Historicidade.
Consciência. Cidadania. Para uma perspectiva de futuro.
Por Alessandra
Leles Rocha
A história é feita de fatos. Embora,
a análise e a propagação deles seja, muitas vezes, condicionada ao enviesamento
de certos interesses, os fatos em si não mudam nem tampouco deixam de existir. É
justamente aí que a verdade factual impera e se impõe, ainda que leve algum
tempo.
Nesses pouco mais de 500 anos, o
Brasil tem experimentado esse processo. A sua historicidade vem sendo marcada pela
visão elitista colonial que tenta impedir a presença de certas figuras e acontecimentos,
os quais dariam a verdadeira diversidade e pluralidade sociocultural brasileira.
Então, eis que no ano da graça de
2026, a dominação sobre a verdade fugiu ao controle e os fatos se reapropriaram
de sua voz. Não, o pleito eleitoral desse ano não diz respeito ao confronto
polarizador que paira sobre o mundo. O que se tem bem diante do nariz é um confronto
histórico de uma sociedade constituída a partir da dicotomia entre dominados e
dominadores.
O resultado do pleito eleitoral
para Presidente da República dirá como a compreensão dessa historicidade dicotômica
se estabelecerá daqui em diante. Essas eleições
traduzem nas urnas as tensões entre classes sociais desfavorecidas e as elites
econômicas e políticas tradicionais, perpetuando ou contestando estruturas de
dominação que remontam ao período colonial.
O que significa em primeiro lugar,
que esse ponto da história mostra claramente uma disputa entre as classes
desfavorecidas, que buscam mudança e redistribuição de poder, e as elites
econômicas, que buscam manter seus privilégios.
Daí a importância da análise em
relação às instituições do Estado, incluindo o sistema eleitoral, tendo em
vista uma tendência em reproduzir as estruturas de dominação existentes, a
menos que haja uma contestação forte o suficiente para romper esse ciclo. Afinal,
o sistema político-eleitoral brasileiro possui regras que, intencionalmente ou
não, concentram o poder nas elites políticas e econômicas já estabelecidas.
O que significa que o momento
eleitoral brasileiro é um reflexo de um cabo de guerra. Por um lado, as regras
institucionais agem como um filtro conservador que perpetua as elites no poder;
por outro, a urna é o canal legítimo onde a pressão popular e os novos
movimentos tentam tensionar e fissurar essas estruturas de dominação.
Talvez, seja esse o ponto nevrálgico
dessa reflexão. Por quê? Porque o voto é um mecanismo de escolha baseado na
avaliação de políticas públicas, propostas de desenvolvimento econômico,
segurança e governança, e não necessariamente um reflexo rígido de divisões de
classe ou posições político-ideológicas arraigadas. Ainda que o comportamento
do (a) eleitor (a) seja moldado por uma rede complexa de fatores que vão além
da dicotomia econômica, incluindo pautas de valores, religião, impacto das
redes sociais, desinformação e identificação identitária e regional, a sensação
real de um eventual retrocesso socioeconômico e cultural impulsiona o
pensamento crítico a uma análise diferente.
É, quem diria?! O (a) eleitor (a)
brasileiro (a), de repente, não mais que de repente, compreendeu que não é um
agente rígido preso apenas à sua classe social ou a um espectro político fixo.
A percepção ou o medo de uma
piora real nas condições de vida, sob as mais diferentes formas e conteúdos,
decidiu atuar como um forte catalisador para o pensamento crítico, quebrando
alinhamentos automáticos e forçando as pessoas a reavaliarem suas escolhas
políticas de forma mais decisiva.
O eleitorado brasileiro, enfim, se
tornou mais fluido, pragmático e propenso a punir ou recompensar governantes
com base na realidade percebida no dia a dia, naquilo que pode afetar
profundamente os seus interesses e não os das elites que ainda se julgam donas
do poder.
O eleitorado brasileiro decidiu
pela primeira vez refletir sobre a pirâmide social de que faz parte e sobre todos
os silenciamentos e cabrestos que ela tenta impor para a base que sustenta o
pequeno cume, ao longos desses pouco mais de 500 anos.
