quarta-feira, 8 de janeiro de 2025

Em nome de quais interesses, hein?!


Em nome de quais interesses, hein?!

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

A sustentação do poder não é para qualquer um. É preciso ter know-how para não acabar se deixando levar pela arrogância desmedida e se transformando em escada das pretensões alheias. Antes mesmo do presidente eleito, dos EUA, tomar posse, em 20 de janeiro, seu governo dá sinais de que caminha para o início do fim.

Certas megalomanias que vem sendo divulgadas, algumas delas de viva voz por ele, parecem transpirar influências externas ao contrário de ideias próprias. Inclusive, porque ele tem escolhido o seu staff a dedo, indivíduos de vieses radicalizados ideologicamente, o que já causou diversos ruídos com sua base político-partidária.

Mas, considerando que apesar de sua experiência anterior, na Casa Branca, ele não é um ser político. Ele gosta do poder e do que esse pode lhe proporcionar; mas, não da política e da governança. Exatamente como um de seus principais indicados para o governo, que pensa estar fazendo um excelente negócio para si mesmo. Só que não.

A nível de discurso, a sede expansionista que tem marcado as falas do presidente eleito, dos EUA, demonstra a total inabilidade e desconhecimento geopolítico, no contexto contemporâneo. O que torna esse tipo de jogo extremamente temerário aos interesses estadunidenses; sobretudo, ao favorecer seus principais oponentes globais.

Desfazendo-se da dialogia para utilizar da beligerância como estratégia, os EUA constroem barreiras de isolamento em relação ao mundo, o que, ao menos em tese, abre oportunidades aos que assistem de camarote a sua radicalização discursiva.  

Bem, relembrando as sábias palavras de Carl Gustav Jung, “Quem olha para fora sonha, quem olha para dentro desperta”, enquanto o novo governo dos EUA se inebria com seus delírios expansionistas, fomentados pelas influências alheias, à revelia do que pensam os seus cidadãos, talvez, o despertar possa vir de maneira caótica.

E aí cabe dois aspectos de análise. Primeiro, porque essa estratégia esgarça qualquer intenção de favorecer a popularidade da ultradireita no cenário mundial. Pesquisas e estudos acadêmicos dão conta da impopularidade da beligerância no mundo contemporâneo. A insatisfação é geral, quando se trata de comportamentos autoritários, opressores, tirânicos.

Segundo, porque não só pela dinâmica social que eles representam; mas, pelas consequências desastrosas, de natureza político-econômica, que a beligerância, em si, produz. Com os olhos e os interesses voltados para conflagração externa, o país fica à deriva, à mercê da própria sorte. Especialmente, do ponto de vista econômico, tendo em vista os vultosos montantes destinados à manutenção dos conflitos.

Mas, ainda caberia um terceiro aspecto. Considerando o lema da campanha eleitoral vencedora, “Fazer a América Grande Outra vez” (Make America Great Again – MAGA), parece haver uma dissonância de ideias. Rupturas dialógicas e diplomáticas; bem como, estratégias de caráter imperialista, não são um caminho no sentido de fortalecer os EUA.  A política da pós-verdade, do medo social, pode sim, surpreender com um efeito totalmente reverso, em relação a eles mesmos.

Começando pelo próprio país. Por mais que o Partido Republicano tenha vencido às últimas eleições, os estadunidenses não estão coesos politicamente. Há diversas questões que apontam a existência de fraturas na sociedade, sendo uma delas a guerra. Os EUA são um país marcado historicamente pela belicosidade, dentro e fora do seu território; mas, ainda não conseguiram superar todas as arestas, nesse sentido.

Além disso, o cenário atual do planeta não é dos melhores. Há duas guerras em curso. Há uma série de países envolvidos, dentro de um nível de complexidade diplomática bastante importante. Qualquer movimento errático dos EUA, nessas alturas do campeonato, pode catalisar desdobramentos inimagináveis, afetando diretamente a estrutura de governança estadunidense.

