sexta-feira, 23 de setembro de 2022

A estranha teimosia em flertar com a violência


A estranha teimosia em flertar com a violência

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Se há algo que não se pode negar em relação a esses quatro anos de gestão da direita e seus matizes, no Brasil, é a comprovação irrefutável de que é inútil tentar anular ou invisibilizar as camadas mais populosas da pirâmide social.

Pois é, eles tentaram fazer um governo da elite para elite; mas, se esqueceram de combinar com as conjunturas e com os imponderáveis da vida. De modo que depois de toda a avareza mental e material sobre a qual tentaram construir sua fortaleza de poder, tiveram que abrir as burras, os cofres, e colocar o dinheiro na pista, como benesses de última hora.

O que explica tanto ódio, tanto desprezo, tanta fúria, sendo destilada no país. Lamento, mas a aposta de que a riqueza compra o sossego, na medida em que satisfaz a todos os desejos, é uma falácia. O dinheiro não blinda o ser humano em relação ao curso da vida. Ela é o que é. Achismos e quereres não subtraem essa lógica. Idealizações são só idealizações. Por isso eles estão descontrolados.  

Daí a necessidade de entender que a exacerbação da violência no país, não tende a se resumir apenas nesse momento de pleito eleitoral. Uma mudança de governo, conforme apontam as pesquisas, não vai extinguir a efervescência do descontentamento num piscar de olhos. Afinal, trata-se de algo enraizado na identidade nacional brasileira, desde a sua gênese colonial.  

O Brasil se ergueu a partir das desigualdades socioeconômicas, na garantia do imobilismo social, na exploração e na precarização do trabalho, no desrespeito e na objetificação das minorias sociais, no elitismo das camadas detentoras dos poderes. Portanto, ainda que certos indivíduos exerçam a representação desse modelo, o que dá sustentação a ele são os simpatizantes às suas ideias no estrato social.

Ou seja, um grupo relativamente significante de pessoas que não quer abrir mão de uma pseudo zona de conforto, que lhes parece garantir mínimas regalias e privilégios materiais e subjetivos. E são elas, do lado de fora dos centros político-partidários de representação, que continuarão defendendo esses pontos de vista, seja de maneira civilizada ou não. O que significará uma tensão constante rondando pelo ar.   

É curiosa essa ideia de encapsular o Brasil em uma bolha tão desconectada da realidade. Primeiro, porque à revelia da vontade de uns e outros, a impossibilidade de homogeneizar o pensamento, o comportamento e a dinâmica humana é um fato, dada a pluralidade e a diversidade existencial.

Segundo, porque amarrar o país a essa ideia é colocá-lo em uma posição de isolamento no campo geopolítico internacional, em razão do desajuste, do desalinhamento discursivo com o progresso e o desenvolvimento em curso no planeta. Haja vista os recentes discursos das principais potências econômicas mundiais na Conferência das Nações Unidas, em Nova Iorque.

Caro (a) leitor (a), são tempos de guerra, tempos de fome, tempos de empobrecimento, tempos de eventos climáticos extremos, tempos de total incerteza. Enquanto o Brasil se gaba de ampliar a lista de bilionários na Revista Forbes, o Mapa da Fome avança sobre a sua bandeira e prova como a má distribuição de bens e riquezas não consegue fazer dele um protagonista no cenário mundial.

Sim, porque milionários, bilionários, trilhardários que seja, nada disso fez do contexto socioeconômico nacional um modelo de pujança, de planejamento, de crescimento. Os quatro últimos anos mostraram números pífios se comparados a outros países em conjunturas semelhantes. E nem venham lançar a culpa toda sobre a pandemia! Ela foi só um aditivo perverso sobre algo que já não ia nada bem.

De modo que o calafrio que sobe pela espinha, nesse momento, é pelo obscurantismo que reveste a realidade socioeconômica atual. As alvissareiras notícias que vêm sendo aspergidas pelos veículos de comunicação, não chegam plenas de verdade; mas, repletas de ressalvas pouco esmiuçadas em relação aos prognósticos de um futuro breve. De modo que, antes do que se imagina, essa pequena esperança pode perder lugar para o desalento, mais uma vez.

