sexta-feira, 31 de julho de 2026

A personalização da raiva


A personalização da raiva

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Quem assistiu ao filme COMER, REZAR, AMAR (2010), a protagonista Liz Gilbert faz uma comparação com a atriz Ingrid Bergman, dentro de uma reflexão sobre a pressão da perfeição, aceitando sua própria imperfeição e reconhecendo o sagrado em si mesma.

Ela diz: “A verdade da aventura aqui na Índia está em uma fala: Deus reside dentro de você, como você. Ele não quer ver uma performance de como alguém espiritualizado se veste e se comporta. A garota quieta que passeia com um sorriso etéreo e gentil. Quem é essa pessoa? É Ingrid Bergman, em ‘Os sinos de Santa Maria’. Essa não sou eu. Deus reside dentro de mim, como eu”.

E por que me lembrei disso? Bem, o discurso contemporâneo sobre a liberdade esconde aspectos bastante importantes para ficarem obscuros ou serem negligenciados. A começar pelo fato de que incide sobre as emoções e os sentimentos uma questão de gênero, que ao longo de séculos e séculos têm causado efeitos extremamente nocivos ao equilíbrio social.

Sim. A divisão social que atribuiu racionalidade aos homens e emotividade às mulheres é uma construção histórica. E essa imposição de papéis limitou a expressão humana legítima e gerou um abismo de desigualdades. Razão pela qual é tão importante questionar e analisar essa questão para que se torne possível romper com esses estereótipos e humanizar o direito ao sentimento, como um passo fundamental para uma sociedade mais justa e saudável.

Quantas vezes você já não ouviu, por aí, alguém rotular uma mulher como “histérica”, “descompensada”, “briguenta”, “barraqueira”, ..., quando ela estava expressando a sua raiva?! Por trás desses e outros adjetivos pejorativos o que se esconde é a existência de uma imposição social que pune as mulheres, desde crianças, a não manifestarem suas emoções e sentimentos a fim de não ferir os padrões sociocomportamentais preestabelecidos para elas. E quais são eles? Bem, a partir dos adjetivos você descobre. Submissa. Dócil. Delicada. Abnegada. Recatada. Protetora. Prendada. Zelosa. Maternal. ...

Mas, se um homem fala mais alto, ou xinga, ou bate a mão na mesa, ou discute, ninguém diz absolutamente nada. Porque, segundo as históricas convenções do patriarcado, o sistema social em que o homem detém o poder principal, tal comportamento está alinhado à sua liberdade de expressão. Isso significa que ele foi historicamente legitimado pela sociedade, diga-se os seus próprios pares, para se comportar dessa forma.

Acontece que é parte da natureza humana a manifestação das emoções e sentimentos. Isso não tem nada a ver com gênero. Reprimir o que sentimos, o que pensamos, vai contra a nossa própria biologia. Emoções e sentimentos funcionam como bússolas internas que auxiliam no modo como o ser humano se coloca diante do mundo e reafirma o seu papel social como cidadão.

E pensando à luz da contemporaneidade, esses são tempos em que o volume cotidiano de tensões desnecessárias é tão grande, que por mais que se deseje manter uma aura zen budista, quando o indivíduo se dá conta ele (a) já explodiu. Aliás, eu trago um pouco desses estopins na crônica “A desumanização nossa de cada dia” 1, apontando como esse é um assunto muito sério.

Afinal, grande parte da raiva sentida nasce justamente do processo de desumanização. O que no caso das mulheres é acrescido pela arbitrariedade de uma repressão protocolar das emoções e dos sentimentos. Como se ela fosse obrigada a passar pelos episódios de desumanização e não tivesse o direito de expressar suas emoções e sentimentos, porque é mulher. Desse modo, em termos de dor, de sofrimento, de violência, as mulheres são obrigadas a aceitar a revitimização das desumanizações sofridas para não fugir aos protocolos e etiquetas sociais historicamente definidos para elas.

Mas, a pergunta que não quer calar é: até quando? Ora, as mulheres têm total direito de sentir e expressar suas emoções, seus sentimentos, incluindo a raiva. Estamos falando de algo que traduz uma resposta natural do corpo humano diante de injustiças ou limites violados. Portanto, a raiva não deve ser negada a ninguém por causa do gênero.

Reconhecer e expressar a raiva evita o adoecimento emocional decorrente do acúmulo de emoções e sentimentos reprimidos. Por isso, ela impede o esgotamento emocional e ajuda a impor limites necessários. Sim, ela avisa quando um limite pessoal foi violado ou quando alguém sofre uma injustiça, fornecendo a energia necessária para mudar situações abusivas ou desconfortáveis.

Não se esqueça de que a raiva guardada se transforma em tensão muscular, dores de cabeça, problemas digestivos e baixa imunidade. O que em longo prazo faz emergir o adoecimento mental, que significa um acúmulo contínuo de raiva e outros sentimentos negativos capazes de gerar quadros de ansiedade, de ressentimento periódico e de depressão.

Razão pela qual reprimir a raiva funciona como uma panela de pressão, ou seja, o resultado final costuma ser uma explosão desproporcional.

Assim, a chave para a saúde mental não é evitar a raiva, mas buscar alternativas e caminhos para lidar com ela. Começando pela validação dos próprios sentimentos e emoções, como algo legítimo e humano. Ainda que estejamos falando de raiva.

Depois, canalizando a expressão, a partir de uma forma mais assertiva ou descarregando toda a fúria energética de forma segura através de exercícios físicos ou de escrita terapêutica, por exemplo.

O fundamental é não esquecer de que essas sugestões não são um manual infalível. Às vezes vai dar certo. Outras não. Afinal, a vida é assim, na sua dinâmica de altos e baixos, de idas e vindas, porque todo ser humano é um ser em franca construção.


quinta-feira, 30 de julho de 2026

A desumanização nossa de cada dia


A desumanização nossa de cada dia

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Não, não é preciso grandes acontecimentos para se deparar com a desumanização na contemporaneidade. Aqui, ali ou acolá, eles surgem para tirar ou negar a humanidade de uma pessoa ou de um grupo, fazendo com que a empatia desapareça, permitindo a indiferença, a violência e a falta de cuidado com as fragilidades e as vulnerabilidades do outro.

O que pouca gente se dá conta é de que a desumanização tem efeito coletivo, na medida em que qualquer um que esteja com os pés fincados no planeta pode ser a bola da vez. Afinal, esse processo se prolifera e se espalha diariamente, por todos os lugares. Cada um carrega consigo uma coletânea de desumanizações sofridas cotidianamente.

A raça humana tem convivido com a desumanização tecnológica e algorítmica, que diz respeito não só à redução de pessoas a meros dados, números ou avatares em redes sociais, como também pelo atendimento automatizado obrigatório que substitui o contato humano real por robôs.

Assim, essa substituição de pessoas por chatbots em bancos, comércios e serviços públicos ou privados, vem dificultando a solução de problemas complexos, em razão de três limitações principais, ou seja, a rigidez dos roteiros e falhas na interpretação de contexto, a incapacidade de lidar com emoções e a falta de empatia, e a ausência de integração com sistemas internos para exceções.

