Eu, Você,
Ele (a), ... todos têm um sonho.
Por Alessandra
Leles Rocha
Sonhar é parte da natureza
humana. Trata-se do grande impulso motivador e criativo que dá sentido e significância
à existência, habilitando os indivíduos a tornarem-se sujeitos da própria
história.
Assim, o ato de sonhar transforma
o tempo linear em um caminho com propósito, dando um motivo para agir no
presente; mas, também, funciona como um refúgio criativo e uma âncora emocional
nos momentos de crise na medida em que define quem queremos ser, diferenciando
nossa trajetória individual no mundo.
Desse modo, sem os sonhos, a
rotina corre o risco de se tornar automática e mecânica. São eles que rompem o
previsível e abrem espaço para a inovação, a arte e a transformação social.
E aí, olhando com bastante
atenção para os movimentos sociais recentes, os quais deram conteúdo e forma
para os resultados eleitorais no Brasil e nos EUA, a reflexão em torno do
chamado “Sonho Americano” é o ponto de partida para tecer uma compreensão a
respeito.
À luz da realidade estadunidense,
o "Sonho Americano" (American Dream) é a crença de que qualquer
pessoa, independentemente de onde nasceu ou de sua classe social, pode alcançar
o sucesso e a prosperidade nos Estados Unidos através do trabalho duro, da
determinação e da iniciativa própria.
De modo que ele perdurou por
gerações, mas vem sendo corroído por diversos fatores da realidade contemporânea,
provando que esse tipo de aspiração não foi afetado negativamente apenas em
relação ao sonho de quem vive nos EUA, mas de qualquer indivíduo que almeje por
estabilidade, segurança e dignidade social em algum lugar do planeta.
O choque de realidade que se
desenhou mundo afora é de que os caminhos tradicionais para a estabilidade,
tais como o ensino superior e o emprego formal de longo prazo, já não garantem
o destino prometido. A busca legítima por dignidade social tornou-se uma fonte
de ansiedade crônica, pois as regras do jogo mudaram, mas a cobrança social
pelo sucesso continua a mesma.
Nesse contexto, a promessa de uma
carreira linear e de estabilidade financeira foi substituída pela
flexibilização extrema e pela vulnerabilidade. A sensação de proteção que as
instituições e o próprio planeta ofereciam cedeu lugar a um estado de alerta e
desconfiança permanente. A dignidade social, baseada na inclusão e no
reconhecimento mútuo, foi enfraquecida pelo individualismo e pela
mercantilização da vida.
E tudo isso não é privilégio
desse ou daquele espaço sociodemográfico. O mundo na sua totalidade está
experenciando essa situação. Daí a angústia, a frustração, a decepção, o
desalento, diante de discursos e comportamentos institucionais e políticos, fazer
de cidadãos diferentes, pertencentes à culturas e realidades distintas, se unirem
pela mesma busca por solução para os seus desafios sociais.
Portanto, o que leva ao
engajamento nas ruas e nas mídias sociais milhões de pessoas plurais são
demandas existenciais humanas, tais como dignidade, reconhecimento,
pertencimento e justiça. Quando as estruturas sociais ou políticas falham em
garantir o básico para a experiência humana, a mobilização coletiva surge como
uma ferramenta de sobrevivência e expressão.
Enquanto as ruas oferecem o peso
físico, a ocupação do espaço público e o impacto visual da união, as mídias
sociais funcionam como caixas de ressonância que amplificam essas vozes,
permitindo que as demandas locais encontrem eco global instantaneamente.
Provando que, no fundo, as
promessas; sobretudo, as fascistas, não conseguem mais aderir ao inconsciente
coletivo pelo fato da comprovação histórica da sua superficialidade e
incapacidade de oferecer soluções efetivas e palpáveis para as demandas
existenciais humanas em toda a sua diversidade e pluralidade sociodemográfica.
Haja vista que a associação
histórica do fascismo e, em debates críticos contemporâneos, do
ultraliberalismo a cenários de colapso social e negação da vida decorre de como
ambas as ideologias, de maneiras distintas, priorizam sistemas abstratos, o
Estado absoluto ou o Mercado absoluto, acima da própria existência humana.
Então, quando essas ideias são
aplicadas de forma radical, a complexidade das necessidades humanas é reduzida
a métricas rígidas, o que frequentemente resulta em crises humanitárias e
rupturas institucionais. E todos sabemos que a existência humana é
inerentemente complexa, dependente de cooperação, diversidade, laços afetivos,
estabilidade psicológica e equilíbrio com o meio ambiente.
Ao ignorar essas dimensões em
nome de dogmas rígidos, a história demonstrou que a aplicação radical dessas
ideologias costuma resultar em fome, desigualdade extrema, regimes autoritários
e, em última análise, na destruição das condições que sustentam a vida.
Ocorre que diante de processos e
políticas que vêm estimulando cada vez mais a concentração de renda e direitos
nas mãos de muitos poucos, se tornou inevitável que as camadas sociais mais
afetadas por essa distorção reavaliassem o seu posicionamento histórico e se colocassem
a reivindicar os seus direitos humanos.
Tanto o desprezo pelas leis
econômicas básicas quanto a indiferença social perante a desigualdade extrema
são receitas para a instabilidade. A história sugere que os modelos mais
estáveis e prósperos a longo prazo tendem a ser aqueles que combinam o dinamismo
do livre mercado com fortes mecanismos de bem-estar social, regulação
democrática e inclusão econômica.
Afinal, quando uma grande parcela
da sociedade sente que trabalha, mas não colhe os frutos do progresso econômico
enquanto uma elite minoritária acumula a maior parte da renda, o contrato
social é quebrado. Esse descontentamento, então, se manifesta no ressurgimento
de movimentos sociais, protestos e novas demandas políticas que utilizam a
linguagem universal dos direitos humanos, tais como direito à saúde, educação,
trabalho digno e habitação, para legitimar suas lutas e exigir reformas
estruturais.
Em 1963, o pastor batista e
ativista político estadunidense Martin Luther King Jr. disse "Eu tenho
um sonho ...". Hoje, em diversos países, milhões de pessoas dizem que elas
têm um sonho. Que não se resume a viver em uma sociedade livre, justa,
igualitária e sem preconceitos; mas, de viver sob o manto da dignidade, do
reconhecimento e do pertencimento socioeconômico.
As pessoas não querem apenas a
ausência de opressão; elas buscam uma existência plena e humanizada. O direito
intrínseco de ser tratado com valor e respeito, garantindo que as necessidades
básicas e a integridade de cada indivíduo sejam invioláveis. A validação de
suas identidades, histórias, culturas e contribuições pela sociedade e pelas
instituições, saindo da invisibilidade. O sentimento profundo de fazer parte de
uma comunidade, de ser acolhido e de saber que o seu bem-estar importa para o
coletivo.
Portanto, o sonho atual é o de uma sociedade onde a igualdade não seja apenas uma regra no papel, mas uma realidade vivida na pele através do afeto, do respeito e da inclusão real.
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