sexta-feira, 2 de outubro de 2026

A política do medo


A política do medo

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

A política do medo na contemporaneidade atua como uma estratégia de governança e manipulação da opinião pública, onde o medo é utilizado por líderes políticos, governos e grupos de interesse para centralizar o poder, angariar votos e justificar medidas de exceção. Mas, há um aspecto a se levar em consideração que é a política do medo exercida por agentes externos.

EUA e a Austrália anunciaram, hoje, o fechamento de seus consulados no Brasil por questão de segurança, por exemplo. Estabelecer uma tensão, um clima de insegurança e medo, às vésperas do pleito eleitoral no Brasil é sim uma forma de ingerência e de manipulação social tendenciosa.

Não se trata de quaisquer teorias da conspiração. Veículos de mídia com linhas editoriais críticas à política externa de Washington, bem como acadêmicos de relações internacionais, vêm apontando que o governo dos EUA tem utilizado mecanismos diplomáticos, sanções econômicas, financiamento de organizações não governamentais (ONGs) e apoio a grupos de oposição para influenciar desfechos políticos que alinhem certos países aos seus interesses estratégicos e econômicos.

Isso se dá principalmente pelo exercício e instrumentalização da política do medo. Reportagens de veículos estrangeiros de grande relevância têm repercutido as preocupações de autoridades brasileiras e estadunidenses sobre as ações da atual administração de Washington na América Latina. O que já incluiu medidas diplomáticas e econômicas, tais como a aplicação de sanções, restrição de vistos e tarifas, são utilizadas de forma estratégica para exercer pressão política e favorecer determinadas candidaturas.

Mas, o ponto principal está no risco do uso coordenado de redes sociais, algoritmos e ferramentas de inteligência artificial para espalhar narrativas que manipulam o sentimento do eleitorado, gerando desconfiança nas instituições democráticas. Afinal de contas, é de conhecimento público geral que há uma flagrante aproximação com os EUA, que se alinha contra o avanço de agendas progressistas na América a partir de uma discursividade pautada no medo para persuadir eleitores.

Acontece que a política do medo trabalha na fragilização e no esgarçamento da democracia, da soberania e da identidade nacional. O medo transforma adversários políticos em inimigos existenciais, reduzindo o espaço para o diálogo e o consenso. Permitindo que as populações sob forte sentimento dessa ameaça tendam a aceitar a centralização do poder e a perda de freios e contrapesos em troca de uma promessa de segurança.

É nesse contexto que a soberania muitas vezes é relativizada quando o medo é usado para justificar o alinhamento cego a blocos geopolíticos. Assim, tanto os discursos de pânico econômico ou de vulnerabilidade militar podem levar um país a assinar acordos desvantajosos ou a se submeter à influência de potências estrangeiras em troca de estabilidade aparente, quanto o receio de crises severas pode ser utilizado para justificar a entrega apressada de setores estratégicos e riquezas nacionais, enfraquecendo a capacidade de autodeterminação do Estado.

Por essas e outras, sociedades que operam sob o signo do medo tendem a trocar a liberdade pela promessa de segurança, a partir de um movimento que historicamente fragiliza os laços democráticos e soberanos. Além de destruir o tecido social e a verdadeira riqueza da identidade de um país, substituindo-a por um nacionalismo defensivo, excludente e intolerante.

Lembre-se das palavras de Platão, filósofo grego da Antiguidade, “Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz”. Isso significa que a política do medo tenta infantilizar os cidadãos, fazendo-os abrir mão da própria racionalidade e aceitarem a servidão voluntária por medo de enfrentar a realidade de peito aberto.