Ora, lembremo-nos as palavras de Nicolau Maquiavel, “Mas a ambição do homem é tão grande que, para satisfazer uma vontade presente, não pensa no mal que daí a algum tempo pode resultar dela”. E nisso reside o início do fim. Ao deixar-se envolver pelas lisonjas, os apertos de mãos, as trocas de favores, a vaidade deturpa e arruína o poder do governante. No entanto, não foi a essas pessoas que a Democracia, através do pleito eleitoral, elegeu.

O que significa que as malfadadas consequências, que possam vir dessa gestão, na verdade, são de responsabilidade do presidente. Das suas escolhas. Das suas decisões. Afinal, ele assumiu um compromisso constitucional com seu país. Se uns e outros o influenciaram, o persuadiram, isso não muda a realidade dos fatos; mas, de certa forma, pode sim, ser um sinal do tamanho das pretensões e das ambições desses indivíduos, em relação ao poder.     

Assim, diante dessa breve reflexão, guardemos na memória que “O Príncipe que depende de muitos costuma não ter sucesso”; pois, “Existe uma distância tão grande entre como se age e como se deveria agir, que aquele que despreza o mundo real para viver num mundo imaginário encontrará antes sua ruína do que sua salvação”.  Afinal de contas, ele acabará descobrindo, da pior forma, que “É fácil persuadir o povo de algo, difícil é manter essa persuasão” (Nicolau Maquiavel – O Príncipe, 1532)

segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

Luz. Câmera. Ação. ...


Luz. Câmera. Ação. ...

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Quase não consegui dormir, tamanha a euforia depois de Fernanda Torres se tornar a primeira brasileira a ganhar o prêmio de melhor atriz de drama no Globo de Ouro, por sua atuação em “Ainda estou aqui”. Fiquei pensando a respeito de tudo o que essa premiação representa além de si mesma.

Começando pelo fato de que ela provoca um tipo de ruptura com a nossa herança colonial eurocêntrica, que sempre buscou a validação do outro, na figura das metrópoles, inclusive, nos aspectos culturais, para apontar o bom, o belo, o importante. Bem, parece que, finalmente, no campo do cinema, rompemos essa bolha histórica. O talento indiscutível dos nossos atores, atrizes, diretores e demais profissionais da 7ª Arte, personificado por Fernanda Torres, nessa madrugada, em Los Angeles, foi levado em consideração e aclamado fora da sua zona de conforto nacional.  

E isso é incrível porque traz o olhar do próprio brasileiro para a grandiosidade que compõe a sua cultura, ou seja, ele passa a tecer uma nova percepção a respeito da sua identidade nacional. A compreender o que é cultura. Como ela atravessa as nossas vidas. Como ela nos representa enquanto sociedade plural e diversa. Como ela nos oferta um lugar de fala para as nossas crenças, valores, emoções e sentimentos, ainda que preservando delicadamente a nossa privacidade.

Contudo, a lição mais valiosa oportunizada pelo filme de Walter Salles foi tão sutil que passou despercebida por muitos. Simplesmente, porque ela não começa no filme; mas, na sensibilidade do autor Marcelo Rubens Paiva em transcrever em palavras o registro da sua história familiar, a luz do olhar de sua mãe Eunice. Uma história que se alinhava do início ao fim pela força oriunda do afeto mais genuíno que pode caber em um ser humano.

De modo que aquela família brutalmente dilacerada pelo desaparecimento do pai, por força da política ditatorial vigente no Brasil, durante o Regime Militar, só se torna capaz de resistir aos acontecimentos, em razão de um afeto incondicional que a mantinha unida. Na ausência do pai, Eunice reuniu em si esse afeto e fez dele a ligação perfeita com cada um de seus cinco filhos, para sobreviver aos desdobramentos daquele processo terrível.

