sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Sobre o EU e o NÓS, quando o assunto é felicidade, ética e justiça


Sobre o EU e o NÓS, quando o assunto é felicidade, ética e justiça

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Segundo a canção de Tom Jobim, “É impossível ser feliz sozinho...” 1. Bem, o Maestro Brasileiro falava de emoções e sentimentos; mas, eu tomo a liberdade de realizar um outro tipo de análise, restrita ao sentido das palavras em si.

Assim, minha proposta de reflexão parte do ponto de que o individualismo narcísico contemporâneo vem estabelecendo não só uma relativização da ética, como da justiça.

Parece cada vez mais comum que os seres humanos estejam acreditando que é sim possível ser feliz sozinho, inclusive, apegados em suas próprias deformidades morais e frágeis casulos ideológicos.  

Veja, quando o EU se torna a única medida de valor, os conceitos coletivos desmoronam. A máxima do "o que é bom para mim é o certo" substitui os imperativos morais universais, de modo que a ética deixa de ser um pacto coletivo e vira uma justificativa de interesses pessoais.

Por isso, decidi lhe trazer alguns exemplos cotidianos sobre essa questão, para fazer você pensar um bocadinho.

Aguardar na fila é um pacto de respeito mútuo ao tempo e à dignidade dos outros. No entanto, pela lógica do EU, o pensamento se baseia pela ideia de que "se eu passar na frente, eu ganho tempo. O atraso dos outros não é problema meu." Assim, a regra social só vale se for vantajosa para o indivíduo; caso contrário, é vista como um obstáculo a ser burlado.

Pagar impostos financia serviços compartilhados essenciais como saúde, educação, infraestrutura, necessários para a existência da própria sociedade. Aí, pela lógica do EU, cruza o pensamento certas ideias como: "Por que vou pagar se não uso o hospital público?" ou "Se eu sonegar um pouco, não faz diferença". O que leva o dever cívico a ser rebaixado a um cálculo de custo-benefício estritamente pessoal e indiferente a qualquer responsabilidade coletiva.

Há décadas o mundo vem discutindo as questões de sustentabilidade socioambiental. Inclusive, defendendo que preservar a água, o meio ambiente ou o espaço urbano é o que permite garantir que todos continuem tendo acesso a eles no futuro.

Mas, pela lógica do EU, há sempre alguém que diga: "Se eu poluir, gastar excessivamente ou descartar lixo aqui, o prejuízo é diluído no meio de todo mundo, mas o meu conforto é imediato". Isso significa que a lógica do benefício se torna individualizado e o custo passa a ser empurrado para o coletivo. Fazendo parecer que a ilusão de que o “estrago” pode ser dividido por todos, tornando o impacto individual invisível. Só que não.

Quando um ecossistema é afetado, as consequências geram um efeito cascata que atinge a economia, a saúde pública e a qualidade de vida de toda a população. Inclusive, é fundamental lembrar de que a degradação ambiental severa gera os chamados Refugiados Climáticos, pessoas que precisam deixar suas terras porque elas se tornaram inabitáveis ou improdutivas.

Reconhecer direitos trabalhistas e proteções sociais como conquistas que garantem dignidade mínima a quem produz, repercute diretamente no bem-estar e desenvolvimento coletivo. Porém, pela lógica do EU, a ideia é "Cada um por si. Se eu consigo aceitar receber menos ou trabalhar sem rede de proteção para pegar a vaga do outro, o problema é de quem não se adaptou". Acontece que é em razão desse tipo de ideia que a exploração foi renomeada como mérito individual, ou seja, as condições precárias de trabalho e a perda de direitos trabalhistas foram maquiadas com um discurso motivacional de sucesso pessoal.

Por essas e outras, a justiça passa a ser confundida com a satisfação dos próprios desejos. Assim, o indivíduo deforma o conceito de direito, exigindo tudo para si e desobrigando-se de qualquer dever para com a comunidade.

