quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Por todos os lugares ...


Por todos os lugares ...

 

 Por Alessandra Leles Rocha

 

Daqui e dali se ouvem relatos de pessoas sendo hostilizadas, agredidas, desrespeitadas no seu direito de ir e vir em paz, simplesmente por estarem vestindo roupas na cor vermelha. Vejam só a que ponto chegou a estupidez e o radicalismo humano?! Estão fomentando beligerância a partir de uma cor. Então, convido você, caro (a) leitor (a), a respirar fundo, guardar a artilharia pesada, e seguir por uma breve reflexão.

Para início de conversa, na psicologia comportamental e das cores, o vermelho é uma cor de alta intensidade que simboliza paixão, energia, poder e excitação, além de estar associada a alertas de perigo. Biologicamente, ela acelera a frequência cardíaca e a pressão arterial, estimulando a ação imediata.

Talvez, por isso, ela esteja tão disseminada entre os seres humanos. O vermelho é uma das cores mais antigas e poderosas da história. Associado primariamente ao sangue e ao fogo, ele carrega uma dualidade marcante, não só simbolizando simultaneamente à vida, a paixão, o poder e a sorte, bem como o perigo, a guerra, a violência e a morte.

Utilizado desde a Pré-História com o ocre vermelho na arte rupestre, o vermelho era extraído de elementos naturais como o urucum nas culturas indígenas brasileiras e do inseto cochonilha no México antigo, um pigmento que revolucionou a pintura ocidental.

Inclusive, em diversas etnias indígenas brasileiras, quando extraída de sementes como o urucum essa coloração era fundamental para a pintura corporal e vestimentas; pois, expressa identidade, status social, proteção contra elementos naturais e conexão com rituais de guerra ou celebração.

No cristianismo, o vermelho representa o sangue de Cristo e o sacrifício dos mártires. Na Igreja Católica, tornou-se a cor dos cardeais. No xintoísmo e no budismo, é usado para afastar maus espíritos e atrair proteção. Por isso, na China, é a cor da boa sorte, da prosperidade e das celebrações, sendo tradicionalmente usada em casamentos. Enquanto no Japão, protege contra infortúnios.

Desde a Roma Antiga, com os mantos dos generais e imperadores, até as vestes reais e a política moderna, o vermelho sinaliza status, soberania, revolução e rebelião. Devido à sua intensidade e ligação ao sangue vertido em batalha, o vermelho transformou-se na cor oficial da revolução, da rebeldia e dos movimentos progressistas em todo o mundo moderno, como na Revolução Francesa e nos movimentos operários.

No viés biológico, a cor vermelha está intrinsecamente ligada à sobrevivência, reprodução e sinalização de estados internos. Ela é a cor mais significativa do ponto de vista evolutivo e fisiológico para a nossa espécie. No sangue humano ela ocorre em razão da hemoglobina, uma proteína rica em ferro presente nos glóbulos vermelhos que transporta o oxigênio. Aliás, a tonalidade do vermelho indica o nível de oxigenação, ou seja, o sangue arterial rico em oxigênio é vermelho-vivo, enquanto o venoso é mais escuro.

Os primatas ancestrais evoluíram a visão tricromática, que é a capacidade de ver o vermelho, o verde e o azul, principalmente, para detectar frutos vermelhos maduros contra o fundo verde das florestas. Essa mutação visual também ajudou a identificar folhas jovens e brotos que costumam ter tons avermelhados, que são mais nutritivos e fáceis de digerir do que as folhas velhas.

No reino animal e nos humanos, o rubor facial gerado pela raiva serve como um aviso visual de dominância e prontidão para o combate. Sem contar que a visualização da cor vermelha estimula a amígdala e o sistema nervoso, aumentando a frequência cardíaca e as reações de reflexo. Por isso, biologicamente, ela funciona como o sinal universal de perigo e alerta.

No aspecto da biodiversidade natural e ecológica, a cor vermelha funciona como um dos canais de comunicação visual mais poderosos e multifuncionais dos ecossistemas. Ela atua principalmente como um sinalizador biológico crucial para a sobrevivência, reprodução e interações entre espécies.

