sábado, 31 de outubro de 2026
sexta-feira, 30 de outubro de 2026
Sobre o EU e o NÓS, quando o assunto é felicidade, ética e justiça
Sobre o
EU e o NÓS, quando o assunto é felicidade, ética e justiça
Por
Alessandra Leles Rocha
Segundo a canção de Tom Jobim, “É
impossível ser feliz sozinho...” 1. Bem, o Maestro Brasileiro falava
de emoções e sentimentos; mas, eu tomo a liberdade de realizar um outro tipo de
análise, restrita ao sentido das palavras em si.
Assim, minha proposta de reflexão
parte do ponto de que o individualismo narcísico contemporâneo vem estabelecendo
não só uma relativização da ética, como da justiça.
Parece cada vez mais comum que os
seres humanos estejam acreditando que é sim possível ser feliz sozinho,
inclusive, apegados em suas próprias deformidades morais e frágeis casulos ideológicos.
Veja, quando o EU se torna a
única medida de valor, os conceitos coletivos desmoronam. A máxima do "o
que é bom para mim é o certo" substitui os imperativos morais
universais, de modo que a ética deixa de ser um pacto coletivo e vira uma
justificativa de interesses pessoais.
Por isso, decidi lhe trazer alguns
exemplos cotidianos sobre essa questão, para fazer você pensar um bocadinho.
Aguardar na fila é um pacto de
respeito mútuo ao tempo e à dignidade dos outros. No entanto, pela lógica do EU,
o pensamento se baseia pela ideia de que "se eu passar na frente, eu
ganho tempo. O atraso dos outros não é problema meu." Assim, a regra
social só vale se for vantajosa para o indivíduo; caso contrário, é vista como
um obstáculo a ser burlado.
Pagar impostos financia serviços
compartilhados essenciais como saúde, educação, infraestrutura, necessários
para a existência da própria sociedade. Aí, pela lógica do EU, cruza o
pensamento certas ideias como: "Por que vou pagar se não uso o hospital
público?" ou "Se eu sonegar um pouco, não faz diferença".
O que leva o dever cívico a ser rebaixado a um cálculo de custo-benefício
estritamente pessoal e indiferente a qualquer responsabilidade coletiva.
Há décadas o mundo vem discutindo
as questões de sustentabilidade socioambiental. Inclusive, defendendo que preservar
a água, o meio ambiente ou o espaço urbano é o que permite garantir que todos
continuem tendo acesso a eles no futuro.
Mas, pela lógica do EU, há sempre
alguém que diga: "Se eu poluir, gastar excessivamente ou descartar lixo
aqui, o prejuízo é diluído no meio de todo mundo, mas o meu conforto é imediato".
Isso significa que a lógica do benefício se torna individualizado e o custo passa
a ser empurrado para o coletivo. Fazendo parecer que a ilusão de que o “estrago”
pode ser dividido por todos, tornando o impacto individual invisível. Só que não.
Quando um ecossistema é afetado,
as consequências geram um efeito cascata que atinge a economia, a saúde pública
e a qualidade de vida de toda a população. Inclusive, é fundamental lembrar de
que a degradação ambiental severa gera os chamados Refugiados Climáticos,
pessoas que precisam deixar suas terras porque elas se tornaram inabitáveis ou
improdutivas.
Reconhecer direitos trabalhistas
e proteções sociais como conquistas que garantem dignidade mínima a quem produz,
repercute diretamente no bem-estar e desenvolvimento coletivo. Porém, pela
lógica do EU, a ideia é "Cada um por si. Se eu consigo aceitar receber
menos ou trabalhar sem rede de proteção para pegar a vaga do outro, o problema
é de quem não se adaptou". Acontece que é em razão desse tipo de ideia
que a exploração foi renomeada como mérito individual, ou seja, as condições
precárias de trabalho e a perda de direitos trabalhistas foram maquiadas com um
discurso motivacional de sucesso pessoal.
Por essas e outras, a justiça
passa a ser confundida com a satisfação dos próprios desejos. Assim, o
indivíduo deforma o conceito de direito, exigindo tudo para si e
desobrigando-se de qualquer dever para com a comunidade.
