Sobre o
EU e o NÓS, quando o assunto é felicidade, ética e justiça
Por
Alessandra Leles Rocha
Segundo a canção de Tom Jobim, “É
impossível ser feliz sozinho...” 1. Bem, o Maestro Brasileiro falava
de emoções e sentimentos; mas, eu tomo a liberdade de realizar um outro tipo de
análise, restrita ao sentido das palavras em si.
Assim, minha proposta de reflexão
parte do ponto de que o individualismo narcísico contemporâneo vem estabelecendo
não só uma relativização da ética, como da justiça.
Parece cada vez mais comum que os
seres humanos estejam acreditando que é sim possível ser feliz sozinho,
inclusive, apegados em suas próprias deformidades morais e frágeis casulos ideológicos.
Veja, quando o EU se torna a
única medida de valor, os conceitos coletivos desmoronam. A máxima do "o
que é bom para mim é o certo" substitui os imperativos morais
universais, de modo que a ética deixa de ser um pacto coletivo e vira uma
justificativa de interesses pessoais.
Por isso, decidi lhe trazer alguns
exemplos cotidianos sobre essa questão, para fazer você pensar um bocadinho.
Aguardar na fila é um pacto de
respeito mútuo ao tempo e à dignidade dos outros. No entanto, pela lógica do EU,
o pensamento se baseia pela ideia de que "se eu passar na frente, eu
ganho tempo. O atraso dos outros não é problema meu." Assim, a regra
social só vale se for vantajosa para o indivíduo; caso contrário, é vista como
um obstáculo a ser burlado.
Pagar impostos financia serviços
compartilhados essenciais como saúde, educação, infraestrutura, necessários
para a existência da própria sociedade. Aí, pela lógica do EU, cruza o
pensamento certas ideias como: "Por que vou pagar se não uso o hospital
público?" ou "Se eu sonegar um pouco, não faz diferença".
O que leva o dever cívico a ser rebaixado a um cálculo de custo-benefício
estritamente pessoal e indiferente a qualquer responsabilidade coletiva.
Há décadas o mundo vem discutindo
as questões de sustentabilidade socioambiental. Inclusive, defendendo que preservar
a água, o meio ambiente ou o espaço urbano é o que permite garantir que todos
continuem tendo acesso a eles no futuro.
Mas, pela lógica do EU, há sempre
alguém que diga: "Se eu poluir, gastar excessivamente ou descartar lixo
aqui, o prejuízo é diluído no meio de todo mundo, mas o meu conforto é imediato".
Isso significa que a lógica do benefício se torna individualizado e o custo passa
a ser empurrado para o coletivo. Fazendo parecer que a ilusão de que o “estrago”
pode ser dividido por todos, tornando o impacto individual invisível. Só que não.
Quando um ecossistema é afetado,
as consequências geram um efeito cascata que atinge a economia, a saúde pública
e a qualidade de vida de toda a população. Inclusive, é fundamental lembrar de
que a degradação ambiental severa gera os chamados Refugiados Climáticos,
pessoas que precisam deixar suas terras porque elas se tornaram inabitáveis ou
improdutivas.
Reconhecer direitos trabalhistas
e proteções sociais como conquistas que garantem dignidade mínima a quem produz,
repercute diretamente no bem-estar e desenvolvimento coletivo. Porém, pela
lógica do EU, a ideia é "Cada um por si. Se eu consigo aceitar receber
menos ou trabalhar sem rede de proteção para pegar a vaga do outro, o problema
é de quem não se adaptou". Acontece que é em razão desse tipo de ideia
que a exploração foi renomeada como mérito individual, ou seja, as condições
precárias de trabalho e a perda de direitos trabalhistas foram maquiadas com um
discurso motivacional de sucesso pessoal.
Por essas e outras, a justiça
passa a ser confundida com a satisfação dos próprios desejos. Assim, o
indivíduo deforma o conceito de direito, exigindo tudo para si e
desobrigando-se de qualquer dever para com a comunidade.