Acontece que para a direita e seus matizes nada disso parece importar. Porque, de fato, nunca importou! Eles se recusam terminantemente a admitir que sem a base da pirâmide o topo não se sustenta, e continuam a trabalhar na oposição da dignidade humana, do bem-estar coletivo nacional.  Sustentando a ideia de que direitos são benefícios destinados apenas para gente como eles. Daí não se poder mais dissociar as violências das práticas e discursos aporofóbicos.

Portanto, não é e nem nunca foi a figura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva o que incomoda. Não é o Partidos dos Trabalhadores o que incomoda. Não são os escândalos de corrupção o que incomoda. O que incomoda para a direita brasileira e seus matizes é a perda da hegemonia do controle social, segundo os seus interesses e convicções. É o confronto discursivo que se estabelece pelo antagonismo ideológico e humanitário que sustenta os seus poderes ou pseudopoderes.    

Daí a necessidade urgente de entender que “A violência, seja qual for a maneira como ela se manifesta, é sempre uma derrota” (Jean-Paul Sartre). A violência não muda o status quo da sociedade. Não apaga, não invisibiliza, não elimina os problemas, os obstáculos, os desafios. Tudo continua existindo até que a força das conjunturas chegue suficientemente avassaladora para desconstruir e ressignificar. Se assim não fosse, quanta coisa incrível não teria emergido a partir das guerras, dos conflitos, das pequenas violências do cotidiano, não é mesmo?

Então, contra as violências, a incivilidade, os absurdos, tenhamos sempre em mente que “Os verdadeiros democratas não são aqueles histéricos que exigem isto e reivindicam aquilo, que dizem que precisamos de não sei quê e que vamos todos morrer estúpidos se não fizermos não sei que mais. São os que vivem e deixam viver. São os que respeitam as opiniões, as excentricidades e as manias dos outros, sem ceder à tentação de os desconvencer à força” (Miguel Esteves Cardoso – As Minhas Aventuras na República Portuguesa).


quinta-feira, 22 de setembro de 2022

Primaveras...


Primaveras...

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

E a primavera começa hoje, no hemisfério sul! Tempo de celebrar a retomada do curso da vida! Depois de tempos frios, sisudos, improdutivos, melancólicos, profundamente tristes e desesperados, eis que a beleza multicolorida da vida se espalha pelos campos da existência humana. As energias se renovam. Os ares ficam menos pesados. Como se cada cantinho de nós e do mundo estivesse em festa.

Como diz o evangelho cristão, “Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu” (Eclesiastes 3:1). Deveríamos nos atentar sobre isso! A vida não flui, necessariamente, segundo as nossas vontades e quereres. Cabe à modulagem das conjunturas as determinações do que é e do que será em comunhão com nossas escolhas e decisões.

As próprias estações do ano nos mostram isso. Vejam que apesar de todos os pesares impostos ao equilíbrio do meio ambiente, nem por isso, elas deixam de chegar e cumprir o seu rito. Podem não desfrutar do mesmo brilho, da mesma força, da mesma pujança; mas estão lá, firmes e fortes nas suas possibilidades de ser, de existir. Uma sinalização muito clara de que não podemos tudo!

Por isso mesmo as palavras de Cecília Meireles fazem tanto sentido: “Renova-te. / Renasce em ti mesmo. / Multiplica os teus olhos, para verem mais. / Multiplica-se os teus braços para semeares tudo. / Destrói os olhos que tiverem visto. / Cria outros, para as visões novas. / Destrói os braços que tiverem semeado, / Para se esquecerem de colher. / Sê sempre o mesmo. / Sempre outro. Mas sempre alto. / Sempre longe. / E dentro de tudo” (Cântico XIII).

Afinal de contas, o fundamento da primavera é esse, um resgate da essência, um olhar introspectivo que ao se renovar de tempos em tempos se transforma e dá a luz a um outro renascer, ou seja, ser o mesmo e outro simultaneamente. Traduzindo em miúdos, “Mude suas opiniões, mantenha seus princípios. Troque suas folhas, mantenha suas raízes” (Victor Hugo).

