quinta-feira, 15 de fevereiro de 2024

(In) Seguros apesar da lei


(In) Seguros apesar da lei

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Eis a gota d’água! Não há melhor definição para o problema da segurança pública, no país, do que essa. A fuga de dois presos de uma penitenciária de segurança máxima 1, escancara o problema e fomenta, então, as discussões a respeito.  Afinal, segurança é assunto que figura como direito social, na Constituição de 1988. Portanto, todos querem se sentir seguros, protegidos, resguardados pelo Estado brasileiro, conforme prega a lei maior do país.  

Nada mais legítimo! No entanto, o assunto é bem mais complexo do que se imagina. Não somente pela sua natureza; mas, especialmente, pelo trato histórico que ele recebe há séculos. Infelizmente, pouco mais de 500 anos de história, e ainda brilha no imaginário nacional uma correlação direta entre encarceramento e segurança pública, ou seja, punir os delitos com a privação da liberdade.

E assim, do furto famélico ao crime hediondo, a solução é a mesma, o encarceramento. De modo que, um bocadinho de atenção, para perceber que a resposta do Estado se transformou em receita de bolo, aplicada daqui e dali, amiúde, deixando de lado o que deveria ser prioridade. Ora, é preciso entender a construção histórico-social da criminalidade, dissecando suas inúmeras camadas.

Nesse contexto, então, o país não fez outra coisa senão produzir uma super população carcerária, cujo perfil socioeconômico retrata uma presença majoritária de cidadãos oriundos das camadas mais frágeis e vulneráveis da população. Muitos, inclusive, detidos por semanas, meses ou anos, antes mesmo, de uma audiência de custódia para avaliação do caso. De modo que esse cenário fez emergir um poder paralelo dentro do sistema prisional. Facções criminosas passaram a se organizar dentro e fora do cárcere, disputando entre si a hegemonia no sistema.

Bom, tudo isso significa que o Estado brasileiro se manteve enxugando gelo, olhando fixamente para o cárcere; mas, totalmente esquecido de olhar para o país e discutir efetivamente sobre segurança pública. Pois é, o Estado brasileiro gestou, pariu e continua alimentando o seu monstro de estimação.

Ora, não dá para pensar em segurança pública sem analisar o que leva o país a criar veios de criminalidade. Desigualdade socioeconômica é um desses aspectos? Sim. Mas, não é o único. Temos que falar de tráfico de drogas, de armas, de pessoas, de fauna e flora, de pedras e minerais, de formação de milícias, enfim. Sem ir ao cerne de tudo o que é apelo ao crime, não se faz política de segurança pública. Nem aqui, nem em lugar nenhum!

Estamos falando de uma espiral de situações por onde correm verdadeiras fortunas. Portanto, a desigualdade socioeconômica entra nesse jogo porque ela é cooptada pelos atrativos econômicos. Não se pode negar que o crime acaba por exercer um papel de recuperação da autoestima, um pseudopassaporte de pertencimento social, de visibilidade, de importância. Em todos os aspectos que o Estado brasileiro peca, no sentido da negligência, da invisibilização, do desamparo cidadão, a criminalidade surge, então, como resposta.

De modo que, ano após ano, o que se vê são facções criminosas cada vez mais organizadas e fortalecidas. Tanto que o número do encarceramento não para de crescer.  A criminalidade acompanha a evolução da sociedade, do tempo, ficando sempre muitos passos adiante da capacidade resolutiva do Estado. Haja vista, por exemplo, a presença constante de notícias sobre novos golpes na praça. Sem contar, o poder capital das facções criminosas, que lhes permite ousar, ainda mais, no sentido de persuadir de maneira incisiva e contundente elementos institucionais do Estado.

Vamos e convenhamos, o encarceramento dos tempos coloniais está cada vez mais inócuo no século XXI! Prisões que amontoam dezenas por cela, que permitem todo nível de degradação humana e indignidade, que favorecem a proliferação de doenças, que funcionam como verdadeiras universidades do crime, dão que tipo de resposta à sociedade? Segurança?! Claro que não! Além disso, é preciso pensar sobre o contingente humano dedicado a cuidar do encarceramento, no país. Por quantas andam as condições de trabalho, de remuneração, de qualificação de carcereiros, agentes penitenciários e afins? São perguntas importantes e que merecem resposta.

