É preciso
refletir sobre a consciência cidadã
Por
Alessandra Leles Rocha
Uma coisa está bem clara: a consciência
cidadã brasileira não existe. Isso significa que o entendimento e a atitude dos
indivíduos quanto ao reconhecimento do seu papel ativo na sociedade,
compreendendo que suas ações individuais impactam o coletivo, é inexistente. E
de onde vem essa percepção? Do simples fato de que, em pleno século XXI, milhões
de brasileiros e brasileiras exercitam o seu voto baseado em pessoas e não em
projetos de país, de desenvolvimento, de progresso.
Há um provérbio árabe que diz: "Quem
não sabe para onde vai, qualquer caminho serve". Quando transportamos
essa máxima para a análise da irresponsabilidade cidadã, da antidemocracia e da
falta de consciência coletiva, encontramos uma profunda conexão com a
fragmentação social e o esvaziamento da política.
Sem um norte ético ou ideológico,
o cidadão aceita passivamente os caminhos que lhe são oferecidos pelo mercado
ou pelo populismo político, esvaziando a sua responsabilidade cívica. O
individualismo hiperbólico, no qual há uma radicalização da centralidade do
indivíduo sobre o coletivo, onde os desejos, direitos e a autorrealização
pessoal passam a ignorar quase completamente as obrigações sociais, os vínculos
comunitários e o bem comum, destrói o tecido comunitário. Nesse sentido, o
outro deixa de ser um parceiro de construção social e passa a ser apenas um
concorrente.
No entanto, a democracia não se
resume ao ato de votar. Ela exige um debate público racional e um horizonte de
futuro partilhado. Quando uma sociedade sofre de uma desorientação crônica, potencializada
pela desinformação e pela perda de confiança nas instituições, a ideia de que qualquer
caminho serve abre espaço direto para soluções antidemocráticas. Havendo,
então, uma forte tendência de certos segmentos da sociedade aceitarem discursos
de teor autoritário ou messiânico. A falta de consciência histórica e política
faz com que retrocessos democráticos sejam vistos falsamente como atalhos
legítimos para a resolução de crises.
Só que não. Quando uma sociedade
abre mão de debater e planejar democraticamente o seu amanhã, ela terceiriza o
seu destino. O "não saber para onde ir" não é um estado de
neutralidade ou liberdade; mas, um terreno fértil onde a manipulação política,
o autoritarismo e a indiferença social prosperam, sufocando o espírito
democrático. E o custo disso é alto e incomensurável; visto que, a ausência de
um projeto de futuro compartilhado elimina a capacidade de cobrança da
sociedade, transformando cidadãos ativos em meros passageiros passivos de seu
próprio destino.
Basta pensar, por exemplo, que sem
um horizonte coletivo que legitime os direitos como conquistas permanentes,
eles passam a ser vistos como custos fiscais ou privilégios negociáveis. Assim,
leis trabalhistas, previdenciárias e proteções sociais são progressivamente
flexibilizadas sob a justificativa de crises de momento, sem que haja
resistência coordenada. Posto que a sociedade perde a capacidade de reagir em
bloco a retrocessos legislativos, pois cada grupo passa a defender apenas seus
interesses imediatos e corporativistas.
Ou no caso de que sem pressão
social e fiscalização ativa, o Estado reduz o investimento real em
infraestrutura básica como saneamento, transporte, escolas. De modo que o
acesso a serviços de qualidade passa a depender estritamente da capacidade de
pagamento individual, segregando quem pode pagar dos que dependem de um sistema
público sucateado.
Em linhas gerais, a passividade
cidadã impede a exigência de reformas estruturais que ataquem as causas da
desigualdade, perpetuando o ciclo da pobreza. Sem direitos consolidados, a
sobrevivência dos mais pobres passa a depender de auxílios emergenciais que
mudam ao sabor dos interesses eleitorais do governo de turno. As populações
periféricas, minorias e grupos historicamente marginalizados perdem canais de
representação institucional, ficando totalmente expostos a crises climáticas,
violência urbana e insegurança alimentar.
Fato que se agrava em razão de
que o debate econômico abandona planos de industrialização, transição ecológica
ou geração de empregos qualificados, focando-se em subempregos e na
informalidade. E os trabalhadores desorganizados e sem uma pauta comum perdem a
capacidade de exigir salários dignos e valorização real de sua renda diante da
inflação e das mudanças tecnológicas.
Portanto, o Estado e o mercado
deixam de responder a uma agenda de desenvolvimento humano e passam a operar em
um modo de gestão de danos, onde a base da pirâmide social não apenas para de
avançar, mas é ativamente empurrada para a margem da sobrevivência.
Daí a necessidade de compreender
que a escolha representativa político-partidária não pode se basear em simpatia
ou quaisquer outras questões superficiais, como carisma, estética ou promessas
vazias. Analisar planos de governo, histórico de atuação, coerência ideológica
e a capacidade técnica de candidatos e partidos é o caminho mais seguro para
garantir avanços consistentes e evitar retrocessos que podem levar anos para
ser revertidos.
José Alberto Mujica Cordamo, ex-presidente
do Uruguai entre 2010 e 2015, dizia “Pensávamos que era só chegar ao governo
e construir uma sociedade mais justa. Descobrimos que isso é impossível. A
verdadeira transformação política deve acontecer de baixo para cima, com a
democracia”. Afinal, a governabilidade sem apoio e pressão ativa das bases
populares tende a se transformar em mera administração do status quo.
Quando os governantes se isolam nos gabinetes e passam a negociar apenas com as elites políticas e econômicas tradicionais, o ímpeto de transformação social é substituído pela burocracia e pela manutenção do poder. O que significa que reside na participação popular o combustível que empurra as reformas estruturais e impede que a gestão pública se torne refém do pragmatismo fisiológico.
