terça-feira, 17 de março de 2026

O Oscar não nos define!


O Oscar não nos define!

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

É isso mesmo! Por quê precisamos da legitimação internacional para celebrar a nossa cultura?! Essa é a pergunta que temos que fazer hoje, amanhã, depois, sempre. Porque romper as bolhas, expandir as fronteiras, intercambiar pontos de vista, é nisso que reside a força sociocultural brasileira.

Apesar de estarmos em pleno século XXI, não podemos fingir que o mundo não vive sob a influência imperialista, monopolista, egocentrista, ... porque essa é uma verdade fática. E o cinema faz parte do mundo, por isso, ele também é afetado por essas questões.

Os olhos que acompanham as atuações, as produções e as exibições públicas, no cenário internacional, de certa forma ainda estão contaminados por certos vieses ideológicos, os quais possibilitam a construção de senões aos filmes que estão fora do espectro dominante da cinematografia mundial.

Desse modo as escolhas não são, então, pautadas basicamente por questões técnicas. Cada corpo de jurados traz consigo crenças, valores, convicções, interesses, simpatias, que acabam por esgarçar o seu processo decisório, afastando-os de um posicionamento mais ético e isento.

Nesse sentido, inclusive, é importante destacar o papel lobista que atua sobre a dinâmica cinematográfica. Infelizmente, o lobby do cinema nas premiações não é apenas uma estratégia de marketing, mas um mecanismo de reprodução de poder e consagração da dominância cultural.

Por isso, não cabe ingenuidade na análise dos acontecimentos. Quando grandes estúdios investem milhões para influenciar os votantes, eles transformam o mérito artístico em uma extensão do capital econômico e social, com o único propósito de garantir que o sucesso se concentre nos mesmos grupos.

Além disso, o prêmio é uma ferramenta de marketing que aumenta o valor do filme e a empregabilidade dos envolvidos, reforçando uma estrutura de classes dentro da indústria cinematográfica.

Assim, em linhas gerais, o alto custo das campanhas lobistas atua como uma barreira para filmes independentes ou de países fora do eixo tradicional; bem como, se encarrega de negligenciar quaisquer narrativas que fujam do padrão cinematográfico tradicional ou vigente.

Para isso, não é incomum que o lobby, muitas vezes, envolva campanhas difamatórias ou desqualificantes contra concorrentes, modificando a escolha artística em um processo puramente político e estratégico. Como já aconteceu na história do cinema.

Caro (a) leitor (a), daí a importância de entender que a manifestação da cultura é, antes de tudo, uma expressão interna, uma relação direta com seu próprio povo. Só depois, é que ela pode ser compartilhada com o externo, com o mundo, porque aí ela já está fortalecida, enriquecida pela própria identidade nacional.   

E nesse momento, então, a sua aclamação ou a sua incompreensão pelo estrangeiro pode ser decodificada de uma maneira adequada e satisfatória. Por isso, mesmo tensionada, sob a pressão externa, as crises econômicas ou os conflitos internos, a cultura se adapta e resiste porque não é algo que se possui, mas algo que se é.

Então, munida dessa impessoalidade para analisar os acontecimentos, sem precisar dessa ou daquela legitimação alheia para se sentir confortável, plena e feliz, ela se mantém. Porque a cultura é capaz de incorporar quaisquer elementos dos eventuais contratempos e se transformar, mantendo intacto o seu núcleo identitário.

Assim, o maior prêmio para quaisquer manifestações ou expressões culturais é a capacidade de realizar, de dar vida às ideias, aos projetos, gerando uma conexão coletiva inimaginável. Aí, nesse instante, ela deixa de pertencer apenas ao criador e passa a dialogar com a sociedade de maneira plena, inteira e extraordinária. 

quinta-feira, 12 de março de 2026

Pesquisas políticas ... bússola ou oráculo para a sociedade contemporânea?


Pesquisas políticas ...  bússola ou oráculo para a sociedade contemporânea?

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Não há como negar, o tempo todo a sociedade contemporânea é bombardeada por pesquisas e dados. São tempos da racionalização, ou seja, da necessidade de medir, calcular e prever o comportamento humano para que nos sintamos seguros ou informados.

Assim, além da tradicional pesquisa de opinião, a contemporaneidade é marcada pela valorização da pesquisa baseada em comportamento, dados reais e experiências. Como se a pesquisa tivesse se transformado em bússola ou oráculo para a sociedade contemporânea.