Afinal, elas não param por aí. Em se tratando de segurança pública, o modo como vêm sendo estruturadas as secretarias estaduais e seus efetivos, por exemplo, deixa muito a desejar. É visível a precariedade que envolvem as condições de trabalho, de remuneração, de qualificação, tornando os trabalhadores do setor alvos fáceis tanto à cooptação criminosa quanto à reprodução de padrões históricos, como se viam nos tempos dos capitães do mato. O que reverbera uma beligerância de mão dupla e extremamente letal, a qual, no frigir dos ovos, coloca a própria população em situação de mais insegurança.

Lamento; mas, o modelo que vigora está fracassado. Quando o cidadão espera segurança e encontra balas perdidas, crianças e jovens sem poder ir à escola, trabalhadores impedidos de ir ao trabalho, comerciantes amedrontados de abrir seus estabelecimentos, ... algo está errado. Portanto, o encarceramento em massa não surtiu resultado. As drogas continuam, por aí. As armas apreendidas amiúde. As incursões militares contra traficantes e milicianos sem efeitos práticos. A violência explodindo em cada esquina.

Como dizem, há algo de errado que não está certo! Vejam, as leis existem. As punições existem. O encarceramento existe. Mas, isso não significa nada para as facções criminosas. É como se elas, simplesmente, negassem o poder do Estado, na medida em que estabeleceram o seu próprio poder paralelo. Elas têm plena consciência do seu poder organizacional, estrutural e capital para fazer frente aos parâmetros que se têm como segurança pública no país. Enquanto, tudo permanecer como está, com os esforços das unidades federativas aquém do que deveria ser, a (in)segurança continuará prevalecendo.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024

Não, a quarta-feira de cinzas não precisa ser cinza!


Não, a quarta-feira de cinzas não precisa ser cinza!

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Embora a vida não tenha parado os seus rodopios nos últimos quatro dias, hoje, em plena quarta-feira de cinzas, ela não deixa outra escolha senão recobrar a consciência sobre as responsabilidades e deveres cidadãos.

Pois é, não vai dar para se esconder debaixo das alegorias e adereços. Não vai dar para justificar a inação, mostrando o calendário. Hora de arregaçar as mangas, de tocar o bonde, de seguir o baile.  Hora de enfrentar a realidade como ela é.

Afinal, para que venha um outro carnaval, os desafios serão muitos. Os eventos extremos do clima. A Dengue e outras ameaças epidêmicas. As guerras que teimam em continuar. As incertezas na economia global. ... Questões que, embora não sejam exclusivamente da nossa inteira responsabilidade, nos envolvem sim, diretamente.

Daí a necessidade de prestar atenção, de abrir os olhos e os ouvidos sobre o que acontece ao nosso redor. Porque a vida conecta tudo com tudo. Nada passa despercebido à nossa própria existência. Somos regidos, o tempo todo, por forças conjunturais bastante provocadoras e sobre as quais não temos, na maioria das vezes, controle algum.

Estamos sempre sentindo a batida das asas da borboleta que não vemos. O que significa que, na verdade, não há espaço para desatenções, displicências, negligências, descuidos ou indiferenças. 365 ou 366 dias, não importa, isso é tempo suficiente para virar e revirar a nossa vida do avesso, para traçar outras perspectivas para a nossa existência.

É por essas e por outras, que quatro dias de folia não significam que o cotidiano esteve suspenso no ar, totalmente imóvel. Os segundos continuaram passando freneticamente no relógio, desencadeando acontecimentos diversos, aqui, ali e acolá. Confetes, serpentinas, lantejoulas e purpurinas não são pó de pirlimpimpim, como se quer tanto acreditar.  

Aliás, apesar dos pesares, mesmo com todos os altos e baixos, a vida não precisa necessariamente de recortes temporais para ser divertida, alegre e feliz. Viver tem a sua graça!  Tem o seu senso de humor!

Não é toda hora, nem todo dia; mas, observando com disposição, a gente descobre muita coisa interessante. Soluções inusitadas. Caminhos novos. Personagens divertidos. Fragmentos de profunda paz. Pitadas de ousadia. Palavras surpreendentes. ...

E tudo sem tirar o pé do chão. Sem desviar o olhar do agora. Sem anestesiar os sentidos. Apenas sendo. Não, tomado por um sentido de completude, de autossuficiência; mas, sendo na busca de entender quem se é, o que pretende, o que gosta, o que é importante, o que é necessário. Olhando verdadeiramente para si mesmo, no mais profundo da alma e da (in)consciência.   

