Dívidas. Juros.
Promessas. ...
Por
Alessandra Leles Rocha
Basta! Não há como negar o fato
de que a pós-verdade, descrita pela manipulação da opinião pública através de Fake
News e mentiras deslavadas, tem promovido um efeito extremamente nocivo e
avassalador na sociedade contemporânea. Afinal de contas, esse ecossistema de
desinformação; sobretudo, nos meios virtuais, não apenas distorce a realidade,
mas exerce efeitos profundos e negativos na saúde mental e no bem-estar
emocional das pessoas.
O pior nesse cenário é perceber
que meios de comunicação e as plataformas de informação têm se permitido operar
fora dos parâmetros éticos, tais como a apuração, a imparcialidade e a verificação
de fatos, para sustentar a pós-verdade, onde as opiniões pessoais e os apelos
emocionais superam fatos objetivos na formação da opinião pública.
Pensando, então, na realidade
brasileira de 2026, um ano eleitoral, diante das inúmeras tentativas de
acirramento da polarização político-partidária a fim de conquistar corações e
mentes dos eleitores, um dos assuntos mais falados é o endividamento da
população. Acontece que as abordagens, de um modo geral, não tratam a questão à
luz do que realmente é necessário.
Primeiro, porque historicamente o
endividamento das famílias é decorrente das próprias imposições do sistema
capitalista, dentre elas o fato de que a incapacidade orçamentária favorece
diretamente ao acúmulo de mais riqueza por parte de bancos e demais agentes dos
sistema financeiro.
Trata-se da financeirização ou o lucro
sem produzir. Desse modo, a incapacidade orçamentária das famílias leva ao uso
de crédito, resultando em uma transferência de riqueza da população
trabalhadora para bancos e instituições financeiras, através do pagamento de
juros. O endividamento transforma a dívida em um ativo gerador de receita para
o sistema financeiro.
Como as famílias de baixa renda
são as mais afetadas, em razão de um orçamento bastante limitado, essa dinâmica
tende a perpetuar o ciclo de pobreza e endividamento, bem como, obstaculizando
a mobilidade e ascensão social. Visto que o acesso relativamente fácil ao
crédito, aliado à má supervisão que muitas vezes não acompanha o custo de vida,
cria uma armadilha onde o endividamento se torna a única forma de manter o
consumo e o padrão de vida do cidadão. Algo que torna o endividamento, então, estrutural
e funcional ao sistema, permitindo que o sistema financeiro acumule capital sem
necessariamente investir em produção real.
Segundo, porque olhando com
atenção para a realidade brasileira, o endividamento das famílias é sim uma
mazela histórica, enraizada na estrutura socioeconômica desde a colonização, sustentada
por uma continuidade de mecanismos de exclusão financeira e concentração de
renda.
Nessa perspectiva, a economia
colonial baseada no binômio latifúndio-escravidão concentrou terra e capital,
gerando uma sociedade onde a maioria da população esteve sempre à margem do
poder e da propriedade e, posteriormente, tornou-se engrenagem principal do
mercado consumidor assalariado.
Haja vista, como a dependência
histórica do trabalho escravo e, pós-abolição, contribuiu significativamente
para a precarização do trabalho assalariado para essa parcela da população,
impedindo a formação de uma base sólida de poupança familiar.
Além disso, mergulhando nas páginas
da historicidade nacional tem-se os registros de que a dívida pública e privada
no Brasil sempre foi estruturalmente alta, iniciando entre os séculos XVI e
XVII, com governadores coloniais frequentemente recorrendo a empréstimos para
sustentar a administração. Depois, para se tornar independente de Portugal, o
Brasil teve que indenizar a metrópole portuguesa com 2 milhões de libras
esterlinas, valor que pegou emprestado com a Inglaterra.
De modo que desde o século XIX, o
país recorreu a novos empréstimos ingleses para pagar juros e amortizações de
dívidas anteriores, criando um ciclo de dívida sobre dívida. Isso, sem contar a
Guerra do Paraguai entre 1864 e 1870, a qual foi financiada majoritariamente
por dívida externa, elevando drasticamente o endividamento brasileiro.
Acontece que ultrapassado esses
tempos, a situação não mudou. No início da República, o Brasil frequentemente
precisou renegociar suas dívidas de empréstimos de financiamento com credores
estrangeiros para evitar uma moratória. Assim, historicamente, a economia
brasileira sempre dependeu de recursos externos para cobrir déficits
orçamentários ou financiar grandes obras, resultando em crises periódicas de
balanço de pagamentos.
