sábado, 19 de setembro de 2026

O perigo da intencionalidade enganosa


O perigo da intencionalidade enganosa

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Nas últimas décadas, certos aspectos da dinâmica política contemporânea me incomodam e, até mesmo, me enfurecem na medida em que colaboram para a construção de ideias equivocadas, erráticas, que nada contribuem para o desenvolvimento e a evolução social.

Assim, esse texto além do propósito reflexivo, ele tem como eixo de motivação a desconstrução de uma intencionalidade enganosa que teima circular por aí.

Para início de conversa, depois de muito observar daqui e dali, cheguei a conclusão de que a política do medo não se dá necessariamente pela discursividade de certos espectros político-ideológicos.

Não. Infelizmente, os veículos de comunicação e de informação também têm se mostrado agentes úteis e engajados nesse processo. De que forma? Quando se permitem restringir suas análises a tal ponto que desconsideram a própria realidade factual.

Ora, não há como dissociar o que acontece dentro e fora dos muros de um país. Ainda que muitos não apreciem a ideia, o mundo é sustentado por uma teia de relações diplomáticas e de comércio exterior que afetam direta ou indiretamente a dinâmica interna de cada país envolvido.

Portanto, caro (a) leitor (a), a prática do avestruz com a cabeça enterrada na terra não traz bons resultados para as análises. O cenário geopolítico atual não deixa dúvidas, por exemplo, quanto ao deslocamento de forças e influências ao redor do planeta.

A situação de enfraquecimento e colapso de certas potências é flagrante, dada a sua incapacidade de acompanhar o alinhamento do próprio movimento conjuntural que atua como força imperativa sobre as demandas das relações sociais contemporâneas.

As velhas práxis imperialistas falham porque não cabem mais dentro da nova realidade. O mundo do século XXI não precisa de impérios, de tiranos, de exploradores, de corsários.

Ele precisa de parceiros que se respeitem mutuamente e se desenvolvam cooperativamente a fim de fortalecer o progresso e a evolução global, sendo capazes de enfrentar conjuntamente as adversidades socioambientais instaladas, as quais impõem desafios que demandam trabalhar em conjunto para solucioná-los ou, pelo menos, mitigá-los.

De modo que aqueles que ainda permanecem apegados ao passado estão caminhando rumo ao colapso, ao declínio, ao fim. O que significa que apesar de muito rugido, muito blefe, muitos raios e trovões midiáticos, na prática, eles não estão em condições de afrontar, de perseguir, de humilhar ou de neocolonializar, absolutamente ninguém.

Na verdade, o mundo está diante da metáfora do leão desdentado que descreve uma figura que perdeu seu poder real, força ou capacidade de agir, mantendo apenas a aparência ameaçadora.

Ora, basta um pouco de atenção para perceber que ele tem um poder de fachada, ou seja, apesar de ostentar uma posição importante ou um título imponente, na prática ele não tem nenhuma influência ou capacidade de impor suas decisões.

Trata-se de ameaças vazias, tendo em vista de que no âmbito jurídico ou político, seja local ou internacionalmente, a lei de um leão desdentado, ainda que ela exista no papel e pareça rigorosa, na verdade, não possui mecanismos reais de aplicação, fiscalização e/ou durabilidade, tornando-se inútil. O que significa que existe uma distância entre o status que alguém projeta e sua capacidade real de causar impacto ou impor respeito.

Por isso, esses são tempos em que o mais importante não é ler as linhas; mas, as entrelinhas, com base estritamente nos fatos e não nas histórias que se falam sobre eles.

Só assim é possível garantir uma interpretação própria dos acontecimentos, isenta das percepções, dos achismos e dos casuísmos alheios.

Outro aspecto irritante é esse FLAxFLU estabelecido nas pesquisas eleitorais e reverberado pelos veículos de comunicação e de informação, nacionais e estrangeiros.  

De fato a maioria da população não entende muito bem como se processa metodologicamente uma pesquisa, o que torna fácil enviesar e manipular a dissecação das informações ao gosto do freguês.

Inclusive, porque toda pesquisa política possui um contratante e o investimento financeiro sobre essa prestação de serviços gera expectativas sobre os resultados.

Ocorre que, embora legalizados e registrados, os levantamentos encomendados por agentes políticos podem, por vezes, utilizar desenhos amostrais ou formulações de perguntas que apresentam condições específicas, mesmo cumprindo os requisitos formais da lei.

Às vezes, dados metodologicamente frágeis ou recortes muito específicos são vazados ou divulgados estrategicamente para criar uma falsa sensação de atração política, o chamado efeito manada. Que representa o comportamento em que o eleitor decide o seu voto seguindo a maioria ou a tendência apontada como vencedora, sem analisar profundamente as propostas dos candidatos.

Como se vê a aplicação de uma pesquisa eleitoral é um processo complexo e sensível, sujeito a diversas variáveis ​​que podem comprometer a precisão dos resultados.

Há fatores que interferem, por exemplo, na metodologia e na amostragem. Se a amostra não refletir fielmente o perfil do eleitorado em termos de gênero, idade, escolaridade, renda e região geográfica, os resultados serão tendenciosos.

Se as amostras forem muito pequenas, elas aumentam a margem de erro e reduzem a capacidade de detectar nuances, especialmente em cenários de empate técnico.

Se forem utilizados dados defasados ​​do Instituto Brasileiro de geografia e Estatística (IBGE) ou do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para construir as cotas da população isso pode distorcer a representatividade da amostra.

