quinta-feira, 5 de novembro de 2026

Eu, Você, Ele (a), ... todos têm um sonho.


Eu, Você, Ele (a), ... todos têm um sonho.

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Sonhar é parte da natureza humana. Trata-se do grande impulso motivador e criativo que dá sentido e significância à existência, habilitando os indivíduos a tornarem-se sujeitos da própria história.

Assim, o ato de sonhar transforma o tempo linear em um caminho com propósito, dando um motivo para agir no presente; mas, também, funciona como um refúgio criativo e uma âncora emocional nos momentos de crise na medida em que define quem queremos ser, diferenciando nossa trajetória individual no mundo.

Desse modo, sem os sonhos, a rotina corre o risco de se tornar automática e mecânica. São eles que rompem o previsível e abrem espaço para a inovação, a arte e a transformação social.

E aí, olhando com bastante atenção para os movimentos sociais recentes, os quais deram conteúdo e forma para os resultados eleitorais no Brasil e nos EUA, a reflexão em torno do chamado “Sonho Americano” é o ponto de partida para tecer uma compreensão a respeito.

À luz da realidade estadunidense, o "Sonho Americano" (American Dream) é a crença de que qualquer pessoa, independentemente de onde nasceu ou de sua classe social, pode alcançar o sucesso e a prosperidade nos Estados Unidos através do trabalho duro, da determinação e da iniciativa própria.

De modo que ele perdurou por gerações, mas vem sendo corroído por diversos fatores da realidade contemporânea, provando que esse tipo de aspiração não foi afetado negativamente apenas em relação ao sonho de quem vive nos EUA, mas de qualquer indivíduo que almeje por estabilidade, segurança e dignidade social em algum lugar do planeta.

O choque de realidade que se desenhou mundo afora é de que os caminhos tradicionais para a estabilidade, tais como o ensino superior e o emprego formal de longo prazo, já não garantem o destino prometido. A busca legítima por dignidade social tornou-se uma fonte de ansiedade crônica, pois as regras do jogo mudaram, mas a cobrança social pelo sucesso continua a mesma.

Nesse contexto, a promessa de uma carreira linear e de estabilidade financeira foi substituída pela flexibilização extrema e pela vulnerabilidade. A sensação de proteção que as instituições e o próprio planeta ofereciam cedeu lugar a um estado de alerta e desconfiança permanente. A dignidade social, baseada na inclusão e no reconhecimento mútuo, foi enfraquecida pelo individualismo e pela mercantilização da vida.

E tudo isso não é privilégio desse ou daquele espaço sociodemográfico. O mundo na sua totalidade está experenciando essa situação. Daí a angústia, a frustração, a decepção, o desalento, diante de discursos e comportamentos institucionais e políticos, fazer de cidadãos diferentes, pertencentes à culturas e realidades distintas, se unirem pela mesma busca por solução para os seus desafios sociais.

Portanto, o que leva ao engajamento nas ruas e nas mídias sociais milhões de pessoas plurais são demandas existenciais humanas, tais como dignidade, reconhecimento, pertencimento e justiça. Quando as estruturas sociais ou políticas falham em garantir o básico para a experiência humana, a mobilização coletiva surge como uma ferramenta de sobrevivência e expressão.

Enquanto as ruas oferecem o peso físico, a ocupação do espaço público e o impacto visual da união, as mídias sociais funcionam como caixas de ressonância que amplificam essas vozes, permitindo que as demandas locais encontrem eco global instantaneamente.

Provando que, no fundo, as promessas; sobretudo, as fascistas, não conseguem mais aderir ao inconsciente coletivo pelo fato da comprovação histórica da sua superficialidade e incapacidade de oferecer soluções efetivas e palpáveis para as demandas existenciais humanas em toda a sua diversidade e pluralidade sociodemográfica.

Haja vista que a associação histórica do fascismo e, em debates críticos contemporâneos, do ultraliberalismo a cenários de colapso social e negação da vida decorre de como ambas as ideologias, de maneiras distintas, priorizam sistemas abstratos, o Estado absoluto ou o Mercado absoluto, acima da própria existência humana.

Então, quando essas ideias são aplicadas de forma radical, a complexidade das necessidades humanas é reduzida a métricas rígidas, o que frequentemente resulta em crises humanitárias e rupturas institucionais. E todos sabemos que a existência humana é inerentemente complexa, dependente de cooperação, diversidade, laços afetivos, estabilidade psicológica e equilíbrio com o meio ambiente.

Ao ignorar essas dimensões em nome de dogmas rígidos, a história demonstrou que a aplicação radical dessas ideologias costuma resultar em fome, desigualdade extrema, regimes autoritários e, em última análise, na destruição das condições que sustentam a vida.

Ocorre que diante de processos e políticas que vêm estimulando cada vez mais a concentração de renda e direitos nas mãos de muitos poucos, se tornou inevitável que as camadas sociais mais afetadas por essa distorção reavaliassem o seu posicionamento histórico e se colocassem a reivindicar os seus direitos humanos.

Tanto o desprezo pelas leis econômicas básicas quanto a indiferença social perante a desigualdade extrema são receitas para a instabilidade. A história sugere que os modelos mais estáveis e prósperos a longo prazo tendem a ser aqueles que combinam o dinamismo do livre mercado com fortes mecanismos de bem-estar social, regulação democrática e inclusão econômica.

Afinal, quando uma grande parcela da sociedade sente que trabalha, mas não colhe os frutos do progresso econômico enquanto uma elite minoritária acumula a maior parte da renda, o contrato social é quebrado. Esse descontentamento, então, se manifesta no ressurgimento de movimentos sociais, protestos e novas demandas políticas que utilizam a linguagem universal dos direitos humanos, tais como direito à saúde, educação, trabalho digno e habitação, para legitimar suas lutas e exigir reformas estruturais.

Em 1963, o pastor batista e ativista político estadunidense Martin Luther King Jr. disse "Eu tenho um sonho ...". Hoje, em diversos países, milhões de pessoas dizem que elas têm um sonho. Que não se resume a viver em uma sociedade livre, justa, igualitária e sem preconceitos; mas, de viver sob o manto da dignidade, do reconhecimento e do pertencimento socioeconômico.

As pessoas não querem apenas a ausência de opressão; elas buscam uma existência plena e humanizada. O direito intrínseco de ser tratado com valor e respeito, garantindo que as necessidades básicas e a integridade de cada indivíduo sejam invioláveis. A validação de suas identidades, histórias, culturas e contribuições pela sociedade e pelas instituições, saindo da invisibilidade. O sentimento profundo de fazer parte de uma comunidade, de ser acolhido e de saber que o seu bem-estar importa para o coletivo.

Portanto, o sonho atual é o de uma sociedade onde a igualdade não seja apenas uma regra no papel, mas uma realidade vivida na pele através do afeto, do respeito e da inclusão real.