O que significa que a dívida
brasileira não é fruto apenas de uma dada má gestão governamental, mas de um
modelo econômico dependente de capitais externos e de um aparelho estatal que
historicamente sempre gastou mais do que arrecadou, perpetuando o endividamento
como uma característica permanente da economia nacional.
Além disso, é preciso considerar
que a percepção de alguns quanto à dívida pública brasileira, centrada no mau
uso do orçamento público, é bastante questionável, considerando que em geral o
que se chama de gasto ou mau uso, na verdade, são investimentos em políticas que
beneficiam milhares de cidadãos, tais como Previdência Social, Benefício de
Prestação Continuada (BPC), investimentos em saúde, moradia e educação.
Ao contrário daquilo que se
expressa nos recorrentes episódios de corrupção e de má gestão do orçamento
público, os quais realmente oneram a dívida pública brasileira ao aumentar
desproporcionalmente as despesas da União, diminuindo a eficiência dos gastos e
forçando o governo a emitir mais títulos e pagar juros mais altos para cobrir
déficits.
Haja vista as fraudes em
contratos que impedem a concorrência, elevando os custos de projetos de
infraestrutura e serviços, ou a apropriação de recursos do Estado por agentes
públicos, afetando diretamente a eficiência da despesa.
Por isso, a repercussão e os
desdobramentos do endividamento brasileiro, na esfera pública prejudicam de
forma direta e profunda a realidade financeira individual de cada cidadão,
criando um ciclo onde a dívida macroeconômica se transforma em juros altos e
menor poder de compra no cotidiano.
Ora, os empréstimos, os financiamentos
de imóveis e/ou carros e o uso do cartão de crédito, por exemplo, por serem
extremamente caros tendem a consumir boa parte da renda familiar apenas para
pagar juros, comprometendo inúmeras vezes o próprio pagamento das contas
básicas, tais como água, luz, gás, telefone e impostos.
E sob essa ótica não se pode
esquecer que a precarização do trabalho no Brasil é um fator estrutural que
contribui diretamente para o achatamento da renda média e aprisiona uma grande
parcela da população em um ciclo de endividamento. Daí a enorme surpresa quando
é noticiado que o desemprego caiu, mas a qualidade do trabalho diminuiu,
aumentando a vulnerabilidade econômica.
Infelizmente, o brasileiro e a brasileira,
em geral, tem convivido com a falha social em lhes proporcionar segurança
financeira; posto que, a precarização atual funciona como um motor para a alta
inadimplência e o endividamento. O crescimento de vínculos informais e a uberização
do trabalho não só resultou em jornadas mais longas, como os ganhos por hora são
menores do que o emprego formal.
Aí, diante da vulnerabilidade
socioeconômica, intensificada pela precarização do trabalho e pelo alto
endividamento, emergiu-se um cenário fértil onde as casas de apostas online (BETs)
e os cassinos digitais são vendidos como uma solução mágica para superar o
endividamento e a pobreza. Essa característica é alimentada por promessas de
ganhos rápidos e elevados, atuando como um mecanismo ilusório de mobilidade
social.
Entretanto, essa estratégia é, na
verdade, uma armadilha letal. Na tentativa de recuperação de perdas financeiras
abre-se a possibilidade de impulsionar o vício comportamental, a ludopatia, no
qual o jogador aposta valores cada vez maiores, resultando em um
superendividamento que agrava a vulnerabilidade inicial e tem levado milhares
de pessoas a ceifar a própria vida. Por isso, a população de baixa renda, ou
seja, até dois salários-mínimos, é a mais afetada, tendo em vista de que há um comprometimento
significativo do seu sustento familiar.
Assim, as casas de apostas online
(BETs) e os cassinos virtuais funcionam como uma armadilha da pobreza,
prometendo ascensão financeira, mas frequentemente resultando na
desestruturação familiar e no aumento da desigualdade. Sem contar que o
dinheiro perdido pelo apostador, que movimentaria o comércio local, acaba sendo
transferido para plataformas de apostas, muitas vezes com sede no exterior.
Diante de tudo isso, chega de
olhar para o endividamento no Brasil como quem olha uma fotografia e não um
filme. É preciso correr a linha do tempo para entender como a situação chegou a
esse ponto. Não há acaso na história! Apenas o fato de que o endividamento
social no Brasil reflete uma deficiência estrutural e histórica, que está enraizada
em descasos, negligências e uma profunda desigualdade na distribuição de renda
e oportunidades.
Segundo C. H. Spurgeon, pregador da igreja Batista inglesa no século XIX, “Promessas fazem dívidas, e dívidas fazem promessas, mas as promessas nunca pagam dívidas. Prometer é uma coisa, conseguir realizar é outra bem diferente”. Lembre-se que só a responsabilidade garante a credibilidade. Falar não substitui a ação.
