segunda-feira, 15 de junho de 2026

Livres?!


Livres?!

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Esse é um assunto que exige reflexão. Liberdade ...

De ser. Bem, esse é o direito fundamental que fala sobre a capacidade de viver de acordo com a sua própria essência, valores e identidade, sem precisar se moldar às expectativas, rótulos ou pressão da sociedade. Portanto, ser quem se é onde quer que você esteja, sem precisar de máscaras sociais ou de viver em função da aprovação alheia.

De estar. Essa é a dimensão ligada à presença, ao pertencimento e à autonomia espacial. Ora, todos têm o direito fundamental de ir e vir em um ambiente, transitando com segurança, sem se sentir ameaçado ou excluído.

De viver. Ah, esse é um aspecto muito importante. Trata-se da capacidade de fazer escolhas autênticas sobre o próprio caminho, homologadas aos próprios valores e princípios.

No entanto, isso está longe de significar a ausência de regras ou a permissão para agir por impulso. Afinal, toda escolha traz consequências, de modo que a verdadeira liberdade envolve assumir a responsabilidade pelos seus atos, decisões e pelo rumo da própria vida, da própria história.

De ficar. Nada melhor do que desfrutar da autonomia emocional e da individualidade nos relacionamentos. Assim, a liberdade de ficar representa o poder de escolha consciente para estar com alguém por afeto real, e não por dependência, mantendo a liberdade de se retirar quando o vínculo não for mais saudável ou compatível.

Mas, ela também traz a possibilidade de se sentir inteiro sozinho, sem a necessidade de preencher vazios emocionais através da aprovação constante do outro.

De permanecer. Pelo menos em tese, todos deveriam desfrutar do direito fundamental de não ser obrigado a deixar um local, país ou relação. No entanto, quando se olha pelas janelas do mundo contemporâneo, essa liberdade está, cada vez mais, sendo confrontada pela globalização, pelas crises migratórias, pelas guerras e conflitos, e pela segurança digital.

Sim, uma onda crescente de refugiados climáticos e políticos testa a capacidade das nações de acolher e integrar novos indivíduos, resultando muitas vezes em políticas de imigração mais restritivas.

Por outro lado, a permanência na internet ou em redes corporativas vem exigindo a abdicação de privacidade na troca de serviços, ao mesmo tempo em que existe uma coleta desenfreada de dados ameaçando a autonomia do indivíduo.

Por fim, especialmente nos grandes centros urbanos, a liberdade de moradia é limitada pela especulação imobiliária, dificultando o direito à cidade pela população mais vulnerável e de baixa renda.

De continuar. Será que alguém se sente realmente livre para poder seguir em frente, recomeçar ou manter um caminho escolhido, sem ser impedido por amarras do passado, especificações físicas ou pressões externas?

A impressão que se tem é de que ao contrário de uma ausência absoluta de limites ou de um estado permanente, essa liberdade na prática se apresenta pela escolha de como reagir aos condicionamentos biológicos, históricos e sociais que se apresentam diariamente.

De tornar-se. Nesse contexto, ela se mostra como um espaço para a autorrealização e o desenvolvimento contínuo, colocando o ser humano como protagonista das suas escolhas ao longo da vida. Cada decisão, ação ou até omissão, molda a pessoa que cada um se torna, fazendo com que a vida seja uma criação autêntica e não um roteiro pronto. Assim, essa liberdade é o potencial que o indivíduo tem para evoluir, ultrapassar traumas e alcançar a sua melhor versão.

De parecer. Talvez, uma das expressões de liberdade mais comuns na contemporaneidade! Pois, ela se refere ao direito fundamental de construir e exibir sua própria identidade visual, corporal e estilística, livre de coerções estatais, sociais ou de discriminações no trabalho e na sociedade. Na contemporaneidade, o corpo, as roupas e quaisquer modificações identitárias são ferramentas de autodeterminação e autoexpressão do indivíduo.

