O dia da (in)dependência
Por Alessandra
Leles Rocha
Como dizem, por aí, “Algo de
errado não está certo”. Ontem, foi 7 de setembro. Feriado nacional do Dia
da Independência do Brasil. Mas, em plena avenida Paulista, na cidade de São Paulo/SP,
o que se viu não foi civismo e nem tampouco civilidade.
Ainda que exercendo o direito legítimo
de manifestação pública, garantido pelo artigo 5º, inciso XVI, da Constituição
Federal, que assegura a todos se reunir pacificamente e sem armas em locais
abertos ao público, aproximadamente 28.000 pessoas estiveram juntas para
destilar seu ódio político e institucional em relação a certas figuras nacionais.
Munidos (as) de bandeiras do
Brasil, de Israel e dos EUA, vociferaram em alto e bom som a sua ira incontida,
deixando-se levar pelas tendenciosidades de ocasião. O que significa que esses “patriotas
de plantão” fizeram do 7 de setembro, na verdade, uma manifestação de
antipatriotismo em estado puro, indicando total ausência de sentimento de dever
ou lealdade à nação.
Por isso, o ponto nevrálgico dessa
reflexão é o impacto do discurso e das ideias na esfera pública. Afinal, o antipatriotismo
é mais do que um ato concreto, o pior dele é dar publicidade a certos tipos de
crenças, valores e princípios, os quais historicamente deixaram um rastro de
problemas sociais que reverberam ainda hoje.
De modo que parece haver uma normalização
desses discursos, sem que na maioria das vezes exista, de fato, uma fundamentação
argumentativa factual capaz de sustentar as opiniões dessas pessoas.
Veja, a repetição constante de
certas ideias no espaço público tende a fazer com que discursos antes
considerados marginais passem a ser aceitos como senso comum. Simplesmente,
porque o questionamento mediante a ausência de dados concretos favorece aos
debates ideológicos que priorizam a retórica emocional em detrimento de
evidências históricas ou científicas.
Algo que, com a hábil
contribuição da internet e das redes sociais, facilita a propagação de visões
de mundo que se autojustificam, muitas vezes, sem passar pela crítica do
contraditório ou da verificação factual.
E esse é um ponto fundamental,
porque em um ambiente onde o indivíduo está exposto predominantemente a
opiniões semelhantes às suas, essa dinâmica cria a ilusão de que a sua visão de
mundo é um consenso geral, enfraquecendo o contato com o contraditório.
Razão pela qual, está cada vez
mais comum observar que uma opinião contrária quando consegue romper a bolha,
ela muitas vezes não é recebida como um convite ao debate, mas sim como uma
ameaça ou um ataque pessoal, gerando cancelamentos ou hostilidades.
O que explica, por exemplo,
porque a pós-verdade e a cultura do cancelamento transformaram as redes sociais
em verdadeiros tribunais virtuais. Afinal, nesses ambientes, a velocidade do
compartilhamento e o apelo emocional superam os fatos e a busca pela verdade.
De modo que, pensando à luz das
recentes manifestações antipatrióticas, fica fácil perceber como esse
comportamento se transfere para o mundo real.
Nesse sentido, a interseção entre
a pós-verdade, a cultura do cancelamento e a transposição desses comportamentos
para o mundo real evidencia como as plataformas digitais deixaram de ser apenas
espelhos da sociedade para se tornarem resultados de ações concretas.
A tal ponto de permitir se
materializar em ações físicas de hostilidade, de intolerância, em ocupações de
espaços públicos, onde a validação do grupo substitui a verdade jurídica ou
factual.
Não nos esqueçamos de que, historicamente,
a interseção entre a pós-verdade, a cultura do cancelamento e a materialização
digital em ações físicas gera prejuízos profundos e sistêmicos para a
civilização.
Começando pela erosão do Estado
de Direito e do devido processo legal, que abre os caminhos para a fragmentação
do tecido social e a polarização extrema, possibilitando que a verdade deixe de
ser um ponto de convergência comum.
O que vem a seguir é a autocensura
e a asfixia do debate intelectual; pois, o medo do cancelamento transposto para
o mundo real gera um efeito silenciador. Inclusive, em relação ao próprio debate
técnico e científico que é sufocado pela narrativa que gera mais engajamento ou
validação tribal dentro e fora das redes.
Portanto, o grande prejuízo histórico é a substituição da verdade institucional pela força do bando, em que as ações físicas e midiáticas de intolerância são celebradas como virtudes morais pelo grupo que se considera dominante.
