quarta-feira, 1 de julho de 2020

Osesp: nota de agradecimento

A Sala São Paulo, a Osesp e seus corpos artísticos completaram, na última semana, 90 dias sem atividades presenciais. Desde o dia 16 de março, a Fundação Osesp tem buscado soluções para estar próximo ao seu público e produzido conteúdo em suas mídias digitais.

Até o dia 15 de junho, foram publicados 444 posts nas mídias sociais da Osesp e da Sala São Paulo e o público teve acesso a 67 vídeos, entre peças tocadas e cantadas de casa, pelos músicos da Orquestra e do Coro e gravações de concertos do acervo da Osesp.

Juntos, os canais do YouTube da Osesp e da Sala São Paulo chegaram a 216.192 usuários únicos assistindo aos vídeos. Já no Facebook, as publicações tiveram alcance de 3.095.178, e no Instagram, o número foi 1.322.063. Ainda, no Twitter, as publicações foram visualizadas mais de 600 mil vezes.

Destaque para o vídeo de “O Trenzinho do Caipira”, de Villa-Lobos. Dedicado a todos os profissionais na linha de frente do combate à Covid-19, em pouco mais de um mês de publicação, o vídeo já passou as 100 mil visualizações (somando YouTube e Facebook): https://bit.ly/osesp-trenzinho.

Para informações mais detalhadas e nossos agradecimentos ao público, basta acessar: https://bit.ly/90-dias-osesp.

Fonte: Fabiana Ghantous /Carolina Aidinis - Imprensa Imprensa@osesp.art.br

Seja...

Seja...




Por Alessandra Leles Rocha




Entre o constrangimento e a reflexão, eu convido a todos para seguir na segunda opção. Refletir consegue ir muito mais fundo nas subjetividades humanas e, quem sabe, ressignificar velhos pensamentos, velhos hábitos, velhos modos.
Não é de hoje que a hipervalorização do TER em detrimento do SER nos desloca a tal ponto da posição verdadeira que deveríamos ocupar; que, de repente, não SOMOS apenas ESTAMOS.
Que digam nossas reminiscências coloniais; de tão profundas, nos impedem de reconhecer a nossa própria identidade, como se precisássemos de artifícios mil, para existir em pé de igualdade com os demais no mundo.
Títulos. Posses. Homenagens. Círculos sociais requintados. Pompa e circunstância. Enfim... Como se valesse tudo a pena para pertencer, para ser aceito, para desfrutar de uma pseudo visibilidade no High Society. Uma verdadeira ode à casca ao contrário do fruto; uma apologia ao “vale quanto pesa”.
Imagino que todos já tenham se dado conta de que viver não é uma tarefa fácil.  Para início de conversa, nascemos nus, desdentados, sem linguagem definida, dependentes de tudo e de todos. E é assim que vamos, lentamente, caindo e levantando para aprender o ofício de viver; mas, sobretudo, de existir.
Nessa jornada sempre iniciada e nunca finda há de se aprender. Seja na escola da vida ou na escola propriamente dita, a construção quantitativa e qualitativa do conhecimento é inevitável. Porque viver não cobra boletins e estrelinhas de mérito; mas, cobra o saber. Saber pensar. Saber responder. Saber fazer. Saber se comportar. Saber em todas as formas e sentidos.
Ontem, mudando aleatoriamente de canal na TV, me deparei com o filme “Tempos de Paz” (2009) 1, já quase no fim. Mesmo assim, parei para assistir o diálogo envolvente e dramático entre as personagens Clausewitz (Dan Stulbach) e Segismundo (Tony Ramos). Quando, de repente, Clausewitz num rompante se manifesta, “[...] Olha, eu sei que o Brasil precisa de braços para a agricultura, mas eu sou ator. Esta é a minha profissão. Eu ainda não sei para que serve o Teatro no mundo depois da Guerra. Só sei que eu tenho que continuar a fazer o que sei fazer. Um dia alguém vai saber para que serve. Se serve. Para mim basta fazer. Fazer teatro”.
Essa fala da personagem diz muito sobre essa reflexão, sobre se manter fiel à própria identidade. Ainda que a Pós-Modernidade venha nos conduzindo a assumir diferentes posições de sujeito e, por consequência, diferentes identidades; sempre chega o momento em que se faz necessário assumir aquela que de fato nos representa. Aquela que nos traduz diante e além do espelho; bem como, para o mundo. Sem retoques. Sem estereótipos. A nossa identidade que estava conosco quando ainda não tínhamos nada além da própria subjetividade intrínseca a cada milímetro de pele.  
Eu sei que Clarice Lispector escreveu, “Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro”. Mas, também sei que muitos deles nem são defeitos genuínos; são, adornos dessas identidades muitas que se assume por aí. Por isso, aqui e ali cada um vai se “sustentando” como pode, muitas vezes, preso por grilhões invisivelmente materializados pelo inquisidor senso comum da sociedade pós-moderna. Rendidos às vigilâncias e controles que nos escapam as forças de rechaçá-los com a devida veemência.
Agora, durante a Pandemia, muitas pessoas têm buscado resgatar a identidade na sua essência e vivê-la de uma maneira plena, sem amarras impostas pela estrutura coletiva em que vivemos. Porque, como mesmo afirmou Nelson Rodrigues, na peça “Toda Nudez será Castigada” (1965) 2, a sociedade vive permeada de conservadorismos e hipocrisias que de tanto, nos asfixiam e podem até matar.
Esse é o momento, então, do desapego, da ruptura, do desnudar-se das alegorias e adereços e, simplesmente, ser. Assumir-se com todos os defeitos e qualidades que qualquer ser humano traz no pacote. Com todas as imperfeições éticas e morais. Com todas as carências e frustrações. Com todo o gigantismo e pequenismo que habita a alma. Só assim, quem sabe, “toda nudez possa ser perdoada”.


