terça-feira, 13 de outubro de 2026

É preciso refletir sobre a consciência cidadã


É preciso refletir sobre a consciência cidadã

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Uma coisa está bem clara: a consciência cidadã brasileira não existe. Isso significa que o entendimento e a atitude dos indivíduos quanto ao reconhecimento do seu papel ativo na sociedade, compreendendo que suas ações individuais impactam o coletivo, é inexistente. E de onde vem essa percepção? Do simples fato de que, em pleno século XXI, milhões de brasileiros e brasileiras exercitam o seu voto baseado em pessoas e não em projetos de país, de desenvolvimento, de progresso.

Há um provérbio árabe que diz: "Quem não sabe para onde vai, qualquer caminho serve". Quando transportamos essa máxima para a análise da irresponsabilidade cidadã, da antidemocracia e da falta de consciência coletiva, encontramos uma profunda conexão com a fragmentação social e o esvaziamento da política.

Sem um norte ético ou ideológico, o cidadão aceita passivamente os caminhos que lhe são oferecidos pelo mercado ou pelo populismo político, esvaziando a sua responsabilidade cívica. O individualismo hiperbólico, no qual há uma radicalização da centralidade do indivíduo sobre o coletivo, onde os desejos, direitos e a autorrealização pessoal passam a ignorar quase completamente as obrigações sociais, os vínculos comunitários e o bem comum, destrói o tecido comunitário. Nesse sentido, o outro deixa de ser um parceiro de construção social e passa a ser apenas um concorrente.

No entanto, a democracia não se resume ao ato de votar. Ela exige um debate público racional e um horizonte de futuro partilhado. Quando uma sociedade sofre de uma desorientação crônica, potencializada pela desinformação e pela perda de confiança nas instituições, a ideia de que qualquer caminho serve abre espaço direto para soluções antidemocráticas. Havendo, então, uma forte tendência de certos segmentos da sociedade aceitarem discursos de teor autoritário ou messiânico. A falta de consciência histórica e política faz com que retrocessos democráticos sejam vistos falsamente como atalhos legítimos para a resolução de crises.

Só que não. Quando uma sociedade abre mão de debater e planejar democraticamente o seu amanhã, ela terceiriza o seu destino. O "não saber para onde ir" não é um estado de neutralidade ou liberdade; mas, um terreno fértil onde a manipulação política, o autoritarismo e a indiferença social prosperam, sufocando o espírito democrático. E o custo disso é alto e incomensurável; visto que, a ausência de um projeto de futuro compartilhado elimina a capacidade de cobrança da sociedade, transformando cidadãos ativos em meros passageiros passivos de seu próprio destino.

Basta pensar, por exemplo, que sem um horizonte coletivo que legitime os direitos como conquistas permanentes, eles passam a ser vistos como custos fiscais ou privilégios negociáveis. Assim, leis trabalhistas, previdenciárias e proteções sociais são progressivamente flexibilizadas sob a justificativa de crises de momento, sem que haja resistência coordenada. Posto que a sociedade perde a capacidade de reagir em bloco a retrocessos legislativos, pois cada grupo passa a defender apenas seus interesses imediatos e corporativistas.

Ou no caso de que sem pressão social e fiscalização ativa, o Estado reduz o investimento real em infraestrutura básica como saneamento, transporte, escolas. De modo que o acesso a serviços de qualidade passa a depender estritamente da capacidade de pagamento individual, segregando quem pode pagar dos que dependem de um sistema público sucateado.

Em linhas gerais, a passividade cidadã impede a exigência de reformas estruturais que ataquem as causas da desigualdade, perpetuando o ciclo da pobreza. Sem direitos consolidados, a sobrevivência dos mais pobres passa a depender de auxílios emergenciais que mudam ao sabor dos interesses eleitorais do governo de turno. As populações periféricas, minorias e grupos historicamente marginalizados perdem canais de representação institucional, ficando totalmente expostos a crises climáticas, violência urbana e insegurança alimentar.

Fato que se agrava em razão de que o debate econômico abandona planos de industrialização, transição ecológica ou geração de empregos qualificados, focando-se em subempregos e na informalidade. E os trabalhadores desorganizados e sem uma pauta comum perdem a capacidade de exigir salários dignos e valorização real de sua renda diante da inflação e das mudanças tecnológicas.

Portanto, o Estado e o mercado deixam de responder a uma agenda de desenvolvimento humano e passam a operar em um modo de gestão de danos, onde a base da pirâmide social não apenas para de avançar, mas é ativamente empurrada para a margem da sobrevivência.

Daí a necessidade de compreender que a escolha representativa político-partidária não pode se basear em simpatia ou quaisquer outras questões superficiais, como carisma, estética ou promessas vazias. Analisar planos de governo, histórico de atuação, coerência ideológica e a capacidade técnica de candidatos e partidos é o caminho mais seguro para garantir avanços consistentes e evitar retrocessos que podem levar anos para ser revertidos.

José Alberto Mujica Cordamo, ex-presidente do Uruguai entre 2010 e 2015, dizia “Pensávamos que era só chegar ao governo e construir uma sociedade mais justa. Descobrimos que isso é impossível. A verdadeira transformação política deve acontecer de baixo para cima, com a democracia”. Afinal, a governabilidade sem apoio e pressão ativa das bases populares tende a se transformar em mera administração do status quo.

Quando os governantes se isolam nos gabinetes e passam a negociar apenas com as elites políticas e econômicas tradicionais, o ímpeto de transformação social é substituído pela burocracia e pela manutenção do poder. O que significa que reside na participação popular o combustível que empurra as reformas estruturais e impede que a gestão pública se torne refém do pragmatismo fisiológico.