domingo, 10 de dezembro de 2017

Dia Internacional dos Direitos Humanos

Direitos humanos, direitos de todos


Por Alessandra Leles Rocha



Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade (Art. 1º da Declaração Universal dos Direitos Humanos, 1948).
Deveria ser simples assim. Essa condicionalidade já nos dá um bom indicativo das razões pelas quais isso não acontece. Infelizmente, a racionalidade humana parece só conseguir enxergar a vida e suas nuances através da complexidade.
Diferentemente de outras espécies animais, nossas regras de coexistência fogem a objetividade, a simplicidade que de fato garantiria a sua sobrevivência. Muitos pesos para milhões de medidas, levando em conta, na maioria das vezes, interesses próprios e nada altruístas. Somos, portanto, animais egoístas, incapazes de pensar e agir voluntariamente em prol da sua espécie.
Considerando o princípio básico da existência, o qual afirma que os seres nascem, crescem, reproduzem, envelhecem e morrem, de onde terá surgido a nossa hierarquia capaz de estabelecer escalas de importância e de necessidade para os seres humanos? Por que nos consideramos mais ou menos em relação uns aos outros? Por que precisamos mais ou menos do que uns e outros?
Em todo o mundo milhares de pessoas despendem suas energias em litígios, por conta de interesses que lhes provenham mais riqueza, mais poder, mais status. E por quê? Se a vida é um instante o qual não dispomos o controle na palma das mãos.
De repente, você não abre mais os seus olhos. Você se vai e tudo o que aprendeu, fez, construiu, acumulou ficará para trás. Um tempo de ponderações e reflexões deve lhe permear os pensamentos e, certamente, uma boa dose de arrependimentos e tristezas irá apertar os seus sentimentos, fazendo-lhe a seguinte pergunta: valeu a pena? 
“Tudo vale a pena. Se a alma não é pequena”, diria Fernando Pessoa. Mas, mais uma vez, para o ser humano não é tão simples assim. Sua alma tem sempre um peso morto a impedi-la de ser livre, de ser feliz, de ser simplesmente humana. Ela é uma acumuladora por excelência; sobretudo, de defeitos. Acumula arrogância, prepotência, ganância, indiferença,... Como se tudo isso fosse importante para viver.
Diante da cortina fechada, das luzes apagadas, essa compreensão nos dá a dimensão exata do que poderíamos ter sido, ter feito, ter realizado de belo, de justo, de sagrado; mas, já é tarde. Nosso corpo frio e inerte, agora entende que direitos humanos são direitos de todos; mas, fazer o quê?
Por isso, é importante enxergar a si e ao mundo sempre, abdicando da cômoda posição de indiferença que teima em nos envolver. Se você tem direitos, os outros também tem. Se você tem deveres, os outros também. A vida é assim. A igualdade que todos os códigos, leis e doutrinas pregam parte justamente dessa lógica tão simples, tão fundamental, ou seja, a essência que nos torna humanos.
Etnia, credo, gênero, profissão, religião, interesses,... por detrás de todos esses rótulos está um ser humano. Que ri, chora, sofre, luta, vive os altos e baixos do cotidiano, tentando manter a sua dignidade. Ele sonha como você; mas, talvez não sejam os mesmos sonhos. Ele trabalha como você; mas, talvez não seja o mesmo trabalho. Ele aprende como você; mas, talvez não seja da mesma forma. Ele reza como você; mas, talvez não seja o mesmo credo. ...Mas, nem por essas pequenas diferenças, ele deixa de ser humano como você.
Em tempos de tensão, de guerra, de conflitos iminentes, não podemos acreditar que omissões possam ser menos dolosas do que os atos em si. Ao ignorarmos o ser humano estamos nos ignorando, nos colocando em uma posição de superioridade e conforto que na verdade não existe. Somos todos “a bola da vez”. Portanto, defender ou não os direitos humanos é simplesmente uma forma de demonstrar a existência (ou não) do nosso amor próprio, do nosso próprio amor.   