Tudo isso faz com que o (a) consumidor (a) precise explicar o mesmo caso várias vezes ao reiniciar a conversa ou passar por etapas automatizadas. Especialmente, porque o sistema automatizado muitas vezes não acessa o histórico completo ou os dados profundos de outras áreas da empresa para resolver a raiz da falha.

Em suma, ao contrário de agilizar, o robô atua como uma barreira burocrática que impede o acesso rápido a um profissional capacitado e gera no (a) cidadão (ã) um nível de estresse e de ansiedade descomunal.

Outra forma de desumanização é a burocrática e institucional. Expressa por um atendimento frio e demorado em serviços públicos ou privados de saúde e assistência, no qual o cidadão é exposto a um protocolo de filas intermináveis e soluções inacessíveis.

Suas consequências mais comuns são a transformação de pessoas em números, a perda de tempo com exigências desnecessárias ou equivocadas e o adoecimento emocional do cidadão. Mais uma vez, a desumanização repercutindo diretamente no bem-estar do indivíduo, a partir de quadros profundos de ansiedade, depressão, sensação de insignificância e esgotamento emocional.

Portanto, essa forma de desumanização decorrente das instituições que priorizam suas próprias regras internas ao contrário das necessidades reais das pessoas, torna o sistema mais importante que o (a) cidadão(ã) e o atendimento perde totalmente a empatia; pois, a burocracia vira o objetivo final, deixando de ser apenas um meio.

Nesse cenário, também, se estabelece o desamparo social, a partir da sensação de isolamento e de que ninguém se importa com o seu problema, da invisibilidade que reafirma ao indivíduo a perda da sua história e, desse modo, o torna apto a ser tratado apenas como um prontuário. Até que se chega ao mais absoluto esgotamento, decorrente de um cansaço físico promovido por Via Crucis de longas filas acrescida pelo estresse mental de não conseguir soluções.

Há, também, a desumanização social manifesta pela perda de valores éticos, da empatia e do reconhecimento do outro como ser humano. De repente, os indivíduos ou grupos são destituídos de sua condição humana, deixando de ser vistos como seres sociais. Como consequência se tem a manipulação das relações humanas, o colapso da coesão comunitária e o aumento da violência estrutural.

A realidade torna-se preenchida por uma perda da compaixão, permitindo que o sofrimento alheio passe a ser ignorado e encarado com apatia geral. O que permite dizer que há a naturalização do descaso, ou seja, as situações extremas, tais como a fome ou a falta de assistência médica, tornam-se banais e desimportantes. Possibilitando uma análise que se traduz pelo individualismo exacerbado, no qual a busca pelo ganho privado anula o senso de responsabilidade coletiva.

Sem contar o fato de que a desumanização social e o capitalismo dos corpos estão profundamente conectados pela transformação da vida humana em pura mercadoria, onde o corpo do cidadão deixa de ser um sujeito dotado de dignidade para se converter em instrumento de produção, exaustão e descarte.

Tem-se, então, que o sistema produtivo passe a exigir que o corpo funcione com a precisão de uma máquina, ignorando limites físicos, dores e necessidades emocionais em favor da alta produtividade.

Lembrando que essa exploração, em geral, se apoia em recortes de raça, gênero e classe para definir quais corpos merecem proteção e quais podem ser violentados ou superexplorados sem culpa institucional.

Aí, quando o corpo perde o vigor físico, o rendimento esperado ou a utilidade imediata para o lucro, ele é tratado como excedente ou lixo social, sendo invisibilizado ou abandonado à margem da insegurança social profunda.

O que explica porque é cada vez mais comum encontrar um panorama em que as populações desumanizadas apresentam um adoecimento generalizado, fruto de uma pressão contínua que gera fadiga crônica, sofrimento psíquico e colapso da saúde mental e física, tratados pelo mercado apenas como queda de rendimento, impulsionando o descarte dessas pessoas.

Há, portanto, uma normalização da barbárie. tendo em vista de que a lógica do ganho financeiro acima da vida naturaliza situações extremas de descaso com a integridade física e mental nas relações sociodemográficas.

Dizia Hanna Arendt, filósofa política alemã de origem judaica, “Vivemos tempos sombrios, onde as piores pessoas perderam o medo e as melhores perderam a esperança”. De fato, quando olhamos para a desumanização em suas diferentes formas e conteúdos, entendemos que há sim, uma inversão ética onde a audácia da crueldade substitui a prudência, enquanto a resistência apenas sucumbe ao desânimo.

Os pequenos poderes representam um comportamento em que os indivíduos usam uma autoridade pequena ou passageira para agir com excesso de poder, grosseria e controle sobre os outros.

Acontece que desse ponto de partida, os tiranos e oportunistas agem à luz do dia, transformando a violência e a mentira em práticas comuns e aceitas. Portanto, permitindo que as leis e as normas éticas deixem de ser respeitadas, a fim de que aqueles que cometam abusos não temam mais a violência ou a reprovação social.

Simplesmente, o que se tem é uma legitimação da ideia de que todos os indivíduos comuns que venham a executar ações cruéis, desumanas, sejam amparados pela certeza da impunidade ou pela força do grupo. Diante disso, o desalento tende a retirar, lenta e gradualmente, a força motriz necessária para a resistência cívica e a defesa da liberdade e da dignidade humana.

sexta-feira, 24 de julho de 2026

A liturgia profissional em crise


A liturgia profissional em crise

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

As relações de trabalho sempre mereceram espaço de análise e reflexão pela sociedade. São muitos os vieses que apontam para desafios que precisam encontrar com urgência uma solução equilibrada e satisfatória. Contudo, um ponto parece passar à margem dessas discussões, embora, seja de suma importância na medida em que afeta diretamente o próprio desempenho laboral do indivíduo; mas, também, a sociedade em si.

Estou me referindo à liturgia profissional ou do cargo. Ela é a expressão máxima de um conjunto de regras de comportamento, respeito, vestimenta e linguagem exigida de uma pessoa que ocupa uma posição de autoridade ou serviço, tanto público quanto privado. No entanto, basta uma olhada daqui e dali, para se descobrir que essa liturgia está em crise.

Essa crise é gerada pela hiperconexão digital, pela busca excessiva pela informalidade e pelo esgotamento das formas tradicionais de autoridade, presentes na realidade contemporânea.  A exigência de parecer autêntico e comum nas redes sociais desvaloriza a sobriedade, a distância respeitosa e os ritos formais inerentes às funções profissionais.

Algo que associado ao ritmo veloz da comunicação digital prioriza o apelo midiático imediato e o discurso performático em detrimento do peso institucional e do silêncio reflexivo da cargo ocupado. Sem contar a existência de uma recusa contemporânea às classificações e símbolos formais, a qual vêm corroendo a percepção de que certas funções são excluídas de um recato comportamental ético e estrito perante a sociedade.