Nesse cenário, então, a perda da
consciência sobre o valor ético da justiça, quando ela é confundida com o
capricho individual e a busca pelo interesse próprio, promove a desintegração do
tecido social. Tendo como principais consequências desse fenômeno o egoísmo
institucionalizado, a corrosão da empatia e o colapso do pacto coletivo.
Num piscar de olhos, a cooperação
mútua desaparece, pois as ações deixam de visar o bem-estar coletivo e passam a
focar apenas no ganho pessoal.
Como os desejos individuais são
frequentemente conflitantes, a ausência de uma régua ética comum faz com que as
disputas sejam resolvidas pela força, pelo poder econômico ou pela influência,
e não pelo que é justo.
Portanto, há uma perda da
capacidade de enxergar o outro como um sujeito de direitos equivalente, gerando
indiferença perante as desigualdades e o sofrimento alheio.
No campo das instituições
políticas e jurídicas, as leis e os tribunais passam a ser vistos não como
instrumentos de equidade, mas como ferramentas de privilégio para quem pode
manipulá-los.
Desse modo, o conceito de direito
é corrompido, deixando de ser uma garantia universal e universalizável para se
transformar em uma vantagem pessoal ou corporativista.
Sem um norte ético compartilhado,
a aplicação das regras torna-se casuística, variando de acordo com as
conveniências do momento.
Tudo isso torna inevitável que os
cidadãos comportem-se como consumidores mimados do Estado e da comunidade,
exigindo satisfação imediata de suas demandas sem qualquer senso de
responsabilidade ou sacrifício pelo grupo.
Ocasionando, inclusive, a uma normalização
da corrupção do cotidiano, na medida em que atitudes individualistas, como
furar filas, sonegar ou burlar regras pequenas, passam a ser justificadas
socialmente como mecanismos de defesa ou de esperteza.
Bem, como se vê a partir dessa
breve exposição, a justiça desprovida de ética deixa de ser o cimento que une a
sociedade e passa a ser a picareta que a demole, transformando a vida
comunitária em uma arena de egoísmos concorrentes.
Nesse sentido, a sociedade contemporânea
parece ter esquecido de que ela não sobrevive se cada um olhar apenas para o
próprio umbigo, considerando que a justiça precisa de um ecossistema ético para
garantir que todos vivam bem juntos.
Quando a ética é retirada da
justiça, as leis passam a ser usadas como armas para defender privilégios
individuais ou de grupos específicos. E aí, o que deveria ser união se
transforma em destruição.
Acontece que em uma arena de puro
egoísmo, a máxima da primeira frase se concretiza de forma trágica, ou seja,
torna-se literalmente impossível ser feliz, pois o medo, a desconfiança e a
injustiça passam a governar as relações humanas.
Portanto, o individualismo
radical é uma ilusão autodestrutiva, porque tenta anular a própria
matéria-prima da existência humana que é a alteridade, a relação com o outro.
Ao tentar se isolar ou se
sobrepor à coletividade, o indivíduo destrói a estrutura social que garante
seus próprios direitos, sua segurança e sua sanidade mental.
A liberdade e a felicidade, então,
não são conquistas que ocorrem apesar da sociedade, mas sim através dela. De
modo que a sociedade depende inevitavelmente da qualidade das suas relações humanas.
Sem o tecido social preservado, a
busca individualista pela felicidade frequentemente se converte em isolamento e
sofrimento psíquico.
Algo que afeta diretamente a
segurança jurídica, porque sem um tecido social forte, as pessoas deixam de
acreditar nos pactos coletivos, gerando instabilidade.
Afinal de contas, o isolamento e
o enfraquecimento das relações humanas reduzem a capacidade de mediação
pacífica de conflitos, o que sobrecarrega o sistema de justiça com disputas
constantes, afetando a previsibilidade do direito.
Por essa razão é que as normas jurídicas precisam ser socialmente reconhecidas como justas. Quando a busca individualista corrói a empatia e a coesão, as leis passam a ser vistas como meras imposições e não como um reflexo do bem comum.
1 Wave
(1967) / Compositor: Antônio Carlos Jobim (Tom Jobim).
https://www.youtube.com/watch?v=RwxEEgp4BG4&list=RDRwxEEgp4BG4&start_radio=1
quinta-feira, 29 de outubro de 2026
Segundo Michel Foucault, “Precisamos resolver nossos monstros secretos, nossas feridas clandestinas, nossa insanidade oculta”.
