Os
impérios de mídia e comunicação
Por Alessandra
Leles Rocha
À revelia da vontade de uns e
outros, por aí, o tempo não para na sua saga de metamorfose. Pensamentos,
hábitos, costumes, quereres, vontades, ... são recortados e atravessados pela dinâmica
contínua da vida. O que explica a necessidade de prestar atenção e se permitir
abraçar as mudanças de cenário trazidas pela força das conjunturas.
Quando esses processos são
acompanhados no seu fluxo, a ideia da surpresa se dissipa, tornando-se
naturalizada. Mas, não é isso que temos visto em relação aos impérios de mídia
e comunicação. Ais e uis surgem a todo instante, como se a perplexidade tivesse
mesmo um lugar a ocupar.
De repente, pairou no ar a
sensação de que esses impérios estão, cada vez mais, incapazes de esconder ou
ofuscar a sua decadência, o seu declínio. A força conjuntural contemporânea se impõe
de tal forma que esse movimento ocorre devido a um fenômeno histórico conhecido
como a destruição criativa da tecnologia e a fragmentação do público. Quando a
tecnologia muda se inicia o ciclo de declínio das lideranças tradicionais.
Bem, por décadas, o modelo de
negócios dessas corporações baseou-se no monopólio da informação,
permitindo-lhes moldar os rumos políticos e econômicos de nações inteiras.
Tradicionalmente, as grandes
redes de TV, rádio e jornais impressos decidiam o que era debatido publicamente,
filtrando a realidade, de modo a marginalizar as pautas da cidadania popular
para proteger interesses de elites econômicas.
Assim, a perda do monopólio dessa
agenda deu o pontapé inicial para o processo que está em curso. Não há como
negar que durante décadas, a capacidade de induzir crises políticas, inflar ou
destruir candidaturas e chancelar regimes autoritários, por exemplo, gerou um
passivo de desconfiança que desaguou na atual crise de credibilidade.
Afinal, eis que o surgimento e a ampla
disseminação da internet e das redes sociais permitiram que a cidadania popular
produzisse e distribuísse seu próprio conteúdo. A comunicação, antes
unidirecional, de repente, tornou-se multidirecional.
De modo que os movimentos sociais
e a população em geral passaram a identificar os vieses corporativos da velha e
tradicional mídia, buscando fontes alternativas ou independentes de informação.
Além disso, a migração da
publicidade para as plataformas de tecnologia asfixiou financeiramente os
impérios de mídia e comunicação, forçando demissões em massa e o fechamento de muitos
desses veículos.
Ao menos em tese, o declínio dos
impérios de mídia e comunicação redesenhou a disputa pelo poder, transferindo o
eixo do controle editorial das redações tradicionais para a arquitetura
invisível dos algoritmos das plataformas digitais.
Digo isso, porque muitos deles
ainda insistem em velhas práxis desalinhadas às demandas e à realidade atual. Haja
vista, o modelo de debates eleitorais entre os pretensos candidatos aos cargos
representativos nacionais.
Não, não há como negar que o
modelo atual de debate na TV se mostra engessado, com tempos rigidamente
cronometrados, favorecendo respostas ensaiadas, frases de efeito e ataques
pessoais em detrimento de uma discussão profunda de propostas, assemelhando-se a
um fóssil analógico que tenta sobreviver na era do imediatismo digital.
Também há de se falar sobre a
parcialidade ou o tom das perguntas feitas por jornalistas, de diferentes veículos
de mídia e comunicação. É fácil perceber insinuações acusatórias ou escolha de
temas tendenciosos, além de uma condução das regras que favorece ou prejudica
determinados candidatos.
Tudo isso, à luz da
contemporaneidade, evidencia com bastante propriedade que esse formato engaja
menos o público jovem, acostumado à dinâmica das redes sociais.
Sem contar que muitas vezes, essa
estratégia tende a privilegiar a criação de recortes para a internet, com frases
de efeito em detrimento de um debate profundo de propostas.
Algo que torna esse padrão ineficaz
para o seu propósito original, que seria debater ideias e propostas para o
desenvolvimento e o progresso do país e sua população.
De modo que a espetacularização
do debate eleitoral em detrimento do conteúdo programático, no fim das contas,
revela em cores fortes o declínio dos impérios de mídia e comunicação, a partir
de uma crise de hegemonia no ecossistema de comunicação, com impactos profundos,
inclusive no Brasil.
Agora, a comunicação está pulverizada
por plataformas digitais e redes sociais. Nesses novos espaços de comunicação e
dialogia, o algoritmo privilegia o conflito, a indignação e o espetáculo, em
forma de recorte rápido, de lacração, de meme.
Afinal, essas reações geram mais
tempo de tela, de interações e de monetização. Portanto, o conteúdo programático que exige
nuance, tempo e dados, acaba naturalmente desfavorecido por essa estrutura
técnica.
Desse modo, enquanto os
conglomerados tradicionais de comunicação enfrentam dificuldades financeiras e
perda de audiência, as Big Techs tornam-se os novos impérios de mídia, moldando
o debate eleitoral sem as amarras regulatórias ou o compromisso editorial que,
teoricamente, balizavam a imprensa tradicional.
Sim, estamos diante também do
declínio da qualidade deliberativa da democracia, impulsionado por um modelo de
negócios tecnológico que lucra com o espetáculo e a polarização. Reconhecer esse
processo é, portanto, fundamental.
Tentar criar bodes expiatórios para
justificar o que não se quer admitir só piora a situação. Por mais que a pós-verdade
esteja circulando por aí, a verdade sempre prevalece e se impõe; sobretudo, em
momentos cruciais, decisivos.
Essa busca por culpados
simplistas serve apenas como uma cortina de fumaça para evitar a autocrítica e
o reconhecimento de falhas estruturais na sua própria capacidade de conduzir a
realidade.
Assim, a decadência institucional
e a profunda crise ética, moral e profissional vêm destruindo sistematicamente
a audiência, a credibilidade e a confiança do público nos grandes impérios de
mídia e comunicação.
Quando o compromisso com a
verdade é substituído por interesses políticos ou econômicos, o jornalismo
perde sua função social essencial e se transforma em mera propaganda, afastando
o cidadão comum.
O que significa que essa ruptura de confiança só faz gerar uma fragmentação do debate público, onde a audiência busca alternativas fora dos canais tradicionais para tentar encontrar isenção.