Por isso, nos mais diferentes espaços profissionais é possível encontrar indivíduos exercendo suas atividades na contramão de uma expectativa já consolidada ao longo do tempo. Adotam posturas, vestimentas e linguagens em momentos profissionais que pertencem à intimidade ou ao lazer. Há um exacerbado personalismo, no qual o cargo passa a servir ao ego ou à ideologia da pessoa, em vez de a pessoa servir ao seu propósito profissional.

O pior é que essa crise também reflete a perda de profundidade técnica e intelectual nas funções exercidas. O que claramente debilita o valor do saber especializado, esvazia o sentido dos papéis sociais e reduz a prática a uma mera reprodução burocrática, muitas vezes, sem a menor qualidade.

Afinal de contas, o esvaziamento do conhecimento produz uma substituição do domínio conceitual sólido por fórmulas prontas e superficiais, que gera queda de competência, evidenciando a falta de preparo crítico para lidar com critérios complexos e mudanças nos diferentes campos do conhecimento, reafirmando uma total precariedade intelectual.

Desse modo, o foco muda do saber real para a simulação do saber; pois, a atual liturgia ignora a necessidade de atualização constante frente a um mercado dinâmico. Assim, as diferentes profissões e cargos perdem o respeito legítimo quando ocupados por profissionais sem o repertório intelectual necessário, permitindo que diplomas e posições virem adornos estéticos em vez de atestados de capacidade técnica prática.

Há um ponto importante nisso que é o fato de a tecnologização contemporânea possibilitar a intensificação dessa perda de profundidade técnica, fazendo com que a crise da liturgia profissional amplifique e intensifique a automatização das rotinas, a padronização dos saberes e o esvaziamento do sentido ritual do trabalho.

Acontece que diante do discurso de que a tecnologia substitui o tempo gasto e o espaço de aprendizagem prático, os quais davam sentido e identidade às corporações de ofício, a busca por resultados imediatos prioriza a velocidade em detrimento do rigor intelectual e da reflexão crítica, fato capaz de se comprovar pela substituição de processos mentais complexos por algoritmos que reduzem a exigência de repertório técnico profundo.

Razão pela qual a dependência de ferramentas tecnológicas padronizadas diminuiu a autonomia e a criatividade na tomada de decisões, fazendo com que o exercício profissional perdesse o seu valor de ofício respeitado e passasse a ser visto como mera execução de tarefas, por profissionais que operam sistemas sem compreender a lógica ou a origem dos problemas que resolvem.

E quem perde com esse movimento? Todos. A sociedade perde o acesso a serviços essenciais bem-feitos, enfrenta lentidão, burocracia sem sentido e falta de segurança nos serviços prestados. O que poucos profissionais se dão conta, apesar de que deveriam, é que estão perdendo o seu valor de mercado, o respeito e orgulho do próprio trabalho, pois a falta de preparo reduz a confiança em sua capacidade.

Quando o emoji de rede social substitui o argumento técnico e o comportamento de botequim substitui a postura profissional, a liturgia aqui discutida entrou em colapso. Quando os locais de exercício profissional deixam de ser vistos como instâncias neutras e respeitáveis, a falta de decoro e de técnica abre margem para narrativas autoritárias que questionam a própria utilidade desses espaços.

Por essas e outras, então, o profissional bem preparado e atualizado acaba sendo escanteado porque suas ponderações técnicas atrapalham narrativas simplistas ou populistas, reforçando erraticamente a ideia de que o esforço de anos em universidades e especializações pode perder o valor frente ao carisma digital e à espetacularização midiática.

Mas, como toda essa realidade é feita de ilusão, no fim das contas, os poucos profissionais que detêm o conhecimento técnico e cumprem com dignidade à liturgia dos cargos ou funções que ocupam acabam trabalhando o dobro para corrigir os erros absurdos e os incidentes causados por todos aqueles visivelmente despreparados para ocupar e desempenhar uma função laboral.

No entanto, há de se refletir que “Não corrigir nossas falhas é o mesmo que cometer novos erros” (Confúcio – filósofo chinês). Afinal, ignorar um problema nos leva a repetir o ciclo da falha e é justamente isso que tem fomentado a crise da liturgia profissional e da perda de profundidade técnica e intelectual nas funções exercidas.

domingo, 19 de julho de 2026

A ilusão de objetividade na era dos dados


A ilusão de objetividade na era dos dados

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

A consciência sobre a realidade da vida é sim, para muitos, desafiadora. Por quê? Porque ela, de certa forma, obriga a uma ação, a um posicionamento, a uma atitude, sob pena de resignar-se à indiferença, à omissão, à negligencia, que cobra um ônus ético e moral pesado.

Afinal, quando o indivíduo adquire esse nível de consciência, a ignorância deixa de ser uma desculpa. Daí a exigência de um posicionamento ativo. Pois, diante de uma injustiça ou um problema, o silêncio deixa de ser neutro e passa a ser uma escolha.

Acontece que a negligência cobra um preço alto da integridade humana, na medida em que o maior juiz passa a ser você mesmo, sabendo que traiu seus próprios valores ao escolher a indiferença, o silêncio.

Mas, o estopim dessa reflexão é necessidade de discutir a relação dessa consciência com a ideia de dados subestimados. Bem, isso significa a quantidade ou a proporção de um fenômeno que foi calculada ou registrada de forma incompleta, fazendo com que o número final pareça menor do que deveria.

O termo é muito usado em áreas como saúde, demografia, economia e meio ambiente para descrever situações onde há subnotificação, quando os dados reportados nos canais oficiais não refletem o número total de ocorrências que realmente existem, gerando estatísticas distorcidas, ou falhas na coleta de informações.

E diante da existência de dados subestimados acaba-se por legitimar e constituir uma percepção distorcida e equivocada do mundo, como se certas situações não existissem, impedindo que as medidas cabíveis fossem tomadas. E são muitos os exemplos a respeito.

Quando as vítimas deixam de registrar boletins de ocorrência, isso faz com que certas regiões pareçam estatisticamente seguras, mascarando a criminalidade real. Sem o registro, o Estado perde a oportunidade de iniciar investigações, identificar crimes e prevenir novos delitos, o que encoraja os infratores.

Quando falta a testagem em massa, em contextos de endemias, epidemias ou pandemias, o números oficiais ficam muito abaixo da realidade, gerando uma falsa impressão de que a doença está controlada, levando ao relaxamento precoce de medidas preventivas.

Quando o medo de retaliação, a vergonha ou a dependência financeira fazem com que muitos casos não sejam denunciados, as autoridades podem subestimar a gravidade da violência do gênero, a violência doméstica e o assédio, em uma comunidade com base nesses dados.

Quando o impacto de atividades humanas e os riscos climáticos são frequentemente calculados abaixo da realidade, isso pode comprometer o combate às mudanças climáticas. Essa discrepância entre a realidade técnica e os dados divulgados reflete-se na sociedade; sobretudo, dificultando o engajamento da população na adoção de práticas sustentáveis cotidianas.