1 Tempos de Paz (2009). Baseado na premiada peça teatral “Novas Diretrizes em Tempos de Paz”, de Bosco Brasil. http://biblioteca.ifc.edu.br/wp-content/uploads/sites/9/2017/06/Tempos-de-paz.pdf
2 Rodrigues, N. Toda Nudez será Castigada. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2012. 128p.

segunda-feira, 1 de junho de 2020

#COVID-19_Reflexões

Um sujeito desconhecido




Por Alessandra Leles Rocha




Com extrema objetividade já é possível considerar 2020 como um ano de ruptura dentro da Pós-Modernidade. Todas as divisões e antagonismos sociais, as quais faziam emergir diversas posições de sujeito para os indivíduos, a partir de agora sofrerão um realinhamento profundo ditado pela existência de um inimigo invisível que transita pelo ar. Um vírus veio dizer como quando e por que se deve agir ou fazer.
Por enquanto, a paralisia imposta pelos acontecimentos ressoa seu silêncio inquietante. A realidade ainda não pode ser metodologicamente teorizada, pois os desdobramentos estão em curso, como uma avalanche que corre sobre montanhas e desfiladeiros diversos.
Aliás, disso já se percebe a fragilização iminente das fronteiras reais e imaginárias. O chamado “realizar sem limites”, segundo a própria vontade e exercício da liberdade, provou-se impossível diante das conjunturas. Uma sombra que clama a segurança se faz cada vez mais real e intransigente, talvez, movida pelo próprio instinto de sobrevivência intrínseco a condição humana que “decidiu” acordar.
Viver e morrer sempre foram os dois lados de uma mesma moeda; mas, brincar de lançá-la aos céus pode, agora, trazer o fatal para uma condição muito mais real. De modo que o individualismo se esgarça diante da morte batendo à porta. A solidão por escolha perdeu seu espaço para o isolamento social forçado, trazendo à tona a obrigação de conviverem e coexistirem as individualidades dentro de um mesmo espaço.
De repente, a necessidade de sustentar as inúmeras identidades cotidianas se sublima em único propósito existencial: ser. Redescobrir-se a si mesmo, para ser capaz de sobreviver às adversidades do momento. O jogo está sendo zerado. Há uma desconstrução da realidade em curso. Não faz sentido algum se apegar as antigas alegorias e adereços para desembarcar no novo e plenamente desconhecido.
Por isso o fundamental é ser, como uma argila pronta para modelagem. Nesse sentido, os espaços para revelar as emoções, os sentimentos, os valores, os princípios estão abertos para dar sustentação ao movimento metamórfico vigente. Somente lidando com a realidade interior, a qual sustenta cada indivíduo, é que as pessoas poderão se desapegar de todas as pseudo conquistas e triunfos, das frustrações, das futilidades, dos medos e da ansiedade.  
Depois de um vírus desconhecido aparecerá um sujeito desconhecido. Um sujeito oriundo da necessidade, não mais da escolha. Um sujeito inteiro e consciente, mas não completo. Um sujeito sem expectativas, mas esperançoso. Um sujeito que terá diante de si o esforço de construir novas bases para o mundo, tanto individuais quanto coletivas.
Aliás, nesse contexto a globalização tende a se projetar em uma perspectiva muito menos competitiva e mercantil. Na medida em que o impacto da Pandemia propagou-se em ondas pelo mundo, afetando a todos com severidade, o reiniciar implicará em uma disposição coletiva de organização social cooperativa. Diante de recursos escassos, para que a logística desse processo seja operacionalizada, tudo dependerá de diálogo e senso comum para evoluir.
De certo modo, a Pandemia trouxe mais visibilidade a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável 1, proposta pela Organização das Nações Unidas (ONU). As demandas que se impuseram determinantes nessa cruzada contra o COVID-19 estão diretamente relacionadas aos 17 objetivos de desenvolvimento presentes nessa agenda, os quais têm até aqui se apresentado aquém do esperado.
Até o momento o mundo computa aproximadamente 4,6 milhões de casos e 313 mil mortes pelo COVID-19. Isso significa que a partir desses números ele já conseguiu expor a pobreza em todas as suas formas, a fome e o desequilíbrio alimentar, a insalubridade no contexto da escassez de água e saneamento básico, os desafios educacionais, a violência doméstica, o custo energético, as desigualdades econômicas, o consumo insustentável, as mudanças climáticas e a necessidade de implementação das parcerias globais para o desenvolvimento sustentável.   
A Terra não parou; enquanto seu casulo de metamorfose é fiado, tal aparência estática apenas esconde uma transformação em ebulição. Por isso, cabe a cada cidadão refletir conscientemente sobre o que acontece dentro e fora de seus muros. Há uma crise global em curso, de dimensões tão surreais, que impede qualquer um de se ater aos limites do próprio umbigo.  Uma crise que se desdobra em diferentes formas e contextos, reordenando as importâncias e prioridades enquanto desconstrói os privilégios e pretensões. O mundo não está simplesmente trocando de pele, de imagem, de identidade; mas, de sentido, de significância e de valor.