terça-feira, 20 de setembro de 2022

Que vergonha!


Que vergonha!

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

O incômodo causado pela vergonha constrangedora a qual o país foi submetido em solo inglês, infelizmente, não diz tudo sobre si mesma. Me desconforta pensar que somente em situações como as recentes, o cidadão brasileiro se sinta estimulado a sair do torpor da sua indiferença para se manifestar, quando há questões bem mais importantes para se debruçar.

Deparando-me com a manchete “Maior parte dos candidatos à reeleição no congresso não apoia pauta ambiental” 1, decidi esmiuçar ao máximo a reflexão a respeito. Afinal, queiram ou não admitir, há um desvirtuamento completo da consciência do cidadão sobre a representatividade política no país.

Então, comecemos pelo começo. Nossos representantes são oriundos de onde? Da própria população. Portanto, bem ou mal, eles traduzem o pensamento coletivo. O que significa dizer que a indiferença ou o desprezo por certas pautas não passa de reflexo da própria manifestação popular.

Acontece que isso se acentua mais e mais, na medida em que há tempos o exercício da representatividade político-partidária tornou-se profissão. Embora não legalizada; mas, institucionalizada pela legitimação popular que não exerce oposição a esse modus operandi praticado por muitos políticos no país.

Algo difícil de entender, porque o cidadão permite que alguns de seus pares seja alçado, na condição de representante do povo, a um mundo de regalias e privilégios, o qual ele próprio não desfruta apesar de todos os seus esforços, os seus impostos, as suas dores e sofrimentos. Como se ele fizesse pelo outro o que este jamais fará por ele. Cruel? Perverso? Totalmente. Mas, é assim que as relações sociais cidadãs, no campo político-partidário, têm se estabelecido.  

Mas, ainda que a representatividade tenha se tornado profissão, o seu exercício permite certas flexibilizações que culminam em uma evidente distorção quanto às suas obrigações e deveres. Quero dizer com isso que, tanto os candidatos quanto seus eleitores, parecem não compreender que ao representante popular não cabe acenar com pautas específicas ou próprias.

Simplesmente, porque ele é eleito para representar aos interesses e demandas da população, do país. Sejam elas quais forem. Não é à toa que precisam de conhecimento suficiente para tal. Não podem e não devem jamais se guiar por achismos e casuísmos de ocasião, fomentados principalmente pela nódoa rançosa do fisiologismo político nacional.  

Isso demonstra que ao manifestarem apreço ou desinteresse por essa ou aquela pauta, eles o fazem porque acreditam que seus próprios eleitores referendam tal posicionamento. Ou seja, é o comportamento social que determina, na verdade, direta ou indiretamente os rumos das discussões e das soluções para as demandas nacionais. É o eleitor que prioriza as importâncias e as desimportâncias no país.

E aí, cabe uma ressalva importantíssima, que é destacar o perfil desse eleitor. Afinal, o Brasil é um país historicamente marcado pelas desigualdades socioeconômicas, de modo que na prática cotidiana nem todos os cidadãos têm, de fato e de direito, o seu lugar de fala assegurado, cabendo a uma minoria elitista o papel decisório sobre quais assuntos e por quais vieses o cenário político-partidário deve se debruçar.

Portanto, não é só a pauta ambiental que é preterida, apesar de todos os efeitos deletérios que a sua invisibilização e negação promovem ao coletivo social brasileiro. Cultura. Lazer e esporte. Saúde. Educação. Segurança Alimentar. Emprego. Segurança Pública. Respeito religioso. Segregação e discriminação racial. Diversidade étnico-cultural. ... nenhuma dessas pautas é discutida de maneira séria, responsável e em profundidade pelos representantes do povo.

De certo modo, a velha visão colonial elitista de que o dinheiro compra tudo (ou quase tudo) exime uns e outros de se preocuparem com certos assuntos, o que, no frigir dos ovos, leva o país a estabelecer uma gigantesca bola de neve de problemas, porque a grande massa da população acaba negligenciada e prejudicada por esse silêncio político. E se é ruim para uns, é ruim para todos. Haja vista a realidade atual brasileira.

Nesse sentido, pode-se dizer que essa é a grande vergonha nacional. O superficialismo que o brasileiro emprega na análise da sua participação cidadã, no fundo, repercute naquilo que se viu nos últimos dias 2. Brasileiros que decidiram migrar para um outro país e, pela mais absoluta ausência de senso cidadão, se consideraram no direito de desrespeitar aqueles que os acolheram. É claro que o momento de luto foi um agravante; mas, independentemente disso, o simples desrespeito ao outro é inadmissível.

Cabe observar com atenção que a ignorância cidadã, ao longo da história da humanidade, assistiu episódios terríveis, incluindo o morticínio durante a 2ª Grande Guerra mundial. O brasileiro tem gostado muito de bradar aos quatro cantos sobre a sua soberania nacional; no entanto, tem se mostrado cada vez mais deselegante e inconveniente quando se trata da soberania alheia. Então, não nos espantemos se de uma hora para outra o brasileiro começar a sofrer com eventuais efeitos xenofóbicos mundo afora.