Como se vê, há uma relação direta entre a construção de um mundo melhor, mais justo e solidário e o enfretamento aos dados subestimados, pois a invisibilidade estatística é uma das maiores barreiras para a efetivação de direitos e políticas públicas.

Dados que não refletem a realidade, permitem que diversas populações seja submetidas aos efeitos das desigualdades e problemas estruturais permaneçam sem solução. As principais consequências desse problema incluem, portanto, a invisibilidade pública com populações marginalizadas que deixam de existir nos planos governamentais se não forem contabilizadas corretamente; os erros de orçamento, considerando que as verbas são distribuídas com base em estimativas defasadas, deixando áreas necessárias sem recursos mínimos; o mascaramento do racismo  a partir da falta de recortes étnico-raciais detalhados em dados de segurança pública e emprego, os quais impedem a criação de políticas afirmativas eficientes; e, a perpetuação de ciclos, na medida em que os problemas estruturais tornam-se invisíveis no papel, fazendo com que pareçam inexistentes ou menos urgentes.

Para romper com essas barreiras, não somente os censos e pesquisas nacionais precisam evoluir constantemente; mas, o próprio senso crítico da sociedade, diante da ilusão estatística, em que se aceitam médias e grandes números como verdades absolutas, ignorando as suas nuances.

É fundamental questionar a metodologia por trás do número. Afinal, populações vulneráveis, trabalhadores informais e comunidades periféricas mudam mais rapidamente do que os manuais de coleta, razão pela qual é preciso incluir recortes de raça, gênero, identidade e território de forma cada vez mais refinada para evitar apagamentos históricos. Bem como, adotar geoprocessamento e índices de dados em tempo real para reduzir as margens de erro.

Além disso, é preciso construir um letramento de dados, no qual os cidadãos, os jornalistas e os tomadores de decisão tenham que aprender a ler o que está implícito ou ausente nos gráficos. Exercendo um questionamento de neutralidade em que se entenda que a escolha do que se pergunta, e do que se deixa de perguntar, em um censo já é uma decisão política e social. Daí a necessidade de dar voz local, de validar a experiência vivida pelas comunidades, que muitas vezes contraria a normalidade linear apresentada pelos números oficiais.

A sociedade contemporânea precisa compreender, de uma vez por todas, que os dados servem para iluminar os problemas, mas dados mal desenhados ou mal interpretados funcionam como uma cortina de fumaça que perpetua desigualdades, desrespeitos, omissões e violências.

Porque esses são tempos em que dados históricos usados ​​para treinar uma inteligência artificial acabam por refletir uma sociedade desigual, com racismo, machismo ou elitismo estrutural, de modo que a máquina apenas aprenderá a replicar e a escalar essas discriminações. Nesse sentido, números dão um ar de legitimidade às decisões, de modo que essas se tornam mais difíceis de contestar porque a matemática provou que é assim.

E a consequência direta desse processo é a exclusão de minorias; pois, quando grandes conjuntos de dados não representam de forma justa as populações marginalizadas, essas pessoas simplesmente desaparecem das políticas públicas, da cidadania do país. Haja vista que a quantificação da complexidade humana em métricas simplificadas, que ignoram as nuances, as histórias de vida e as vulnerabilidades, permite que as omissões e as violências sejam justificadas como meros danos colaterais.

Portanto, não se esqueça de que os dados não nascem prontos na natureza. Eles são coletados, categorizados e interpretados por seres humanos e sistemas que carregam visões de mundo. Quando um indicador é mal desenhado, mal interpretado, ele mascara a realidade e serve como desculpa e instrumento para a omissão ou para a manutenção de regalias e privilégios de alguém e/ou de certos interesses.

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Sempre é tempo de lutar contra as tiranias


Sempre é tempo de lutar contra as tiranias

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

14 de julho de 1789, eis a maior das marcas históricas, a Tomada da Bastilha, evento que deflagrou a Revolução Francesa. A prova de que a tirania monárquica podia ser desafiada. Se enganam os que pensam que essa história só diz respeito aos franceses. Não. Ela é importante para todos os seres humanos, desde então.

Por quê? Porque a tirania se manifesta de várias formas ao longo da história. Tiranos em todo o mundo ascendem prometendo segurança e ordem durante períodos de guerra, instabilidade econômica ou colapso social.

Aí, monopolizam a verdade, a partir da supressão de opiniões divergentes e por meio do controle da propaganda buscam ditar como a população deve pensar e agir.

Até que essa estrutura alcance o seu limite na expressão da desigualdade e da exclusão, tendo em vista de que esses regimes opressivos frequentemente se aproveitam de vulnerabilidades socioeconômicas para manter o poder e o controle nas mãos de poucos.

Então, apesar da Revolução Francesa ter cumprido um papel vital para a humanidade, era também impossível que ela, sozinha, conseguisse exterminar a tirania da face da Terra. Pois se trata de uma manifestação de poder que aparece desde os primórdios da civilização humana.

Sim, quando o indivíduo percebeu que poderia exercer o seu poder de forma ilegítima ou abusiva, frequentemente, se valendo da força e da supressão das liberdades individuais.

Nesse sentido, então, se torna possível compreender que a luta contra a tirania exige vigilância contínua, pois ela não se limita a isso ou aquilo, na medida em que ela permeia as relações sociais, locais e institucionais.

Portanto, essa resistência diária envolve questionar os abusos de autoridade, defender os direitos humanos e promover a participação cidadã, em relação aos mais diversos assuntos, em todas as esferas de poder.

Aí, se pensarmos que, lá no século XVIII, a Revolução Francesa promove uma luta contra a tirania monárquica em favor da sobrevivência das camadas mais frágeis e vulneráveis da população, eis que o século XXI, nos confronta com a necessidade de uma outra luta antitirânica diante do risco de colapso da espécie humana no planeta, decorrente não só do negacionismo científico; mas, da mesma ganância que sempre moveu a humanidade.

Portanto, precisamos falar sobre o Antropoceno, um conceito científico, proposto em 2000 pelo químico Paul Crutzen e pelo biólogo Eugene Stoermer, que descreve uma nova época geológica não oficial na qual as atividades humanas passaram a ser a principal força de alteração do clima e dos ecossistemas terrestres.

De modo que nesse cenário, a centralização, o domínio sobre a natureza e a lógica de apropriação dos recursos, iniciada com a Revolução Francesa, evoluiu para o modelo de produção capitalista predatório, no qual a tirania do capital e o produtivismo extremo vem explorando o planeta de forma insustentável e ameaçando a sobrevivência da humanidade; sobretudo, das parcelas mais frágeis e vulneráveis.

Basta olhar para a Islândia, para ver como o derretimento das geleiras e o impacto econômico e cultural já sinalizam como deve se processar o colapso socioambiental no planeta. O país já abriga o primeiro memorial global de geleiras extintas, atuando como um alerta sobre o futuro do clima na Terra. Razão pela qual o país é considerado um laboratório vivo das mudanças climáticas.

