O SILENCIAMENTO
NA EDUCAÇÃO
Por
Alessandra Leles Rocha
No século XX, Darcy Ribeiro, antropólogo,
educador, escritor e político brasileiro, já dizia que “A crise da educação
no Brasil não é uma crise; é um projeto”. De modo que pensar a partir da
perspectiva da fragilização e do sucateamento do ensino, em suas mais diversas
formas e conteúdos, não consegue trazer a inteireza ou completude dessa crise.
A verdadeira base desse gigantesco
iceberg é o silenciamento da educação. Isso significa que, na realidade contemporânea,
está se firmando uma práxis na qual há uma imposição estrutural e ativa de
silêncio sobre determinados assuntos ou saberes, funciona como um mecanismo de
poder que marginaliza vozes dissidentes, grupos oprimidos e professores,
perpetuando desigualdades sociais e raciais.
Como se estivesse em curso uma pedagogia
do silenciamento, que é capaz de transformar o ambiente educativo em um espaço
antidemocrático de reprodução de discursos dominantes, limitando o diálogo e a
participação crítica, que é ocultada por modelos supostamente disciplinadores
ou de ordenamento. Assim, o silenciamento passa a atuar como uma ferramenta de
manutenção do status quo social, convertendo a escola ou instituição de ensino em
um aparelho ideológico que atende aos interesses de grupos dominantes.
Isso significa preparar os
indivíduos para a liberdade passiva de ordens, essencial para a estrutura de
partidos ou regimes que exigem obediência sem questionamento. Condição que garante
à base da pirâmide social permanecer em sua posição, não interferindo ou
obstaculizando os interesses político-partidários que lucram com a sociedade de
castas. Politicamente, isso transforma o cidadão em um espectador passivo,
vulnerável à manipulação e ao populismo, já que sua voz foi suprimida pelo
sistema educacional.
Mas, não para por aí. Dentro
dessa dinâmica há inúmeras vozes em defesa do silenciamento curricular para
apagar memórias históricas ou conflitos sociais, criando uma narrativa oficial
que favorece sua permanência no poder e neutraliza a oposição antes mesmo que
ela aprenda a se expressar. Portanto, o silenciamento educacional funciona como
um importante mecanismo de poder, na medida em que oculta narrativas de grupos
subalternizados, tais como os negros, os indígenas, as mulheres, os LGBTQIA+,
resultando no apagamento histórico-social.
Além disso, o silenciamento
educacional trabalha ativamente para a desconstrução da identidade nacional. Sim,
ao buscar uma identidade única, ele acaba por desconstruir as identidades reais
e múltiplas dos cidadãos, gerando um distanciamento entre o que é ensinado e a
realidade experenciada cotidianamente.
Há, portanto, um impedindo para que
se desenvolva uma consciência crítica necessária ao reconhecimento da própria cidadania,
a partir da consciência identitária que permite a cada indivíduo se reconhecer
plenamente como parte integrante da nação. Daí a necessidade de compreender que
o silenciamento não é apenas uma falta de fala, mas uma presença ativa de
exclusão que molda o que deve ser lembrado e o que deve ser esquecido na
construção do ser nacional.
Até que, de repente, todas essas
engrenagens alcançam a subjetividade do próprio conhecimento. O silenciamento
educacional, com toda a sua supressão do pensamento crítico e da liberdade de
cátedra, vem sendo limitado severamente no que diz respeito à sua produção
científica. É, os resultados vêm mostrando uma menor geração de tecnologias,
inovações e autonomia econômica, nos países em que o silenciamento educacional
se tornou política pública.
A falta de estímulo ao pensamento
autônomo e o medo de retaliação geram queda na produção de conhecimento,
evidenciado por quedas no volume de publicações acadêmicas. De modo que isso
perpetua as desigualdades, inclusive geopolíticas, pois limita a diversidade de
perspectivas na pesquisa e dificulta a inclusão social através do conhecimento,
reduzindo o potencial transformador da ciência.
Haja vista que menos
pesquisadores formados e incentivados resultam em um atraso na geração de
soluções tecnológicas e inovações cruciais para o desenvolvimento do próprio
país. O silenciamento educacional e científico, portanto, não afeta apenas a
produção de dados, mas limita a capacidade da sociedade de se autoanalisar,
inovar e se desenvolver de forma equitativa.
Em linhas gerais, então, o
silenciamento educacional é o instrumento contemporâneo de manutenção da
hegemonia de grupos dominantes. Contudo, não se pode esquecer de que o que não
é dito ensina tanto quanto o que é dito. Ao silenciar diferenças comunicadas
aos estudantes, se estabelece uma visão distorcida e equivocada de que certas
existências são anormais ou irrelevantes, impedindo o desenvolvimento da
alteridade. Desse modo, em vez de preparar os indivíduos para um mundo aberto e
plural, o silenciamento busca homogeneizar o olhar e o pensamento.
O silenciamento não é uma falha
do sistema educacional, mas uma estratégia política para garantir que o mundo
permaneça fechado às transformações sociais que uma educação diversificada
poderia gerar. Portanto, ele é parte da involução social contemporânea, que
favorece a reprodução da ordem estabelecida em vez da transformação, a ausência
da qualidade ou do desenvolvimento humano da sociedade, e a geração de um
retrocesso na capacidade coletiva de resolver crises.
Como escreveu Paulo Freire, educador e filósofo brasileiro, “Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção”. De modo que, “Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda”. Afinal, “A palavra viva é diálogo existencial. Expressa e elabora o mundo, em comunicação e colaboração. O diálogo autêntico – reconhecimento do outro e reconhecimento de si, no outro – é decisão e compromisso de colaborar na construção do mundo comum. Não há consciências vazias; por isto os homens não se humanizam, senão humanizando o mundo”.