Segundo Michel
Foucault, “Precisamos resolver nossos monstros secretos, nossas feridas
clandestinas, nossa insanidade oculta”.
Por
Alessandra Leles Rocha
Apesar de a Direita em todos os
seus matizes mais ou menos extremistas terem alcançado uma maioria expressiva
para o Congresso Nacional na próxima legislatura, o resultado das urnas para a
Presidência da República trouxe não só um desconforto; mas, uma instabilidade
organizacional para os membros desse espectro político-partidário. Sobretudo,
após a fuga inesperada do seu candidato recém-derrotado para os EUA.
Não vamos nos esquecer de que o
poder costuma exercer sobre os indivíduos uma rivalidade pela disputa de
posições e influências. Trata-se da autofagia política em que um grupo,
partido, corrente ou liderança política promove sua própria destruição ou
enfraquecimento por meio de conflitos internos, disputas, escândalos ou divisão
de bases.
Nesse sentido, até que haja uma
pacificação político-ideológica no campo da direita brasileira, é precipitado
tecer conjecturas sobre o seu próprio posicionamento no cenário político dos
próximos pleitos. Inclusive, porque certas ideias que circularam a partir desses
mesmos indivíduos ainda ecoam de maneira indigesta entre o eleitorado nacional.
Em razão do fato de que elas reacendem
certos ranços coloniais históricos sobre determinados segmentos sociais; mas,
que se encontram totalmente desalinhados da realidade contemporânea do século
XXI. Nesse contexto incluem-se o racismo, a xenofobia, a misoginia, a intolerância
religiosa, a sanha depredatória dos recursos naturais, a eliminação dos povos
originários e remanescentes quilombolas.
Tanto que, ainda sob o calor das
tensões ideológicas discursivas que vieram à tona no pleito eleitoral de 2026,
trazidas por elementos do espectro político da Direita, em todos os seus
matizes mais ou menos extremistas, povos indígenas de Mato Grosso do Sul, como
os Guarani Kaiowá e Terena, denunciaram uma escalada de violência, ameaças de
morte e manifestações racistas logo após o segundo turno das eleições. As
denúncias foram formalizadas pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil
(APIB) e por parlamentares. Elas apontam para ataques coordenados com motivação
política após a divulgação do resultado eleitoral.
O cenário de hostilidade inclui
relatos graves de agressões físicas, tentativas de homicídio contra lideranças
de comunidades tradicionais e ameaças de envenenamento da água em retaliação ao
resultado das urnas. De modo que as denúncias foram encaminhadas a órgãos
federais e ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por configurarem crime de
violência política.
Diante das ocorrências, o
Ministério Público Federal (MPF) passou a apurar o caso criminalmente, e os
ministérios dos Povos Indígenas (MPI), dos Direitos Humanos e da Cidadania
(MDHC) e da Igualdade Racial (MIR) formaram uma força-tarefa conjunta para monitorar
a segurança das aldeias e também apurar episódios semelhantes dirigidos a
comunidades quilombolas e povos de terreiro.
Também, proliferaram as denúncias
de empregadores e políticos que têm promovido campanhas contra funcionários que
tenham votado no candidato à Presidência da República que se sagrou vencedor. Veja,
o assédio eleitoral e a perseguição política no ambiente de trabalho são
ilegais e constituem crime no Brasil, mesmo após o encerramento das eleições.
O Ministério Público do Trabalho
(MPT) registrou uma explosão de denúncias após o segundo turno das Eleições
2026, motivada por publicações de políticos, empresários e influenciadores
digitais incentivando a demissão ou o boicote de trabalhadores que declararam
voto ou manifestaram apoio ao presidente reeleito.
Além disso, o cenário pós-segundo
turno das Eleições 2026 também gerou uma onda inédita de movimentos coordenados
de boicote comercial nas redes sociais, a partir da disseminação de listas de
estabelecimentos, incluindo restaurantes, comércios e prestadores de serviços,
associados a apoiadores ao presidente reeleito, de forma viral no ambiente
digital.
Vale ressaltar que essa práxis pautada
pelo método da exclusão, utilizando o mapeamento, a exposição pública e a conclamação
da sociedade para sufocar economicamente um grupo específico de cidadãos
unicamente em virtude de sua identidade, pensamento ou posicionamento político,
é preocupante e inconstitucional.