Portanto, a luta contra a tirania socioambiental, no século XXI, marcada pela exploração predatória e pela imposição de projetos que ignoram os limites ecológicos e a justiça social exige uma combinação de desobediência civil não violenta, de insurgências decoloniais, de ações diretas e de resistência comunitária e territorial; posto que o propósito dessas rebeldias é subverter as lógicas de poder hegemônico.

Isso significa, então, se posicionar a partir de ações que confrontem deliberadamente as normas administrativas para forçar governos e corporações a responderem à emergência planetária.

A apoiar os movimentos liderados por povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais que desafiam o modelo econômico de produtivismo extremo, recusando a mercantilização da natureza e reafirmando a cosmovisão de que o ambiente é um sujeito vivo e base de existência, e não mero recurso.

E a usar o sistema judicial para subverter a tirania corporativa e governamental, exigindo responsabilização por desastres decorrentes do Antropoceno.

Mas, também, na perspectiva individual, ao construir alternativas cotidianas de produção, tais como a agroecologia e a autogestão de recursos hídricos e florestais, cujas ações se contrapõem à apropriação privada de bens comuns.

Porque essa desobediência intelectual e cultural, que questiona a narrativa oficial de desenvolvimento a qualquer custo, valoriza o conhecimento tradicional e promove uma educação ambiental crítica, tão fundamentais no combate ao esgotamento ecológico e a crise civilizatória contemporânea.

Como se vê, não há como negar que há uma intersecção entre a desigualdade, o racismo ambiental e a crise climática para que haja a formulação dessas resistências. Desse modo, a história nos diz que o denominador comum entre a Revolução Francesa e a luta socioambiental contemporânea é a emancipação humana contra as tiranias que monopolizam a vida.

Em ambos os casos o que se tem é o enfrentamento às estruturas de poder que concentram recursos vitais, exigindo a democratização do acesso aos meios de sobrevivência. A crítica social e ambiental reconhece que a liberdade sem igualdade e sem fraternidade leva à exclusão e ao extermínio da própria espécie. 

segunda-feira, 6 de julho de 2026

A bola fora


A bola fora

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Surpresa zero. Afinal, depois de ter perdido de 7x1 para a Alemanha, o que de fato aconteceu ao futebol brasileiro? Nada. Construímos uma carapaça de lamentações e choramingos; mas, não sacodimos a poeira e demos a volta por cima.

Não entendemos que aquele foi o cisma, a ruptura decisiva com o futebol romântico, e se quiséssemos manter as coisas no seu devido lugar seria necessária uma dose generosa de análise crítica e de reflexão.

O pior adversário é aquele que habita em você. Portanto, o pior adversário da seleção brasileira é ela mesma. Sobretudo, quando se ilude em viver de suas glórias antigas, como se o trabalho fosse feito apenas de lembranças e memórias.

Cada conquista carregou em si mesma os seus desafios, as suas conjunturas, as suas superações. Eram outros personagens, outros recortes de tempo, outros desejos e ambições. De modo que aquelas seleções cumpriram o seu próprio legado e ponto final.

Assim, quem chega tem o dever de construir o seu próprio caminho, a sua própria história, a partir do momento atual. A gestão de uma marca é um processo contínuo, o qual precisa ser reafirmado diariamente para não ser ultrapassado e superado por outras.

Talvez, por isso, carregar o peso da amarelinha seja o maior de todos. Porque se trata de uma marca que já conquistou 5 títulos mundiais, alguns deles sob o forte impacto do encantamento coletivo. E isso, inevitavelmente, gera não só uma cobrança histórica por vitórias, como uma expectativa de continuidade dessa mística.

Entendo e reafirmo que a vida não é uma receita de bolo; mas, alguns parâmetros e valores são fundamentais. A seleção brasileira para se tornar um nome de impacto entendeu desde o princípio que futebol era esporte coletivo, por mais talentos e estrelas que viessem a vestir a sua camisa.

Bastava olhar para os gramados brasileiros para entender que a escolha dos representantes canarinhos era uma tarefa difícil. Tanto que muita gente boa ficou de fora de Copas do Mundo pela simples impossibilidade numérica de convocação. Mas, as equipes nunca foram resumidas a esse ou aquele jogador.

A Seleção Brasileira na final da Copa do Mundo de 1958, por exemplo, contava com Gilmar, Djalma Santos, Bellini, Orlando, Nilton Santos, Zito, Didi, Garrincha, Vavá, Pelé e Zagallo.

Em 1962, foram Gilmar, Djalma Santos, Mauro, Zózimo, Nilton Santos, Zito, Didi, Garrincha, Amarildo, Vavá e Zagallo, na partida final. Valendo destacar que o Amarildo assumiu a titularidade após a lesão de Pelé ainda na fase de grupos. E vejam só, fomos bicampeões mundiais!

Em 1970, a lendária Seleção Brasileira tricampeã mundial teve no conjunto dos 22 convocados, a seguinte estrutura. Os goleiros eram Félix (titular), Ado e Leão. Na defesa, Carlos Alberto (capitão), Brito, Piazza e Everaldo, como titulares, e Baldochi, Fontana, Joel Camargo, Marco Antônio e Zé Maria, na reserva. Como meiocampistas, Clodoaldo e Gérson eram os titulares, e Paulo César Caju era o reserva. E no ataque, Jairzinho, Tostão, Pelé e Rivellino eram os titulares, e Dadá Maravilha, Edu e Roberto Miranda eram os reservas.

Na final da Copa do Mundo de 1994, a escalação era Taffarel, Jorginho/Cafu, Aldair, Márcio Santos, Branco, Mauro Silva, Dunga, Mazinho, Zinho, Bebeto e Romário. E no último título mundial, em 2002, o time que entrou em campo na final foi Marcos, Lúcio, Roque Júnior, Edmílson, Cafu (capitão), Roberto Carlos, Gilberto Silva, Kléberson, Ronaldinho Gaúcho, Rivaldo e Ronaldo Fenômeno.

Veja, essas escalações servem para provar que todos eram estrelas de primeira grandeza, que faziam diferença para se alcançar o objetivo final. Nenhum deles era mais ou menos importante. O time não funcionava por causa desse ou daquele jogador. Todos tinham que estar aptos, capazes de oferecer o seu melhor, para que fosse possível ostentar a identidade do seu país em campo.

Mas, o passado é o passado. Já foi. Já era. O Brasil, um dia potência futebolística do século XX e início do século XXI, não é mais o mesmo. Por isso, não dá para se ancorar nele e esperar acontecimentos surpreendentes agora.

A partir de 2006, a seleção brasileira entrou em um declínio visível, como se a sua identidade nacional tivesse sofrido uma fratura existencial. O time não demonstrava mais a sua genialidade, a sua potencialidade vitoriosa, a sua alma guerreira e combativa.

Apesar das estrelas presentes, o fracasso desse tempo deu início a um longo período de dúvidas. O ponto nevrálgico dessa deterioração parecia ser a dificuldade de adaptação tática ao futebol europeu moderno, que acabava por criar uma sensação de distanciamento entre a Seleção, o Brasil e o torcedor.