Para que isso não aconteça, o ideal é começar a refletir sobre os modos como tem se conduzido a cidadania nacional, partindo da percepção de que “jamais houve na história um período em que o medo fosse tão generalizado e alcançasse todas as áreas da nossa vida: medo do desemprego, medo da fome, medo da violência, medo do outro” (Milton Santos). Só assim seria possível impregnar na consciência coletiva o entendimento de que “a prática da cidadania só adquire sentido se em seu horizonte estão os direitos de todos, a igualdade perante a lei, a defesa do bem comum” (João Batista Libânio).  

domingo, 18 de setembro de 2022

Qualquer semelhança não é mera coincidência


Qualquer semelhança não é mera coincidência

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Deselegância. Grosseria. Incivilidade. Indelicadeza. Falta de educação. Petulância. Insultuoso. Malcriado. Desrespeitoso. ... E a lista de palavras para descrever a presença do atual presidente do Brasil no Reino Unido pode ser acrescida de outras tantas. Mas, tudo o que esse episódio vexatório não merece é notoriedade em tempos de luto. Já sabíamos que, quanto a esse aspecto, a autoridade maior do país não tem o menor apreço. Inclusive, também não ofereceu respeito e compaixão aos seus próprios concidadãos durante a pandemia.  

Bem, o mal já está feito! Tentemos, então, olhar para essa viagem como quem se recorda do último Baile da Ilha Fiscal. Para quem não sabe, esse foi o último baile do Império, ocorrido na Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, seis dias antes da Proclamação da República e, portanto, o fim da monarquia no Brasil. Uma celebração suntuosa em um país que via a crise monárquica se acentuar depois do fim da Guerra do Paraguai, a formação do Partido Republicano, das campanhas abolicionistas e do crescimento da aristocracia cafeeira no cenário político. De modo que o tal baile foi a maneira de tentar ofuscar a realidade e trazer alguma pompa e circunstância ao final do reinado de Pedro II.

Assim, qualquer semelhança não é mera coincidência com o momento atual. Às vésperas de um pleito eleitoral alicerçado sob uma conjuntura socioeconômica bastante crítica, sem desfrutar de muita simpatia e cordialidade no cenário diplomático internacional, a oportunidade de ir ao funeral da Rainha Elizabeth II, então, caiu como uma luva para o presidente brasileiro que tenta a reeleição. Pena, que lhe falte o decoro, a compostura e o traquejo que compõem o protocolo em situações de luto oficial. Funerais não são bailes, não são eventos festivos. Neste caso, em particular, não é só uma família que está enlutada; mas, uma nação inteira.

Mas, no restante, em termos de luxo e ostentação, o presidente e sua vasta comitiva, que inclui figuras alheias ao governo, fazem mesmo lembrar o episódio do Baile Fiscal. Tudo do bom e do melhor, porque os prognósticos futuros não acenam oportunizar algo semelhante outra vez. Até aqui os indicadores não apontam um cenário vitorioso de reeleição. Mas, ainda que os ventos mudassem totalmente de rumo, as questões econômicas do país acenam como agentes obstaculizantes para não permitir grandes extravagâncias e delírios. A realidade contemporânea está contando caraminguás! Porque analisando as conjunturas internas e externas para o próximo ano, a economia na sua totalidade sofrerá impactos severos e importantes.

De modo que tudo nesse caso exala melancolia. Melancolia diante do luto da realeza britânica. Melancolia diante do constrangimento que o presidente e sua comitiva promoveram em solo estrangeiro. Melancolia diante da realidade de um fim de governo que nunca governou. Melancolia diante da imposição de tantas incertezas as quais viemos sendo submetidos desde a pandemia. Melancolia diante de um cenário de tensões e violências políticas acintosas. Melancolia diante da indiferença humana que se estabelece a partir dos pseudopoderes. Melancolia...

Talvez, por isso, um funeral tenha sido mesmo mais apropriado do que um baile. O som do Réquiem é o ideal para uma reflexão crítica e profunda sobre esses tempos sombrios e desajustados que vive o Brasil. A liturgia da finitude, da efemeridade. Tudo um dia chega ao fim. Um fim que pode ser lembrado, celebrado ou, certas vezes, esquecido nas poeiras do tempo. Um fim que tem muito a dizer aos viventes, sobre o que representam os caminhos da vida, as escolhas, as decisões, os resultados. Um fim que encerra um ciclo e abre as portas para um novo. Um fim cuja dor, algum dia, se converterá em lembrança e pacificará as cicatrizes dos vazios deixados.


Orçamento federal para 2023. Reminiscências do Beija-Mão.


Orçamento federal para 2023. Reminiscências do Beija-Mão.