Anfíbios como as rãs-flecha (Dendrobatidae), certas cobras como a coral-verdadeira e insetos como joaninhas e percevejos usam o vermelho para evitar o ataque de predadores, que associam a cor ao perigo ou mal-estar.

Muitas flores vermelhas evoluíram especificamente para atrair beija-flores e outras aves, que possuem uma excelente visão para o espectro do vermelho. Sim, certas aves são atraídas por essas flores, que geralmente não têm forte odor, mas produzem muito néctar.

Frutos vermelhos maduros como pitangas, morangos silvestres e frutos de palmeiras) contrastam fortemente com as folhas verdes, de modo que servem como um farol para aves e mamíferos consumirem o fruto e dispersarem as sementes pelas fezes, garantindo a reprodução da planta.

Em muitas espécies de aves como o cardeal ou o flamingo e alguns peixes, a intensidade do vermelho nas penas ou escamas é determinada pela quantidade de carotenoides ingeridos na dieta. Um vermelho vivo indica que o animal é forte, saudável, livre de parasitas e um bom parceiro para o acasalamento.

Embora pareça contraditório, o vermelho também serve como camuflagem em ecossistemas específicos, como o mar profundo. Por isso, animais marinhos de águas profundas que são totalmente vermelhos parecem efetivamente pretos ou invisíveis na penumbra oceânica, protegendo-se de predadores.

Fora do aspecto puramente biológico e entrando na ecologia aplicada à conservação, o termo vermelho batiza a Lista Vermelha da IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza), que é o inventário mais detalhado do mundo sobre o estado de conservação global de espécies vegetais e animais, utilizando a cor como o alerta máximo para o risco de extinção da biodiversidade.

Feito esse breve apanhado de informações, parece clara a impossibilidade de se abolir a presença do vermelho na existência humana, porque ele não se resume as discussões ou as simpatias político-partidárias. A tentativa de reduzir o vermelho a uma única bandeira, nesses casos, é apenas um fenômeno recente na linha do tempo humana. De modo que a apropriação do vermelho por movimentos políticos modernos é apenas um fragmento milenar perto do impacto que essa cor tem no dia a dia, na nossa biologia ou no nosso imaginário cultural desde o início dos tempos.

Por isso, qualquer violência, ameaça ou intimidação em que a cor de uma roupa, de uma bandeira ou de um símbolo é usada como justificativa não encontra respaldo ou legitimidade jurídico-institucional. Os principais fundamentos legais que condenam e punem esse tipo de conduta estão na Constituição Federal de 1988, art. 1º, III e V, art. 5º, IV; no Código Penal, art. 129, art. 147, art 163; e, na Lei das Contravenções Penais, art. 21. Vale ressaltar que, o Código Penal prevê que crimes cometidos por motivo torpe ou fútil têm suas penas agravadas, segundo o art. 61, II, "a".

Relembrando, então, as palavras do poeta brasileiro Manuel de Barros, “Sou livre para o silêncio das formas e das cores”. Afinal, elas se conectam diretamente à liberdade existencial e ao exercício da cidadania através da autonomia do pensamento, da emancipação criativa e da recusa às amarras sociais impostas. Para exercer uma cidadania genuína, o indivíduo precisa primeiro ser dono de sua própria subjetividade.

Nesse sentido, o "silêncio das formas e das cores" representa o recolhimento, a contemplação e a capacidade de dar sentido ao mundo por si mesmo, sem repetir fórmulas prontas. Sem essa liberdade existencial para digerir a realidade em silêncio, a cidadania se reduz a um ato mecânico de seguir regras, em vez de uma participação consciente e crítica.

A liberdade existencial defende o direito de o ser humano ser, e não apenas produzir. Uma cidadania plena só existe quando o Estado e a sociedade garantem os direitos fundamentais que protegem esse espaço de subjetividade, permitindo que as pessoas escolham suas identidades, suas crenças e suas formas de expressão sem o medo da opressão ou da padronização.

Portanto, estar livre para o silêncio é um ato de resistência política. O que significa que a cidadania não começa no voto ou no cumprimento das leis. Ela começa na garantia de que o indivíduo é existencialmente livre para contemplar, criar e existir em sua total singularidade.