A partir dessa perspectiva, a trajetória da Seleção nas Copas do Mundo seguintes foi marcada por eliminações em fases decisivas e debates profundos sobre a perda da essência do futebol brasileiro, da desconexão com a sua identidade nacional; sobretudo, em consequência da formação de atletas focada em exportações prematuras, as quais alteraram a forma como o Brasil desempenha o seu jogo em campo.

Portanto, 2026 foi apenas mais uma bola fora. Um constrangimento desnecessário; posto que, as devidas análises e reflexões sobre os (des)caminhos da seleção nunca estiveram em pauta, para que ocorresse alguma efetiva transformação.

Dizia Nelson Rodrigues, dramaturgo, escritor e jornalista brasileiro, “O escrete é a pátria em calções e chuteiras. Ele representa os nossos defeitos e as nossas virtudes”. Pura verdade! O futebol não ocorre em um vácuo, ela absorve as características do solo onde é gestado; por isso, se às vezes ele traduz genialidade, ginga, criatividade e resiliência, da mesma forma pode, em outros momentos, refletir   a indisciplina, o individualismo, a irregularidade emocional e a propensão ao tanto fez como tanto faz.

Por essas e outras é que uma vitória ou uma derrota da equipe brasileira tende a mimetizar o sucesso ou o fracasso, na medida em que o campo se torna o teatro onde o povo vivencia suas maiores alegrias e suas mais profundas angústias.

Assim, “O futebol é a coisa mais importante entre as coisas menos importantes”, porque “Para nós [brasileiros], o futebol não se traduz em termos técnicos e táticos, mas puramente emocionais" (Nelson Rodrigues).

Daí a necessidade de refletirmos sobre essa sociedade que busca nos heróis do esporte uma compensação psicológica para suas mazelas sociais e políticas, deixando de enxergar e nomear o que significa a própria realidade do futebol e além dele.

terça-feira, 30 de junho de 2026

A humanidade e sua comoção seletiva


A humanidade e sua comoção seletiva

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Infelizmente, observando o fluxo da historicidade humana, cada vez mais me convenço de que o instinto nato de sobrevivência da espécie não dispõe, na verdade, de uma relação direta com o sentimento de comoção.

Apesar de a empatia e a solidariedade terem sido mecanismos fundamentais para a manutenção do Homo sapiens na Terra, a história, de fato, demonstra que essas emoções costumam operar de forma limitada e enviesada.

De modo que, diante de tragédias naturais ou antrópicas, o que se percebe é que a comoção se mostra totalmente assimétrica. Isso significa que a indignação pública, a empatia e a solidariedade são despertadas de forma desigual, ou seja, dependendo de quem são as vítimas, onde o evento ocorreu ou de como a mídia ou o contexto tratam o assunto.

Esse comportamento, então, revela vieses inconscientes e escolhas, muitas vezes, calculadas. Começando pelo fato de que as pessoas tendem a se comover mais com as tragédias que afetam indivíduos mais próximos de sua raça, classe social, nacionalidade ou estilo de vida.

Inclusive, em locais onde a violência ou a pobreza são crônicas, a sociedade acaba por desenvolver uma cegueira ou apatia, enquanto eventos inesperados em áreas privilegiadas geram comoção global, ás vezes, por meses.

Portanto, as vidas marginalizadas tendem a não receber o mesmo luto público que as vidas pertencentes a grupos dominantes, gerando uma reflexão crítica sobre quais vidas são consideradas importantes e quais não são.

Aí, para completar esse cenário, o destaque dado pelos veículos de imprensa e redes sociais para tais tragédias obedecer ao escrutínio dos interesses daqueles que detém os diferentes tipos de poder na sociedade. Tanto que, não é raro verificar, que em relação àquilo que gera indignação em massa seja tratado como mera estatística.

É dessa forma que a comoção seletiva constrói uma solidariedade assimétrica. Basta olhar para certos exemplos recentes. As inundações históricas na região sul do Brasil geraram uma mobilização nacional massiva, com arrecadações bilionárias, enquanto os desastres contínuos e severos causados ​​por secas prolongadas no semiárido ou enchentes nas periferias do Norte e Nordeste costumam ter menor cobertura midiática e comoção institucional.

Mas, extrapolando as fronteiras nacionais, o conflito no Leste Europeu, com a guerra entre a Ucrânia e a Rússia gerou uma onda global de solidariedade imediata, com abertura de fronteiras, campanhas de ações e forte cobertura da mídia.

Acontece que, paralelamente, crises humanitárias prolongadas, embargos e guerras civis com números devastadores de mortos e refugiados recebem uma fração ínfima da atenção global. Palestinos, sudaneses, iemenitas, congoleses, cubanos.

Milhões de vidas humanas já enfrentam deslocamentos forçados, fome severa, violência extrema, colapso dos sistemas de saúde nessas regiões, desabastecimento de recursos básicos, ausência de moradia, frequentemente exacerbados por cortes em orçamentos de assistência internacional. Mas, a gravidade alarmante dessa situação parece não existir para muitas pessoas, provando que a comoção é seletiva.

De repente, descobri que há uma relação direta entre a comoção seletiva e a necropolítica. Acontece que a comoção seletiva opera como o braço ideológico e midiático desse processo, na medida em que ela se manifesta quando a sociedade civil e os meios de comunicação reagem com indignação a algumas tragédias, ao mesmo tempo em que naturalizam ou ignoram a violência extrema e as mortes diárias que atingem populações marginalizadas; sobretudo as minorias sociais, que possuem menor acesso ao poder, recursos e representatividade, e são excluídos de maneira sistêmica  em razão das desigualdades de gênero, raça, orientação sexual, religião ou deficiência.

Desse modo, o que se tem é uma distinção tácita entre vidas que importam e vidas que não importam e sequer são passíveis de luto. Por isso, quando uma tragédia atinge setores hegemônicos, há comoção e solidariedade imediata; mas, quando os vulneráveis ​​são atingidos, a morte é banalizada como um dano colateral ou consequência natural de sua condição social.

Há uma franca desumanização desses indivíduos, como se eles pudessem ser tratados como indesejáveis ou indignos. Aí, a partir dessa estereotipização, há uma legitimação da violência. O silêncio ou a apatia diante da morte de minorias proporciona um aval social para que o Estado continue operando políticas de negligência e força bruta nesses territórios.

Nesse sentido a necropolítica, por meio da comoção seletiva, traça uma linha divisória na sociedade contemporânea demonstrando um alinhamento ideológico do ser humano em relação à desumanização.

Assim, é fácil identificar quem aceita que corpos humanos estejam sujeitos à eliminação e à violência diária, ou normalizem/invisibilizem o sofrimento diário das populações vulneráveis, ou reafirmem o processo de objetificação/coisificação, o qual facilita a manutenção das estruturas de opressão e exclusão social, porque o filtro ideológico dessas pessoas molda e traduz a narrativa para que a morte de certos grupos sociais seja vista como natural ou necessária.

