sábado, 14 de outubro de 2017

Visita técnica ao Biotério de Artrópodes

Voltada para graduandos e graduados nas áreas de ciências biológicas e biomédicas, medicina veterinária e áreas afins, a visita ao laboratório tem por objetivo apresentar os processos de trabalho envolvidos na criação e manutenção dos principais grupos de aranhas e escorpiões importantes para a saúde pública.

Conteúdos programados
A importância das aranhas e escorpiões para a saúde pública
Recepção, fluxo de entrada e quarentena dos animais
Criação e manutenção de aranhas dos gêneros Phoneutria e Loxosceles
Criação e manutenção de escorpiões do gênero Tityus
Criação suporte para alimentação de aranhas e escorpiões
Extração de veneno
Público-alvo: Graduandos e graduados em ciências biológicas e biomédicas, medicina veterinária e áreas afins.  
Horário: das 13h às 14h15 
Vagas:
Local: Laboratório de Artrópodes, Instituto Butantan 
Inscrições: As inscrições serão liberadas um mês antes de cada atividade.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Para refletir!!!

Só mais um desafio para a Educação brasileira



Por Alessandra Leles Rocha



A liquefação das relações, das ideologias, dos comportamentos na teoria da pós-modernidade proposta por Zygmunt Bauman, talvez, nos forneça elementos para compreender o que acontece bem debaixo do nosso próprio nariz. De fato, o cotidiano parece estar determinado aos interesses, as vontades, aos olhares extremamente individualistas, por isso o consenso se encontra cada vez mais distanciado e menos favorecido de um denominador comum.
No entanto, apesar da realidade se apresentar dessa forma, a sociedade não pode viver à deriva, à mercê de uma Babel social, onde cada um defende seus pontos de vista e os faz prevalecer a todo custo. Foi em nome de um porto seguro que as leis, os códigos e as doutrinas surgiram para estabelecer parâmetros que pudessem conferir princípios à sociedade, de modo a resguardá-la do peso de uma demasiada injustiça.
Mas, vez por outra, no afã de arbitrar adequadamente se perde a noção da complexidade em que reside à própria coexistência humana. A vida é um prisma de muitos lados. São muitas as variáveis que interferem e mascaram os vieses de uma mesma questão. Foi essa a sensação percebida pela sociedade brasileira diante da decisão do Supremo Tribunal Federal, em 27/09/2017, sobre a compatibilidade de, embora vivermos sob um Estado laico, que as escolas públicas devam ministrar aulas de ensino religioso de uma ou mais religiões específicas.
Pois bem, muitos podem pensar que o ponto nevrálgico dessa discussão é tão somente a religião; mas não é. Concordo que vivemos tempos espinhosos, de uma intolerância desmedida, no qual a diversidade religiosa tem estado em constante aflição, apesar da Constituição Federal de 1988 manifestar-se clara no artigo 5º, incisos VI, VII e VIII 1. O problema é como trazer a religião para o ambiente escolar sem fazer disso um fomento para agravos de enorme projeção.
Ora, ninguém desconhece a realidade da escola pública brasileira, dos inúmeros desafios que ela enfrenta diariamente para cumprir o seu papel de educar. De problemas logísticos e de infraestrutura à carência de mão de obra qualificada e melhores salários, os aspectos didático-pedagógicos também se somam no momento de computarmos o baixo aproveitamento dos alunos, os índices de evasão (tanto de docentes como de alunos), a violência, as limitações no processo de acessibilidade e inclusão escolar, enfim.
Ano após ano, entre reportagens, pesquisas e estatísticas o panorama nacional não acusa melhorias e avanços significativos diante dessas demandas. O modelo vigente de escola não atende as necessidades da sociedade atual, há um abismo secular na Educação nacional. Por isso, a escola pública brasileira, na sua grande maioria, parece abandonada, sem futuro. Então, se não temos sido capazes de enxergar o que acontece; talvez, a recente decisão do STF possa ao menos nos despertar desse torpor.
