quarta-feira, 18 de março de 2026

O petróleo ... Sempre o petróleo


O petróleo ... Sempre o petróleo

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Segundo o dito popular, “Recordar é viver”! Então, mãos à obra.

A relação entre a humanidade e o petróleo se inicia entre a segunda metade do século XIX e o início do século XX, com a Segunda Revolução Industrial. A princípio o papel dele era produzir querosene em substituição ao óleo de baleia e o carvão para iluminação. Somente a partir da invenção do motor a combustão interna e o desenvolvimento da indústria automobilística é que o petróleo passou a ser refinado para obter gasolina e diesel, tornando-se a principal fonte de energia para transportes.

Então, a partir do século XX, especialmente após a Segunda Guerra Mundial, o petróleo se tornou a principal fonte de energia e matéria-prima do mundo. O que significa que a economia mundial passa a ser refém do preço do barril de petróleo. Por consequência, a cada alta dos preços dos barris há um arrepio global pelo risco do descontrole da inflação; posto que, aumentam o custo de produção e transporte de quase tudo. Além disso, a disputa pelo controle das reservas de petróleo molda os humores da geopolítica do planeta.

Aí, na década de 1970, o mundo assiste estarrecido à grande crise do petróleo. Na verdade, dois grandes eventos, um em 1973 e outro em 1979, colocaram fim à era de crescimento acelerado do pós-guerra no Ocidente.

Em outubro de 1973, Egito e Síria atacaram Israel, fato que levou os países árabes membros da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) a impor um embargo de petróleo aos EUA, Holanda e outros aliados de Israel. Tal atitude da OPEP afetou drástica e intencionalmente a produção, resultando em escassez global e quadruplicando o preço do barril, naquela ocasião.

Depois, em 1979, com a derrubada do Xá Reza Pahlevi e a ascensão do aiatolá Khomeini, no Irã, um dos maiores produtores globais de petróleo, houve pânico no mercado e uma nova paralisação na produção. Mas, não bastasse isso, em 1980, a guerra entre o Irã e o Iraque manteve a oferta baixa e os preços altos durante o início daquela década.

De modo que foi dessa maneira que o planeta descobriu a face difícil do petróleo. A combinação inédita de alta inflação, devido ao aumento de preços, e a estagnação econômica com recessão e desemprego, atingiu os países. Tudo muito bem acompanhado por longas filas em postos de combustível, devido ao racionamento e ao aumento vertiginoso do preço da gasolina.

Era o ponto de mutação para a indústria automobilística, com o fim da era dos carros grandes e gastadores, produzidos pelos americanos. A indústria passou a fabricar carros menores, mais leves e econômicos, popularizando os motores de 4 cilindros.

Mas, certamente, o grande impacto decorrente dessa grande crise foi a busca por alternativas energéticas. Sim, diante da fragilidade exposta pela dependência de uma única fonte, houve um grande incentivo ao uso de energia nuclear, hidrelétrica e pesquisas em fontes renováveis como a solar e a eólica.

Fato que, no Brasil, resultou no surgimento do Programa Nacional do Álcool (Proálcool), em 1975, incentivando carros movidos a etanol para reduzir a dependência da gasolina. Sobretudo, porque os países em desenvolvimento, no qual se enquadra o Brasil, viram sua dívida externa disparar. Afinal, eles pagaram mais caro pelo petróleo e o capital ficou mais caro internacionalmente, gerando uma década perdida, marcada pela estagnação econômica, a hiperinflação e a crise da dívida externa.

Contudo, o mundo parece não ter aprendido com a história. A recente escalada militar entre EUA e Israel contra o Irã, com bombardeios e ameaças de bloqueio no Estreito de Ormuz pelos iranianos, considerando que esse é o local por onde passa 20% do petróleo mundial, está gerando uma nova crise energética severa. A disparada nos preços dos barris já está em curso. A alta no petróleo ameaça frear a economia mundial, com forte pressão inflacionária nos EUA e outros países, incluindo o Brasil.

O choque no preço da energia encarece os combustíveis, o transporte e os produtos fabricados. Isso pressiona, então, os bancos centrais a manterem as taxas de juros elevadas por mais tempo para fortalecer a inflação, prejudicando o crescimento econômico e aumentando o risco de estagflação, ou seja, estagnação econômica, com baixo ou nulo crescimento do PIB e alto desemprego, com inflação elevada.

Sem contar que a instabilidade geopolítica gera uma fuga de recursos de mercados emergentes para ativos seguros. Então, no Brasil, ocorre a valorização do dólar, encarecendo importações e repassando o aumento do petróleo para o preço final dos combustíveis na bomba. Além disso, apesar de o Brasil ser exportador líquido de petróleo, o impacto negativo é sentido nos custos da cadeia produtiva a partir do frete, dos insumos, dos fertilizantes.

Portanto, qualquer crise relativa ao petróleo é uma crise global. O mundo sofre as consequências. O que significa que vivemos em uma sociedade de risco. A economia mundial é um sistema integrado e, diante do fato de que o petróleo é a base da matriz energética e do transporte, uma crise na sua oferta não é um evento isolado, mas um efeito dominó que afeta desde o preço da comida até a estabilidade política de nações distantes.

Sim, vivemos em uma era onde os riscos econômicos, ambientais e energéticos não respeitam fronteiras. Uma decisão ou conflito em um ponto do globo gera consequências inevitáveis ​​e incontroláveis ​​para todos, evidenciando a dimensão dos impactos sobre as instituições nacionais frente aos fluxos globais.

Por isso, é preciso equilíbrio e discernimento para transpor qualquer crise relativa ao petróleo. Em momentos de instabilidade no setor petrolífero, o equilíbrio emocional e técnico é o que separa uma gestão de danos eficiente de um desequilíbrio generalizado. É dessa forma que o discernimento entra para filtrar o que é oscilação real de mercado do que é meramente especulação financeira ou alarmismo midiático. Veja, sem essa clareza, o pânico se torna um combustível muito mais perigoso do que a própria falta de óleo, gerando corridas aos postos, inflação preventiva e paralisia econômica.

Daí a importância fundamental da comunicação transparente e proativa pelas autoridades para conter especulações e o pânico socioeconômico durante crises no setor de petróleo. A transparência não significa esconder ou minimizar a realidade, mas sim mostrar que as autoridades estão agindo com fatos, competência e planejamento para proteger o consumidor final. Não se pode esquecer de que a confiança do cidadão é o ativo mais importante em qualquer crise.