A personalização
da raiva
Por Alessandra
Leles Rocha
Quem assistiu ao filme COMER,
REZAR, AMAR (2010), a protagonista Liz Gilbert faz uma comparação com a
atriz Ingrid Bergman, dentro de uma reflexão sobre a pressão da perfeição,
aceitando sua própria imperfeição e reconhecendo o sagrado em si mesma.
Ela diz: “A verdade da
aventura aqui na Índia está em uma fala: Deus reside dentro de você, como você.
Ele não quer ver uma performance de como alguém espiritualizado se veste e se
comporta. A garota quieta que passeia com um sorriso etéreo e gentil. Quem é
essa pessoa? É Ingrid Bergman, em ‘Os sinos de Santa Maria’. Essa não sou eu.
Deus reside dentro de mim, como eu”.
E por que me lembrei disso? Bem, o
discurso contemporâneo sobre a liberdade esconde aspectos bastante importantes
para ficarem obscuros ou serem negligenciados. A começar pelo fato de que incide
sobre as emoções e os sentimentos uma questão de gênero, que ao longo de
séculos e séculos têm causado efeitos extremamente nocivos ao equilíbrio
social.
Sim. A divisão social que atribuiu
racionalidade aos homens e emotividade às mulheres é uma construção histórica.
E essa imposição de papéis limitou a expressão humana legítima e gerou um
abismo de desigualdades. Razão pela qual é tão importante questionar e analisar
essa questão para que se torne possível romper com esses estereótipos e
humanizar o direito ao sentimento, como um passo fundamental para uma sociedade
mais justa e saudável.
Quantas vezes você já não ouviu,
por aí, alguém rotular uma mulher como “histérica”, “descompensada”, “briguenta”,
“barraqueira”, ..., quando ela estava expressando a sua raiva?! Por trás desses
e outros adjetivos pejorativos o que se esconde é a existência de uma imposição
social que pune as mulheres, desde crianças, a não manifestarem suas emoções e
sentimentos a fim de não ferir os padrões sociocomportamentais preestabelecidos
para elas. E quais são eles? Bem, a partir dos adjetivos você descobre.
Submissa. Dócil. Delicada. Abnegada. Recatada. Protetora. Prendada. Zelosa. Maternal.
...
Mas, se um homem fala mais alto, ou
xinga, ou bate a mão na mesa, ou discute, ninguém diz absolutamente nada. Porque,
segundo as históricas convenções do patriarcado, o sistema social em que o
homem detém o poder principal, tal comportamento está alinhado à sua liberdade
de expressão. Isso significa que ele foi historicamente legitimado pela
sociedade, diga-se os seus próprios pares, para se comportar dessa forma.
Acontece que é parte da natureza
humana a manifestação das emoções e sentimentos. Isso não tem nada a ver com gênero.
Reprimir o que sentimos, o que pensamos, vai contra a nossa própria biologia. Emoções
e sentimentos funcionam como bússolas internas que auxiliam no modo como o ser
humano se coloca diante do mundo e reafirma o seu papel social como cidadão.
E pensando à luz da
contemporaneidade, esses são tempos em que o volume cotidiano de tensões desnecessárias
é tão grande, que por mais que se deseje manter uma aura zen budista, quando o
indivíduo se dá conta ele (a) já explodiu. Aliás, eu trago um pouco desses
estopins na crônica “A desumanização nossa de cada dia” 1, apontando
como esse é um assunto muito sério.
Afinal, grande parte da raiva
sentida nasce justamente do processo de desumanização. O que no caso das
mulheres é acrescido pela arbitrariedade de uma repressão protocolar das
emoções e dos sentimentos. Como se ela fosse obrigada a passar pelos episódios de
desumanização e não tivesse o direito de expressar suas emoções e sentimentos,
porque é mulher. Desse modo, em termos de dor, de sofrimento, de violência, as
mulheres são obrigadas a aceitar a revitimização das desumanizações sofridas
para não fugir aos protocolos e etiquetas sociais historicamente definidos para
elas.
Mas, a pergunta que não quer
calar é: até quando? Ora, as mulheres têm total direito de sentir e expressar
suas emoções, seus sentimentos, incluindo a raiva. Estamos falando de algo que traduz
uma resposta natural do corpo humano diante de injustiças ou limites violados. Portanto,
a raiva não deve ser negada a ninguém por causa do gênero.
Reconhecer e expressar a raiva
evita o adoecimento emocional decorrente do acúmulo de emoções e sentimentos
reprimidos. Por isso, ela impede o esgotamento emocional e ajuda a impor
limites necessários. Sim, ela avisa quando um limite pessoal foi violado ou
quando alguém sofre uma injustiça, fornecendo a energia necessária para mudar
situações abusivas ou desconfortáveis.
Não se esqueça de que a raiva
guardada se transforma em tensão muscular, dores de cabeça, problemas
digestivos e baixa imunidade. O que em longo prazo faz emergir o adoecimento
mental, que significa um acúmulo contínuo de raiva e outros sentimentos
negativos capazes de gerar quadros de ansiedade, de ressentimento periódico e de
depressão.
Razão pela qual reprimir a raiva funciona
como uma panela de pressão, ou seja, o resultado final costuma ser uma explosão
desproporcional.
Assim, a chave para a saúde
mental não é evitar a raiva, mas buscar alternativas e caminhos para lidar com
ela. Começando pela validação dos próprios sentimentos e emoções, como algo
legítimo e humano. Ainda que estejamos falando de raiva.
Depois, canalizando a expressão,
a partir de uma forma mais assertiva ou descarregando toda a fúria energética de
forma segura através de exercícios físicos ou de escrita terapêutica, por
exemplo.
O fundamental é não esquecer de que
essas sugestões não são um manual infalível. Às vezes vai dar certo. Outras não.
Afinal, a vida é assim, na sua dinâmica de altos e baixos, de idas e vindas, porque
todo ser humano é um ser em franca construção.








