbrio da convivência e da coexistência social. Segundo, o direito de autodeterminação para discutir tratados, definir alianças e não sofrer intervenções de potências estrangeiras.

Mas, não para por aí. No cenário globalizado, o conceito se expande e engloba também a soberania econômica, que é a capacidade de ditar a própria política fiscal, monetária e comercial, emitir moeda própria e proteger a economia nacional contra choques externos e domínio estrangeiro.

A soberania alimentar, que trata da autonomia para produzir e decidir sobre os alimentos que abastecem a população. A soberania energética, ou seja, a capacidade de gerar, controlar e gerenciar a própria matriz e infraestrutura de energia.

E a soberania tecnológica e cibernética, que envolve o poder de controlar dados nacionais, infraestruturas críticas de comunicação, tais como redes de dados e inteligência artificial, e diminuir a dependência de tecnologias estrangeiras.

Daí a necessidade de reflexão sobre as intenções de quem usa quem, nessa história. Afinal, a fragilidade da democracia e a erosão da soberania têm se mostrado características contemporâneas interligadas; pois, enquanto a democracia sofre com a desinformação e o descrédito institucional, a soberania dos Estados-Nação tem sido desafiada pelo neoimperialismo estadunidense, pela interdependência econômica e pelo poder das redes digitais.



1 Enquanto os grupos terroristas são organizações que utilizam violência, medo e atos para alcançar objetivos políticos, religiosos extremos ou ideológicos, as facções criminosas comuns têm como motivação a busca pelo lucro financeiro. Assim, para os terroristas a violência não é um meio para um fim comercial, mas sim uma ferramenta para promover dogmas religiosos, causas separatistas, extremismo político ou ódio a determinados grupos. Como exemplos internacionais de facções terroristas tem-se o Hamas, a Al-Qaeda e o Estado Islâmico (ISIS). 

quarta-feira, 27 de maio de 2026

A imposição de padrões estéticos inatingíveis e a visão do envelhecimento


A imposição de padrões estéticos inatingíveis e a visão do envelhecimento

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Correndo os olhos pelos veículos de comunicação, tradicionais ou alternativos, não há um dia sequer em que a vida ceifada por procedimentos estéticos não apareça em destaque. De repente, comecei a entender que o tênue limite entre a vida e a morte não está se estreitando somente em razão das violências já conhecidas; mas, por um outro viés, não menos perverso e cruel.

Desde que a contemporaneidade transformou pessoas em coisas, em objetos, reduzindo a essência humana a uma mercadoria com valor de troca, submetendo a existência à lógica financeira, a corrida pela eterna juventude expressa através da imagem disparou. O ciclo natural da vida, no seu nascer, crescer, envelhecer e morrer, agora, não pode mais seguir seu fluxo natural; porque, envelhecer se tornou fora de questão.

Frequentemente estigmatizado, o envelhecimento vem se consolidando como um contraponto à produtividade e à juventude. Ainda que reflita uma tentativa ilógica de negar o processo biológico em prol de padrões estéticos e mercadológicos inalcançáveis, resultando na exclusão social e no etarismo. Afinal, o envelhecimento natural passou a ser visto como uma falha a ser corrigida.

Caso contrário, uma legião decide bradar, em altos decibéis, que a dignidade e a relevância social de quem se permite envelhecer numa boa, pode e deve ser questionada. Desse modo todo o debate sobre os direitos e a valorização da memória e da experiência humana é sumariamente descartado, para que sejam criadas outras oportunidades de consumo, as quais exijam que as pessoas se mantenham exaustivamente ativas e financeiramente capitalizadas nessa fase da vida.

Acontece que, enquanto o mercado e o imaginário social promovem uma verdadeira cruzada para esconder a maturidade, a biologia segue seu curso natural, impondo transformações físicas e cognitivas inevitáveis ao longo do ciclo da vida. A imposição de padrões estéticos irreais para evitar que o envelhecimento demonstre à sua inevitável decadência, não consegue impedir aquilo que acontece por dentro, no mais profundo do DNA humano.

Quando o corpo, a partir de certo ponto, inicia os processos naturais de senescência, ou seja, da perda gradual de massa muscular, da diminuição da elasticidade da pele e das alterações bioquímicas e metabólicas, ainda que se possa desacelerar os impactos dessas mudanças através de hábitos saudáveis, o relógio biológico continua cumprindo sua trajetória natural.