domingo, 3 de dezembro de 2017

"Bendita seja a data que une a todo mundo numa conspiração de amor". Hamilton Wright Mabi

Natal…
 Por Alessandra Leles Rocha


Então é Natal… O ano passou na velocidade da luz e já nos preparamos para seu findar.  Foram dias intensos sob uma atmosfera de tensão jamais imaginada. Tudo muito instável, muito difícil, muito angustiante. O desequilíbrio entre boas e más notícias faz com que as últimas prevaleçam e estremeçam nossas esperanças.
Mas, aqui estamos. Dezembro é o mês de se fazer um balanço da vida. Hora de se despir das fantasias e adereços e cair em si sobre o que é realmente essencial. Independente de qual seja a sua fé, o próprio sentimento de agregação familiar que o período propõe desperta para grandes reflexões.
Depois de tanta luta, tanta guerra, tanto conflito, consigo e com o mundo, corpo e alma pedem um pouco de alento e percebem a necessidade de se melhorar, de evoluir. De repente, passamos a enxergar as picuinhas do cotidiano na exata dimensão que elas têm. Passamos a reavaliar nossas prioridades. Estabelecemos novos compromissos.
Quando nos dispomos a abdicar das aparências, das máscaras, dos protocolos, nossos olhos passam realmente a enxergar. Enxergar a si, a vida, ao outro. A visão pode não ser tão bela, tão aprazível; mas, mesmo nas piores imagens, descobrimos que é possível aprender, agregar conhecimento e redimensionar os próprios valores.
Sabe, ninguém é 100% certo nem 100% errado. Somos um pouco de tudo, de defeitos e de virtudes. Somos humanos e é nessa condição que precisamos trabalhar em busca de uma evolução consciente e consistente por uma coexistência melhor. Isso se chama fraternidade e tem um efeito transformador indizível.
Entendemos, então, o real significado da troca de presentes. O gesto de presentear significa oferecer a alguém algo que possa torná-lo (a) essencialmente feliz. Nem sempre essa gota de felicidade está relacionada com algo material. Há muitas formas de presente, pois há muitas demandas pelo ser humano. Talvez, a mais significativa entre todas, em nosso tempo, seja simplesmente perceber a presença do outro.
Não, isso não é bobagem. Temos nos tratado uns aos outros como seres invisíveis. Quando muito, e para alguns poucos, temos dispensado migalhas de tecnologia e só. Nessa invisibilidade temos tecido uma solidão coletiva que se não mata, fere como um punhal. Afinal de contas, na contramão desse processo, contrariando o discurso do invisível, todo indivíduo quer pertencer, ser aceito, ser amado, ser lembrado.
Segundo José Saramago, em Ensaio sobre a Cegueira, “Fizemos dos olhos uma espécie de espelhos virados para dentro, com o resultado, muitas vezes, de mostrarem eles sem reserva o que estávamos tratando de negar com a boca”. Por isso, você pode comprar milhões de presentes que conseguem até extrair alguns sorrisos e agradecimentos; mas, nada se compara a um gesto de reconhecimento da presença do outro.   
Olhos nos olhos. Um abraço que toca os corações. Um aperto de mãos intenso. Uma palavra que conforta. Enfim... Basta pensar que há situações na vida em que presentes materiais não seriam capazes de alterá-las e, nem tampouco, fazer aflorar uma felicidade genuína.
Ao retirarmos os outros da invisibilidade, também nos tornamos visíveis. E isso é verdadeiramente fortalecedor na construção de uma sociedade mais justa, mais solidária, mais criativa, mais inovadora. Sonhos começam a ser compartilhados. Diferenças começam a se somar em torno de um propósito comum. E o respeito passa a ser diretriz de todas as ações.
Esse é o verdadeiro Natal! Que não dura apenas uma noite. Que não acalenta a alma apenas por algumas horas. Que não se restringe a uns poucos. Que está ao alcance das mãos, dos olhos, do coração.