Jogando
com a vida ... Jogando com o próprio envelhecimento.
Por Alessandra
Leles Rocha
Por favor, não confunda alhos com
bugalhos! As loterias federais e as apostas esportivas, conhecidas como bets,
possuem naturezas jurídicas e estruturas completamente diferentes no Brasil.
E foi colocando na balança os
prós e os contra a respeito, de que o ganho com impostos diretos dessas
plataformas online era superado pelos prejuízos indiretos na economia e na
saúde pública, que o governo federal tomou a decisão de editar uma Medida
Provisória determinando a proibição das bets no país.
Para início de conversa, enquanto
as loterias federais representam jogos de azar baseados em sorteio de números,
onde todos os participantes têm exatamente a mesma chance matemática, as bets são
variáveis, as chances dependem de análise estatística de eventos reais como o
desempenho de um time, clima, lesões.
Nas loterias, o prêmio total
acumulado é dividido igualmente entre as combinações que acertarem os números
sorteados. Nas bets, o prêmio é por cota fixa, ou seja, é multiplicado pelo
valor fixado pela casa no momento da aposta.
Sobre a margem de lucro
matemática e estatística, no caso das loterias, ela é retida diretamente do
valor total arrecadado antes de compor o prêmio final. Enquanto nas bets, ela
está embutida matematicamente nas cotas fixas, reduzindo o pagamento real em
relação à probabilidade pura do evento acontecer.
Quanto à destinação dos recursos,
as loterias destinam quase metade, cerca de 48%, de toda a sua arrecadação para
investimentos em benefícios sociais e políticas públicas, de modo que o Repasse
Social é considerado a atividade-fim das Loterias CAIXA.
O que significa transformar o
valor das apostas em recursos diretos para o desenvolvimento do país em áreas como
segurança pública, com repasses para o Fundo Nacional de Segurança
Pública (FNSP) para combater a criminalidade; educação, a partir do Fundo de Financiamento Estudantil
(FIES); o esporte, com recursos para o Comitê Olímpico e Paralímpico
Brasileiro, além de clubes de futebol; a seguridade social e saúde, com
o apoio à previdência e à saúde pública; e, a cultura, com verbas destinadas
ao Fundo Nacional da Cultura (FNC).
Além disso, as mais de 13 mil
casas lotéricas espalhadas pelo país funcionam como pequenos negócios que
ativam a economia local. Seja pela arrecadação de tarifas, tendo em vista de
que elas atuam como correspondentes bancários, permitindo o pagamento de
contas, saques e recebimento de benefícios sociais, como o Bolsa Família, o que
atrai fluxo de pessoas para o comércio do entorno. Seja pela comissão recebida pelos
lotéricos, que significa uma porcentagem de cada aposta que fica com o
empresário lotérico, movimentando o setor de serviços.
E o setor lotérico é um forte
empregador direto e indireto. Haja vista a quantidade de atendentes de caixa,
gerentes e pessoal de segurança nas agências lotéricas, as empresas de
tecnologia que prestam suporte técnico, de transporte de valores, de segurança
privada, de marketing e de impressão de bilhetes.
Quando um prêmio é pago, por
exemplo, os novos milionários e ganhadores de faixas menores reinjetam esse
dinheiro no mercado fomentando um efeito multiplicador na economia por meio da
compra de imóveis e automóveis, de investimentos em novos negócios, de aplicações
financeiras que geram liquidez para os bancos, e de consumo geral de bens e
serviços, movimentando a cadeia de comércio.
Sem contar que os prêmios das
loterias federais sofrem retenção de Imposto de Renda (IR) direto na fonte, uma
alíquota de 30%, e esse valor vai direto para o caixa da União, ajudando a
compor o orçamento do Estado para investimentos públicos.
Já as bets têm lucro privado. O que
significa que o dinheiro vai para empresas particulares, chamadas de operadoras,
restando ao Estado apenas a arrecadação de impostos regulatórios. Por quê?
Porque a maior parte das
operadoras possui sede internacional, de modo que o fluxo financeiro segue um
caminho que limita o impacto positivo na economia local. O
dinheiro apostado que não retorna aos jogadores como prêmio é convertido em
moeda estrangeira e transferido para suas matrizes no exterior.
Assim, muitas das grandes
plataformas globais operam a partir de territórios com baixa tributação e
sigilo fiscal como Malta, Gibraltar, Curaçao ou Ilhas Caimã, o que minimiza os
impostos corporativos sobre o lucro líquido global delas.
Esse movimento reduz a circulação
de riqueza dentro do país de origem, pois o lucro privado deixa de ser
reinvestido no comércio, na indústria ou em infraestrutura local. Portanto, apesar
do eventual ganho fiscal direto nos cofres públicos, o mercado das bets acabou
retirando muito mais dinheiro da economia do que o total devolvido em impostos.
Foram retirados da atividade econômica
de R$ 120 bilhões a R$ 141 bilhões em 2025, equivalente a até 1,1% do PIB. O
dreno financeiro provocado pelas plataformas operou sob a lógica de retirar
dinheiro de setores com alto efeito multiplicador como comércio, serviços e
varejo tradicional, e concentrá-lo em um setor de baixíssimo retorno econômico
interno.
Quanto à perda no comércio
tradicional houve uma redução de faturamento, afetando o consumo das famílias. O
dinheiro gasto nas plataformas de apostas saiu diretamente do orçamento que elas
utilizavam para compras do dia a dia, como alimentação, roupas e lazer
tradicional.