Por isso, a comoção seletiva não tem nada a ver com emoção, sentimento ou lógica. Ela é fria, dura, insensível, estratégica.  Totalmente despojada de ética, de consciência, para a ser o mais cruel e perverso cálculo moral. E isso me faz concordar com Frantz Omar Fanon, psiquiatra e filósofo político franco-caribenho, “O que importa não é conhecer o mundo, mas mudá-lo”; pois, o conhecimento em si mesmo é só perfumaria. Para ser instrumento de transformação, ele precisa ser aplicado com consciência, com objetivo, com senso de humanidade. 

domingo, 21 de junho de 2026

Curaçao e seu futebol feito de valores éticos-cidadãos


Curaçao e seu futebol feito de valores éticos-cidadãos

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

É sempre muito bom, quando a vida nos surpreende! De fato, olhando para o futebol contemporâneo, a impressão que eu tinha era de que ele havia sido sequestrado pela ação da monetização e da mercantilização, impulsionada pelo capitalismo esportivo, e transformado em mero produto mercadológico.

Aí, o 999º jogo das Copas do Mundo aconteceu e descontruiu essa percepção, de maneira incrível.  Por quê? A seleção caribenha de Curaçao faz sua primeira participação nas Copas do Mundo e não somente conquistou o seu primeiro ponto, como se tornou o menor país a disputar partidas e pontuar no torneio. Depois de marcar um gol na partida contra a Alemanha, em seu primeiro jogo em Copas do Mundo, a equipe empatou em 0 a 0 contra o Equador, na noite de ontem, alcançando o seu primeiro ponto.

Mas, tudo isso pode ser considerado como a cereja do bolo. Afinal, o que causou tamanha surpresa foi algo bem mais subjetivo. A equipe de Curaçao vem demonstrando em campo o poder do simbolismo do futebol na reafirmação da sua identidade sociocultural. Cientes da sua incipiente qualidade futebolística, o desejo de se entregar de corpo e alma para a Copa do Mundo FIFA 2026, enfrentando adversários mais bem ranqueados no esporte, consagrou a força imbatível da sua identidade nacional.

A sua torcida, seja ocupando os estádios da Copa ou espalhada por diversos outros lugares do mundo, cria a Blue Wave (Onda Azul) que representa o mar azul do Caribe e os rituais ancestrais de proteção com pó azul na pele. Destacadas em seu uniforme, o azul, o amarelo e as estrelas da bandeira nacional, tem o poder de refletir a diversidade das origens do seu povo, marcado por uma rica mistura de influências indígenas e da colonização espanhola e holandesa, além de um forte elo histórico com o Brasil.

Em 2010, após a dissolução das Antilhas Holandesas, Curaçao tornou-se um país independente no Reino dos Países Baixos, o que significa que ele é totalmente autônomo para gerenciar seus próprios assuntos internos; mas, a Holanda ainda é responsável por áreas como a defesa e as relações exteriores.

Talvez, por isso, a importância de enaltecer, de destacar, a sua identidade nacional por meio da oportunidade conquistada de participar de uma Copa do Mundo. Esse momento ímpar da sua história reafirma a soberania e a cultura local, elevando o orgulho pátrio e a união social muito acima da mercantilização, dos patrocínios milionários e da exploração financeira que caracterizam o capitalismo esportivo contemporâneo.

De fato, a ascensão esportiva de Curaçao sinaliza um contraponto à realidade do recorte temporal atual. Porque ao contrário de seguir o fluxo das ligas milionárias, a coesão social e a identidade cultural formam a base de suas equipes, cuja estrutura é essencialmente amadora ou semiprofissional, priorizando o orgulho local sobre a exploração financeira. Além disso, o sucesso da equipe nacional apoia-se na convocação de jogadores com raízes locais, valorizando o sentimento de pertencimento pátrio em vez de contratações de mercado.

O que prova que a essência do futebol ainda existe e resiste. A participação de Curaçao na Copa nos lembra que o sucesso nesse esporte nem sempre está atrelado ao resultado. A comemoração efusiva da equipe pelo seu primeiro gol em Mundiais e a posterior oração coletiva no gramado com os adversários resgataram o lado mais humano, fraterno e apaixonado do esporte.

A grandeza da seleção de Curaçao está na sua capacidade extraordinária de refletir a resiliência e o orgulho de um povo ao ver a sua identidade cultural e a sua soberania reconhecidas no principal palco do esporte mundial. Eles destacaram que a união, a gratidão e a fé são os seus pilares fundamentais, demonstrando que o esporte atua como um canal para uma moral coletiva e a dignidade de sua nação.

Desse modo, com cerca de 158 mil habitantes, a participação inédita e a emoção com o primeiro gol e o primeiro ponto somado na competição não apenas mobilizaram a ilha, como encantaram o mundo. Milhões de pessoas, agora, sabem que “Curaçao é um povo pequeno, com um coração grande”, segundo o lema e o cântico da torcida "Nos ta un pueblo chikí, ku un kurason grandi".  O suficiente para pulsar de orgulho em pertencer a uma ilha no sul do Mar do Caribe. 

terça-feira, 16 de junho de 2026

Humanização. Saúde. Comunicação. Historicidade.


Humanização. Saúde. Comunicação. Historicidade.

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Recentemente, recebi nos meus e-mails uma chamada para envio de artigo científico, de uma revista na área médica. Apesar da surpresa, considerando o fato de não estar diretamente ligada ao referido campo de conhecimento, verifiquei quais eram os formatos de artigo aceitos pela revista e decidi encaminhar uma comunicação curta.

Há algum tempo, instigada por algumas experiências médicas, percebi a relevância, enquanto paciente, de trazer à tona dois aspectos importantes para a reflexão dos profissionais de saúde; visto que, muito tem sido falado a respeito de uma medicina mais humanizada, ou seja, integrando o conhecimento técnico à escuta ativa, à empatia e ao respeito pela história, contexto social e necessidades emocionais do indivíduo.

Contudo, segundo o corpo de pareceristas da revista, após todos os ajustes solicitados, os artigos foram desconsiderados para a publicação.

Diante da recusa e entendendo a importância do que esses artigos traziam, resolvi “desacademizá-los” e transformá-los em um diálogo direto com outros tantos milhares de pacientes, por aí, por meio desse texto.

O objeto da primeira reflexão foi “A importância da humanização da assistência para o sucesso da comunicação médico-paciente”. Considerando o cenário da contemporaneidade, de altíssima complexidade, fluidez e interconectividade, esse foco que deveria existir em relação ao respeito às singularidades, ao comprometimento na escuta, à disposição dialógica plena, à geração de ambientes de confiança e acolhimento que valorizam o ser humano, parece um caminho difícil de ser transposto.

Por quê?  Porque a formação médica ainda se mostra resistente à integração da humanização e da valorização da subjetividade do paciente, devido ao predomínio de um modelo baseado na tecnociência para tratar e curar, desconsiderando os aspectos psicossociais e culturais do indivíduo acometido por uma dada patologia.