É assim que a passagem do tempo vai lapidando o que temos de melhor e nos possibilitando transformar o que não é. Autônomos para realizar as escolhas, para tomar as decisões, o resultado das primaveras é, em parte, nossa responsabilidade.  Aliás, isso diz respeito a todas as estações.

Daí a necessidade de entender que elas não acontecem dissociadas umas das outras, o que significa que as escolhas, as decisões, não são meramente transitórias. Elas repercutem, elas se propagam por uma genuína necessidade processual. A vida no seu todo indivisível! Sob os efeitos das suas primaveras, verões, outonos e invernos a fim de nos mostrar o que conseguimos ser até ali, naquele recorte de tempo.

E aí vem Cora Coralina para mostrar que tinha razão, “Se a gente cresce com os golpes duros da vida, também podemos crescer com os toques suaves na alma”! É justamente isso o que as estações nos reafirmam, quando elas não acontecem apenas de fora para dentro; mas, sobretudo, de dentro para fora.

É nesse contexto que se torna possível entender o quanto “é preciso sentir a necessidade da experiência, da observação, ou seja, a necessidade de sair de nós próprios para aceder à escola das coisas, se as queremos conhecer e compreender” (Émile Durkheim).

Aproveite, então, essa primavera que começa hoje, como quem veste não só uma roupa nova, mas uma alma nova. O momento pede despojar-se do antigo, do retrógrado, do obsoleto, do antiquado. Pede criatividade, inventividade, ousadia, inovação. Tudo com muita identidade, muita autenticidade, é claro!

Como declarou Santos Dumont, “Inventar é imaginar o que ninguém pensou; é acreditar no que ninguém jurou; é arriscar o que ninguém ousou; é realizar o que ninguém tentou. Inventar é transcender”. E seja que primaveras forem, todas sempre apontam esse caminho, ou seja, transcender, que nada mais é do que desabrochar.  


quarta-feira, 21 de setembro de 2022

Diante do ponto de inflexão


Diante do ponto de inflexão

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Como muitos já perceberam, esse é um pleito eleitoral atípico, ou seja, com diferenças importantes de análise se comparado aos anteriores.

Seja pelos cenários que se configuraram ao longo desses quatro anos, seja pelas transformações inerentes ao próprio movimento humano, fato é que as especulações e conjecturas precisam ter cautela para não se apresentarem como verdades absolutas.

Mesmo porque, depois de um encontro inesperado com um inimigo invisível que ceifou mais de 685 mil brasileiros, e continua a ceifar, as perspectivas da população sobre a dinâmica da vida e do seu cotidiano foram radicalmente alteradas. O que se viu, o que se sentiu, o que se experimentou nesses três anos de pandemia foi avassalador, até mesmo para os mais insensíveis e céticos.

O mundo mudou! Não foi só o Brasil. Não foi só a cidade, ou o bairro, ou a rua, ou a família. Metaforicamente, foi como se um tsunami tivesse varrido e deixado um rastro de escombros materiais e imateriais por onde passou.

Bem, considerando as desigualdades que imperam sobre o mundo, não é de se espantar que os mais afetados nesse processo foram os mais vulneráveis e desassistidos. No entanto, as rupturas, os esgarçamentos, no âmbito do tecido social foram tão drásticos que a recuperação se vislumbra tardia no horizonte para todos.

Diante disso, para um contingente populacional bastante significativo, a chegada de um novo pleito eleitoral, de certa forma, chega banhado por expectativas, por esperanças positivas.

O abandono, a negligência, o descaso, a invisibilização que acabou fazendo parte do cotidiano dessas pessoas as faz refutar a sua continuidade. Elas sabem que o seu próprio bem-estar físico, psíquico e emocional depende de uma certa estabilidade, de um porto seguro.

Por esta razão é que os sinais que se apresentam, cada dia mais intensos, dão conta de que elas estão se segurando com todo afinco aos seus fiapos de fé, de crença e de confiança, para transformá-los em decisão cidadã nas urnas.  

