O perigo
da intencionalidade enganosa
Por Alessandra
Leles Rocha
Nas últimas décadas, certos
aspectos da dinâmica política contemporânea me incomodam e, até mesmo, me enfurecem
na medida em que colaboram para a construção de ideias equivocadas, erráticas,
que nada contribuem para o desenvolvimento e a evolução social.
Assim, esse texto além do propósito
reflexivo, ele tem como eixo de motivação a desconstrução de uma intencionalidade
enganosa que teima circular por aí.
Para início de conversa, depois
de muito observar daqui e dali, cheguei a conclusão de que a política do medo
não se dá necessariamente pela discursividade de certos espectros político-ideológicos.
Não. Infelizmente, os veículos de
comunicação e de informação também têm se mostrado agentes úteis e engajados
nesse processo. De que forma? Quando se permitem restringir suas análises a tal
ponto que desconsideram a própria realidade factual.
Ora, não há como dissociar o que
acontece dentro e fora dos muros de um país. Ainda que muitos não apreciem a
ideia, o mundo é sustentado por uma teia de relações diplomáticas e de comércio
exterior que afetam direta ou indiretamente a dinâmica interna de cada país
envolvido.
Portanto, caro (a) leitor (a), a
prática do avestruz com a cabeça enterrada na terra não traz bons resultados
para as análises. O cenário geopolítico atual não deixa dúvidas, por exemplo,
quanto ao deslocamento de forças e influências ao redor do planeta.
A situação de enfraquecimento e
colapso de certas potências é flagrante, dada a sua incapacidade de acompanhar
o alinhamento do próprio movimento conjuntural que atua como força imperativa
sobre as demandas das relações sociais contemporâneas.
As velhas práxis imperialistas falham
porque não cabem mais dentro da nova realidade. O mundo do século XXI não
precisa de impérios, de tiranos, de exploradores, de corsários.
Ele precisa de parceiros que se respeitem
mutuamente e se desenvolvam cooperativamente a fim de fortalecer o progresso e
a evolução global, sendo capazes de enfrentar conjuntamente as adversidades
socioambientais instaladas, as quais impõem desafios que demandam trabalhar em
conjunto para solucioná-los ou, pelo menos, mitigá-los.
De modo que aqueles que ainda permanecem
apegados ao passado estão caminhando rumo ao colapso, ao declínio, ao fim. O que
significa que apesar de muito rugido, muito blefe, muitos raios e trovões
midiáticos, na prática, eles não estão em condições de afrontar, de perseguir,
de humilhar ou de neocolonializar, absolutamente ninguém.
Na verdade, o mundo está diante
da metáfora do leão desdentado que descreve uma figura que perdeu seu poder
real, força ou capacidade de agir, mantendo apenas a aparência ameaçadora.
Ora, basta um pouco de atenção
para perceber que ele tem um poder de fachada, ou seja, apesar de ostentar uma posição
importante ou um título imponente, na prática ele não tem nenhuma influência ou
capacidade de impor suas decisões.
Trata-se de ameaças vazias, tendo
em vista de que no âmbito jurídico ou político, seja local ou
internacionalmente, a lei de um leão desdentado, ainda que ela exista no papel
e pareça rigorosa, na verdade, não possui mecanismos reais de aplicação, fiscalização
e/ou durabilidade, tornando-se inútil. O que significa que existe uma distância
entre o status que alguém projeta e sua capacidade real de causar impacto ou
impor respeito.
Por isso, esses são tempos em que
o mais importante não é ler as linhas; mas, as entrelinhas, com base
estritamente nos fatos e não nas histórias que se falam sobre eles.
Só assim é possível garantir uma
interpretação própria dos acontecimentos, isenta das percepções, dos achismos e
dos casuísmos alheios.
Outro aspecto irritante é esse FLAxFLU
estabelecido nas pesquisas eleitorais e reverberado pelos veículos de comunicação
e de informação, nacionais e estrangeiros.
De fato a maioria da população
não entende muito bem como se processa metodologicamente uma pesquisa, o que
torna fácil enviesar e manipular a dissecação das informações ao gosto do freguês.
Inclusive, porque toda pesquisa
política possui um contratante e o investimento financeiro sobre essa prestação
de serviços gera expectativas sobre os resultados.
Ocorre que, embora legalizados e
registrados, os levantamentos encomendados por agentes políticos podem, por
vezes, utilizar desenhos amostrais ou formulações de perguntas que apresentam
condições específicas, mesmo cumprindo os requisitos formais da lei.
Às vezes, dados metodologicamente
frágeis ou recortes muito específicos são vazados ou divulgados
estrategicamente para criar uma falsa sensação de atração política, o chamado efeito
manada. Que representa o comportamento em que o eleitor decide o seu voto
seguindo a maioria ou a tendência apontada como vencedora, sem analisar
profundamente as propostas dos candidatos.
Como se vê a aplicação de uma
pesquisa eleitoral é um processo complexo e sensível, sujeito a diversas
variáveis que podem comprometer a precisão dos resultados.
Há fatores que interferem, por
exemplo, na metodologia e na amostragem. Se a amostra não refletir fielmente o
perfil do eleitorado em termos de gênero, idade, escolaridade, renda e região
geográfica, os resultados serão tendenciosos.
Se as amostras forem muito pequenas,
elas aumentam a margem de erro e reduzem a capacidade de detectar nuances,
especialmente em cenários de empate técnico.
