A
política do medo
Por
Alessandra Leles Rocha
A política do medo na
contemporaneidade atua como uma estratégia de governança e manipulação da
opinião pública, onde o medo é utilizado por líderes políticos, governos e
grupos de interesse para centralizar o poder, angariar votos e justificar
medidas de exceção. Mas, há um aspecto a se levar em consideração que é a
política do medo exercida por agentes externos.
EUA e a Austrália anunciaram,
hoje, o fechamento de seus consulados no Brasil por questão de segurança, por
exemplo. Estabelecer uma tensão, um clima de insegurança e medo, às vésperas do
pleito eleitoral no Brasil é sim uma forma de ingerência e de manipulação social
tendenciosa.
Não se trata de quaisquer teorias
da conspiração. Veículos de mídia com linhas editoriais críticas à política
externa de Washington, bem como acadêmicos de relações internacionais, vêm apontando
que o governo dos EUA tem utilizado mecanismos diplomáticos, sanções
econômicas, financiamento de organizações não governamentais (ONGs) e apoio a
grupos de oposição para influenciar desfechos políticos que alinhem certos
países aos seus interesses estratégicos e econômicos.
Isso se dá principalmente pelo
exercício e instrumentalização da política do medo. Reportagens de veículos estrangeiros
de grande relevância têm repercutido as preocupações de autoridades brasileiras
e estadunidenses sobre as ações da atual administração de Washington na América
Latina. O que já incluiu medidas diplomáticas e econômicas, tais como a
aplicação de sanções, restrição de vistos e tarifas, são utilizadas de forma
estratégica para exercer pressão política e favorecer determinadas candidaturas.
Mas, o ponto principal está no
risco do uso coordenado de redes sociais, algoritmos e ferramentas de
inteligência artificial para espalhar narrativas que manipulam o sentimento do
eleitorado, gerando desconfiança nas instituições democráticas. Afinal de
contas, é de conhecimento público geral que há uma flagrante aproximação com os
EUA, que se alinha contra o avanço de agendas progressistas na América a partir
de uma discursividade pautada no medo para persuadir eleitores.
Acontece que a política do medo
trabalha na fragilização e no esgarçamento da democracia, da soberania e da
identidade nacional. O medo transforma adversários políticos em inimigos
existenciais, reduzindo o espaço para o diálogo e o consenso. Permitindo que as
populações sob forte sentimento dessa ameaça tendam a aceitar a centralização
do poder e a perda de freios e contrapesos em troca de uma promessa de
segurança.
É nesse contexto que a soberania
muitas vezes é relativizada quando o medo é usado para justificar o alinhamento
cego a blocos geopolíticos. Assim, tanto os discursos de pânico econômico ou de
vulnerabilidade militar podem levar um país a assinar acordos desvantajosos ou
a se submeter à influência de potências estrangeiras em troca de estabilidade
aparente, quanto o receio de crises severas pode ser utilizado para justificar
a entrega apressada de setores estratégicos e riquezas nacionais, enfraquecendo
a capacidade de autodeterminação do Estado.
Por essas e outras, sociedades
que operam sob o signo do medo tendem a trocar a liberdade pela promessa de
segurança, a partir de um movimento que historicamente fragiliza os laços
democráticos e soberanos. Além de destruir o tecido social e a verdadeira
riqueza da identidade de um país, substituindo-a por um nacionalismo defensivo,
excludente e intolerante.
Lembre-se das palavras de Platão, filósofo grego da Antiguidade, “Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz”. Isso significa que a política do medo tenta infantilizar os cidadãos, fazendo-os abrir mão da própria racionalidade e aceitarem a servidão voluntária por medo de enfrentar a realidade de peito aberto.