Como se nos despíssemos de todas as camadas. Sim, porque com o passar do tempo elas pesam e se tornam desnecessárias, inúteis, um verdadeiro peso morto, o qual é preciso desapegar para seguir em frente. Mas, para isso, é fundamental estar conectado à realidade e não, às idealizações.

Talvez, por isso, tantos não gostem da quarta-feira de cinzas. Afinal, ela nos confronta com essa proposta, o que para muitos soa desconfortável, indigesta, difícil. Lidar com as verdades ao invés das pós-verdades, nos coloca no papel que temos que ocupar, ainda que seja na contemporaneidade. Ser quem somos. Pensar com a própria cabeça. Tomar decisões raciocinadas. Agir conscientemente. Protagonizando as próprias responsabilidades.

Acontece que isso é inevitável! Chega na quarta-feira de cinzas ou pode chegar em qualquer outro dia. Ninguém muda o fato de que a vida é tarefa pessoal e intransferível. O que você tiver que experenciar não poderá ser colocado na conta do outro. É assim que funciona, que sempre funcionou.

Portanto, celebre esse dia, celebre essa quarta-feira de cinzas. Ressignifique seus pontos de vista, suas crenças, seus valores, seus princípios. Inclusive, independentemente da sua fé, a Campanha da Fraternidade 1 deste ano pode ser um estímulo para esse movimento, no sentido de repensar as relações humanas, a superação da cultura da indiferença, da insensibilidade, do desrespeito e da violência para com o outro. A fim de construir um sentido verdadeiro de responsabilidade social.

Relembrando a personagem Benjamin Button, do filme O Curioso Caso de Benjamin Button (2008), “Para as coisas importantes, nunca é tarde demais, ou no meu caso, muito cedo, para sermos quem queremos. Não há um limite de tempo, comece quando quiser. Você pode mudar ou não. Não há regras. Podemos fazer o melhor ou o pior. Espero que você faça o melhor. Espero que veja as coisas que a assustam. Espero que sinta coisas que nunca sentiu antes. Espero que conheça pessoas com diferentes opiniões. Espero que viva uma vida da qual se orgulhe. Se você achar que não tem, espero que tenha a força para começar novamente”.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024

Por trás de cada silêncio


Por trás de cada silêncio

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

As horas passam e a perplexidade sobre as investigações em torno da tentativa de golpe de Estado se amplificam, como tinha de ser.  Mas, tudo me parece carecer de um olhar mais distante do agora, de uma análise mais profunda das entrelinhas. Tudo porque o país se permitiu acreditar que certos silêncios eram garantias de tempos de paz.

Ledo engano! Situações mal resolvidas abrem sempre precedentes para confusão, ainda que demore um tempo. As duas décadas de chumbo em que o Brasil foi sumariamente envolvido, não poderiam jamais ter sido contemporizadas. Sob perspectivas diferentes, a anistia proposta não resolveu para nenhum dos lados.

Aliás, olhando para os recentes acontecimentos, começo a acreditar que para os militares a decisão soou pior, pelo fato de que estariam sempre na iminência das contestações, sob o escrutínio da opinião pública; sobretudo, daqueles mais diretamente afetados pelas ações do regime.

Não é à toa que evitaram, como puderam, o surgimento de uma comissão que revelasse os detalhes daqueles tempos sombrios e tristes. Assim, os silêncios foram um artifício para esperar por alguma solução que pudesse lhes restituir o poder e dar fim ao incômodo das memórias, de uma vez por todas.  

E nesse processo, eis que surge um fato totalmente desconectado desse assunto. O ex-presidente da República, ainda nos tempos da ativa, promoveu ato de insubordinação e rebeldia, que lhe poderia ter custado a expulsão. Mas, dizem que por forças de cordialidade superior, a punição prevista não foi aplicada e ele saiu sem tal desonra.

Bem, há um provérbio que diz “quando a esmola é demais, o santo desconfia”.  Em algum momento, certamente, essa benesse seria cobrada. Sem se dar conta, ele se transformou no que pode se chamar de “o idiota útil”. Não é difícil pensar que seu perfil, especialmente ideológico, coadunava aos interesses ressentidos da caserna. Então, apesar da sua passagem arranhada e tendo seguido outro caminho, o da política, mesmo assim, as relações não se esgarçaram, não foram interrompidas.