Por isso, a busca incessante por uma juventude eterna e de corpos padronizados tem gerado não só uma pressão social imensa, como se transformado em uma violência psicológica e física contra a própria essência humana. Tal obsessão pela juventude e por padrões corporais inalcançáveis, ​​na contemporaneidade, se transformou em um gatilho severo para o adoecimento psíquico, o qual além de promover a exaustão mental, a ansiedade e a insatisfação crônica, alimenta o ciclo de comparação social que recusa do processo natural de envelhecimento.

Mas não é só isso.   Desse movimento em curso deriva uma tríade terrível que é a invisibilização do intelecto, da experiência e da singularidade humana. Haja vista que ao reduzir o valor do indivíduo à sua aparência física, a sociedade ofusca trajetórias profissionais, talentos artísticos e competências técnicas extraordinárias, marginalizando inúmeros profissionais experientes no mercado devido ao envelhecimento natural.

Portanto, é necessário reconhecer que esse cenário restritivo vem oferecendo a sua parcela de contribuição para o adoecimento populacional contemporâneo ao desencadear doenças mentais crônicas, transtornos alimentares e isolamento social. Além do dano emocional, essa cobrança impulsiona riscos físicos severos decorrentes de procedimentos estéticos invasivos e dietas extremas, caracterizando uma violência que muitas vezes é velada ou normalizada.

A grande verdade é que tudo isso só tende a levar ao recrudescimento de uma cultura de etarismo e alienação, a qual reduz a dignidade humana a uma mercadoria, onde o valor de uma pessoa passa a ser medido pela sua juventude e aparência, em vez de sua essência, história e capacidade intelectual. Tornando fundamental promover uma mudança sociocultural que valorize a autoaceitação, a diversidade de corpos e o respeito à maturidade. Reconhecer o envelhecimento como um processo natural e digno é um ato de resistência contra a superficialidade. 

Desenvolvimento humano ...

Desenvolvimento humano ...

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

A notícia de que o Brasil atingiu em 2024 sua melhor marca histórica no Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM), chegando a 0,805 e ingressando pela primeira vez na faixa de muito alto desenvolvimento humano, apesar de importante, me trouxe um outro viés de reflexão. Quando a linguagem falha, a percepção humana precisa se apoiar na observação atenta e na intuição para captar a verdadeira essência das coisas, além da superfície dos discursos.

Nesse caso, por exemplo, desenvolvimento humano muito alto, segundo os especialistas quer dizer que a população de um país ou região desfruta de excelente qualidade de vida, ou seja, longa expectativa de vida ao nascer, elevados níveis de escolaridade e anos de estudo e boa distribuição de riqueza e alto Produto Interno Bruto (PIB) per capita.

Acontece que o desenvolvimento humano não é um mero conceito; mas, uma construção social que depende sobremaneira dos valores e princípios de cada um dos milhões de habitantes do planeta. Por isso, ele vai muito além das métricas econômicas, demandando uma compreensão a respeito de ser uma construção social viva, moldada diariamente pelas escolhas, valores e pela ética de cada indivíduo. De modo que cada ação, por menor que pareça, compõe a cultura e a direção da sociedade, influenciando a educação, a empatia e a justiça social.

Então, eu tenho feito continuamente a mesma pergunta, será que a humanidade tem realmente conseguido mostrar o seu desenvolvimento humano enquanto ser social? O avanço material nem sempre caminha lado a lado com a evolução empática, solidária e gregária. A ascensão de bolhas digitais, a intensa polarização política e a perpetuação das desigualdades demonstram que ainda se prioriza o bem-estar de grupos isolados em detrimento da comunidade global. Sem contar que diversos documentos institucionais e relatórios globais apontam que a distância entre países ricos e pobres aumentou nas últimas décadas.

A tal ponto que tem havido um esforço grandioso para transcender a mera sobrevivência biológica e abraçar uma responsabilidade social complexa; visto que, e ser humano necessita viver em grupo para se desenvolver sob todos os aspectos, mas o desafio atual é expandir essa noção de grupo para toda a humanidade e o meio ambiente.

Infelizmente, a priorização de grupos isolados entra em choque com o aspecto subjetivo do desenvolvimento humano, ou seja, a percepção de liberdade, realização pessoal, pertencimento e dignidade, que transcende o acúmulo material e exige equidade, interdependência e valores universais. Tanto que a própria Organização Mundial da Saúde (OMS) já reconheceu o impacto da falta de conexões globais e da solidão como ameaças à saúde pública, comprometendo a qualidade de vida geral.

Por isso, políticas focadas apenas na blindagem de minorias ricas ou grupos específicos, permitindo que grandes contingentes populacionais fiquem à margem dos benefícios sociais, vem recrudescendo os impeditivos para a consolidação de uma cidadania universal. Haja vista, como o aumento da xenofobia e das crises migratórias recrudesce os discursos nacionalistas e protecionistas levando ao fechamento de fronteiras, criminalização da migração e políticas de asilo restritivas, o que se torna um forte limitador do acesso aos direitos básicos.

