A
cidadania brasileira e a Fábula da Ratoeira ...
Por Alessandra
Leles Rocha
Há muitos anos, quando li A
RATOEIRA, uma fábula apócrifa contemporânea, fui impactada pelo
realismo daquelas palavras. De fato, quando alguém está diante de um problema e
o outro acredita que o problema não lhe diz respeito, é imperioso lembrar que
diante de uma ratoeira na casa, toda fazenda corre risco, porque o problema de
um é problema de todos.
E se colocarmos reparo, como
orientava José Saramago, à própria historicidade brasileira, isso fica ainda
mais claro e compreensível. Veja o caso da Revolta da Vacina, em 1904. Diante do
problema das áreas mais vulneráveis pela falta de
saneamento, no Rio de Janeiro, a situação se transformou numa crise sanitária e econômica generalizada
para o país, forçando o governo de Rodrigues Alves e o médico Oswaldo Cruz a adotarem medidas drásticas de saneamento e vacinação obrigatória.
Também o descaso do Estado em
relação à miséria, à seca e à concentração de terras no Nordeste brasileiro
durante a República Velha não ficou restrito à população sertaneja, de modo que
a insegurança e o banditismo saíram do controle regional, desafiando as forças
federais, interrompendo linhas de comércio e forçando grandes migrações em
massa para o Sudeste, reconfigurando a demografia e a infraestrutura das
grandes capitais brasileiras.
Depois, a Campanha das Diretas
Já, entre 1983 e 1984, quando a crise econômica da década de 1980, com uma hiperinflação
e elevadíssima dívida externa, somada à opressão política, unificou o país.
Artistas, intelectuais, operários, empresários e políticos de diferentes
espectros uniram-se no maior movimento de massa da história do país. Restando claro
que a recuperação da cidadania e da dignidade econômica dependia da união de
todas as classes.
Por isso, a ideia de que o
problema de um é problema de todos precisa ser recapitulada. Diante de
narrativas sobre potenciais interferências externas no pleito eleitoral de
2026, esse princípio se torna um eixo central de debate para todos os cidadãos
brasileiros. A preservação da soberania nacional exige atenção a diferentes
fatores, começando pela autodeterminação que é o direito absoluto de uma nação
de escolher seus governantes sem pressões econômicas, diplomáticas ou digitais
de potências estrangeiras.
Depois a integridade digital que
significa a proteção dos sistemas de informação e o combate às campanhas
coordenadas de desinformação que podem ter origem ou financiamento externo. E por
fim, o fortalecimento institucional a partir da resposta unificada das
instituições nacionais para garantir a transparência do processo e rechaçar
qualquer tipo de tutela externa.
O debate contemporâneo aponta que
a fragilização da democracia em um país gera frequentemente um efeito dominó
que afeta a estabilidade geopolítica regional e global. Portanto, a vigilância
sobre as regras do jogo democrático deixa de ser uma pauta puramente partidária
e passa a ser uma questão de segurança para a própria independência do país. E
nessa história ninguém sai ganhando.
Um exemplo clássico dessas consequências
nefastas foi experenciado por Carlos Lacerda. O jornalista, escritor,
empresário e político brasileiro é um dos exemplos históricos mais emblemáticos
de como a quebra das regras democráticas pode se voltar contra seus próprios artífices.
Como principal opositor civil dos governos de Getúlio Vargas, Juscelino
Kubitschek e João Goulart, Lacerda foi uma das figuras centrais na articulação
do golpe militar de 1964 no Brasil.
No entanto, sua trajetória
ilustra perfeitamente o propósito de que, no colapso da democracia, ninguém sai
ganhando. Por quê? Ora, ele apoiou uma intervenção militar acreditando que as
Forças Armadas realizariam uma breve transição e devolveriam o poder aos civis,
abrindo caminho para sua candidatura à presidência na eleição prevista para
1965. Acontece que o regime militar se consolidou no poder, cancelou as
eleições diretas, instituiu o bipartidarismo e prorrogou mandatos, anulando os seus
planos políticos.
Assim, ao perceber o caráter
permanente da ditadura, Lacerda tentou unir forças com antigos adversários
históricos como o próprio Juscelino Kubitschek e João Goulart, criando uma
Frente Ampla, um movimento que visava a redemocratização do país. Contudo, em
dezembro de 1968, com a edição do Ato Institucional Número 5 (AI-5), Carlos
Lacerda teve seus direitos políticos cassados por dez
anos, foi brevemente preso e submetido à vigilância,
terminando sua vida pública
ostracizado pela ditadura que defendeu.
Afinal, quando as regras do jogo
democrático são sacrificadas em nome de interesses conjunturais, a segurança
jurídica e a independência de todas as forças políticas são liquidadas,
deixando o Estado à mercê do autoritarismo e da instabilidade, tornando a ideia
de que o problema de um é problema de todos algo totalmente materializado.
Portanto, pare de defender a tese
de que “comigo isso não acontece”, porque acontece. Há uma imprevisibilidade intrínseca
aos riscos e perigos, a qual ninguém tem o controle. O que se passa na mente do
outro, suas escolhas e decisões, quase sempre não são submetidas ao escrutínio público.
Tanto que, de repente, somos impactados e surpreendidos por acontecimentos terríveis,
em razão de que o ser humano traz em si o germe do egoísmo e do individualismo devotado
a satisfazer os seus próprios desejos e interesses.
Por essas e outras é que aceitar
essa realidade não significa viver em pânico ou paranoia constante, mas sim
adotar uma postura de lucidez. Quando paramos de negar o risco, nós nos
tornamos mais atentos, desenvolvemos mais empatia pelas vítimas de fatalidades,
ao contrário de julgá-las, e passamos a valorizar mais o presente.
A vulnerabilidade é uma condição universal. Reconhecê-la é, portanto, o primeiro passo para uma maturidade real diante da vida. Lembre-se que o egoísmo e o individualismo extremo muitas vezes operam no silêncio. Quando alguém decide colocar os próprios desejos acima de qualquer limite ético ou do bem-estar alheio, todo o ambiente ao redor é pego de surpresa e corre perigo.