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Tempos sisudos para o Brasil. Tudo parece tão pesado, tão cansativo, tão absurdo; mas, apesar dos pesares, algo parece sinalizar diferente no horizonte. Afinal, nem todas as transformações, as mudanças, as metamorfoses do mundo são efetivamente verbalizadas. A necessidade de entender as linguagens para além do verbal é imprescindível. Detalhes, pequenos sinais, ínfimos gestos, talvez, nos digam muito mais nesse momento do que qualquer amontoado de palavras.  

Esses últimos quatro anos de governo trouxeram para o cotidiano brasileiro o gosto amargo de uma realidade, até então, obscura. O ranço histórico colonial se mostrou claro, franco e indiscutível, com todo o seu arroubo determinado em aprofundar as desigualdades socioeconômicas nacionais e fazer desse um país estritamente elitista. No qual as camadas inferiores do estrato social estariam condicionadas aos parâmetros de uma subimportância, de uma subdignidade, de uma subcidadania.

Os velhos fantasmas que vigoravam no colonialismo brasileiro ressurgiram contemporâneos; mas, não menos perversos, cruéis e impactantes. O Brasil fez questão de dissecar suas entranhas e de exibir suas vísceras em praça pública, para quem quisesse ver e entender, de uma vez por todas, o que isso significa. Ou seja, o pior de um país que, nem mesmo nos áureos tempos coloniais, jamais conseguiu ser catapulta pujante para elevá-lo a um status de relevante importância no cenário internacional.

Tudo porque a desigualdade desequilibra. Não há desenvolvimento. Não há progresso. Não há inteireza social. Ora, não há protagonismo que seja conduzido apenas pela elite nacional! São todos aqueles que estão abaixo dela, os que realmente movem as engrenagens e fazem a roda da fortuna girar. Portanto, a grande massa populacional é visível sim! Os discursos quanto à sua invisibilidade, não passam de estratégias de controle e punição social para satisfazer aos anseios dos donos do poder, que não querem ter abaladas as suas influências sobre a dinâmica socioeconômica nacional.

Não é à toa que práticas de trabalho análogo à escravidão sejam recorrentes no Brasil do século XXI. Tanto no campo quanto nas cidades. Por trás da má distribuição de renda há sempre algo de abjeto herdado da tecitura das relações sociais coloniais. Daí o abismo que se forma entre a teoria e a prática, ao longo de mais de 500 anos de história, no que diz respeito ao acesso de quaisquer cidadãos, brasileiros ou estrangeiros aqui residentes, especialmente das camadas mais vulneráveis e desassistidas, aos seus direitos fundamentais e sociais.

E essa é uma questão que precisa ser debatida, discutida e refletida, além de meras escolhas de representatividade político-partidária, as quais estão, na verdade, fundamentadas numa transitoriedade humana que escapa à importância das crenças, dos valores e das convicções do cidadão. O ponto chave está fora desse olhar! Esta não é uma questão de escolha ou decisão entre esse ou aquele, simplesmente. Esta é uma questão de ruptura paradigmática com o retrógrado, com aquilo que nunca coube; mas, talvez, agora, caiba muito menos, na realidade nacional.

Porque as decisões político-administrativas no Brasil, infelizmente, quase sempre giraram nessa mesma espiral há séculos. A elite minoritária sendo prioritária nos ganhos socioeconômicos, enquanto a grande massa é prioritária nas perdas socioeconômicas. Não acredita? Então, preste atenção ao que dizem os veículos de comunicação e de informação: “Proposta do Orçamento de 2023 prevê redução de 95% nos recursos do programa Casa Verde Amarela” 1, “Orçamento de 2023 tem previsão de cortes e trabalhadores devem pagar mais impostos” 2, “Orçamento para 2023 terá cortes na saúde e na educação, diz secretário” 3, “Os efeitos do corte drástico na verba de investimentos públicos para 2023” 4, “Governo federal planeja corte de 50% no Farmácia Popular para 2023” 5.

É preciso entender que o desvirtuamento representativo, no campo político-partidário, só acontece porque os eleitos chegam ao poder pela força persuasiva da elite, que investe esforços nas suas candidaturas. Afinal de contas, apesar da existência do fundo eleitoral público para o custeio das campanhas, a influência das elites locais também contribui para geração de doações privadas de campanha. Então, ainda que sejam escolhidos pelo voto popular, eles estão condicionados a uma obrigação velada com seus apoiadores e investidores de campanha. O que explica, de certo modo, a razão pela qual o aprofundamento das desigualdades sociais se arrasta pelo tempo, no Brasil.

Lamento, mas a Cerimônia do Beija-Mão, nos tempos coloniais, semeou essas práxis tão nocivas à cidadania e ao desenvolvimento nacional. Trocando favores de maneira despudorada, um tipo infame de consciência banalizadora e normalizadora tomou conta do Brasil e o enredou para esse cenário caótico, cuja tendência é um mergulho cada vez mais profundo nas misérias sociais, no atraso das relações econômicas e produtivas, na antidiplomacia, no status de pária global. Situação que sinaliza claramente a iminência do país em se postar à margem da história com um pires na mão, ou seja, nem monarquia, nem república, nem nada.