sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

O SILENCIAMENTO NA EDUCAÇÃO


O SILENCIAMENTO NA EDUCAÇÃO

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

No século XX, Darcy Ribeiro, antropólogo, educador, escritor e político brasileiro, já dizia que “A crise da educação no Brasil não é uma crise; é um projeto”. De modo que pensar a partir da perspectiva da fragilização e do sucateamento do ensino, em suas mais diversas formas e conteúdos, não consegue trazer a inteireza ou completude dessa crise.

A verdadeira base desse gigantesco iceberg é o silenciamento da educação. Isso significa que, na realidade contemporânea, está se firmando uma práxis na qual há uma imposição estrutural e ativa de silêncio sobre determinados assuntos ou saberes, funciona como um mecanismo de poder que marginaliza vozes dissidentes, grupos oprimidos e professores, perpetuando desigualdades sociais e raciais.

Como se estivesse em curso uma pedagogia do silenciamento, que é capaz de transformar o ambiente educativo em um espaço antidemocrático de reprodução de discursos dominantes, limitando o diálogo e a participação crítica, que é ocultada por modelos supostamente disciplinadores ou de ordenamento. Assim, o silenciamento passa a atuar como uma ferramenta de manutenção do status quo social, convertendo a escola ou instituição de ensino em um aparelho ideológico que atende aos interesses de grupos dominantes.

Isso significa preparar os indivíduos para a liberdade passiva de ordens, essencial para a estrutura de partidos ou regimes que exigem obediência sem questionamento. Condição que garante à base da pirâmide social permanecer em sua posição, não interferindo ou obstaculizando os interesses político-partidários que lucram com a sociedade de castas. Politicamente, isso transforma o cidadão em um espectador passivo, vulnerável à manipulação e ao populismo, já que sua voz foi suprimida pelo sistema educacional.

Mas, não para por aí. Dentro dessa dinâmica há inúmeras vozes em defesa do silenciamento curricular para apagar memórias históricas ou conflitos sociais, criando uma narrativa oficial que favorece sua permanência no poder e neutraliza a oposição antes mesmo que ela aprenda a se expressar. Portanto, o silenciamento educacional funciona como um importante mecanismo de poder, na medida em que oculta narrativas de grupos subalternizados, tais como os negros, os indígenas, as mulheres, os LGBTQIA+, resultando no apagamento histórico-social.

Além disso, o silenciamento educacional trabalha ativamente para a desconstrução da identidade nacional. Sim, ao buscar uma identidade única, ele acaba por desconstruir as identidades reais e múltiplas dos cidadãos, gerando um distanciamento entre o que é ensinado e a realidade experenciada cotidianamente.

Há, portanto, um impedindo para que se desenvolva uma consciência crítica necessária ao reconhecimento da própria cidadania, a partir da consciência identitária que permite a cada indivíduo se reconhecer plenamente como parte integrante da nação. Daí a necessidade de compreender que o silenciamento não é apenas uma falta de fala, mas uma presença ativa de exclusão que molda o que deve ser lembrado e o que deve ser esquecido na construção do ser nacional.

Até que, de repente, todas essas engrenagens alcançam a subjetividade do próprio conhecimento. O silenciamento educacional, com toda a sua supressão do pensamento crítico e da liberdade de cátedra, vem sendo limitado severamente no que diz respeito à sua produção científica. É, os resultados vêm mostrando uma menor geração de tecnologias, inovações e autonomia econômica, nos países em que o silenciamento educacional se tornou política pública.

A falta de estímulo ao pensamento autônomo e o medo de retaliação geram queda na produção de conhecimento, evidenciado por quedas no volume de publicações acadêmicas. De modo que isso perpetua as desigualdades, inclusive geopolíticas, pois limita a diversidade de perspectivas na pesquisa e dificulta a inclusão social através do conhecimento, reduzindo o potencial transformador da ciência.

Haja vista que menos pesquisadores formados e incentivados resultam em um atraso na geração de soluções tecnológicas e inovações cruciais para o desenvolvimento do próprio país. O silenciamento educacional e científico, portanto, não afeta apenas a produção de dados, mas limita a capacidade da sociedade de se autoanalisar, inovar e se desenvolver de forma equitativa.

Em linhas gerais, então, o silenciamento educacional é o instrumento contemporâneo de manutenção da hegemonia de grupos dominantes. Contudo, não se pode esquecer de que o que não é dito ensina tanto quanto o que é dito. Ao silenciar diferenças comunicadas aos estudantes, se estabelece uma visão distorcida e equivocada de que certas existências são anormais ou irrelevantes, impedindo o desenvolvimento da alteridade. Desse modo, em vez de preparar os indivíduos para um mundo aberto e plural, o silenciamento busca homogeneizar o olhar e o pensamento.

O silenciamento não é uma falha do sistema educacional, mas uma estratégia política para garantir que o mundo permaneça fechado às transformações sociais que uma educação diversificada poderia gerar. Portanto, ele é parte da involução social contemporânea, que favorece a reprodução da ordem estabelecida em vez da transformação, a ausência da qualidade ou do desenvolvimento humano da sociedade, e a geração de um retrocesso na capacidade coletiva de resolver crises.

Como escreveu Paulo Freire, educador e filósofo brasileiro, “Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção”. De modo que, “Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda”. Afinal, “A palavra viva é diálogo existencial. Expressa e elabora o mundo, em comunicação e colaboração. O diálogo autêntico – reconhecimento do outro e reconhecimento de si, no outro – é decisão e compromisso de colaborar na construção do mundo comum. Não há consciências vazias; por isto os homens não se humanizam, senão humanizando o mundo”.