Nesse cenário, então, a perda da consciência sobre o valor ético da justiça, quando ela é confundida com o capricho individual e a busca pelo interesse próprio, promove a desintegração do tecido social. Tendo como principais consequências desse fenômeno o egoísmo institucionalizado, a corrosão da empatia e o colapso do pacto coletivo.

Num piscar de olhos, a cooperação mútua desaparece, pois as ações deixam de visar o bem-estar coletivo e passam a focar apenas no ganho pessoal.

Como os desejos individuais são frequentemente conflitantes, a ausência de uma régua ética comum faz com que as disputas sejam resolvidas pela força, pelo poder econômico ou pela influência, e não pelo que é justo.

Portanto, há uma perda da capacidade de enxergar o outro como um sujeito de direitos equivalente, gerando indiferença perante as desigualdades e o sofrimento alheio.

No campo das instituições políticas e jurídicas, as leis e os tribunais passam a ser vistos não como instrumentos de equidade, mas como ferramentas de privilégio para quem pode manipulá-los.

Desse modo, o conceito de direito é corrompido, deixando de ser uma garantia universal e universalizável para se transformar em uma vantagem pessoal ou corporativista.

Sem um norte ético compartilhado, a aplicação das regras torna-se casuística, variando de acordo com as conveniências do momento.

Tudo isso torna inevitável que os cidadãos comportem-se como consumidores mimados do Estado e da comunidade, exigindo satisfação imediata de suas demandas sem qualquer senso de responsabilidade ou sacrifício pelo grupo.

Ocasionando, inclusive, a uma normalização da corrupção do cotidiano, na medida em que atitudes individualistas, como furar filas, sonegar ou burlar regras pequenas, passam a ser justificadas socialmente como mecanismos de defesa ou de esperteza.

Bem, como se vê a partir dessa breve exposição, a justiça desprovida de ética deixa de ser o cimento que une a sociedade e passa a ser a picareta que a demole, transformando a vida comunitária em uma arena de egoísmos concorrentes.

Nesse sentido, a sociedade contemporânea parece ter esquecido de que ela não sobrevive se cada um olhar apenas para o próprio umbigo, considerando que a justiça precisa de um ecossistema ético para garantir que todos vivam bem juntos.

Quando a ética é retirada da justiça, as leis passam a ser usadas como armas para defender privilégios individuais ou de grupos específicos. E aí, o que deveria ser união se transforma em destruição.

Acontece que em uma arena de puro egoísmo, a máxima da primeira frase se concretiza de forma trágica, ou seja, torna-se literalmente impossível ser feliz, pois o medo, a desconfiança e a injustiça passam a governar as relações humanas.

Portanto, o individualismo radical é uma ilusão autodestrutiva, porque tenta anular a própria matéria-prima da existência humana que é a alteridade, a relação com o outro.

Ao tentar se isolar ou se sobrepor à coletividade, o indivíduo destrói a estrutura social que garante seus próprios direitos, sua segurança e sua sanidade mental.

A liberdade e a felicidade, então, não são conquistas que ocorrem apesar da sociedade, mas sim através dela. De modo que a sociedade depende inevitavelmente da qualidade das suas relações humanas.

Sem o tecido social preservado, a busca individualista pela felicidade frequentemente se converte em isolamento e sofrimento psíquico.

Algo que afeta diretamente a segurança jurídica, porque sem um tecido social forte, as pessoas deixam de acreditar nos pactos coletivos, gerando instabilidade.

Afinal de contas, o isolamento e o enfraquecimento das relações humanas reduzem a capacidade de mediação pacífica de conflitos, o que sobrecarrega o sistema de justiça com disputas constantes, afetando a previsibilidade do direito.

Por essa razão é que as normas jurídicas precisam ser socialmente reconhecidas como justas. Quando a busca individualista corrói a empatia e a coesão, as leis passam a ser vistas como meras imposições e não como um reflexo do bem comum.   



1 Wave (1967) / Compositor: Antônio Carlos Jobim (Tom Jobim).

https://www.youtube.com/watch?v=RwxEEgp4BG4&list=RDRwxEEgp4BG4&start_radio=1