Mas, quando a pesquisa se dedica à análise do campo político atual, ela assume um caráter predominantemente empírico-analítico e pós-estruturalista.

Isso significa que a pesquisa empírico-analítica foca em dados que podem ser observados, medidos e testados, buscando a objetividade e a neutralidade.

Enquanto a pesquisa pós-estruturalista questiona a ideia de verdade absoluta ou da objetividade total, concentrando-se em como a linguagem, o poder e a cultura moldam o que chamamos de realidade.

Por essas e outras é que nenhum estudo é puramente neutro ou perfeito. O resultado de uma pesquisa é moldado por fatores que acontecem tanto dentro quanto fora do controle do pesquisador.

Veja, por exemplo, as escolhas feitas no desenho do estudo.  Se a amostra for pequena, se as perguntas do questionário forem indutivas ou se houver falhas na análise dos dados, o resultado será afetado.

Também, as pressões do mundo real, quem financia, os prazos apertados, os interesses políticos e/ou as mudanças súbitas no cenário socioeconômico enquanto a pesquisa ocorre, podem enviesar tendenciosamente o resultado.   

Sem contar que a escolha do próprio pesquisador aponta para o fato de que ele traz consigo crenças e vivências que podem sim, adicionar influências à interpretação dos fatos, mesmo que ele tente ser imparcial.

Feitas essas breves considerações e pensando objetivamente nas pesquisas políticas, não é difícil entender, então, a dimensão do peso relativo ao momento ou ao recorte temporal em que uma pesquisa é realizada.

Ora, ele representa o fator crítico que determina se uma pesquisa eleitoral pode ser considerada um raio-X preciso da opinião pública ou apenas um registro obsoleto de uma percepção volátil.

Por isso, pesquisas políticas não preveem o futuro, elas apenas mapeiam tendências em um tempo e espaço específicos. Como uma fotografia estática de uma realidade política fluida, dinâmica; posto que, o momento da coleta define o quanto essa foto poderá, de algum modo, se assemelhar ao resultado esperado.

E as razões disso são óbvias. A começar pelo fato de que a vida é instável e uma série de acontecimentos (im)previsíveis podem mudar o curso da história diariamente.

Desse modo, no caso da política, eventos de grande impacto, tais como um debate, uma denúncia, um escândalo, uma decisão judicial, podem mudar drasticamente a opinião do cidadão sobre alguma questão ou a sua intenção de voto. Uma pesquisa feita 10 dias antes da eleição, por exemplo, pode não captar uma mudança de tendência de última hora.

A realidade do resultado, expressa pela opinião do entrevistado, é afetada pela vida útil e o tipo de informação que foi absorvida pela memória do eleitor. Daí os entrevistados serem voláteis, estarem sujeitos as mudanças. O que explica, também, a razão da existência de alto índice de indecisos ou votos em branco ou nulo.

Mas, não se pode negligenciar a existência de eventos extremos globais, tais como crises climáticas, pandemias, desequilíbrios econômicos e/ou guerras, que são capazes de gerar o chamado efeito de transbordamento, afetando a percepção do cidadão.

Quando ocorre um desastre global, por exemplo, o cidadão tende a projetar o medo do macro no micro. Então, em pesquisas políticas, isso se traduz em uma busca por figuras de autoridade ou lideranças que transpirem uma credibilidade capaz de garantir proteção e ordem, mesmo que o problema local seja diferente do global.

Não é à toa que tais eventos podem servir tanto como cortina de fumaça quanto bode expiatório, no âmbito das pesquisas. Afinal, enquanto alguns podem ser mais tolerantes com as falhas do governo local ao acreditarem que o mundo todo está em crise, outros podem punir o político local por problemas globais, ignorando a falta de controle dos gestores externos sobre o evento.  

Por isso, um evento extremo pode sim, mudar o que o cidadão considera importante. Se há uma crise global de saúde, pautas locais, tais como reforma urbana e inclusão escolar ou cultural, perdem peso na avaliação política. O cidadão passa a julgar o candidato exclusivamente pela sua capacidade de gestão de crise.

Desse modo, a percepção do indivíduo deixa de ser fruto apenas da sua vivência imediata e passa a ser mediada por eventos distantes, tornando a opinião pública local muito mais volátil e imprevisível.

Inclusive, ele pode responder a uma pesquisa baseada em polarizações globais em vez de focar em problemas específicos do seu bairro, da sua cidade ou do seu estado.

Assim, lembre-se: as pesquisas não são, e nunca serão, uma bola de cristal, uma ferramenta de futurologia, para serem utilizadas para monitorar uma sociedade cada vez mais complexa, fragmentada e volátil.