Entretanto, não se pode negar que ao mesmo tempo em que a liberdade de parecer é ampla, a sociedade é fortemente pressionada por padrões de beleza virtuais e por algoritmos. Isso faz com que, muitas vezes, essa liberdade de parecer algo nas redes sociais se transforma em uma nova prisão, onde a encenação de uma vida perfeita tenta substituir a personalidade do indivíduo.

Por essas e outras é que, de repente, a liberdade foi imersa no caos da incompreensão. A sociedade contemporânea decidiu que não pode haver limites, condições ou restrições para o exercício da sua liberdade, como se isso fosse possível. Por conta disso, as relações sociais se transformaram num verdadeiro barril de pólvora.

Acontece que esse comportamento transformou a liberdade em uma força destrutiva, que vem desconsiderando o contrato social que garantia a segurança e o respeito mútuo na vida em sociedade. De modo que tudo começa por essa ruptura que retirou a base da civilidade, gerando um ambiente de instabilidade e conflitos, onde prevalece a lei do mais forte e a desconfiança generalizada.

A partir daí, quando a liberdade irrestrita de um indivíduo interfere diretamente no bem-estar e nos direitos do outro, ocorre a desestruturação da igualdade de oportunidades e do respeito mútuo no contexto social.

Algo que se reafirma a partir de discursos e atos que antes eram repreendidos pelo pacto de civilidade e que, agora, ganham espaço, podendo resultar em discursos de ódio, de intolerância e de crimes contra a honra, ameaçando a segurança e a integridade; sobretudo, de grupos vulneráveis.

Não se pode invisibilizar ou negar o fato de que as polarizações ideológicas, sejam elas de que natureza forem, dentro do recorte contemporâneo, têm se intensificado de uma maneira brutal, perversa e incontrolável. Absolutamente tudo se transforma em pretexto para romper coma civilidade e estabelecer um retorno aos primórdios da barbárie social.

A radicalização do debate público e a erosão da urbanidade têm sido transformadas e publicadas cotidianamente em verdadeiros campos de batalha ideológicas, que transitam tanto pelo ambiente virtual quanto real.  

Sim, porque essas ocorrências, muitas vezes potencializadas pelas bolhas nos ambientes digitais, dificultam a construção de consensos e o respeito à pluralidade de ideias.

Haja vista, o recente episódio, no qual um idoso foi vítima de espancamento e ameaça, nas proximidades de sua residência, em um bairro da zona sul carioca, cuja motivação da violência foi política e religiosa. As agressões só cessaram após a intervenção de um transeunte que passava pelo local e gritou para que parassem 1.

Tudo isso porque a liberdade não é absoluta e não se confunde com ausência de regras ou autorização para violar a lei! Todos deveriam se lembrar de que a liberdade encontra seu limite no momento em que fere o direito de outra pessoa ou viola um bem jurídico protegido.

Aproveitando esse assunto, hoje, 15 de junho, é o Dia Mundial de Conscientização da Violência contra a Pessoa Idosa, instituído pela Organização das Nações Unidas (ONU), em 2006, para combater abusos físicos, psicológicos, financeiros e o abandono, dando origem à campanha Junho Violeta, que promove a defesa e a dignidade da população idosa.

Aliás, o Brasil é vanguardista nesse assunto, pelo fato de que em 2003 foi promulgada a Lei n.º 10.741, que dispõe sobre o Estatuto da Pessoa Idosa e dá outras providências 2.

Depois dessas breves considerações, só me resta deixar as seguintes palavras de Nelson Mandela, ativista, advogado, primeiro presidente negro da África do Sul e Prêmio Nobel da Paz em 1993, para sua reflexão: “Ser pela liberdade não é apenas tirar as correntes de alguém, mas viver de forma que respeite e melhore a liberdade dos outros”.

Afinal, isso significa que a liberdade exige de cada ser humano a responsabilidade, a alteridade e a construção de um ambiente social que permita não só a emancipação individual quanto a coletiva.