quinta-feira, 5 de novembro de 2026

A quem interessam os juros altos no Brasil?


A quem interessam os juros altos no Brasil?

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Na historicidade econômica do Brasil, os juros altos interessam majoritariamente aos rentistas, aos grandes conglomerados do sistema financeiro e aos investidores de capital especulativo, servindo historicamente como um poderoso mecanismo de transferência e concentração de riqueza. Por quê? Porque o juro é o preço pago pelo uso do dinheiro ao longo do tempo, funcionando como a remuneração para quem empresta e o custo para quem toma recursos.

Por isso, ao longo da história brasileira mantê-lo em patamares elevados contribui para a manutenção do status quo da pirâmide social, favorecendo sob diferentes aspectos as elites donas do poder.

Afinal, pelo rentismo as elites econômicas e os grandes investidores institucionais detêm a maior parte dos títulos da dívida pública e das aplicações financeiras. Com juros altos, esses capitais são remunerados com excelente retorno e baixo risco.

O que é extremamente ruim para o país; pois, ao contrário de arriscar recursos na abertura de indústrias, comércios ou infraestrutura, que são atividades que geram empregos e distribuem renda, os detentores de capital encontram no mercado financeiro uma forma segura de expandir suas fortunas.

Assim, enquanto a elite lucra ao emprestar dinheiro, a base da pirâmide social precisa pegar dinheiro emprestado para consumir, estudar ou financiar a casa própria. Haja vista que quem possui capital acumulado consegue multiplicá-lo por meio de investimentos e empréstimos, enquanto a população de menor renda frequentemente precisa recorrer ao crédito para acessar bens e serviços básicos.

Portanto, esse ciclo tende a criar uma dependência financeira, onde os juros pagos reduzem o poder de compra real e encarecem indiretamente toda a cadeia de produção e distribuição de produtos essenciais, como aluguéis, alimentos e transporte. Acontece que os juros elevados na ponta final, ou seja, no cartão de crédito, cheque especial, empréstimos pessoais, acabam por drenar a renda das famílias de classe baixa e média, transferindo esses recursos diretamente para o setor financeiro.

Há décadas que a questão das taxas de juros é colocada como imperativo para manter a economia estável. Basta lembrar como eram os juros de 1970 até o início dos anos de 1990. Esse período foi marcado pelo fenômeno da hiperinflação e pela vulnerabilidade externa, o que forçou o país a adotar taxas de juros nominais e reais estratosféricas para tentar conter a desvalorização da moeda e atrair capital estrangeiro.

Nos anos 1970, o Brasil viveu o final do Milagre Econômico financiado por empréstimos estrangeiros a juros baixos, as chamadas taxas flutuantes. Como os empréstimos brasileiros eram atrelados a essas taxas internacionais, o custo da dívida externa do Brasil explodiu, empurrando o país para a crise da dívida dos anos 1980 e forçando o Banco Central a começar a subir os juros internos para estancar a fuga de dólares.

Com a crise da dívida externa e a escassez de dólares, a inflação doméstica saiu do controle. Durante os anos 1980, o Brasil implementou diversos planos econômicos fracassados (Plano Cruzado, Bresser, Verão).

No entanto, como a inflação corria na casa dos dois ou três dígitos ao mês, os juros nominais precisavam ser igualmente absurdos para que os investidores aceitassem financiar a dívida do governo. Os juros não eram usados para esfriar a economia de forma planejada, mas sim para correr atrás de uma inflação que subia em espiral.

No início da década de 1990 se viu o ápice e o esgotamento desse modelo de descontrole. O Plano Collor, em 1990, tentou estabilizar a economia via confisco de liquidez, o indigesto bloqueio de cadernetas de poupança e contas correntes, mas a inflação voltou a subir pouco tempo depois.

A grande virada ocorreu com o Plano Real em 1994. Para garantir o sucesso da nova moeda e evitar que a inflação voltasse a subir após a liberação dos preços, o Banco Central adotou uma política de juros reais extremamente elevados. A taxa Selic 1 chegou a patamares reais, descontada a inflação, superiores a 20% ou 30% ao ano em meados da década de 1990.

Portanto, diante desse breve exposto, qual seria esse conceito de estabilidade, considerando que por trás das decisões do Comitê de Política Monetária (COPOM) estão justamente os analistas dos grandes conglomerados do sistema financeiro e aos investidores de capital especulativo?

É, o COPOM baliza suas decisões fortemente nas expectativas de mercado coletadas semanalmente pelo Relatório Focus. Esse relatório ouve cerca de 140 instituições, majoritariamente bancos, corretoras, fundos de investimento e consultorias ligadas ao setor financeiro. Portanto, os mesmos agentes que respondem à pesquisa, opinando para onde os juros devem ir, são os que lucram diretamente com a alta da taxa Selic, pois são os maiores detentores dos títulos da dívida pública brasileira.

E aí surge o grande paradoxo. Quando o COPOM eleva a taxa Selic para frear a inflação, o mecanismo funciona encarecendo o crédito, desestimulando o consumo e aumentando o desemprego para esfriar a atividade econômica, o resultado disso é que a atividade produtiva, ou seja, indústria, comércio e empregos, é sacrificada em nome da estabilidade, o capital especulativo e o setor rentista encontram no Brasil uma das maiores taxas de juros reais (acima da inflação) do mundo, garantindo lucros extraordinários e seguros na renda fixa.

Daí a necessidade de reescrever esse modelo, pois ele está a perpetuar um mecanismo de transferência de riqueza pública para o sistema financeiro, sacrificando o desenvolvimento econômico de longo prazo e as políticas sociais do país. Afinal, como os bancos e fundos de investimento são os maiores detentores da dívida pública, a manutenção de uma Selic elevada transfere renda diretamente do orçamento público para o sistema financeiro, retroalimentando a desigualdade, na medida que isso subtrai recursos que poderiam ir para investimentos em infraestrutura, saúde e educação.



1 A Taxa Selic (Sistema Especial de Liquidação e de Custódia) é a taxa básica de juros da economia brasileira. Ela é o principal instrumento que o Banco Central do Brasil usa para controlar a inflação, sendo definida a cada 45 dias pelo Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central). Ela guia os juros de todo o país, influenciando o cartão de crédito, o cheque especial, empréstimos, financiamentos e os rendimentos de aplicações de renda fixa (como o Tesouro Selic, CDBs e a poupança).