Uma pesquisa reflete o que o eleitor pensou ontem, mas não garante o comportamento de amanhã, especialmente com a rapidez das redes sociais e o visível aumento da polarização e das mudanças nos hábitos de comunicação que dificultam a criação de amostras sociais que sejam efetivamente perfeitas.

Além disso, fenômenos como o voto envergonhado ou a recusa em participar de pesquisas tendem a ampliar a distorção dos dados, impedindo que eles reflitam a totalidade e a sinceridade do pensamento das partes interessadas.


segunda-feira, 9 de março de 2026

“A pressa é inimiga da perfeição”


“A pressa é inimiga da perfeição”

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Quem já não ouviu que “a pressa é inimiga da perfeição”? Parece que, no Brasil contemporâneo, uns e outros da política-partidária nacional optaram por negligenciar o tal dito popular. Pena, porque as consequências podem ser desastrosas!

Não é de hoje que certos representantes político-partidários brasileiros, ligados à Direita em seu amplo espectro, defendem a equiparação de facções criminosas a grupos terroristas, alinhando-se a interesses dos EUA.

E o motivo é fácil de compreender, ou seja, os EUA pretendem equiparar as facções criminosas a grupos terroristas para facilitar bloqueios de bens, monitorar movimentações financeiras e ambientais; mas, principalmente, autorizar o uso de forças militares estadunidenses em solo brasileiro.

De modo que, não precisa ser nenhum gênio para entender que toda essa questão afeta diretamente a soberania nacional, o ano eleitoral, a exacerbação da polarização político-partidária, a violência política, na medida em que se permitiria a ocorrência de intervenções estrangeiras, pressões econômicas e o uso de força militar estadunidense no Brasil.

Acontece que, para surpresa de zero pessoas, a vida é dinâmica, instável e atravessada constantemente pelo inesperado, pelo insólito. Recentemente, em agosto de 2025, a Receita Federal, juntamente com o Ministério Público do Estado de São Paulo (MPSP) e a Polícia Federal (PF), realizou a Operação Carbono Oculto que desarticulou uma rede criminosa bilionária, a qual utilizava postos de combustíveis e fintechs para lavar dinheiro, com foco em importante organização criminosa da capital paulista.

A grande questão é que a referida operação atingiu as cúpulas de partidos de direita e do centrão. Com movimentações de aproximadamente R$ 50 bilhões, a delação de certos investigados apontou gastos com parlamentares, viagens aéreas em aviões de elementos da rede criminosa, gerando prejuízos no capital político e divisões internas nessas legendas, em razão do envolvimento de alguns de seus membros.

Mas, se apenas esses fatos já seriam ruins, o que dizer quando essa operação se entrelaça com outros recentes escândalos nacionais, tais como o do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e o do Banco Master, hein? É, a Polícia Federal (PF) apura a existência de dados entre o caso do Banco Master, as fraudes no INSS e a operação Carbono Oculto, suspeitando de que fundos de investimento usados ​​na lavagem de dinheiro dos combustíveis também tenham ligação com lobistas investigados no escândalo do INSS.

E em meio a esse cenário apocalíptico, eis que surge uma matéria jornalística 1, na qual uma fonte do mercado financeiro, que acompanhou as negociações, apresentou documentos que sustentam uma denúncia de que o Banco Master foi comprado com dinheiro de narcotraficante espanhol, que já fora condenado por lavagem de dinheiro e tráfico internacional de drogas.

Assim, em linhas gerais, o que parece claro é que uma eventual equiparação de facções criminosas a grupos terroristas, no Brasil, para satisfazer aos interesses dos EUA, tem potencial concreto de provocar uma exposição inimaginável das personagens envolvidas nessa trama policial em curso, sobre as quais não há uma lista conclusiva. O modo como os acontecimentos têm se desenrolado, até aqui, sinaliza que pode haver muito mais gente do espectro político-partidário da Direita e do Centrão, do que aqueles já noticiados.

Sem contar que ao mexer nos interesses das facções criminosas, lucro econômico e controle territorial para mercados ilícitos, para enquadrá-las em facções terroristas, que visam objetivos políticos, ideológicos ou religiosos, não se pode cravar qual será o comportamento dos envolvidos. Portanto, não dá para descartar a possibilidade de aumentar o uso de delações premiadas para atingir financiadores e líderes, o que potencialmente incriminaria muito mais indivíduos de alta esfera social.