Sem contar que tais discursos fortalecem a ascensão do extremismo e do autoritarismo, com o enfraquecimento das instituições democráticas em diversas nações, somado à ascensão de governos populistas, os quais promovem a violação sistêmica dos direitos fundamentais e o retrocesso de garantias civis e políticas. Inclusive, permitindo a relativização cultural dos direitos humanos, a partir de argumentos de soberania nacional ou particularismos culturais frequentemente instrumentalizados para justificar a supressão de direitos de minorias, mulheres e grupos LGBTQIA+, minando o conceito de que os direitos devem valer universalmente para todos.

Nesse contexto, então, ao pensar a respeito do desenvolvimento humano, na contemporaneidade, tem-se que o ser humano é confrontado com uma realidade perversa e cruel, na qual além da extrema concentração de renda e a precarização das relações de trabalho globais, impedindo que bilhões de pessoas acessem direitos elementares, como saúde, moradia e educação, existem guerras prolongadas e internacionais, em curso, gerando deslocamentos em massa e instalações onde o Estado de Direito deixa de existir, tornando a ideia de cidadania uma abstração distante para as populações atingidas.

O que significa que a raça humana está, portanto, ainda distante de consolidar de maneira plena o seu ideal de desenvolvimento humano, porque lhe falta humanidade, empatia, alteridade e solidariedade. Afinal de contas, ele não se mede apenas pelo avanço econômico, tecnológico ou material, mas pela capacidade da sociedade de garantir justiça social, acolhimento e liberdade. Ações práticas que conectam as pessoas, promovendo a cooperação e o cuidado mútuo para além de si mesmo, a partir do reconhecimento do outro como um ser legítimo, único e diferente de qualquer um. 


segunda-feira, 25 de maio de 2026

Trabalho decente e crescimento econômico


Trabalho decente e crescimento econômico

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

A história é sempre a mesma. Quando a dinâmica da vida impõe certos reveses aos interesses das elites e oligarquias dominantes, não demora muito para que essas pessoas encontrem seus “bodes expiatórios” para culpar.

Para eles, a grande e revolucionária ideia que surgiu durante a transição do feudalismo e consolidada com a Revolução Industrial, a qual deu forma ao modelo capitalista clássico, que é um sistema econômico baseado na propriedade privada, na livre concorrência e na não intervenção do Estado na economia, não deveria enfrentar quaisquer obstáculos.

Porém, toda regra está sujeita a exceção. Assim, o modelo capitalista clássico não passou ileso às transformações profundas decorrentes de inúmeras crises históricas, como a de 1929. O que significa que elas alteraram profundamente a regulação estatal, as relações de trabalho e a própria organização produtiva, transformando as crises locais em funções sistêmicas globais.

Em linhas gerais, o modelo capitalista desde sempre se viu precisando realocar seus recursos, ao mesmo tempo em que lida com as consequências disso, ou seja, o desemprego, as falências, a abertura de caminho para novas tecnologias, formas de consumo e novas geometrias do poder econômico.

Acontece que não era esse o panorama pensado inicialmente. Então, a promessa de que o capitalismo elevasse o padrão de vida de todas as camadas sociais não se cumpriu. Apesar de o sistema ter impulsionado a inovação e o crescimento da riqueza global, a distribuição desigual dos benefícios abriu espaço para a discussão a respeito da sua capacidade real de erradicar as vulnerabilidades sociais sem intervenções diretas.

Apesar dos avanços, o crescimento econômico desacompanhado de políticas sociais não resolve estruturalmente essas vulnerabilidades. Nesse contexto, a concentração de renda impede que a riqueza gerada chegue às camadas mais baixas, funcionando como um limite para o próprio funcionamento da economia, reduzindo o dinamismo do mercado interno.

Em pleno século XXI, a população economicamente ativa tem consciência de que as promessas de dignidade social e bem-estar do modelo capitalista não se cumpriram, de modo que ela passa a não se contentar com migalhas e novas promessas.

Estou falando do esgotamento da promessa liberal, diante da precarização das relações de trabalho e da concentração de riqueza nas mãos de uma ínfima parcela da pirâmide social, que tem levado milhões de pessoas, inclusive no Brasil, a contestar tais promessas.

Seja por meio da resistência sindical e as greves, utilizada para impulsionar melhores condições laborais, redução da jornada de trabalho e proteção contra demissões arbitrárias, combatendo a lógica de que o mercado se autorregula para o bem comum.