Haja vista as multidões progressistas
que têm ido às ruas nesse segundo turno eleitoral. Bradando em alto e bom som
sua não aceitação em perder direitos, em perder sua liberdade, em perder a sua
soberania, elas se apropriam de um espaço social que lhes pertence e havia, por
séculos, sido negado pelo topo da pirâmide. Elas fazem ecoar a sua voz, que
pareceu inexistente ou adormecida por força de tantas repressões e opressões
históricas.
Mas, não é só isso. A mobilização popular disseminada tanto nas
ruas quanto nas redes sociais é uma ferramenta legítima de contrapoder para
pressionar as instituições e sinalizar a sua insatisfação.
Portanto, ela representa uma
apropriação de poder, de cidadania, do próprio direito de voto que lhe é
constitucionalmente estabelecido. Deixando claro, portanto, que a participação
política não se esgota no ato de votar.
As manifestações servem como um
canal contínuo para que a sociedade civil expresse demandas, fiscalize os
governantes e pressione as instituições entre os períodos eleitorais,
fortalecendo a soberania popular.
Além disso, esse tipo de ação é
respaldado por direitos fundamentais garantidos pela Constituição Federal de
1988, como a liberdade de expressão, o direito de reunião e o direito de
petição, que abrem também espaço para que o poder popular se manifeste
formalmente por mecanismos de democracia direta e participativa, como os plebiscitos,
os referendos e os projetos de lei de iniciativa popular.
O que a história contemporânea está
revelando ao Brasil é, portanto, um tempo de mudanças paradigmáticas profundas.
O velho baú nacional está sendo revisitado e questionado a fim de que uma desconstrução
de antigas amarras coloniais e neocoloniais não se mantenham funcionais.
Não é sem razão, por exemplo, que
o questionamento de mitos fundacionais, como a ideia de uma democracia racial
ou a romantização do período colonial e dos bandeirantes, abriu espaço para o
protagonismo de populações historicamente marginalizadas, como indígenas e
negros.
Inclusive, vale ressaltar a
derrubada, alteração ou contestação de monumentos públicos que homenageavam
figuras ligadas à escravidão ou ao genocídio indígena, refletindo o desejo de
redefinir o que a nação escolhe celebrar em seu espaço público.
A implementação de políticas de
cotas, a demarcação de terras e a alteração de diretrizes educacionais, como as
leis que tornaram obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e
indígena, tentam romper com estruturas que perpetuavam a desigualdade. Enfim...
Tudo isso significa que o cidadão
brasileiro se redescobriu. E essa redescoberta afeta, também, o valor do seu
voto, o significado das suas escolhas e decisões cidadãs.
O questionamento de questões importantes
da sua historicidade, como o racismo estrutural, a concentração de renda e o
patrimonialismo, contribuem diretamente para evitar que formas disfarçadas de
subordinação continuem operando silenciosamente na sociedade.
Há, então, uma franca percepção
de que a passividade histórica dá lugar a uma postura mais ativa, em que a
população se reconhece como agente de mudança.
Por isso, o resgate do voto e da
participação política deixa de ser uma obrigação institucional, tornando-se uma
ferramenta de soberania e de transformação da realidade coletiva.
Razão pela qual o cidadão
contemporâneo precisa se manter cada vez mais atento ao impacto de suas
escolhas, entendendo que a democracia se constrói diariamente por meio do
debate, da fiscalização e do voto consciente.
Pela defesa da cidadania, da
democracia, da soberania nacional, não existe eu e você, existe apenas nós, o
coletivo nacional. O que acontece no país tem repercussões e reverberações sobre
seus cidadãos, independentemente, de gênero, raça, credo, escolaridade, status
social ou afinidade político-partidária.
Fenômenos como a inflação, a segurança pública, a qualidade da educação e a estabilidade democrática não escolhem esse (a) ou aquele (a), eles moldam a realidade cotidiana de todo o corpo social. Assim, a cidadania, a democracia e a soberania não são construções individuais, mas sim pactos coletivos onde as decisões políticas, econômicas e sociais de um país afetam a vida de todos, sem distinção.
