sábado, 26 de setembro de 2026

A cidadania brasileira e a Fábula da Ratoeira ...


A cidadania brasileira e a Fábula da Ratoeira ...

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Há muitos anos, quando li A RATOEIRA, uma fábula apócrifa contemporânea, fui impactada pelo realismo daquelas palavras. De fato, quando alguém está diante de um problema e o outro acredita que o problema não lhe diz respeito, é imperioso lembrar que diante de uma ratoeira na casa, toda fazenda corre risco, porque o problema de um é problema de todos.

E se colocarmos reparo, como orientava José Saramago, à própria historicidade brasileira, isso fica ainda mais claro e compreensível. Veja o caso da Revolta da Vacina, em 1904. Diante do problema das áreas mais vulneráveis pela falta de saneamento, no Rio de Janeiro, a situação se transformou numa crise sanitária e econômica generalizada para o país, forçando o governo de Rodrigues Alves e o médico Oswaldo Cruz a adotarem medidas drásticas de saneamento e vacinação obrigatória.

Também o descaso do Estado em relação à miséria, à seca e à concentração de terras no Nordeste brasileiro durante a República Velha não ficou restrito à população sertaneja, de modo que a insegurança e o banditismo saíram do controle regional, desafiando as forças federais, interrompendo linhas de comércio e forçando grandes migrações em massa para o Sudeste, reconfigurando a demografia e a infraestrutura das grandes capitais brasileiras.

Depois, a Campanha das Diretas Já, entre 1983 e 1984, quando a crise econômica da década de 1980, com uma hiperinflação e elevadíssima dívida externa, somada à opressão política, unificou o país. Artistas, intelectuais, operários, empresários e políticos de diferentes espectros uniram-se no maior movimento de massa da história do país. Restando claro que a recuperação da cidadania e da dignidade econômica dependia da união de todas as classes.

Por isso, a ideia de que o problema de um é problema de todos precisa ser recapitulada. Diante de narrativas sobre potenciais interferências externas no pleito eleitoral de 2026, esse princípio se torna um eixo central de debate para todos os cidadãos brasileiros. A preservação da soberania nacional exige atenção a diferentes fatores, começando pela autodeterminação que é o direito absoluto de uma nação de escolher seus governantes sem pressões econômicas, diplomáticas ou digitais de potências estrangeiras.

Depois a integridade digital que significa a proteção dos sistemas de informação e o combate às campanhas coordenadas de desinformação que podem ter origem ou financiamento externo. E por fim, o fortalecimento institucional a partir da resposta unificada das instituições nacionais para garantir a transparência do processo e rechaçar qualquer tipo de tutela externa.

O debate contemporâneo aponta que a fragilização da democracia em um país gera frequentemente um efeito dominó que afeta a estabilidade geopolítica regional e global. Portanto, a vigilância sobre as regras do jogo democrático deixa de ser uma pauta puramente partidária e passa a ser uma questão de segurança para a própria independência do país. E nessa história ninguém sai ganhando.

Um exemplo clássico dessas consequências nefastas foi experenciado por Carlos Lacerda. O jornalista, escritor, empresário e político brasileiro é um dos exemplos históricos mais emblemáticos de como a quebra das regras democráticas pode se voltar contra seus próprios artífices. Como principal opositor civil dos governos de Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e João Goulart, Lacerda foi uma das figuras centrais na articulação do golpe militar de 1964 no Brasil.

No entanto, sua trajetória ilustra perfeitamente o propósito de que, no colapso da democracia, ninguém sai ganhando. Por quê? Ora, ele apoiou uma intervenção militar acreditando que as Forças Armadas realizariam uma breve transição e devolveriam o poder aos civis, abrindo caminho para sua candidatura à presidência na eleição prevista para 1965. Acontece que o regime militar se consolidou no poder, cancelou as eleições diretas, instituiu o bipartidarismo e prorrogou mandatos, anulando os seus planos políticos.

Assim, ao perceber o caráter permanente da ditadura, Lacerda tentou unir forças com antigos adversários históricos como o próprio Juscelino Kubitschek e João Goulart, criando uma Frente Ampla, um movimento que visava a redemocratização do país. Contudo, em dezembro de 1968, com a edição do Ato Institucional Número 5 (AI-5), Carlos Lacerda teve seus direitos políticos cassados ​​por dez anos, foi brevemente preso e submetido à vigilância, terminando sua vida pública ostracizado pela ditadura que defendeu.

Afinal, quando as regras do jogo democrático são sacrificadas em nome de interesses conjunturais, a segurança jurídica e a independência de todas as forças políticas são liquidadas, deixando o Estado à mercê do autoritarismo e da instabilidade, tornando a ideia de que o problema de um é problema de todos algo totalmente materializado.

Portanto, pare de defender a tese de que “comigo isso não acontece”, porque acontece. Há uma imprevisibilidade intrínseca aos riscos e perigos, a qual ninguém tem o controle. O que se passa na mente do outro, suas escolhas e decisões, quase sempre não são submetidas ao escrutínio público. Tanto que, de repente, somos impactados e surpreendidos por acontecimentos terríveis, em razão de que o ser humano traz em si o germe do egoísmo e do individualismo devotado a satisfazer os seus próprios desejos e interesses.

Por essas e outras é que aceitar essa realidade não significa viver em pânico ou paranoia constante, mas sim adotar uma postura de lucidez. Quando paramos de negar o risco, nós nos tornamos mais atentos, desenvolvemos mais empatia pelas vítimas de fatalidades, ao contrário de julgá-las, e passamos a valorizar mais o presente.

A vulnerabilidade é uma condição universal. Reconhecê-la é, portanto, o primeiro passo para uma maturidade real diante da vida. Lembre-se que o egoísmo e o individualismo extremo muitas vezes operam no silêncio. Quando alguém decide colocar os próprios desejos acima de qualquer limite ético ou do bem-estar alheio, todo o ambiente ao redor é pego de surpresa e corre perigo.