Por meio da criação de cooperativas e empresas geridas pelos próprios trabalhadores, eliminando a figura do patrão e distribuindo os resultados de forma mais justa.

Por meio da ocupações urbanas e rurais que contestam a concentração de propriedades e a mercantilização de direitos básicos, exigindo acesso à terra para moradia e produção de alimentos.

Afinal de contas, os alimentos básicos que chegam diariamente à mesa do brasileiro, advém da agricultura familiar que é a principal responsável por garantir o abastecimento de culturas como feijão, mandioca e hortaliças. Enquanto o agronegócio se concentra em commodities de exportação, tais como soja e milho, os pequenos produtores garantem a diversidade no prato dos brasileiros.

Por meio do sindicalismo de plataforma e suas novas lutas, em que os trabalhadores de aplicativos e da economia baseada em trabalhos focados em contratos de curto prazo, projetos sob demanda ou trabalho independente, se organizam para exigir direitos básicos e reconhecimento de vínculo, contestando a precarização extrema gerada por novos modelos de negócios.

Tudo isso significa, então, que o recorte social contemporâneo traz consigo uma desconstrução dos velhos paradigmas. A velha lógica perdeu sentido. O modelo tradicional de trabalho baseado em horários rígidos, submissão a tarefas corporativas, baixas remunerações e dedicação exclusiva contraria a necessidade do equilíbrio entre a vida pessoal e o trabalho, a flexibilidade e a saúde mental.

O trabalhador contemporâneo busca, portanto, um novo propósito. O que significa que há sim uma forte exigência de que o trabalho tenha significado social e que os valores da empresa estejam alinhados com os do funcionário, priorizando causas sociais e de sustentabilidade ao contrário de centrar foco apenas no lucro. Além disso, ele recusa culturas de trabalho tóxicas, exigindo limites claros que preservem a sua saúde física e mental.

E tudo isso permite entender que a culpa pelo desinteresse ou falta de engajamento do trabalhador, diante das ofertas no mercado de trabalho, está na manipulação das condições laborais, na precarização dos vínculos, na estagnação salarial real, na perda de direitos e na uberização.

Portanto, ela não está nas políticas públicas de transferência de renda, como o Bolsa Família, como afirmam setores da elites e oligarquias brasileiras.

De saída, essa gente se esquece de que essas políticas exigem condicionalidades como a frequência escolar e o acompanhamento de saúde, reduzindo os custos de internações hospitalares e elevando o capital humano a longo prazo, por exemplo.

Além disso, por atender populações de baixa renda que tendem a gastar todo o recurso recebido, o programa injeta dinheiro diretamente na base da cadeia produtiva, garantindo forte circulação de capital e redução da pobreza extrema.

Segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), casa R$1 investido no programa se transforma em R$2,40 no consumo das famílias e adiciona R$ 1,78 ao Produto Interno Bruto (PIB) nacional.

De modo que esse dinheiro recebido é utilizado majoritariamente em mercados, farmácias e pequenos comércios próximos às residências, garantindo que o valor continue circulando no próprio município.

Por isso, as políticas sociais de transferência de renda atuam apenas como uma rede de proteção temporária que permite a sobrevivência enquanto se procura oportunidades decentes de trabalho.

O que significa postos de trabalho dignos, com remunerações justas e livres de discriminação, que promovam a garantia de segurança no local de trabalho e respeito às leis trabalhistas, que amparem os trabalhadores e suas famílias, e que promovam o diálogo social entre governos, empresas e trabalhadores. Como está estabelecido no Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 8 (ODS 8) da Organização das Nações Unidas (ONU).

Enfim, as políticas de transferência de renda compensam as desigualdades estruturais de acesso à renda, à educação e à saúde, permitindo a sobrevivência digna de populações vulneráveis. Contudo, vale ressaltar que elas não são soluções definitivas isoladas.

Para alterar o abismo socioeconômico estrutural, elas precisam operar em conjunto com políticas que promovam a inclusão produtiva, gerem empregos, garantam direitos trabalhistas e ofereçam serviços públicos de qualidade, permitindo uma emancipação sustentada das famílias.

Antes de emitir qualquer opinião sobre esse assunto, lembre-se de que as políticas de transferência de renda possuem um custo fiscal consideravelmente inferior aos montantes estimados de desvios de corrupção e à fuga de capitais para paraísos fiscais. Portanto, apesar de representarem orçamento na casa de bilhões de reais, as estimativas de perdas ilícitas de capitais representam centenas de bilhões, em muitos casos.