Portanto, essa história que, agora, lota as salas de cinema, dentro e fora do país, não só descortina a crueldade e a perversidade autorizada pelo Estado brasileiro contra diversos de seus cidadãos, contrários ao regime político vigente entre 1964 e 1985; mas, demonstra a necessidade do afeto para não se deixar jamais embrutecer pela realidade. E olhando para a contemporaneidade esses vieses são essenciais.

Primeiro, pelo distanciamento temporal que impede às novas gerações de perceberem, em profundidade, a dimensão histórica de certos acontecimentos. A partir de uma construção autobiográfica, como é o livro de Marcelo, se torna possível contribuir significativamente para esse resgate da cidadania nacional sob diferentes aspectos, promovendo uma abertura dialógica entre gerações.

Segundo, pelo fato de que a contemporaneidade vem consolidando uma sociedade pautada pelo tripé do individualismo, do narcisismo e do egoísmo. Fechados em suas bolhas, os indivíduos estão sim, avessos às manifestações do afeto. Estão menos empáticos, solidários, fraternos, amorosos, ... Algo que não repercute apenas nas suas relações com o mundo; mas, dentro do próprio núcleo familiar. Um sinal claro de que estão vivendo sob uma fragilidade e uma vulnerabilidade extrema no que diz respeito a construir o seu porto seguro, o seu alicerce afetivo-emocional.

Então, quando a história do livro se transporta para as telas dos cinemas e passa a ser contada para milhares de espectadores, é como se a cultura brasileira fizesse as pazes com a sua gente. Um laço de afeto se restabelece, a partir da possibilidade de se perceber a importância cultural para a construção da nossa identidade, da nossa historicidade. De repente, se descobre que a cultura do outro não nos satisfaz inteiramente. Precisamos da nossa! Precisamos saber quem somos!

Porque, “A cultura é um processo contínuo em que se acumulam conhecimentos e também práticas que resultam da interação social entre indivíduos. Esse processo é mediado pela língua, que permite que a cultura seja transmitida e difundida entre as gerações, daí compreendemos que a cultura de um povo constitui-se como um todo que é realizado por cada indivíduo, afinal, cada um é peça importante na construção cultural, uma vez que é portador, disseminador, mas também criador de cultura” (Coelho; Mesquita, 2013, p.27 1).

Desse modo, só me cabe dizer que o prêmio recebido por Fernanda Torres simboliza sim, um arauto de libertação cultural contra o domínio de uma cultura sobre todas as outras e de uma desconstrução do nosso complexo de vira-lata, pela força de um afeto que afaga a nossa identidade nacional. Provou-se, de uma vez por todas, que “A evidência de que o mundo é culturalmente diverso não pode mais ser ignorada, nem mesmo por aqueles que não gostam dessa realidade e até lutam contra ela” (Agustí Nicolau Coll, 2002  2). Portanto, somos bons! Muito bons! Talentosos e competentes! Nossa cultura não está aquém de nenhuma outra!



1 COELHO, L. P.; MESQUITA, D. P. C. de. Língua, Cultura e Identidade: Conceitos intrínsecos e interdependentes. ENTRELETRAS, Araguaína/TO, v.4, n.1, p.24-34, jan./jul.2013. 

2 COLL, A. N. Proposta para uma diversidade intercultural na era da globalização. São Paulo: Instituto Pólis, 2002. 124p. (Cadernos de proposições para o Século XXI, 2).

domingo, 5 de janeiro de 2025

A Medicalização da “Felicidade”


A Medicalização da “Felicidade”

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Não é necessário ser nenhum expert para perceber o nível de pressões e tensionamentos sociais, as quais vivem a população contemporânea. Sob diferentes formas, milhões de seres humanos são levados a se equilibrar, diariamente, por conta de uma extenuante jornada de tarefas, obrigações e compromissos, imersos em uma teia invisível de ritos e protocolos sociais a serem seguidos.  