Segundo a Suprema Corte, a decisão se amparou no fato de considerar tal ensino como facultativo, ou seja, sem obrigar o aluno a participar das aulas. Mas, isso não basta. Não basta porque não pensamos no problema que essas escolas terão de enfrentar quanto às alternativas a serem propostas aos alunos que não queiram assistir a aula de ensino religioso oferecida.
Quem vive a realidade da escola pública sabe bem que a carência de professores já é um obstáculo no cumprimento da carga horária anual. Quando faltam professores – e essa é uma constante por diversas razões, inclusive médicas - muitas escolas são obrigadas a dispensar os alunos mais cedo ou, na melhor das hipóteses, juntar as turmas, superlotando os espaços físicos já precários. Então, como fazer com os alunos do ensino religioso que pretendam desfrutar do seu direito de não assistir as aulas?
Basta um pouco de idade nas costas, para saber que jovens sem nada para fazer dentro da escola acabam em problema. Sem saber o que fazer com esses alunos, o tal ‘facultativo’ poderia acabar se transformando em estereótipo de segregação, mais um estopim para casos de bullying. Mas, mais uma vez, a grande parcela das nossas escolas públicas não têm profissionais capacitados para trabalhar essas questões (psicólogos e assistentes sociais) e mitigar seus impactos. Não, infelizmente, também não podemos contar com a hipótese de uma aula de música, ou de arte, ou de robótica, ou de informática, ou de idiomas... em lugar da aula de ensino religioso para esses alunos.
Sem considerar o fato de que na fragilidade orçamentária que vive a Educação nacional, as escolas não poderiam contratar mais de um professor de ensino religioso, o que afunilaria a construção identitária no âmbito da religião, fazendo com que prevalecessem as religiões com maior número de seguidores no país. Se a religião é um traço cultural importantíssimo na construção da sociedade, isso significaria um retrocesso na oportunização da nossa própria diversidade. Com a realidade migratória vigente, a qual o Brasil recebe refugiados de diversas nacionalidades, imagine como eles se sentiriam nessa situação?
Além disso, a presença de uma única representação religiosa na escola, não deixa de ser uma outorga de poder ideológico e de destaque para o profissional que irá ministrar as aulas; afinal, não foram estabelecidas diretrizes ou orientações para o processo de escolha da religião a ser ministrada, o que parece arbitrário. Contar com o bom senso é simplista demais e pode ocasionar problemas ainda maiores em longo prazo.
Enquanto, personalidades e lideranças mundo afora reconhecem a importância do ecumenismo na construção de uma sociedade pacífica, capaz de coexistir pela premissa da liberdade, da igualdade e da fraternidade que respeitam a diversidade humana em todas as suas expressões, estamos diante de mais um obstáculo para o país. Acabamos de perder uma excelente oportunidade de fazer das nossas escolas verdadeiros celeiros de gente, de seres humanos que se “imaginam partilhando o mundo” 2.
Como disse Martin Luther King, A injustiça num lugar qualquer é uma ameaça à justiça em todo o lugar”. Infelizmente, a decisão do STF nos faz pensar em injustiça, quando amparados pelas leis, códigos e doutrinas, nossos magistrados permitiram que a exclusão fizesse parte da escola; afinal, haverá alunos que não se sentirão contemplados, representados ali.  Quem quer ficar em um lugar assim, hein?! 
Não nos esqueçamos do que disse Rubem Alves 3, Há escolas que são gaiolas e há escolas que são asas. Escolas que são gaiolas existem para que os pássaros desaprendam a arte do vôo. Pássaros engaiolados são pássaros sob controle. Engaiolados, o seu dono pode levá-los para onde quiser. Pássaros engaiolados sempre têm um dono. Deixaram de ser pássaros. Porque a essência dos pássaros é o vôo. Escolas que são asas não amam pássaros engaiolados. O que elas amam são pássaros em vôo. Existem para dar aos pássaros coragem para voar. Ensinar o vôo, isso elas não podem fazer, porque o vôo já nasce dentro dos pássaros. O vôo não pode ser ensinado. Só pode ser encorajado”.