Assim, ao contrário de outros pleitos, não me parece que esse venha a ser desenhado por uma consistente abstenção. Tudo o que se viveu nesse recorte temporal de quatro anos, e ainda se vive, no país, não passa indiferente e, por essa razão, desperta um posicionamento cidadão nas pessoas.

As insatisfações agora são muito maiores, muito mais complexas, ultrapassando figuras político-representativas para traduzir aspirações e demandas cotidianas de sobrevivência.

Tanto que a movimentação de jovens entre 15 e 18 anos para retirar o título e votar pela primeira vez, foi surpreendente. A convocatória que se criou a partir do apelo de grandes personalidades, nacionais e internacionais, levou a garotada a se engajar na discussão política do país.

Do mesmo modo, idosos acima dos 70 anos, os quais são dispensados de votar pelo limite etário, decidiram atualizar o documento para cumprir o exercício cidadão em 02 de outubro.

Portanto, ninguém me parece disposto a abrir mão do voto, como já aconteceu. O choque de realidade, em relação ao curso da história nesses últimos quatro anos, foi um divisor de águas para a transformação opinativa dos cidadãos quanto ao papel e a significância da política em suas vidas.

Como se o brasileiro (a) tivesse despertado de um torpor secular e se entendido como um ser político, um ser capaz de interferir na dinâmica da realidade. 

As tentativas de persuasão, inclusive com agrados e benesses de última hora, por exemplo, não repercutiram positivamente como em outros tempos, porque as pessoas se descobriram donas das suas escolhas, das suas decisões.

Tem-se que considerar, também, o papel das Tecnologias da Informação e da Comunicação (TICs) nesse movimento. Ainda que a desigualdade se faça presente no acesso a elas, o número de pessoas com celulares e planos de internet é bastante expressivo.

O que favorece a aquisição de um volume de informação vasto e diversificado que colabora nessa transformação cidadã. As camadas mais populares do estrato social estão cada vez mais antenadas ao que acontece na sua realidade e por essa razão, dispostas a questionar o que lhes afeta e incomoda.

Portanto, pensar na abstenção como fava contada para desequilibrar as projeções estatísticas das pesquisas eleitorais não faz muito sentido diante do panorama atual.

Exceto pelo fato de que algum candidato esteja vendo nesse cenário possibilidades de reversão do seu contexto desfavorável e se empenhando muito em defender, sob diferentes bandeiras, essa ideia.

Aliás, vimos isso acontecer nas recentes eleições norte-americanas. Mas, contrariando a tudo e a todos, os eleitores foram surpreendentes em fazer prevalecer a sua cidadania e exercer o seu direito de voto, que lá é facultativo. Não teve chuva, nem vento, nem frio, nem nada, que os demovesse da ideia de participar das eleições.

Então, não é difícil de entender esse movimento. Afinal, as conjunturas pulsam por mudanças capazes de conter a expansão das crises socioeconômicas que se instalam nos países e afetam diretamente a vida das pessoas.

No caso brasileiro, ninguém mais duvida de que o país arrastou correntes nesse período e não saiu do lugar, porque os fatos são implacáveis no confronto com as retóricas vazias daqueles que tentam vender um país totalmente distante da realidade. Nem grande parte dos brasileiros acredita. Nem tampouco os estrangeiros.   

Como dizia Mahatma Gandhi, “Seja a mudança que você quer ver no mundo”. Mas, para tal é necessário que tenhamos sempre a consciência de que “Há coisas que são resolvidas por governos. Há coisas que nenhum governo é capaz de resolver. Seremos nós, com o tempo que nos for concedido, que resolveremos. Por via da nossa cidadania em construção” (Mia Couto).

Afinal, “Mesmo quando tudo parece desabar, cabe a mim decidir entre rir ou chorar, ir ou ficar, desistir ou lutar; porque descobri, no caminho incerto da vida, que o mais importante é o decidir” (Cora Coralina). Pense nisso! Esse é o ponto de inflexão!