Acontece que esse aumento do uso
do orçamento doméstico e, por vezes, linhas de crédito para apostas, reduziu o
poder de compra futuro, já que as famílias precisavam quitar dívidas antes de
voltar a consumir.
Nesse contexto, as populações de
menor poder aquisitivo tenderam a comprometer uma fatia proporcionalmente maior
de sua renda com as apostas, gerando um efeito imediato no comércio de bairros
e bens de primeira necessidade.
Vale ressaltar que as apostas de
quota fixa foram legalizadas no final de 2018, pelo governo Michel Temer, mas
as regras de taxação e concessão de outorgas só passaram a valer efetivamente a
partir de janeiro de 2025.
Assim, estima-se que nesse
período o Brasil deixou de arrecadar entre R$ 30 bilhões e R$ 40 bilhões em
impostos durante os quatro anos em que as apostas online operaram no país sem
nenhuma regulamentação ou tributação efetiva.
Porém, mesmo após a
regulamentação, o país deixou de arrecadar bilhões. O que em termos de prejuízos
sociais gerais, o custo estimado de R$ 39 bilhões com endividamento familiar, gerou
uma imensa perda de produtividade e gastos de saúde.
De modo que os impactos diretos
na saúde corresponderam à custos associados ao aumento de mortes por suicídio, que
chegou a ser 15 vezes maior em pessoas com ludopatia/transtorno do jogo; e a perda
de qualidade de vida severa decorrente da depressão e outros transtornos
psicoemocionais, cujos tratamentos e atendimentos médicos diretos são
realizados em sua imensa maioria pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Caro (a) leitor (a), só esses
pontos já mereceriam a nossa atenção. Porém, há muito mais questões a serem
pensadas e repensadas por todos nós. Começando pela relação entre o prejuízo
causado pelas plataformas de apostas online e o envelhecimento da população
brasileira que já representa uma crise econômica e de saúde pública sobreposta.
Sim, à medida em que a população
acima de 60 anos cresce rapidamente no Brasil, passando de 15,2 milhões em 2000
para mais de 33 milhões, esse público torna-se um dos alvos mais financeira e
psicologicamente fragilizados pela facilidade do Pix e pelo isolamento social.
Tanto que dados do Banco Central
apontaram que cerca de dois milhões de idosos jogam mensalmente, registrando um
gasto médio individual de R$ 3 mil por mês com apostas. Um valor muito superior
à média das aposentadorias rurais e urbanas do país que variam entre R$ 1,4 mil
e R$ 1,8 mil.
Acontece que esse cenário
possibilita, então, o surgimento de uma verdadeira bola de neve na medida em
que para sustentar as perdas e tentar recuperar o dinheiro, muitos idosos
recorrem a empréstimos consignados, comprometendo o orçamento familiar a longo
prazo e gerando superendividamento.
Inclusive, uma parcela
significativa dos idosos afetados depende do Benefício de Prestação Continuada
(BPC), convertendo os recursos destinados à sua subsistência básica em receita
para as bancas de apostas. Assim, idosos com rendas fixas baixas são facilmente
seduzidos por propagandas agressivas que vendem a ideia de renda extra fácil
para fechar as contas do mês.
É fato que dissecando as
histórias têm-se que muitas delas surgem pelos desafios do próprio envelhecimento
populacional, o qual muitas vezes vem acompanhado de solidão, perdas familiares
e falta de ocupação diária. É nesse contexto que os jogos de azar no celular acabam
por oferecer estímulos rápidos de dopamina e uma falsa sensação de companhia ou
entretenimento.
De repente, a sociedade
brasileira se vê diante do vício em jogos, a ludopatia, entre a terceira idade.
Fenômeno que elevou os índices de depressão, forte ansiedade e ideação suicida,
fazendo com que os atendimentos no SUS por transtornos ligados a jogos e
apostas saltassem cerca de 140% nos últimos anos.
O que quase ninguém vê, ou
prefere não ver, é que o custo dos danos sociais e de saúde gerados pelo
mercado de apostas no Brasil, dentro desse recorte relativo à uma população que
envelhece, o dinheiro que deveria financiar cuidados geriátricos, remédios e
planos de saúde acaba sendo drenado pelas plataformas.
Além disso, considerando que os
idosos frequentemente atuam como provedores ou esteios financeiros de famílias
inteiras no Brasil, o prejuízo causado pelas bets nessa faixa etária
desestrutura a segurança econômica de múltiplas gerações dependentes daquela
aposentadoria.
Portanto, é sobre tudo isso que
precisamos refletir antes de sair falando bobagens aleatórias, por aí. À medida
que o Brasil passa por uma transição demográfica acelerada com o aumento do
número de idosos, a população precisa se debruçar sobre todos os temas que atuam
diretamente sobre as vulnerabilidades financeiras, sociais e psicoemocionais
dessa parcela da população. Não dá para ficar analisando a questão pela
perspectiva do jogar ou não jogar. As camadas são muito mais profundas e
desafiadoras do que isso.
Como escreveu Simone de Beauvoir,
intelectual, filósofa existencialista, ativista política e teórica social
francesa, "O envelhecimento é uma questão de cidadania, mas a sociedade
muitas vezes prefere fechar os olhos para aqueles que construíram o presente”.
Uma verdade dura que, pensada à luz das apostas e jogos online, nos permite entender que o envelhecimento ativo exige cidadania e proteção social, enquanto a desregulação desses pseudoinstrumentos de entretenimento explora a vulnerabilidade cognitiva e financeira dos idosos, transformando uma fase de descanso em risco de exclusão e ruína.