Preocupante porque ela fere
princípios fundamentais da democracia, dos direitos humanos e da livre
iniciativa. A democracia pressupõe a coexistência de pensamentos divergentes.
Mecanismos de sufocamento buscam impor uma homogeneidade ideológica pelo medo,
eliminando a diversidade de opiniões. Tratar o oponente político não como
alguém que pensa diferente, mas como um inimigo que deve ser destruído
financeiramente, destrói a empatia e a coesão social.
Mas, talvez, a pior consequência
seja o surgimento da Espiral da Vingança. Sim, quando o grupo hoje minoritário
ou boicotado alcançar o poder ou a maioria econômica, a tendência natural é que
ele utilize as mesmas armas de exclusão contra os seus antigos algozes, gerando
um ciclo interminável de perseguição mútua.
Assim, a preocupação passa a
residir no fato de que esse método substitui as ferramentas democráticas de
persuasão, voto e debate pela coerção econômica e pela segregação social,
aproximando a sociedade de lógicas autoritárias de perseguição, como já se viu
outras vezes no curso da historicidade humana.
Sobre ser inconstitucional, aos que
desconhecem o texto da Carta Magna de 1988, a manifestação do pensamento é
livre, sendo vedado o anonimato, segundo o art. 5º, inciso IV. A perseguição baseada em convicções políticas
fere o pluralismo político, que é um dos fundamentos da República, art. 1º, inciso
V. O art. 5º, inciso X, garante a proteção à intimidade, à vida privada, à
honra e à imagem das pessoas, assegurando o direito à indenização por dano
material ou moral decorrente de sua violação. O sufocamento econômico
intencional pode violar o princípio da livre iniciativa e do livre exercício de
qualquer trabalho, ofício ou profissão, conforme estabelece o art. 5º, XIII e o
art. 170. Por fim, todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer
natureza, sendo proibidas discriminações atentatórias aos direitos e liberdades
fundamentais (art. 5º).
Dessa forma, sob a ótica do
ordenamento jurídico, métodos de exclusão que visam punir civil ou
economicamente cidadãos pelo simples exercício de sua identidade ou
posicionamento político violam o pacto democrático e os direitos fundamentais. Afinal,
a punição civil ou econômica baseada na identidade ou convicção política
transforma a divergência democrática em um mecanismo de segregação social e
morte civil.
Isso significa que, na medida em
que o pertencimento a um grupo identitário ou político se torna critério para
sanções econômicas ou civis, tais como demissões, boicotes sistemáticos ou
perda de direitos, o Estado ou a própria sociedade civil opera uma subcidadania.
O que representa uma violência simbólica; pois, é uma forma de dominação que
não utiliza a força física, mas sim mecanismos culturais, econômicos e
institucionais para impor a censura e a marginalização de determinados grupos.
E essa imposição gera um fenômeno
conhecido como Espiral do Silêncio. Os indivíduos
que percebem que suas identidades ou opiniões atraem sanções financeiras ou
exclusão civil tendem a se calar por medo do isolamento ou da ruína econômica. Fato
que estabelece uma falsa unanimidade; pois, empobrece o debate público, criando
uma homogeneidade artificial e sufocando o pluralismo, que é a base vital de
qualquer democracia.
Portanto, quando a punição
econômica entra em jogo, o debate deixa de ser agonístico, uma disputa entre
adversários políticos legítimos, e passa a ser antagônico, uma luta existencial
para aniquilar o outro economicamente ou socialmente. Sendo esse o caminho para
estabelecer a polarização estrutural, na qual o indivíduo perde a capacidade de
transitar por diferentes esferas sociais. A economia, o trabalho e as relações
civis passam a ser filtrados por barreiras ideológicas, fragmentando a
sociedade em bolhas intransponíveis.
Por essas e outras, o que tem se apresentado nos últimos dias no Brasil é o surgimento de um tribunal moral, que não apenas viola a separação entre a esfera pública, onde se debate a política, e a esfera privada e/ou de subsistência; mas, reafirma o anseio de retrocesso histórico manifesto a partir do elitismo que almeja o estrangulamento social com fins de neutralizar uma eventual ascensão de certos grupos sociais.