1 Inciso VI – é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e as suas liturgias; Inciso VII – é assegurada, nos termos da lei, a prestação de assistência religiosa nas entidades civis e militares de internação coletiva; e, Inciso VIII – ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política, salvo se as invocar para eximir-se de obrigação legal a todos imposta e recusar-se a cumprir prestação alternativa, fixada em lei.
2 Uma referência à canção Imagine, de John Lennon.

domingo, 8 de outubro de 2017

"Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz". Platão

Infância...




Por Alessandra Leles Rocha





Falar sobre criança é falar sobre alegria, espontaneidade, travessura, curiosidade, inquietude, energia... porque esta fase da vida é mesmo assim. É tempo de SER; não de TER. Na infância os olhos do corpo e da alma estão bem arregalados para ser feliz, para se divertir sem limites, sem distinções, sem preconceitos, sem senões desnecessários. Por isso, a presença de uma criança é sempre renovadora. Só elas preenchem os vazios do mundo com a sua sensibilidade e ternura naturais.
Pena que a infância passa depressa. Um breve cochilo e os pequenos lá se vão grandes a enfrentar os desafios do mundo. Mas, cada dia mais, a duração da infância vai se encurtando e se transformando em um processo estranho e perigoso, o qual a sociedade precisa refletir a respeito. Estou falando da Adultização Infantil.
Até as primeiras décadas do século XX era comum uma infância adultizada. Na medida com que iam crescendo, as crianças assumiam os mesmos papeis dos adultos fossem as meninas nos afazeres da casa ou os meninos em trabalhos como engraxate, entregador de jornais ou de pães, atendente de farmácia etc. As fotografias da época descrevem bem as imagens de pequenas miniaturas de adultos sisudos e bem comportados. Não havia contestação, os pais decidiam que iria ser assim e pronto. Muitos pela rudeza da vida com poucos recursos. Outros pela sensação de que o trabalho precoce traria disciplina e bons resultados morais para os filhos.
O fato é que os relatos dessas crianças no futuro deram conta de que o tempo para usufruir a infância foi pouco e, no fundo da alma, pesava um lamento sofrido diante dessa constatação. Paralelamente a isso, o mundo por si só evoluiu e se transformou ao ponto de promover reflexões profundas acerca desse assunto e propor uma ruptura com esse discurso. Assim, além do bom senso genuíno vieram leis e doutrinas científicas para contribuir com o resgate da infância, demonstrando claramente a importância desse período para o futuro de toda a sociedade.
Logo após o fim da Primeira Guerra Mundial, em 1923, Eglantyne Jebb 1, uma britânica fez história ao criar o que se pode chamar de a primeira versão da Declaração Universal dos Direitos da Criança, conhecida como a Declaração de Genebra de 1924, ao fundar a União Internacional de Proteção à Infância. Após a Segunda Guerra Mundial, essa declaração foi acrescida de outras informações pela Organização das Nações Unidas que, também, criou um fundo emergencial para cuidar das crianças vítimas da guerra, o qual posteriormente deu origem ao Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) 2 que é regido pela Convenção dos Direitos da Criança, a qual foi adotada pela Assembleia Geral nas Nações Unidas em 20 de Novembro de 1989 e ratificada por Portugal em 21 de Setembro de 1990 3. Nada de trabalho pesado e/ou remunerado. Criança tem que ir para escola. Criança tem que brincar. Criança tem que se divertir. Criança tem que se alimentar. Criança tem que ser cuidada. Criança tem que ser feliz. Desde então, crianças de todo o mundo buscam se beneficiar desse direito para poderem ser crianças ao pé da letra, como se diz.
Mas, observando com um pouco de atenção, percebemos que apesar dos esforços de muitos, o fenômeno da adultização ainda persiste, em pleno século XXI. Claro que em outras formas e contextos; mas, ela está aí construindo os seus estragos sociais. No caso do Brasil, desafiando o próprio Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei nº. 8069, de 13/07/1990) 4.
De um modo geral, a adultização das crianças na contemporaneidade está visivelmente direcionada a uma capitalização ou mercantilização infantil. Elas estão sendo expostas de diversas formas, à revelia de sua própria vontade, a situações que geram lucro aos pais e/ou responsáveis. Vestidas (os) com as últimas tendências da moda, elas se tornam ícones nas suas redes sociais e ampliam o número de seguidores virtuais. Participam de concursos de beleza ou peneiras desportivas e se submetem a exaustivas horas de preparação. São muitos os exemplos desse processo, aparentemente normal; já que, conta com a anuência dos pais ou responsáveis.
Ora, mas não bastasse o enriquecimento presente nas entrelinhas desse processo, a deformação psicoemocional que se esconde nessa negligência de cuidados à criança é algo muito grave. Na medida em que elas reproduzem a realidade do adulto, elas passam a sofrer os mesmos impactos. Um exemplo disso é a própria violência e o bullying. Geralmente, eles são desdobramentos dos discursos e comportamentos que aquela criança presencia entre pessoas mais próximas e ela traz para o seu contexto escolar.  
Essa uma questão fundamental, porque a adultização infantil não diz respeito só a uma classe ou segmento social. Cada grupo traz um viés desse problema para a sua realidade e impacta de maneira contundente o restante. Então, nesse espectro, a criança muito exposta vai ter que lidar com sentimentos e comportamentos para os quais ela, geralmente, ainda não está pronta.  É por isso que afloram nelas sintomas como ansiedade, Síndrome do Pânico, Transtornos Alimentares, Depressão e, lamentavelmente, tentativas de suicídio.
Estamos sempre a dizer que as crianças são o futuro; mas, se não somos capazes de protegê-las e respeitar-lhes os direitos fundamentais, a que futuro estamos nos referindo? Quais as nossas expectativas de futuro? Em um mundo que já vive sob uma atmosfera tão hostil, tão difícil de enfrentar, as crianças parecem cada vez mais vulneráveis aos horrores criados pela própria sociedade e não se trata apenas de questões de guerra bélica. A adultização tem retirado delas o direito de construir e consolidar a sua identidade, porque estão submetidas aos domínios das identidades de terceiros e, talvez, esteja nisso uma explicação para que tantos jovens sintam-se perdidos, desorientados, sem saber que caminho seguir. Por isso, independente se você tenha ou não filhos pense que você vive em sociedade e desse modo, não lhe cabe, em nenhuma hipótese, negar a sua responsabilidade cidadã com a infância; pelo menos, pensar a respeito. O próximo dia 12/10 é feriado, então aproveite e assista ao documentário “O começo da Vida” 5, da diretora Estela Renner, com o apoio do UNICEF, e reveja os seus conceitos, teça conexões e reflexões sobre o que acontece bem debaixo do seu nariz.