sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Os impérios de mídia e comunicação


Os impérios de mídia e comunicação

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

À revelia da vontade de uns e outros, por aí, o tempo não para na sua saga de metamorfose. Pensamentos, hábitos, costumes, quereres, vontades, ... são recortados e atravessados pela dinâmica contínua da vida. O que explica a necessidade de prestar atenção e se permitir abraçar as mudanças de cenário trazidas pela força das conjunturas.

Quando esses processos são acompanhados no seu fluxo, a ideia da surpresa se dissipa, tornando-se naturalizada. Mas, não é isso que temos visto em relação aos impérios de mídia e comunicação. Ais e uis surgem a todo instante, como se a perplexidade tivesse mesmo um lugar a ocupar.

De repente, pairou no ar a sensação de que esses impérios estão, cada vez mais, incapazes de esconder ou ofuscar a sua decadência, o seu declínio. A força conjuntural contemporânea se impõe de tal forma que esse movimento ocorre devido a um fenômeno histórico conhecido como a destruição criativa da tecnologia e a fragmentação do público. Quando a tecnologia muda se inicia o ciclo de declínio das lideranças tradicionais.

Bem, por décadas, o modelo de negócios dessas corporações baseou-se no monopólio da informação, permitindo-lhes moldar os rumos políticos e econômicos de nações inteiras.

Tradicionalmente, as grandes redes de TV, rádio e jornais impressos decidiam o que era debatido publicamente, filtrando a realidade, de modo a marginalizar as pautas da cidadania popular para proteger interesses de elites econômicas.

Assim, a perda do monopólio dessa agenda deu o pontapé inicial para o processo que está em curso. Não há como negar que durante décadas, a capacidade de induzir crises políticas, inflar ou destruir candidaturas e chancelar regimes autoritários, por exemplo, gerou um passivo de desconfiança que desaguou na atual crise de credibilidade.

Afinal, eis que o surgimento e a ampla disseminação da internet e das redes sociais permitiram que a cidadania popular produzisse e distribuísse seu próprio conteúdo. A comunicação, antes unidirecional, de repente, tornou-se multidirecional.

De modo que os movimentos sociais e a população em geral passaram a identificar os vieses corporativos da velha e tradicional mídia, buscando fontes alternativas ou independentes de informação.

Além disso, a migração da publicidade para as plataformas de tecnologia asfixiou financeiramente os impérios de mídia e comunicação, forçando demissões em massa e o fechamento de muitos desses veículos.

Ao menos em tese, o declínio dos impérios de mídia e comunicação redesenhou a disputa pelo poder, transferindo o eixo do controle editorial das redações tradicionais para a arquitetura invisível dos algoritmos das plataformas digitais.

Digo isso, porque muitos deles ainda insistem em velhas práxis desalinhadas às demandas e à realidade atual. Haja vista, o modelo de debates eleitorais entre os pretensos candidatos aos cargos representativos nacionais.  

Não, não há como negar que o modelo atual de debate na TV se mostra engessado, com tempos rigidamente cronometrados, favorecendo respostas ensaiadas, frases de efeito e ataques pessoais em detrimento de uma discussão profunda de propostas, assemelhando-se a um fóssil analógico que tenta sobreviver na era do imediatismo digital.

Também há de se falar sobre a parcialidade ou o tom das perguntas feitas por jornalistas, de diferentes veículos de mídia e comunicação. É fácil perceber insinuações acusatórias ou escolha de temas tendenciosos, além de uma condução das regras que favorece ou prejudica determinados candidatos.

Tudo isso, à luz da contemporaneidade, evidencia com bastante propriedade que esse formato engaja menos o público jovem, acostumado à dinâmica das redes sociais.

Sem contar que muitas vezes, essa estratégia tende a privilegiar a criação de recortes para a internet, com frases de efeito em detrimento de um debate profundo de propostas.

Algo que torna esse padrão ineficaz para o seu propósito original, que seria debater ideias e propostas para o desenvolvimento e o progresso do país e sua população.

De modo que a espetacularização do debate eleitoral em detrimento do conteúdo programático, no fim das contas, revela em cores fortes o declínio dos impérios de mídia e comunicação, a partir de uma crise de hegemonia no ecossistema de comunicação, com impactos profundos, inclusive no Brasil.

Agora, a comunicação está pulverizada por plataformas digitais e redes sociais. Nesses novos espaços de comunicação e dialogia, o algoritmo privilegia o conflito, a indignação e o espetáculo, em forma de recorte rápido, de lacração, de meme.

Afinal, essas reações geram mais tempo de tela, de interações e de monetização.  Portanto, o conteúdo programático que exige nuance, tempo e dados, acaba naturalmente desfavorecido por essa estrutura técnica.

Desse modo, enquanto os conglomerados tradicionais de comunicação enfrentam dificuldades financeiras e perda de audiência, as Big Techs tornam-se os novos impérios de mídia, moldando o debate eleitoral sem as amarras regulatórias ou o compromisso editorial que, teoricamente, balizavam a imprensa tradicional.

Sim, estamos diante também do declínio da qualidade deliberativa da democracia, impulsionado por um modelo de negócios tecnológico que lucra com o espetáculo e a polarização. Reconhecer esse processo é, portanto, fundamental.

Tentar criar bodes expiatórios para justificar o que não se quer admitir só piora a situação. Por mais que a pós-verdade esteja circulando por aí, a verdade sempre prevalece e se impõe; sobretudo, em momentos cruciais, decisivos.

Essa busca por culpados simplistas serve apenas como uma cortina de fumaça para evitar a autocrítica e o reconhecimento de falhas estruturais na sua própria capacidade de conduzir a realidade.

Assim, a decadência institucional e a profunda crise ética, moral e profissional vêm destruindo sistematicamente a audiência, a credibilidade e a confiança do público nos grandes impérios de mídia e comunicação.

Quando o compromisso com a verdade é substituído por interesses políticos ou econômicos, o jornalismo perde sua função social essencial e se transforma em mera propaganda, afastando o cidadão comum.

O que significa que essa ruptura de confiança só faz gerar uma fragmentação do debate público, onde a audiência busca alternativas fora dos canais tradicionais para tentar encontrar isenção.