sábado, 7 de março de 2026

Lembre-se: “Pela maior parte da História, ‘anônimo’ foi uma mulher”. (Virginia Woolf)


Lembre-se: “Pela maior parte da História, ‘anônimo’ foi uma mulher”. (Virginia Woolf)

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

FORTE. GUERREIRA. DESTEMIDA. DETERMINADA. RESILIENTE. INTELIGENTE. SÁBIA. LÍDER. VISIONÁRIA. ASSERTIVA. CRIATIVA. INOVADORA. INSPIRADORA. DEDICADA. AMOROSA. TRABALHADORA. GENTIL. SOLIDÁRIA. CORAJOSA. COMPREENSIVA.  PODEROSA. INCRÍVEL. MARAVILHOSA. ENCANTADORA. EXTRAORDINÁRIA. FASCINANTE. MANDONA. PASSIONAL. FRÁGIL. INSEGURA. OUSADA. ...

Esses são apenas alguns adjetivos comumente atribuídos às mulheres. Acontece que cada uma dessas palavras representa, na verdade, um rótulo, um estereótipo, uma chancela, para a existência feminina no mundo. Como se subliminarmente fosse estabelecido que uma mulher para ser alguém, de fato e de direito, precisa desse tipo de legitimação social.

Veja, legitimar socialmente uma mulher significa o processo pelo qual determinados papéis, comportamentos ou direitos femininos tornam-se aceitáveis, naturais ou corretos aos olhos de uma comunidade. Daí o papel dos adjetivos. Eles atuam como um código de conduta que define quais comportamentos são aceitáveis ​​ou valorizados em determinados espaços.

Por isso, a linguagem não serve apenas para descrever a realidade. No fundo, o que ela faz é moldar o poder. A forma como adjetivamos as mulheres, então, está diretamente relacionada à deslegitimação feminina por meio da estereotipização.

Como se a linguagem instrumentalizasse o uso de padrões comunicativos para invalidar a autoridade, o intelecto ou o protagonismo das mulheres, reforçando as posições de poder que elas deveriam ocupar.

Haja vista, por exemplo, quando uma fala feminina é rotulada como emocional, ​​ou excessiva, o que se tem é um processo de silenciamento estrutural que exclui as mulheres de espaços de decisão, poder e saber.

Essa estereotipização linguística naturaliza a ideia de submissão e inferioridade, como um carimbo que ignora as especificidades individuais para manter o grupo feminino em uma posição subordinada.

Além disso, a desvalorização da forma como as mulheres se expressam é uma forma de violência moral e psicológica. Capaz de criar barreiras no mercado de trabalho e na liderança social, pois a fala feminina é pré-julgada antes mesmo de seu conteúdo ser avaliado.

Por isso, é tão necessário compreender que os adjetivos usados ​​historicamente para descrever as mulheres raramente são neutros. A verdade é que eles funcionam como ferramentas de controle social e manutenção de posições de gênero.

Às vezes, servindo para manter o status quo, onde o homem detém o monopólio da razão e da objetividade. Outras, reduzindo a mulher à sua função biológica ou estética para o prazer alheio, facilitando a desumanização e a violência a partir da sua objetificação e/ou sexualização.

Mas, o objetivo final é sempre o mesmo, ou seja, definir quem pertence ao centro da sociedade e quem deve permanecer na periferia, na marginalização.

E pensando sobre isso, não pude deixar de resgatar o fato de que a literatura mundial, por exemplo, durante séculos de hegemonia masculina, utilizou adjetivos não apenas para descrever as mulheres, mas para delimitar seus papéis sociais e controlar sua subjetividade.

Que tal relembrar Anna Karenina de Liev Tolstói, Capitu de Machado de Assis ou Madame Bovary de Gustave Flaubert? Elas nos permitem visualizar o modo como a escrita masculina frequentemente oscilou entre dois extremos para simplificar a complexidade feminina, ou seja, a recatada ou a devassa.

Em outros clássicos, como Helena de Troia na Ilíada de Homero, Penélope na Odisseia de Homero, Dulcinéia del Toboso em Dom Quixote de Miguel de Cervantes, a mulher é tratada como um objeto de troca ou um troféu de status para o homem.

A adjetivação, nesses casos, foca no que ela provoca no observador masculino, e não no que ela sente ou pensa. Nesse sentido, ao rotular a mulher como desprovida de lógica, a literatura masculina legitima a manutenção feminina sob a tutela masculina.

De modo que foi graças à ascensão da escrita literária feminina, com Virginia Woolf e Elaine Showalter, por exemplo, é que esses adjetivos passaram a ser vistos como ferramentas de construção de gênero, e não biológicos.

Esse salto crítico e reflexivo permitiu que a literatura contemporânea, escrita por mulheres, não somente buscasse re-adjetivar a experiência feminina, como deslocasse a mulher da posição de objeto, como era descrita pelo olhar masculino, para a posição de sujeito da sua própria história.

Assim, a escrita feminina rompe isso ao apresentar mulheres complexas, contraditórias e reais. Ao assumirem o protagonismo literário, essas mulheres trazem a experiência do corpo, do gênero e da classe para moldar a narrativa.

Desse modo, temas antes silenciados ou negligenciados pelos homens, tais como o trabalho doméstico, a maternidade real, o prazer feminino e a violência de gênero, ganham status de literatura séria, forçando uma revisão do que é considerado universal na arte.

Seja no Brasil ou no mundo, então, o papel revolucionário das mulheres na literatura é que tem impulsionado todo o processo de desconstrução dos impactos nefastos oriundos da linguagem, oferecendo novas perspectivas essenciais à compreensão humana e da sociedade.

Elas têm utilizado a escrita, cada vez mais, para combater preconceitos e subalternidades, criando espaços de resistência. Diferentemente das fases anteriores, a literatura contemporânea tem buscado focar na expressão da experiência genuína de ser mulher, sem se preocupar com o crivo masculino.

A literatura de autoria feminina, portanto, não apenas tem relatado, mas moldado a identidade da mulher no cenário contemporâneo, a partir do desafio aos discursos antigos e da ampliação dos horizontes socioculturais mundo afora.