E isso é muito ruim, na medida em que a comunicação se torna atravessada por diversos ruídos, os quais não priorizam o acolhimento, a escuta gerenciada, a linguagem acessível, o respeito à subjetividade e à autonomia do sujeito, tornando o cuidado humanizado, na perspectiva da informação em saúde, um processo falho em seus propósitos fundamentais.

Daí a necessidade de o profissional estar disposto e apto a realizar uma escuta comprometida com a construção de vínculos, garantindo o direito à informação de forma digna, clara e objetiva, ao paciente. É preciso desconstruir a ideia de que a linguagem do médico é absoluta, sem margem para discussão ou questionamento, tendo em vista de que ele é o detentor do saber.

Aliás, não é incomum o fato de que inúmeros profissionais utilizam termos complexos, os quais dificultam o entendimento, a compreensão por parte dos seus pacientes, distanciando-os das decisões e da operacionalização de seus próprios tratamentos e cuidados médicos. Esse modelo ignora a biografia, o contexto social e a subjetividade do paciente, ou seja, não coloca em prática a humanização da informação.

Então, comecei a observar uma palavra que vem aparecendo amiúde no mundo contemporâneo das consultas médicas, saudável. Acontece que a tendência de generalização da expressão saudável, no campo da alimentação, pode significar riscos concretos. Por mais que as ciências médicas e os órgãos de saúde pública entendam que uma alimentação saudável possa ser definida como um padrão de consumo capaz de fornecer ao organismo todos os nutrientes necessários para seu funcionamento ideal, promovendo bem-estar e prevenindo doenças crônicas, nem tudo o que, em tese, é saudável pode realmente ser consumido por todos os pacientes.

Inclusive, porque há uma inacessibilidade aos produtos “saudáveis”, ou seja, ela se mostra como uma estratificação social, onde o consumo de alimentos nutritivos torna-se um marcador de classe, um privilégio e/ou uma distinção social.

Daí a importância de que os profissionais de saúde analisem caso a caso, o histórico clínico do paciente, na medida em que cada paciente acometido por uma dada patologia demanda uma avaliação particularizada em relação ao conceito de alimentação saudável. Aquilo que é benéfico para um pode causar reações adversas ou ser ineficiente para outro, dependendo de inúmeros fatores tais como metabólicos, genéticos, alérgicos, enfim.

Assim, para que haja sucesso na terapêutica proposta pelo médico, a relação dialógica deve ser estabelecida com o máximo de clareza, de dissecação das palavras e termos empregados, a fim de que o paciente se considere plenamente confortável diante das informações e seja capaz de assumir o seu papel no processo terapêutico, de maneira satisfatória.

Mas, como concretizar esse aspecto? Foi, então, que surgiu o segundo o ponto de reflexão, “O papel da historicidade do paciente na construção de uma proposta mais humanizada para anamnese”. Considerando a pluralidade e a diversidade social que chega aos consultórios, nem sempre o histórico de saúde, contemplando situações, hábitos e antecedentes, constitui uma base fidedigna para a maioria dos diagnósticos.

Portanto, é preciso trazer aos interlocutores uma construção comunicativa embasada pela empatia, pela ética, pelo respeito, pela cooperação ativa, pela interação social e pelo acolhimento humano. Razão pela qual, olhando pela perspectiva de que a vida é um filme e não uma fotografia, não é difícil perceber que no cenário das relações médico-paciente, muitas vezes, a informação humanizada não se realiza em razão das fragilidades presentes na construção comunicativa em si.

Apesar de o paciente, quando procura um profissional de saúde ter, naquele dado recorte temporal, uma queixa, um desconforto, uma dor, que precisa ser tratada, não raras as vezes, o cerne daquele problema não está no agora, no presente. Trata-se de algo que vem se desenvolvendo há tempos, inclusive, formando uma rede de interconexões com outras patologias, as quais o próprio paciente, muitas vezes, não tem conhecimento.

Além disso, há uma tendência de muitos profissionais se aterem à tradução dos resultados dos exames, a partir dos limites de referência estabelecidos, desconsiderando assim, uma análise mais ampla e integrada da situação. Por isso, não são raras as vezes em que o paciente não obtém o sucesso esperado em seu tratamento, entrando em um labirinto de lacunas não respondidas, de situações que continuam a reverberar quadros patológicos limitantes ou não; mas, capazes de fragilizar e alterar o seu bem-estar.  Trazendo a terrível sensação de caminhar em círculos sem uma solução para o seu problema.

Eis, então, a necessidade de romper com a homogeneização da doença, como se todos os pacientes fossem iguais, ou com a resistência em analisar o quadro atual em detrimento de toda a historicidade do indivíduo, ou com o excesso do protagonismo médico decorrente da sua apropriação do saber técnico-científico. Mas, como? O ponto de partida está na compreensão de que as etapas do desenvolvimento humano não são livros concluídos, do ponto de vista da historicidade clínica do indivíduo.

Nem todas as patologias que o acometeram, nessa ou naquela fase da vida, foram realmente debeladas. Algumas sim. Outras não. O que significa que rastros e vestígios puderam, então, se tornar o ponto de partida para o surgimento de outras doenças, tecendo uma rede de aspectos que se misturam, ao ponto de ocultar e dificultar os caminhos terapêuticos, quando não devidamente esclarecidos.

Nesse sentido, a possibilidade de se construir um panorama clínico do paciente, segundo o seu histórico por fase de desenvolvimento – primeira infância, segunda infância, terceira infância, adolescência, idade adulta e velhice, ou segundo os sistemas que compõem o corpo humano – esquelético/muscular, endócrino, respiratório, digestório, nervoso, excretor, tegumentar, reprodutor e linfático/imunológico, não pode ser desconsiderada, como ocorre com certa frequência.

 A partir de memórias, de lembranças, o paciente pode trazer ao conhecimento do médico essas informações, contribuindo de maneira significativa para a realização desse registro. Mas, tal dinâmica só acontece a partir de uma comunicação humanizada, ou seja, um modelo de interação capaz de reconhecer a individualidade e o contexto social de cada indivíduo, ao contrário de apenas os procedimentos técnicos. Nesse cenário, o papel do médico deve ser de um facilitador empático, que permite ao paciente ser sujeito ativo de seu próprio tratamento.

Mediante as informações extraídas nessa prática dialógica, o médico vai completando, aí sim, de maneira técnico-científica, o quadro da historicidade clínica do paciente, permitindo-lhe uma visão holística do indivíduo.

Como se pode perceber diante dessa breve reflexão, o que se buscou foi reafirmar a necessidade do equilíbrio na integração de métodos tradicionais e complementares da medicina, favorecendo o caminho da verdadeira humanização da assistência. Afinal, ela depende diretamente da humanização da comunicação.

Em linhas gerais, a forma como os profissionais de saúde dialogam, transmitem diagnósticos e acolhem os pacientes define a experiência do cuidado. Uma linguagem acessível, uma escuta ativa, o respeito à historicidade do paciente e uma dose generosa de empatia transformam o ambiente clínico e reduzem eventuais ruídos comunicativos que possam surgir.