Se forem utilizados dados
defasados do Instituto Brasileiro de geografia e Estatística
(IBGE) ou do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para construir as cotas da
população isso pode distorcer a representatividade da
amostra.
Há os fatores operacionais e de
campo, os quais incluem entrevistadores mal treinados que podem induzir
respostas através do tom de voz, postura ou pressa para encerrar o
questionário. A ordem das perguntas ou se forem anunciadas de maneira ambígua e
tendenciosa podem direcionar a escolha do eleitor.
Fatos políticos relevantes,
debates, denúncias ou comerciais de TV que ocorrem durante o período da
pesquisa de campo, também alteram drasticamente as intenções de voto. Do mesmo
modo que a realização de pesquisas apenas em centros comerciais ou em horários
comerciais pode excluir trabalhadores, estudantes ou a população rural.
Sempre ressaltando que o modo de
coleta de dados, seja ele presencial domiciliar/fluxo ou por via telefônica/online
possui vieses intrínsecos. As pesquisas telefônicas costumam sub-representar
classes mais baixas, enquanto as pesquisas online dependem do acesso à internet
e do engajamento voluntário, o que pode excluir faixas mais velhas da
população.
Mas, todos esses parâmetros não excluem
a importância fundamental dos fatores comportamentais em relação ao eleitor. Sim,
temos que pensar no voto envergonhado ou socialmente excluído, no qual o
eleitor pode omitir seu voto real ou mentiroso para o pesquisador por medo de
julgamento social, especialmente em ambientes polarizados.
No voto indeciso, tendo em vista
de que muitos eleitores definem o voto apenas nos dias ou horas que antecedem o
pleito, fazendo com que a pesquisa reflita apenas o retrato do momento e não o
resultado final. Situação que também inclui a taxa de recusa, que representa um
alto índice de participantes que se recusam a responder à pesquisa por
diferentes justificativas.
Aí, diante da falta de
alfabetização estatística de boa parte da população, muitos veículos de
comunicação ou influenciadores digitais priorizam o clickbait 1 a fim de que a informação seja lapidada para
confirmar narrativas prévias, gerando desinformação.
Haja vista que muitas manchetes
anunciam que um candidato passou o outro, quando, na verdade, a diferença está
dentro da margem de erro, o que significa que o cenário real é de empate.
Entretanto, quanto ao percentual
de indecisos e de votos brancos e nulos, que é fundamental nas pesquisas
eleitorais porque define o potencial de crescimento dos candidatos e altera a
base de cálculo dos votos válidos, esses são apontados de maneira desimportante
nas análises.
Acontece que os indecisos representam
o principal reservatório de votos em aberto para campanhas em reta final. Eles podem
definir a vitória no primeiro turno ou reverter empates técnicos se migrarem em
massa para um único candidato. Tanto que suas oscilações indicam quando
eleitores abandonam candidaturas e passam a aguardar novas alternativas.
Já os brancos e nulos, eles não
são computados pela Justiça Eleitoral, o que diminui o total absoluto
necessário para um candidato alcançar a maioria absoluta, ou seja, 50% mais um
dos votos válidos. Além disso, eles ajudam a medir a insatisfação ou a rejeição
generalizada do eleitorado com todas as opções postas na disputa.
Por essas e outras, lembre-se de
que a análise do alinhamento entre os veículos de comunicação e de informação e
os contratantes das pesquisas eleitorais é um passo fundamental para se compreender
os bastidores da política de cobertura eleitoral.
Esse cruzamento ajuda não só a
identificar potenciais interesses comerciais e/ou ideológicos mútuos, como,
também, a apontar para um alinhamento geopolítico internacional, na medida em
que a cobertura eleitoral e as pesquisas de opinião não impactam apenas a
política interna, mas também definem como uma nação se posicionará globalmente
em termos de alianças estratégicas, acordos comerciais e soberania.
Afinal de contas, os cruzamentos
entre quem financia, quem divulga e quais narrativas são validadas por
pesquisas internacionais ou locais.
Nesse contexto, os veículos de
comunicação e institutos de pesquisa financiados ou alinhados a laboratórios de
ideias, Organizações Não-Governamentais (ONGs) ou conglomerados estrangeiros
costumam moldar a opinião pública para favorecer candidatos que defendem pautas
políticas do seu interesse.
De modo que as pesquisas
eleitorais ajudam a construir uma narrativa de risco de mercado ou de estabilidade,
influenciando o voto para proteger esses capitais internacionais.
O que leva, por exemplo, certas potências
estrangeiras utilizarem a mídia e os dados estatísticos para construir a imagem
de certos candidatos como democráticos ou autoritários, reformistas ou populistas,
para que esse enquadramento molde a percepção da comunidade internacional e possa
eventualmente antecipar o isolamento diplomático ou a recepção calorosa de um
futuro governo.
Assim, as agências externas ou
governos estrangeiros têm utilizado canais de mídia parceiros para inflar
candidaturas homologadas a seus interesses econômicos e militares. Da mesma
forma, trabalhando para desidratar ou criminalizar candidatos que defendam a
soberania nacional ou uma postura de neutralidade.
Diante de todas essas questões é
que a propagação coordenada de notícias serve para moldar a percepção pública,
com o objetivo de fazer com que a população veja a potência externa não como
uma força invasora ou imperialista, mas sim como um aliado estratégico seguro e
necessário para a estabilidade regional.
Então, ao buscar garantir a
vitória de um líder subserviente ou fortemente alinhado, as potências externas
garantem que o país continue operando como uma mera extensão de seus
territórios.
1 Conteúdo
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