sábado, 10 de outubro de 2026

A tirania e a unanimidade


A tirania e a unanimidade

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Ninguém é unanimidade. Mas, o tirano vive da ilusão de que pode alcançar esse feito. Como? Valendo-se de todas as estratégias que possam, de alguma forma, silenciar, amedrontar, intimidar, quem se coloca em oposição. Mas, sobre essa perspectiva, penso que não há novidade. Então, resolvi trazer um outro viés de análise que realmente é surpreendente.

Por trás de alguém que deseja ser unanimidade está uma total incapacidade de perceber a existência do outro. Como se o mundo fosse somente ele e nada mais. Isso significa que todas as suas ações e intenções são centradas nele. Nas suas vontades, nos seus quereres, nos seus interesses, nos seus poderes. O resto do mundo não existe, não é importante.

Ora, para que o outro exista de verdade, ele precisa ter o direito de discordar, de ter uma perspectiva própria e de não gostar de outras pessoas. A unanimidade, então, implica no cerceamento da liberdade. Quando um grupo, governo ou instituição exige que todos concordem, a unanimidade torna-se sinônimo de opressão. E aí, a única forma de fazer com que um grande grupo pense exatamente igual é suprimindo a dissidência. O que é alcançado por meio do medo, da censura, da violência, da coerção e/ou da doutrinação.

Portanto, se o preço para fazer parte de um grupo é a obrigação de concordar com tudo, a liberdade individual foi sacrificada. O que significa uma ameaça direta aos seus direitos, à sua individualidade, às suas necessidades, à sua própria existência. Nesse sentido, algumas pautas da plataforma de governo do candidato da ultradireita que circulam pela imprensa nacional, já apontam para o fato que a população foi totalmente apagada, invisibilizada e menosprezada na sua construção.

A tal agenda ultraliberal que pretende acabar com direitos sociais, alterando de maneira profunda a Constituição Federal vigente, deixa explícita a ideia de favorecimento dos interesses de elites financeiras em detrimento do investimento público em bem-estar social. Aliás, sob essa ótica, cortes em orçamentos públicos de saúde, educação e previdência, como os discutidos ou implementados na Argentina e nos Estados Unidos, fragilizaram a rede de proteção social e prejudicaram as parcelas mais vulneráveis da população.

O que mais surpreende, nesse caso, é pensar que tais estratégias não trouxeram melhorias significativas para a economia desses países, incluindo elevada taxa de inflação, juros altos e empobrecimento massivo da população. No caso da Argentina, por exemplo, embora o país tenha saído da hiperinflação de três dígitos, a população enfrenta os efeitos colaterais de um choque fiscal rigoroso. O Produto Interno Bruto (PIB) contraiu e o cenário de recessão já está desenhado. As previsões de crescimento foram cortadas por economistas privados e o próprio Banco Central argentino.

Assim, 31 mil empresas paralisaram setores essenciais como a indústria manufatureira e a construção civil. O número de cidadãos inadimplentes atingiu a marca histórica de 6 milhões de pessoas, ou seja, cerca de 13,6% da população.

Sem acesso a crédito bancário sustentável, as famílias estão recorrendo a empréstimos informais de curto prazo para arcar com despesas básicas, como a alimentação diária. O corte de subsídios do governo disparou as tarifas de serviços públicos, tais como luz, gás e transporte, em mais de 960% desde o final de 2023, pulverizando a renda da população.

Nos EUA, a realidade econômica atual é marcada por uma economia fortemente dividida, onde dados de crescimento robustos mascaram o estresse financeiro e a perda de poder de compra de grande parte da população. Há um franco sentimento de asfixia financeira vivido pelas classes média e baixa.

Os maiores vilões continuam sendo itens essenciais e não negociáveis, como a gasolina, a eletricidade, a moradia e a alimentação. O ganho real das famílias na base da pirâmide foi corroído pela alta acumulada de preços nos supermercados.

Para tentar conter essa espiral inflacionária, o Banco Central americano adotou uma postura rígida, na qual após um período de pausa, voltou a subir a taxa básica de juros, que atualmente se encontra na faixa de 3,75% a 4%.

Algo que para a realidade econômica estadunidense é classificado como restritivo e pesado para o bolso do cidadão comum e para o mercado financeiro. Afinal, a economia dos EUA foi moldada durante mais de uma década por juros próximos de zero.

Essa elevação encareceu brutalmente as dívidas de curto prazo, como as taxas de cartão de crédito e empréstimos estudantis. Os juros futuros desencadearam uma crise imobiliária em que financiar uma casa própria tornou-se proibitivo para a maioria dos jovens americanos.

O estresse financeiro está no maior nível em mais de uma década, o que significa que a parcela de lares estadunidenses que comprometem mais de 40% de sua renda apenas para pagar dívidas subiu para 8,6%. De modo que o cidadão comum sente que está empobrecendo e isso gera uma forte onda de pessimismo e descontentamento social no país.

Portanto, a ideia de unanimidade que exclui o restante da população está intimamente atrelada às agendas ultraliberais defendidas pela ultradireita ao redor do mundo. Elas buscam criar a ilusão de que existe uma vontade única e homogênea da nação e quem não se alinha a essa visão não é considerado apenas um adversário político, mas um inimigo da pátria ou um não cidadão, legitimando sua exclusão do debate e dos direitos.

Isso sem contar que a política e a deliberação democrática são vistas pela ultradireita como ineficientes; por isso, a tomada de decisões é transferida para as forças de mercado ou para tecnocratas, que utilizam da justificativa de que aqueles que discordam das políticas de austeridade, de privatização ou de desregulamentação devem ser marginalizados, tratados como um entrave ao progresso econômico.

Por essas e outras é sempre bom lembrar as palavras de Nelson Rodrigues, “Toda unanimidade é burra. Quem pensa com a unanimidade não precisa pensar”. Bem, diante do cenário atual, ao mobilizar as bases por meio de narrativas identitárias rígidas, moralismos e/ou dogmas de mercado, a ultradireita frequentemente exige de seus seguidores essa lealdade acrítica.

Pois o dissenso interno é rotulado como traição, e a coesão do grupo passa a depender de uma adesão quase dogmática a lideranças ou suas ideologias de poder.

No entanto, justamente quando a ultradireita tenta minimizar e transformar problemas estruturais profundos, como a desigualdade, a precarização do trabalho, as crises climáticas, em meros bodes expiatórios ou a slogans fáceis, é que ela se trai reafirmando e enaltecendo o seu mais absoluto desprezo pela própria população que a fez ascender ao poder. Do mesmo modo que faziam os reis absolutistas, entre os séculos XVI e XVIII, e certos mafiosos retratados pelo cinema.