Nesse cenário, então, a perda da
consciência sobre o valor ético da justiça, quando ela é confundida com o
capricho individual e a busca pelo interesse próprio, promove a desintegração do
tecido social. Tendo como principais consequências desse fenômeno o egoísmo
institucionalizado, a corrosão da empatia e o colapso do pacto coletivo.
Num piscar de olhos, a cooperação
mútua desaparece, pois as ações deixam de visar o bem-estar coletivo e passam a
focar apenas no ganho pessoal.
Como os desejos individuais são
frequentemente conflitantes, a ausência de uma régua ética comum faz com que as
disputas sejam resolvidas pela força, pelo poder econômico ou pela influência,
e não pelo que é justo.
Portanto, há uma perda da
capacidade de enxergar o outro como um sujeito de direitos equivalente, gerando
indiferença perante as desigualdades e o sofrimento alheio.
No campo das instituições
políticas e jurídicas, as leis e os tribunais passam a ser vistos não como
instrumentos de equidade, mas como ferramentas de privilégio para quem pode
manipulá-los.
Desse modo, o conceito de direito
é corrompido, deixando de ser uma garantia universal e universalizável para se
transformar em uma vantagem pessoal ou corporativista.
Sem um norte ético compartilhado,
a aplicação das regras torna-se casuística, variando de acordo com as
conveniências do momento.
Tudo isso torna inevitável que os
cidadãos comportem-se como consumidores mimados do Estado e da comunidade,
exigindo satisfação imediata de suas demandas sem qualquer senso de
responsabilidade ou sacrifício pelo grupo.
Ocasionando, inclusive, a uma normalização
da corrupção do cotidiano, na medida em que atitudes individualistas, como
furar filas, sonegar ou burlar regras pequenas, passam a ser justificadas
socialmente como mecanismos de defesa ou de esperteza.
Bem, como se vê a partir dessa
breve exposição, a justiça desprovida de ética deixa de ser o cimento que une a
sociedade e passa a ser a picareta que a demole, transformando a vida
comunitária em uma arena de egoísmos concorrentes.
Nesse sentido, a sociedade contemporânea
parece ter esquecido de que ela não sobrevive se cada um olhar apenas para o
próprio umbigo, considerando que a justiça precisa de um ecossistema ético para
garantir que todos vivam bem juntos.
Quando a ética é retirada da
justiça, as leis passam a ser usadas como armas para defender privilégios
individuais ou de grupos específicos. E aí, o que deveria ser união se
transforma em destruição.
Acontece que em uma arena de puro
egoísmo, a máxima da primeira frase se concretiza de forma trágica, ou seja,
torna-se literalmente impossível ser feliz, pois o medo, a desconfiança e a
injustiça passam a governar as relações humanas.
Portanto, o individualismo
radical é uma ilusão autodestrutiva, porque tenta anular a própria
matéria-prima da existência humana que é a alteridade, a relação com o outro.
Ao tentar se isolar ou se
sobrepor à coletividade, o indivíduo destrói a estrutura social que garante
seus próprios direitos, sua segurança e sua sanidade mental.
A liberdade e a felicidade, então,
não são conquistas que ocorrem apesar da sociedade, mas sim através dela. De
modo que a sociedade depende inevitavelmente da qualidade das suas relações humanas.
Sem o tecido social preservado, a
busca individualista pela felicidade frequentemente se converte em isolamento e
sofrimento psíquico.
Algo que afeta diretamente a
segurança jurídica, porque sem um tecido social forte, as pessoas deixam de
acreditar nos pactos coletivos, gerando instabilidade.
Afinal de contas, o isolamento e
o enfraquecimento das relações humanas reduzem a capacidade de mediação
pacífica de conflitos, o que sobrecarrega o sistema de justiça com disputas
constantes, afetando a previsibilidade do direito.
Por essa razão é que as normas jurídicas precisam ser socialmente reconhecidas como justas. Quando a busca individualista corrói a empatia e a coesão, as leis passam a ser vistas como meras imposições e não como um reflexo do bem comum.
1 Wave
(1967) / Compositor: Antônio Carlos Jobim (Tom Jobim).
https://www.youtube.com/watch?v=RwxEEgp4BG4&list=RDRwxEEgp4BG4&start_radio=1