Ele permaneceu encontrando as portas abertas, inclusive, para suas campanhas políticas. Até que em um momento recente, bastante conturbado na realidade brasileira, lhe apoiaram para concorrer ao cargo máximo do país. Era a oportunidade de ouro, que aguardavam há mais de três décadas. Chegava-se a hora de “o idiota útil” cumprir seu papel.

Aliás, o próprio vídeo da reunião de 05 de julho de 2022, divulgado pelos veículos de comunicação e de informação, com autorização judicial, deixa claro em certos momentos, como o ex-presidente tinha consciência sobre si mesmo e padecia de uma profunda baixa autoestima, ao ponto de se considerar surpreso por ter conseguido ocupar um cargo de tamanha importância. No entanto, não me prece que ele desconhecesse as razões para sua escolha.

Ora, a questão do perfil ideológico foi determinante.  Ele estava tão afinado com as narrativas militares, defendidas durante os anos de chumbo, que mesmo não tendo participado diretamente do período, em sua campanha, em 2018, um de seus filhos foi flagrado defendendo a ideia de fechamento do STF e de retorno do AI-5.

O que em tese colabora para a ideia de uma legitimidade discursiva, dentro e fora do ambiente familiar, apesar da repercussão negativa da fala tê-los feito recuar temporariamente. No entanto, a pretensão golpista mostrou-se pairando no ar para ele e seus apoiadores, simpatizantes e asseclas.

Assim, vencidas as eleições em 2018, o que se segue na linha histórica é uma sucessão de fatos que reafirmam a empreitada; embora, uma grande parte da população tenha feito vistas grossas a respeito. Chamavam de bravata, de fanfarronice, de farolagem, de presepada, para não admitir a verdade nua e crua que estava bem diante do nariz.

De modo que se muita gente, agora, prende a respiração, em sinal de perplexidade, é porque sabe exatamente o que deixou de fazer nos verões passados. E ao que tudo indica, diante dos achados recentes das investigações da Polícia Federal (PF), a prevaricação correu solta na República de Brasília; visto que, o silêncio oportunista imperou.

A ameaça golpista é, portanto, muito mais antiga do que se pode imaginar. Ela foi fiada ao longo de muito tempo e contou com participações diretas e indiretas de muitos agentes políticos e institucionais. Vamos dizer que esse episódio repugnante teria sido mais um, numa história de tantos outros, desde o início da República.

Como parte de uma herança histórica que não foi oportunamente descontruída para alicerçar adequadamente os princípios democráticos e republicanos. Daí a Democracia, o Estado de Direito, a cidadania, viverem aos sobressaltos!

Pois é, cheios de pudores para não nomear corretamente os fatos, os acontecimentos. Os atos reprováveis idealizados nos espaços palacianos obscuros. Mas, a verdade, é que não se trata de pudor, de vergonha, de constrangimento. Apenas engolem seco os absurdos; pois, quem sabe, em algum momento, não podem ser úteis, não é mesmo?!

Acontece que, agora, a história mostra que a verdade tarda, mas não falta. Um dia ela aparece. Um dia os tapetes da história se tornam insuficientes para esconder todos os malfeitos, todas as sujidades, todas as imundices da imoralidade e da falta de ética nacional.   

Diante dessa constatação, lembrei-me das seguintes palavras de Rui Barbosa, “Lucram com a desordem os governos desacreditados, que, vivendo apenas de viver, tendo violado todas as leis, faltado a todos os deveres, perdido toda a estima pública, necessitam de romancear revoluções, que recomendem o zelo da administração pela estabilidade da paz, autorizem a perpetração de insídias contra o direito desarmado, e encubram, na confusão das ruas, a mão da polícia, que passa, executando os seus cálculos de eliminação homicida” 1.

Sendo assim, caro (a) leitor (a), a grande lição chega pela compreensão de que os silêncios são inúteis e podem ser muito mais nefastos e devastadores, do que quaisquer palavras. Agora, sabemos que os silêncios não absolvem, não eximem, não isentam, simplesmente, porque eles reverberam seus gritos no inconsciente humano. E, nenhum de nós, jamais sabe o que se passa na inconsciência alheia, no conjunto de crenças, valores e princípios dos outros.

Não é à toa que Martin Luther King Jr. tenha dito, “O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons”; afinal de contas, “A verdadeira medida de um homem não se vê na forma como se comporta em momentos de conforto e conveniência, mas em como se mantém em tempos de controvérsia e desafio”. Pensemos a respeito!



1 “Obras completas de Rui Barbosa”. p.103. Publicado pelo Ministério de Educação e saúde, 1942.