Ora, o resultado disso não poderia ser outro! A população global está adoecendo; sobretudo, do ponto de vista mental. Ao comprometer a sua saúde identitária, essas pessoas tendem a reverberar uma série de consequências, altamente perigosas. De modo que elas vão perdendo a sua capacidade de se manter, muitas vezes, inseridas e aceitas socialmente. E para evitar esse dissabor social, muitas delas acabam recorrendo à chamada medicalização.

É, ao invés de estabelecerem um balanço a respeito da sua realidade, indo ao cerne das questões que, de fato, desestabilizam a sua estrutura psicoemocional, elas vão pelo atalho arriscado de substâncias psicoativas de uso farmacológico, tais como os opioides e os ansiolíticos. No entanto, o uso contínuo e prolongado desses medicamentos leva à dependência, com uma série de consequências adversas ao seu estado de saúde e às suas relações interpessoais. Estabelecendo um ciclo difícil de ser rompido.

Assim, estamos diante de uma medicalização da “felicidade”. Para fazer frente à frenética busca pela aceitação, pertencimento, reconhecimento, produtividade e sucesso, o ser humano recorre às substâncias psicoativas. Inclusive, porque elas lhe conferem uma certa proteção, quanto à estigmatização conferida ao uso de outras substâncias, tais como o álcool, a maconha, a cocaína, o crack. O uso de medicamentos acontece, geralmente, de maneira discreta e privada, sem a presença de outras pessoas.

Então, o usuário tem a falsa impressão de que não está transitando pelo caminho do vício, apenas está se medicando em relação a certas manifestações de transtorno mental, ou seja, depressão, bipolaridade, estresse pós-traumático, transtorno obsessivo-compulsivo, transtornos alimentares, ...  Ele acredita estar se tratando de questões que ele próprio identificou, que o incomodam e precisam ser resolvidas de algum modo; mas, de maneira bastante particular.

Acontece que toda medicação produz efeitos colaterais diversos, dependendo do organismo humano. Cada corpo responde de uma maneira específica à quantidade e ao tempo de exposição à uma dada substância química. De modo que esse processo tende a estabelecer uma série de consequências que não podem mais ser ocultadas no campo das relações sociais. De repente o indivíduo, à revelia do seu autocontrole, passa a manifestar mudanças tão abrutas no seu comportamento e nas suas emoções, que essas passam a afetar diretamente na sua inserção social.

O que significa que essa medicalização não só é um problema de Saúde Pública; mas, também, de caráter socioeconômico.  Há uma visível restrição social a essas pessoas, inclusive, no campo de trabalho. Algo que tende a acentuar e a agravar o seu quadro de dependência química. A crise dos opioides, por exemplo, que mata mais de 200 pessoas por dia nos EUA merece total atenção da sociedade e das autoridades mundiais. Porque, “Medicamentos como fentanil, codeína e oxicodona são analgésicos eficazes e seguros quando prescritos por um médico. Mas, sem orientação de especialista ou para uso recreativo, há um alto risco de o indivíduo desenvolver dependência” 1.

Vejam a que ponto a sociedade de consumo chegou! A ideia de que tudo poderia ser adquirido nas melhores lojas do ramo, ao preço acessível de cada bolso, chegou ao limite de fazer milhões de pessoas acreditarem que a sua felicidade, o seu bem-estar, o seu equilíbrio psicoemocional, estaria disponível em cápsulas ou comprimidos. A medicalização da “felicidade” é mais um reflexo da insalubridade mental que toma conta de legiões de seres humanos na contemporaneidade.

Em suma, há uma necessidade urgente a respeito, pois esse processo, o qual transforma, artificialmente, questões não médicas em problemas médicos, afeta a sociedade como um tudo e sob diferentes maneiras. Já dizia Érico Veríssimo que a “Felicidade é a certeza de que a nossa vida não está se passando inutilmente”. Portanto, esse é o ponto de análise e reflexão, resgatar a dignidade e os direitos humanos, de maneira plena e profunda, a fim de que o significado e a significância da vida possam transcender ao próprio indivíduo.