Há os fatores operacionais e de campo, os quais incluem entrevistadores mal treinados que podem induzir respostas através do tom de voz, postura ou pressa para encerrar o questionário. A ordem das perguntas ou se forem anunciadas de maneira ambígua e tendenciosa podem direcionar a escolha do eleitor.

Fatos políticos relevantes, debates, denúncias ou comerciais de TV que ocorrem durante o período da pesquisa de campo, também alteram drasticamente as intenções de voto. Do mesmo modo que a realização de pesquisas apenas em centros comerciais ou em horários comerciais pode excluir trabalhadores, estudantes ou a população rural.

Sempre ressaltando que o modo de coleta de dados, seja ele presencial domiciliar/fluxo ou por via telefônica/online possui vieses intrínsecos. As pesquisas telefônicas costumam sub-representar classes mais baixas, enquanto as pesquisas online dependem do acesso à internet e do engajamento voluntário, o que pode excluir faixas mais velhas da população.

Mas, todos esses parâmetros não excluem a importância fundamental dos fatores comportamentais em relação ao eleitor. Sim, temos que pensar no voto envergonhado ou socialmente excluído, no qual o eleitor pode omitir seu voto real ou mentiroso para o pesquisador por medo de julgamento social, especialmente em ambientes polarizados.

No voto indeciso, tendo em vista de que muitos eleitores definem o voto apenas nos dias ou horas que antecedem o pleito, fazendo com que a pesquisa reflita apenas o retrato do momento e não o resultado final. Situação que também inclui a taxa de recusa, que representa um alto índice de participantes que se recusam a responder à pesquisa por diferentes justificativas.

Aí, diante da falta de alfabetização estatística de boa parte da população, muitos veículos de comunicação ou influenciadores digitais priorizam o clickbait 1 a fim de que a informação seja lapidada para confirmar narrativas prévias, gerando desinformação.

Haja vista que muitas manchetes anunciam que um candidato passou o outro, quando, na verdade, a diferença está dentro da margem de erro, o que significa que o cenário real é de empate.

Entretanto, quanto ao percentual de indecisos e de votos brancos e nulos, que é fundamental nas pesquisas eleitorais porque define o potencial de crescimento dos candidatos e altera a base de cálculo dos votos válidos, esses são apontados de maneira desimportante nas análises.

Acontece que os indecisos representam o principal reservatório de votos em aberto para campanhas em reta final. Eles podem definir a vitória no primeiro turno ou reverter empates técnicos se migrarem em massa para um único candidato. Tanto que suas oscilações indicam quando eleitores abandonam candidaturas e passam a aguardar novas alternativas.

Já os brancos e nulos, eles não são computados pela Justiça Eleitoral, o que diminui o total absoluto necessário para um candidato alcançar a maioria absoluta, ou seja, 50% mais um dos votos válidos. Além disso, eles ajudam a medir a insatisfação ou a rejeição generalizada do eleitorado com todas as opções postas na disputa.

Por essas e outras, lembre-se de que a análise do alinhamento entre os veículos de comunicação e de informação e os contratantes das pesquisas eleitorais é um passo fundamental para se compreender os bastidores da política de cobertura eleitoral.

Esse cruzamento ajuda não só a identificar potenciais interesses comerciais e/ou ideológicos mútuos, como, também, a apontar para um alinhamento geopolítico internacional, na medida em que a cobertura eleitoral e as pesquisas de opinião não impactam apenas a política interna, mas também definem como uma nação se posicionará globalmente em termos de alianças estratégicas, acordos comerciais e soberania.

Afinal de contas, os cruzamentos entre quem financia, quem divulga e quais narrativas são validadas por pesquisas internacionais ou locais.

Nesse contexto, os veículos de comunicação e institutos de pesquisa financiados ou alinhados a laboratórios de ideias, Organizações Não-Governamentais (ONGs) ou conglomerados estrangeiros costumam moldar a opinião pública para favorecer candidatos que defendem pautas políticas do seu interesse.

De modo que as pesquisas eleitorais ajudam a construir uma narrativa de risco de mercado ou de estabilidade, influenciando o voto para proteger esses capitais internacionais.

O que leva, por exemplo, certas potências estrangeiras utilizarem a mídia e os dados estatísticos para construir a imagem de certos candidatos como democráticos ou autoritários, reformistas ou populistas, para que esse enquadramento molde a percepção da comunidade internacional e possa eventualmente antecipar o isolamento diplomático ou a recepção calorosa de um futuro governo.  

Assim, as agências externas ou governos estrangeiros têm utilizado canais de mídia parceiros para inflar candidaturas homologadas a seus interesses econômicos e militares. Da mesma forma, trabalhando para desidratar ou criminalizar candidatos que defendam a soberania nacional ou uma postura de neutralidade.

Diante de todas essas questões é que a propagação coordenada de notícias serve para moldar a percepção pública, com o objetivo de fazer com que a população veja a potência externa não como uma força invasora ou imperialista, mas sim como um aliado estratégico seguro e necessário para a estabilidade regional.

Então, ao buscar garantir a vitória de um líder subserviente ou fortemente alinhado, as potências externas garantem que o país continue operando como uma mera extensão de seus territórios.



1 Conteúdo de internet com um título ou imagem exagerada, sensacionalista ou incompleta, cujo objetivo principal é atrair o usuário a clicar em um link.